O principe dos mares



Baixar 407.94 Kb.
Página1/7
Encontro16.06.2018
Tamanho407.94 Kb.
  1   2   3   4   5   6   7

O Príncipe dos Mares – Kathryn Jensen

O PRINCIPE DOS MARES

Kathryn Jensen

Elizabeth Anderson não esperava encontrar o herdeiro desaparecido do trono de Elbia nadando em uma praia em Maryland. Mas quando o lindo Daniel Eastwood emergiu das águas, o coração de Elly lhe disse que encontrara seu príncipe!

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES II

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamen­to ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.

Copyright © 2005 by Kathryn Jensen

Título original: THE SECRET PRINCE

Originalmente publicado por Silhouette Books.

Editoração Eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda. Tel.: (55 21) 2240-2609

Impressão:

RR DONNELLEY MOORE

Tel.: (55 11) 2148-3500



www.rrdonnelley.com.br

Distribuição exclusiva para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

Fernando Chinaglia Distribuidora S/A

Rua Teodoro da Silva, 907

Grajaú, Rio de Janeiro, RJ — 20563-900

Tel.: (55 21) 3879-7766

Editora HR Ltda.

Rua Argentina, 171, 4o andar

São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380

Correspondência para:

Caixa Postal 8516

Rio de Janeiro, RJ — 20220-971

Aos cuidados de Virgínia Rivera

virginia.rivera@harlequinbooks.com.br
CAPÍTULO UM

—Você é minha. — Daniel Eastwood jogou os jeans em cima do moletom que já estava na areia. — Não vai me manter longe sendo fria comigo. — Esti­cou os ombros largos. Os músculos estavam prepara­dos para entrar em ação.

Deu uma corridinha e mergulhou no Atlântico. Aquela água fria o encorajava, chamando-o para as profundezas, desafiando-o. Podia sentir a força do mar em cada onda verde-acinzentada. Nadou exata­mente 800 metros ao longo da praia deserta antes de voltar ao ponto de partida e ir direto para debaixo dos bangalôs da Enseada.

Dan mantinha uma relação íntima com o mar des­de o primeiro dia em que o vira. A excursão da escola até Ocean City levou três boas horas de ônibus a partir das sinistras ruas do sul de Baltimore? Nunca es­quecera a noção de temor, respeito e fascinação que sentira naquele dia — um garoto da cidade em pé na­quela interminável faixa de areia quase branca, tanta água em um único lugar. E todo aquele ar fresco ba­tendo no rosto, enchendo os pulmões, o fazia sentir-se forte e renovado. Embora voltasse para a cidade naquele dia, nunca esquecera a beleza do oceano ou quis viver em outro lugar a não ser perto do mar.

Ao atingir a maioridade, voltou para trabalhar como salva-vidas durante o verão. E a cada junho, com exceção daqueles quatro anos que passou com os fuzileiros navais, foi arrastado à praia assim como a maré é atraída pela lua. Entretanto, nunca perdeu de vista o temperamento caprichoso do mar. As tempestades imprevisíveis. As correntezas que podiam cap­turar um nadador forte arrastá-lo para profundezas geladas e roubar-lhe a capacidade de respirar. Amava a beleza e o poder da água, apesar dos perigos.

Antes de dar as últimas quatro braçadas do exercí­cio matinal, avistou uma mulher em pé, ao lado de suas roupas na areia. Devia ter vindo falar com ele.

— Que diabos — murmurou, engolindo água sal­gada, por distração. Quem o conhecia sabia que não deveria perturbá-lo naquela hora do dia. Colocando os pés no chão, ficou com água na altura do peito en­quanto a observava.

Não era dali. Teria a reconhecido nessa época do ano quando todos os turistas se foram. Era alta. Devia ter cerca de l,75m. O cabelo era castanho-avermelhado, com mechas douradas claras, puxado para trás num cuidadoso coque. O terninho verde-escuro pare­cia absurdo se comparado à roupa de praia. Sapatilhas de couro, na cor marrom-claro, pendiam de um dedo que estava dobrado. A moça parecia irritada. Os minúsculos grãos de areia penetrando entre os fios da meia-calça não ajudavam a manter o bom humor.

Já fora da água, Daniel ficou sem fôlego devido à brisa gelada.

— Me jogue aquela toalha! — gritou. Olhando ao redor, a moça avistou uma boa pilha de tecido felpudo perto da roupa dele e a pegou.

— Novembro não é um pouco frio demais para se nadar em Maryland?

— Não para mim. Tenho sangue quente. A moça jogou a toalha na direção dele.

— Oh, por favor...

— É sério. A temperatura do meu corpo é geral­mente dois graus acima do normal. Mas estabeleço um limite, nadando em águas geladas todas as manhãs.

— Limites são bons. — Elly forçou-se a olhar o horizonte. Mas era difícil parar de admirar Dan East­wood. Nenhum homem que conhecera tinha um corpo como aquele. Largo, ombros musculosos, abdô­men rígido. Mas não viera para flertar. Sua missão era mais importante e o tempo urgia.

—Você é Daniel Robert Eastwood?

— Sou Eastwood. E você? — Secava o peito musculoso, os braços longos e fortes.

Ela observava o movimento da toalha, indo a todos os lugares. Desviou o olhar.

— Sou Elizabeth Anderson. Preciso lhe fazer al­gumas perguntas, se me der dez minutos.

— Se está vendendo suprimentos para hotéis, terá que ver meu sócio, Kevin Hunter. É quem cuida de toda a parte de compras. O escritório dele é no prédio principal.

— Já falei com o Sr. Hunter. Foi quem me disse onde você estaria. — Elly percebeu que passara a ponta da língua pelo lábio inferior. O Sr. Eastwood poderia interpretar aquele gesto como sendo uma forma dela demonstrar que apreciava a quase nudez dele. Mas era crucial que mantivesse a atenção nos negócios. Muitas pessoas importantes, não apenas o pai, dependiam dela.

Ao vestir o moletom, Dan deu uma boa olhada. A moça era esbelta, um pouco branca demais. A saia de pregas era curta, revelando pernas longas e elegantes. Os seios... difícil dizer. Tudo o que podia avistar era uma protuberância por baixo do terninho. Pena que não era agosto. Teria que se despir devido ao sol es­caldante de Ocean City.

— Talvez seja melhor irmos até minha casa para conversar.

— Por que não se veste? Eu o encontrarei no escri­tório.

— Não é conveniente.

— Por que não?

— Tenho uma reunião às nove horas. Não posso prever o tempo que vai durar. Já ouviu falar em agen­dar uma entrevista?

— Não há tempo. Tenho que falar com você logo. Dan parou e a encarou.

— Qual é o problema? Elly suspirou, pensativa.

— Fale rápido — encorajou-a. Muito em breve os dedos dele congelariam. Depois, qual seria a próxima parte do corpo a congelar?

— Sou genealogista. Trabalho na empresa do meu pai, e fomos contratados para verificar os ancestrais e os descendentes de um cavalheiro, já falecido. Há uma possibilidade de que você esteja relacionado à família dele.

Dan riu.


— É isso?

— Sim. Só preciso lhe fazer algumas perguntas simples, depois vou deixá-lo em paz. Seus lábios es­tão ficando roxos. Talvez não haja problema em conversarmos na sua casa. Está muito frio aqui fora.

— Obrigado. — Pisou no passeio de tábuas que se estendia por mais de um quilômetro e meio ao longo da costa. Grande parte das estruturas ao final das tá­buas de madeira flutuante eram arranha-céus de con­domínios e hotéis. Mas aqui, na parte mais velha da cidade, com as lojas, as barracas de lanches e os brin­quedos do parque de diversão, estavam alguns dos bangalôs de praia, estilo antigo, que sobreviveram ao violento humor do oceano. Quatro anos atrás, quando o furacão Evelyn levou blocos inteiros das estruturas de madeira, Dan vira a oportunidade pela qual espe­rava. Ele estava fora da Corporação, conseguira o di­ploma em administração e fizera uma boa economia. Procurava um investimento que o mantivesse perto da sua amada praia.

Dan e o melhor amigo Kevin compraram uma pro­priedade arruinada. Levantaram o nível da terra tra­zendo toneladas de dunas. Depois, ergueram versões menores e mais fortes dos bangalôs originais — um grupo de 25. A Enseada progrediu e se tornou um ne­gócio de sucesso, muito mais do que os sócios esperavam. Dan sentia orgulho por tudo o que tinham conquistado.

A baixa temporada era solitária. Os turistas desa­pareceram, inclusive as mulheres disponíveis para um namoro. Mas ali estava a atraente Elizabeth Anderson. Chegou a pensar em cancelar a reunião das nove horas para passar a manhã com aquela mulher...

— Conte-me sobre minha misteriosa família. — Abriu a porta da casa e acenou para que a moça en­trasse.

— Não sabemos se são sua família. É por isso que preciso conversar com você.

— Então, fale. — Jogou a toalha molhada no braço do sofá de couro.

— Quais os nomes completos da sua mãe e do seu pai?

— Minha mãe é Margaret Jennings Eastwood. Atende por Madge. Meu pai, nunca conheci. Seu nome era Carl Eastwood. Morreu pouco depois que nasci.

Elizabeth tirou um bloquinho de papel e uma cane­ta da bolsa. Fez algumas anotações.

— E a data do seu nascimento? Dan lhe disse quando nasceu.

— Isso faz com que você, vamos ver... trinta e dois? — Daniel concordou. — O endereço e o telefo­ne da sua mãe?

— Por que precisa saber disso?

— Tenho certeza de que ficará tão interessada quanto você na sua parte da herança — respondeu com um sorriso.

— Se precisa falar com a minha mãe, vou levá-la até ela. O que mais precisa de mim?

Desapontada, Elizabeth deu uma olhadela no blo­quinho.

— Onde nasceu, sr. Eastwood?

— Me chame de Dan. Em Baltimore, no Hospital da Misericórdia.

— E sempre viveu lá?

— Até terminar o segundo grau. Aí, me alistei na Marinha. Depois disso, fixei residência em Ocean City. Estamos aqui desde então.

— Tem irmãos?

— Não.

— Nem meio-irmãos ou irmãs de outro pai?



— O que está querendo dizer, srta. Anderson?

— Meus amigos me chamam de Elly. — Sorriu, o olhar inocente. Dan sentiu um aperto no estômago, algo agradável, e não conseguiu deixar de sorrir, ape­sar da suspeita de que a moça preparava uma armadi­lha. — É uma pergunta simples. Hoje em dia, muitas famílias incluem enteados, meio-irmãos... seus, meus e nossos... As mulheres podem casar mais de uma vez, sabe disso.

— Minha mãe nunca voltou a casar — afirmou.

— Entendo.

Dan desejava olhar o que a moça escrevia.

— Tenho de me trocar e ir à reunião — resmun­gou. — A menos que seja honesta comigo dizendo o que realmente quer, nossa conversa acaba aqui.

A moça guardou o bloquinho e a caneta na bolsa.

Receio que, no momento, qualquer coisa a mais do que já lhe disse seja confidencial.

— Então, deve ir embora — retrucou. Disse a si mesmo que estava sendo um idiota, se livrando da coisa mais bonita que atravessara seu caminho, na praia, em meses. Mas a reunião era muito importante. E mesmo que a libido o persuadisse a pedir o telefone dela, o cérebro o avisava para manter distância da­quela mulher. Era problema puro embora ainda não tivesse descoberto de que tipo.

— Aviso se puder lhe contar mais alguma coisa. — Cumprimentou-o com um aperto de mão, determinada a concluir a conversa com um gesto profissio­nal, mesmo que não tenha começado assim.

— Da próxima vez, talvez se junte a mim para na­darmos — sugeriu ao abrir a porta.

Elly riu.

— Em novembro? Não conte com isso.

Muito ruim, pensou. Permanecia em pé na sala de estar, com a mão na maçaneta da porta. Adoraria ser o homem que a aqueceria depois de um mergulho em pleno inverno.

Elly sentou-se no carro, tentando se recompor. O pai ficaria furioso. Não arrancara de Daniel Eastwood tudo o que precisavam. Mas as coisas começa­ram mal. Ela quase caiu quando Dan saiu da água — todos os músculos brilhando, a pele suave bronzeada. Uma visão clássica de Netuno na juventude, sem o tridente.

Não costumava ficar desconcertada por causa de um homem. Não se envolvia. Era uma forma de defe­sa. Envolvimento significava intimidade, e intimida­de significava...

Uma lembrança triste a perturbou. Podia ouvir e ver tudo como acontecera naquela noite. O choro num volume alto... os frenéticos berros do pai ao te­lefone... o infeliz olhar de incapacidade no rosto dele. E finalmente, o corpo inerte da mãe visto de relance, através da porta semi-aberta do quarto, segundos an­tes das sirenes acabarem com o silêncio na pequena casa.

Elly tremia, o corpo ligeiramente molhado de suor, o coração batendo acelerado. Cobriu os olhos com as palmas das mãos e respirou fundo.

— Acabou — sussurrou até o medo passar, a pres­são no peito diminuir e o cérebro clarear de forma que pudesse pensar novamente. Onde estivera? O que pensava quando...

Sim, lembrou-se, Dan Eastwood. Mesmo que não tivesse se recusado a responder a mais perguntas, se­ria uma tortura voltar e tentar interrogá-lo. Elly sabia que sua mente iria se dirigir àquela cena na praia, e ela seria incapaz de se concentrar no trabalho. E per­deria o controle como acontecera agora, na frente dele. E isso era inaceitável.

Olhou o relógio. Dentro de poucas horas, teria que ligar para o pai em Elbia com novidades. Ambos sa­biam que se ela falhasse ao encontrar a pessoa que procuravam, em menos de 24 horas, a imprensa internacional se tornaria um inferno. O tablóide de Lon­dres que, de alguma forma, vazara a informação do palácio, revelaria um escândalo que podia ameaçar a coroa. E a pesquisa genealógica dos Anderson ga­nharia uma grande mancha negra por abrir uma bre­cha na lei do direito à privacidade, mesmo que a cul­pa não fosse deles.

O que fazer? Elly pegou a agenda eletrônica que estava no banco do carona. De acordo com o que lem­brava, adicionou a informação que Eastwood acabara de lhe dar. Encontrara o nome e o endereço de Daniel através de uma pesquisa na internet, mas o telefone da mãe dele e o endereço não tinham aparecido, pro­vavelmente porque ela não tinha e-mail e o número do telefone não constava na lista.

Eastwood deixou escapar que a mãe morava pelas redondezas.

— Estamos aqui desde então... Nós, não, eu. — E se oferecera para levar Elizabeth à casa da mãe, de forma que a mulher não podia estar longe.

Elly digitou as anotações. Depois, pegou a bolsa e trancou o carro. Vizinhos eram sempre uma boa aju­da. Era por onde começaria.

Elly estava no último degrau do pequeno bangalô amarelo, endireitou o terninho, colocou um sorriso amável no rosto, e bateu à porta.

— Sim? — Uma mulher de meia-idade, baixa e loura, sorriu ao abrir a porta.

— Margaret Eastwood? — Elly perguntou.

— Sim, querida. — O sotaque era típico de uma pessoa de Baltimore.

— Conversava com seu filho e... O rosto da mulher se iluminou.

— É amiga de Dan?

— Não exatamente. Estava a sua procura, mas en­contrei o nome de Dan primeiro e...

— Entre e me conte por que ele a mandou aqui. Essa é uma das melhores coisas na Enseada. Parece um condomínio fechado. Você pode se sentir segura ao falar com as pessoas, não como na antiga vizi­nhança, onde tínhamos de ser cautelosos com quem deixávamos entrar em casa.

— Claro — Elly concordou, sentindo-se um pouco culpada por estar prestes a se tornar uma intrusa inde­sejável na vida daquela mulher.

Assim que Elizabeth entrou na aconchegante sala de estar, mobiliada em estilo colonial, avistou diver­sas fotos em cima de um piano. Havia várias de um garotinho em diferentes idades, de quando era bebê até quando começou a andar. E depois, em várias ida­des escolares. Elly sentia o cheiro do ambiente, atraí­da por um delicioso aroma.

— Alguma coisa cheira muito bem.

— Pão de gengibre — Margaret disse. — No outo­no, sempre faço o tradicional pão de gengibre da Nova Inglaterra. Assim, me lembro de casa, e Danny adora.

— Então, não é daqui?

— Não. Mas Maryland é minha casa agora. Passei aqui toda a minha fase adulta. Sente-se, vou trazer uma xícara de café e um pedaço de pão quentinho.

Elly se virou para protestar mas Margaret já tinha ido.

— Disse que viveu aqui toda sua fase adulta? — gritou na direção da cozinha.

— Em Maryland, não Ocean City. Vivemos em Baltimore quando Dan era novo. Mas ele se tornou um rato de praia depois de alguns verões trabalhando como salva-vidas aqui. Depois que foi dispensado do serviço militar, queria que me mudasse para cá com ele enquanto participava da comunidade da faculda­de. Mais tarde, Dan e um amigo compraram essa pro­priedade e construíram pequenas e graciosas cabanas. — Sorria, orgulhosa, ao voltar para a sala, segu­rando uma bandeja carregada com xícaras de café e pratos com pão de gengibre fresquinho, cobertos com montanhas de creme batido. — Danny também dirige uma colônia de férias para a garotada da cidade.

— Não sabia disso — Elly admitiu.

— Ele se sente muito bem ao proporcionar às crianças menos favorecidas algumas semanas longe das ruas, para que vejam um mundo diferente dos problemas aos quais estão acostumadas.

Elly aceitou uma xícara de café fumegante e um prato de sobremesa, sentindo-se culpada pela segun­da vez. Não queria enganar aquela mulher tão hospi­taleira.

— Tenho que confessar que Dan não me mandou aqui para conversar com a senhora.

— Oh? — Parecia desapontada.

— Fui contratada por uma família européia para preencher uma lacuna em branco de uma árvore genealógica. Os Von Austerand. Reconhece o nome?

Elly observou quando a sra. Eastwood ficou pá­lida.

— Não.

— São como os Windsor da Inglaterra. São a famí­lia real de um pequeno país que faz fronteira com a Áustria: Elbia.



— Acho melhor ir embora — Madge afirmou. Mas Elly era determinada. Continuou a escolher as palavras.

— Temos razão para acreditar que uma moça ame­ricana teve um breve romance com o jovem rei daquele país trinta e três anos atrás, antes de ele se ca­sar. Há uma chance de que a moça estivesse grávida quando se separaram, mas ela desapareceu antes de o bebê nascer. Saberia alguma coisa sobre isso?

A mãe de Dan colocou o prato em cima da mesinha-de-centro e virou o rosto na direção da janela.

— Meu marido era americano. O nome dele era Carl Eastwood, e morreu antes de Dan completar um ano — explicou.



Carl Eastwood, o nome que Dan usara. Carl com C segundo os documentos que vasculhou. Seria uma coincidência o nome do jovem rei ser Karl? Sua Alteza Karl Von Austerand morrera há alguns anos, e ago­ra o filho Jacob usava a coroa. Jacob sempre fora considerado o único herdeiro do rei até que a evidên­cia de um romance secreto surgira durante uma roti­neira catalogação dos papéis da família há alguns dias. Dias que agora pareciam semanas e meses de frenética busca para Elly.

— Não saberia sobre romances ou reis ou bebês ilegítimos — Madge disse.

O coração de Elly bateu mais forte apesar de a mu­lher ter negado. Alguma coisa na expressão pálida lhe dizia que Margaret não estava acostumada a men­tir. E que tentava, desesperadamente, fazer isso.

— Entendo o quanto seja difícil — Elly disse, dei­xando de lado a própria xícara de café e o pão de gengibre, tocando o braço da Sra. Eastwood. — Mas se puder me informar algo mais, por favor.

Madge respirou fundo. Parecia decifrar um difícil quebra-cabeça.

— Vá embora. Saia da minha casa.

Elly respeitava o direito à privacidade, mas se não chegasse à verdade logo, tanto Madge quanto o filho se encontrariam numa situação difícil. Não era hora para jogos de gato-e-rato. Uma simples declaração daquela mulher pouparia dias que eles não tinham para uma completa investigação dos arquivos pú­blicos.

— Sra. Eastwood, não estou tentando aborrecê-la. Mas não acha que Dan gostaria de saber quem é seu verdadeiro pai?

Madge arfava, horrorizada.

— Meu filho não precisa saber...

Essas palavras permaneceram no ar. A porta da frente se fechou e passos se aproximavam da sala de estar. As duas mulheres se viraram na direção da en­trada.

Daniel apareceu, os olhos negros brilhando. Mes­mo a distância, Elizabeth podia ver a fina veia azul pulsando nas têmporas e a boca tensa.

— Não preciso saber do quê, mãe?

O coração de Elly parecia estar sendo apertado por uma mão fria. O estrondo da voz de Dan a deixou arrepiada. Olhou rapidamente para Madge, cuja ex­pressão se modificara em uma velocidade surpreen­dente.

— Acho que não deveria ter deixado essa jovem entrar. Ela me disse que era sua namorada, Danny.

Elly arfou de tanta raiva. Madge não era tão ingê­nua quanto parecia.

— Nunca disse isso! Sra. Eastwood, sabe que nun­ca sugeri que minha visita fosse... — lamentou, frus­trada. Entre a mãe e uma estranha, em quem o ho­mem acreditaria? — Não importa. Vim sozinha por­que imaginei que sua mãe se sentiria mais à vontade para conversar comigo se você não estivesse aqui.

Dan lançou-lhe um olhar carrancudo e cético.

— Verdade. Não queria causar problemas.

— Disse a você que a traria aqui se necessário! — Dan falou impaciente. Depois, virou-se para a mãe que parecia desesperada. — Não sei como a encon­trou. Me desculpe. Agora, o que é que eu não preciso saber?

Madge cerrou os lábios.

— Então, você me conta — anunciou, virando-se de volta para Elly.

No momento, talvez não haja nada para contar. — Fazia o melhor que podia para ser discreta. — É importante que eu descubra se sua mãe já esteve em Paris.

Dan deixou de olhar a mulher, com a qual fantasia­ra há menos de uma hora, e passou para a mãe. Viu um nível de ansiedade nos olhos de Madge como nunca vira antes.

— O que está acontecendo aqui, mãe?

— Ela está me aborrecendo. Faça com que vá em­bora.

Dan afiou as palavras entre os dentes cerrados, lu­tando para manter a calma.

— Ela vai sair assim que explicar que diabos pre­tende! Por que importa se minha mãe esteve ou não em Paris?

Elly respirou fundo e caminhou em direção a Dan, rezando para que as palavras certas viessem à mente.

— Documentos foram descobertos e indicam que uma jovem americana chamada Margaret Jennings passou um ano fora, estudando em Paris. Era seu nome de solteira, certo, sra. Eastwood?

Dan respondeu em nome da mãe:

— Sim, e o penúltimo ano de faculdade você cur­sou em Sorbonne. Você me disse isso, mãe.

Madge fechou os olhos mas não admitiu nada. Elly conteve a respiração e perguntou:

— Foi durante esse ano que a senhora conheceu um jovem rapaz chamado...

— Sim, conheci Carl Eastwood lá! Nos casamos, e nove meses depois nasceu Dan. Mas Carl morreu muito jovem. — Os olhos se encheram de lágrimas e Madge as enxugou com as mangas do vestido.

Dan franziu as sobrancelhas, parecendo mais con­fuso do que nunca.

— Pensei que você e papai tinham se conhecido em Baltimore.

— Não, foi numa pequena cidade fora de Paris. Anos mais tarde, ouvi dizer que a igreja incendiou. Provavelmente, todos os registros foram destruídos também.

Elly ia dizer a Madge que sabia que se tratava de uma mentira, mas mudou de idéia ao ver que o filho dela, de mais de l,80m de altura, estava pronto para defender a honra da mãe.

— Continue. O que ia dizer?

— Não há registro de casamento, é verdade... por­que nunca houve um Carl Eastwood na vida da sua mãe. E nunca houve casamento.

— Saia daqui! — Dan a pegou pelo braço e a levou até a porta,

Elly só teve tempo de pegar a bolsa, em cima da mesinha-de-centro, e o casaco, pendurado nas costas da cadeira, antes de Dan a conduzir para fora da sala.

— Não sei qual é o jogo, e não me importa. Você vai embora, senhorita.

— Mas não quer...

Antes de completar a frase, Elly se viu sozinha na varanda da casa de Madge. Que homem rude! Me en­xotou! Foi então que se deu conta do que acontecera. Sorriu, triunfante. Encontrara seu príncipe perdido!





Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3   4   5   6   7


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal