O presente trabalho visa explorar a pluralidade de sentidos contidos no livro



Baixar 213.2 Kb.
Página1/2
Encontro20.12.2018
Tamanho213.2 Kb.
  1   2


INTRODUÇÃO

O presente trabalho visa explorar a pluralidade de sentidos contidos no livro Horto da poetisa norte-rio-grandense Auta de Souza.

Na sua única obra encontramos dois significados diferentes para título: Horto era nome dado ao lugar onde eram realizadas as crucificações na época em que Cristo viveu – nesse caso, o termo denota dor, sofrimento e morte. Mas esta mesma palavra também pode denominar um terreno onde se cultiva plantas ornamentais e frutíferas, como um jardim. Agora o Horto assume um sentido totalmente diferente do primeiro, sugerindo o ideal de felicidade, paz, tranqüilidade, vida e reprodução.

Analisando a obra de Auta de Souza e sua relação com o título escolhido para ela, observamos como a dualidade aparece tão fortemente em seus escritos. Não só ao compararmos diferentes poemas contidos no livro, mas até dentro de um mesmo poema o eu lírico se manifesta em diferentes estados, ora de tristeza e desespero, ora de alegria e esperança; ora retratando sofrimentos com extrema profundidade, ora relatando a vida como providência divina.

Para compreender as dualidades contidas nessa obra é imprescindível correlacioná-la à vida da autora, marcada por inúmeras fatalidades, mas abençoada por inabalável fé. Relataremos aqui os fatos mais relevantes que se sabe sobre a curta vida de Auta de Souza, contextualizando sua história ao espaço e à época em que viveu. Conheceremos os prazeres e desprazeres de sua existência como um ponto de partida para entendermos seus poemas, mostrando como sua visão de mundo – sofrida, mas ainda assim amante da vida – manifesta-se em seus textos.

Abordaremos também o caráter fortemente espiritualista de seus poemas, o que tem justificado, por parte de alguns leitores religiosos, o argumento de que Auta seria uma das primeiras escritoras espíritas no Brasil.

Adentraremos no universo particular de Auta de Souza para entendermos a fundo sua produção artística e compreenderemos a enorme relevância que teve essa autora potiguar para a literatura nacional e para o processo de emancipação feminina no Brasil.

Mostraremos brevemente a estética do Romantismo e do Simbolismo, correntes literárias nas quais muitos pesquisadores inserem Auta; porém, adiantamos que caracterizar Auta de Souza entre o Simbolismo e o Romantismo tem se revelado uma opção mais razoável do que tentar restringi-la a um ou outro. Há, inclusive, teóricos que alegam ser vã a tentativa de enquadrar Auta de Souza em qualquer estética literária, tendo em vista a liberdade de sua forma poética.

Sendo de reconhecida importância para a literatura brasileira, Auta de Souza foi pesquisada por grandes pesquisadores. Desde a sua morte, a poeta potiguar simbolizou um ideal de mulher, um ideal de poesia.

Há uma vasta lista de estudos e artigos que foram escritos sobre Auta de Souza. Dentre os pesquisadores da autora temos Alfredo Bosi, que em seu livro “História Concisa da Literatura Brasileira”, afirma que Auta teve grande participação para difusão do Simbolismo no Rio Grande do Norte. José Rodrigues de Carvalho publicou um artigo sobre Auta de Souza na revista da Academia Cearense de Letras em 1900; seu irmão, Henrique Castriciano, escreveu uma nota para a segunda edição do Horto; temos também o artigo de Nestor Victor publicado no Rio de Janeiro em 1911 e depois transformado em livro em 1919; o livro de Jackson de Figueiredo, especificamente sobre a poeta. Luis da Câmara Cascudo, um dos maiores pesquisadores brasileiros, publicou em 1961 um livro sobre Auta chamado “Vida breve de Auta de Souza”. Há também estudos mais contemporâneos como um artigo de Diva Cunha Pereira de Macedo, publicado em 1994 no livro Mulher e Literatura no Rio Grande do Norte.

Dentre os comentários mais notáveis acerca de Auta, encontramos o de Giselda Lopes do Rego Pinto, que em seu livro Auta de Souza e a Estética Simbolista (2000), diz que a poeta norte-rio-grandense tem sua obra gerada e amadurecida em pleno fastígio simbolista, isto é, no período em que o Simbolismo estava à tona no País, mas que a despeito disso, o espírito simbolista de Auta não foi estudado, preparado. Ele nasceu de um impulso natural, espontâneo, quase nato.

Na primeira edição do Horto, prefaciado por Olavo Bilac, um dos poetas mais renomados da época, ele afirma que poderia encontrar dentro dos poemas de Auta de Souza estrofes de um artista que transformava as suas idéias, sua torturas, as suas esperanças, os seus desenganos em pequenas jóias. Diz também que dentro dos poemas de Auta de Souza a alma vibra em liberdade sem a preocupação da Forma, livre da complicada teia do artifício.

Alceu Amoroso de Lima (Tristão de Athayde), no prefácio da terceira edição do livro Horto, declara que Auta de Souza é filiada à corrente das letras femininas do Brasil e que não pertence nem ao Romantismo e nem ao Simbolismo. Já Luis da Câmara Cascudo defende no seu livro Vida Breve de Auta de Souza (1961) a ingenuidade (da sua poesia), versus uma poesia edificada, construída pela mecânica da inteligência, planejada pela técnica, que precisa ser interpretada, explicada”, etc., na tentativa de justificar a sua fraqueza teórica.

Tantos estudos e análises elogiosas acerca da jovem autora demonstram a relevância de sua obra para a cultura nacional. Percebemos que Auta de Souza foi uma mulher de seu tempo que optou por algo à frente de sua cultura. Lutou para consolidar-se como poeta, ousou fazer-se poeta, quando a escrita feminina era entendida como uma transgressão e assumiu publicamente essa condição singular.

Sem dúvida, ainda há muito a se explorar sobre a vida e a obra de Auta de Souza. É possível levantar outras questões, buscar novas formas de leituras. É possível explorar na leitura de imagens do Horto um vasto jardim poético de sonhos e possibilidades.

AUTA, FRUTO DE UM JARDIM

2.1 CANTA A TUA TERRA

Cidade do interior do estado do Rio Grande do Norte, localizada às margens do Rio Jundiaí, Macaíba contava com famílias dedicadas ao trabalho de plantação de algodão, cultura de cereais e criação de gado.

Por volta da metade do século XIX, Coité – como era chamada antigamente a região que hoje compreende Macaíba – foi favorecido por acontecimentos externos que impulsionaram o ciclo de algodão e a mobilização comercial. Naquela época os Estados Unidos estavam divididos na violenta Guerra da Secessão e, portanto, ficaram impossibilitados de abastecer a indústria têxtil inglesa com o algodão norte americano. Com isso as companhias inglesas partiram à procura de novos parceiros e produtores; a região Nordeste do Brasil e o Egito passaram a vender em grandes quantidades sua produção algodoeira para a Inglaterra.

Devido a dificuldades de escoamento e aporte de grandes navios no porto de Natal, quase toda a produção de algodão do interior do Estado chegava ao povoado de Coité, fazendo com que a localidade se tornasse um importante entreposto comercial.

Coité atraiu vários comerciantes da Paraíba e de Pernambuco, que deixaram seus Estados e vieram se estabelecer na região. Foi nesse cenário que chegou àquela terra um comerciante e proprietário do Engenho, o paraibano Fabrício Gomes Pedrosa. Fabrício Gomes tinha participação ativa na vida do povoado e, com o passar do tempo, conquistou muitas amizades e respeito.

Por ser amante da natureza, Fabrício tinha grande fascínio por uma espécie de palmeira com frutos pequenos chamados Macaíba, árvore que cultiva no quintal de sua casa1, que levou em um determinado dia do ano de 1855 mudar o nome da vila de Coité para Macaíba. Essa mudança se deu da Seguinte forma: “Seu” Fabrício reuniu os vizinhos, amigos e parentes, numa festa em sua casa e propôs a mudança do nome da localidade em homenagem a árvore. Como a proposta foi bem recebida com grande aplauso pelo povoado de Coité.

Devido às implantações das linhas ferroviárias na região existindo assim um caminho direto entre o interior e a capital, que se tornou naturalmente o grande centro comercial, o comercio de Macaíba e de outros centros comerciais da época como São José do Mipibu, Guarapes e São Gonçalo do Amarante entram em declínio.

Em 27 de outubro de 1877, pela leia nº 801, sancionada pelo presidente da Província, José Nicolau Tolentino de Carvalho e somente em 1882 foi conhecido seu 1º administrador, o senhor Vicente de Andrade Lima. Macaíba deve suas terras desmembradas de São Gonçalo, tornando-se um novo município do Rio Grande do Norte. Macaíba limita-se com os municípios de São José de Mipibu, São Gonçalo do Amarante, Vera Cruz, Natal, Parnamirim, Boa Saúde, São Pedro, Ielmo Marinho e Bom Jesus.

A cidade de Macaíba tem sido respeitada como um autêntico celeiro de talento e cultura. A terra da linda palmeira de seu Fabrício é também a terra de Auta de Souza, cujo ossuário se encontra na Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Além de Auta de Souza, seus filhos ilustres são Augusto Severo, Tavares de Lira, Alberto Maranhão, Henrique Castriciano - Ex-vice-governador do Estado, Fundador da Escola Doméstica de natal e da Academia norte-rio-grandense de Letras - entre outros ilustres macaibenses.


2.2 As raízes de uma curta e brilhante existência.

Dono de uma vasta terra e uma boa soma de gado, o bisavô de Auta, Francisco Pedro Bandeira de Melo, deu sua filha Cosma Bandeira de Melo – que não se sabe se era filha adotiva ou legítima – à um vaqueiro chamado Félix José de Souza. Um homem “baixo, escuro, magro, enxuto, ágil, gato do mato para saltar em cima de uma sela e correr no limpo e no fechado, como peixe revira n’água” (Cascudo. Vida breve de Auta de Souza, pg 23).

Dessa união nasce Eloy Castriciano de Souza, no dia primeiro de janeiro de 1842. Eloy trabalhou por 13 anos para um comerciante de grande influência da cidade de Macaíba: Fabrício Gomes Pedroza. Aliado a carreira comercial e política, Eloy foi Deputado provincial pelo Partido Liberal do Biênio (1878-1879).

Do lado materno havia a figura forte de Silvina Maria da Conceição – a avó Dindinha, que mais tarde seria homenageada em vários poemas da neta Auta de Souza. Silvina era uma mulher humilde, resignada e, como a maioria das mulheres da época, era analfabeta, o que não impediu que sua filha Henriqueta fosse uma mulher “lida em livros”, segundo Câmara Cascudo. Sabe-se que o avô materno Auta, Francisco de Paula Rodrigues, era amasiado com Dona Silvina, mas passou à condição de esposo para não constranger a filha Henriqueta no dia de seu casamento com Eloy Castriciano de Souza, um homem conservador, sisudo e avesso a desvios de conduta. Dona Silvina serviu com dedicação ao marido, filhos e depois aos netos órfãos até aos oitenta anos, quando faleceu em Natal no mês de Dezembro de 1908 – órfã da neta Auta de Souza, que falecera sete anos antes.

Do casamento de Eloy e Henriqueta nasceu o primogênito Eloy Junior em Março de 1873. Eloy Junior depõe comovido:
Nasci a 4 de Março de 1873 no velho sobrado de azulejos, situado entre Tamarineira e Mangabeira de Baixo, estação da Estrada de Ferro, suburbana do Recife que estão terminava no Monteiro, ramal do Arraial. Do entroncamento até o Monteiro era então o único sobrado de azulejo que havia. Ao lado que dava para a Estrada de Ferro erro o jardim, jardim imenso com as muitas roseira do tempo, Rosa Amélia, Roda de Alexandria, e posteriormente Paul Nerón e Bola de Ouro. Meu avô, Francisco de Paula Rodrigues, tinha escravos e era eles que tratavam e agoavam o jardim, trabalho que depois dos meus 8 anos era para mim uma ocupação incomparável. Batizei-me em oratório privado quando tinha oito dias. Foram meus padrinhos os avós maternos, Francisco de Paula Rodrigues e Silvina de Paula Rodrigues. Apesar de ter nascido no dia dos Santos Casimiro e Lucio, tive o nome inteiro do meu Pai. (CASCUDO, 1961 p. 30).

No ano seguinte, nasce Henrique Castriciano, no dia 15 de Março de 1874. No dia de Santo Irineu, 28 de Junho de 1875, nasce Irineu Leão Rodrigues de Souza.

Enquanto isso, o patriarca Eloy de Souza, que à época já era um homem influente, conquista mais amigos, fregueses e poder político discursando sobre as eleições e traçando planos para derrubar o poleiro administrativo da região. Desfrutando de seu alto poder aquisitivo, constrói um casarão com oito janelas, muito arejado, com um quintal cheio de árvores. É nesse casarão, no dia 12 de Setembro de 1976, dia de Santa Auta, que nasce nossa poetiza, a única menina entre cincos filhos: Auta de Souza, um anjo que descia do céu para cantar e sofrer. Logo que nasceu, Auta de Souza encantou a todos da família.

No dia de São João Câncio, 20 de outubro de 1877 nasceu João Câncio Rodrigues de Souza, o caçula dentre os irmãos de Auta.


2.2.1 As primeiras perdas.
A vida de Auta de Souza foi bastante atribulada. As experiências de perda foram freqüentes desde a tenra idade. A primeira perda veio com a morte da mãe Henriqueta Leopoldina. Devido aos cincos partos consecutivos, Henriqueta vivia pálida, fraca e caía facilmente. Naquela época, a cidade do Recife era um pólo centralizador, tanto para estudos como para atendimentos hospitalares, e para lá foi Henriqueta tratar de suas debilidades. Após receber o diagnóstico de Tuberculose, Henriqueta foi aconselhada a viver em lugares de clima seco, onde não houvesse mudanças climáticas.

Levando consigo os filhos Eloy e Henrique, ela se hospeda na fazenda Carcará, em ribeira do Potengí, uma das propriedades do marido. Sem esperanças de se restabelecer, regressa para a residência senhorial em Macaíba, onde viveu seus últimos meses, cercada de cuidados. Na tarde do dia 29 de Junho de 1879, dia de São Pedro, Henriqueta Leopoldina morreu, deixando sua filha com 2 anos e 9 meses.

A mãe de Auta foi homenageada em inúmeros poemas da autora. Em tais versos a poeta demonstra muita tristeza e saudades, associando a imagem da mãe à sua condição de desalento. Dentre os poemas dedicados a Henriqueta, “Eterna dor” destaca-se pela intensidade de sua melancolia, que chega ao ponto de almejar a própria morte para estar junto da mãe e longe desse mundo que, segundo ela, é tão cheio de mágoas que faz chorar o próprio Deus.

Eterna Dor


Alma de meu amor, lírio celeste,

Sonho feito de um beijo e de um carinho,

Criatura gentil, pomba de arminho,

Arrulhando nas folhas de um cipreste,


Ó minha mãe! Por que no mundo agreste,

Rola formosa, abandonaste o ninho?

Se as roseiras do Céu não têm espinho,

Quero ir contigo, ó meu lírio celeste!


Ah! Se soubesses como sofro, e tanto!

Leva-me à terra onde não corre o pranto,

Leva-me, Santa, onde a ventura existe...
Aqui na vida – que tamanha mágoa! –

O próprio olhar de Deus encheu-se d’água...

Ó minha mãe, como este mundo é triste!
Os avós maternos Francisco Paula Rodrigues e Dindinha estavam presentes na missa de 7º dia de morte da filha Henriqueta e logo após o término da cerimônia eles levaram os cincos netos para o Recife. A partir de então, o Sobrado de Azulejos no Arraial passou a ser o abrigo daquelas cinco crianças.

Eloy de Souza, o pai de Auta, após a morte da esposa, dedicou-se mais avidamente à política, sendo eleito Deputado Provincial durante o período de 1878 a 1879 e depois reeleito durante 1880 a 1881. Na tarde de 15 de fevereiro de 1881, aos 39 anos de idade, morreu na cidade de Macaíba, também vítima de Tuberculose. Mais uma vez, Auta de Souza, com apenas 5 anos de idade, experimenta a perda de um ente querido, acometido do mesmo mal que levara sua mãe poucos anos antes.

Na sequencia de perdas veio vovô Paula, marido de Dindinha, que adoeceu de bronquite após uma de suas viagens a Macaíba, onde foi fiscalizar as firmas e propriedades agrícolas da família. Aos 73 anos, morreu o querido avô de Auta. A partir de então, Dindinha fica sozinha para cuidar dos netos e do patrimônio, apesar de morar longe de Macaíba.
2.2.2 Pausa para uma vida natural de criança
Apesar de sua vida ter sido marcada por mortes desde cedo, a infância de Auta de Souza teve muitos aspectos comuns aos das crianças de famílias abastadas. Foi uma menina alegre, curiosa e tranqüila; era nas brincadeiras que gastava suas energias. Gostava muito de jardins; desde cedo foi muito sonhadora – era comum que os irmãos a vissem parada com a mão no queixo, viajando sem sair do lugar.

Seu parceiro mais frequente era o irmão João Câncio, um menino obediente ao que Auta ordenava. Mas seu irmão preferido foi Irineu, apesar de ser um menino muito calado. Henrique adorava brincar com Auta. Já o irmão mais velho, Eloy, se dedicava aos serviços dos jardins do Arraial.

Aos 7 anos de idade Auta já lia, escrevia, fazia contas e se mostrava muito interessada por estudos. Isso fez com que a avó a mandasse estudar francês com uma moça que morava em Ponte D’Uchôa. Aluna dedicada, Auta aprendeu rapidamente o idioma Francês, escrevia versos na língua estrangeira e os recitava.

Ajudava a preparar as festas que havia no Colégio São Vicente de Paula, que era dirigido pela irmã Savigno e um grupo de professoras francesas no bairro da Estância. Esse colégio era uma escola que atraia as filhas da sociedade pernambucana pela sedução dos novos processos educacionais e novidades da cultura pedagógica. Foi a única escola que a poetiza cursou. Na escola, Auta conquistou muitas amigas. Uma delas é Antonia Tavares de Araujo, a quem dedicou alguns poemas em seu livro Horto.


2.2.3 Irineu Leão Rodrigues de Souza: uma gaiola sem o passarinho.

Irmão e companheiro predileto de Auta, Irineu era um menino calado. Na noite de 16 de fevereiro de 1887, quando Auta tinha 11 anos de idade, uma tragédia abalou seu coração de criança.

Há duas vertentes que explicam a morte de Irineu. A primeira – segundo o livro Vida Breve de Auta de Souza de Luis da Camara Cascudo – Irineu subia as escadarias para o andar superior carregando um candeeiro de querosene na mão. Um vento canalizado na chaminé provocou a explosão do candeeiro nas mãos de Irineu cobrindo-o de chamas e espalhando as labaredas por toda a casa. Gritando de pavor correu até esgotar as forças, vencido pelas queimaduras. Quando foi alcançado pelos escravos e pela Avó, Irineu estava irreconhecível e condenado a morte. Agonizou por 18 horas antes de morrer no dia 17 de fevereiro de 1887, 6 anos após a morte do pai, Eloy.

A outra versão para a morte de Irineu diz que o menino dormia na rede quando acidentalmente o candeeiro com querosene caiu sobre os punhos da rede. O Fogo se alastrou rapidamente sobre a rede e por toda a casa. No lado de fora, os irmãos, a avó e Auta viram Irineu passar em chamas correndo dentro da casa. Auta, que gostava muito do irmão e tinha assumido certa maternidade sobre ele, correu para dentro da casa e puxou o irmão em chamas para fora. Envolveram Irineu com folha de bananeira e, depois de 18 horas segurando a mão do irmão e companheiro, Auta assistiu os últimos momentos de vida do pequeno Irineu, a agonia e dores das queimaduras. No dia 17 de fevereiro de 1887, Auta perdia mais uma pessoa querida em sua vida.

Encontramos em seu livro Horto alguns poemas em que ela expressa seus sentimentos em relação à morte desse irmão querido. Nesses poemas Auta refere-se ao irmão morto de forma muito presencial, como se a ausência e a presença de Irineu fossem sensações conflitantes dentro de si.

Especialmente por esses poemas, em que trata da morte de Irineu, é que Auta é aclamada por adeptos do espiritismo como uma das primeiras escritoras espíritas do Brasil. São frequentes as imagens criadas por Auta de Souza retratando a alma do irmão como algo presente e até mesmo visível em sua vida.

No soneto intitulado Irineu, Auta de Souza declara com muito pesar que a morte causou um grande abismo entre os dois irmãos e termina o poema afirmado que, em determinados instantes, vê a alma do irmão subindo ao céu:

[...] Os anos que se foram! Entanto, eu cismo

A todo o instante, no profundo abismo

Que veio a morte entre nós dois abrir.


Mas cada noite n’asa de uma prece,

Ou num raio de sol quando amanhece,

Vejo tua alma para o céu subir...

Em outro poema, intitulado “Goivos”, dedicado a ausência do irmão Irineu, Auta faz um paralelo entre a sensação de ver seu passarinho morto e as saudades que sentia do irmão, criando a bela metáfora de ser o seu coração uma gaiola vazia pela morte prematura do pássaro, a quem compara com Irineu. Abaixo, temos um trecho do poema.

Goivos
À memória de Irineu.

Um dia... (eu era menina)

Trouxeram-me um passarinho;

Era uma ave pequenina,

Roubada ao calor [...]
Mas dias depois, ó dor!

Que grande desdita a minha;

No fundo da gaiolinha

Achei morto o pobre amor.


Tinha o biquinho entreaberto

Qual se morresse a cantar,

E um par de assas aberto,

Como se fosse a voar.


Chorei sem hipocrisia,

Como se chora em criança...

Era a primeira esperança

Que do sei me fugia. [...]


Mas... a gaiola vazia,

Que eu conservo noite e dia,

Não sabem? É o Coração...

É dentro dele que mora,

É dentro dele que chora,

A alma do meu irmão.

Já em outro poema, intitulado “À memória de uma ave”, Auta utiliza a mesma analogia feita em “Goivos”, porém numa outra atmosfera, essencialmente consoladora e feliz, o que nos remete, entre vários outros exemplos, à dualidade expressa no título da obra “Horto”. Aqui, a morte, tanto do pássaro como a do irmão é tratada com serenidade, não mais envolta no manto do sofrimento e da saudade, mas sim de uma compreensão incomum da morte como algo divino:
À memória de uma ave
Quando morre uma criança

Diz-se que o pálido anjinho

Voou como uma esperança,

Foi para o Céu direitinho.


Mas nossa mente se cansa

A voar de ninho em ninho,

Interrogando a lembrança,

Quando morre um passarinho.


Só eu, se alguém diz que a vida

De uma avezinha querida

Se extingue como um clarão,
Ponho-me a rir, pois, divina!

Ouço cantar em surdina,

Tu’alma em meu coração

2.2.4 Uma vida dedicada a Deus.

A União Pia das filhas de Maria funcionava como um estímulo adicional para que as estudantes buscassem o virtuosismo nos colégios. Para fazer parte dessa União, as meninas tinham que ser consideradas merecedoras por sua conduta exemplar, devoção e fé reconhecida. Havia competição em devoção, piedade, espírito de mortificação e adesão irrestrita aos preceitos doutrinários do catolicismo da época entre meninas que queriam participar da Pia União.

A igreja Católica oitocentista direcionava a educação das moças sugerindo leituras de histórias religiosas ou romances baseados em fatos históricos ou temas religiosos. A igreja preparava as moças para a morte identificando-as com o sofrimento de Cristo na cruz, como uma forma de remissão do pecado original vindo por Eva na Tentação do Jardim do Éden, apresentados nos primeiros capítulos da Bíblia sagrada. Pecado esse que levou a igreja Católica a postular Eva como um emblema feminino de rebeldia.

Para contrapor o exemplo de Eva, as mulheres deveriam almejar a pureza da Virgem Maria, um modelo santificado de domesticidade. Ao segui-lo, elas assumiriam o poder de condutoras do bem, mas apenas no âmbito familiar, pois, segundo a mentalidade da época, o único objetivo de uma mulher era conseguir um casamento bem realizado no qual pudessem exercer com maestria a função de esposa e mãe. O marido era visto como um presente de Deus que conduziria a mulher, através do sacrifício, à santidade. Esse discurso da igreja Católica servia para colocar a mulher cristã como um anjo do lar em oposição ao anjo rebelde.

Auta freqüentava a igreja e era amiga das zeladoras. Com humildade, ajudava-as no arranjo dos altares, colocava azeite nas lâmpadas do Santíssimo e tinha uma dedicação especial para com o grupo das catequistas, preparando várias turmas para a Primeira Comunhão.

Foi no meio desse universo ideológico que Auta de Souza viveu e estudou, o que justifica o recorrente tema da fé inserido em seus poemas. Ela estava entre as integrantes mais fiéis da União Pia das filhas de Maria e serviu de exemplo para as alunas consideradas menos virtuosas.

Abaixo, transcrevemos “Rezando” e “Soneto”, dois dos vários poemas religiosos no qual a poeta demonstra sua devoção e fé. No primeiro, composto em redondilhas, temos uma homenagem ao menino Jesus, no qual a poeta busca esperanças e chora suas dores, pedindo para vê-lo, num sutil desejo de morte; poema este musicado em seu cancioneiro. No segundo, apesar de mencionar a mágoa e o sofrimento, a poeta canta a vida, atribuindo resignadamente a Deus toda a beleza que existe “neste mundo cruel de desenganos”.
Rezando
Róseo menino

Feito de luz,

Lírio divino,

Santo Jesus!


Meu cravo olente,

Cor de marfim,

Pobre inocente

Banco Jasmim!


Entre as palhinhas,

Pequeno amor

Das criancinhas

Tu és a flor.


Cabelo louro,

Olhos azuis...

Eis meu tesouro,

Manso Jesus!


Estrela pura,

Santo farol,

Flor de candura

Raio de sol...

Dá-me a esperança
N’um teu olhar:
Loura criança,
Me ensina a amar.

Sonho formoso


Cheio de luz,
Jesus piedoso,
Meu bom Jesus...

Como eu te adoro,


Pequeno assim!
Jesus, eu choro,
Tem dó de mim.

No doce encanto


De um riso teu,
Jesus tão santo,
Leva-me ao Céu!

Em ti espero,


Mostra-me a luz...
Leva-me, eu quero
Ver-te Jesus!
Macaíba - Noite de Natal – 1896

Soneto
Tudo o que é puro, santo e resplendente,


N'este mundo cruel de desenganos,
Toda a ventura dos primeiros anos
N'um'alma que desabrocha sorridente;

Tudo o que ainda vemos de potente


Na vastidão sem fim dos oceanos,
E da terra nos prantos soberanos
Trazidos pela aurora refulgente;

Tudo o que desce do infinito ousado:


O sol, a brisa, o orvalho prateado,
A luz do amor, do bem, das esperanças;

Tudo, afinal, que vem do Céu dourado


A despertar o coração magoado,
- Deus encerrou nos olhos das crianças!


Compartilhe com seus amigos:
  1   2


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal