O problema do Destino l�on denis?2 O problema do destino Copyright by � Petit Editora e Distribuidora Ltda. 2000 a edi��o: julho/00 15



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O Problema do Destino 1 L�ON DENIS?2 O problema do destino Copyright by � Petit Editora e Distribuidora Ltda. 2000 1 a - edi��o: julho/00 - 15.000 exemplares Dire��o editorial: Fl�vio Machado Coordena��o editorial: S�lvia Sampaio Ribeiro Tradu��o: Renata Barboza da Silva Simone T. Nakamura Bele da Silva Textos doutrin�rios conferidos e anotados por: M�rio Rasteiro da Fonseca Capa (cria��o): Fl�vio Machado Diagrama��o: Marcio da Silva Barreto Revis�o: Leticia Castello Branco Braun Sheila Tonon Fabre Fotolito da capa: Diarte Impress�o: Cromosete Gr�fica e Editora Ltda �ndices para cat�logo sistem�tico: 1. Destino: Espiritismo: Filosofia 133.901 Direitos autorais reservados. � proibida a reprodu��o total ou parcial, de qualquer forma ou por qualquer meio, salvo com autoriza��o da editora. Ao reproduzir este ou qualquer livro pelo sistema de fotocopiadora ou outro meio, voc� estar� prejudicando a editora, o autor e voc� mesmo. Existem outras alternativas, caso voc� n�o tenha recursos para adquirir a obra. Informe-se, � melhor do que assumir d�bitos. Impresso no Brasil, no inverno de 2000. Dados Internacionais de Cataloga��o na Publica��o (CIP) (C�mara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Denis, L�on, 1846 - 1927. O problema do destino: 2� parte / L�on Denis; [tradu��o Renata Barboza da Silva, Simone T. Nakamura Bele da Silva]. � S�o Paulo : Petit, 2000. � (Cole��o O problema do ser, do destino e da dor) T�tulo original: Le probl�me de la destin�e. ISBN 85-7253-065-7 1. Destino 2. Espiritismo � Filosofia I. T�tulo. II. S�rie. 00-1420 CDD�133.901?3 Rua Atua�, 383 - Vila Esperan�a/Penha CEP 03646-000 - S�o Paulo - SP Fone: (0XX11) 6684-6000 Endere�o para correspond�ncia: Caixa Postal 67545 - Ag. Almeida Lima 03102-970 - S�o Paulo - SP www.petit.com.br petit@petit.com.br e d i t o r a L�ON DENIS Estudos Experimentais sobre os Aspectos Ignorados do Ser Humano � As Personalidades Duplas � A Consci�ncia Profunda � A Renova��o da Mem�ria � As Vidas Anteriores e Sucessivas, etc. Nova Edi��o Conforme edi��o de 1922 da Uni�o Esp�rita Francesa e Franc�fila?4 Um dos mais extraordin�rios esp�ritas de todos os tempos. Sucessor e propagador da obra de Allan Kardec, a qual am-pliou em termos filos�ficos. Seus elevados conceitos doutrin�rios, alicer�ados na mais pura moral crist� e nos ensinamentos dos esp�ritos, lan�aram novas luzes sobre a Doutrina Esp�rita, que enfrentava, na �poca, a contesta��o e o desprezo de grupos religiosos e cient�fico-materialistas. L�on Denis a todos respondia com a sua mais pura naturalidade, baseando-se nos ensinamentos do Cristo e na mais alta inspira��o dos seus mentores, que, como ele pr�prio confes-sava, nessas horas nunca o abandonaram. Era tamb�m um orador excepcional que sempre atra�a multi-d�es. Sua vida era regrada pelos exemplos do Divino Mestre, tendo para todos e a qualquer momento sempre uma palavra de �nimo, quando n�o a pr�pria ajuda material que para ele mesmo j� era escassa. Atr�s de si deixou o exemplo da caridade, da ren�ncia e do trabalho. Sua obra doutrin�ria � b�sica e enfoca os problemas da ang�stia e da dor, a destina��o do homem e a maneira de com-preender e equacionar os obst�culos da vida terrena. Destacamos as seguintes obras de sua autoria: Depois da morte, Cristianismo e Espiritismo, Joana D�Arc m�dium, O porqu� da vida e No invis�vel. Desencarnou trabalhando, aos 81 anos. L�ON DENIS (1846-1927)?5 Introdu��o .............................................................................. 7 1 � As vidas sucessivas. � A reencarna��o e suas leis ....... 19 2 � As vidas sucessivas. � Provas experimentais. � Renova��o da mem�ria ................................................... 36 3 � As vidas sucessivas. � As crian�as prod�gios e a hereditariedade........................................................... 82 4 � As vidas sucessivas. � Obje��es e cr�ticas .................... 95 5 � As vidas sucessivas. � Provas hist�ricas ..................... 106 6 � Justi�a e responsabilidade. � O problema do mal ......... 122 7 � A lei dos destinos ........................................................... 133 SUM�RIO?7 INTRODU��O Uma observa��o dolorosa surpreende o pensador na velhice. Ela se torna ainda mais lastim�vel em conseq��ncia das impress�es experimentadas em seu giro pelo mundo es-piritual, e ele ent�o reconhece que o ensina-mento ministrado pelas institui��es humanas em geral � religi�es, escolas, universidades �, se nos ensinam muitas coisas sup�rfluas, em compensa��o n�o nos ensinam quase nada do que mais temos necessidade de conhecer para a nossa conduta: a dire��o da exist�ncia terrestre e a prepara��o para o al�m. Aqueles a quem cabe a alta miss�o de esclarecer e guiar a alma humana parecem ignorar sua natureza e seus verdadeiros destinos. Nos meios universit�rios, uma completa incerteza ainda reina sobre a solu��o do problema mais importante com que o homem se defronta no decorrer de sua passagem pela Terra. Essa incerteza se reflete em todo o ensino. Uma boa parte dos professores e pedagogos afasta sistematicamente de suas li��es tudo o que se refere ao problema da vida, �s quest�es de seu objetivo e finalidade. Encontramos a mesma dificuldade nos l�deres religiosos. Por suas afirma��es desprovidas de provas, conseguem comunicar �s almas sobre as quais t�m responsabilidade apenas uma cren-�a que n�o responde mais � l�gica de uma cr�tica s� nem �s exig�ncias da raz�o. A rigor, na universidade, assim como na Igreja, modernamente a alma encontra somente obscuridade e contradi��o em tudo que diz respeito ao problema de sua natureza e de seu futuro. � a esse estado de coisas que � preciso atribuir, em grande parte, os males Apesar de ter sido escrito em 1908, o leitor notar� ao longo deste e dos demais livros desta cole��o que o autor estava t�o bem assessorado pela espiritualidade que esta obra � t�o atual quanto se ti-vesse sido escrita nos dias de hoje. Esta introdu��o � a mesma para os tr�s volumes da Cole��o L�on Denis (O pro-blema do ser, O pro-blema do destino e O problema da dor).?L�ON DENIS 8 * Carl du Prel (1839-1899): destacado fil�sofo alem�o e um dos importantes pensadores modernos, grande defensor das id�ias esp�ritas no seu tempo contra os materialistas. Deixou muitas obras publicadas (Nota do Editor). 1 - Carl du Prel. La mort et l�au-del� (A morte e o al�m). 2 - Petit Journal, �Cr�nica�, 7 de mar�o de 1894. 3 - A prop�sito dos exames universit�rios, M. Ducros, sub-reitor da Faculdade de Aix, escreveu no Journal des D�bats (Jornal dos Debates), em 3 de maio de 1912: �Parece que existe entre o disc�pulo e as coisas como que um anteparo, n�o sei que nuvem de palavras aprendidas, fatos dispersos e opacos. � sobretudo na filosofia que se prova esta triste impress�o�. ** Augusto Comte (franc�s), J.G. Friedrich Hegel (alem�o), J. Stuart Mill (ingl�s) e Victor Cousin (franc�s): fil�sofos de grande influ�ncia. Positivismo, naturalismo e materialismo s�o doutrinas filos�ficas; ecletismo � um m�todo que consiste em reunir teses de dou-trinas diversas (N.E.). de nosso tempo: a incoer�ncia das id�ias, a desordem da consci�ncia, a anarquia moral e social. A educa��o dispensada �s gera��es � complicada: n�o lhes esclarece o caminho da vida e n�o as estimula para as lutas da exist�ncia. O ensino cl�ssico habilita a cultivar, a ornar a intelig�n-cia, mas n�o ensina a agir, a amar, a se dedicar nem a alcan�ar uma concep��o do destino que desenvolva as energias profun-das do eu e oriente nossos impulsos, nossos esfor�os, para um objetivo elevado. No entanto, essa concep��o � indispens�vel a todo ser, a toda sociedade, porque � o sustent�culo, a consola��o suprema nas horas dif�ceis, a fonte das virtudes atuantes e das altas inspira��es. Carl du Prel* relata o seguinte fato 1 : �Um dos meus amigos, professor da universidade, sentiu a dor de perder sua filha, o que reavivou nele o problema da imorta- lidade. Ele se dirigiu aos seus colegas, professores de filosofia, esperando encontrar consola��o em suas respostas. Teve uma amarga decep��o: havia pedido p�o e lhe ofereciam pedra; pro- curava uma afirma��o e respondiam-lhe com um �talvez�.� Francisque Sarcey, modelo completo do professor da uni-versidade, escreveu 2 : �Estou na Terra. Ignoro absolutamente como vim e como fui lan�ado aqui. Ignoro ainda mais como sairei daqui e o que acontecer� quando sair�. N�o se pode confessar mais francamente: a filosofia da es-cola, ap�s tantos s�culos de estudo e trabalho, ainda � apenas uma doutrina sem luz, sem calor, sem vida 3 . A alma de nossos filhos, sacudida entre sistemas diversos e contradit�rios � o positivismo de Augusto Comte, o naturalismo de Hegel, o materia-lismo de Stuart Mill, o ecletismo de Cousin**, etc. �, flutua incerta, sem ideal, sem um objetivo preciso.?O PROBLEMA DO DESTINO 9 4 - �tude critique du mat�rialisme et du spiritualisme, pour la physique exp�rimentale (Estudo cr�tico do materialismo e do espiritualismo pela f�sica experimental). * Friedrich Myers (1834-1901): professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra). Seus estudos contribu�ram para o entrela�amento da ci�ncia com a id�ia de um Criador. No meio cient�fico defendeu postulados esp�ritas, como as vidas sucessivas e a reencar-na��o. Ferrenho opositor do materialismo, � considerado uma das intelig�ncias brilhan-tes de sua �poca (N.E.). 5 - F. Myers. Human personality (Personalidade humana). ** O autor, ao usar o termo al�m-Reno, refere-se � Alemanha (N.E.). *** Nietzsche, Schopenhauer, Haeckel: os dois primeiros fil�sofos e o �ltimo bi�logo alem�es (N.E.). Note que, apesar de este livro ter sido escrito no in�cio do s�culo 20 (a 1� edi��o � de 1908), o assunto ainda � bastante atual nos dias de hoje. Da� o des�nimo precoce e o pessimismo desanimador, doen�as das sociedades deca-dentes, amea�as terr�veis para o futuro, �s quais se acrescenta o ceticismo amargo e zom-beteiro de tantos jovens que acreditam ape-nas no dinheiro e honram apenas o sucesso. O ilustre professor Raoul Pictet assinala esse estado de esp�-rito na introdu��o de sua �ltima obra sobre as ci�ncias ps�quicas 4 . Ele fala do efeito desastroso produzido pelas teorias materialistas sobre a mentalidade de seus alunos e conclui assim: �Esses pobres jovens admitem que tudo o que se passa no mundo � efeito necess�rio e fatal de condi��es prim�rias, em que a vontade n�o interv�m. Consideram que sua pr�pria exis- t�ncia �, for�osamente, joguete da fatalidade inevit�vel, � qual est�o ligados, de p�s e m�os atados. Esses jovens param de lutar logo que encontram as primeiras dificuldades. N�o acreditam mais em si mesmos. Tornam-se t�mulos vivos, onde guardam, confusamente, suas esperan�as, seus esfor�os, seus desejos, fossa comum de tudo o que lhes fez bater o cora��o at� o dia do envenenamento. Tenho visto esses cad�veres diante de suas carteiras e no laborat�rio, e t�m-me causado pena.� Tudo isso n�o � somente aplic�vel a uma parte de nossa juventude, mas tamb�m a muitos homens de nosso tempo e de nossa gera��o, nos quais podemos constatar um sintoma de can-sa�o moral e de abatimento. F. Myers* tamb�m o reconhece: �H� como que uma inquietude, um descontentamento, uma falta de confian�a no verdadeiro va- lor da vida. O pessimismo � a doen�a moral de nosso tempo 5 �. As teorias de al�m-Reno**, as doutrinas de Nietzsche, de Schopenhauer, Haeckel***, dentre outros, muito contribu�ram para desenvolver esse estado de coisas. Sua influ�ncia se espalha por toda parte. Deve-se atribuir a eles, em grande parte, esse?L�ON DENIS 10 lento trabalho, obra obscura de ceticismo e desencorajamento que se desenvolve na alma contempor�nea. � tempo de reagir com vigor contra essas doutrinas funestas e de procurar, fora da �rbita oficial e das velhas cren�as, novos m�todos de ensino que respondam �s imperiosas necessidades do momento presente. � preciso preparar os esp�ritos para as necessidades, os combates da vida atual e das vidas futuras; � preciso, sobretudo, ensinar o ser humano a se conhecer, a de-senvolver, em vista de seus objetivos, as for�as latentes que nele dormem. At� aqui, o pensamento esteve limitado a c�rculos estreitos: religi�es, escolas ou sistemas que se digladiam e se combatem reciprocamente. Da� essa divis�o profunda das id�ias, essas correntes violentas e contr�rias que perturbam e transtornam o meio social. Aprendamos a sair desses c�rculos r�gidos e a dar livre expans�o ao pensamento. Cada sistema cont�m uma parte de verdade; nenhum cont�m a realidade por completo. O universo e a vida possuem aspectos bastante variados, bastante numerosos para que algum sistema possa abarcar todos. Dentre essas concep��es absurdas, � preciso recolher os fragmentos de verdade que elas cont�m, aproxim�-los e coloc�-los de acordo. Depois, unindo-os aos novos e m�ltiplos aspectos da verdade que descobrimos a cada dia, caminharmos rumo � unidade majestosa e � harmonia do pensamento. A crise moral e a decad�ncia de nossa �poca prov�m, em grande parte, do fato de o esp�rito humano ter se imobilizado durante muito tempo. � preciso tir�-lo da in�rcia, das rotinas se-culares, lev�-lo �s mais elevadas altitudes, sem perder de vista as bases s�lidas que v�m oferecer-lhe uma ci�ncia engrandecida e renovada. � essa ci�ncia do amanh� que trabalhamos para que seja constitu�da. Ela nos fornecer� o crit�rio indispens�vel, os meios de verifica��o e de compara��o sem os quais o pensamen-to, entregue a si mesmo, sempre correr� o risco de se perder. * A perturba��o e a incerteza que verificamos no ensino reper-cutem e se encontram, como dissemos, em toda ordem social. Por toda parte, h� um estado de crise inquietante. Sob a superf�cie brilhante de uma civiliza��o refinada, esconde-se um mal-estar profundo. A irrita��o cresce nas classes sociais. O con-flito de interesses, a luta pela vida tornam-se, dia a dia, mais �speros. O sentimento do dever tem-se enfraquecido na cons-ci�ncia popular a tal ponto que muitos homens nem mesmo?O PROBLEMA DO DESTINO 11 * Ret�rico: nesse caso, orador que faz discurso pomposo e sem conte�do (N.E.). sabem onde est� o dever. A lei do n�mero, ou seja, da for�a cega, domina mais do que nunca. Ret�ricos* mentirosos dedicam-se a desencadear as paix�es, os maus instintos da multid�o, a espa-lhar teorias nocivas, �s vezes criminosas. Depois, quando a mar� sobe e o vento sopra em tempestade, eles se escondem e afas-tam de si toda responsabilidade. Onde est�, ent�o, a explica��o desse mist�rio, dessa con-tradi��o not�vel entre as aspira��es generosas de nosso tempo e a realidade brutal dos fatos? Por que um regime que havia des-pertado tantas esperan�as amea�a chegar � anarquia, � ruptura de todo o equil�brio social? A implac�vel l�gica vai nos responder: a democracia, radical ou socialista, nas massas profundas e em seu esp�rito dirigente, inspirando-se nas doutrinas negativistas, podia chegar somente a um resultado negativo para a felicidade e a eleva��o da huma-nidade. Tal o ideal, tal o homem; tal a na��o, tal o pa�s! As doutrinas negativistas, em suas conseq��ncias extremas, levam fatalmente � anarquia, ou seja, ao v�cuo, ao nada social. A hist�ria humana j� teve, diversas vezes, essa dolorosa ex-peri�ncia. Enquanto se tratou de destruir os restos do passado, de dar o �ltimo golpe nos privil�gios que restavam, a democracia ser-viu- se habilmente de seus meios de a��o. Por�m, hoje, o que importa � construir a cidade do futuro, o vasto edif�cio que deve abrigar o pensamento das gera��es. E, diante dessas tarefas, as doutrinas mostram sua insufici�ncia e revelam sua fragilidade; vemos os melhores oper�rios se debaterem em uma esp�cie de impot�ncia material e moral. Nenhuma obra humana pode ser grande e dur�vel se n�o se inspirar, na teoria e na pr�tica, em seus princ�pios e em suas aplica��es, nas leis eternas do universo. Tudo o que � concebido e edificado fora das leis superiores se constr�i na areia e afunda. Acontece que as doutrinas do socialismo atual t�m um erro essencial. Elas querem impor uma regra em contradi��o com a natureza da verdadeira lei da humanidade: o n�vel igualit�rio. A evolu��o gradual e progressiva � a lei fundamental da natu-reza e da vida. � a raz�o de ser do homem, a norma do universo. Posicionar-se contra ela, substituir-lhe por outro fim, seria t�o insensato quanto querer parar o movimento da Terra ou o fluxo e refluxo das mar�s.?L�ON DENIS 12 * Despotismo: sistema de governo que se funda no poder de domina��o sem freios (N.E.). ** Niilismo metaf�sico: doutrina materialista segundo a qual s� haver� progresso e avan�o para o homem ap�s a destrui��o social dos conhecimentos ligados � cren�a, que se baseiam em um poder criador de onde derivam a vida e todas as coisas (N.E.). O lado mais fraco da doutrina socialista � a ignor�ncia abso-luta do homem, de seu princ�pio essencial, das leis que dirigem o seu destino. E quando se ignora o homem individual, como se poderia governar o homem social? A origem de todos os nossos males est� em nossa falta de saber e em nossa inferioridade moral. Toda sociedade permane-cer� fraca e dividida enquanto a desconfian�a, a d�vida, o ego�s-mo, a inveja e o �dio a dominarem. N�o se transforma uma so-ciedade por meio das leis. As leis e as institui��es n�o seriam nada sem os costumes, sem as cren�as elevadas. Quaisquer que sejam a forma pol�tica e a legisla��o de um povo, se ele pos-sui bons costumes e convic��es firmes, ser� sempre mais feliz e mais poderoso do que um outro povo de moralidade inferior. Para melhorar a forma de uma sociedade, sendo ela o resul-tado das for�as individuais, boas ou m�s, � preciso agir inicial-mente sobre a intelig�ncia e a consci�ncia dos indiv�duos. Por�m, para a democracia socialista, o homem interior, o homem da consci�ncia individual, n�o existe; a coletividade o absorve por completo. Os princ�pios que adota n�o passam de uma nega��o de toda filosofia elevada e de toda causa superior. N�o se procura outra coisa a n�o ser conquistar direitos. Entre-tanto, o gozo dos direitos n�o pode ser obtido sem a pr�tica dos deveres. O direito sem o dever, que o limita e o corrige, produz apenas novas afli��es, novos sofrimentos. Eis por que o impulso formid�vel do socialismo n�o faz nada mais do que deslocar os apetites, as ambi��es, as causas das doen�as e substituir as opress�es do passado por um despotis-mo* novo, ainda mais intoler�vel. Vemos isso no exemplo da R�ssia. J� podemos medir a extens�o dos desastres causados pelas doutrinas negativistas. O determinismo, o materialismo, ao negar a liberdade humana e a responsabilidade, minam as pr�prias bases da �tica universal. O mundo moral n�o passa de um anexo da fisiologia, ou seja, o reinado, a manifesta��o da for�a cega e irrespons�vel. Os esp�ritos de elite professam o niilismo metaf�sico**, e a massa humana, o povo, sem cren�as, sem prin-c�pios determinados com exatid�o, fica entregue a homens que exploram suas paix�es e especulam com suas ambi��es.?O PROBLEMA DO DESTINO 13 * Positivismo: doutrina filos�fica do franc�s Augusto Comte (1798�1875) baseada na investiga��o cient�fica. Ensina que � pelo conhecimento cient�fico (aplica��o da ci�n-cia) que se resolvem os problemas sociais. Essa filosofia teve, de in�cio, grande influ�ncia sobre os militares, pol�ticos e intelectuais brasileiros no s�culo 18. A divisa �Ordem e Progresso�, da bandeira brasileira, � um conceito da filosofia positivista. Do positivismo deriva o que conhecemos hoje como sociologia (N.E.). ** Dogma: ensinamento, conceito ou regra formulada por dirigente religioso ou associa-��o religiosa por meio do qual se imp�em aos seus seguidores de forma autorit�ria e indiscut�vel as regras de conduta e sua maneira de interpretar os textos sagrados (N.E.). O positivismo*, apesar de ser menos absoluto, n�o � menos prejudicial em suas conseq��ncias. Por sua teoria do desconhe-cido, suprime as no��es de objetivo e de larga evolu��o. Ele pega o homem na fase atual de sua vida, simples fragmento de seu destino, e o impede de ver para diante e para tr�s de si; m�todo est�ril e perigoso, feito, parece, para cegos de esp�rito e que se tem proclamado, muito falsamente, como a mais bela conquista do esp�rito moderno. Esse � o estado atual da sociedade. O perigo � imenso e se alguma grande renova��o espiritualista e cient�fica n�o se pro-duzisse, o mundo acabaria na incoer�ncia e na confus�o. Nossos homens de governo j� sentem o que lhes custa viver numa sociedade em que as bases essenciais da moral est�o aba-ladas, em que as leis s�o brandas, fr�geis ou superficiais, em que tudo se confunde, at� mesmo a no��o elementar do bem e do mal. � verdade que as Igrejas, apesar de suas f�rmulas antiqua-das e de seu esp�rito contr�rio ao progresso, ainda agrupam ao redor de si muitas almas sens�veis; por�m, tornaram-se incapa-zes de afastar o perigo pela impossibilidade em que se colocaram de fornecer uma defini��o precisa do destino humano e do al�m, apoiada em fatos comprovados. A humanidade, cansada de dogmas** e de especula��es sem provas, mergulhou no materialismo ou na indiferen�a. N�o h� sal-va��o para o pensamento, sen�o por uma doutrina baseada na experi�ncia e no testemunho dos fatos. De onde vir� essa doutrina? Que poder nos livrar� do abismo em que nos arrastamos? Que ideal novo vir� dar ao homem a confian�a no futuro e o fervor pelo bem? Nas horas tr�gicas da Hist�ria, quando todos pareciam desesperados, o socorro nunca faltou. A alma humana n�o pode afundar inteiramente e morrer. No momento em que as cren�as do passado se esgotam, uma concep��o nova da vida e do destino, baseada na ci�ncia dos fatos, reaparece. A grande tradi��o revive sob formas engran-decidas, mais jovens e mais belas. Ela mostra a todos um futuro?L�ON DENIS 14 * Plenitude: qualidade daquilo que � completo, inteiro (N.E.). ** Sinuosidade: que apresenta curvas irregulares. Nesse caso, que n�o se manifesta com franqueza (N.E.). cheio de esperan�a e de promessas. Saudemos o novo reino da id�ia vitoriosa da mat�ria e trabalhemos para preparar seus caminhos! A tarefa a cumprir � grande, e a educa��o do homem deve ser totalmente refeita. Essa educa��o, como vimos, nem a uni-versidade nem a Igreja est�o em condi��es de fornecer, uma vez que n�o possuem mais as s�nteses necess�rias para escla-recer a marcha das novas gera��es. Apenas uma doutrina pode oferecer essa s�ntese: a do Espiritismo; ela j� sobe no horizonte do mundo intelectual e parece iluminar o futuro. A essa filosofia, a essa ci�ncia livre, independente, desprovida de toda press�o oficial, de todo compromisso pol�tico, as desco-bertas contempor�neas trazem a cada dia novas e preciosas con-tribui��es. Os fen�menos do magnetismo, da radioatividade, da telepatia s�o aplica��es de um mesmo princ�pio, manifesta��es de uma mesma lei que rege, ao mesmo tempo, o ser e o universo. Mais alguns anos de trabalho paciente, de experimenta��o conscienciosa, de pesquisas cont�nuas e a nova educa��o ter� encontrado sua f�rmula cient�fica, sua base essencial. Esse acon-tecimento ser� o maior fato da Hist�ria desde o aparecimento do Cristianismo. A educa��o, sabemos, � o fator mais poderoso do progres-so; ela cont�m a origem do futuro. Mas, para ser completa, deve se inspirar no estudo da vida sob suas duas formas alternantes, vis�vel e invis�vel, em sua plenitude*, em sua evolu��o crescente em dire��o aos cimos da natureza e do pensamento. Os mestres dirigentes da humanidade t�m um dever imediato a cumprir. � o de recolocar o espiritualismo na base da educa-��o, de trabalhar para refazer o homem interior e a sa�de moral. � preciso despertar a alma humana, adormecida por uma teoria destrutiva, mostrar-lhe seus poderes ocultos, faz�-la ter consci�n-cia de si mesma, para realizar seu glorioso destino. A ci�ncia moderna analisou o mundo exterior; suas des-cobertas no universo objetivo s�o profundas: isso ser� sua honra e sua gl�ria; mas ainda n�o sabe nada sobre o universo invis�vel e o mundo interior. � esse o imp�rio ilimitado que lhe resta conquistar. Saber por quais la�os o homem se liga ao conjunto, descer �s sinuosidades** misteriosas do ser, onde a?O PROBLEMA DO DESTINO 15 Quando L�on Denis escreveu este livro, ele se referia ao s�culo que se iniciava. Realmente, houve a expans�o de v�rios setores, principalmente da ci�ncia e da tecnologia. O Espiritismo, por sua vez, encontrou no Brasil terreno prop�cio para se desenvolver. Estamos para iniciar um novo s�culo, que ser� o s�culo da descoberta da espiritualidade. * No seu livro A Rep�blica, Plat�o desenvolve a id�ia de O mito da caverna, na qual um espectador, apreciando as imagens refletidas no fundo da caverna onde est�, julga ver o que � real, quando o que de fato v� s�o imagens que v�m de um mundo exterior, que ele n�o v�. A vida na Terra seria, assim, a imagem refletida na parede do fundo da caverna, onde n�s estamos vivendo; � ilus�ria. E a vida real � a do Esp�rito, que n�s n�o vemos, mas que existe (N.E.). sombra e a luz se misturam como na caverna de Plat�o*, percor-rer seus labirintos, os redutos secretos, procurar conhecer o �eu� moral e o �eu� profundo, a consci�ncia e a subconsci�ncia: n�o h� estudo mais necess�rio que esse. Enquanto as escolas e as academias n�o o tiverem introduzido em seus pro-gramas, nada ter�o feito pela educa��o definitiva da humanidade. Por�m, j� vemos surgir e constituir-se uma psicologia totalmente maravilhosa e imprevista, da qual v�o derivar uma nova concep��o do ser e a no��o de uma lei superior, que engloba e resolve todos os problemas da evolu��o e do futuro. * Um tempo se acaba; novos tempos se anunciam. A hora em que estamos � de crise, de parto doloroso. As formas esgotadas do passado empalidecem e se desfazem para dar lugar a outras, de in�cio vagas e confusas, mas que se definem cada vez mais. Nelas se esbo�a o pensamento crescente da humanidade. O esp�rito humano est� em trabalho, por toda parte, sob a aparente decomposi��o das id�ias e dos princ�pios. Em tudo, na ci�ncia, na arte, na filosofia e at� mesmo no seio das religi�es, o observador atento pode constatar que uma lenta e trabalhosa gesta��o se faz. A ci�ncia, especialmente, lan�a em abund�ncia sementes de ricas promessas. O s�culo que come�a ser� o de poderosas descobertas. As formas e as concep��es do passado, diz�amos, n�o s�o suficientes. Por mais respeit�vel que pare�a essa heran�a, ape-sar do sentimento piedoso com que se podem considerar os ensinamentos legados por nossos pais, sente-se, geralmente, compreende-se, que eles n�o foram suficientes para desfazer o mist�rio sufocante do porqu� da vida. Entretanto, atualmente, pode-se viver e agir com mais inten-sidade do que nunca. Mas � poss�vel viver e agir plenamente sem ter consci�ncia do objetivo a ser atingido? O estado da alma contempor�nea pede, reclama, uma ci�ncia, uma arte, uma reli-?L�ON DENIS 16 gi�o de luz e liberdade que venham dissipar-lhe as d�vidas, libert�-la das velhas servid�es e das mis�rias do pensamento, gui�-la para os horizontes radiosos aonde se sente levada por sua pr�pria natureza e pelo impulso de for�as irresist�veis. Muito se fala sobre progresso, mas o que se entende por progresso? � uma palavra vazia e sonora na boca dos oradores, para a maior parte dos materialistas, ou possui um sentido deter-minado? Vinte civiliza��es passaram sobre a Terra, iluminando com suas luzes a marcha da humanidade. Seus grandes focos brilharam na noite dos s�culos e depois se apagaram. E o homem ainda n�o distingue, atr�s dos horizontes limitados de seu pensamento, o al�m sem limites para onde o destino o leva; sem condi��es de solucionar o mist�rio que o rodeia, usa sua for�a nas obras da Terra e foge aos esplendores de sua tarefa espiritual, que far� sua verdadeira grandeza. A f� no progresso n�o caminha sem a f� no futuro, no futuro de cada um e de todos. Os homens s� progridem e s� avan�am se acreditarem nesse futuro e se marcharem com confian�a, com certeza, para o ideal entrevisto. O progresso n�o consiste somente nas obras materiais, na cria��o de m�quinas poderosas e de todo equipamento indus-trial; n�o consiste, igualmente, em descobrir processos novos de arte, de literatura ou de formas de eloq��ncia. Seu objetivo mais alto � agarrar, atingir a id�ia primordial, a id�ia-m�e que fecundar� toda a vida humana, a fonte elevada e pura de onde derivar�o, ao mesmo tempo, as verdades, os princ�pios, os sen-timentos que inspirar�o as obras importantes e as nobres a��es. � tempo de compreend�-lo: a civiliza��o s� poder� engran-decer- se, a sociedade s� poder� subir se um pensamento sempre mais elevado, se uma luz mais viva vierem inspirar, esclarecer os esp�ritos e tocar os cora��es, renovando-os. Somente a id�ia e o pensamento levam � a��o. Somente a vontade de realizar a plenitude do ser, cada vez melhor, cada vez maior, pode nos conduzir aos cimos long�nquos em que a ci�ncia, a arte e toda obra humana, em uma palavra, encontrar�o sua expans�o, sua regenera��o. Tudo nos diz isso: o universo � regido pela lei de evolu��o; � isso o que entendemos pela palavra progresso. E n�s mesmos, em nosso princ�pio de vida, em nossa alma e nossa consci�ncia, estamos sempre submetidos a essa lei. N�o se pode desconhe-cer hoje essa for�a soberana que conduz a alma e suas obras atrav�s do infinito do tempo e do espa�o, rumo a um objetivo?O PROBLEMA DO DESTINO 17 * Sud�rio: esp�cie de len�ol com o qual antigamente se envolviam os corpos dos mortos para o sepultamento. Mortalha (N.E.). sempre mais elevado; mas uma lei assim s� pode concretizar-se por nossos esfor�os. Para fazer obra �til, para cooperar com a evolu��o geral e recolher dela todos os frutos, � preciso antes aprender a distin-guir, a reconhecer a raz�o, a causa e o objetivo dessa evolu��o, saber aonde ela conduz, a fim de participar, na plenitude das for�as e das faculdades que dormem em n�s, dessa ascens�o grandiosa. Nosso dever � o de tra�ar o caminho � humanidade futura da qual ainda faremos parte integrante, como nos ensina a comu-nh�o das almas, a revela��o dos grandes instrutores invis�veis, do mesmo modo que a natureza ensina, por suas milhares de vozes e pela renova��o eterna de todas as coisas, �queles que sabem estud�-la e compreend�-la. Vamos rumo ao futuro, rumo � vida sempre renascente, pelo caminho imenso que nos abre o Espiritismo! Tradi��es, ci�ncias, filosofias, religi�es, iluminai-vos com uma chama nova; sacudi vossos velhos sud�rios* e as cinzas que os cobrem. Escutai as vozes reveladoras do t�mulo, elas nos trazem uma renova��o do pensamento com os segredos do al�m, que o homem tem necessidade de conhecer para melhor viver, melhor agir e melhor morrer! L�ON DENIS?O PROBLEMA DO DESTINO 19 O PROBLEMA DO DESTINO O PROBLEMA DO DESTINO A S VIDAS SUCESSIVAS. � A REENCARNA��O E SUAS LEIS 1 Ap�s residir temporariamente no mundo espiritual, a alma renasce na condi��o humana, trazendo a heran�a, boa ou m�, de seu passado 6 . Renasce criancinha, reaparece na cena terrestre para representar um novo ato do drama de sua vida, resgatar suas d�vidas anteriores, conquistar novas capacidades que facilitar�o sua evolu��o e acelerar�o sua marcha para a frente. A lei do renascimento explica e completa o princ�pio da imor-talidade. A evolu��o do ser indica um plano e um objetivo: esse objetivo, que � a perfei��o, n�o poderia se realizar em apenas uma �nica exist�ncia, por mais longa e frut�fera que fosse. Deve-mos ver na pluralidade da vida da alma a condi��o necess�ria de sua educa��o e de seus progressos. � por meio de seus pr�prios esfor�os, lutas e sofrimentos que ela se liberta de seu estado de ignor�ncia e de inferioridade e se eleva, de degrau em degrau, inicialmente na Terra, e depois nas in�meras moradas do c�u estrelado. A reencarna��o, afirmada pelas vozes de al�m-t�mulo, � a �nica forma racional pela qual se podem admitir a repara��o das faltas cometidas e a evolu��o gradual dos seres. Sem ela, n�o se v� nenhuma justificativa ou raz�o moral satisfat�ria e completa ou 6 � O tempo de perman�ncia na espiritualidade � muito vari�vel, segundo o estado de adiantamento do esp�rito. Pode levar muitos anos. Em geral, os esp�ritos de uma mesma fam�lia se entendem para reencarnarem juntos e constitu�rem grupos semelhan-tes na Terra.?L�ON DENIS 20 * Inata: que nasce com o indiv�duo (N.E.). possibilidade da exist�ncia de um ser que governe o universo com justi�a. Se admitirmos que o homem vive atualmente pela primeira e �nica vez neste mundo, que apenas uma s� exist�ncia � a parcela de cada um de n�s, seria preciso reconhecer que a incoe-r�ncia e a parcialidade � que decidem a reparti��o dos bens e dos males, das aptid�es e das faculdades ou dons, das qualida-des inatas* e dos v�cios originais. Por que para uns a fortuna, a felicidade constante, e para outros a mis�ria, a infelicidade inevit�vel? Para aqueles a sa�de, a beleza e para estes a doen�a, a fei�ra? Por que de um lado a intelig�ncia e o g�nio e do outro a imbecilidade? Por que tantas qualidades morais admir�veis se encontram ao lado de tantos v�cios e defeitos? Por que ra�as t�o diversas, algumas t�o atra-sadas, a ponto de parecerem confinadas � animalidade, e outras favorecidas com os dons que lhes asseguram superioridade? E as enfermidades de nascen�a, a cegueira, a defici�ncia mental, as deformidades, todos os infort�nios que enchem os hospitais, os albergues noturnos, as casas de corre��o? A hereditariedade n�o explica tudo. Na maior parte dos casos, essas afli��es n�o podem ser consideradas o resultado de causas atuais. O mesmo acon-tece com os favores da sorte. Muitas vezes, os justos parecem esmagados pelo peso da prova, enquanto os ego�stas e os maus prosperam. Por que das crian�as morrem antes de nascer e outras s�o condenadas a sofrer desde o ber�o? Certas exist�ncias acabam em poucos anos, em poucos dias; outras duram quase um s�culo. E de onde v�m os jovens prod�gios: m�sicos, pintores, poetas, todos aqueles que, desde a inf�ncia, mostram aptid�es extraor-din�rias para as artes ou as ci�ncias, enquanto tantos outros per-manecem med�ocres por toda a vida, apesar do esfor�o insano? E igualmente os instintos precoces, os sentimentos inatos de dignidade ou de baixeza, contrastando �s vezes t�o estranha-mente com o meio em que se manifestam? Se a vida come�a somente com o nascimento terrestre; se, antes dele, nada existe para cada um de n�s, em v�o poder�o ser explicadas diversidades t�o dolorosas, essas enormes ano-malias, e ainda menos concili�-las com a exist�ncia de um poder s�bio, previdente, justo. Todas as religi�es, todos os sistemas filos�ficos contempor�neos vieram esbarrar nesse problema. Ne-nhum deles p�de resolv�-lo. Considerado do ponto de vista deles,?O PROBLEMA DO DESTINO 21 que consiste em uma �nica exist�ncia para cada ser humano, o destino permanece incompreens�vel, o plano do universo se obscure-ce, a evolu��o p�ra, o sofrimento se torna inexplic�vel. O homem, levado a crer na a��o das for�as cegas e fatais, na aus�ncia de toda justi�a distributiva, cai insensivelmente no ate�smo e no pessimismo. Pelo contr�rio, tudo se explica, tudo se esclarece pela doutrina das vidas sucessivas. A lei de justi�a se revela nos menores detalhes da exist�ncia. As desigualdades que nos chocam resul-tam das diferentes situa��es vividas pelas almas nos seus graus infinitos de evolu��o. O destino do ser � apenas o desenvolvi-mento, no decorrer das idades, da longa s�rie de causas e efeitos originados por seus atos. Nada se perde; os efeitos do bem e do mal se acumulam e germinam em n�s at� o momento favor�vel ao seu desabrochar. �s vezes, expandem-se com rapidez; outras, depois de longo per�odo, transmitem-se, repercutem de uma exis-t�ncia para a outra, dependendo do momento em que s�o ativados ou retardados pelas influ�ncias do ambiente; mas nenhum desses efeitos pode desaparecer por si mesmo. Apenas a repara��o pode extingui-los. Cada um leva para a outra vida e traz, ao nascer, a semente do passado. Essa semente, de acordo com a sua natureza, para nossa felicidade ou infelicidade, ir� espalhar seus frutos sobre a nova vida que come�a e at� mesmo sobre as sucessivas, se uma �nica exist�ncia n�o for suficiente para desfazer as conse-q��ncias m�s de nossas vidas anteriores. Ao mesmo tempo, nossos atos de cada dia, fonte de novos efeitos, v�m juntar-se �s causas antigas, atenuando-as ou agravando-as e formando com elas um encadeamento de bens ou de males que, em seu conjunto, ir�o compor a trama de nosso destino. Assim, nenhuma penaliza��o ou recompensa moral, t�o insu-ficientes e �s vezes t�o in�teis, quando examinadas do ponto de vista de uma �nica vida, reconhecem-se absolutas e perfeitas na sucess�o de nossas exist�ncias. H� uma rela��o �ntima entre nossos atos e nosso destino. Sofremos em n�s mesmos, em nosso ser interior e nos acontecimentos de nossa vida, a repercuss�o dos nossos atos. Nossa atividade, sob todas as formas, � criadora de elementos bons ou maus, de efeitos pr�-ximos ou distantes que recair�o sobre n�s como chuva, tempes-tade ou alegre claridade. O homem constr�i seu pr�prio futuro. At� aqui, na sua incerteza, na sua ignor�ncia, ele o construiu �s cegas e aceitou a sua sina sem poder explic�-la. Muito em breve, quando estiver mais esclarecido, compenetrado da majestade das?L�ON DENIS 22 leis superiores, o homem compreender� a beleza da vida que resulta do esfor�o corajoso e dar� � sua obra um impulso mais nobre e mais elevado. * A variedade infinita das aptid�es, das faculdades ou dons, dos caracteres, explica-se facilmente, diz�amos. Nem todas as almas t�m a mesma idade; nem todas subiram com o mesmo passo seus est�gios evolutivos. Umas percorreram uma carreira imensa e j� se aproximaram do apogeu do progresso terrestre; outras come�am com dificuldade seu ciclo de evolu��o no seio da humanidade. Estas s�o as almas jovens, originadas h� menos tempo do foco eterno, inesgot�vel, de onde saem incessante-mente feixes de intelig�ncias que descer�o ao mundo da mat�ria para animar as formas rudimentares da vida. Quando chegarem � humanidade, tomar�o lugar entre os povos selvagens ou entre as ra�as b�rbaras que ocupam os continentes atrasados, as regi�es deserdadas do globo. E quando, enfim, penetrarem em nossas civiliza��es, ainda ser�o reconhecidas, facilmente, pela falta de desembara�o, de jeito, pela sua incapacidade para todas as coisas, e, principalmente, por suas paix�es violentas, por seus gostos sanguin�rios e �s vezes at� mesmo por sua ferocidade. Mas essas almas n�o-evolu�das subir�o, por sua vez, a escala das gradua��es infinitas por meio de in�meras reencarna��es. Um outro elemento do problema � a liberdade de a��o do esp�rito. Para alguns, � permitido que demorem na via de evolu-��o, que percam, sem cuidado com o verdadeiro objetivo da exis-t�ncia, tantas horas preciosas � procura de riquezas e de prazer. A outros, � permitido se apressarem a trilhar os caminhos �rduos e alcan�ar rapidamente o auge do pensamento, se preferem em vez das sedu��es da mat�ria, a posse dos bens do esp�rito e do cora��o. Pertencem a esse grupo os s�bios, os g�nios e os santos de todos os tempos e de todos os pa�ses, os nobres m�rtires das causas generosas e os que consagraram vidas inteiras para acu-mular, no sil�ncio dos claustros, das bibliotecas e dos laborat�-rios, os tesouros da ci�ncia e da sabedoria humana. Todas as correntes do passado encontram-se, juntam-se e confundem-se em cada vida. Contribuem para fazer a alma gene-rosa ou mesquinha, brilhante ou obscura, poderosa ou miser�vel. Entre a maior parte de nossos contempor�neos, essas correntes s� conseguem fazer almas indiferentes, incessantemente sacu-didas entre os sopros do bem e do mal, da verdade e do erro, da paix�o e do dever.?O PROBLEMA DO DESTINO 23 Assim, no encadeamento de nossas etapas terrestres, con-tinua e completa-se a obra grandiosa de nossa educa��o, a lenta edifica��o de nossa individualidade, de nossa personalidade moral. � por essa raz�o que a alma deve encarnar sucessiva-mente nos meios mais diversos, em todas as condi��es sociais, passar alternadamente pelas provas da pobreza e da riqueza, aprender a obedecer e depois comandar. Precisa das vidas obs-curas, de trabalho e de priva��es para aprender a renunciar �s vaidades materiais, a desapegar-se das coisas fr�volas, a ter paci�ncia, a conquistar a disciplina do esp�rito. Precisa das exist�n-cias de estudo, das miss�es de dedica��o, de caridade, pelas quais a intelig�ncia se esclarece e o cora��o se enriquece de novas qualidades. Depois, vir�o as vidas de sacrif�cio, sacrif�cio pela fam�lia, pela p�tria, pela humanidade. Tamb�m ser�o necess�-rias a prova cruel, fornalha onde se fundem o orgulho e o ego�smo, e as etapas dolorosas que s�o o resgate do passado, a repara��o de nossas faltas, a forma pela qual a lei de justi�a se cumpre. O esp�rito retempera-se, aperfei�oa-se, purifica-se na luta e no sofrimento. Ele volta a expiar no pr�prio meio onde se tornou culpado. Acontece que, �s vezes, as provas fazem de nossa exist�ncia um calv�rio, mas esse calv�rio � uma subida que nos aproxima dos mundos felizes. Portanto, n�o existe fatalidade. � o homem, por sua pr�pria vontade, quem forja suas pr�prias cadeias; � quem tece, fio por fio, dia a dia, desde seu nascimento at� a morte, a rede de seu destino. A lei de justi�a, no fundo, n�o � nada mais do que a lei de harmonia. Ela determina as conseq��ncias dos atos que praticamos livre-mente. N�o castiga nem recompensa, mas preside simplesmente � ordem, tanto do equil�brio do mundo moral quanto do mundo f�sico. Todo dano causado � ordem universal acarreta causas de sofrimento e uma repara��o necess�ria, at� que, por meio dos cuidados do culpado, a harmonia violada seja restabelecida. O destino n�o tem outra regra a n�o ser a do bem e a do mal praticados. Sobre todas as coisas, uma grande e poderosa lei exer-ce influ�ncia, em virtude da qual cada ser vivo no universo s� pode desfrutar de uma situa��o que seja proporcional aos seus m�ritos. Nossa felicidade, apesar das apar�ncias enganadoras, est� sem-pre em rela��o direta com nossa capacidade para o bem. E essa lei encontra sua total aplica��o nas reencarna��es da alma; � ela que determina as condi��es de cada renascimento e tra�a as grandes linhas de nossos destinos. � por isso que os maus parecem felizes, enquanto os justos sofrem excessivamente. A hora da repara��o soou para esses e, em breve, soar� para os outros.?L�ON DENIS 24 Associar nossos atos ao plano divino, agir de acordo com a natureza, no sentido da harmonia e para o bem de todos, � prepa-rar nossa eleva��o, nossa felicidade. Agir no sentido contr�rio, fomentar a disc�rdia, incitar os apetites indecentes, trabalhar para si mesmo em detrimento dos outros, � semear para o futuro fer-mentos da dor, � nos colocar sob o dom�nio de influ�ncias que retardam nosso adiantamento e nos acorrentam por muito tempo aos mundos inferiores. � isso o que � preciso dizer, repetir e fazer penetrar no pensa-mento, na consci�ncia de todos, a fim de que o homem tenha um �nico objetivo: conquistar as for�as morais, sem as quais sempre ficar� incapaz de melhorar sua condi��o e a da humanidade! Fazendo conhecer os efeitos da lei de responsabilidade, demons-trando que as conseq��ncias de nossos atos recaem sobre n�s no decorrer do tempo, assim como a pedra lan�ada ao ar volta a cair no solo, pouco a pouco os homens ser�o levados a conformar seus procedimentos com essa lei, a edificar a ordem, a justi�a e a solidariedade no meio social. * Certas escolas espiritualistas combatem o princ�pio das vidas sucessivas e ensinam que a evolu��o da alma ap�s a morte continua a efetuar-se unicamente no plano espiritual. Outras, mesmo admitindo a reencarna��o, acreditam que ela se realiza em esferas mais elevadas; o regresso � Terra n�o lhes parece ser uma necessidade. Aos partid�rios dessas teorias, lembraremos que a encarna-��o na Terra tem um objetivo: � o aperfei�oamento do ser humano. Acontece que, dada a infinita variedade das condi��es da exis-t�ncia terrestre, seja em sua dura��o, seja em seus resultados, � imposs�vel admitir que todos os homens possam atingir um mesmo grau de perfei��o numa �nica vida. Da� a necessidade de reencarna��es sucessivas, para adquirir as qualidades neces-s�rias para ingressar em mundos mais avan�ados. O presente s� pode ser explicado pelo passado. Foi neces-s�ria uma s�rie de renascimentos terrestres para que o homem atingisse a posi��o que atualmente ocupa, e n�o parece admis-s�vel que esse ponto de evolu��o seja definitivo para nossa esfera. Nem todos os seus habitantes est�o em condi��es de se mudar depois da morte para sociedades mais perfeitas. Tudo, pelo contr�rio, indica a imperfei��o de sua natureza e a necessidade de novos trabalhos, de novas provas, para lhes completar a educa��o e lhes permitir atingir um grau superior da escala dos seres.?O PROBLEMA DO DESTINO 25 Por todos os lugares a natureza procede com sabedoria, m�todo e morosidade. Foram-lhe necess�rios muitos s�culos para elaborar a forma humana. A civiliza��o s� conseguiu firmar-se ap�s longos per�odos de barb�rie. A evolu��o f�sica e mental, o progresso moral, s�o regidos por lei id�nticas. N�o � numa �nica exist�ncia que se completam. E por que ir procurar bem longe, em outros mundos, os elementos de novos progressos, quando os encontramos por toda parte ao nosso redor? Desde a selvageria at� a civiliza��o mais requintada, nosso planeta n�o oferece um vasto campo para o desenvolvimento do esp�rito? Os contrastes, as oposi��es que a� se apresentam, sob todas as formas, o bem e o mal, o saber e a ignor�ncia, s�o outros tan-tos exemplos e ensinamentos, outras tantas causas de est�mulo. Renascer n�o � mais extraordin�rio do que nascer. A alma volta � carne para nela se submeter �s leis da necessidade. As car�ncias e as lutas da vida material s�o outros tantos incentivos que a obrigam ao trabalho, aumentam sua energia, temperam seu car�ter. Tais resultados n�o poderiam ser obtidos numa vida livre no al�m por esp�ritos jovens, de vontade vacilante. Para avan�ar, precisam da priva��o do necess�rio e de numerosas encarna-��es, no curso das quais a alma vai se concentrar, se recolher, adquirir o vigor e o impulso indispens�veis para descrever mais tarde sua imensa trajet�ria no c�u. O objetivo das encarna��es �, portanto, definitivamente a revela��o da alma para si mesma ou, antes, a sua pr�pria valori-za��o por meio do desenvolvimento constante de suas for�as, de seu conhecimento, de sua consci�ncia, de sua vontade. A alma inapta, inexperiente e nova n�o pode adquirir consci�ncia de si mesma a n�o ser pela condi��o de estar separada das outras almas, presa num corpo material. Ela constituir�, assim, um ser distinto que vai firmar a sua personalidade, ampliar sua experi�ncia, acentuar a sua marcha progressiva na raz�o direta de seus esfor�os para triunfar das dificuldades e dos obst�culos que a vida terrestre lhe semeia debaixo dos p�s. As exist�ncias planet�rias nos colocam em rela��o com toda uma ordem de coisas que constituem o plano inicial, a base de nossa evolu��o infinita; e est�o em perfeita harmonia com nosso grau de evolu��o. Mas essa ordem de coisas e a s�rie de vidas que com elas se relacionam, por mais numerosas que sejam, representam apenas uma fra��o �nfima da exist�ncia sideral, um instante na dura��o ilimitada de nossos destinos.?L�ON DENIS 26 A passagem das almas terrestres para outros mundos efe-tua- se sob o regime de certas leis. Os globos que povoam o infinito diferem entre si por sua natureza e densidade. O envolt�rio flu�dico das almas s� pode adaptar-se a esses novos meios por condi��es especiais de purifica��o. � imposs�vel para os esp�ritos atrasados, em sua vida de erraticidade*, penetrar nos mundos elevados e descrever suas belezas aos nossos m�diuns. A mes-ma dificuldade se encontra, em grau maior, quando se trata da reencarna��o nesses mundos. As sociedades que os habitam, por seu estado de superioridade, s�o inacess�veis � imensa maioria de esp�ritos terrestres, ainda muito grosseiros, insuficien-temente evolu�dos. Os sentimentos ps�quicos desses �ltimos, muito pouco apurados, n�o lhes permitiriam viver da vida sutil que reina nessas esferas distantes. L�, seriam como cegos na luz ou surdos em um concerto. A atra��o que encadeia seus corpos flu�dicos ao planeta liga seu pensamento e sua consci�ncia �s coisas inferiores. Seu desejo, seu apetite, seu �dio, at� mesmo seu amor, fazem com que voltem para este mundo e que se liguem ao objeto de sua paix�o. � preciso aprendermos inicialmente a desatar os la�os que nos amarram � Terra, para em seguida levantarmos v�o para mundos mais avan�ados. Arrancar as almas terrestres do seu meio antes de terem alcan�ado a evolu��o especial para esse meio, faz�-los transmigrar para esferas superiores, antes da reali-za��o do progresso necess�rio, seria perder a l�gica e o com-passo. A natureza n�o procede dessa maneira. Sua obra se desenrola, majestosa e com harmonia, em todas as suas fases. Os seres cujas leis dirigem sua ascens�o s� abandonam o cam-po de a��o em que vivem ap�s terem adquirido as virtudes e as pot�ncias capazes de dar acesso a um dom�nio mais elevado da vida universal. * A quais regras o retorno da alma � carne est� sujeito? �s regras da atra��o e da afinidade. Quando um esp�rito encarna, � atra�do para um meio de acordo com suas tend�ncias, seu car�ter, seu grau de evolu��o. As almas seguem umas �s outras e encarnam em grupos. Elas constituem fam�lias espirituais, cujos membros s�o unidos por la�os ternos e fortes, contra�dos durante exist�ncias percorridas em comum. �s vezes esses esp�ritos * Erraticidade: per�odo em que o Esp�rito desencarnado, no plano espiritual, aguarda uma nova oportunidade para reencarnar. Leia sobre o assunto em O Livro dos Esp�ritos, parte segunda, cap�tulo 6 (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 27 ficam afastados uns dos outros temporariamente e mudam de meio para adquirir novas aptid�es. Assim se explicam, de acordo com os casos, as semelhan�as e diferen�as que caracterizam os membros de uma mesma fam�lia, filhos e pais. Mas sempre aqueles que se amam se reencontram, cedo ou tarde, tanto na Terra quanto no espa�o. A doutrina das reencarna��es � acusada de arruinar a id�ia de fam�lia, de inverter e confundir as situa��es que ocupam, uns em rela��o aos outros, os esp�ritos unidos por la�os de paren-tesco; por exemplo, as rela��es de m�e para filho, de marido para mulher, etc. O contr�rio � que � a verdade. Na hip�tese de uma �nica vida, os esp�ritos se dispersam depois de uma breve coabi-ta��o e, muitas vezes, tornam-se estranhos uns aos outros. De acordo com a doutrina cat�lica, as almas permanecem, depois da morte, em lugares diferentes, conforme seus m�ritos, e os eleitos sempre s�o separados dos condenados. Assim, os la�os de fam�lia e de amizade formados por uma vida passageira se afrouxam na maioria dos casos e at� se rompem de vez, en-quanto, pelo renascimento, os esp�ritos se re�nem de novo e prosseguem juntos em suas peregrina��es pelos mundos. Sua uni�o torna-se, assim, cada vez mais �ntima e profunda. Nossa ternura espont�nea por certos seres deste mundo explica-se facilmente. J� os conhec�amos; j� nos encontramos anteriormente. Quantos maridos, quantos amantes n�o est�o ligados por in�meras exist�ncias percorridas a dois! Seu amor � indestrut�vel, pois o amor � a for�a das for�as, o la�o supremo que nada pode destruir. As condi��es da reencarna��o s�o de tal modo que nossas situa��es s�o raramente invertidas. Quase sempre nossos graus respectivos de parentesco s�o mantidos. Algumas vezes, em caso de impossibilidade, um filho poder� se tornar o irm�o mais jovem do seu pai de outrora, uma m�e poder� renascer como a irm� mais velha de seu filho. Em casos excepcionais e somente a pedido dos interessados, as situa��es podem ser invertidas. Os sentimentos de delicadeza, de dignidade, de respeito m�tuo que sentimos na Terra n�o podem ser desconhecidos no mundo espiritual. Para admitir isso, seria preciso ignorar a natureza das leis que regem a evolu��o das almas. O esp�rito adiantado, cuja liberdade aumenta em propor��o � sua evolu��o, escolhe o meio em que quer renascer, enquanto o esp�rito atrasado � impelido por uma for�a misteriosa a que obe-dece instintivamente; mas todos s�o protegidos, aconselhados, amparados na passagem da vida da erraticidade para a exist�ncia terrestre, mais dolorosa, mais tem�vel que a morte.?L�ON DENIS 28 A uni�o da alma ao corpo se efetua por meio do envolt�rio flu�dico, o perisp�rito*, de que muitas vezes temos falado. Sutil por natureza, ele servir� de la�o entre o esp�rito e a mat�ria. A alma est� presa ao g�rmen** por �este mediador pl�stico***�, que vai se retrair, se condensar cada vez mais, por meio das fases progressivas da gesta��o, e formar o corpo f�sico. Desde a con-cep��o at� o nascimento, a fus�o se opera lentamente, fibra por fibra, mol�cula por mol�cula. Pelo afluxo crescente dos elementos materiais e da for�a vital fornecidos pelos pais, os movimentos vibrat�rios do perisp�rito da crian�a em gesta��o v�o diminuir e se reduzir, ao mesmo tempo em que as faculdades da alma, a mem�ria e a consci�ncia desaparecem e aniquilam-se. � a essa redu��o das vibra��es flu�dicas do perisp�rito, at� o seu envol-vimento na carne, que se deve atribuir a perda da mem�ria das vidas anteriores. Um v�u cada vez mais espesso envolve a alma e apaga suas radia��es interiores. Todas as impress�es de sua vida espiritual e do seu longo passado voltam �s profundezas do inconsciente. Elas s� surgir�o nas horas de exterioriza��o ou por ocasi�o da morte, quando o esp�rito, ao recuperar a plenitude de seus movimentos vibrat�rios, evocar o mundo adormecido de suas lembran�as. O papel do duplo flu�dico, o perisp�rito, � consider�vel; explica, desde o nascimento at� a morte, todos os fen�menos vitais. Possuindo em si os tra�os eternos de todos os estados do ser desde sua origem, transmite-lhe a impress�o, d� os tra�os essenciais ao g�rmen material. Est� a� a chave dos fen�me-nos embriog�nicos****. Durante o per�odo de gesta��o, o perisp�rito impregna-se de fluido vital e se materializa o suficiente para se tornar o regulador de energia e o suporte dos elementos fornecidos pelos pais. Constitui, assim, um tipo de esbo�o, de rede flu�dica permanente, por meio da qual passar� a corrente de mat�ria que destr�i e reconstitui incessantemente, durante a vida, o organismo terrestre. Ser� a arma��o invis�vel que sustenta interiormente a est�tua humana. Gra�as a ele, a individualidade e a mem�ria ir�o se conservar e se perpetuar no plano f�sico, apesar das sucessivas transforma��es da parte mut�vel e m�vel do ser. E vai assegurar, * Perisp�rito: subst�ncia semimaterial que serve de envolt�rio ao esp�rito e liga a alma ao corpo (N.E.). ** G�rmen: rudimento de um novo ser (N.E.). *** Pl�stico: que tem propriedade de adquirir determinadas formas por efeito de uma a��o exterior (N.E.). **** Embriog�nico: relativo a embriogenia, ou seja, produ��o ou origem do embri�o (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 29 do mesmo modo, a lembran�a dos fatos da exist�ncia presente, recorda��es cujo encadeamento, do ber�o ao t�mulo, nos fornece a certeza �ntima de nossa identidade. A incorpora��o da alma n�o se d� de s�bito, no momento do nascimento, como certas doutrinas afirmam; ela � gradual e s� se completa e se torna definitiva na sa�da da vida uterina. Nesse momento, a mat�ria encerra completamente o esp�rito, que dever� vivific�-la pela a��o das faculdades adquiridas. Longo ser� o per�odo de desenvolvimento, durante o qual a alma se ocupar� em moldar seu novo envolt�rio, em acomod�-lo �s suas necessi-dades, em fazer dele um instrumento capaz de manifestar suas pot�ncias �ntimas. Mas nessa obra ser� assistida por um esp�rito preposto � sua guarda, que cuida dela, que a inspira e a guia durante toda a sua peregrina��o terrestre. E todas as noites, du-rante o sono, e muitas vezes at� durante o dia, no per�odo infan-til, o esp�rito se desprender� de sua forma carnal, retornar� ao espa�o, a fim de obter for�as e encorajamento para, em seguida, descer de novo ao corpo e retomar o dif�cil curso da exist�ncia. * Antes de entrar novamente em contato com a mat�ria e come�ar uma nova carreira, o esp�rito, como dissemos, deve escolher o meio em que vai renascer na vida terrestre. Mas essa escolha � limitada, circunscrita, determinada por causas m�ltiplas. Os antecedentes do ser, suas d�vidas morais, suas afei��es, seus m�ritos e suas faltas, o papel que est� apto a desempenhar, todos esses elementos interv�m na orienta��o da vida em prepa-ra��o. Da� a prefer�ncia por tal ra�a, tal na��o, tal fam�lia. As almas terrestres que amamos nos atraem. Os la�os do passado reatam-se em filia��es, alian�as, novas amizades. At� mesmo os lugares exercem sobre n�s sua misteriosa atra��o, e � raro que o destino n�o nos leve de novo muitas vezes �s regi�es onde j� vivemos, amamos, sofremos. Os �dios tamb�m s�o for�as que nos aproximam de nossos inimigos de outrora, a fim de apagarmos, por meio de melhores rela��es, velhas inimizades. Assim, encontramos outra vez em nosso caminho a maioria daqueles que fizeram nossa alegria ou nosso tormento. O mesmo acontece com a ado��o de uma classe social, com as condi��es de ambiente, com os privil�gios da fortuna ou da sa�de, com as mis�rias da pobreza. Todas essas causas t�o variadas e t�o complexas v�o se combinar para garantir ao novo encarnado as satisfa��es, as vantagens ou as prova��es que conv�m ao seu grau de evolu��o, seus m�ritos ou suas faltas e as d�vidas contra�das por ele.?L�ON DENIS 30 A partir disso, poder� se compreender quanto a escolha do meio � dif�cil. Na maioria das vezes nos � inspirada por intelig�n-cias superiores, ou ent�o elas mesmas poder�o faz�-lo, em pro-veito nosso, se n�o possuirmos o discernimento necess�rio para adotar, com toda a sabedoria e previd�ncia, os meios mais efica-zes para impulsionar nossa evolu��o e resgatar nosso passado. Entretanto, o interessado permanece livre para aceitar ou adiar a hora das repara��es obrigat�rias que lhe cabem. No momento de se ligar a um g�rmen humano, quando a alma ainda possui toda sua lucidez, seu mentor mostra-lhe o panorama da exist�n-cia que a espera; indica-lhe os obst�culos e os males que ele ter� de enfrentar; faz-lhe compreender a utilidade desses obst�-culos para desenvolver suas virtudes ou libertar-se dos seus v�cios. Se a prova lhe parecer muito rude, se n�o se sentir sufi-cientemente forte para afront�-la, � permitido ao esp�rito recusar a reencarna��o e procurar uma vida transit�ria que aumente suas for�as morais e sua vontade. Na hora das resolu��es supremas, antes de descer de novo � carne, o esp�rito percebe, atinge o sentido geral da vida que vai come�ar. Ele a v� aparecer em suas grandes linhas, em seus fatos culminantes, sempre modific�veis, entretanto, por sua a��o pessoal e o uso de seu livre-arb�trio, porque a alma � senhora dos seus atos. Mas, desde que ela decidiu, desde que o la�o se consolidou e a incorpora��o se iniciou, tudo se apaga, tudo desaparece. A exist�ncia vai se desenrolar com todas as suas conseq��ncias previstas, aceitas, desejadas, sem que nenhuma intui��o do futuro permane�a na consci�ncia normal do ser en-carnado. O esquecimento � necess�rio durante a vida material. O conhecimento antecipado dos acontecimentos infelizes que h�o de surgir, a previs�o dos males ou das cat�strofes que nos esperam, paralisariam nossos esfor�os, suspenderiam a nossa marcha para a frente. Quanto � escolha do sexo, tamb�m � a alma que resolve previamente e pode at� mesmo variar de uma encarna��o para outra por um ato de sua vontade criadora, modificando as condi-��es org�nicas do perisp�rito. Certos pensadores admitem que a altern�ncia dos sexos � necess�ria para que se possa adquirir virtudes mais especiais, dizem eles, de cada uma das metades do g�nero humano; por exemplo, no homem, a vontade, a firme-za, a coragem; na mulher, a ternura, a paci�ncia, a pureza. Acreditamos, de acordo com as instru��es de nossos men- tores espirituais, que a mudan�a de sexo, sempre poss�vel para o esp�rito, �, em princ�pio, in�til e perigosa. Os esp�ritos elevados?O PROBLEMA DO DESTINO 31 * Virago: mulher masculinizada (N.E.). ** Mento: regi�o abaixo do l�bio inferior do rosto (N.E.). *** Pena de tali�o: forma antiga de castigar os criminosos, fazendo-os sofrer a mesma a��o que haviam praticado (N.E.). **** Onipotente: que tem o poder absoluto. Que tudo pode. Deus � onipotente (N.E.). a desaconselham. � f�cil reconhecer, � primeira vista, ao nosso redor, as pessoas que, em uma exist�ncia anterior, tinham ado-tado um sexo diferente; s�o sempre, de algum ponto de vista, exc�ntricas, anormais. As viragos*, de car�ter e gostos mascu-linos, algumas das quais apresentam o tra�o dos atributos do outro sexo, como, por exemplo, barba no mento**, s�o, evidente-mente, homens reencarnados. Elas n�o t�m nada de est�tico nem de sedutor. O mesmo acontece com homens efeminados, que t�m todas as caracter�sticas das filhas de Eva e s�o aparentemente deslocados na vida. Quando um esp�rito se habituou com um sexo, n�o � bom para ele sair do que se tornou a sua natureza. Muitas almas juntam-se em pares e se prop�em a evoluir, unidas para sempre, tanto na alegria como na dor. S�o chamadas de almas irm�s; o seu n�mero � mais consider�vel do que geral-mente se cr�. Realizam a forma mais completa e mais perfeita da vida e do sentimento, e d�o �s outras almas o exemplo de um amor fiel, inalter�vel, profundo; podem ser reconhecidas por essa caracter�stica. O que seria de sua afei��o, sua rela��o, seu destino, se a mudan�a de sexo fosse uma necessidade, uma lei? Entendemos antes que, pelo pr�prio fato da ascens�o geral, os nobres caracteres e as altas virtudes ir�o se multiplicar nos dois sexos ao mesmo tempo. Finalmente, nenhuma qualidade ser� a caracter�stica de um sexo isolado, mas o atributo dos dois. H� apenas um �nico ponto de vista em que se poderia consi-derar a mudan�a de sexo como um ato imposto pela lei de justi�a e de repara��o: quando maus-tratos ou graves danos infligidos a pessoas de um sexo atraem para esse mesmo sexo os esp�ritos respons�veis, para assim resgatarem, por sua vez, os efeitos das causas a que deram origem. Mas a pena de tali�o*** n�o rege de maneira absoluta o mundo das almas, como veremos mais adiante: existem mil formas de fazer a repara��o e de elimi-nar as causas do mal. A cadeia onipotente**** das causas e dos efeitos se desenrola em mil an�is diversos. Talvez algu�m possa alegar que seria absurdo obrigar metade dos esp�ritos a evoluir num sexo mais fraco e na maioria das vezes oprimido, humilhado, sacrificado por uma organiza��o social ainda b�rbara. Podemos responder que esse estado de?L�ON DENIS 32 coisas tende a desaparecer dia ap�s dia, para dar lugar a uma maior igualdade. � pelo aperfei�oamento moral e social da s�lida educa��o da mulher que a humanidade ir� se levantar. Quanto �s dores do passado, sabemos que n�o ficam perdidas. O esp�rito que sofreu as injusti�as sociais colhe, por for�a da lei de equil�-brio e compensa��o, o resultado das provas pelas quais passou. O esp�rito feminino, dizem-nos os mentores, sobe com um v�o mais alto para a perfei��o. O papel da mulher � imenso na vida dos povos. Irm�, esposa ou m�e � a grande consoladora e a doce conselheira. Pelo filho, ela tem o porvir e prepara o homem do futuro. Por isso, as socieda-des que a rebaixam, rebaixam a si mesmas. � a mulher respeita-da, honrada e esclarecida que faz a fam�lia forte e a sociedade grande, moral, unida! * Certas atra��es s�o tem�veis para as almas que aguardam o renascimento. Por exemplo, as fam�lias de alco�latras, de devas-sos, de dementes. Como conciliar a no��o de justi�a com a encarna��o dos seres nesses meios? N�o h� a�, em jogo, ra-z�es ps�quicas profundas e ocultas, e as causas f�sicas n�o s�o uma simples apar�ncia? Vimos que a lei de afinidade aproxima os seres parecidos. Todo um passado de culpas arrasta a alma atrasada para grupos que apresentam semelhan�as com seu pr�prio estado flu�dico e mental, estado que ela criou por seus pensamentos e a��es. N�o h�, nesses casos, lugar para a arbitrariedade ou o acaso. � o mau uso prolongado de seu livre-arb�trio, a procura constante de resultados ego�stas ou mal�ficos que atraem a alma para pais semelhantes a si. Eles lhe fornecem materiais em harmonia com seu organismo flu�dico, impregnados das mesmas tend�ncias grosseiras, pr�prios para a manifesta��o dos mesmos apetites, dos mesmos desejos. Uma nova exist�ncia se abrir�, novo de-grau de queda para o v�cio e para a criminalidade. � a descida para o abismo. Senhora de seu destino, a alma deve passar pelo estado de coisas que preparou, que escolheu. Entretanto, depois de ter feito de sua consci�ncia um antro tenebroso, um covil do mal, dever� transform�-la em templo de luz. As faltas acumuladas far�o nas-cer sofrimentos mais vivos; as encarna��es ir�o se suceder mais dif�ceis, mais dolorosas; o c�rculo de ferro ir� se apertar at� que a alma, triturada pela engrenagem das causas e dos efeitos por ela criados, compreenda a necessidade de reagir contra suas ten-d�ncias, de vencer suas m�s paix�es e de mudar de caminho.?O PROBLEMA DO DESTINO 33 * Evangelho de Lucas 15:7 (N.E.). Desde ent�o, por pouco que o arrependimento a toque, ela sentir� nascer for�as, impulsos novos que a levar�o para lugares mais puros. Nesses lugares ir� sentir for�as, elementos mais apropriados para sua obra de repara��o e renova��o. Passo a passo, ser�o feitos progressos. Na alma arrependida e enternecida, raios e energias ir�o penetrar, e desejos desconhecidos, necessidade de a��o �til, de devotamento, ir�o despertar. Essa lei de atra��o que a impelia para as �ltimas camadas sociais reverter� em seu benef�cio e se tornar� o instrumento de sua regenera��o. Entretanto, a eleva��o n�o ser� f�cil; a ascens�o n�o se reali-zar� sem dificuldades. As faltas, os erros cometidos repercutem como causas de obst�culos nas vidas futuras. O esfor�o dever� ser tanto mais en�rgico e prolongado quanto mais pesadas forem as responsabilidades, quanto mais extenso tiver sido o per�odo de resist�ncia e persist�ncia no mal. Na dif�cil subida, o passado dominar� por muito tempo o presente e seu peso far� curvar mais de uma vez os ombros do caminhante. Mas, do alto, m�os piedosas se estender�o para ele e o ajudar�o a transpor as pas-sagens mais dif�ceis. � H� mais alegria no c�u por um pecador que se arrepende do que por cem justos que perseveram*.� Nosso futuro est� em nossas m�os e as nossas facilidades para o bem aumentam na raz�o direta de nossos esfor�os para pratic�-lo. Toda vida nobre e pura, toda miss�o superior s�o o resultado de um imenso passado de lutas, de derrotas sofridas, de vit�rias ganhas contra n�s mesmos, o t�rmino de trabalhos longos e pacientes, o ac�mulo de frutos de ci�ncia e caridade colhidos, um a um, no decorrer da idade. Cada faculdade brilhante, cada virtude s�lida t�m necessidade de exist�ncias m�ltiplas de trabalho obscuro, de combates violentos entre o esp�rito e a carne, a paix�o e o dever. Para chegar ao talento, ao g�nio, o pensamento teve de amadurecer lentamente no decorrer dos s�culos. O campo da intelig�ncia, penosamente desbravado, deu a princ�pio apenas fracas colheitas, e s� depois, pouco a pouco, vieram as searas cada vez mais ricas e abundantes. Em cada regresso ao espa�o estabelece-se o balan�o dos lucros e das perdas; os progressos s�o avaliados e firmados. O ser se examina e se julga. Ele analisa minuciosamente sua hist�-ria recente, escrita em si mesmo; passa em revista os frutos de experi�ncia e sabedoria que sua �ltima vida lhe proporcionou, para assinalar-lhes mais profundamente a subst�ncia. A vida no al�m � para o esp�rito em evolu��o o per�odo de exame, de?L�ON DENIS 34 * Te�sofo: seguidor dos preceitos da teosofia, doutrina espiritualista ligada ao lama�smo e ao budismo, dos quais tirou seus principais conceitos (N.E.). 7 � Os livros teos�ficos, diz Annie Besant, concordam em reconhecer que �um per�odo m�dio de 15 s�culos separa as reencarna��es� (La reincarnation � A reencarna��o). recolhimento, no qual as faculdades, depois de terem sido gas-tas no exterior, refletem-se, aplicam-se ao estudo �ntimo, ao interro-gat�rio da consci�ncia, ao invent�rio rigoroso do que h� na alma de belo ou de feio. A vida do espa�o � a forma necess�ria e per-feita da terrestre, vida de equil�brio, em que as for�as se recons-tituem, em que as energias se retemperam, em que os entusias-mos se reanimam e o ser se prepara para as tarefas futuras. � o descanso depois do trabalho, a calma depois da tormenta, a concentra��o tranq�ila e serena depois da expans�o ativa ou do conflito ardente. * Segundo os te�sofos*, o retorno da alma � carne efetua-se a cada 1500 anos 7 . Essa teoria n�o � confirmada nem pelos fatos nem pelo testemunho dos esp�ritos. Estes, interrogados em grande n�mero e em v�rios lugares, responderam que a reencarna��o � muito mais r�pida. As almas �vidas de progresso permanecem pouco tempo na erraticidade. Elas pedem o regresso � vida deste mundo para conquistar novos t�tulos, novos m�ritos. Possu�mos sobre as exist�ncias anteriores de certa pessoa in-dica��es recolhidas em pontos muito afastados uns dos outros, de m�diuns que nunca se conheceram, indica��es perfeitamente de acordo entre si. Elas demonstram que apenas 10, 20, 30 anos, quando muito, separaram sua vida terrestre. Em rela��o a isso, n�o h� uma regra exata. As encarna��es se aproximam ou se distanciam de acordo com o estado das almas, seu desejo de trabalho e de adiantamento, e as ocasi�es favor�veis que lhe s�o oferecidas. No caso de morte precoce, por exemplo, de crian-�as muito novas, elas s�o algumas vezes imediatas. Sabemos que o corpo flu�dico se materializa ou se espiritualiza de acordo com a natureza dos pensamentos e das a��es do esp�-rito. As almas viciosas, por suas tend�ncias, atraem para si fluidos impuros, que tornam mais espesso seu envolt�rio e lhes diminuem as radia��es. Quando morrem, n�o podem elevar-se al�m das nossas regi�es e permanecem confinadas na atmosfera ou mistu-radas com os humanos. Se persistem no mal, a atra��o planet�ria torna-se t�o poderosa que lhes apressa a reencarna��o. Quanto mais material e grosseiro for o esp�rito, mais a lei de gravidade tem influ�ncia sobre ele. O fen�meno inverso se?O PROBLEMA DO DESTINO 35 produz nos esp�ritos puros, cujo perisp�rito radioso vibra com todas as sensa��es do infinito, os quais encontram nas regi�es et�reas meios apropriados � sua natureza e ao seu estado de progress�o. Quando atingem um grau superior, esses esp�ritos prolongam cada vez mais sua estada no espa�o; as vidas plane-t�rias ser�o para eles a exce��o; a vida livre se tornar� a regra, at� que a soma das perfei��es os liberte para sempre da servi-d�o do renascimento.?L�ON DENIS 36 Nas p�ginas anteriores, expusemos as raz�es l�gicas que prevalecem em favor da doutrina das vidas sucessivas. Consagra-remos este cap�tulo e os seguintes a contestar as obje��es de seus opositores e abordaremos o conjunto das provas cient�ficas que, todos os dias, v�m consolid�-la. A obje��o mais comum � esta: se o homem j� viveu, pergun-ta- se, por que n�o se lembra de suas exist�ncias passadas? J� indicamos resumidamente a causa fisiol�gica desse esque-cimento. Essa causa � o pr�prio renascimento, ou seja, a a��o de revestir um novo organismo, um envolt�rio material que, ao se sobrepor ao inv�lucro flu�dico, faz, a seu respeito, o papel de um apagador. Em conseq��ncia da diminui��o de seu estado vibrat�rio, o esp�rito, a cada vez que toma posse de um novo corpo, de um c�rebro virgem de toda imagem, encontra-se na impossibilidade de exprimir as lembran�as acumuladas de suas vidas anteriores. Seus antecedentes, � verdade, ainda se reve-lar�o em suas aptid�es, na facilidade de aprendizagem, nas qua-lidades e nos defeitos. Mas todas as particularidades dos fatos, dos acontecimentos que constituem seu passado, reinte-grado nas profundezas da consci�ncia, ficar�o veladas na vida terrestre. O esp�rito, no estado de vig�lia, s� poder� exprimir pela forma de linguagem as impress�es registradas por seu c�rebro material. A mem�ria � o encadeamento, a associa��o das id�ias, dos fatos, do conhecimento. Quando essa associa��o desaparece, quando o fio das lembran�as se rompe, o passado parece se apa-gar para n�s. Mas s� na apar�ncia. Num discurso pronunciado no AS VIDAS SUCESSIVAS. � PROVAS EXPERIMENTAIS. � RENOVA��O DA MEM�RIA 2?O PROBLEMA DO DESTINO 37 dia 6 de fevereiro de 1905, O professor Charles Richet*, da academia de medicina, dizia: � A mem�ria � uma faculdade impla- c�vel de nossa intelig�ncia, pois nenhuma de nossas percep- ��es jamais � esquecida. Quando um fato nos impressiona os sentidos, ent�o ele se fixa irrevogavelmente na mem�ria. Pouco importa que tenhamos guardado a consci�ncia dessa lembran�a; ela existe, � indestrut�vel�. Acrescentamos que ela pode ressurgir. O despertar da mem�ria � apenas um efeito de vibra��o produzido pela a��o da vontade nas c�lulas do c�rebro. Para fazermos reviver as lembran�as anteriores ao nascimento, � preciso que nos colo-quemos de novo em harmonia de vibra��es com o estado din�-mico em que nos ach�vamos na �poca em que houve a per-cep��o. N�o existindo os c�rebros que registraram essas percep-��es, ent�o � preciso procur�-las na consci�ncia profunda. Mas essa consci�ncia permanece calada enquanto o esp�rito est� preso na carne. Ele deve sair dela e se separar do corpo a fim de recuperar a plenitude de suas vibra��es e reaver o fio das lem-bran�as nele ocultas. Ent�o percebe seu passado e pode reconstitu�-lo nos m�nimos fatos. � o que ocorre nos fen�menos do sonambulismo e do transe. Sabemos que h� em n�s profundezas misteriosas onde se foram depositando lentamente, no decorrer das idades, os sedi-mentos de nossas vidas de luta, de estudo e de trabalho; ali se gravam todos os incidentes, todas as alternativas e lances do passado obscuro. � como um oceano de coisas adormecidas mansamente nas ondas do destino. Um apelo poderoso da vontade pode faz�-las reviver. A vista do esp�rito, nas horas de clarivid�ncia**, desce para elas, assim como as radia��es das estrelas passam das profundezas gal�cticas at� debaixo das ab�badas e das arcadas dos recantos ocultos do mar. * Recordemos aqui os pontos essenciais da teoria do �eu�, � qual est�o ligados todos os problemas da mem�ria e da consci�ncia. A identidade do �eu� e a personalidade s� persistem e se mant�m pela lembran�a e pela consci�ncia. As recorda��es, as * Charles Richet (1850 � 1935): not�vel m�dico fisiologista franc�s (Pr�mio Nobel de 1913), que por sua intelig�ncia prestou grande servi�o � ci�ncia (N.E.). ** Clarivid�ncia: dom que possibilita �s pessoas ver os esp�ritos e o ambiente espiritual em que eles se encontram (N.E.).?L�ON DENIS 38 intui��es, as aptid�es determinam a sensa��o de haver vivido. Na intelig�ncia, existe uma continuidade, uma sucess�o de causas e de efeitos que � preciso reconstituir na sua totalidade para possuir o conhecimento integral do �eu�. Isso, como vimos, � imposs�vel na vida material, uma vez que a incorpora��o produz uma extin��o tempor�ria dos estados de consci�ncia que formam esse conjunto cont�nuo. Assim como a vida f�sica est� sujeita �s altern�ncias da noite e do dia, tamb�m se produz um fen�meno semelhante na vida do esp�rito. Nossa mem�ria e nossa consci�ncia atravessam alternadamente per�odos de eclipse ou de esplendor, de sombra ou de luz, no estado espiri-tual ou terrestre, e at� mesmo nesse �ltimo plano, durante a vig�lia ou nos diferentes estados do sono. E assim como h� grada��es no eclipse, tamb�m h� graus de luz. Muitos sonhos n�o deixam nenhum vest�gio ao despertar, como tamb�m acontece no sono sonamb�lico. Todos os magnetizadores* sabem que o esquecimento, ao despertar, � um fen�meno constante nos son�mbulos. Mas, desde que o esp�rito do indiv�duo entre novamente no sono e se encontre de novo nas condi��es din�micas que permitam a renova��o das lembran�as, essas se reavivam. O indiv�duo se lembra do que fez, do que dis-se, do que viu e exprimiu em todas as �pocas de sua exist�ncia. Dessa forma podemos compreender o porqu� do esque-cimento das vidas anteriores. � que a situa��o do perisp�rito, unido ent�o ao corpo em que est� encarnado, � muito fraca, de pouca intensidade e sem a necess�ria independ�ncia para que essas lembran�as possam se expressar livremente enquanto est� acordado. Na realidade, a mem�ria n�o passa de uma modalidade da consci�ncia. A lembran�a est�, muitas vezes, em estado subconsciente. J� no c�rculo restrito da vida atual, n�o conser-vamos a recorda��o de nossos primeiros anos, que est�, contudo, gravada em n�s, assim como todos os estados percorridos no decurso de nossa hist�ria. O mesmo acontece com um grande n�mero de atos e de fatos que pertencem aos outros per�odos da vida. Gassendi**, dizem, lembrava-se da idade de 18 meses; mas isso � uma exce��o. O esfor�o mental � necess�rio para * Magnetizadores: nesse caso, hipnotizadores (N.E.). ** Pierre Gassendi (1592�1655): fil�sofo materialista franc�s. Defensor da vida libertina e do sensualismo, pela qual se atinge o prazer, a cultura do esp�rito e a virtude, conforme teoria do fil�sofo grego Epicuro (341�270 a.C.), de quem era seguidor (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 39 * J. Maxwell: doutor em medicina, procurador-geral na Corte de Apela��o de Paris (N.E.). reavivar essas recorda��es da vida normal, a que nos � mais familiar; necess�ria, repetimos, para novamente colher mil coisas estudadas, aprendidas e esquecidas, pois baixaram �s camadas profundas da mem�ria. A cada instante a intelig�ncia deve procurar na subcons-ci�ncia os conhecimentos, as recorda��es que quer reavivar; ela se esfor�a para faz�-los passar para a consci�ncia f�sica, para o c�rebro concreto, depois de t�-los provido dos elementos vitais fornecidos pelos neur�nios ou c�lulas nervosas. De acor-do com a riqueza ou a pobreza desses elementos, a lembran�a surgir� clara ou nebulosa; �s vezes se esquiva; a comunica��o n�o pode estabelecer-se, ou ent�o a proje��o produz-se somente mais tarde, no momento em que menos se espera. Portanto, para recordar, a primeira das condi��es � querer. Isso explica por que muitos esp�ritos, mesmo na vida espiritual, sob o dom�nio de certos preconceitos doutrin�rios, desprezam toda pesquisa e permanecem ignorantes do passado que neles dorme. Nesse meio, assim como entre n�s, no decorrer da expe-rimenta��o, uma sugest�o � necess�ria. Vemos essa lei da sugest�o se manifestar por todas as partes, sob mil formas; estamos sujeitos � sua a��o a cada instante do dia. Por exemplo, perto de n�s um canto se eleva, ressoa uma palavra, um nome, uma imagem nos choca e eis que, de repente, gra�as � associa-��o de id�ias, todo um encadeamento de recorda��es confusas, quase esquecidas, dissimuladas nas camadas profundas de nossa consci�ncia, desenrola-se em nosso esp�rito. Per�odos inteiros de nossa vida presente podem se apagar da mem�ria. Em seu livro Les ph�nom�nes psychiques ( Os fen�- menos ps�quicos), o doutor J. Maxwell* fala nos seguintes termos do que chama casos de amn�sia: � Algumas vezes at� desaparece a no��o de personalidade. H� doentes que, subitamente, esquecem o pr�prio nome. Toda a sua vida se apaga e eles parecem voltar ao estado em que esta- vam quando nasceram. Eles devem reaprender a falar, a se vestir e a comer. Algumas vezes a amn�sia n�o � t�o completa. Pude observar um doente que havia esquecido tudo o que tinha liga- ��o com sua personalidade. Ele ignorava absolutamente tudo o que havia feito, n�o sabia mais onde tinha nascido, quem eram seus pais. Tinha cerca de 30 anos. A mem�ria org�nica e as?L�ON DENIS 40 * Ecmn�sia: perturba��o da mem�ria que causa o esquecimento dos fatos recentes, mas conserva perfeita lembran�a dos antigos (N.E.). ** Dialeto gasc�o: dialeto da Gasconha�Fran�a (N.E.). 8 � Doutores Bourru e Burot. Les changements de la personnalit� (As mudan�as da personalidade). Biblioteca Cient�fica Contempor�nea, 1887. mem�rias organizadas fora da personalidade subsistiam. Ele podia ler, escrever, desenhar alguma coisa, tocar grosseira- mente um instrumento. A amn�sia nele era limitada a todos os fatos ligados � sua personalidade anterior.� A guerra multiplicou esses casos e pudemos constatar isso nos jornais. O doutor Pitre, reitor da Faculdade de Medicina de Bord�us, em seu livro L�hyst�rie et l�hypnotisme ( Histeria e hipnotismo) cita um caso que demonstra que todos os fatos e conhecimentos registrados em n�s desde a inf�ncia podem renascer; � o que ele chama de fen�meno da ecmn�sia*. O indiv�duo, uma jovem de 17 anos, falava s� franc�s e havia esquecido o dialeto gasc�o**, idioma de sua juventude. Adormecida e transportada pela sugest�o � idade de 5 anos, ela n�o mais entendia o franc�s e s� falava o dialeto. Contava as menores particularidades de sua inf�ncia, que se apresentavam perfeitamente n�tidas, mas n�o respondia �s quest�es feitas, pois n�o compreendia mais a l�ngua em que lhe falavam. Havia esquecido todos os fatos de sua vida que se haviam desenrolado entre 5 e 17 anos. O doutor Burot fez experi�ncias id�nticas. Sua paciente Joana foi transportada por ele, mentalmente, a diferentes �pocas de sua juventude e, em cada per�odo, os incidentes de sua exis-t�ncia se desenhavam com precis�o em sua mem�ria, mas todo fato que havia ocorrido ap�s a �poca relembrada se apagava. Era poss�vel seguir, em escala descendente, os progressos de sua intelig�ncia. Quando atingiu a idade de 5 anos, verificou-se que mal sabia ler; escrevia como fazia naquela idade, de uma maneira atrapalhada, com os erros de grafia que costumava cometer naquela �poca 8 . Todas essas narrativas foram comprovadas. Os s�bios que citamos dedicaram-se a minuciosas pesquisas; puderam cons-tatar a exatid�o dos fatos relatados pelos indiv�duos, fatos que estavam apagados da mem�ria no estado normal. Vamos ver que, por um encadeamento l�gico e rigoroso, es-ses fen�menos nos conduzem � possibilidade de despertarmos experimentalmente, na parte permanente do ser, as lembran�as?O PROBLEMA DO DESTINO 41 anteriores ao nascimento. Verificaremos isso nas experi�ncias de F. Colavida*, E. Marata**, coronel De Rochas***, etc. O estado de febre, o del�rio, o sono anest�sico, provocando a separa��o parcial da alma e do corpo, tamb�m podem abalar, dilatar as camadas profundas da mem�ria e despertar conheci-mentos e lembran�as antigas. Todos se lembram, sem d�vida, do caso c�lebre de Ninfa Filiberto, de Palermo. Em sua febre, ela falava diversas l�nguas estrangeiras que havia esquecido h� muito tempo. Eis outros fatos relatados por m�dicos: O doutor Henri Frieborn 9 cita o caso de uma mulher com 70 anos de idade que, gravemente doente, com bronquite, foi v�tima de um del�rio, de 13 a 16 de mar�o de 1902: �Na noite de 13 para 14, percebeu-se que ela falava uma l�ngua desconhecida das pessoas que a rodeavam. Parecia, �s vezes, que recitava versos; outras, que conversava. Repetiu diversas vezes a mesma composi��o em versos. Acabou-se por descobrir que a l�ngua era a indost�nica****. Na manh� do dia 14, o indost�nico come�ou a se misturar com um pouco de ingl�s; ela conversava dessa maneira com parentes e amigos de inf�ncia, ou ent�o falava deles. No dia 15, o indost�nico havia desaparecido, e a doente dirigia-se aos ami- gos que tinha conhecido mais tarde se servindo do ingl�s, do franc�s e do alem�o. A senhora em quest�o havia nascido na �ndia, de onde saiu com a idade de tr�s anos, para morar na Inglaterra, onde chegou ap�s quatro meses de viagem. At� o dia em que desembarcou na Inglaterra, ela havia sido confiada a servi�ais hindus e n�o falava nada de ingl�s. � curioso constatar que ap�s um per�odo de 66 anos, durante o qual nunca mais havia falado o indost�nico, o del�rio lhe tinha relembrado essa linguagem de sua primeira inf�ncia. Atualmente, a doente fala com tanta facilidade o franc�s e o alem�o quanto o * Fernandez Colavida: pesquisador esp�rita espanhol, presidente do Grupo de Estudos Ps�quicos de Barcelona (N.E.). ** Esteve Marata: pesquisador esp�rita espanhol, presidente da Uni�o Esp�rita da Catalunha, Espanha (N.E.). *** Coronel A. de Rochas: engenheiro e matem�tico franc�s, coronel do ex�rcito de seu pa�s. Not�vel pesquisador dos fen�menos esp�ritas e do magnetismo. Deixou publicadas v�rias obras de grande valor nas quais aborda as suas pesquisas, sempre tendo como base a sobreviv�ncia da alma e os fen�menos an�micos. A prop�sito, a palavra an�mico deriva de animismo, que � um fen�meno ps�quico pelo qual a pessoa leva ao passado os pr�prios sentimentos, de onde recolhe as impress�es de que se v� possu�da (N.E.). 9 � Ver Lancet, de Londres, n�mero de junho de 1902. **** Indost�nico: um dos idiomas falados na �ndia (N.E.).?L�ON DENIS 42 ingl�s; mas, ainda que conhe�a algumas palavras do indost�nico, ela � absolutamente incapaz de falar essa l�ngua ou at� mesmo de formar uma �nica frase.� Os Annales des Sciences Psychiques ( Anais das Ci�ncias Ps�quicas), de mar�o de 1906, registram um caso interessante de amn�sia na vig�lia, relatado pelo doutor Gilbert-Ballet, do Hos-pital de Paris: �Trata-se de um doente que, por causa de um choque vio- lento, havia esquecido completamente um �trecho� de sua vida passada. Ele se lembrava muito bem de sua inf�ncia e de fatos bem distantes, mas havia se produzido uma lacuna numa parte de sua exist�ncia mais recente, e n�o conseguia se lembrar dos acontecimentos que se haviam passado nesse per�odo de sua vida. � o que se chama de amn�sia retr�grada. O doente cha- ma-se Dada e tem 50 anos. Desde o dia 4 at� o dia 7 de outubro �ltimo, existia em sua mem�ria um vazio absoluto. Tendo deixado no dia 4 seus patr�es, que o empregavam como jardineiro numa propriedade perto de Nevers*, achou-se, no dia 7, sem saber como, em Li�ge*, junto �s portas da exposi��o. De que maneira fez essa longa viagem? Ele n�o sabe e, apesar de todos os seus esfor�os, n�o consegue obter a m�nima recorda��o.� Mas eis que esse doente foi mergulhado na hipnose e logo se reconstitu�ram todos os incidentes dessa viagem nos menores detalhes, incluindo a recorda��o das pessoas encontradas. O senhor Dada vivia sua quarta crise de amn�sia nervosa. Ele se lembrou, adormecido, do que se esquecera quando estava des-perto simplesmente porque se encontrava de novo na condi��o anterior, ou seja, no estado pelo qual passava no momento de seu ataque de amn�sia. Esse caso ainda nos coloca no rastro das leis e condi��es que regem os fen�menos de renova��o da mem�ria de vidas anteriores. Em resumo, todo estudo do homem terrestre nos fornece a prova de que existem estados distintos de consci�ncia e de personalidade. Vimos na primeira parte desta obra que a exist�n-cia em n�s de um �mental duplo�, no qual as duas partes se juntam e se fundem na morte, � atestada n�o somente pelo hipno-tismo experimental, mas tamb�m por toda a evolu��o ps�quica. O simples fato dessa dualidade intelectual, considerada nas rela��es com o problema das encarna��es, nos explica como * Nevers e Li�ge: a primeira, cidade francesa. A segunda, cidade belga (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 43 toda uma parte do �eu�, com seu imenso cortejo de impress�es e recorda��es antigas, pode permanecer imersa na sombra no decorrer da vida atual. Sabemos que a telepatia, a clarivid�ncia, a previs�o dos acontecimentos s�o poderes pr�prios do �eu� profundo e oculto. A sugest�o facilita o seu exerc�cio; � um apelo da vontade, um convite �s almas fracas e incapazes de sair da pris�o e entrar temporariamente mais uma vez na posse das riquezas, das pot�ncias que nela dormitam. Os passes magn�ticos desfazem os la�os que prendem a alma ao corpo f�sico e provocam o desprendimento. A partir da� a sugest�o, pessoal ou estranha, come�a a agir, ser exercida com mais intensidade. Sua a��o n�o � somente aplic�vel ao despertar dos sentidos ps�quicos; aca-bamos de ver que ela tamb�m pode reconstituir o encadeamento das recorda��es gravadas nas profundezas do ser. Parece que, em certos casos excepcionais, essa a��o pode ser exercida at� mesmo no estado de vig�lia. F. Myers 10 fala da faculdade do �subliminal�* de evocar estados emocionais desapa-recidos na consci�ncia normal e de reviver o passado. Esse fato, diz ele, encontra-se freq�entemente nos artistas, cujas emo��es rememoradas podem ultrapassar em intensidade as emo��es originais. O mesmo autor emite a opini�o de que a teoria mais prov�vel para explicar o g�nio � a das reminisc�ncias de Plat�o**, com a condi��o de base�-las nos dados cient�ficos estabelecidos em nossos dias. Esses mesmos fen�menos reaparecem com outra forma em uma ordem de fatos j� assinalados. S�o as impress�es de pes-soas que sofreram acidentes, mas escaparam da morte. Por exemplo, afogados salvos antes da asfixia completa e outros que sofreram quedas graves. Muitos contam que entre o momento em que ca�ram e aquele em que perderam os sentidos, todo o espet�culo de sua vida se desenrolou em seu c�rebro de uma 10 � F. Myers. Personnalit� humaine. * Subliminar ou subliminal: nesse caso, abaixo do limiar, abaixo de um patamar. Inferior. Em psicologia diz-se que um est�mulo � subliminar quando n�o � suficientemente inten-so para que dele o indiv�duo tome conhecimento e que s� � custa de muitas repeti��es � que se alcan�a o efeito desejado. � um dos recursos usados em propaganda (N.E.). ** Reminisc�ncias de Plat�o: filosofia de Plat�o (350 a.C.), fil�sofo grego. Segundo seu conceito, � a lembran�a que a alma guarda de uma vida anterior, junto aos deuses, na qual teve conhecimento da verdade e a vis�o direta das id�ias, do ideal e do belo. Plat�o compreendia a id�ia da reencarna��o. Veja em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdu��o (N.E.).?L�ON DENIS 44 11 � Ver Personnalit� humaine, cap�tulo 11. * Aerosta��o: ci�ncia que estuda os bal�es e dirig�veis; balonismo (N.E.). 12 � Extra�do de Le Spiritisme et l�anarchie (O Espiritismo e a anarquia), de J. Bouvery. ** Castelos na Espanha: express�o da l�ngua francesa que corresponde ao nosso �cas-telos no ar�. Ilus�es. Coisas irrealiz�veis (N.E.). maneira autom�tica, em quadros sucessivos e retr�grados, com uma rapidez vertiginosa, de segundos, acompanhada de um sen-timento moral do bem e do mal, assim como da consci�ncia das responsabilidades expostas. T. Ribot, o l�der do positivismo franc�s, em sua obra Les maladies de la m�moire ( As doen�as da mem�ria), citou diversos fatos que estabelecem a possibilidade de despertar espont�neo, autom�tico, de todas as cenas ou imagens que povoam a me-m�ria, particularmente em caso de acidente. Lembremos, a esse respeito, o caso do almirante Beaufort, extra�do do Jornal de Medicina de Paris 11 . Ele caiu ao mar e perdeu durante dois minutos os sentidos. Esse tempo foi suficiente para que sua consci�ncia transcendental resumisse toda a sua vida terrestre em quadros reduzidos, de uma nitidez prodigiosa. Todos os seus atos, inclusive as causas, as circunst�ncias eventuais e os efeitos desfilaram em seu pensamento. Eis um caso da mesma natureza relatado pelo senhor Cottin, aeronauta: �Em sua �ltima ascens�o, o bal�o Le Montgolfier levava o senhor Perron, presidente da academia de aerosta��o*, como chefe, e F. Cottin, agente administrativo da Associa��o Cient�fica Francesa. �Tendo subido de um salto, o bal�o, �s 16 horas e 24 minu- tos, elevara-se a 700 metros; foi ent�o que ele furou e come�ou a descer mais r�pido do que tinha subido, e caiu �s 16 horas e 27 minutos na casa n�mero 20 do beco do Cavaleiro, em Saint-Ouen. Ap�s ter lan�ado fora tudo o que podia complicar o acidente, diz-nos o senhor Cottin 12 , �uma esp�cie de quieta��o, de in�rcia, talvez, se apossou de mim; mil recorda��es distantes surgiam, chocavam-se diante de minha imagina��o; depois as coisas se acentuavam e o panorama de minha vida se desenrolava diante de meu esp�rito atento. Tudo era exato: os castelos na Espanha**, as decep��es, a luta pela exist�ncia, e tudo isso dentro do momento fatal imposto pelo destino... Quem acreditaria, por exemplo, que eu me vi de novo, com 20 anos, sargento no 22� de Linha, com mochila nas costas e cantando na estrada? Em menos de tr�s minutos vi toda a minha vida desfilar diante de minha mem�ria�.�?O PROBLEMA DO DESTINO 45 Esses fen�menos podem ser explicados por um princ�pio de exterioriza��o. Nesse estado, assim como na vida espiritual, a subconsci�ncia se une � consci�ncia normal e reconstitui a cons-ci�ncia total, a plenitude do �eu�. Por um instante, a associa��o das id�ias e dos fatos se restabelece; a cadeia das recorda��es se reata. O mesmo resultado pode ser obtido pela experimenta-��o; mas o indiv�duo, em sua pesquisa, deve ser ajudado por uma vontade superior � dele em poder, que se associe a ele e estimule seus esfor�os. Nos fen�menos de transe, esse papel � desempenhado, seja pelo esp�rito mentor, seja pelo magnetizador, cujo pensamento age sobre o indiv�duo como uma alavanca. As duas vontades combinadas, sobrepostas, adquirem ent�o uma intensidade de vibra��es que abalam e ativam as camadas profundas e mais ocultas do subconsciente. * Um outro ponto essencial deve prender a nossa aten��o: � o fato, estabelecido por toda a ci�ncia fisiol�gica, de que existe uma correla��o �ntima entre o f�sico e o mental do homem. A cada a��o f�sica corresponde um ato ps�quico e vice-versa. Os dois se registram ao mesmo tempo na mem�ria subconsciente de tal forma que um n�o pode ser evocado sem que o outro surja ime-diatamente. Essa concord�ncia se aplica aos menores fatos de nossa exist�ncia integral, tanto em rela��o ao presente quanto em rela��o aos epis�dios de nosso passado mais antigo. A compreens�o desse fen�meno, pouco intelig�vel para os materialistas, nos � facilitada pela consci�ncia do perisp�rito ou envolt�rio flu�dico da alma. � nele que se gravam todas as nos-sas impress�es, e n�o no organismo f�sico, composto de mat�-ria fluente, incessantemente vari�vel em suas c�lulas constitutivas. O perisp�rito � o instrumento de precis�o que registra com fidelidade absoluta as menores varia��es da personalidade. Todas as id�ias do pensamento, todos os atos da intelig�ncia t�m nele a sua repercuss�o. Seus movimentos, seus estados vibrat�rios distintos deixam nele tra�os sucessivos e sobre-postos. Certos experimentadores compararam esse modo de registro a um cinemat�grafo* vivo, sobre o qual se fixam suces-sivamente nossas aquisi��es e recorda��es. Ele se desenro-laria por uma esp�cie de desencadeamento ou abalo, causado * Cinemat�grafo: m�quina que podia registrar e projetar uma seq��ncia de fotos. Essa m�quina s� existe atualmente em museus (N.E.).?L�ON DENIS 46 quer pela a��o de uma sugest�o estranha, quer por uma auto-sugest�o, ou ent�o em conseq��ncia de um acidente, como dissemos anteriormente. J� a influ�ncia do pensamento sobre o corpo nos � demonstra-da por fen�menos que podem ser observados em n�s mesmos e em outras pessoas. O medo paralisa os movimentos; a admira-��o, a vergonha e o susto provocam a palidez ou o rubor; a ang�stia nos aperta o cora��o, a dor profunda faz escorrer nos-sas l�grimas e pode causar com o tempo uma depress�o vital. A� est�o outras tantas provas da a��o poderosa da for�a mental sobre o corpo f�sico. O hipnotismo, desenvolvendo a sensibilidade do ser, nos de-monstra de uma maneira ainda mais clara essa a��o reflexa do pensamento. Vimos que a sugest�o de uma queimadura pode pro-duzir no indiv�duo tantas desordens como a pr�pria queimadura. Provoca-se, pela vontade, a apari��o de chagas, cicatrizes, etc 13 . Se o pensamento e a vontade podem exercer tal influ�ncia so-bre o corpo f�sico, poderemos compreender que essa influ�ncia seja ainda maior e produza efeitos mais intensos quando aplicada � mat�ria flu�dica, imponder�vel, da qual o perisp�rito � formado. Menos densa, menos compacta que a mat�ria f�sica, obedecer� com muito mais facilidade �s menores vontades do pensamento. � em virtude dessa lei que os esp�ritos podem aparecer com uma das formas que tiveram no passado, com todas as caracter�sticas de sua personalidade extinta. Basta que pensem fortemente em uma fase qualquer de sua exist�ncia para se mostrarem aos videntes tais como eram na �poca registrada em sua mem�ria. E embora a for�a ps�quica necess�ria lhes seja fornecida por um ou mais m�diuns, tornam-se poss�veis as materializa��es. O coronel De Rochas, em suas experi�ncias, conseguindo isolar o corpo flu�dico, demonstrou que ele era a sede da sensi-bilidade e das recorda��es 14 . O hipnotismo e a fisiologia* combinados nos permitem, de agora em diante, estudar a a��o da alma sem o seu envolt�rio grosseiro e unida ao seu corpo sutil. Logo ir�o nos fornecer os meios de solucionar os mais delicados problemas do ser. A experimenta��o ps�quica cont�m a chave de todos os fen�menos da vida; est� destinada a reno-13 � Ver No invis�vel, cap�tulo 20. 14 � Ver A. de Rochas. L�ext�riorisation de la sensibilit� (A exterioriza��o da sensibilidade). * Fisiologia: parte da biologia que investiga as fun��es org�nicas, processos ou ativida-des vitais, como o crescimento, a nutri��o, a respira��o, etc. (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 47 15 � P. Janet. L�automatisme psychologique (O automatismo psicol�gico). * Timpanismo: nesse caso, distens�o do ventre provocada por gases. Crescimento. Incha��o (N.E.). var inteiramente a ci�ncia moderna, lan�ando luz viva sobre um grande n�mero de quest�es obscuras at� o presente. Vamos ver agora, nos fen�menos hipn�ticos e particularmente no transe, que as impress�es, registradas profundamente pelo corpo flu�dico, formam associa��es �ntimas. As impress�es f�sicas est�o ligadas �s impress�es morais e intelectuais de tal maneira que n�o se podem chamar umas sem aparecerem as outras. Sua reapari��o � sempre simult�nea. Essa correla��o �ntima do f�sico e do moral, em sua aplica��o nas recorda��es gravadas em n�s, � demonstrada por in�meras experi�ncias. Citemos primeiro a dos s�bios positivistas, que, apesar de suas preven��es a respeito de toda teoria nova, con-firmaram- na sem se darem conta disso: O senhor Pierre Janet, professor de fisiologia na Sorbonne, exp�e os fatos a seguir 15 . Ele fez a experimenta��o em sua paciente, Rosa, adormecida: �Sugiro a Rosa que n�o estamos mais em 1888, mas em 1886, no m�s de abril, para constatar simplesmente as modifica- ��es de sensibilidade que poderiam ser produzidas. Mas eis um acidente bastante estranho. Ela geme, queixa-se de estar can- sada e de n�o poder andar. �Pois bem, o que tem?� �Oh! N�o � nada... no estado em que me encontro!� �Que estado?� Ela me responde com um gesto; seu ventre havia crescido de repente e inchou por um acesso s�bito de timpanismo* hist�rico. Sem saber, eu a havia transportado a um per�odo de sua vida em que estava gr�vida. �Estudos mais interessantes foram feitos com outra paciente, Maria. Por esse meio, pude, fazendo-a voltar sucessivamente a diferentes per�odos de sua exist�ncia, constatar todos os estados diversos da sensibilidade pelos quais ela passou e as causas de todas as modifica��es. Assim, ela est� agora completamente cega do olho esquerdo e pensa ser assim desde o seu nasci- mento. Fazendo-a voltar � idade de sete anos, verifica-se que nela ainda existe anestesia no olho esquerdo; mas, se a ela for sugerido que tem seis anos, nota-se que v� bem com os dois olhos e pode-se determinar a �poca e as circunst�ncias bem curiosas nas quais perdeu a sensibilidade do olho esquerdo.?L�ON DENIS 48 A mem�ria realizou automaticamente um estado de sa�de do qual o indiv�duo acreditava n�o ter conservado nenhuma re- corda��o.� * A possibilidade de despertar na consci�ncia de um indiv�duo em transe as recorda��es esquecidas de sua inf�ncia nos con-duz logicamente � renova��o das recorda��es anteriores ao nascimento. Essa ordem de fatos foi assinalada pela primeira vez no Congresso Esp�rita de Paris, em 1900, por experimentadores espanh�is. Eis aqui um resumo do relat�rio, na sess�o do dia 25 de setembro 16 : �Estando o m�dium em sono profundo por meio de passes magn�ticos, Fernandez Colavida, presidente do Grupo de Estu- dos Ps�quicos de Barcelona, ordenou-lhe que dissesse o que tinha feito na v�spera, na antev�spera, uma semana, um m�s, um ano antes e sucessivamente ele o fez voltar at� a sua inf�n- cia e descrev�-la em todos os detalhes. �Sempre impulsionado pela mesma vontade, o m�dium con- tou sua vida no plano espiritual, a sua morte na �ltima encarna��o e, continuamente estimulado, chegou at� quatro encarna��es, das quais a mais antiga tinha sido uma exist�ncia totalmente selvagem. A cada exist�ncia, os tra�os do m�dium mudavam de express�o. Para traz�-lo ao estado habitual, fez-se com que voltasse gradualmente at� a sua exist�ncia atual e depois foi despertado. �Algum tempo depois, de improviso, com a inten��o de com- provar os fatos, o experimentador fez magnetizar o mesmo indiv�- duo por outra pessoa, sugerindo-lhe que suas descri��es anterio- res eram frutos da imagina��o. Apesar dessa sugest�o, o m�dium reproduziu a s�rie de quatro exist�ncias, como havia feito anteri- ormente. O despertar das recorda��es e o seu encadeamento foram id�nticos aos resultados obtidos na primeira experi�ncia.� Na mesma sess�o desse congresso, Esteve Marata, presi-dente da Uni�o Esp�rita de Catalunha, declarou ter obtido fatos semelhantes, pelos mesmos processos, ao fazer a experi�ncia em sua pr�pria esposa, em estado de sono magn�tico. A prop�-sito de uma mensagem dada por um esp�rito, que tinha rela��o com uma das suas vidas passadas, p�de despertar na consci�n-cia dela os tra�os de suas exist�ncias anteriores. 16 � Ver Compte Rendu du Congr�s Spirite et Spiritualiste de 1900 (Relat�rio do Con-gresso Esp�rita e Espiritualista de 1900). Leymarie ed.?O PROBLEMA DO DESTINO 49 17 � Th. Flournoy. Des Indes � la plan�te Mars. Desde ent�o essas experi�ncias t�m sido tentadas em muitos centros de estudos. T�m-se obtido assim in�meras indica��es sobre o fato das vidas sucessivas da alma. Essas experi�ncias ir�o provavelmente se multiplicar a cada dia. Notemos, entretan-to, que h� de se ter uma grande prud�ncia. Os erros e as fraudes s�o f�ceis; devemos recear os perigos. O experimentador deve escolher indiv�duos muito sens�veis e bem desenvolvidos. Ele deve ser assistido por um Esp�rito bastante evolu�do para afas-tar todas as influ�ncias estranhas, todas as causas de perturba-��o e preservar o m�dium de poss�veis acidentes, dos quais o mais grave seria o desprendimento completo, irremedi�vel, a impossibilidade de fazer voltar o esp�rito a retomar o corpo, o que ocasionaria a separa��o definitiva, a morte. � necess�rio, principalmente, colocar-se em guarda contra os excessos da auto-sugest�o e s� aceitar as descri��es dentro dos limites em que � poss�vel examin�-las e verific�-las; exigir nomes, datas, pontos de refer�ncia, numa palavra, um conjunto de provas que apresentem um car�ter verdadeiramente positivo e cient�fico. Seria bom imitar nesse ponto o exemplo dado pela Sociedade de Investiga��es Ps�quicas de Londres e adotar m�todos precisos e rigorosos, como, por exemplo, os que procuraram uma grande autoridade para acompanhar os trabalhos sobre telepatia. A falta de precau��o e de observa��o das regras mais ele-mentares da experimenta��o fizeram das incorpora��es de H�l�ne Smith um caso obscuro e cheio de dificuldades. Entre-tanto, no meio da confus�o dos fatos assinalados por Th. Flournoy, professor na Universidade de Genebra, entendemos que se deve destacar o fen�meno da princesa hindu Simandini. A m�dium em transe reproduziu as cenas de uma de suas exist�ncias, vivida na �ndia, no s�culo 12. Nesse estado, ela se serviu muitas vezes de palavras s�nscritas, l�ngua que ignorava no estado normal. Ela deu, sobre personagens hist�ricos hindus, indica��es que n�o se encontram em nenhuma obra comum, e por elas o professor, ap�s muita pesquisa, obteve a confirma��o numa obra de Marl�s, historiador pouco conhecido e completa-mente fora do alcance da paciente. H�l�ne Smith, no sono sonamb�lico, tomou uma atitude impressionante. Eis o que diz o senhor Flournoy num livro que teve grande repercuss�o 17 : �H� em todo o ser, na express�o da sua fisionomia, em seus movimentos, em seu timbre de voz, quando fala ou canta na l�ngua?L�ON DENIS 50 * Lemano: nome que se d� na Fran�a ao Lago de Genebra, localizado entre a Fran�a e a Su��a (N.E.). ** Ganges: o mais importante rio da �ndia (N.E.). indiana, uma gra�a lenta, um abandono, uma do�ura melanc�lica, algo de sensual e sedutor que corresponde ao car�ter do Oriente. �Toda a m�mica de H�l�ne t�o diferente e esse falar ex�tico t�m tal car�ter de originalidade, de facilidade, de natural, que se pergunta com espanto de onde vem para essa filha das margens do Lemano*, sem educa��o art�stica nem conhecimentos espe- ciais do Oriente, uma perfei��o de jogo c�nico � qual, sem d�vida, a melhor atriz s� chegaria � custa de estudos prolongados ou de uma estada nas margens do Ganges**.� Quanto � escrita e � linguagem indost�nica empregadas por H�l�ne, o senhor Flournoy acrescenta que, em suas pesquisas para explicar o conhecimento que ela possu�a, �todas as tenta-tivas falharam�. N�s mesmos pudemos observar, durante v�rios anos, casos semelhantes ao de H�l�ne Smith. Uma das m�diuns do grupo cujos trabalhos dirig�amos reproduzia, no transe, sob a influ�ncia do Esp�rito mentor, cenas de suas diferentes exist�ncias. A prin-c�pio, foram as da vida atual, no per�odo infantil, com express�es caracter�sticas e emo��es juvenis. Depois, vieram epis�dios de vidas remotas, com mudan�as de fisionomia, atitudes, movimentos, reminisc�ncias da meia-idade, todo um conjunto de detalhes psi-col�gicos e autom�ticos bastante diferentes dos h�bitos atuais da senhora, bastante honesta e incapaz de alguma simula��o, pela qual obt�nhamos esses estranhos fen�menos. * O coronel A. de Rochas, antigo administrador da Escola Po-lit�cnica, ocupou-se muito dessa esp�cie de experimenta��es. Apesar das obje��es que podem causar, acreditamos dever rela-tar algumas de suas experi�ncias, e eis o porqu�: A princ�pio, encontramos mais uma vez em todos os fatos da mesma ordem provocados por De Rochas essa correla��o do f�sico e do mental que j� assinalamos anteriormente e que parece ser a express�o de uma lei. As recorda��es de fatos anteriores ao nascimento produzem, no organismo dos indiv�duos adorme-cidos, efeitos materiais constatados por todos os assistentes, muitos dos quais eram m�dicos. Acontece que, ainda que se leve em conta o papel que pode representar, nessas experi�ncias, a imagina��o dos indiv�duos, ainda que sejam levados em conta?O PROBLEMA DO DESTINO 51 * Arabesco: ornato de origem �rabe no qual se entrela�am linhas, ramagens, flores, frutos, etc. (N.E.). 18 � Revista Esp�rita, janeiro de 1907. Ver tamb�m a obra do coronel De Rochas Les vies successives (Vidas sucessivas), Ed. Chacornac, 1911. os arabescos* que ela borda em torno do fato principal, � muito mais dif�cil atribuir esses efeitos � simples fantasia desses indi-v�duos que, segundo as pr�prias express�es do Coronel, � se tem plena certeza de sua boa-f� e de que suas revela��es s�o acompanhadas de caracter�sticas som�ticas que parecem pro- var, de uma maneira absoluta, a sua realidade 18 �. Damos a palavra ao coronel De Rochas: �H� muito tempo se sabia que, em algumas ocasi�es, espe- cialmente quando se est� para morrer, recorda��es h� muito tempo esquecidas se sucedem com uma rapidez extrema no esp�rito de algumas pessoas, como se diante de sua vista se desenrolassem os quadros de toda a sua vida. �Determinei experimentalmente um fen�meno semelhante sobre indiv�duos magnetizados; com a diferen�a que, em vez de fazer voltar simples recorda��es, fa�o os indiv�duos tornarem aos estados de alma correspondentes �s idades a que os reconduzo, com esquecimento de tudo o que � posterior a essas �pocas. Tais transforma��es se operam com a ajuda de passes longitudinais comuns, que t�m como efeito o aprofundamento do sono magn�- tico. As mudan�as de personalidade, se assim se podem chamar as diferentes etapas pelas quais passa um mesmo indiv�duo, suce- dem-se, invariavelmente, de acordo com a ordem dos tempos, fazen- do-o voltar ao passado quando se empregam passes longitudinais, para voltar, na mesma ordem, ao presente, quando se recorre aos passes transversais ou despertadores. Enquanto o indiv�duo n�o volta ao estado normal, apresenta a insensibilidade cut�nea. Po- dem-se precipitar as transforma��es com o aux�lio da sugest�o, mas � preciso percorrer sempre as mesmas fases e n�o agir com muita pressa, porque sen�o provocam-se os gemidos do indiv�- duo, que diz estar sendo torturado e que n�o pode seguir-nos. �Quando fiz meus primeiros ensaios, parava logo que o indiv�- duo, transportado � primeira inf�ncia, n�o sabia mais me responder; pensava n�o ser poss�vel ir mais longe. Um dia, contudo, tentei tornar mais profundo o sono continuando os passes, e grande foi minha admira��o quando, ao interrogar o dormente, encontrei-me na presen�a de uma outra personalidade, dizendo ser a alma de um morto que tinha usado tal nome e vivido em tal pa�s. Um novo?L�ON DENIS 52 * Expiar: sofrer as conseq��ncias de um ato (N.E.). 19 � A. de Rochas. Les vies successives. ** Letargia: estado caracterizado por sono profundo e demorado, causado por dist�rbios cerebrais ou por perda moment�nea do controle cerebral (N.E.). caminho parecia se abrir: continuando os passes no mesmo sentido, fiz reviver o morto e esse, ressuscitado, percorreu toda sua vida anterior, remontando o curso do tempo. Nesse caso n�o eram simples recorda��es que eu despertava, mas estados de alma sucessivos que eu fazia reaparecer. �� medida que essas experi�ncias se repetiam, essa viagem no passado se efetuava cada vez com mais rapidez, passando sempre exatamente pelas mesmas fases, de maneira que pude assim recuar a diversas exist�ncias anteriores sem haver muita fadiga para o paciente e para mim. Todos os indiv�duos, quaisquer que fossem suas opini�es no estado de vig�lia, apresentavam o espet�culo de uma s�rie de individualidades, cada vez menos adiantadas moralmente, � medida que se remontava o curso das idades; em cada exist�ncia expiava-se*, por uma esp�cie de pena de tali�o, as faltas da exist�ncia anterior, e o tempo que separava duas encarna��es passava-se num meio mais ou menos lumi- noso, de acordo com o estado de adiantamento do indiv�duo. �Passes que despertavam faziam progressivamente o indiv�- duo voltar ao estado normal, percorrendo as mesmas etapas, exatamente na ordem inversa. �Quando verifiquei por mim mesmo e por outros experimen- tadores que operavam em outras cidades, com outros indiv�duos, que n�o se tratava de simples sonhos decorrentes de causas for- tuitas, mas de uma s�rie de fen�menos apresentados de uma maneira regular com todas as caracter�sticas aparentes de uma vis�o no passado ou no futuro, dediquei-me totalmente a investi- gar se essa vis�o correspondia � realidade.� O resultado das pesquisas feitas pelo coronel De Rochas o levou a concluir nestes termos 19 : �� certo que por meio de opera��es magn�ticas se pode trazer progressivamente a maior parte dos sensitivos a �pocas anteriores a sua vida atual, com as particularidades intelectuais e fisiol�gicas caracter�sticas dessas �pocas, e isso at� o momento de seu nascimento. N�o s�o lembran�as que acordam; s�o os estados sucessivos da personalidade que s�o evocados; essas evoca��es sempre se produzem na mesma ordem e por meio de uma sucess�o de letargias** e de estados sonamb�licos.?O PROBLEMA DO DESTINO 53 �� certo que, ao continuar essas opera��es magn�ticas, al�m do nascimento e sem ter necessidade de recorrer a sugest�es, faz-se passar o indiv�duo por estados semelhantes correspon- dentes �s encarna��es anteriores e aos intervalos que separam essas encarna��es. O processo � o mesmo das sucess�es de letargias e de estados sonamb�licos.� Conv�m repetir que as concord�ncias que existem entre os fatos constatados por s�bios materialistas, hostis ao princ�pio das vidas sucessivas, tais como Pierre Janet, doutor Pitre, doutor Burot e outros, e os relatados pelo coronel De Rochas, nos de-monstram que h� nesses fatos mais do que sonhos ou romances �subliminais�; h� uma lei de correla��o que merece estudo atento e cont�nuo. Foi por isso que nos pareceu necess�rio insistir nesses fatos. Em primeiro lugar, conv�m mencionar uma s�rie de expe-ri�ncias feitas em Paris com Laurent V..., rapaz de 20 anos que cursava a Escola Polit�cnica e ia se formar em filosofia. Os resultados foram publicados em 1895 nos Anais das Ci�ncias Ps�quicas. O senhor De Rochas resumiu-os assim 20 : �Tendo verificado que ele era sensitivo, quis compreender os efeitos fisiol�gicos e psicol�gicos que poderiam ser obtidos com a ajuda do magnetismo. Descobri por acaso que, adormecendo-o por meio de passes longitudinais, trazia-o para estados de cons- ci�ncia e de desenvolvimento intelectual correspondentes a idades cada vez menos adiantadas; assim, passava sucessivamente a aluno de ret�rica*, de segunda, de terceira classe, etc., n�o sabendo mais nada do que se ensinava nas classes superiores. Acabei por lev�-lo ao momento em que aprendia a ler, e ele me deu, em rela��o � sua professora e aos seus pequenos compa- nheiros de escola, detalhes que havia esquecido completamente quando acordado, mas cuja exatid�o foi confirmada por sua m�e. �Alternando os passes adormecedores e os passes desper- tadores, fazia-o subir ou descer, de acordo com minha vontade, pelo curso de sua vida.� Com os fatos a seguir, o c�rculo dos fen�menos se amplia. O coronel acrescenta: �H� pouco tempo encontrei em Grenoble e Voiron** tr�s indi- v�duos que possu�am faculdades semelhantes e cuja realidade 20 � Mem�ria lida na Academia Delphinale, em 19 de novembro de 1904, por A. de Rochas. * Ret�rica: nesse caso, conjunto de regras relativas � capacidade de falar e exprimir-se com facilidade (N.E.). ** Grenoble e Voiron: cidades francesas (N.E.).?L�ON DENIS 54 pude igualmente verificar. Tive a id�ia de continuar os passes adormecedores, ap�s os ter levado � sua mais tenra inf�ncia, e os passes despertadores ap�s os ter trazido � sua idade atual. Fiquei muito admirado de ouvi-los narrar sucessivamente os principais acontecimentos de suas exist�ncias passadas e seu estado entre duas vidas. As indica��es, que n�o variavam nunca, eram de tal modo precisas que pude fazer indaga��es. Constatei assim que os nomes de lugares e de fam�lias que entravam em suas narrativas realmente existiram, embora n�o se lembrassem de nada quando estavam acordados; mas n�o pude achar nos atos do estado civil nenhum tra�o das personagens obscuras que eles teriam vivido.� Extra�mos outros detalhes complementares de um estudo do senhor De Rochas, mais extenso que o anterior 21 : �Esses indiv�duos n�o se conheciam. Uma, chamada Jos�phine, tem 18 anos, mora em Voiron e n�o � casada. A outra, Eug�nie, tem 35 anos e mora em Grenoble; � vi�va, tem dois filhos e pos- sui uma natureza ap�tica, muito franca e pouco curiosa. Ambas possuem boa sa�de e conduta regular. Ao conhecer a fam�lia delas, pude verificar a exatid�o de suas revela��es retrospectivas em in�meros detalhes que n�o teriam nenhum interesse para o leitor. Citarei apenas alguns relativos a Eug�nie, a fim de dar-lhes apenas uma id�ia; s�o resumos das atas de nossas sess�es com o doutor Bordier, diretor da Escola de Medicina de Grenoble: �Adormecida, transporto-a a alguns anos antes. Vejo uma l�grima escorrer de seus olhos. Ela me diz que tem 20 anos e que acaba de perder um filho. �...Continua��o dos passes. Sobressalto brusco com grito de pavor; viu aparecerem ao seu lado fantasmas de sua av� e de uma de suas tias, falecidas havia pouco tempo. (Essa apari��o, que aconteceu na idade a que a levei, havia lhe causado uma impress�o muito profunda.) �...Agora ela est� com 11 anos. Vai fazer sua primeira comu- nh�o; seus maiores pecados s�o ter desobedecido algumas vezes � sua av� e, sobretudo, ter tirado alguns trocados do bolso de seu papai. Teve muita vergonha e pediu perd�o. �...Aos 9 anos. Sua m�e falecera havia 8 dias; ela estava bastante triste. Seu pai, tintureiro em Vinay, acabou de mand�-la para a casa de seu av� em Grenoble, para aprender a costurar. 21 � Ver A. de Rochas. Les vies successives. Ed. Chacornac, 1911.?O PROBLEMA DO DESTINO 55 �Aos 6 anos. Est� na escola de Vinay e j� sabe escrever bem. �Aos 4 anos. Cuida de sua irm�zinha quando n�o est� na escola. Come�a a fazer riscos e a escrever algumas letras. �Passes transversais, despertando-a, fazem-na passar exa- tamente pelas mesmas fases e pelos mesmos estados de alma.� O coronel experimenta o que ele chama o �instinto do pudor�, em diferentes fases do sono; levanta um pouco o vestido de Eug�nie, que, a cada vez, abaixa-o com vivacidade ou lhe d� alguns tapas. � Quando pequena, n�o reage contra esse procedi- mento; seu pudor ainda n�o acordou.� �Jos�phine, em Voiron, apresentou os mesmos fen�menos em rela��o � escrita em diferentes idades. (Seguem-se cinco modelos da escrita mostrando o progresso de sua instru��o, dos 4 aos 18 anos.) �At� agora temos caminhado em terreno firme; observamos um fen�meno fisiol�gico dificilmente explic�vel, mas que in�meras experi�ncias e observa��es permitem considerar como certo. Vamos agora entrever horizontes novos. �Deixamos Eug�nie no estado de criancinha amamentada por sua m�e. Ao tornar seu sono mais profundo, detectei uma mu- dan�a de personalidade. J� n�o estava viva; flutuava em uma semi-obscuridade, n�o tendo pensamentos, nem necessidades, nem comunica��o com ningu�m. Depois, recorda��es ainda mais distantes. �Ela havia sido antes uma menina que desencarnou muito nova de uma febre causada pela denti��o; v� seus pais chorando em volta de seu corpo, do qual se separou muito depressa. �Procedi depois ao despertar, dando passes transversais. Ao acordar, percorre em sentido inverso todas as fases assina- ladas anteriormente e me d� novos detalhes provocados pelas minhas perguntas. Algum tempo antes de sua �ltima encarna��o, sentiu que deveria reviver em certa fam�lia; aproximou-se daquela que viria a ser sua m�e e que acabava de conceb�-la... Entrou, pouco a pouco, �por baforadas� no pequeno corpo. At� os sete anos viveu, em parte, fora desse corpo carnal que ela via, nos primeiros meses de sua vida, como se estivesse fora dele. N�o distinguia bem os objetos materiais que a rodeavam, mas, em compensa��o, tinha a percep��o de esp�ritos flutuando ao seu redor. Uns, muito brilhantes, protegiam-na contra outros, escuros e malfazejos, que procuravam influenciar seu corpo f�sico; quan- do conseguiam isso, provocavam aqueles acessos de raiva que as mam�es chamam de manha.�?L�ON DENIS 56 22 � Ver tamb�m seu livro Les vies successives. S�o apresentados longos detalhes muito interessantes sobre outras exist�ncias da personalidade que culminam por �ltimo em Jos�phine; e o senhor De Rochas termina assim: �� muito dif�cil conceber como as a��es mec�nicas, tais como as dos passes, determinam o fen�meno da regress�o da mem�ria de uma maneira absolutamente certa at� um momento determi- nado, e essas a��es, continuadas exatamente da mesma ma- neira, mudam bruscamente, nesse momento, o seu efeito, para somente originarem alucina��es.� N�o acrescentaremos nada a esses coment�rios com receio de enfraquec�-los. Preferimos passar sem transi��o a uma outra s�rie de experi�ncias do senhor De Rochas, feitas em Aix-en-Provence, experi�ncias relatadas, sess�o por sess�o, nos Anais das Ci�ncias Ps�quicas de julho de 1905 22 : O indiv�duo � uma jovem de 18 anos, desfruta de sa�de per-feita e nunca ouviu falar de magnetismo nem de Espiritismo. A senhorita Marie Mayo � filha de um engenheiro franc�s, falecido no Oriente. Foi educada em Beirute, onde foi confiada aos cuida-dos de criados do lugar; aprendeu a ler e escrever em �rabe. Depois, foi trazida para a Fran�a e mora em Aix, com uma tia. As sess�es tinham como testemunhas o doutor Bertrand, antigo presidente da C�mara Municipal de Aix, m�dico da fam�lia, e o senhor Lacoste, engenheiro, a quem se deve a reda��o da maior parte das atas. Ocorreram muitas sess�es. A enumera��o dos fatos ocupa 50 p�ginas dos Anais. As primeiras experi�ncias, realizadas no m�s de dezembro de 1904, estavam relacionadas � renova��o das recorda��es da vida atual. A jovem, imersa na hipnose pelo coronel, volta gradualmente ao passado e revive as cenas de sua inf�ncia. Ela d�, em diferentes idades, exemplos de sua letra, que podem ser examinados. Aos 8 anos, escreve em �rabe e tra�a caracteres que depois esqueceu. Obt�m-se, a seguir, a renova��o das vidas anteriores. Alter-nadamente, subindo ou descendo o curso de suas exist�ncias para chegar � �poca atual, sob o imp�rio dos processos magn�-ticos que indicamos, o indiv�duo passa e torna a passar pelas mesmas etapas, na mesma ordem, direta ou retr�grada, com uma lentid�o, diz o coronel, � que torna as explora��es dif�ceis para al�m de um certo n�mero de vidas e de personalidades�. A simula��o n�o � poss�vel. A senhorita Mayo atravessa os diferentes estados hipn�ticos e, em cada um deles, manifesta os sintomas que o caracterizam. Diversas vezes o doutor Bertrand?O PROBLEMA DO DESTINO 57 * Catalepsia: estado caracterizado pela rigidez dos m�sculos e imobilidade; pode ser provocado por afec��es nervosas ou induzidas, como, por exemplo, pelo hipnotismo (N.E.). ** Contratura: ato de contrair-se, apertar-se, ficar com os m�sculos tensos (N.E.). 23 � Anais das Ci�ncias Ps�quicas, julho de 1905. verifica a catalepsia*, a contratura**, a insensibilidade completa. Mayo passa a m�o sobre uma chama de vela e n�o sente nada. � Ela n�o tem nenhuma sensibilidade ao amon�aco. Seus olhos n�o reagem � luz; a pupila n�o � impressionada por um candeeiro ou por uma vela colocada rapidamente perto de seu olho ou afas- tada rapidamente 23 .� Em compensa��o, a sensibilidade a dist�n-cia fica mais acentuada, o que demonstra, com toda a evid�ncia, o fen�meno da exterioriza��o. Citemos as atas: �Fa�o subir a Mayo o curso dos anos; ela vai, desse modo, at� a �poca de seu nascimento. Fazendo-a chegar mais longe, ela se lembra do que j� viveu, de que se chamava Line, de que morreu afogada, de que se elevou depois ao ar, de que viu seres luminosos com os quais n�o podia falar. Al�m da vida de Line, encontra-se de novo na erraticidade, mas em um estado lasti-m�vel, pois, antes, havia sido um homem �que n�o fora bom�.� Nessa encarna��o, chamava-se Charles Mauville. Entrou na vida p�blica como empregado num escrit�rio em Paris. Havia muitas brigas nas ruas. Ele mesmo tinha matado pessoas e sentia prazer nisso, era mau. Cabe�as eram decepadas nas pra�as. Aos 50 anos, deixa o escrit�rio, est� doente (Mayo tosse) e n�o tarda a morrer. Pode seguir seu enterro e ouvir as pessoas dizerem � cometeu muitas extravag�ncias�. Ainda permanece durante algum tempo ligado ao seu corpo. Sofre, � infeliz. Afinal, passa para o corpo de Line. Outras sess�es reconstituem a exist�ncia de Line, a bret�: � Torna-se Line de novo... no momento em que se afoga�. Imedia-tamente Mayo faz um movimento brusco na poltrona; vira-se para o lado direito com o rosto nas m�os e permanece assim por alguns segundos. Poderia ser dito que aquela era uma fase do ato que � executado voluntariamente, pois se Line morre afoga-da, � um afogamento volunt�rio, um suic�dio, o que d� � cena um aspecto totalmente particular, bem diferente de um afogamento involunt�rio. Depois, Mayo vira-se bruscamente para o lado esquerdo. Os movimentos respirat�rios precipitam-se e tornam-se dif�ceis; o peito levanta-se com esfor�o e irregularidade; o rosto exprime?L�ON DENIS 58 ansiedade, ang�stia; os olhos est�o espantados. Ela faz verdadei-ros movimentos de degluti��o, como se engolisse �gua, mas contra a sua vontade, pois se v� que resiste. Nesse momento, d� alguns gritos inarticulados; torce-se mais do que se debate e seu rosto exprime um sofrimento t�o real que o senhor De Ro-chas lhe ordena que envelhe�a algumas horas. Depois lhe per-gunta: �Voc� se debateu por muito tempo?� �Sim.� �� uma morte ruim?� �Sim.� �Onde est�?� �No escuro.� 30 de dezembro de 1904 � Exist�ncia de Charles Mauville. Mayo descreve uma das fases da doen�a que o mata. Parece passar por todos os sintomas caracter�sticos das doen�as do peito: opress�o, fortes acessos de tosse. Ela morre e assiste ao seu funeral: �Havia muitas pessoas no cortejo?� �N�o.� �O que diziam de voc�? N�o diziam bem, n�o � verdade? Lembravam que voc� tinha sido um homem mau?� (Depois de hesitar e bem baixinho): �Sim.� Em seguida, est� no �escuro�; o coronel faz que o atravesse rapidamente e ela reencarna na Bretanha. V�-se menina, depois jovem, tem 16 anos e ainda n�o conhece seu futuro marido; aos 18 anos ela o encontra, casa-se pouco depois e vem a ser m�e. Assistimos aqui a uma cena de parto de um realismo surpreen-dente 24 . A paciente se mexe na poltrona, seus membros se enrijecem, seu rosto se contrai e seu sofrimento parece t�o in-tenso que o coronel lhe ordena que os passe com rapidez. Ela est� com 22 anos, perdeu seu marido em um naufr�gio e seu filhinho morreu. Desesperada, afoga-se. Esse epis�dio, que ela j� reproduziu em uma outra sess�o, � t�o doloroso que o coronel lhe pede para ir mais adiante, o que ela faz, mas n�o sem experimentar verdadeiro abalo. No �escuro� em que se v� depois, ela n�o sofre, como dissemos, tanto quanto sofrera no �escuro� depois da morte de Charles Mauville. Ela encarna em sua fam�lia atual e volta � idade que tem. A mudan�a ocorre por meio de passes magn�ticos transversais. 24 � N�o lhe foi naturalmente revelado esse incidente ao despertar.?O PROBLEMA DO DESTINO 59 31 de dezembro de 1904 � Proponho-me, nessa sess�o, obter alguns novos detalhes sobre a personalidade de Charles Mauville e fazer que Mayo chegue at� uma vida anterior. Fa�o rapidamente com que o sono se torne mais profundo por meio de passes longitudinais, at� a inf�ncia de Mauville. No momento em que o interrogo, tem cinco anos; seu pai � contramestre em uma manufatura, sua m�e est� vestida de preto e tem uma touca na cabe�a. Continuo a aprofundar o sono. Antes de seu nascimento, est� na �escurid�o�. Sofre. Antes, havia sido uma senhora casada com um gentil homem, ligado � corte de Lu�s XIV; chamava-se Madeleine de Saint-Marc. Informa��es sobre a vida dessa senhora: conheceu a senho-rita de La Valli�re, que lhe era simp�tica; mal conhece a senhora de Montespan. A senhora de Maintenon lhe desagrada. �Dizem que o Rei casou-se secretamente com ela.� �Imaginem! � apenas amante dele.� �E o que voc� pensa a respeito do rei?� �� um orgulhoso.� �Conhece Scarron?� �Deus! Como ele � feio!� �Viu representar Moli�re?� �Sim, mas n�o gosto muito dele.� �Conhece Corneille?� �� um selvagem.� �E Racine?� �Conhe�o principalmente suas obras e gosto muito delas.� Proponho que envelhe�a para que veja o que ir� acontecer mais tarde com ela. Recusa-se. � em v�o que ordeno com autoritarismo; s� consigo vencer sua resist�ncia com en�rgicos passes transversais, dos quais procura fugir por todos os meios. No momento em que paro, tem 40 anos; deixou a corte; tosse e sente dor no peito. Fa�o que fale de seu car�ter; confes-sa que � ego�sta e ciumenta, que tem ci�me principalmente de mulheres bonitas. Aos 45 anos, morre de tuberculose pulmonar. Assisto a uma curta agonia e ela entra na escurid�o. Paremos um instante para considerar o conjunto desses fa-tos, procurar as garantias de autenticidade que apresentam e deles tirar ensinamentos. Logo de in�cio uma coisa nos impressiona: �, em cada vida renovada, a repeti��o constante, no decorrer das sess�es m�l-tiplas, dos mesmos acontecimentos, na mesma ordem, tanto?L�ON DENIS 60 ascendentes quanto descendentes, de uma maneira espont�nea, sem hesita��o, erro ou confus�o 25 . Depois, vem a constata��o un�nime dos experimentadores na Espanha, em Genebra, Grenoble, Aix, etc., constata��o que eu mesmo pude fazer sempre que observei fen�menos desse g�nero: em cada nova exist�ncia que se desenrola, a atitude, o gesto e a linguagem do indiv�duo mudam; a express�o do rosto fica diferente, tornando-se mais dura � medida que se recua na ordem do tempo. Vem � tona um conjunto de opini�es, de precon-ceitos, de cren�as em rela��o � �poca e ao meio em que essa exist�ncia se passou. Quando o indiv�duo � uma mulher e passa por uma encarna��o masculina, a fisionomia � inteiramente outra, a voz � mais forte, o tom mais elevado, os modos demonstram certa rudeza. As atitudes, os gestos e a linguagem s�o tamb�m muito diferentes quando se atravessa o per�odo infantil. Os estados f�sicos e mentais encadeiam-se, ligam-se sempre em uma conex�o �ntima, completando-se uns aos outros e perma-necendo insepar�veis. Cada recorda��o evocada, cada cena revivida, mobiliza todo um cortejo de sensa��es e impress�es, c�micas ou lastim�veis, de acordo com o caso, mas perfeita-mente adequadas � situa��o. A lei de correla��o constatada por Pierre Janet, T. Ribot, etc. encontra-se e manifesta-se aqui em todo o seu rigor, com uma precis�o mec�nica, tanto no que se refere �s cenas da vida presente quanto �s das vidas anteriores. Essa correla��o constante bastaria, por si s�, para assegurar �s duas ordens de recorda��es o mesmo car�ter de probabilidade. As recorda��es da exist�ncia atual em suas fases prim�rias, apaga-das da mem�ria normal do indiv�duo, tendo sido verificadas como exatas, s�o para umas prova de autenticidade e s�o igualmente uma forte presun��o em prol das outras. Por outro lado, os indiv�duos reproduziram com uma fidelidade absoluta, com uma vivacidade de impress�es e de sensa��es de forma alguma artificiais, cenas t�o comoventes como compli-cadas: asfixia por imers�o, agonias causadas pela tuberculose no �ltimo grau, caso de gravidez seguida de parto, com toda uma s�rie de fen�menos f�sicos correspondentes: sufoca��es, dores, etc. 25 � Um outro experimentador, senhor A. Bouvier, diz (Paix universelle de Lyon, 15 de setembro de 1906): �Cada vez que o sujeito torna a passar por um mesma vida, quaisquer que sejam as precau��es tomadas para engan�-lo ou faz�-lo se enganar, permanece sempre a mesma individualidade, com seu car�ter pessoal, corrigindo quando necess�rio os erros dos que o interrogam�.?O PROBLEMA DO DESTINO 61 * Patologia: ramo da medicina que se ocupa da natureza e das modifica��es estruturais e funcionais produzidas pela doen�a no organismo (N.E.). 26 � Essa opini�o foi emitida em minha presen�a, quando estive em Aix, pelo senhor Lacoste e pelo doutor Bertrand. ** Lei de Causalidade: Lei de Causa e Efeito ou de A��o e Rea��o pela qual cada um recebe de volta aquilo que tem dado (N.E.). 27 � Ver sobre esse assunto A. de Rochas, Les vies successives. Acontece que esses indiv�duos, quase todos mo�as de 16 a 18 anos, s�o, por natureza, muito t�midos e pouco entendidos em mat�ria cient�fica. Por declara��o dos pr�prios experimentadores, dos quais um � m�dico da fam�lia de Mayo, a incapacidade de simularem essas cenas � not�ria. Elas n�o possuem nenhum conhecimento de fisiologia ou de patologia* e n�o foram teste-munhas, em sua exist�ncia atual, de nenhum incidente capaz de lhes fornecer indica��es e ensinamentos sobre fatos dessa natureza 26 . Todas essas considera��es nos levam a afastar as suspeitas de fraude, artif�cio ou a hip�tese de um simples jogo da imagina��o. Que talento, que arte, qual perfei��o de atitude, de gesto e de acentua��o n�o seria necess�rio despender de maneira con-t�nua, no decorrer de tantas sess�es, para imaginar e simular cenas t�o realistas, �s vezes dram�ticas, em presen�a de experimentadores h�beis em desmascarar a impostura, de pr�ti-cos sempre em guarda contra o erro ou a mentira? Tal papel n�o pode ser atribu�do a jovens sem nenhuma experi�ncia de vida, tendo recebido uma instru��o elementar b�sica. Outra coisa: no encadeamento dessas sess�es, no destino dos seres, que s�o o motivo principal, nas perip�cias de suas exist�ncias, encontramos sempre a confirma��o dessa alta lei de causalidade** ou de conseq��ncia de atos, que rege o mundo moral. Certamente n�o podemos ver nisso um reflexo das opi-ni�es desses indiv�duos, visto que n�o possuem nenhuma no-��o a tal respeito, por n�o terem sido preparados pelo meio em que viveram nem pela educa��o que receberam para o conheci-mento das vidas sucessivas, como atestam os observadores 27 . Evidentemente, muitos descrentes pensar�o que esses fatos ainda s�o insuficientes para que possa surgir, a partir deles, uma teoria segura e de conclus�es definitivas. Poder�o dizer que conv�m esperar para isso uma quantidade mais consider�vel de provas e de testemunhos. Ir�o nos apresentar como obje��o muitas experi�ncias sem datas precisas com aspecto suspeito, em que sobram contradi��es e fatos sem autenticidade. Temos,?L�ON DENIS 62 em rela��o a essas narrativas falsas, a forte impress�o de que observadores ben�volos tenham sido enganados, mistificados. Mas como as experi�ncias s�rias seriam atingidas com isso? Os abusos, os erros praticados aqui e ali, n�o podem atingir os estudos feitos com um m�todo preciso e um rigoroso esp�rito de verifica��o. Em resumo, acreditamos que os fatos relatados unidos a muitos outros da mesma natureza, que seria sup�rfluo enumerar aqui, s�o suficientes para estabelecer a exist�ncia, na base do edif�cio do �eu�, de uma esp�cie de cripta* onde se amontoa uma imensa reserva de conhecimentos e de recorda��es. O longo passado do ser deixou a� seus tra�os indestrut�veis, que pode-r�o nos contar o segredo das origens e da evolu��o, o mist�rio profundo da natureza humana. H�, diz Herbert Spencer**, dois processos de constru��o da consci�ncia: a aprendizagem e a lembran�a. Mas � preciso reconhecer que a consci�ncia normal a que ele se refere � apenas uma consci�ncia incerta e limitada, que vacila � beira dos abismos da alma como uma chama intermitente***, iluminando um mundo oculto onde est�o adormecidas for�as e imagens, em que se acumulam as impress�es recolhidas desde o ponto inicial do ser. E tudo isso, oculto durante a vida pelos v�us da carne, reve-la- se no transe, sai da sombra com tanto mais nitidez quanto mais livre da mat�ria est� a alma e maior � o seu grau de evolu��o. * Quanto �s reservas feitas pelo coronel De Rochas a prop�-sito das inexatid�es observadas por ele nas narra��es dos hipnoti-zados, no decorrer de suas investiga��es, devemos acrescentar uma coisa: n�o h� nada de estranho em rela��o � possibilidade de terem ocorrido erros, atendendo ao estado mental dos indiv�-duos e � quantidade de elementos conhecidos e desconhecidos � na hora atual � que entram em jogo nesses fen�menos t�o novos para a ci�ncia. Eles poderiam ser atribu�dos a tr�s causas diferentes: a lembran�as diretas dos indiv�duos, a vis�es ou en-t�o a sugest�es de origem externa. Em rela��o ao primeiro caso, notemos que, em todas as experi�ncias que tenham por objetivo colocar em vibra��o as for�as an�micas****, o ser assemelha-se * Cripta: galeria subterr�nea, caverna, gruta (N.E.). ** Herbert Spencer (1820�1903): importante fil�sofo ingl�s fundador das escolas evolucionista e individualista, materialista de grande repercuss�o ainda nos nossos dias (N.E.). *** Intermitente: que apresenta interrup��es ou suspens�es; n�o cont�nuo (N.E.). **** For�as an�micas: for�as da alma ou da psique (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 63 a um foco que se acende e aviva e que, em sua atividade, projeta vapores e fumos que, de tempos em tempos, encobrem a chama interior. Entretanto, nos indiv�duos pouco evolu�dos, pouco estimu-lados, as recorda��es normais, as impress�es recentes ir�o se misturar com lembran�as mais distantes. A habilidade dos experi-mentadores consistir� em saber separar esses elementos pertur-badores, em dissipar as brumas e as sombras, para darem ao foco central sua import�ncia e seu brilho. Tamb�m poder�amos ver nisso os resultados de sugest�es excercidas pelos magnetizadores ou por personalidades estra-nhas. Eis o que diz, sobre esse assunto, o coronel De Rochas 28 : �Essas sugest�es certamente n�o v�m de mim, que n�o somente evitei tudo o que poderia colocar o indiv�duo num deter- minado caminho, mas que procurei muitas vezes em v�o desvi�-lo com diferentes sugest�es. O mesmo aconteceu com outros experimentadores que se entregaram a esse estudo. �Ser� que essas id�ias, segundo a express�o popular, �an- dam no ar� e atuam com mais for�a no esp�rito do indiv�duo sepa- rado dos la�os do corpo? At� que poderia ser, pois temos notado que todas as revela��es dos ext�ticos* se ressentem mais ou menos do meio em que viveram. �Ser� que os esp�ritos, querendo espalhar entre os homens a cren�a nas encarna��es sucessivas, procedem como a Morale en action (Moral em a��o) , com a ajuda de pequenas hist�rias assinadas por pseud�nimos para evitar as reivindica��es entre os vivos?� Os esp�ritos, sendo consultados a tal respeito por via medi�nica, responderam 29 : �Quando o indiv�duo n�o est� livre o suficiente para ler em si mesmo a hist�ria de seu passado, passamos ent�o a proceder por quadros sucessivos, que lhe reproduzem, � sua vista, suas pr�prias exist�ncias. S�o, de fato, vis�es, e � por isso que nem sempre podem ser exatas. �Podemos iniciar-vos em vosso passado, sem exatid�o quanto a datas e lugares. N�o vos esque�ais de que, livres das conven- ��es terrestres, n�o h� mais para n�s nem tempo, nem espa�o. Vivendo fora desses limites, facilmente cometemos enganos nas 28 � Anais das Ci�ncias Ps�quicas, janeiro de 1906. * Ext�tico: que entra em transe. Momento em que o esp�rito do m�dium alcan�a estados de extraordin�ria independ�ncia em rela��o ao corpo f�sico e penetra em mundos desco-nhecidos, enquanto nos sonhos e no sonambulismo o esp�rito percorre o mundo terrestre � Veja O Livro dos Esp�ritos, quest�o 455 (N.E.). 29 � Comunica��o obtida em um grupo de Havre, em junho de 1907.?L�ON DENIS 64 coisas ligadas a eles. Consideramos tudo isso coisas m�nimas e preferimos falar de vossos atos, bons ou maus, e de suas conse- q��ncias. Se algumas datas, se alguns nomes n�o se encontra- rem em vossos arquivos, chegais a concluir que � tudo falso. Erro profundo de vosso julgamento! As dificuldades s�o grandes para vos dar conhecimentos t�o precisos quanto o que exigis. Mas, acreditai-nos, n�o vos canseis em vossas investiga��es. Esse estudo � o mais nobre de todos. N�o sentis que � belo difundir a luz? No entanto, em vosso planeta, passar� muito tempo at� que as massas compreendam para que aurora devem se dirigir!� Seria f�cil acrescentar um grande n�mero de fatos que t�m liga��o com a mesma ordem de investiga��es. O pr�ncipe Adam Wisznievski, rua do D�barcard�re, 7, em Paris, comunica-nos a experi�ncia que narramos a seguir, relatada pelas pr�prias testemunhas, algumas das quais s� consentiram ser designadas pelas iniciais: �O pr�ncipe Galitzin, o marqu�s de B. e o conde de R. estavam reunidos, durante o ver�o de 1862, nas praias de Hamburgo. �Uma noite, ap�s terem jantado muito tarde, passeavam no parque do cassino quando perceberam uma pobre deitada num banco. Depois de terem abordado e interrogado a mulher, convi- daram-na para comer no hotel. Ap�s se ter alimentado com grande apetite, o pr�ncipe Galitzin, que era magnetizador, teve a id�ia de magnetiz�-la. Ele conseguiu ap�s v�rios passes. Qual n�o foi o espanto das pessoas presentes quando, profundamente adorme- cida, aquela que, em vig�lia, s� conseguia se exprimir em um p�s- simo dialeto alem�o, come�ou a falar corretamente em franc�s, contando que havia reencarnado na pobreza por castigo, por ter cometido um crime em sua vida anterior, no s�culo 18. Ela morava ent�o num castelo na Bretanha, � beira-mar. Por causa de um amante, quis se livrar do marido e empurrou-o para o mar, do alto de um rochedo. Ela indicou o local do crime com grande precis�o. �Gra�as �s indica��es que a mulher lhes havia dado, o pr�ncipe Galitzin e o marqu�s de B. puderam separadamente, mais tarde, dirigir-se � Bretanha, �s costas do Norte, fazer investiga��o so- bre o caso, cujos resultados foram id�nticos. Tendo questionado diversas pessoas, n�o conseguiram, de in�cio, colher nenhuma informa��o. Encontraram enfim uns camponeses j� velhos que se lembraram de ter ouvido os pais contarem a hist�ria de uma jovem e bela castel� que havia assassinado o marido, atirando-o ao mar. Tudo o que a pobre mulher de Hamburgo havia dito no estado de sonambulismo foi reconhecido como exato.?O PROBLEMA DO DESTINO 65 �O pr�ncipe Galitzin, em seu retorno da Fran�a, passando de novo por Hamburgo, indagara do comiss�rio de pol�cia a respeito dessa mulher. Esse funcion�rio lhe declarou que ela n�o tinha nenhuma instru��o, s� falava um dialeto vulgar alem�o, e que vivia apenas de mesquinhos recursos, como meretriz, mulher de soldados.� Podemos ver que a doutrina das vidas sucessivas, ensinada pelas grandes escolas filos�ficas do passado e, em nossos dias, pelo Espiritismo da codifica��o kardecista, recebe, pelos trabalhos de s�bios e investigadores, de uma maneira ora direta, ora indi-reta, novas e numerosas contribui��es. Gra�as � experimenta��o, as profundezas mais ocultas da alma humana entreabrem-se, e a nossa pr�pria hist�ria parece reconstituir-se da mesma maneira que a geologia* p�de reconstituir a hist�ria do globo, escavando suas possantes bases. � verdade que a quest�o ainda permanece pendente. � pre-ciso observar uma extrema reserva em rela��o �s conclus�es. Entretanto, apesar das obscuridades que existem, consideramos um dever publicar esses fatos e experi�ncias, a fim de atrair para elas a aten��o dos pensadores e provocar novas investiga��es. S� assim a luz se far�, pouco a pouco, completa em rela��o a esse problema, assim como se fez em rela��o a tantos outros. * Em princ�pio dissemos que o esquecimento das exist�ncias anteriores � uma das conseq��ncias da reencarna��o. Entre-tanto, esse esquecimento n�o � absoluto. Em muitas pessoas, o passado renova-se em forma de impress�es, ou ent�o de lem-bran�as precisas. Essas impress�es �s vezes influenciam nossos atos; n�o v�m nem da educa��o, nem do meio ou da hereditarie-dade. Entre elas, podemos classificar as simpatias e as antipatias repentinas, as intui��es r�pidas, as id�ias inatas. Basta examinar-mos a n�s mesmos, estudarmo-nos com aten��o, para encontrar em nossos gostos e tend�ncias, em tra�os de nosso car�ter, muitos vest�gios desse passado. Infelizmente, entre n�s, s�o pou-cos os que se dedicam a esse exame com m�todo e aten��o. H� mais. Podemos citar, em todas as �pocas da Hist�ria, um certo n�mero de homens que, gra�as a disposi��es excepcio-nais de seu organismo ps�quico, conservaram lembran�as de * Geologia: ci�ncia cujo objeto de estudo � o conjunto da origem da forma��o e das sucessivas transforma��es do globo terrestre (N.E.).?L�ON DENIS 66 suas vidas passadas. Para eles, a pluralidade das exist�ncias n�o era uma teoria; era um fato de percep��o direta. O testemunho desses homens assume uma import�ncia consider�vel por terem ocupado, na sociedade de seu tempo, altas posi��es; quase todos, intelig�ncias superiores, exerceram, na sua �poca, uma grande influ�ncia. A faculdade bastante rara da qual gozavam era, sem d�vida, o resultado de uma imensa evolu��o. Estando o valor de um testemunho em rela��o direta com a intelig�ncia e a integridade da testemunha, n�o podiam passar em branco as afirma��es desses homens, alguns dos quais trouxeram na cabe�a a coroa da genialidade. � um fato bastante conhecido que Pit�goras se recordava de pelo menos tr�s de suas exist�ncias e dos nomes que usava em cada uma delas 30 : ele declarava ter sido Herm�timo, Euf�rbio e um dos Argonautas. Juliano*, chamado de �o Ap�stata�, t�o caluniado pelos cris-t�os, mas que foi na realidade uma das grandes figuras da hist�-ria romana, lembrava-se de ter sido Alexandre da Maced�nia. Emp�docles** afirmava que, em rela��o a ele, � lembrava-se at� mesmo de ter sido sucessivamente mo�o e mo�a 31 �. Segundo Herder, Dialogues sur la m�tempsycose ( Di�logos sobre a metempsicose), devemos acrescentar a esses nomes os de Yarcas e de Apol�nio de Tiana. Na Idade M�dia, encontramos essa faculdade em Gerolamo Cardano***. Entre os modernos, Lamartine**** declara em seu livro Voyage en Orient ( Viagem ao Oriente), ter tido lembran�as bastante cla-ras de um passado distante. Eis seu testemunho: �Na Jud�ia eu n�o tinha nem B�blia, nem baga- gem de m�o; n�o tinha ningu�m para me dizer o nome dos lugares e o nome antigo dos vales e dos montes. Contudo, logo reconheci o vale de Terebinto e o campo de batalha de Saul. Quando estivemos no convento, os padres me confirmaram a exatid�o de minhas previs�es. Meus companheiros n�o podiam 30 � Her�doto (Hist.). Tomo 2, cap�tulo 123. Vie de Pythagore (Vida de Pit�goras). Diogenes Laerce. * Juliano: imperador romano de 301 a 363 d.C., era chamado de �o Ap�stata�, que significa aquele que abandonou a f� crist� (N.E.). ** Emp�docles: m�dico, matem�tico, m�sico e fil�sofo grego, viveu em 500 a.C. (N.E.). 31 � Fragment (Fragmento). Diogenes Laerce, Vie d�Emp�docle (Vida de Emp�docles). *** Gerolamo Cardano (1501�1576): c�lebre matem�tico, m�dico e fil�sofo italiano (N.E.). **** Lamartine (1790 �1869): poeta, pol�tico e diplomata franc�s (N.E.). Pit�goras: fil�sofo e matem�tico grego, viveu entre os anos 500 e 600 a.C.?O PROBLEMA DO DESTINO 67 * Macabeus: sete irm�os e sua m�e, no ano 168 a.C., quando os judeus se achavam sob o dom�nio de Antioco Epif�nio, rei da S�ria, foram sacrificados por se recusarem a comer carne de porco e assim renunciar � sua f� em Mois�s, que lhes proibia tal alimento. Os macabeus eram uma fam�lia da jud�ia antiga, da tribo dos asmoneus, que pelo seu nacionalismo e f� se distinguiram e tiveram participa��o gloriosa em muitos epis�dios do seu povo, pelo que at� hoje ainda s�o celebrados (N.E.). 32 � Ver Petit de Julleville, Histoire de la litt�rature fran�aise (Hist�ria da literatura france-sa), tomo 7. ** Joseph M�ry (1798�1856): poeta e romancista franc�s, celebrizou-se pela criatividade das suas obras (N.E.). *** Augusto (63 a.C. a 14 d.C): imperador romano dos mais extraordin�rios. Apesar de sua sa�de fr�gil, durante o seu reinado Roma alcan�ou o per�odo mais esplendoroso de vida em todos os setores, especialmente nas artes, na arquitetura e tamb�m na sua expan-s�o territorial. Foi durante o seu reinado que nasceu Jesus (N.E.). **** Germ�nico: c�lebre general romano do reinado de Augusto (N.E.). acreditar. Do mesmo modo, em S�fora, eu havia apon- tado com o dedo e designado pelo nome uma colina que tinha no alto um castelo arruinado, como o lugar prov�vel do nascimento da Virgem. No dia seguinte, aos p�s de um monte �rido, reconheci o t�mulo dos Macabeus* e falava a verdade sem o saber. Exce- tuando os vales do L�bano, quase n�o encontrei na Jud�ia um lugar ou algo que n�o fosse para mim como uma lembran�a. Temos ent�o vivido duas ou mil ve- zes? Nossa mem�ria �, ent�o, apenas uma imagem desbotada que o sopro de Deus aviva?� Em Lamartine, a concep��o das vidas m�lti-plas do ser era t�o viva que ele tinha a inten��o de fazer disso uma id�ia dominante, a inspiradora por excel�ncia de suas obras. La chute d�un ange ( A queda de um anjo) era, em seu pensamento, o primeiro elo, e Jocelyn o �ltimo de uma s�rie de obras que deviam encadear-se umas �s outras e tra�ar a hist�ria de duas almas prosseguindo, atra-v�s dos tempos, a evolu��o dolorosa. As agita��es da vida pol�-tica n�o lhe deixavam tempo para prender umas �s outras as contas desse ros�rio de obras-primas 32 . Joseph M�ry** estava compenetrado nas mesmas id�ias. O Jornal Liter�rio, do dia 25 de novembro de 1864, sobre sua vida, dizia o seguinte: �H� teorias singulares que, para ele, s�o convic��es. Assim, acredita firmemente que viveu diversas vezes; ele se lembra das menores circunst�ncias de suas exist�ncias anteriores e as descreve com um tom de certeza t�o forte que se imp�e como autoridade. Assim, foi um dos amigos de Virg�lio e de Hor�cio; conheceu Augusto*** e Germ�nico****; fez a guerra nas G�lias Hor�cio (64� 8 a.C.): grande poeta latino, amigo do imperador Augusto. Virg�lio (71�19 a.C.): g�nio da poesia latina, autor da Eneida. Viveu na mesma �poca que Augusto.?L�ON DENIS 68 * Juvenal (125 a 42 a.C.): poeta sat�rico latino (N.E.). ** Templo dos elefantes: templo sagrado da �ndia (N.E.). e na Germ�nia. Era general e comandava as tropas romanas quando atravessaram o Reno. Ele se reconhece nas montanhas e s�tios onde acampou, nos vales e campos de batalha em que outrora combateu. Chamava-se M�nias. Aqui se passa um epis�- dio que parece estabelecer bem o fato de tais recorda��es n�o serem simples miragens de sua imagina��o. �Um dia, em sua vida atual, ele estava em Roma e visitava a biblioteca do Vaticano. Foi recebido por jovens novi�os, usando longos h�bitos escuros, que come�aram a falar com ele no mais puro latim. M�ry era bom latinista em tudo quanto dizia respeito � teoria e �s coisas escritas, mas nunca havia experimentado conversar familiarmente na l�ngua de Juvenal*. Ao ouvir esses romanos de hoje e admirar esse magn�fico idioma, t�o bem har- monizado com os costumes da �poca em que era utilizado com os monumentos, pareceu-lhe que um v�u ca�a-lhe dos olhos e que ele mesmo, em outros tempos, havia conversado com ami- gos que se serviam dessa linguagem divina. Frases inteiras e corretas sa�am de seus l�bios; imediatamente encontrou a ele- g�ncia e a corre��o; falou finalmente latim, como falava franc�s. Tudo isso n�o poderia ser feito sem uma aprendizagem e, se ele n�o tivesse sido s�dito de Augusto, se n�o tivesse atravessado esse s�culo de todos os esplendores, n�o teria improvisado um conhecimento imposs�vel de adquirir em algumas horas.� O Jornal Liter�rio, ainda a respeito de M�ry, continua: �Sua outra passagem pela Terra se deu nas �ndias: eis a raz�o pela qual, quando publicou La Guerre du Nizan (A Guerra do Nizan) , nenhum de seus leitores duvidou de que ele houvesse morado por tanto tempo na �sia. Suas descri��es s�o muito vivas e seus quadros, muito originais. Ele faz tocar com os dedos os menores detalhes. � imposs�vel que n�o tenha visto o que conta; o car�ter da verdade est� presente em tudo isso. �Pretende ter entrado nesse pa�s com a expedi��o mu�ul- mana, em 1035. L� viveu 50 anos, passou belos dias e se fixou para nunca mais sair, continuou a ser poeta, mas menos dedi- cado �s letras do que em Roma e em Paris. Guerreiro nos pri- meiros tempos, vision�rio mais tarde, guardou em sua alma as imagens surpreendentes das margens do rio sagrado e dos s�tios hindus. Tinha muitas moradas na cidade e no campo, orou no templo dos elefantes**, conheceu a civiliza��o avan�ada de?O PROBLEMA DO DESTINO 69 Java, viu espl�ndidas ru�nas que ele assi- nala e que ainda s�o t�o pouco conhecidas. �� preciso ouvi-lo cantar seus poemas, porque s�o verdadeiros poemas essas lem- bran�as a Swedenborg. Ele � bastante s�- rio, n�o duvideis disso. N�o h� mistifica��o feita � custa de seus ouvintes. � uma realida- de da qual consegue vos convencer.� Paul Stapfer, em seu livro intitulado Victor Hugo � Guernesey ( Victor Hugo em Guernesey) conta suas palestras com o grande poeta. Este lhe falava de sua cren�a nas vidas sucessivas. Ele acreditava ter sido �squilo*, Juvenal, etc. � preciso reconhecer que essas palavras n�o brilham por excesso de mod�stia e que possuem poucas provas demonstrativas. O fil�sofo sutil e profundo que foi Amiel** escrevia: �Quando penso nas intui��es de todas as naturezas que tive desde minha adolesc�ncia, parece-me que vivi muitas d�zias e at� centenas de vidas. Toda individualidade caracteriza esse mundo idealmente em mim ou, antes, forma-me momentanea- mente � sua imagem. � assim que fui matem�tico, m�sico, frade, filho, m�e, etc. Nesses estados de simpatia universal, fui at� mes- mo animal e planta.� Th�ophile Gautier, Alexandre Dumas, Ponson du Terrail e muitos outros escritores modernos compartilhavam dessas convic��es. Gustave Flaubert***, em sua Correspondance ( Correspond�ncia), escreve isto: �Tenho cer- teza de ter sido no Imp�rio romano diretor de alguma trupe de comediantes ambulan- tes... e, ao reler as com�dias de Plauto, sur- gem para mim como que recorda��es�. * �s lembran�as de homens ilustres, na maior parte, � preciso acrescentar as de um grande n�mero de crian�as. * �squilo (525�426 a.C.): s�bio grego. Dramaturgo, criador da trag�dia grega. G�nio da literatura (N.E.). ** Henri Fr�d�ric Amiel (1821�1881): poeta, escritor e fil�so-fo su��o de grande profundidade e pureza de pensamento (N.E.). *** Gustave Flaubert (1821�1880): renomado romancista franc�s, questionador e pol�mico (N.E.). Victor Hugo (1802 � 1885): � o mais c�lebre poeta e romancista franc�s e dos maiores da huma-nidade. Em vida lutou pela justi�a e pela igualdade, tendo sofrido a pena de ex�lio, que aceitou com serenidade. De-fendeu as id�ias reencarnacio-nistas de Allan Kardec contra os detratores da doutrina nascente. Era conhecedor dos fen�menos esp�ritas. Emannuel Swedenborg: s�bio e poliglota sueco. Intelig�ncia brilhante de sua �poca, levou as revela��es esp�ritas de que era precursor para um caminho personalista, chegando a fun-dar uma religi�o a que chamou Nova Igreja.?L�ON DENIS 70 Aqui, o fen�meno se explica facilmente. A adapta��o dos sentidos ps�quicos ao organismo material, a partir do nascimento, opera-se lenta e gradualmente. S� � completa por volta dos sete anos, e mais tarde ainda em certos indiv�duos. At� essa �poca, o esp�rito da crian�a, flutuando ao redor de seu envolt�rio, ainda vive, at� certo ponto, a vida do espa�o. Ele goza de percep��es, de vis�es que, �s vezes, impressionam com fugitivos vislumbres o c�rebro f�sico. Foi assim que pudemos recolher de certas bocas juvenis alus�es a vidas anteriores, descri��es de cenas e de personagens que n�o t�m nenhuma rela��o com a vida atual deles. Essas vis�es, essas lembran�as desfazem-se geralmente ao chegar a idade adulta, quando a alma entra em plena posse dos seus �rg�os terrestres. Ent�o, � interrogada, em v�o, a res-peito dessas lembran�as, que desaparecem rapidamente. Toda transmiss�o das vibra��es perispirituais terminou; a consci�ncia profunda emudeceu. At� agora, n�o demos a essas revela��es toda a aten��o que merecem. Os pais que ficam inquietos por causa de manifesta-��es consideradas estranhas e anormais, em vez de provoc�-las, procuram, pelo contr�rio, impedi-las. A ci�ncia perde, assim, �teis indica��es. Se a crian�a, quando tenta traduzir em sua linguagem singela e confusa as vibra��es fugitivas de seu c�rebro f�sico, fosse animada, interrogada, em vez de ser repelida, ridiculariza-da, seria poss�vel obter esclarecimentos de certo interesse em rela��o ao passado, ao passo que atualmente s�o perdidas na maioria dos casos. No Oriente, onde a doutrina das vidas sucessivas est� pre-sente em toda parte, d�-se mais import�ncia a essas lembran�as. Elas s�o recolhidas e constatadas na medida do poss�vel e, muitas vezes, a exatid�o � verificada. Eis aqui uma prova dentre mil: Uma correspond�ncia de Simla (�ndias Orientais) ao Daily Mail 33 , conta que um menino, nascido no distrito, era considerado a reencarna��o do falecido senhor Tucker, superintendente da comarca, assassinado em 1894 por desordeiros. O menino recor-da- se dos menores incidentes de sua vida anterior. Quis visitar v�rios lugares familiares ao senhor Tucker. No local do homic�dio, come�ou a tremer e deu todas as indica��es de terror. �Esses fatos s�o muito comuns em Burma � acrescenta o jornal �, onde 33 � Reproduzida por Matin e Paris-Nouvelles, de 8 de julho de 1903, sob o t�tulo de Uma Reencarna��o, correspond�ncia de Londres, 7 de julho.?O PROBLEMA DO DESTINO 71 os reencarnados que se lembram de seu passado t�m o nome de winsas .� O senhor C. de Lagrange, c�nsul da Fran�a, escrevia de Vera Cruz (M�xico) � Revista Esp�rita, em 14 de julho de 1880 34 : �H� dois anos t�nhamos, em Vera Cruz, um menino de sete anos que possu�a a faculdade de m�dium curador*. Diversas pessoas foram curadas, seja pela imposi��o de suas m�os, seja com a ajuda de rem�dios vegetais que ele receitava e que afir- mava conhecer. Quando lhe perguntavam onde tinha aprendido essas coisas, respondia que, quando era adulto, era m�dico. Por- tanto, essa crian�a tem a lembran�a de uma exist�ncia anterior. �Falava com dificuldade. Seu nome era Jules Alphonse, nasci- do em Vera Cruz. Essa surpreendente faculdade se desenvolveu nele com a idade de quatro anos. Muitas pessoas que primeira- mente eram incr�dulas se impressionaram e hoje est�o conven- cidas. Quando estava sozinho com os pais, repetia-lhes muitas vezes: �Pai, n�o acredites que ficarei muito tempo contigo; estou aqui apenas por alguns anos, uma vez que � preciso que eu v� para outro lugar.� E se lhe perguntavam: �Mas onde queres ir?� �Longe daqui � respondia � e onde � melhor do que aqui�. �Este menino era muito s�brio, grande em todas as suas a��es, perspicaz e muito obediente. Depois de algum tempo morreu.� O Banner of Light, de Boston, de outubro de 1892, publicou a seguinte narrativa do honor�vel Isaac G. Forster, inserida igual-mente pelo Globe Democrat, de Saint-Louis, em 20 de setembro de 1892, no Brooklyn Eagle e no Milwaukee Sentinel, de 25 de setembro de 1892: �H� 12 anos morava no condado de Effingham (Illinois) e perdi uma filha, Maria, quando ela entrava na puberdade. No ano se- guinte fixei resid�ncia em Dakota. A� nasceu, h� nove anos, uma nova filhinha, que chamamos de Nellie. Assim que ela atingiu a idade de falar, fingia que n�o se chamava Nellie e sim Maria; dizia que esse era o seu verdadeiro nome, que era o nome que lhe t�nhamos dado antigamente. �Recentemente voltei ao condado de Effingham para cuidar de alguns neg�cios e levei Nellie comigo. Ela reconheceu nossa antiga resid�ncia e muitas pessoas que nunca tinha visto, mas 34 � Revista Esp�rita, 1880. * M�dium curador: aquele que tem o dom de curar ou de aliviar a dor, geralmente pela imposi��o das m�os ou pela prece (N.E.).?L�ON DENIS 72 * Rupia: nome da moeda da �ndia (N.E.). que minha primeira filha, Maria, havia conhecido muito bem. A dois quil�metros da casa havia a escola que Maria freq�entava. Nellie, que nunca a tinha visto, fez uma descri��o exata e mani- festou o desejo de rev�-la. Eu a conduzi e, uma vez l�, ela se dirigiu diretamente para a carteira que sua irm� ocupava, me di- zendo: �Esta � a minha carteira!� � O Journal des D�bats de 11 de abril de 1912, em seu folhetim cient�fico assinado por Henri de Varigny, cita um caso semelhante colhido na obra do senhor Fielding Hall, que se dedicou a longas pesquisas sobre essa quest�o: �H� cerca de meio s�culo, duas crian�as, um menino e uma menina, nasceram no mesmo dia, na mesma aldeia, na Birm�nia. Mais tarde casaram-se e, depois de terem formado uma fam�lia e praticado todas as virtudes, morreram no mesmo dia. �Tempos turbulentos sobrevieram e dois jovens de sexos di- ferentes tiveram de fugir da aldeia onde o primeiro epis�dio se desenrolou. Foram se estabelecer em outro lugar e tiveram dois filhos g�meos que, em vez de se chamarem por seus nomes pr�prios, davam-se entre eles os nomes do casal virtuoso e morto do qual falamos. �Os pais se espantaram, mas compreenderam logo. Para eles, o casal virtuoso encarnou em seus filhos. Quiseram tirar a prova. Conduziram-nos � aldeia onde o casal havia nascido. Eles reco- nheceram tudo: estradas, casas, pessoas, at� as roupas do ca- sal, conservadas sem que se dissesse a raz�o. Um se lembrou de ter emprestado duas rupias* para uma pessoa, que ainda vivia; ela confirmou o fato. �O senhor Fielding Hall, que viu as duas crian�as quando tinham seis anos, achava em uma a apar�ncia mais feminina; esta abrigava a alma da mulher j� morta. Antes da reencarna��o, diziam eles, viveram algum tempo sem corpo, nos ramos das �rvores. Mas essas lembran�as long�nquas se tornaram cada vez menos n�tidas e se apagaram pouco a pouco.� Essa percep��o das vidas anteriores se encontra tamb�m, excepcionalmente, em alguns adultos. O doutor Gaston Durville, no Psychic Magazine, n�mero de janeiro a abril de 1914, conta um caso not�vel de recorda��es no estado de vig�lia. A senhora Laure Raynaud, conhecida em Paris por suas curas por meio do magnetismo, afirmava, havia muito tempo, que se lembrava de uma outra vida passada em um lugar que ela?O PROBLEMA DO DESTINO 73 descrevia e que dizia reencontraria um dia. Ela declarava ter vivido em condi��es claramente determinadas (sexo, categoria social, nacionalidade, etc.) e desencarnado h� certo n�mero de anos, em conseq��ncia de uma mol�stia. Testemunhos precisos foram recolhidos a esse respeito. A senhora Raynaud, em viagem � It�lia em mar�o de 1913, reconheceu o pa�s em que tinha vivido. Percorreu os arredores de G�nova e encontrou sua resid�ncia como a tinha descrito. �Gra�as � ajuda do senhor Calaure, um psiquista erudito de G�- nova, encontramos � disse o doutor �, nos registros da par�quia de S�o Francisco de Albaro, um registro de �bito que foi o da senhora Raynaud n� 1.� Todas as declara��es feitas por ela muitos anos antes (sexo, condi��o social, nacionalidade, idade e causa da morte) foram confirmadas. * Os testemunhos que nos chegam do mundo invis�vel s�o t�o numerosos quanto variados. N�o s� esp�ritos em grande n�-mero afirmam em suas mensagens terem vivido muitas vezes na Terra; mas h� os que anunciam com anteced�ncia a sua reen-carna��o. Eles dizem seu futuro sexo e a �poca de seu nasci-mento; fornecem alguns detalhes sobre a pr�pria apar�ncia f�sica ou disposi��es morais, que permitem reconhec�-los na sua volta a este mundo; prev�em ou anunciam particularidades de sua pr�xima exist�ncia, o que se tem podido verificar. A revista Filosofia della Scienza (Filosofia da Ci�ncia), de Palermo, n�mero de janeiro de 1911, publicou, sobre um caso de reencarna��o, uma narrativa do mais alto interesse, que resumi-mos a seguir. � o chefe da fam�lia na qual os acontecimentos se passaram, o doutor Carmelo Samona, de Palermo, que fala: �Perdemos, em 15 de mar�o de 1910, uma filhinha que minha mulher e eu ador�vamos. Para minha companheira, o desespero foi tal que por um momento receei que ela perdesse a raz�o. Tr�s dias ap�s a morte de Alexandrine, minha mulher teve um sonho em que acreditou ver a crian�a lhe dizer: �M�e, n�o chores mais, eu n�o te abandonei; n�o me afastei de ti: ao contr�rio, voltarei a ti como filha�. �Tr�s dias mais tarde, a repeti��o do mesmo sonho. A pobre m�e, a quem nada podia diminuir a dor, e que n�o tinha, naquela �poca, nenhuma no��o do Espiritismo, encontrava nesses sonhos apenas uma nova raz�o para reavivar a sua dor. Uma manh� em que se lamentava como de costume, se fizeram ouvir tr�s batidas secas � porta do quarto onde nos encontr�vamos. Acreditando?L�ON DENIS 74 * Tiptologia: comunica��o dos esp�ritos por meio de batidas ou apontamento de letras e n�meros previamente fixados numa cartolina. Foram assim as primeiras comunica��es dos esp�ritos em Hydesville (Estados Unidos) �s meninas Fox, em 1848. Margaret, de 14 anos, e Kate, de 11, acabaram por desencadear o que se conhece hoje por espiri-tualismo moderno. Da� se partiu para as mesas girantes, que acabaram por originar a Codifica��o Esp�rita por Allan Kardec. Por�m, devemos considerar que as batidas (tiptologia) e os demais fatos esp�ritas s�o t�o antigos quanto o homem (N.E.). ** Hiperemia: congest�o sangu�nea de um �rg�o (N.E.). ser a chegada de minha irm�, meus filhos, que estavam conosco, foram abrir a porta dizendo: �Tia Catherine, entre�. Para n�s foi uma grande surpresa constatar que n�o havia ningu�m atr�s dessa porta, nem na sala que a precedia. Foi ent�o que resolve- mos come�ar as sess�es de tiptologia*, na esperan�a de que talvez por esse meio tiv�ssemos alguns esclarecimentos sobre o fato misterioso dos sonhos e das batidas que nos preocupavam tanto. Continuamos nossas experi�ncias durante tr�s meses com uma grande regularidade. �Desde nossa primeira sess�o, duas entidades se manifes- taram: uma dizia ser minha irm�, a outra nossa querida filha. Esta �ltima confirmou sua apari��o nos dois sonhos de minha mulher e revelou que as pancadas tinham sido feitas por ela e repetiu ainda � sua m�e: �N�o te aflijas mais, pois nascerei de novo por ti, e antes do Natal�. A predi��o foi acolhida por n�s com total incredulidade, porque um acidente seguido de opera��o (21 de novembro de 1909) tornava imposs�vel outra gravidez para minha mulher. E, entretanto, em 10 de abril, uma primeira suspeita de gravidez se revelou para ela. Em 4 de maio seguinte, nossa filha se manifestou ainda pela mesa e nos deu um novo aviso: �M�e, h� uma outra em ti�. Como n�o compreend�amos essa frase, a outra entidade que, parece, acompanhava sempre nossa filha, confirmou-a, comentando assim: �A pequena n�o se engana: um outro ser se desenvolve em ti, minha cara Ad�le�. �As comunica��es que se seguiram confirmaram todas es- sas declara��es e at� mesmo as indicaram com exatid�o, ao anunciar que as crian�as que deveriam nascer seriam meninas; que uma delas pareceria com Alexandrine e seria at� mesmo um pouco mais bela do que ela tinha sido anteriormente. Apesar da incredulidade persistente de minha mulher, as coisas pareceram tomar o caminho anunciado, pois, em meados de agosto, o doutor Cordaro, parteiro renomado, anunciou a gravidez de g�meos. �E a 22 de novembro de 1910, minha mulher deu � luz duas filhinhas, sem semelhan�a entre si. Uma, entretanto, reproduzia em seus tra�os as particularidades f�sicas bem especiais que ca- racterizavam a fisionomia de Alexandrine, ou seja, uma hiperemia**?O PROBLEMA DO DESTINO 75 * Dessimetria: nesse caso, falta de proporcionalidade em tamanho e forma entre os dois lados do rosto (N.E.). no olho esquerdo, uma leve seborr�ia no ouvido direito, enfim, uma dessimetria* pouco marcada da face.� E, com o apoio de suas declara��es, o doutor Carmelo Samona traz os atestados de sua irm�, Samona Gardini, do professor Wigley, da senhora Mercantini, do marqu�s Natoli, da princesa Niscomi, do conde de Ranchileile, todos que iam ficando a par, � medida que as comunica��es obtidas na fam�lia do doutor Carmelo Samona se produziam. Desde o nascimento dessa crian�a, dois anos e meio se pas-saram e o doutor Carmelo escreveu � Filosofia della Scienza que a semelhan�a entre a primeira e a segunda Alexandrine fez apenas se confirmar n�o s� no f�sico, mas principalmente na moral. As mesmas atitudes e brincadeiras calmas, as mesmas for-mas de carinho com a sua m�e; os mesmos terrores infantis ex-pressos nos mesmos termos, mesma tend�ncia irresist�vel a usar a m�o esquerda, o mesmo modo de pronunciar os nomes daqueles que a rodeiam. Como a primeira Alexandrine, ela abre o arm�rio dos sapatos todas as vezes que pode entrar no quarto onde esse m�vel se encontra, cal�a um p� e passeia triunfal-mente pelo quarto. Em uma palavra, ela refaz de modo absolu-tamente id�ntico a exist�ncia, na idade correspondente da pri-meira Alexandrine. N�o se nota nada de semelhante em Maria Pace, sua irm� g�mea. Compreende-se todo o interesse que apresenta uma obser-va��o dessa ordem, seguida durante anos por um investigador do valor do doutor Carmelo. O senhor Jaffeux, advogado do Supremo Tribunal de Justi�a de Paris, comunicava-nos o seguinte fato (5 de mar�o de 1911): �Desde o in�cio de 1908, tinha como mentor uma mulher que tinha conhecido em minha inf�ncia e da qual todas as comunica- ��es apresentavam um car�ter de rara precis�o: nomes, endere- �os, cuidados m�dicos, predi��es de ordem familiar, etc. Em meados de junho de 1909, transmiti a essa entidade, da parte de P�re Henri, diretor espiritual do grupo, o conselho de n�o prolongar indefinidamente uma perman�ncia estacion�ria no espa�o. Nessa �poca, a entidade respondeu-me: �Tenho a inten��o de reencarnar; terei sucessivamente tr�s reencarna��es muito breves�. Para o m�s de outubro de 1909, ela anunciou espontaneamente que ia reen- carnar em minha fam�lia e me indicou o local dessa reencarna��o:?L�ON DENIS 76 uma aldeia da regi�o de Eure-et-Loir. Tinha, de fato, uma prima gr�vida l�, naquele momento. Ent�o, fiz a seguinte pergunta: ��Por meio de que sinal a poderei reconhecer?� �Terei uma cica- triz de dois cent�metros do lado direito da cabe�a.� Em 15 de novem- bro a mesma entidade me avisou que deixaria de se comunicar a partir do m�s de janeiro e seria substitu�da por um outro esp�rito. Procurei, a partir desse momento, dar a essa prova toda a sua import�ncia e nada me seria mais f�cil, depois de constatar oficial- mente a predi��o, de conseguir um certificado m�dico do nasci- mento da crian�a. Infelizmente, encontrava-me na presen�a de uma fam�lia que manifestava uma hostilidade agressiva contra o Espiritismo. Eu estava desarmado. �No m�s de janeiro de 1910, a crian�a nasceu, com uma ci- catriz de dois cent�metros do lado direito da cabe�a, e tem agora 14 meses.� O senhor Warcollier, engenheiro qu�mico em Paris, relata o seguinte fato na Revue Scientifique et Morale ( Revista Cient�fica e Moral) de fevereiro de 1920: �A senhora B. pertencia a uma fam�lia aristocr�tica com ideais da nobreza, e me foi apresentada por uma pessoa de minha fa- m�lia, a senhora Viroux. Ela tinha perdido durante a guerra um filho que particularmente amava; ainda lhe restam outros filhos, sendo que um deles � uma filha casada, da qual falaremos a seguir. Os detalhes relativos a esse caso s�o conhecidos de todos os amigos da senhora B., que haviam sido informados sobre o assunto no decorrer dos acontecimentos. Alistado volunt�rio no in�cio da guerra, seu filho ganhou rapidamente os gal�es de subte- nente, mas foi morto em combate. A m�e teve um sonho no qual viu o local preciso, um planalto da estrada de ferro, onde o corpo de seu filho estava morto. Gra�as a esse sonho, ela encontrou os despojos do rapaz e os enterrou no cemit�rio da aldeia vizinha. �Alguns meses depois teve um outro sonho e viu seu filho, que lhe dizia: �Mam�e, n�o chores, vou voltar, n�o para ti, mas para minha irm�. Ela n�o compreendeu o sentido dessas palavras; mas sua filha teve um sonho semelhante, no qual via seu irm�o novamente crian�a brincando em seu pr�prio quarto. Nem uma nem outra pensava ou acreditava em reencarna��o. A filha da senhora B., que nunca tivera filhos, desolava-se a esse respeito. Mas logo depois ela ficou gr�vida. �Na noite que precedeu o nascimento, a senhora B. reviu seu filho em sonho. Ele lhe falou ainda de seu retorno e lhe mostrou um beb� rec�m-nascido que tinha os cabelos negros, que ela reconheceu perfeitamente quando o recebeu em seus bra�os?O PROBLEMA DO DESTINO 77 * C�ptico: que duvida de tudo, descrente (N.E.). ** Te�sofo: pessoa que segue a teoria teos�fica, que � um conjunto de doutrinas religioso-filos�ficas que t�m por objeto a uni�o do homem com a divindade (N.E.). *** Canas pensantes ou cani�os pensantes: express�o do f�sico, matem�tico, ge�metra, escritor e fil�sofo franc�s Blaise Pascal (1623�1662) (N.E.). algumas horas mais tarde. A senhora B. convenceu-se, mediante mil detalhes psicol�gicos e por tra�os curiosos de car�ter, que essa crian�a era realmente seu filho reencarnado e, entretanto, afirma que antes n�o era reencarnacionista; era cat�lica de nasci- mento e, por sua classe, totalmente simpatizante do clero; confes- sou que era absolutamente c�ptica*, talvez at� um pouco at�ia, e nunca tinha freq�entado nem os esp�ritas nem os te�sofos**.� * Indicamos neste cap�tulo as causas f�sicas do esquecimento das vidas anteriores. Ao termin�-lo, n�o ser� conveniente nos colocar num outro ponto de vista e de nos perguntar se esse esquecimento n�o se justifica por uma necessidade de ordem moral? A lembran�a do passado n�o nos parece desej�vel para a maioria dos homens, fr�geis �canas pensantes�*** que se agitam ao sopro das paix�es. Ao contr�rio, parece indispens�vel para o seu adiantamento que as vidas anteriores sejam momentanea-mente apagadas de sua mem�ria. A persist�ncia das lembran�as acarretaria a persist�ncia das id�ias err�neas, dos preconceitos de casta, do tempo e do meio; em uma palavra, de toda uma heran�a mental, de todo um conjunto de vis�es e de coisas o qual nos custaria muito mais a modificar, a transformar quanto mais vivo estivesse em n�s. Encontrar�amos a� muitos obst�culos � nossa educa��o, ao nosso progresso; nossa capacidade de julgar seria muitas vezes falseada desde o nascimento. O esquecimento, ao contr�rio, ao nos permitir apro-veitar mais amplamente os estados diferentes que uma nova vida nos proporciona, nos ajuda a reconstruir nossa personalidade sobre um plano melhor; nossas faculdades e nossas experi�ncias ganham em extens�o e em profundidade. Outra considera��o ainda mais s�ria: o conhecimento de um passado corrupto, s�rdido, como deve ser o caso para muitos entre n�s, seria um fardo pesado a carregar. � preciso uma vonta-de fortemente agu�ada para ver sem vertigem um longo cami-nho de erros, de fraqueza, de atos vergonhosos, talvez de crimes, para pesar as conseq��ncias disso e se resignar a sofr�-las. A maioria dos homens da atualidade � incapaz de tal esfor�o. A lembran�a das vidas anteriores pode ser proveitosa apenas?L�ON DENIS 78 ao esp�rito muito evolu�do, bastante senhor de si mesmo para suportar o peso disso sem fraquejar, desligado das coisas huma-nas o bastante para contemplar com serenidade o espet�culo de sua hist�ria, reviver as dores e as injusti�as sofridas, as trai��es dos que amou. � um privil�gio doloroso conhecer as vidas desperdi�adas, um passado de sangue e de l�grimas; � tamb�m uma causa de torturas morais, de tumultos interiores. As vis�es que se re�nem a isso seriam, na maior parte dos casos, uma fonte de cru�is inquieta��es para a alma fr�gil, presa nas teias de seu destino. Se nossas vidas anteriores foram felizes, a compara��o entre as alegrias que nos deram e as amarguras do presente tornaria as outras insuport�veis. Foram culpadas? A cont�nua expectativa dos males que elas originam paralisaria a nossa a��o, tornaria a nossa exist�ncia improdutiva. A persis-t�ncia dos remorsos, a lentid�o de nossa evolu��o nos fariam acreditar que a perfei��o � inating�vel! Quantas coisas n�o gostar�amos de apagar de nossa exist�n-cia atual, que s�o outros tantos obst�culos � nossa paz interior, entraves � nossa liberdade! O que seria se os s�culos percorri-dos se desenrolassem sem parar, em todos os seus detalhes, diante de nossos olhos! O que importa trazer consigo s�o os frutos �teis do passado, ou seja, os valores, as capacidades adquiridas; a� est� o instrumento do trabalho, o meio de a��o do esp�rito. � tamb�m tudo o que constitui o car�ter, o conjunto das qualidades e dos defeitos, dos gostos e das aspira��es, tudo o que da consci�ncia profunda se manifesta na consci�ncia normal. O conhecimento integral das vidas passadas apresentaria inconvenientes terr�veis, n�o somente para o indiv�duo, mas tam-b�m para a coletividade. Introduziria na vida social elementos de disc�rdia, fermentos de �dio que agravariam a situa��o da huma-nidade e atrapalhariam todo o progresso moral. Todos os crimi-nosos da Hist�ria, reencarnados para expiar, seriam desmascara-dos; as vergonhas, as trai��es, as deslealdades, as crueldades de todos os s�culos seriam novamente expostas aos nossos olhos. O passado acusador, conhecido de todos, tornaria a ser uma causa de profunda divis�o e de terr�veis sofrimentos. O homem que vem para este mundo para agir, desenvolver suas faculdades, conquistar novos m�ritos, deve olhar para a frente e n�o para tr�s. O futuro se abre diante dele, cheio de esperan�as e de promessas; a grande lei lhe ordena que avance resoluta-mente e, para lhe tornar a marcha mais f�cil, para livr�-lo de todo la�o, de todo fardo, lan�a um v�u sobre seu passado. Agrade�a-mos � Provid�ncia infinita que, aliviando-nos da carga esmaga-?O PROBLEMA DO DESTINO 79 dora das lembran�as, tornou-nos a eleva��o mais c�moda, a repara��o menos amarga. Algumas vezes, alegam-nos os contestadores da Doutrina que n�o � justo ser punido pelas faltas esquecidas, como se o esquecimento apagasse a falta! Disseram-nos, por exemplo: �Uma justi�a que se trama no segredo e que n�s mesmos n�o podemos julgar deve ser considerada como algo extremamente injusto�. Mas, antes de mais nada, n�o existe em tudo algo secreto para n�s? O talo de erva que rebenta, o vento que sopra, a vida que se agita, o astro que se move na noite silenciosa, tudo � mist�rio. Se devemos acreditar apenas nas coisas que compreen-demos bem, em que devemos ent�o acreditar? Se um criminoso, condenado pelas leis humanas, fica doente e perde a mem�ria de suas a��es � vimos que os casos de am-n�sia n�o s�o raros �, segue-se disso que sua responsabilidade fica eliminada ao mesmo tempo que suas lembran�as? Nenhum poder � capaz de fazer com que o passado deixe de existir. Em muitos casos, seria mais doloroso saber do que ignorar. Quando o esp�rito cujas vidas passadas foram criminosas deixa a Terra � que as m�s lembran�as se revelam para ele; quando v� levantarem-se sombras vingadoras, lamenta o tempo do esque-cimento? Acusa Deus de lhe ter tirado, com a mem�ria de suas faltas, a perspectiva das provas que acarretam? Basta-nos conhecer o objetivo da vida, saber que a divina justi�a governa o mundo. Cada um est� no local que fez para si e nada acontece a n�o ser que seja por m�rito. N�o temos nossa consci�ncia por guia e os ensinamentos dos g�nios celestes n�o brilham com um esplendor vivo em nossa noite intelectual? Mas a intelig�ncia humana flutua em todos os ventos da d�-vida e da contradi��o. �s vezes acha que tudo est� bem e pede novas energias vitais; logo em seguida amaldi�oa a exist�ncia e reclama o nada. Pode a Justi�a Eterna conciliar seus planos com nossos anseios m�veis e inst�veis? Colocar a quest�o � resol-v�- la. A justi�a � eterna apenas porque � imut�vel. No caso da nossa reencarna��o, ela � a harmonia perfeita que se estabelece entre a liberdade de nossas a��es e a fatalidade de suas conse-q��ncias. O esquecimento tempor�rio de nossas faltas n�o evita o seu efeito. Ignorar o passado � necess�rio, para que toda ativi-dade do homem v� em dire��o ao presente e ao futuro, para que se submeta � lei do esfor�o e se harmonize com as condi��es do meio em que renasce.?L�ON DENIS 80 * Mundo das causas: mundo do esp�rito (N.E.). * Durante o sono, a alma age, pensa, vagueia. Algumas vezes sobe ao mundo das causas* e tem a no��o das vidas passadas. Do mesmo modo que as estrelas brilham somente durante a noite, o nosso presente tamb�m se deve acolher � sombra para que os clar�es do passado se acendam no horizonte da consci�ncia. A vida na carne � o sono da alma; � um sonho triste ou alegre. Enquanto dura, esquecemos os sonhos anteriores, ou seja, as encarna��es passadas. Entretanto, � sempre a mesma individua-lidade que persiste sob suas duas formas de exist�ncia. Em sua evolu��o, atravessa alternadamente per�odos de contra��o e dila-ta��o, de sombra e de luz. A personalidade se resume ou se abre nesses dois estados sucessivos, como se perde e se reco-bra por meio das alternativas do sono e da vig�lia, at� que a alma, chegada ao apogeu intelectual e moral, tenha acabado para sempre de sonhar. H� em cada um de n�s um livro misterioso onde tudo se grava em caracteres indestrut�veis. Fechado aos nossos olhos durante a vida terrestre, abre-se no espa�o; o esp�rito evolu�do percorre-lhe � vontade as p�ginas. Encontra a� ensinamentos, impress�es e sensa��es que o homem material tem dificuldade para compreender. Esse livro, o subconsciente dos psiquistas, � o que chamamos de perisp�rito. Quanto mais se purifica, mais as lembran�as se aclaram. Nossas vidas, uma a uma, emergem da sombra e desfi-lam diante de n�s, para nos acusar ou nos glorificar. Os menores fatos, a��es, pensamentos, tudo reaparece e se imp�e � nossa aten��o. Ent�o o esp�rito contempla a tem�vel realidade; mede o seu grau de eleva��o; sua consci�ncia julga sem apela��o. Como s�o doces para a alma, nessa hora, as boas a��es realizadas, as obras de sacrif�cio! Entretanto, pesadas s�o as fraquezas, as obras de ego�smo e crueldade! Durante a encarna��o, devemos relembrar, a mat�ria cobre o perisp�rito com seu manto espesso; comprime, apaga suas ra-dia��es; da� o esquecimento. Livre desse la�o, o esp�rito elevado encontra a plenitude de sua mem�ria. O esp�rito inferior quase n�o se lembra de sua �ltima exist�ncia. � o essencial para ele, uma vez que ela significa a soma do progresso adquirido, a s�n-tese de todo o seu passado; por ela pode avaliar sua situa��o. Aqueles cujo pensamento n�o se compenetrou no nosso mundo, das no��es das preexist�ncias, ignoram por muito tempo suas?O PROBLEMA DO DESTINO 81 vidas primitivas, as mais afastadas. Da� a afirma��o de muitos esp�ritos, em alguns pa�ses, de que a reencarna��o n�o � uma lei. Esses n�o interrogaram as profundezas de seu ser; n�o abriram o livro tr�gico no qual tudo est� gravado. Conservam os preconceitos do meio terrestre em que viveram, e seus precon-ceitos, em vez de estimul�-los a essa procura, afastam-nos dela. Os esp�ritos superiores, por um sentimento de caridade, co-nhecendo a fraqueza dessas almas, julgam que o conhecimento do passado ainda n�o lhes � necess�rio, evitam atrair para esse ponto a aten��o delas, a fim de lhes poupar a vis�o de quadros dolorosos. Mas chega um dia em que, sob as sugest�es �do alto�, sua vontade desperta e rebusca nos recantos da mem�ria. En-t�o, as vidas anteriores lhes aparecem como uma miragem dis-tante. Chegar� o tempo em que o conhecimento dessas coisas estar� mais divulgado. Todos os esp�ritos terrestres, iniciados por uma forte educa��o na lei dos renascimentos, ver�o o passado se desenrolar diante deles logo ap�s a morte e at� mesmo, em alguns casos, durante esta vida. Eles ter�o adquirido a for�a moral necess�ria para encarar os fatos sem enfraquecer. Para as almas purificadas, a lembran�a � constante. O esp�-rito elevado tem o poder de reviver � vontade o passado, de ver o presente com suas conseq��ncias e de penetrar no misterioso futuro, no qual as profundezas se iluminam por instantes para ele com r�pidos clar�es, para mergulhar novamente nas sombras do desconhecido.?L�ON DENIS 82 * Casu�stica: diz-se da maneira de ver e aceitar id�ias ou fatos passivamente sem apreciar as rela��es mais amplas e sutis que neles est�o subentendidas (N.E.). Podem-se considerar algumas manifesta��es precoces do g�nio como tantas outras provas da preexist�ncia, tendo em vista que elas s�o uma revela��o dos trabalhos realizados pela alma em outros ciclos anteriores. Os fen�menos desse g�nero, de que fala a Hist�ria, n�o po-dem ser fatos desconexos, sem liga��o com o passado, que acon-tecem ao acaso, no vazio do tempo e do espa�o. Demonstram, ao contr�rio, que o princ�pio organizador da vida em n�s resulta num ser que chega a este mundo com todo um passado de traba-lho e de evolu��o, dentro de um plano tra�ado e de um objetivo perseguido no decorrer de suas exist�ncias sucessivas. Cada encarna��o encontra, na alma que recome�a nova vida, uma cultura particular de aptid�es, aquisi��es mentais que expli-cam sua facilidade de trabalho e seu poder de assimila��o. � por isso que Plat�o dizia: � Aprender � recordar-se!� A lei da hereditariedade vem muitas vezes dificultar, em certo ponto, essas manifesta��es da individualidade, porque o esp�rito se afei�oa ao seu corpo apenas por meio de elementos colocados � sua disposi��o pela hereditariedade. Entretanto, apesar das dificuldades materiais, v�-se manifestarem-se para alguns seres, desde a idade mais tenra, faculdades de tal modo superiores e sem nenhuma rela��o com as de seus antepassados, que n�o se pode, apesar de todas as sutilezas da casu�stica* materialis-ta, relacion�-las a nenhuma causa imediata e conhecida. AS VIDAS SUCESSIVAS. � AS CRIAN�AS PROD�GIOS E A HEREDITARIEDADE 3?O PROBLEMA DO DESTINO 83 35 � Ver C. Lombroso. L�homme de g�nie (O homem de car�ter). * Napole�o Bonaparte (1769�1821): foi o g�nio militar mais brilhante do s�culo 19 e imperador dos franceses (N.E.). Tem-se citado, muitas vezes, o caso de Mozart, que executou uma sonata no piano aos 4 anos e, aos 8, comp�s uma �pera. Paganini e Teresa Milanollo, ainda crian�as, tocavam violino mara-vilhosamente. Liszt, Beethoven, Rubinstein eram aplaudidos aos 10 anos. Michelangelo, Salvatore Rosa se revelaram de repente com talentos improvisados. Pascal, aos 12 anos, descobriu a geo-metria plana, e Rembrandt, antes de saber ler, desenhava como um grande mestre 35 . Napole�o* se fez notar por sua aptid�o prematura para o militarismo. Desde a inf�ncia, brincava de soldadinho como as crian�as de sua idade, mas com um m�todo extraordin�rio, que parecia ser de sua pr�pria inven��o. O s�culo 16 nos deixou a lembran�a de um prodigioso poli-glota, Jacques Chrichton, que Scaliger denominava um �g�nio monstruoso�. Era escoc�s e, aos 15 anos, discutia em latim, em grego, em hebreu, em �rabe sobre qualquer quest�o. Desde os 14 anos, havia conquistado o grau de mestre. Henri de Heinecken nasceu em L�beck, em 1721, e falou quase ao nascer. Aos 2 anos, sabia tr�s l�nguas. Aprendeu a escrever em alguns dias e dentro de pouco tempo exercitava-se em pro-nunciar pequenos discursos. Aos 2 anos e meio fez um exame de geografia e hist�rias antiga e moderna. Viveu apenas do leite de sua ama; quiseram desmam�-lo, e ele enfraque-ceu e morreu em L�beck, em 27 de junho de 1725, quando estava com 5 anos e meio, ao afirmar suas esperan�as em outra vida. � Era, dizem as M�moires de Tr�voux (Mem�rias de Tr�voux), delicado, enfermo e ficava doente muitas vezes.� Esse jovem fenomenal teve a plena consci�ncia de seu fim pr�ximo. Falava disso com uma serenidade pelo menos t�o ad-mir�vel quanto sua ci�ncia prematura, e quis consolar seus pais ao lhes deixar encoraja-mentos tirados de suas cren�as comuns. A Hist�ria dos �ltimos s�culos assinala um grande n�mero dessas crian�as prod�gios. O jovem Van der Kerkhove, de Bruges, morreu aos 10 anos e 11 meses, em 12 de Wolfgang Amadeus Mozart (1756 � 1791): c�lebre com-positor austr�aco. � dentre os mestres da m�sica dos mais admirados em todo o mundo. Desencarnou aos 35 anos, em Viena (�ustria), em extrema pen�ria, a ponto de ter sido enterrado como indigente em local ignorado. Deixou mais de 600 composi��es musicais dos mais variados estilos, apre-ciad�ssimas at� os nossos dias.?L�ON DENIS 84 agosto de 1873, deixando 350 pequenos quadros de mestre, dos quais alguns, diz Adolphe Siret, membro da Academia Real das Ci�ncias, Letras e Belas-Artes da B�lgica, � poderiam ser assinados por nomes como Diaz, Salvatore Rosa, Corot, Van Goyen, etc.� Uma outra crian�a, William Hamilton, estudava hebreu aos 3 anos e, aos 7, possu�a conhecimentos mais extensos do que a maioria dos candidatos ao magist�rio. � Eu o vejo ainda � dizia um de seus parentes � responder a uma quest�o �rdua de matem�- tica, depois se afastar pulando, puxando atr�s de si o seu pequeno carrinho.� Aos 13 anos, conhecia 12 l�nguas. Aos 18, surpreendi-da todas as pessoas ao seu redor, a tal ponto que um astr�nomo irland�s dizia dele: � N�o digo que ele ser�, mas que j� � o primeiro matem�tico de sua �poca�. Nessa �poca, 1908, a It�lia se honra de possuir um ling�ista* fenomenal, senhor Trombetti, que ultrapassou muito aos seus antigos compatriotas, o c�lebre Pico de Mirandola e o prodigioso Mezzofanti, o cardeal que discursava em 70 l�nguas. Trombetti nasceu de uma fam�lia de bolonheses pobres e com-pletamente ignorantes. Aprendeu sozinho, na escola prim�ria, o fran-c�s e o alem�o, e, no fim de dois meses, lia Voltaire e Goethe**. Simplesmente aprendeu o �rabe ao ler algo sobre a vida de Abd-el-Kader nessa l�ngua. Um persa, de passagem pela Bolonha, ensi-nou- lhe sua l�ngua em algumas semanas. Aos 12 anos, aprendeu sozinho e simultaneamente o latim, o grego e o hebreu. Depois estu-dou quase todas as l�nguas vivas ou mortas; seus amigos afirmam que ele conhece hoje cerca de 300 dialetos orientais. O rei da It�lia nomeou-o professor de filologia*** na Universidade de Bolonha. No Congresso Internacional de Psicologia de Paris, em 1900, o senhor Charles Richet, da Academia de Medicina, apresentou em assembl�ia geral, reunidas todas as se��es, uma crian�a espanhola de 3 anos e meio, chamada Pepito Arriola, que tocava e improvisava ao piano �rias variadas, muito ricas de sonoridade. Reproduzimos a comunica��o feita pelo senhor Richet aos con-gressistas, na sess�o de 21 de agosto de 1900, a respeito dessa crian�a, antes da audi��o musical 36 : * Ling�ista: nesse caso, pessoa versada no estudo das l�nguas (N.E.). ** Voltaire foi escritor e fil�sofo franc�s, e Goethe foi poeta, romancista, dramaturgo e cientista alem�o. Ambos escreviam textos complexos, usando uma linguagem dif�cil, e o fato de Trombetti conseguir ler as obras deles com apenas dois meses de estudo do franc�s e do alem�o demonstra uma intelig�ncia fora do comum (N.E.). *** Filologia: estudo da l�ngua em toda a sua extens�o e dos documentos escritos que servem para document�-la (N.E.). 36 � Ver Revue Scientifique, de 6 de outubro de 1900, e Compte Rendu Officiel du Congr�s de Psychologie, 1900, F. Alcan.?O PROBLEMA DO DESTINO 85 * Marcial: relativo a militares ou a guerreiros (N.E.). �Eis o que conta a sua m�e do modo pelo qual, pela primeira vez, percebeu os dons musicais extraordin�rios do jovem Pepito: ��A crian�a tinha mais ou menos dois anos e meio quando descobri pela primeira vez, e por acaso, suas aptid�es musicais. Naquela �poca, um de meus amigos m�sicos me enviou uma composi��o sua, e eu a tocava ao piano com muita freq��ncia; � prov�vel que a crian�a tenha prestado aten��o; mas n�o per- cebi. Acontece que, numa manh�, ouvi tocar essa mesma �ria, mas com tanta autoridade e perfei��o que quis saber quem se permitia tocar ao piano desse modo em minha casa. Entrei no sal�o e vi meu filhinho, que estava sozinho e tocava essa �ria. Ele estava sentado sobre um assento elevado, completamente sozinho e, ao me ver, come�ou a rir e me disse: �O que me diz disso, mam�e?� Acreditei que a� havia acontecido um verdadeiro milagre.� �A partir desse momento, o pequeno Pepito come�ou a tocar, sem que sua m�e lhe desse li��es, �s vezes de partituras, outras de �rias que ele inventava. �Logo estava h�bil o suficiente para poder, em 4 de dezembro de 1899, ou seja, n�o tendo ainda 3 anos, tocar diante de uma plat�ia bastante numerosa de cr�ticos e de m�sicos; em 26 de dezembro, com a idade de 3 anos e 12 dias, tocou no Pal�cio Real de Madri, diante do rei e da rainha-m�e, seis composi��es musicais de sua autoria, que foram aplaudidas. �Ele n�o sabia ler, quer se tratasse de m�sica ou do alfabeto. N�o tinha talento especial para o desenho; mas �s vezes se pu- nha a escrever �rias musicais. Essa escrita n�o tinha nenhum sentido. Mas era bastante agrad�vel v�-lo pegar um pequeno papel, p�r-lhe como cabe�alho uns rabiscos que significava, pa- rece, a natureza do trecho, sonata, habanera ou valsa, etc. e depois, abaixo, desenhar linhas pretas que seriam as notas. Ele olhava esse papel com satisfa��o, colocava-o sobre o piano e dizia: �Vou tocar isto� e de fato, tendo diante dos olhos um papel com rabiscos, improvisava de uma maneira espantosa. �Para dizer a verdade, o que h� nele de mais espantoso n�o � nem o dedilhado, nem a harmonia, nem a agilidade, mas a ex- press�o. H� uma riqueza de express�o espantosa. Quer se trate de um trecho triste, alegre, marcial* ou en�rgico, a express�o � satisfat�ria, muitas vezes � t�o forte, t�o tr�gica, em algumas �rias melanc�licas ou f�nebres, que se tem a sensa��o de que?L�ON DENIS 86 Pepito n�o pode, com seu dedilhado imperfeito, exprimir todas as id�ias musicais que estremecem nele: de modo que quase ousa- ria dizer que � muito maior m�sico do que parece ser... �N�o somente toca os trechos que acaba de ouvir tocar ao piano, mas ainda pode tocar ao piano as �rias cantadas que ouviu. � maravilhoso v�-lo, ent�o, achar, imaginar, reconstituir os acor- des do baixo e da harmonia, como poderia faz�-lo um m�sico habilidoso.� Desde ent�o, o jovem artista prosseguiu o curso de seus grandes sucessos. Tornou-se um violinista incompar�vel, brilhou no mundo musical com seu talento precoce, j� tocou em grandes concertos em Leipzig e fez representa��es musicais em Petersburgo 37 . Acrescentamos a esta lista o nome de Willy Ferreros, que, com a idade de quatro anos e meio, dirigia com maestria a or-questra do Folies-Berg�re, em Paris, depois a do Cassino de Lyon. Eis o que diz, em seu n�mero de 18 de fevereiro de 1911, a revista Comoedia: � � um homenzinho que j� traz garbosamen- te o traje negro, o colete de cetim branco e as botinas de verniz. Com a batuta na m�o, dirige com desembara�o, seguran�a e precis�o incompar�veis uma orquestra de 80 m�sicos, atentos ao menor detalhe, escrupuloso observador do ritmo...� O Intransigeant de 22 de junho de 1911 acrescenta que ele se sobressai na dire��o das sinfonias de Haydn, na marcha do Tannhauser e na Dan�a de Anitra, de Grieg. Citemos tamb�m Le Soir, de Bruxelas, em sua enumera��o de algumas crian�as not�veis do al�m-mar: �A Universidade de Nova Orleans acaba de dar um diploma de m�dico a um aluno de 5 anos, chamado Willie Gwin. Os exami- nadores declararam em seguida na sess�o p�blica que o jovem m�dico era o mais s�bio oste�logo* a quem j� tinham oferecido um diploma. �A esse prop�sito, os jornais transatl�nticos publicaram uma lista de suas crian�as prod�gios. Uma delas, mal contando a idade de 11 anos, fundou um jornal chamado The Sunny Home , que desde o terceiro n�mero j� sa�a com uma tiragem de 20 mil exemplares. �Entre os pregadores de destaque dos Estados Unidos, cita- mos o jovem Dennis Mahan, de Montana, que desde a idade de 6 anos causava surpresa nos fi�is pelo seu profundo conhe- cimento das escrituras e pela eloq��ncia de sua palavra. 37 � Anais das Ci�ncias Ps�quicas. Professor Charles Richet, abril de 1908. * Oste�logo: especialista em osteologia, que � o ramo da medicina que estuda os ossos (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 87 �Pode-se acrescentar a esta lista o nome do famoso engenhei- ro sueco Ericson, que aos 12 anos era inspetor do grande canal mar�timo de Suez e tinha 600 trabalhadores sob suas ordens.� * Voltemos ao problema das crian�as prod�gios e vamos exami-n�- lo em diferentes aspectos. Primeiramente, duas hip�teses fo-ram propostas para explic�-lo: a hereditariedade e a mediunidade. A hereditariedade �, ningu�m o ignora, a transmiss�o das propriedades de um indiv�duo aos seus descendentes. As influ�n-cias heredit�rias s�o consider�veis dos dois pontos de vista: f�si-co e ps�quico. A transmiss�o dos pais aos filhos do temperamento, dos tra�os, do car�ter e da intelig�ncia � bem notada em algu-mas pessoas. Encontramos em n�s, em diferentes pormenores, n�o somente particularidades org�nicas de nossos geradores diretos ou ancestrais, mas ainda suas qualidades ou seus defeitos. No homem atual, revive toda a misteriosa linhagem dos seres, que � o resumo dos esfor�os seculares para uma vida mais ele-vada e completa. Mas ao lado das semelhan�as h� diferen�as mais conside-r�veis ainda. Os membros de uma mesma fam�lia, ao apresentar semelhan�as, tra�os comuns, �s vezes tamb�m oferecem dife-ren�as que se destacam muito. O fato pode ser constatado em todos os lugares, � nossa volta, em cada fam�lia, entre os irm�os e irm�s e mesmo entre os g�meos. Muitos desses, semelhantes fisicamente em seus primeiros anos, a ponto de dificilmente se conseguir distingui-los uns dos outros, apresentam no decorrer de seu desenvolvimento diferen�as sens�veis de fei��es, car�-ter e de intelig�ncia. Para explicar essas diferen�as ser� preciso fazer intervir um fator novo na solu��o do problema: as reencarna��es do ser, que lhe permitiram aumentar suas faculdades de vida em vida, constituir uma individualidade, marcando nela seu selo de origina-lidade e suas pr�prias aptid�es. Somente essa lei dos renasci-mentos poder� nos fazer compreender como certos esp�ritos, ao encarnar, mostram desde seus primeiros anos essas facilidades de trabalho e de aprendizagem que caracterizam as crian�as prod�gios. Est�o a� os resultados de imensos trabalhos que familia-rizaram esses esp�ritos com as artes ou as ci�ncias em que pri-mam. Longas pesquisas, estudos, exerc�cios seculares deixaram em seu perisp�rito impress�es profundas, criando uma esp�cie de automatismo psicol�gico. Para os m�sicos especialmente, essa faculdade cedo se manifesta com clareza, pela sua maneira de?L�ON DENIS 88 execu��o que causa espanto aos mais indiferentes e deixa per-plexos os s�bios como o professor Richet. Existem, nesses jovens, reservas consider�veis de conheci-mento armazenado na consci�ncia profunda e que, da�, extrava-sam para a consci�ncia f�sica, de modo a produzir essas manifes-ta��es precoces do talento e do g�nio. Embora parecendo anor-mais, s�o apenas a conseq��ncia do trabalho e dos esfor�os acumulados ao longo dos tempos. � a essa reserva, esses valo-res indestrut�veis do ser, que F. Myers chama de consci�ncia subliminal e que se encontra em cada um de n�s. Ela se revela n�o somente no sentido art�stico, cient�fico ou liter�rio, mas ainda em todas as aquisi��es do esp�rito, tanto na ordem moral quanto na intelectual. A concep��o do bem, do justo, a no��o do dever s�o, muitas vezes, mais vivas para certos indiv�duos e em algumas ra�as do que em outras. Elas n�o resultam somente da educa��o que recebem, como se pode reconhecer por uma observa��o atenta dos indiv�duos em seus impulsos espont�neos, mas de um fundo pessoal que trazem ao nascer. A educa��o desenvolve esses germes nativos, permite-lhes desabrochar e produzir todos os seus frutos. Sozinha, ela n�o poderia predispor t�o profundamente nos rec�m-vindos essas no��es superiores que dominam toda a sua exist�ncia. Isso � constatado diariamente nas ra�as inferiores, rebeldes a certas id�ias morais e sobre as quais a educa��o tem pouca influ�ncia. Os antecedentes explicam ainda essas anomalias estranhas dos seres de car�ter selvagem, indisciplinado, mau, aparecendo de repente em centros honestos e civilizados. T�m-se visto filhos de boas fam�lias cometer roubos, provocar inc�ndios, executar crimes com aud�cia e habilidade consumadas, sofrer condena-��es e desonrar o nome que usam. Podemos citar em outras crian�as atos de ferocidade sanguin�ria, que nada ao seu redor ou em sua ascend�ncia pode explicar. Adolescentes, por exem-plo, que matam os animais dom�sticos que caem em suas m�os, ap�s os torturar com uma crueldade refinada. Em sentido oposto, pode-se constatar casos de dedica��o extraordin�rios pela idade dos que o praticam; salvamentos s�o efetuados com reflex�o e decis�o por crian�as de dez anos e de menos idade. Esses indiv�duos, como os precedentes, parecem trazer para este mundo disposi��es particulares que n�o se encon-tram em seus pais. Assim como se v�em anjos de pureza e de do�ura nascer e crescer em meios grosseiros e de pouca moral, encontram-se tamb�m ladr�es e assassinos em fam�lias virtuosas;?O PROBLEMA DO DESTINO 89 e nos dois casos essas anomalias se apresentam em condi��es que nenhum precedente heredit�rio pode dar a chave do enigma. Todos esses fen�menos, em sua variedade infinita, encontram sua explica��o no passado da alma, nas numerosas vidas huma-nas que ela percorreu. Cada uma traz ao nascer os frutos de sua evolu��o, a intui��o do que aprendeu, as aptid�es adquiridas nos diversos dom�nios do pensamento e da obra social: na arte, na ci�ncia, no com�rcio, na ind�stria, na navega��o, na guerra, etc. Se traz habilidade para determinada coisa � porque se exer-citou nesse sentido. O esp�rito � capacitado para estudos mais diversos, mas no curso limitado da vida terrestre, pelo efeito das condi��es do ambiente, por conseq��ncia das exig�ncias materiais e sociais, geralmente apenas se aplica ao estudo de um n�mero restrito de quest�es. E desde que sua vontade � orientada para um dos dom�nios do vasto conhecimento, pelo fato de suas tend�ncias e das no��es acumuladas nele, sua superioridade nesse sentido desperta e se evidencia, se define cada vez mais; repercute de exist�ncia em exist�ncia, revelando-se, a cada retorno ao campo terrestre, por manifesta��es sempre mais precoces e mais acen-tuadas. Da� as crian�as prod�gios e, numa ordem mais espec�fica, as voca��es, as predisposi��es nativas. Revela-se ent�o o ta-lento, o g�nio que s�o o resultado de esfor�os perseverantes e cont�nuos para um objetivo determinado. Entretanto, que a alma � chamada a abordar todas as formas do conhecimento e n�o a se restringir a algumas necessidades de est�gios sucessivos, demonstra-se pelo fato �nico da lei de um desenvolvimento sem limites. Do mesmo modo que a prova das vidas anteriores se estabelece pelas aquisi��es realizadas antes do nascimento, a necessidade das vidas futuras se imp�e como conseq��ncia de nossos atos atuais, essa conseq��ncia, para se desenvolver, exige condi��es e meios em harmonia com o estado das almas. Atr�s de n�s temos toda uma infinidade de lembran�as; diante de n�s uma outra infinidade de promessas e de esperan�as. Mas, de todo esse esplendor de vida, a maioria dos homens v� e s� quer ver apenas o fragmento mesquinho da exist�ncia atual, exist�ncia de um dia que acreditam sem prece-dente e sem amanh�. Da� a fraqueza do pensamento filos�fico e da a��o moral em nossa �poca. O trabalho anterior efetuado pelo esp�rito pode ser facilmen-te calculado, medido pela rapidez com que cada qual executa novamente um trabalho semelhante sobre o mesmo assunto, ou tamb�m pela facilidade com que assimila os elementos de uma?L�ON DENIS 90 ci�ncia qualquer. Desse ponto de vista, a diferen�a entre os indi-v�duos � de tal modo consider�vel que se tornaria incompreen-s�vel sem essa no��o das exist�ncias anteriores. Duas pessoas igualmente inteligentes, estudando um mesmo assunto, n�o o assimilar�o da mesma forma: uma alcan�ar� � primeira vista os menores elementos; outra, apenas � custa de um lento trabalho e de muita aplica��o. � que uma j� conheceu essa mat�ria e s� precisa record�-la, enquanto a outra se encontra pela primeira vez diante dessas quest�es. Acontece o mesmo com a facili-dade que certas pessoas t�m para aceitar determinada verdade, um princ�pio, um ponto de uma doutrina pol�tica ou religiosa, enquanto outras, s� com o tempo e com a for�a dos argumentos se convencem. Para uns, � coisa familiar ao seu entendimento, enquanto � nova para outros. As mesmas considera��es se aplicam, j� vimos, � variedade t�o grande dos caracteres e das disposi��es morais. Sem a no��o das preexist�ncias, a diver-sidade sem limites das intelig�ncias e das consci�ncias perma-neceria um problema sem solu��o, e a liga��o dos diferentes elementos do eu, em um todo harmonioso, se tornaria um fen�-meno sem causa. O g�nio, diz�amos, n�o se explica pela hereditariedade, nem pelas condi��es do meio. Se a hereditariedade pudesse produzir o g�nio, seria muito mais freq�ente. A maioria dos homens c�le-bres tiveram ascendentes de intelig�ncia med�ocre e sua descen-d�ncia foi-lhes notoriamente inferior. Cristo, S�crates e Joana D�Arc nasceram de fam�lias obscuras. S�bios ilustres sa�ram de meios mais vulgares, por exemplo, Bacon, Cop�rnico, Galvani, Kepler, Hume, Kant, Locke, Malebranche, R�aumur, Spinoza, Laplace, etc. J.-J. Rousseau, filho de um relojoeiro, apaixonou-se pela filosofia e pelas letras na loja de seu pai. D�Alembert, enjeitado, foi encontrado numa noite de inverno na soleira de uma igreja e criado pela mulher de um vidraceiro. Nem a ascend�ncia nem o meio explicam as concep��es geniais de Shakespeare. Os fatos n�o s�o menos interessantes, quando considera-mos a descend�ncia dos homens de g�nio. Seu poder intelectual desaparece com eles; n�o passa para os filhos. Os filhos conheci-dos de um grande poeta ou matem�tico s�o incapazes das obras mais elementares nesses dois modos de trabalho. Entre os ho-mens ilustres, a maioria teve filhos tontos ou indignos. P�ricles gerou dois tolos: Parallas e Xantippe. Diferen�as de outra nature-za, mas tamb�m acentuadas, encontram-se em Aristipo e seu filho Lis�maco, em Tuc�dides e Mil�sias. Tamb�m S�focles, Aristarco,?O PROBLEMA DO DESTINO 91 * Genealogia: nesse caso, enumera��o de ancestrais e seus descendentes na ordem natural de seq��ncia (N.E.). Tem�stocles n�o foram mais felizes com seus filhos. Que con-traste entre Germ�nico e Cal�gula, entre C�cero e seu filho, Vespasiano e Domiciano, Marco Aur�lio e C�modo! E dos filhos de Carlos Magno, de Henrique IV; de Pedro, o Grande; de Goethe, de Napole�o, o que se pode dizer disso? H� casos, entretanto, em que o talento, a mem�ria, a imagina-��o, as mais altas faculdades do esp�rito, parecem heredit�rias. Essas semelhan�as ps�quicas entre pais e filhos se explicam pela atra��o e simpatia. S�o esp�ritos afins e familiares, atra�dos uns para os outros por inclina��es semelhantes e que antigas rela��es uniram. No que diz respeito �s aptid�es musicais, pode-se constatar esse fato nos casos de Mozart e do jovem Pepito. Mas essas duas pessoas ultrapassam em muito seus ascendentes. Mozart brilha entre os seus como um sol entre obscuros planetas. A capacidade musical de sua fam�lia n�o basta para nos fazer compreender que aos quatro anos tenha revelado conhecimentos que ningu�m ainda lhe havia ensinado, e mostrar uma ci�ncia profunda das leis da harmonia. De todos da fam�lia, Mozart, ape-nas ele, tornou-se c�lebre. Evidentemente, essas supremas inteli-g�ncias, a fim de manifestarem mais livremente suas faculdades, escolhem, para reencarnar, um meio em que h� comunh�o de gostos e em que os organismos materiais s�o, de gera��o em gera��o, aprimorados na esfera de a��o que perseguem. Isso se encontra particularmente entre os grandes m�sicos, para quem condi��es especiais de sensa��o e de percep��o s�o indispens�-veis. Mas, na maioria dos casos, o g�nio aparece no seio de uma fam�lia sem precedente e sem sucessor, no encadeamento das gera��es. Os grandes g�nios moralizadores, os fundadores da religi�o: Lao-Tse, Buda, Zaratustra, Cristo, Maom� pertencem a essa classe de esp�ritos. � tamb�m o caso para essas poderosas intelig�ncias que tiveram neste mundo nomes imortais, como: Plat�o, Dante, Newton, Giordano Bruno, etc. Se as exce��es fulgurantes ou ocasionais, criadas em uma fam�lia pela apari��o de um g�nio ou de um criminoso, fossem simples casos de hereditariedade, encontraria na genealogia* familiar o ancestral que serviu de modelo, de tipo primitivo para essa manifesta��o. Acontece que quase nunca isso se d�, nem num sentido nem em outro. Poderiam nos perguntar como conci-liaremos essas desigualdades com a lei das atra��es e das semelhan�as, que parece orientar a aproxima��o das almas.?L�ON DENIS 92 38 � Ver No invis�vel, cap�tulo 26, A Mediunidade Gloriosa, Ed. FEB. O surgimento em algumas fam�lias de seres sensivelmente supe-riores ou inferiores, que v�m dar ou receber ensinamentos, exercer ou sofrer influ�ncias novas, � facilmente explic�vel; pode resultar do encadeamento dos destinos comuns que, em alguns casos, tornam a se unir como uma conseq��ncia de afei��es ou �dios m�tuos do passado, for�as igualmente atrativas que re�nem as almas sobre planos sucessivos na vasta espiral de sua evolu��o. * Seria poss�vel explicar pela mediunidade os fen�menos acima apontados? Alguns tentaram. N�s mesmos, numa obra anterior 38 , reconhecemos que o g�nio deve muito � inspira��o, e essa � uma das formas da mediunidade. Mas acrescentamos que, no caso em que essa faculdade especial se nota claramente, n�o se pode considerar o homem dotado de g�nio como um simples instru-mento, como � acima de tudo o m�dium propriamente dito. O g�nio, dissemos n�s, � principalmente uma aquisi��o do passado, o resultado dos pacientes estudos seculares, de uma lenta e doloro-sa inicia��o. Esses antecedentes desenvolveram no ser uma pro-funda sensibilidade que o torna acess�vel �s influ�ncias elevadas. H� uma grande e sens�vel diferen�a entre as manifesta��es intelectuais das crian�as prod�gios e a mediunidade tomada em seu sentido geral. � que a mediunidade tem um car�ter n�o-cont�-nuo, passageiro, anormal. O m�dium n�o a pode exercer a qual-quer momento; s�o necess�rias condi��es especiais, por vezes dif�ceis de conciliar; mas as crian�as prod�gios podem utilizar seus talentos a qualquer momento, de modo permanente, como n�s mes-mos fazemos com nossas pr�prias aquisi��es mentais. Se analisarmos com cuidado os casos assinalados, reco-nheceremos que o g�nio dos jovens prod�gios � um dom pessoal que se manifesta por sua pr�pria vontade. Suas obras, por mais originais e surpreendentes que pare�am, ressentem-se sempre de sua idade e n�o t�m o car�ter que apresentariam se fossem medi�nicas, ou seja, de uma entidade espiritual. H� no seu modo de trabalhar e proceder tentativas, hesita��es, tateamentos que n�o se produziriam se eles fossem os instrumentos passivos de uma vontade superior e oculta. � o que constatamos claramente em Pepito, cujo caso estudamos. Ali�s, pode-se admitir que, em alguns indiv�duos, essas duas causas: a aquisi��o pessoal e a inspira��o exterior, combinam-se, completam-se uma pela outra. A doutrina da reencarna��o n�o ser� enfraquecida por isso.?O PROBLEMA DO DESTINO 93 � sempre a essa doutrina que se deve recorrer quando se trata de abordar desigualdades. As almas humanas s�o mais ou menos desenvolvidas conforme sua idade e sobretudo pelo em-prego que fizeram do tempo vivido. N�o fomos todos lan�ados ao mesmo tempo no turbilh�o da vida; n�o temos caminhado todos de modo igual, desenvolvido do mesmo modo o ros�rio de nossas exist�ncias. Percorremos um caminho infinito; da� procede que nossas situa��es e nossos valores respectivos nos pare�am t�o diferentes; mas o objetivo � o mesmo para todos . Sob o a�oite das provas, sob o aguilh�o da dor, todos sobem, todos se elevam. A alma n�o � feita de uma vez s�; ela a si mesma se faz; ela mesma se constr�i no decorrer dos tempos. Suas faculdades, suas qualidades, seus valores intelectuais e morais, longe de se perderem, capitalizam-se, aumentam de s�culo em s�culo. Pela reecarna��o, cada qual vem para continuar a tarefa de ontem, essa tarefa de aperfei�oamento interrompida pela morte. Da� a brilhante superioridade de algumas almas que viveram muito, adquiriram e trabalharam muito. Da� esses seres extraordin�rios que aparecem aqui e ali na Hist�ria e projetam luzes vivas sobre o caminho da humanidade. Sua superioridade � feita apenas da experi�ncia e dos trabalhos acumulados. Considerada sob esse enfoque, a marcha da humanidade se reveste de aspecto grandioso. Ela se liberta lentamente da obscuri-dade das idades, emerge das trevas, da ignor�ncia e da barb�rie e avan�a pausadamente no meio dos obst�culos e das tempes-tades. Sobe o caminho �spero e a cada degrau acima entrev� melhor os grandes cimos, os cumes luminosos onde imperam a sabedoria, a espiritualidade e o amor. E essa marcha coletiva � tamb�m a marcha individual, a de cada um de n�s. Porque essa humanidade somos n�s mesmos; s�o os mesmos seres que, ap�s um tempo de repouso no espa-�o, voltam a reencarnar, at� que estejam maduros para uma sociedade melhor, para um mundo mais belo. Fizemos parte das gera��es extintas e estaremos entre as gera��es que est�o por vir. Na realidade, somos apenas uma imensa fam�lia humana em marcha para realizar o plano divino nela escrito, o plano de seus magn�ficos destinos. Para quem quer ficar atento a isso, todo um passado vive e estremece em n�s. Se a Hist�ria, se todas as coisas antigas t�m tantos atrativos aos nossos olhos, se despertam em nossas almas impress�es t�o profundas, por vezes dolorosas, se nos sentimos viver a vida dos homens de antigamente, sofrer de seus males, � porque essa hist�ria � a nossa. A solicitude com que estudamos,?L�ON DENIS 94 com que veneramos a obra de nossos antepassados, os impulsos repentinos que nos atraem para uma causa ou para uma cren�a, n�o t�m outra raz�o de ser. Quando percorremos a hist�ria dos s�culos, nos apaixonamos por algumas �pocas, quando todo o nosso ser se anima e vibra com as lembran�as her�icas da Gr�cia ou da G�lia, da Idade M�dia, das Cruzadas, da Revolu��o, � o passado que sai da sombra, se anima e revive. No decorrer da trama tecida pelos s�culos, encontramos as pr�prias ang�stias, as aspira��es, as disc�rdias de nosso ser. A lembran�a est� momentaneamente adormecida em n�s; mas se interrogarmos o nosso subconsciente, ouviremos sair de sua profundeza vozes um tanto vagas e confusas, �s vezes brilhantes. Essas vozes nos falariam de grandes epop�ias, de migra��es de homens, de caval-gadas furiosas que passam como furac�es, arrastando tudo para a escurid�o e a morte. Elas tamb�m nos revelariam as vidas humildes, despercebidas, das l�grimas silenciosas, dos sofrimen-tos esquecidos, das horas pesadas e mon�tonas passadas a meditar, a produzir, a orar no sil�ncio dos claustros ou a vulgari-dade das exist�ncias pobres e desoladas. H� momentos em que todo um mundo obscuro, confuso, mis-terioso, revive e vibra em n�s, um mundo cujos rumores, sus-surros nos comovem e embriagam. � a voz do passado; ela fala no transe sonamb�lico e nos conta as mudan�as sucessivas de nossa pobre alma, errando pelo mundo. Ela nos diz que nosso eu atual � feito de numerosas personalidades que se encontram nele como os afluentes no rio; que nosso princ�pio de vida animou muitas formas, cuja poeira repousa entre os restos dos imp�rios, sob os vest�gios de civiliza��es mortas. Todas essas exist�ncias deixaram bem no fundo de n�s tra�os, lembran�as, impress�es inesquec�veis. O homem que se estuda e se observa sente que viveu e viver� novamente; herda de si mesmo, colhendo no presente o que semeou em outras vidas e semeando para o futuro. Assim se afirmam a beleza e a grandeza dessa concep��o das vidas sucessivas, que v�m completar a lei da evolu��o entre-vista pela ci�ncia. Exercendo sua fun��o simultaneamente em todos os dom�nios, distribui a cada um conforme suas obras e nos mostra, acima de tudo, essa majestosa lei do progresso que rege o universo e dirige a vida para os estados mais belos, sempre melhores.?O PROBLEMA DO DESTINO 95 39 � Ver Cristianismo e Espiritismo, Ed. FEB. J� respondemos � principal obje��o que o esquecimento das vidas passadas traz ao pensamento. Resta-nos contestar outras, de car�ter filos�fico ou religioso, que os representantes das Igre-jas op�em de boa-f� � doutrina das reencarna��es. Em primeiro lugar, dizem, essa doutrina � insuficiente do ponto de vista moral. Ao abrir ao homem t�o amplas perspectivas sobre o futuro, ao lhe deixar a possibilidade de reparar tudo nas exist�ncias futuras, encoraja-o ao v�cio e ao desleixo; n�o oferece um est�mulo muito poderoso e bastante atual para a pr�tica do bem; por todas essas raz�es, ela � menos eficaz que a cren�a num castigo eterno ap�s a morte. Como vimos, a teoria dos castigos eternos n�o �, mesmo no pensamento da Igreja 39 , mais do que um espantalho destinado a assustar os maus. Mas a amea�a do inferno, a cren�a nesses su-pl�cios, eficaz no tempo da f� cega, n�o assusta mais ningu�m. No fundo, � uma impiedade para com Deus, de quem se faz um ser cruel, punindo sem necessidade e sem objetivo de melhoramento. Em seu lugar, a doutrina das reencarna��es nos mostra a verdadeira lei de nossos destinos e, com ela, a realiza��o do progresso e da justi�a no universo. Ao nos fazer conhecer as causas anteriores de nossos males, ela coloca fim a essa concep-��o absurda do pecado original, segundo a qual toda a descend�n-cia de Ad�o, ou seja, toda a humanidade, sofreria o castigo das fraquezas do primeiro homem. � por isso que sua influ�ncia moral ser� mais profunda que a das f�bulas infantis do inferno e do para�so. Ser� o freio �s paix�es, ao nos mostrar as conseq��ncias de nossos atos recaindo sobre nossa vida presente e as futuras, AS VIDAS SUCESSIVAS. � OBJE��ES E CR�TICAS 4?L�ON DENIS 96 * �Depois de mim o dil�vio�: frase atribu�da a Luiz XV (1710 � 1774), rei de Fran�a (N.E.). semeando nela germes de dor ou de felicidade. Ao nos ensinar que a alma � tanto mais infeliz quanto mais imperfeita e culpada for, estimular� nossos esfor�os para o bem. � verdade que essa doutri-na � inflex�vel, mas pelo menos sabe proporcionar o castigo � falta e, ap�s a repara��o, fala-nos de reabilita��o e esperan�a. A cren�a tradicional, por�m, impregnada da id�ia de que a con-fiss�o e a absolvi��o apagam seus pecados, ilude-se com uma esperan�a v� e prepara para si pr�pria decep��es na outra vida; o homem informado das novas luzes aprende a corrigir sua con-duta, a se manter em guarda, a se preparar cuidadosamente para o futuro. Uma outra obje��o consiste em dizer: se estamos convenci-dos de que nossos males s�o merecidos, que s�o uma conse-q��ncia da lei da justi�a, uma tal cren�a ter� por efeito apagar em n�s toda piedade, toda compaix�o para com o sofrimento dos outros; nos sentiremos menos levados a socorrer, a conso-lar nossos semelhantes, e deixaremos em livre curso as suas provas, uma vez que devem ser para eles uma expia��o neces-s�ria e um meio de adiantamento. Essa obje��o � ilus�ria, enga-nosa; emana de fonte interesseira, falsa. Consideremos primeiramente a quest�o do ponto de vista social; e, a seguir, em seu sentido individual. O Espiritismo nos ensina que os homens s�o solid�rios entre si, unidos pela mesma sorte. As imperfei��es sociais de que todos sofremos, mais ou menos, s�o os resultados de nossas a��es coletivas no passado. Cada um de n�s tem a sua parte de responsabilidade e o dever de trabalhar para o melhoramento do destino geral. A educa��o das almas humanas obriga-as a ocupar situa��es diversas. Todos devem alternadamente sofrer a prova da riqueza e a da pobreza, do infort�nio, da doen�a, da dor. Diante das mis�rias desse mundo que n�o o atingem, o ego�s-ta se desinteressa e diz: �Depois de mim, o dil�vio!�* Ele acredita que a morte o livra da a��o das leis terrestres e das convuls�es das sociedades. Com a reencarna��o, o ponto de vista muda. Seria preciso ainda voltar e sofrer os males que cont�vamos deixar aos outros. Todas as paix�es e injusti�as que tivermos tolerado, encorajado, sustentado, por fraqueza ou interesse, se dirigir�o contra n�s. Esse meio social para o melhoramento do qual nada tivermos feito nos constranger� com toda a sua for�a opressora. Quem oprimiu, explorou os outros, ser� oprimido, explorado, por?O PROBLEMA DO DESTINO 97 * �Fora da caridade n�o h� salva��o�: o assunto acha-se desenvolvido em O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap�tulo 15 (N.E.). sua vez. Quem semeou a divis�o, o �dio, sofrer� os efeitos dis-so. Os orgulhosos ser�o desprezados e aquele que roubou ter� de devolver. Aquele que fez sofrer sofrer�. Se quiserdes assegu-rar vosso pr�prio futuro, trabalhai, desde agora, para se aperfei-�oar, para tornar melhor o meio em que deveis renascer, pensai no vosso pr�prio melhoramento. Eis o que � necess�rio para eli-minar as mis�rias coletivas que devem ser vencidas pelo esfor-�o de todos. Aquele que, podendo ajudar seus semelhantes, deixa de faz�-lo, falta � lei da solidariedade. Quanto aos males individuais, diremos, ao nos colocar em um outro ponto de vista: n�o somos ju�zes para distinguir com exatid�o onde come�a ou acaba a expia��o. N�s mesmos sabe-mos em quais casos h� expia��o? Muitas almas, sem serem culpadas, mas ansiosas por progredir, pedem uma vida de provas para evoluir mais rapidamente. A ajuda que devemos a essas almas pode ser uma das condi��es tanto de seu destino como do nosso, e � poss�vel que sejamos colocados no seu caminho para alivi�-los, esclarec�-los, reconfort�-los. Todo bem e todo mal realizado remontam � sua origem com seus efeitos, e � negativo de nossa parte negligenciar a menor ocasi�o de nos tornarmos �teis e prestativos. �Fora da caridade n�o h� salva��o�*, disse Allan Kardec. A� est� o preceito por excel�ncia da moral esp�rita. Em todos os lu-gares onde o sofrimento se manifeste, deve encontrar cora��es compassivos, prontos a socorrer e a consolar. A caridade � a mais bela das virtudes; � a �nica obra de acesso aos mundos felizes. * Muitas das pessoas para quem a vida foi rude e dif�cil sen-tem medo ante a perspectiva de renov�-la indefinidamente. Essa longa e dif�cil eleva��o no decorrer dos tempos e entre os mundos enche de pavor aqueles que, tomados de cansa�o, esperam um repouso imediato e uma felicidade sem fim. � certo que � preciso ter vigor na alma para contemplar sem vertigem essas perspec-tivas imensas. A concep��o cat�lica � mais sedutora para as almas t�midas, para os esp�ritos pregui�osos, porque, conforme ela ensina, poucos esfor�os t�m a fazer para ganhar a salva��o. A vis�o do destino � formid�vel. S� esp�ritos vigorosos podem consider�-la sem enfraquecer e encontrar na no��o do destino o estimulante necess�rio, a compensa��o aos pequenos h�bitos confessionais, a calma e a serenidade do pensamento.?L�ON DENIS 98 Uma felicidade que � preciso conquistar � custa de muitos esfor�os, mais amedronta do que atrai as almas humanas, ainda fracas em sua maioria e inconscientes de seu magn�fico futuro. Mas a verdade est� acima de tudo! N�o est�o em quest�o aqui as nossas conveni�ncias pessoais. A Lei, agrade ou n�o, � a Lei! Cabe a n�s adaptar nossos objetivos e atos a ela, e n�o lhe cabe dobrar-se �s nossas exig�ncias. A morte n�o pode transformar um esp�rito inferior em elevado. Somos, nesta como na outra vida, o que fizemos, intelectual e moralmente. Todas as manifesta��es esp�ritas o demonstram. Entretanto, dizem que apenas as almas perfeitas habitar�o os reinos celestes, e, de outro modo, condicionam e limitam os meios de aperfei�oamento ao c�rculo de uma vida fugaz, passageira. Podem-se vencer as paix�es, endireitar o car�ter no decorrer de uma �nica vida? Se alguns o t�m conseguido, o que pensar da multid�o de seres ignorantes e viciosos que povoam o nosso planeta? � admiss�vel que sua evolu��o se resuma a essa curta passagem sobre a Terra? E aqueles que se tornaram culpados de grandes crimes, onde encontrar�o as condi��es necess�rias para a repara��o? Se n�o for nas reencarna��es sucessivas, recairemos for�osamente no labirinto do inferno. Mas um inferno eterno � t�o imposs�vel quanto um eterno para�so, uma vez que n�o h� ato t�o louv�vel ou crime t�o horroroso que acarrete uma eternidade de recompensas ou de castigos! Basta considerar a obra da natureza desde a origem dos tem-pos para constatar em todos os lugares essa lenta e tranq�ila evolu��o dos seres e das coisas, que se ajusta t�o bem ao po-der eterno e que todas as vozes do universo proclamam. A alma humana n�o escapa a essa regra soberana. Ela � o resumo, o remate desse esfor�o prodigioso, o �ltimo anel da cadeia que se desenrola desde as mais profundas camadas da vida e cobre o globo inteiro. N�o � no homem que se resume toda a evolu��o dos reinos inferiores e que aparece com esplendor o princ�pio sagrado da perfei��o? Esse princ�pio n�o � a sua pr�pria ess�n-cia e uma esp�cie de selo divino marcando sua natureza? E, se ocorre desse modo, como admitir que a intelig�ncia humana pos-sa ser colocada fora das leis imponentes, emanadas da Causa Prim�ria das Intelig�ncias? A onda de vida que se desencadeia atrav�s dos tempos para chegar ao ser humano e que, em seu curso, � dirigida por essa regra grandiosa da evolu��o poderia terminar em nada? O prin-c�pio do progresso est� escrito em todos os lugares: na natureza?O PROBLEMA DO DESTINO 99 * Lete: um dos rios dos infernos. O nome Lete significa esquecimento; as almas que bebiam a �gua desse rio esqueciam os males e prazeres da vida f�sica (N.E.). e na Hist�ria. Todo o movimento que ele imprime �s for�as em a��o sobre nosso mundo vai terminar no homem; pode-se preten-der que a parte essencial do homem, seu eu, sua consci�ncia, escape a essa lei de continuidade e de progress�o? N�o! A l�gi-ca, sem falar dos fatos, demonstra que nossa exist�ncia n�o pode ser isolada. O drama da vida n�o pode compor-se de um �nico ato; � preciso uma seq��ncia, um prolongamento, pelos quais se explicam e se esclarecem as incoer�ncias aparentes e as obscuridades do presente; � preciso um encadeamento de exist�ncias, solid�rias umas �s outras, fazendo sobressair o plano e a organiza��o que presidem aos destinos dos seres humanos. Resulta disso que seremos condenados a um trabalho dolo-roso e incessante? A lei da eleva��o retardar� indefinidamente o per�odo de paz e de descanso? De maneira nenhuma. Ao fim de cada vida terrestre, a alma colhe o fruto das experi�ncias adquiri-das; direciona suas for�as e suas faculdades para a vida interior e individual. Procede ao invent�rio de sua obra terrestre, assimila dela as partes �teis e rejeita os elementos improdutivos. � a primeira ocupa��o na outra vida, o trabalho por excel�ncia de recapitula��o e de an�lise. O recolhimento entre os per�odos de atividade terrestre � necess�rio, e todo ser que segue o cami-nho normal, dele recebe os seus benef�cios. Dizemos recolhimento porque, na realidade, o esp�rito, na espi-ritualidade, n�o descansa. A atividade � sua pr�pria natureza. N�o vemos essa atividade no sono? S� os �rg�os materiais de trans-miss�o sentem a fadiga e morrem. Na vida espiritual, esses entra-ves s�o quase desconhecidos; o esp�rito pode se dedicar, sem inc�modo e sem constrangimento, at� o momento da reencarna-��o, �s miss�es que lhe s�o destinadas. Seu retorno � vida terrestre � como um rejuvenescimento. A cada renascimento, a alma reconstitui para si uma esp�cie de virgindade. O esquecimento do passado, qual Lete* benfazejo e reparador, torna a fazer dela um ser novo, que recome�a a ele-va��o vital com mais ardor. Cada vida realiza um progresso, cada progresso aumenta o poder da alma e a aproxima do estado de perfei��o. Essa lei nos mostra a vida eterna em sua amplitude. Todos n�s temos um ideal a realizar: a beleza e a felicidade supre-mas. N�s nos encaminhamos para esse ideal mais ou menos rapi-damente, seguindo o impulso de nossos impulsos e a intensidade de nossos desejos. Nossa vontade e nossa consci�ncia, reflexos?L�ON DENIS 100 * Virtual: que existe como faculdade, por�m sem exerc�cio atual. Poss�vel de se realizar (N.E.). vivos da norma universal, s�o nossos �nicos ju�zes. Cada exis-t�ncia humana condiciona a seguinte. Seu conjunto constitui a plenitude do destino, ou seja, a comunh�o com o infinito. * Muitas vezes nos perguntam: como a expia��o, o resgate das faltas passadas, podem ser merit�rios e fecundos para o esp�rito reencarnado, uma vez que, esquecido e inconsciente das causas que o oprimem, ignora presentemente o objetivo e a raz�o de ser de suas provas? Vimos que o sofrimento n�o � for�osamente uma expia��o. Toda a natureza sofre; tudo que vive, a planta, o animal e o ho-mem, est� sujeito � dor. O sofrimento � um modo de evolu��o, de educa��o. Mas no caso proposto, � preciso lembrar que uma distin��o deve ser estabelecida entre a inconsci�ncia atual e a consci�ncia virtual* do destino no esp�rito reencarnado. Quando o esp�rito compreende, � luz intensa do al�m, que uma vida de provas lhe � absolutamente necess�ria para apagar os resultados deplor�veis de suas exist�ncias anteriores, esse mesmo esp�rito, agindo em plena intelig�ncia e plena liberdade, escolhe ou aceita espontaneamente sua reencarna��o futura com todas as conseq��ncias que ela acarreta, a� compreendido o esquecimento do passado, que se segue ao ato da reencarna-��o. Essa vis�o inicial, clara e total de seu destino, no momento preciso em que o esp�rito aceita o renascimento, basta para estabelecer a consci�ncia, a responsabilidade e o m�rito dessa nova vida. Dela conserva a intui��o, o instinto adormecido, que a menor lembran�a, o menor sonho, bastam para acordar e fazer reviver. � por esse la�o invis�vel, mas real e poderoso, que a vida presente se liga � vida anterior do mesmo ser e constitui a unidade moral e a l�gica implac�vel de seu destino. N�s n�o nos lembramos do passado; � que, muitas vezes, como j� demons-tramos, nada fazemos para despertar essas lembran�as adorme-cidas. Mas a ordem das coisas n�o subsiste menos; nenhum anel da cadeia magn�tica se apagou, e ainda menos se quebrou. O homem na idade madura n�o se lembra mais dos detalhes de sua primeira juventude; isso o impede de ser a crian�a de antigamente e de lhe realizar as promessas? O grande artista que, ao entardecer de um dia de trabalho, cede � fadiga e ador-mece, n�o guarda durante o sono o plano virtual, a vis�o �ntima?O PROBLEMA DO DESTINO 101 da obra que vai retomar e continuar assim que acordar? Acontece o mesmo com o nosso destino. Ele tamb�m � um trabalho constante, entrecortado muitas vezes em seu andamento, por sonos que s�o, na realidade, atividades em dimens�o diferente, iluminadas por sonhos de luz e de beleza! A vida do homem � um drama l�gico e harmonioso, cujas cenas e decora��es mudam, variam ao infinito, mas n�o se afas-tam por um �nico instante da unidade do objetivo nem da harmo-nia do conjunto. S� quando voltarmos para o mundo invis�vel com-preenderemos o valor de cada cena, o encadeamento dos atos, a incompar�vel harmonia do todo em suas rela��es com a vida e a unidade universais. Sigamos, com f� e confian�a, a linha tra�ada pela M�o Infal�-vel. Dirijamo-nos aos nossos fins, como os rios v�o para o mar � fecundando a terra e refletindo o c�u. * Duas obje��es ainda se apresentam: � Se a teoria da reencar- na��o fosse verdadeira � diz Jacques Brieu, no Moniteur des �tudes Psychiques �, o progresso moral deveria ser sens�vel desde o in�cio dos tempos hist�ricos. Acontece que a realidade � outra. Os homens de hoje s�o t�o ego�stas, violentos, cru�is e t�o ferozes como o eram h� dois mil anos.� Essa aprecia��o � exagerada. Ainda que fosse assim, n�o prova nada contra a reencarna��o. Os melhores homens, n�s sabemos, aqueles que, ap�s uma seq��ncia de exist�ncias, atin-giram certo grau de perfei��o, prosseguem sua evolu��o em mundos mais avan�ados e voltam � Terra apenas excepcio-nalmente, na qualidade de mission�rios. Por outro lado, grande n�mero de esp�ritos, vindos de planos inferiores, juntam-se a cada dia � popula��o do globo. Como, nessas condi��es, estranhar que o n�vel moral se eleve muito pouco? Segunda obje��o: a doutrina das vidas sucessivas, ao se espalhar na humanidade, traz abusos inevit�veis. N�o acontece o mesmo com todas as coisas no seio de um mundo pouco avan-�ado, cuja tend�ncia � corromper, desnaturar os ensinamentos mais sublimes, acomod�-los a seus gostos, paix�es e interes-ses mesquinhos? Est� claro que o orgulho humano pode encontrar a� amplas satisfa��es e, com a colabora��o de esp�ritos zombeteiros ou da sugest�o autom�tica*, assiste-se, por vezes, �s revela��es * Sugest�o autom�tica: comunica��o an�mica, ou seja, do pr�prio m�dium que ele por vezes afirma ser de um esp�rito desencarnado (N.E.).?L�ON DENIS 102 mais c�micas. Do mesmo modo que muitas pessoas t�m a pre-tens�o de descender de uma ilustre linhagem, assim tamb�m, entre os esp�ritas, encontra-se muito crente vaidoso convencido de ter sido este ou aquele personagem c�lebre do passado. � Em nossos dias � diz F. Myers 40 � Anna Kingsford e Edward Maitland pretendiam ser nada menos do que a Virgem Maria e S�o Jo�o Batista.� Pessoalmente, conhe�o uma dezena de pessoas que afirmam ter sido Joana D�Arc. Seria algo infinito se fosse preciso enumerar todos os casos desse g�nero. Entretanto, h� casos em que � poss�-vel ser verdade. Mas como os distinguir dos erros? � preciso, em tais mat�rias, entregar-se a uma an�lise atenta e passar essas revela��es por uma cr�tica rigorosa; investigar primeiramente se nos-sa individualidade apresenta tra�os surpreendentes de semelhan�a com a pessoa designada; depois solicitar da parte dos esp�ritos reveladores provas de identidade no que diz respeito a essas personalidades do passado e a indica��o de detalhes e de fatos desconhecidos, cuja verifica��o seja poss�vel apurar. � bom lembrar que esses abusos, como tantos outros, n�o derivam da natureza da causa em quest�o, mas da inferioridade do meio em que acontecem. Esses abusos, frutos da ignor�ncia e de um falso julgamento, se atenuar�o e desaparecer�o com o tempo, gra�as a uma educa��o mais forte e mais pr�tica. * Uma �ltima dificuldade ainda resta: � a contradi��o aparente dos ensinamentos esp�ritas a respeito da reencarna��o. Nos pa�ses anglo-sax�es, por muito tempo as mensagens dos esp�-ritos n�o falavam dela; muitos at� mesmo a negavam, e isso serviu de principal argumento para os advers�rios do Espiritismo. J� respondemos em parte a essa obje��o. Dissemos que essa desigualdade se explicava pela necessidade em que se encontravam os esp�ritos de ser tolerantes, no in�cio, com os preconceitos religiosos muito arraigados em certos meios. Muitos pontos da doutrina foram propositadamente deixados de lado nos pa�ses protestantes, mais hostis em rela��o � reencarna��o, para serem divulgados com o tempo, no momento oportuno. De fato, depois desse per�odo de sil�ncio, vemos as afirma��es es-p�ritas em favor das vidas sucessivas aparecerem hoje nesses pa�ses com a mesma intensidade que nos pa�ses latinos. Alguns pontos dos ensinamentos foram esclarecidos aos poucos; n�o houve contradi��o. 40 � Personnalit� humaine.?O PROBLEMA DO DESTINO 103 A nega��o prov�m quase sempre de esp�ritos pouco avan�a-dos para saberem e poderem ler em si mesmos e distinguir o futuro que os espera. Sabemos que essas almas passam pela reencarna��o sem a preverem e, chegada a hora, s�o imersas na vida espiritual como em um sonho anest�sico. Os preconceitos de ra�a e de religi�o, que marcaram sobre a Terra uma influ�ncia consider�vel sobre esses esp�ritos, con-tinuam na outra vida. Enquanto a entidade elevada pode facil-mente se libertar deles ap�s a morte, os menos avan�ados permanecem muito tempo submissos a esses preconceitos. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, os preconceitos de cor e de ra�a, entre eles muito fortes, fizeram considerar a lei dos renascimentos de um aspecto totalmente diferente de como � vista no Velho Mundo, onde as velhas tradi��es orientais e c�lticas* haviam depositado o seu g�rmen em muitas almas. A quest�o parecia a princ�pio t�o chocante, provocava tanta repuls�o, que os esp�ritos dirigentes do movimento julgaram mais prudente tolerar. Deixaram, primeiramente, a id�ia se expandir nos meios mais bem preparados para, da�, ganhar os centros refrat�rios por caminhos diferentes, vis�veis e ocultos, e se infil-trarem lentamente neles, como est� ocorrendo agora. A educa��o protestante n�o deixa no pensamento dos cren-tes ortodoxos** nenhum lugar � no��o das vidas sucessivas. Segundo os seus princ�pios, ap�s a morte a alma � julgada e sua sorte fixada definitivamente, seja no para�so, seja no inferno. Para os cat�licos, existe um meio-termo: � o purgat�rio, meio impreci-so, n�o-localizado, onde a alma deve expiar suas faltas e se pu-rificar por meios incertos. Essa concep��o � meio caminho para as id�ias de renascimentos terrestres. O cat�lico pode assim ligar as antigas cren�as �s novas, enquanto o protestante orto-doxo se encontra na necessidade de fazer t�bua rasa*** e de edificar no seu entendimento doutrinas totalmente diferentes das que lhes foram ensinadas pela sua religi�o. Da� a hostilidade que o princ�pio das vidas sucessivas encontrou, no come�o, nos pa�ses anglo-sax�nicos adeptos do protestantismo; raz�o pela qual esses preconceitos persistem, mesmo depois da morte, para certa categoria de esp�ritos. * C�ltico: relativo aos celtas, povo indo-germ�nico que, sa�do do centro-sul da Europa, espalhou-se por parte da Espanha, It�lia, etc. (N.E.). ** Ortodoxo: nesse caso, aquele que cumpre fielmente as determina��es de uma dou-trina religiosa (N.E.). *** Fazer t�bua rasa: nesse caso, ignorar (N.E.).?L�ON DENIS 104 Vimos que, na atualidade, uma rea��o se produz pouco a pouco. A cren�a nas vidas sucessivas ganha a cada dia um pouco mais de terreno nos pa�ses protestantes, � medida que a id�ia de inferno perde toda a influ�ncia. Ela j� conta, na Inglaterra, nos Estados Unidos e em outros pa�ses, com in�meros seguidores. Os principais �rg�os esp�ritas desses pa�ses a adotaram ou pelo menos a discutem de maneira absolutamente justa. Os testemu-nhos dos esp�ritos em seu favor, t�o raros a princ�pio, hoje se multiplicam. Eis alguns exemplos: Uma importante obra foi publicada em Nova York em 1905, com o t�tulo The widow�s mite, na qual o princ�pio das reencarna-��es � aceito. O autor, senhor Funck, �, diz J. Colville, na Light, � um homem altamente conhecido e respeitado nos centros lite- r�rios americanos como o mais antigo associado da firma Funck e Wagnalls, que publicou o famoso Standard Dictionary , cuja autoridade � reconhecida em todos os lugares onde se fala a l�ngua inglesa.� Nessa obra, o autor exp�e primeiramente as condi��es de experimenta��o, que s�o rigorosas; depois, passa em revista as comunica��es do esp�rito mentor Amos. Este diz: � H� aqui um esp�rito luminoso que eu vos apresento esta noite. Ele vem vos ensinar a respeito da reencarna��o, que foi o objeto de uma de vossas quest�es. � um esp�rito muito elevado, que consideramos como um instrutor para n�s mesmos e vem a nosso pedido. V�s vos lembrais que as perguntas que haveis feito, em v�rias reuni�es, n�o tinham recebido uma resposta satisfa- t�ria. Lamento muito que o professor Hyslop esteja ausente, j� que fez v�rias perguntas a esse respeito, em outra ocasi�o.� Uma voz mais forte do que a anterior e muito diferente da outra toma assim a palavra: �Meus amigos, a reencarna��o � a lei do desenvolvimento do esp�rito no caminho de seu progresso, e todos devemos pro- gredir, lentamente, � verdade, com pausas mais ou menos pro- longadas, e esse crescimento leva longos s�culos.� Stainton Moses, ali�s, Oxon, professor da Universidade de Oxford, foi o m�dium ideal, pois era de uma grande cultura e de uma moralidade exemplar. Incentivador do movimento espiritua-lista na Inglaterra, recebeu e produziu a afirma��o das vidas sucessivas em seus ensinamentos espiritualistas: �A crian�a � foi-lhe dito � pode alcan�ar o amor e a ci�ncia apenas pela educa��o adquirida por uma nova vida terrestre. Uma tal experi�ncia � necess�ria e numerosos esp�ritos escolhem um retorno � Terra, a fim de ganhar o que lhes falta.�?O PROBLEMA DO DESTINO 105 F. Myers, em sua obra magistral Personnalit� humaine; sa survi- vance (edi��o inglesa), cap�tulo 10, exprime uma opini�o semelhante: �Nosso novo conhecimento em �psiquismo�, confirmando o pensamento antigo, confirma tamb�m, em rela��o ao cristianis- mo, os relatos das apari��es de Cristo depois da morte e nos faz entrever a possibilidade da reencarna��o benfazeja dos esp�ri- tos que j� atingiram um n�vel mais elevado do que o do homem.� Na p�gina 329: �A doutrina da reencarna��o n�o encerra nada que seja con- tr�rio � melhor raz�o e aos instintos mais elevados do homem. N�o �, decerto, f�cil estabelecer uma teoria firmando a cria��o direta de esp�ritos em fases de adiantamento t�o diversas quanto aquelas em que tais esp�ritos entram na vida terrena sob a forma de homens mortais; deve existir certa continuidade, certa forma de passado espiritual. Para o momento, n�o possu�mos nenhuma prova em favor da reencarna��o.� Myers n�o conhecia as experi�ncias recentes das quais falamos no cap�tulo 2; entretanto, ele ainda afirma: � a evolu��o gradual (das almas) tem numerosas etapas, �s quais � impos- s�vel assinalar um limite�. Mais recentemente, o livro Lettres du monde des esprits ( Car- tas do mundo dos esp�ritos), de Lord Carlingford, publicadas na Inglaterra, admitem a reencarna��o como uma conseq��ncia necess�ria da lei da evolu��o. A doutrina das vidas sucessivas, dizemos, nesse momento avan�a um pouco em todas as partes, do outro lado do Canal da Mancha. A� vemos um fil�sofo, como o professor Taggart, adot�-la de prefer�ncia �s outras doutrinas espiritualistas e declarar, como fez Hume antes dele, � que ela � a �nica que apre- senta argumentos razo�veis sobre a imortalidade�. Enfim, em seu discurso de abertura como presidente da So-ciedade para Pesquisa Ps�quica, o reverendo W. Boyd-Carpenter, bispo de Ripon, em 23 de maio de 1912, diante de um audit�rio numeroso e distinto, fez ressaltar a utilidade das pesquisas ps�-quicas para obter um conhecimento mais completo do eu huma-no e indicar com exatid�o as condi��es de sua evolu��o. �O inte-resse desse discurso � diz o Anais das Ci�ncias Ps�quicas de maio de 1912 � reside especialmente nisso: o ver-se a� um alto dignit�rio da Igreja Anglicana afirmar, como certos padres da Igreja Cat�lica, a preexist�ncia da alma, aderir � teoria da evolu��o e das exist�ncias m�ltiplas�.?L�ON DENIS 106 AS VIDAS SUCESSIVAS. � PROVAS HIST�RICAS 5 Nosso estudo seria incompleto se n�o d�ssemos uma r�pi-da olhada para o papel que representou na Hist�ria a cren�a nas vidas sucessivas. Essa doutrina domina toda a Antiguidade. Vamos encontr�-la no cora��o das grandes religi�es do Oriente e nas obras filos�ficas mais puras e elevadas. Ela guiou em sua marcha civiliza��es do passado e se eternizou de tempos em tempos. Apesar das perse-gui��es e trevas tempor�rias, reapareceu e persiste no decorrer dos s�culos em todos os pa�ses. Origin�ria da �ndia, expandiu-se para o mundo. Muito antes de terem aparecido os grandes reveladores* dos tempos hist�ri-cos, era formulada nos Vedas** e claramente no Bhagavad-Gita***. O bramanismo e o budismo se inspiraram nela e, ainda hoje, mi-lh�es de asi�ticos � o dobro ou mais do que representam todas as associa��es crist�s reunidas � acreditam na pluralidade das exist�ncias. O Jap�o nos mostrou, h� pouco, o que tais cren�as podem fazer por um povo. A magn�fica coragem, o esp�rito de sacrif�cio que os japoneses mostram em face da morte, sua indiferen�a diante da dor, todas essas qualidades superiores que fizeram a admira��o do mundo em circunst�ncias memor�veis, n�o tive-ram outra causa. Ap�s a batalha de Tsushima, diz-nos o Journal, numa cena de melancolia grandiosa, diante do ex�rcito reunido no cemit�rio de Aoyama, em T�quio, o almirante Togo falou em nome da * Os grandes reveladores: veja o O Livro dos Esp�ritos, quest�o 628 (N.E.). ** Vedas: livros sagrados para os hindus (N.E.). *** Bhagavad-Gita: poema sagrado para as religi�es da �ndia (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 107 na��o e dirigiu-se aos mortos em termos pat�ticos. Pediu �s almas desses her�is que � protegessem a marinha japonesa, que freq�en- tassem os navios e que reencarnassem em novas equipagens 41 �. Se, com o professor Izoulet, comentando no Col�gio de Fran�a a obra do autor americano A. Mahan sobre o Extremo Oriente, admi-tirmos que a verdadeira civiliza��o est� no ideal espiritual e que, sem ele, os povos caem na corrup��o e na decad�ncia, ser� pre-ciso reconhec�-lo bem: o Jap�o est� destinado a um grande futuro. Voltemos � Antiguidade. O Egito e a Gr�cia adotaram essa mesma doutrina. Sob um simbolismo mais ou menos obs-curo, esconde-se por toda parte a palin-genesia*. A antiga cren�a dos eg�pcios nos � revelada pelas inscri��es dos monumen-tos e pelos livros de Hermes: � Tomada na origem � diz-nos o senhor M. de Vog�� � a doutrina eg�pcia nos apresenta a viagem �s terras divinas como uma s�rie de provas, ao sair das quais se opera a ascens�o na luz�. Mas o conhecimento das leis profundas do destino era reservado apenas aos iniciados. Em seu livro recen-te, La vie e la mort (A vida e a morte), A. Dastre se exprime assim 42 : �No Egito, a doutrina das transmigra��es** era representada por imagens sagradas surpreendentes. Cada ser tinha o seu duplo. Ao nascer, o eg�pcio � representado por duas figuras. Durante a vig�lia, as duas individualidades se confundem em uma �nica; mas durante o sono, enquanto um repousa e repara os �rg�os, o outro se lan�a no mundo dos sonhos. Todavia, essa separa��o n�o � completa; ela o ser� apenas ap�s a morte ou, antes, a separa��o completa � que ser� a pr�pria morte. Mais tarde, esse duplo ativo poder� vir vivificar um outro corpo terrestre e realizar assim uma nova exist�ncia semelhante.� Na Gr�cia, encontramos a doutrina das vidas sucessivas nos poemas �rficos. Era a cren�a de S�crates, de Plat�o, de Pit�goras, de Apol�nio*** e de Emp�docles. Sob o nome de 41 � Ver o Journal de 12 de dezembro de 1907, artigo do senhor Ludovic Naudeau, testemunha da cerim�nia. Ver tamb�m Yamato Damachi ou a L�ame japonaise (A alma japonesa) e o livro do professor americano Hearn, matriculado em uma universidade japonesa: Kakoro ou l�id�e de la pr�existence (Kakoro ou a id�ia da preexist�ncia). * Palingenesia: teoria dos renascimentos sucessivos ensinada por fil�sofos gregos e por religi�es orientais muito antes da era crist� (N.E.). 42 � Cita��o de P. C. Revel, Le hasard, sa loi et ses cons�quences (O acaso, sua lei e suas conseq��ncias). ** Transmigra��o: passagem da alma de um corpo para outro (N.E.). *** Pit�goras e Apol�nio: s�bios e fil�sofos gregos anteriores ao Cristianismo (N.E.). S�crates e Plat�o: fil�sofos gregos precursores da doutrina crist� e do Espiritismo. Veja em O Evangelho Segundo o Espiritismo, Introdu��o. Plat�o S�crates?L�ON DENIS 108 metempsicose 43 , falam delas muitas vezes em suas obras, em termos ocultos, pois eram ligados pelo juramento inici�tico. Entre-tanto, a afirma��o � precisa no �ltimo livro de A Rep�blica, em Fedra, em Timeu e em F�don: � � certo que os vivos nascem dos mortos, que as almas dos mortos voltam a nascer.� ( Fedra) � A alma � mais velha que o corpo. As almas renascem sem parar do Hades*, para voltar � vida atual.� ( F�don) A reencarna��o era celebrada no Egito nos mist�rios de �sis, e na Gr�cia, nos de El�usis, sob o nome de mist�rio de Pers�fone, e somente os iniciados** participavam das cerim�nias. O mito de Pers�fone era a representa��o dram�tica dos renascimentos, a hist�ria da alma humana; passado, presente e futuro, sua descida � mat�ria, seu cativeiro em corpos perec�-veis, sua reascens�o por etapas sucessivas. As festas eleusianas duravam tr�s dias e traduziam, em uma trilogia comovente, as altern�ncias da vida dupla, terrestre e celeste. Ao termo das ini-cia��es solenes, os adeptos eram sagrados 44 . Quase todos os grandes homens da Gr�cia foram iniciados, adoradores fervorosos da grande deusa. � dos seus ensina-mentos secretos que tirar�o a inspira��o do g�nio, as formas sublimes da arte e os preceitos da divina sabedoria. Quanto ao povo, eram-lhe apenas apresentados s�mbolos. Mas, sob a trans-par�ncia dos mitos, a verdade inici�tica aparecia, do mesmo modo que a seiva da vida se revela sob a casca da �rvore. A grande doutrina era conhecida do mundo romano. Ov�dio, Virg�lio, C�cero, em suas obras imortais, fazem freq�entes alus�es a isso. Virg�lio, em Eneida, assegura que a alma, ao mergulhar no Lete, perde a lembran�a de suas exist�ncias passadas. 43 � Metempsicose: doutrina segundo a qual a mesma alma pode animar, em vidas sucessivas, corpos diversos: vegetais, animais ou homens. O povo n�o pode ver hoje na metempsicose mais do que a passagem da alma humana no corpo de seres inferiores. Na �ndia, no Egito e na Gr�cia ela era considerada de um modo mais geral, como a transmigra��o das almas em outros corpos humanos. Somos levados a acreditar que a descida da alma em um corpo inferior � humanidade n�o era, como a id�ia de inferno no catolicismo, mais do que um espantalho destinado, no pensamento dos antigos, a espantar os maus. Toda retrograda��o dessa esp�cie ser� contr�ria � justi�a, � l�-gica, � verdade. �, ali�s, imposs�vel, pelo fato de que o desenvolvimento do organismo flu�dico ou perisp�rito n�o permitiria mais ao ser humano se adaptar �s condi��es da vida animal (N.E.). * Hades: resid�ncia dos mortos. O inferno da mitologia grega (N.E.). ** Iniciado: indiv�duo admitido h� pouco tempo em uma seita (N.E.). 44 � Ver Sanctuaires d�Orient (Santu�rios do Oriente), Ed. Schur�.?O PROBLEMA DO DESTINO 109 A escola de Alexandria deu-lhe um brilho vivo, pelas obras de Filo, Plotino, Am�nio Sacchas, Porf�rio, J�mblico, etc. Plotino diz a respeito dos deuses: � Eles asseguram a cada um o corpo que lhe conv�m e que est� em harmonia com seus antecedentes, segundo suas exist�ncias sucessivas.� Os livros sagrados dos Hebreus: o Zohar, a Cabala, o Talmude afirmam igualmente a preexist�ncia e, sob o nome de ressurrei-��o, a reencarna��o era tamb�m a cren�a dos fariseus e dos ess�nios 45 . O Antigo e o Novo Testamento, por entre textos dif�-ceis de interpretar e alterados, trazem ainda tra�os numerosos, por exemplo, em algumas passagens de Jeremias e de J�, depois no caso de Jo�o Batista, que foi Elias, no do cego de nascen�a e na conversa��o particular de Jesus com Nicodemos. L�-se em Mateus 46 : � Eu vos digo em verdade, entre os filhos das mulheres, n�o h� nenhum maior do que Jo�o Batista. (...) E se quereis ouvir, � mesmo Elias que deve vir. Aquele que tem ouvidos para ouvir, ou�a .� Um outro dia, os disc�pulos do Cristo o interrogam dizendo 47 : �Por que os Escribas dizem �que � preciso primeiramente que Elias venha?� Jesus respondeu-lhes: �� verdade que Elias deve vir primeiramente e restabelecer todas as coisas; mas eu vos digo que Elias j� veio, mas eles n�o o reconheceram e fizeram-lhe o que quiseram�.� Ent�o os disc�pulos compreenderam que era de Jo�o Batista de quem ele falava. Um dia Jesus perguntou a seus disc�pulos o que dizia dele o povo. Esses respondem: � Uns dizem que �s Jo�o Batista; outros Jeremias, ou alguns dos antigos profetas que voltou ao mundo.� Jesus, antes de dissuadi-los, como se tivessem falado coisas imagin�rias, contentou-se em acrescentar: � E v�s, quem credes que sou eu?�* Quando encontrou o cego de nascen�a, seus disc�-pulos lhe perguntaram se aquele homem nasceu cego por causa dos pecados de seus pais ou dos pecados que cometeu antes de nascer.** Eles acreditavam na possibilidade da reencarna��o e na poss�vel exist�ncia da alma antes do nascimento. Sua lingua-gem nos leva mesmo a crer que essa id�ia estava divulgada entre o povo, e Jesus parece autoriz�-la, em vez de combat�-la. 45 � L�-se no Zohar, cap�tulo 2: �Todas as almas est�o sujeitas � revolu��o (metempsicose), mas os homens n�o conhecem os caminhos de Deus, o que � bom�. Jos� (Antiq. 18, par�grafo 3) diz que o virtuoso ter� o poder de ressuscitar e de viver novamente. 46 � Mateus, cap�tulo 11:11, 14 e 15. 47 � Mateus, cap�tulo 17:10 a 13. * Mateus, cap�tulo 16:14 e 15 (N.E.). ** Jo�o, cap�tulo 9:2 (N.E.).?L�ON DENIS 110 Ele fala de numerosas moradas de que se comp�e a casa do Pai, e Or�genes, comentando essas palavras, acrescenta: � O Senhor cita as diferentes esta��es que as almas devem ocupar, depois que se desprenderam de seus corpos atuais e se revestirem de outros.� O Cristianismo primitivo possu�a o verdadeiro sentido do destino. Mas com as sutilezas da teologia bizantina, o sentido oculto desapareceu pouco a pouco; a virtude secreta dos ritos inici�ticos desvaneceu-se como um perfume sutil. A escol�stica* abafou a primeira revela��o sob o peso dos silogismos** ou ar-ruinou- a com sua argumenta��o enganosa. Entretanto, os primeiros padres da Igreja e, entre outros, Or�genes e S�o Clemente de Alexandria, pronunciaram-se em favor da transmigra��o das almas. S�o Jer�nimo e Ruffinus ( Carta a Anast�cio) afirmam que ela era ensinada como verdade tradi-cional a certo n�mero de iniciados. Em sua mais importante obra, Dos princ�pios, livro I, Or�genes passa em revista os numerosos argumentos que mostram, na exist�ncia anterior ao nascimento e na sobreviv�ncia ap�s a morte das almas em outros corpos, o corretivo necess�rio � desi-gualdade das condi��es humanas. Ele se pergunta qual � o total das etapas percorridas por sua alma nas peregrina��es no infinito, quais os progressos realizados em cada uma de suas esta��es, as circunst�ncias dessa imensa viagem e a natureza particular de suas resid�ncias. S�o Greg�rio de Nysse disse � que h� necessidade natural para a alma imortal de ser curada e purificada, e que, se n�o o foi em sua vida terrestre, a cura se opera pela vida futura e nas seguintes�. Contudo, essa alta doutrina n�o podia conciliar-se com certos dogmas e artigos de f�, armas poderosas para a Igreja, tais como a predestina��o, os castigos eternos e o ju�zo final. Com ela, o Catolicismo teria dado lugar mais amplo � liberdade do esp�rito humano, chamado em suas vidas sucessivas a se elevar por seus pr�prios esfor�os e n�o somente por uma gra�a do �alto�. Por isso, a condena��o das opini�es de Or�genes e das teorias gn�sticas*** pelo Conc�lio de Constantinopla, em 553, * Escol�stica: filosofia religiosa da Igreja Romana baseada em Arist�teles e Tom�s de Aquino (N.E.). ** Silogismo: dedu��o que se tira de uma proposi��o que, habilmente conduzida, leva a uma conclus�o filos�fica. Nesse caso, conclus�o falsa, enganadora, impostura, falsida-de (N.E.). *** Gn�stico: que segue os ensinamentos da gnose. Gnose quer dizer busca interior ou autoconhecimento e tem suas origens nas antigas religi�es orientais e nos fil�sofos gregos, especialmente em S�crates e Plat�o (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 111 foi um ato repleto de conseq��ncias prejudiciais. Ela trouxe o descr�dito e a repulsa ao princ�pio das reencarna��es. Ent�o, v�-se edificar, em vez de um conceito simples e claro do destino, compreens�vel �s mais humildes intelig�ncias, unindo a Justi�a Divina com a desigualdade das condi��es e dos sofrimento huma-nos, todo um conjunto de dogmas que lan�aram o esquecimento sobre o problema da vida, revoltaram a raz�o e, finalmente, afas-taram o homem de Deus. A doutrina das vidas sucessivas reaparece ainda em diferen-tes �pocas, no mundo crist�o, sob a forma das grandes heresias* e das escolas secretas, mas foi muitas vezes afogada no sangue ou sufocada sob a cinza das fogueiras. Na Idade M�dia, ela se apaga quase inteiramente e deixa de influenciar o desenvolvimento do pensamento ocidental, causan-do- lhe assim grande dano. Da� os erros e a confus�o dessa �poca sombria, o fanatismo mesquinho, a persegui��o cruel, as trevas do esp�rito humano. Uma esp�cie de noite intelectual se fez sobre a Europa. No entanto, de tempos em tempos, como um rel�mpago, o grande pensamento ilumina ainda, por inspira��o do �alto�, algu-mas belas almas intuitivas. Continua a ser, para os pensadores da elite, a �nica explica��o poss�vel do que se tornou para a massa o profundo mist�rio da vida. N�o somente os trovadores, em seus poemas e suas can-��es, faziam-lhe discretas men��es, mas poderosos esp�ritos, como Boaventura e Dante Alighieri, mencionaram essa doutrina de um modo formal. Ozanam, escritor cat�lico, reconhece que o plano da Divina com�dia segue muito de perto as grandes linhas de inicia��o antiga, baseadas, como j� vimos, na pluralidade das exist�ncias. O cardeal Nicolas de Cusa sustentou, em pleno Vaticano, a teoria da pluralidade das vidas e dos mundos habita-dos, com a aprova��o do Papa Eug�nio IV**. Thomas Moore, Paracelso, Jacob Boehme, Giordano Bruno e Campanella afirmaram ou ensinaram essa grande doutrina, muitas vezes com seu pr�prio sacrif�cio. Van Helmont, em De revolutione animarum, exp�e, em 200 problemas, todos os argu-mentos em favor da reencarna��o das almas. N�o s�o essas altas intelig�ncias compar�veis aos cumes das montanhas, aos cimos gelados dos Alpes, que s�o os primeiros a receber as luzes do dia, a refletir as luzes do sol, e que os con-servam ainda quando o resto da Terra j� est� imerso nas trevas? * Heresia: doutrina contr�ria ao que foi definido pela Igreja em mat�ria de f� (N.E.). ** Eug�nio IV: exerceu o papado entre 1431 e 1447 (N.E.).?L�ON DENIS 112 O pr�prio Islamismo, especialmente no Alcor�o*, d� lugar importante �s id�ias dos renascimentos sucessivos 48 . A filosofia, nos �ltimos s�culos, enriqueceu-se com elas. Cudworth e Hume as consideram como a teoria mais racional da imortalidade. Em Lessing, Herder, Hegel, Schelling, Fichte � o jovem � elas s�o discutidas com eleva��o. Mazzini, apostofrando os bispos em sua obra Dal concilio a Dio, diz: � Acreditamos em uma s�rie indefinida de reencarna��es da alma, de vida em vida, de mundo em mundo, em que cada uma constitui um progresso sobre a anterior; podemos recome�ar o est�gio percorrido quando merecemos passar a um n�vel supe- rior; mas n�o podemos nem recuar nem morrer espiritualmente.� * Reportemo-nos agora �s origens de nossa ra�a c�ltica e veremos a id�ia das vidas sucessivas pairar sobre a terra das G�lias: ela vibra nos cantos dos bardos**; sussurra na grande voz da floresta: � Agitei-me em cem mundos, vivi em cem c�rculos�. (Canto b�rdico: Barddas cad Goddeu.) � a tradi��o nacional por excel�ncia; ela inspirava em nossos pais o desprezo pela morte, o hero�smo nos combates. Deve ser amada por todos os que se sentem ligados pelo cora��o ou pelo sangue a essa ra�a c�ltica, m�vel, entusiasta, generosa, apaixo-nada pela justi�a, sempre pronta a lutar pelas grandes causas. Nos combates contra os romanos � diz d�Arbois de Jubainville, professor do Col�gio de Fran�a � os druidas*** permaneciam im�veis como est�tuas, recebendo ferimentos sem fugir nem se defender. Eles sabiam que eram imortais e pensavam achar em outra parte do mundo um corpo novo e sempre jovem 49 . Os druidas n�o eram somente homens bravos, eram tam-b�m profundos s�bios 50 . Seu culto era o da natureza sob ramos sombrios dos carvalhos ou sobre rochedos batidos pelas tem-pestades. As Tr�ades proclamam a evolu��o das almas, partidas de anoufn, o abismo, subindo vagarosamente a longa espiral das * Alcor�o: livro sagrado do islamismo, religi�o cujos adeptos seguem os ensinamentos do profeta Maom� (N.E.). 48 � Ver Surate 2, vers�culo 26 do Alcor�o; Surate 7, vers�culo 55; Surate 17, vers�culo 52; Surate 14, vers�culo 25. ** Bardo: poeta her�ico entre os celtas e g�lios (N.E.). *** Druida: antigo sacerdote dos povos gauleses e bret�es (N.E.). 49 � Ver T�cito; Ab excessu Augusti, livro 14. 50 � Commentaires de la guerre des Gaules (Coment�rios da guerra da G�lia), livro 6, cap�tulo 19, Ed. Lemerre, 1919.?O PROBLEMA DO DESTINO 113 exist�ncias ( abred) para chegarem, depois de muitas mortes e renascimentos, a gwynfyd, o c�rculo da felicidade. As Tr�ades s�o o maravilhoso monumento que nos resta da antiga sabedoria dos bardos e dos druidas; abrem perspectivas sem limites � vista admirada do investigador. Citaremos apenas tr�s, as que se referem mais diretamente ao nosso assunto, As Tr�ades 19, 21 e 36 51 : 19. � Tr�s condi��es indispens�veis para chegar � plenitude (ci�ncia e virtude): transmigrar em abred , transmigrar em gwynfyd e recordar-se de todas as coisas passadas no anoufn.� 21. � Tr�s modos eficazes de Deus, em abred (c�rculos dos mundos planet�rios), para dominar o mal e vencer sua oposi��o em rela��o ao c�rculo de gwynfyd (c�rculo dos mundos felizes): a necessidade, a perda da mem�ria e a morte.� 36. � Os tr�s poderes (fundamentos) da ci�ncia e da sabedo- ria: a transmigra��o completa por todos os estados dos seres; a lembran�a de cada transmigra��o e de seus incidentes; o poder de passar � vontade novamente por um estado qualquer em vis- ta da experi�ncia e do julgamento. E isso ser� obtido no c�rculo de gwynfyd.� Alguns autores entenderam, de acordo com os textos b�rdi-cos, que as vidas seguintes da alma continuavam exclusivamente nos outros mundos. Eis dois casos que demonstram que os gauleses admitiam tamb�m a reencarna��o. N�s os extra�mos do Cours de litt�rature celtique, do senhor De Jubainville 52 : Find MacCumail, o c�lebre her�i irland�s, renasce em Morgan, filho de Fiachna, rainha de Ulster, em 603, e, mais tarde, sucede-lhe. Os Annales de Tigernach ( Anais de Tigernach) fixam a morte de Find no ano de 273 de nossa era, na batalha de Athbrea. � Um segundo nascimento � diz De Jubainville � d�-lhe uma vida nova e um trono na Irlanda.� Os celtas praticavam tamb�m a evoca��o dos mortos. Houve uma pol�mica entre Mongan e Forgoll a respeito da morte do rei Folhad, da qual Mongan fora testemunha ocular, e do lugar onde esse rei tinha perdido a vida: � Ele evocou � diz o mesmo autor � do reino dos mortos Cailt�, seu companheiro de combates. No terceiro dia, o testemunho de Cailt� fornece a prova de que Mongan tinha dito a verdade.� 51 � As Tr�ades. Publicadas por Ed. Williams, conforme o original gaul�s e a tradu��o de Edward Darydd. Ver Gatien Arnoult, Philosophie Gauloise (Filosofia Gaulesa). 52 � Tomo I. Ver tamb�m H. d�Arbois de Jubainville, Les druides et les dieux celtiques (Os druidas e os deuses celtas); Livre de Leinster (Livro de Leinster); Anais de Tigernach, publicados por Whitley Stokes; Revue Celtique; Annales des quatre ma�tres (Anais de quatro mestres), Ed. O. Donovan, tomo 1.?L�ON DENIS 114 O outro fato de reencarna��o remonta a uma �poca mais antiga. Algum tempo antes de nossa era, Aeochaid Airem, rei supremo da Irlanda, tinha desposado Et�in, filha de Etar. Et�in j� havia nascido em pa�s celta muitos s�culos antes. Nessa vida anterior, tinha sido filha de Aillil e esposa de Mider, divinizado depois de morto por suas fa�anhas. � prov�vel que se encontrassem na hist�ria dos tempos c�lticos numerosos casos de reencarna��o; mas, como se sabe, os druidas nada confiavam � escrita e se contentavam com o ensinamento oral. Os documentos relativos � sua ci�ncia e � sua filosofia s�o raros e de data relativamente recente. A doutrina c�ltica, ap�s s�culos no esquecimento, reapareceu na Fran�a moderna. Ela foi reconstitu�da ou sustentada por todo um grupo de brilhantes escritores: Charles Bonnet, Dupont de Nemours, Ballanche, Jean Reynaud, Henri Martin, Pierre Leroux, Fourier, Esquiros, Michelet, Victor Hugo, Flammarion, Pezzani, Fauvety, Strada, etc. �Nascer, morrer, renascer e progredir sempre, essa � a lei�, dis-se Allan Kardec. Gra�as a ele e � escola esp�rita da qual � o funda-dor, a cren�a nas vidas sucessivas da alma se popularizou, se espa-lhou em todo o Ocidente, e conta hoje com milh�es de seguidores. O testemunho dos esp�ritos veio lhe dar uma comprova��o definitiva. � exce��o de algumas almas pouco evolu�das para quem o passa-do ainda est� envolvido de trevas, todos, nas mensagens, afirmam a pluralidade das exist�ncias e o progresso indefinido dos seres. A vida terrestre, dizem eles, basicamente � um treino, uma prepara��o � vida eterna. Limitada a uma �nica exist�ncia, em sua curta dura��o n�o poderia corresponder a plano t�o amplo. As reencarna��es s�o as etapas do caminho que todas as almas percorrem em sua evolu��o; � a escala misteriosa que, das re-gi�es misteriosas, por todos os mundos da forma, nos conduz ao reino da luz. Nossas exist�ncias se desenrolam no decorrer dos s�culos; elas passam, se sucedem e se renovam. Em cada uma delas, purificamo-nos um pouco do mal que est� em n�s. Lentamente, avan�amos, penetramos mais adiante no caminho sagrado, at� que tenhamos adquirido os m�ritos que nos abrir�o o acesso aos c�rculos superiores, de onde se irradiam eterna-mente a beleza, a sabedoria, a verdade e o amor. * O estudo atento da hist�ria dos povos n�o nos mostra so-mente o car�ter universal da doutrina das vidas sucessivas, mas ainda nos permite perceber o encadeamento grandioso das causas e dos efeitos que se reproduzem, atrav�s dos tempos, na ordem social. Vemos nela que esses efeitos renascem de si mesmos?O PROBLEMA DO DESTINO 115 e retornam � causa que os gerou; com-prometem os indiv�duos e as na��es na rede de uma lei justa e implac�vel. Nesse aspecto, as li��es do pas-sado s�o surpreendentes. O testemu-nho dos s�culos � assinalado por um car�ter majestoso que impressiona o ho-mem mais indiferente; ele nos demons-tra a irresist�vel for�a do direito. Todo o mal praticado, o sangue e as l�grimas derramadas recaem cedo ou tarde, fatal-mente, sobre seus autores: indiv�duos ou coletividades. Os mesmos fatos criminosos, os mesmos erros acarretam as mesmas conseq��ncias tr�gicas. Enquanto os homens teimam em agredir uns aos outros, a se oprimir, a se dila-cerar, as obras de sangue e luto pros-seguem e a humanidade sofre no mais profundo de suas entranhas. H� expia-��es coletivas, como h� repara��es in-dividuais. Atrav�s dos tempos, uma jus-ti�a natural e soberana se exerce; faz desabrocharem os elementos de decad�ncia e de destrui��o, os germes da morte, que as na��es semeiam em seu pr�prio seio cada vez que desrespeitam as leis superiores. Se lan�armos nossos olhares sobre a Hist�ria, veremos que a juventude da humanidade, como a do indiv�duo, tem seus per�odos de problemas, de loucuras, de experi�ncias dolorosas. Nas suas p�ginas desfila o cortejo de mis�rias conseq�entes. As quedas pro-fundas se alteram com as eleva��es, os triunfos, com as derrotas. Civiliza��es primitivas assinalam as primeiras idades. Os maiores imp�rios desmoronam uns ap�s outros ao choque das paix�es. O Egito, N�nive, Babil�nia, o imp�rio dos Persas ca�ram. Roma e Biz�ncio, ro�das pela corrup��o, baquearam ante a inva-s�o dos b�rbaros. Ap�s a Guerra dos Cem Anos e o supl�cio de Joana D�Arc, a Inglaterra foi a�oitada por uma terr�vel guerra civil, a das Duas Rosas, entre os York e os Lancaster, que a conduz a dois passos do abismo. O que � feito da Espanha, respons�vel por tantos supl�cios e degola��es, a Espanha com seus conquistadores e seu Santo Of�-cio? Onde est� hoje o vasto imp�rio no qual o sol jamais se punha? Vede os Habsburgo, herdeiros do Santo Imp�rio e, talvez, reencarna��es dos algozes dos hussitas! A casa de �ustria foi Hussitas: seguidores da doutrina de Jan Hus ou Jo�o Huss (foto) � 1369- 1415, reitor da Universidade de Praga (Tchecoslov�quia). Excomungado pelo papa Alexandre V, foi queimado vivo em pra�a p�blica por senten�a do conc�lio de Constan�a. Apesar disso, Jo�o Huss � considerado her�i de sua p�tria. A Igreja armou os nobres em v�rias cruzadas e deu-lhes implac�vel persegui��o, acabando por aniquilar barbaramente os hussitas em lutas que duraram at� 1471. As id�ias de Jo�o Huss e de seu seguidor e disc�pulo Jer�nimo de Praga, igualmente condenado � fogueira, s�o o estopim do grande movimento que culmina com a luta de Martinho Lutero contra a Igreja Romana, a Reforma Protestante.?L�ON DENIS 116 * Maurice Maeterlinck (1862�1949): fil�sofo, escritor e dramaturgo belga, pr�mio Nobel de literatura de 1913 (N.E.). 53 � Maeterlinck. Le temple enseveli (O templo oculto). ** Ducado: territ�rio que faz parte do dom�nio de um duque (N.E.). ferida em todos os seus membros: Maximiliano foi fuzilado, Rodolfo caiu em meio a uma orgia; a imperatriz Elisabeth foi as-sassinada; depois chegou a vez de Fran�ois Ferdinand. O velho imperador, com os cabelos brancos, fica sozinho em meio aos restos de sua fam�lia, e, finalmente com a guerra, � a desfeita, a ru�na e a desloca��o completa de seus Estados. Onde est�o hoje todos esses imp�rios fundados a ferro e fogo, dos Califas, Mong�is, Carlov�ngios, o de Carlos V? Napole�o disse: � Tudo se paga!� E ele mesmo pagou. A Fran�a pagou com ele. O imp�rio de Napole�o passou como um meteoro! Detenhamo-nos um instante sobre esse prodigioso destino que, depois de haver lan�ado, em sua trajet�ria pelo mundo, um brilho fulgurante, foi se apagar miseravelmente num rochedo do Atl�ntico, na ilha de Santa Helena, onde ficou prisioneiro. � a vida dele, bem conhecida de todos, e, por conseguinte, melhor que qual-quer outra, que deve servir de exemplo. Assim como disse Maeterlinck*, pode-se constatar uma coisa sobre isso: s�o as tr�s maiores crueldades cometidas por Napole�o que lan�aram as tr�s causas principais de sua queda: � Primeiramente, foi o assassinato do duque de Enghien, conde- nado por sua ordem, sem julgamento e sem provas, e executado nos fossos de Vincennes: assassinato que espalhou ao redor do ditador �dios da� em diante implac�veis e um desejo de vingan�a que n�o acabou mais. Em seguida foi a odiosa cilada de Bayonne, em que atraiu por baixas intrigas, para despoj�-los de sua coroa heredit�ria, os bonach�es e muito confiantes Bourbons de Espa- nha. A horr�vel guerra que se seguiu tragou, al�m dos 300 mil homens, toda a energia, toda a moralidade, a maior parte do pres- t�gio, quase todas as certezas, quase todas as garantias e todos os destinos felizes do Imp�rio. E, por fim, a pavorosa e indesculp�- vel campanha da R�ssia, que selou definitivamente a sua sorte com o desastre nos gelos de Berezina e nas neves da Pol�nia 53 .� A hist�ria diplom�tica da Europa, nos �ltimos 50 anos, n�o escapa a essas regras. Os autores das injusti�as e das cruelda-des t�m sido castigados, como por uma m�o invis�vel. A R�ssia, depois de dominar a Pol�nia, prestou seu apoio moral � Pr�ssia para a invas�o dos ducados** dinamarqueses, � um dos maiores crimes de pirataria � diz um historiador � cometidos?O PROBLEMA DO DESTINO 117 nos tempos modernos�. Foi punida por causa disso primeiramente pela pr�pria Pr�ssia que, em 1877, no Congresso de Berlim, anu-lava todas as vantagens obtidas sobre a Turquia; depois, mais cruelmente ainda, pelos insucessos da guerra de Manch�ria e sua repercuss�o prolongada em todo o imp�rio dos czares*, que por fim veio dar lugar � revolu��o sangrenta e ao caos bolchevista. No decorrer dos �ltimos s�culos, a Inglaterra perseguiu mui-tas vezes uma pol�tica fria e ego�sta. Depois da Guerra de Transvaal, v�-se mais enfraquecida, aproximando-se talvez dos tempos previstos, em termos impressionantes, pelo senhor Robert: � A habilidade de nossos homens de Estado os imortali- zar�, se suavizarem para n�s essa descida, de modo a evitar que se transforme numa queda, se a conduzirem de modo a fa- zer parecer-se com a Holanda e n�o com Cartago e Veneza.� O destacamento da Irlanda, do Egito, a revolta dos Indianos vieram a confirmar essas previs�es. Tal ser� o destino de todas as na��es que foram grandes por seus fil�sofos e pensadores e que tiveram a fraqueza de p�r seu destino nas m�os de pol�ticos muito �vidos. N�o insistimos sobre esses fatos. N�o vimos desenvolver-se sob nossos olhos, de 1914 a 1918**, o drama imenso, o drama vingador que deixou a Alemanha vencida, punida por seu orgu-lho e por seus crimes? Ao mesmo tempo, � preciso reconhecer que a Fran�a recebia uma li��o terr�vel, talvez por causa da leviandade, imprevid�ncia e sensualismo de um grande n�mero de seus filhos; mas, com a vit�ria, encontrava o seu prest�gio no mundo. Assim se afirmava uma vez mais a grande miss�o, o papel providencial que lhe parece destinado e que consiste em proclamar e defender, de todas as formas, pelo verbo e pela espada, o direito, a verda-de, a justi�a! A Alemanha e a �ustria, aventuradas num pacto e numa cum-plicidade ferozes, tinham sonhado com o dom�nio da Europa e do mundo: uma sobre o Oriente e a outra sobre o Ocidente. Na persegui��o desse objetivo, calcaram os p�s nos empenhos mais solenes, por exemplo, para com a B�lgica; n�o recuaram diante dos crimes mais odiosos. Qual foi o resultado? Ap�s quatro anos de luta encarni�ada, os imp�rios centrais rolaram no abismo. * Czar: t�tulo que se dava ao imperador da R�ssia e aos antigos soberanos s�rvios e h�ngaros (N.E.). ** De 1914 a 1918: foi o per�odo da Primeira Guerra Mundial (N.E.).?L�ON DENIS 118 A �ustria � apenas um fantasma de na��o, a Alemanha diminuiu, arruinada, presa �s lutas internas e a todos os males econ�micos. N�o � a repercuss�o dos acontecimentos de 1870 a 1871? Por sua vez, os alem�es tiveram que conhecer a derrota e a anarquia. Talvez, em nenhuma outra guerra, a luta de dois princ�pios ficou t�o evidente. De um lado, a for�a brutal, do outro, o direito e a liberdade. E o que prova que Deus n�o se desinteressou pelo destino de nosso pequeno globo � que o direito venceu! Pode-se dizer que, como os gregos em Maratona e em Salamina, os sol-dados de Marne e de Verdun, sustentados por esses poderes invi-s�veis, preservaram a humanidade do dom�nio da espada e sal-varam a civiliza��o 54 . Este ser� o justo julgamento da Hist�ria! Sim, a Hist�ria � um grande ensinamento. Podemos ler em suas profundezas a a��o de uma lei poderosa. Na sucess�o dos acontecimentos, por vezes, sentimos passar como um vento sobre-humano; no meio da noite dos s�culos, por instantes, ve-mos luzir como brilhos as radia��es de um pensamento eterno. Para os povos, como para os indiv�duos, h� uma justi�a. Para os povos, vemo-la se manifestar no encadeamento dos fatos. Para o indiv�duo, n�o acontece o mesmo. Nem sempre se pode seguir sua marcha, principalmente quando sua a��o, em vez de ser imediata, se exerce apenas a longo prazo. A reencarna��o, a descida � carne, a sombra do capuz da mat�ria que se abate sobre a alma e faz o esquecimento, escondem-nos a sucess�o dos efeitos e das causas. Mas, como j� vimos, particularmente nos fen�menos de transe, desde que podemos levantar o v�u estendido sobre o passado e ler o que est� gravado no fundo do ser humano, ent�o, no sofrimento que o atinge, nas grandes dores, nos reveses, nas afli��es que ferem, somos constrangidos a reconhecer a a��o de uma causa anterior, de uma causa moral, e de nos inclinar diante da majestade das leis que presidem os destinos das almas, das sociedades e dos mundos! * O plano da Hist�ria se desenvolve em suas linhas formid�veis: Deus envia � humanidade seus messias, seus reveladores vis�veis e invis�veis, seus guias, seus educadores de todas as ordens. Mas o homem, livre em seu pensamento, em sua consci�ncia, escuta-os e renega-os. O homem � livre; as incoer�ncias sociais s�o sua obra. Ele lan�a sua nota confusa no concerto universal; mas essa nota discordante n�o chega a dominar a harmonia dos s�culos. 54 � Ver meu livro Le monde invisible et la guerre (O mundo invis�vel e a guerra).?O PROBLEMA DO DESTINO 119 Os g�nios enviados do �alto� brilham como far�is na noite escura. Sem remontar � mais alta Antiguidade, sem falar dos Hermes, dos Zoroastros, dos Krishnas, ainda antes da au-rora dos tempos crist�os, vimos erguer-se a enorme est�tua dos profetas, gigantes que ain-da dominam a Hist�ria. Foram eles, de fato, que prepararam os caminhos ao Cristianis-mo, a religi�o mestra, da qual nascer� mais tarde, na evolu��o dos tempos, a fraternidade universal. Depois vemos o Cristo, o homem da dor, o homem do amor, cujo pensamento irradia uma beleza imortal, o drama do G�lgota, a ru�na de Jeru-sal�m, a dispers�o dos judeus. Desse lado do mar azul, desabrocha o g�nio grego, foco de educa��o, esplendor de arte e ci�ncia, em que a humanidade vir� se esclarecer. Depois vir� o poder romano, que ensinar� ao mundo o direito, a discipli-na, a vida social. Em seguida voltam as idades das tre-vas, da ignor�ncia, mil anos de barb�rie, o remoinho das invas�es, erguem-se os elementos ferozes na civiliza��o, o rebaixa-mento do n�vel intelectual, a noite do pensa-mento. Mas Gutenberg, Crist�v�o Colombo, Lutero* aparecem. As catedrais g�ticas se levantam; continentes desconhecidos se revelam, a religi�o se disciplina. Gra�as � imprensa, a id�ia nova se expandir� sobre todos, sobre o mundo. Depois da reforma vir� o renascimento, depois as revolu��es! E eis que depois de muitas desgra�as e lutas, a despeito das persegui��es religio-sas, das tiranias civis e das inquisi��es, o pensamento se liberta. O problema da vida que, com as concep��es de uma Igreja que se tornara fan�tica e cega, continuava impenetr�vel, esse problema vai se escla-* Colombo (1451�1506): descobridor da Am�rica em 1492. Lutero (1483�1546): frade agostiniano. Promoveu a reforma religiosa que resultou no Protestantismo, ap�s �rdua luta com o Vaticano. Gutenberg (1397�1468): impressor alem�o, inventor da tipografia, que ocasio-nou o desenvolvimento da imprensa e o decorrente barateamento do livro, que passou a ser impresso pelo processo de letras m�veis. Catedral de Chartres, Fran�a. G�tico: estilo caracterizado principalmente pelo uso de ogivas, ou seja, figuras formadas por dois arcos iguais que se cortam, formando um �ngulo agudo, e que possibilitavam a constru��o de estruturas elevadas. Catedral de Notre-Dame, Fran�a.?L�ON DENIS 120 recer de novo. Como uma estrela sobre a n�voa do mar, a grande Lei reaparece. O mundo vai renascer para a vida do esp�rito. A exist�ncia humana n�o ser� mais um beco sem sa�da, misterioso, mas um caminho largamente aberto ao futuro. * As leis da natureza e da Hist�ria se completam e se afirmam em sua unidade imponente. Uma lei, c�clica, orienta a evolu��o dos seres e das coisas; rege a marcha dos s�culos e das humani-dades. Cada destino gravita em um c�rculo imenso, cada vida descreve uma �rbita. Toda a ascens�o humana se divide em ciclos, em espirais, que se v�o ampliando de modo a tomar um sentido cada vez mais universal. Do mesmo modo que a natureza se renova sem parar em suas ressurrei��es, desde as metamorfoses dos insetos at� o nascimento e a morte dos astros, assim as coletividades humanas nascem, desenvolvem-se e morrem em suas formas sucessivas. Mas morrem apenas para renascer e crescer em perfei��o, em institui��es, artes e ci�ncias, cultos e doutrinas. Nas horas de crise e de extravio, surgem enviados que v�m restabelecer as verdades obscurecidas e recolocar a humanidade em seu caminho. E apesar de melhores almas humanas irem para as esferas superiores, as civiliza��es terrestres se regeneram e as sociedades evoluem. Apesar dos males ligados ao nosso pla-neta e das necessidades m�ltiplas que nos oprimem, o testemu-nho dos s�culos nos diz em sua eleva��o que as intelig�ncias se apuram, os cora��es tornam-se mais sens�veis; a humanidade, em seu conjunto, progride lentamente. A partir de hoje, ela aspira � paz na solidariedade. A cada renascimento, o indiv�duo mergulha novamente na massa. A alma, ao reencarnar, veste uma m�scara nova. Suas personalidades anteriores se apagam por um tempo. Entretanto, atrav�s dos s�culos, reconhecem-se algumas grandes figuras do passado. Encontra-se Krishna no Cristo, e numa ordem me-nos elevada, Virg�lio em Lamartine, Vercingetorix em Desaix, C�sar em Napole�o. Numa certa mendiga de fei��es altivas, de olhar tirano, acoco-rada sobre uma esterqueira �s portas de Roma, coberta de �lceras e estendendo a m�o aos transeuntes, poder-se-ia reconhecer, num passado recente conforme indica��es dos esp�ritos, Messalina*. * Messalina (10 a.C.�54 d.C.): esposa do imperador romano Cl�udio, famosa pelos desregramentos de sua vida amorosa (N.E.).?O PROBLEMA DO DESTINO 121 Quantas outras almas culpadas vivem ao redor de n�s, escondidas em corpos disformes, expostas a males, a enfermi-dades que elas prepararam, moldadas por elas mesmas de algum modo, por seus pensamentos, seus atos de antigamente. O dou-tor Pascal nos diz: � O estudo das vidas anteriores de certos homens, particu- larmente feridos, revelou estranhos segredos. Aqui, uma trai��o causando um massacre � punida, passados s�culos, por uma vida dolorosa desde a inf�ncia e por uma enfermidade que traz a marca de sua origem � a mudez: os l�bios que tra�ram n�o podem mais falar; ali, um inquisidor retorna � encarna��o com um corpo doente desde a inf�ncia, num meio familiar agressivo ao extremo e com intui��es n�tidas das crueldades passadas: os sofrimen- tos f�sicos e morais mais agudos o perseguem sem piedade 55 .� Esses casos s�o mais numerosos do que se sup�e. � preci-so ver neles a aplica��o de uma regra implac�vel. Todos os nos-sos atos, conforme sua natureza, se traduzem por um acr�sci-mo ou diminui��o de liberdade. Da�, para os culpados, o renascimento em corpos miser�veis, pris�es da alma, imagens e repercuss�o de seu passado. Nem os problemas da vida individual nem os da vida social se explicam sem essa lei dos renascimentos. Todo o mist�rio do ser est� a�. � por ela que o nosso passado se esclarece e o futuro se amplia. Nossa personalidade se reveste de uma gran-deza inesperada. Compreendemos que n�o � de ontem que data o nosso aparecimento no universo, como muitos ainda pensam; bem ao contr�rio, nosso ponto de origem, nosso primeiro nasci-mento recua na profundeza dos tempos. N�s sentimos que estamos ligados a essa humanidade por meio de la�os tecidos lentamente no decorrer dos s�culos; sua hist�ria � a nossa his-t�ria; viajamos com ela sobre o oceano das idades, afrontando os mesmos perigos, sofrendo os mesmos insucessos. O esque-cimento dessas coisas � apenas tempor�rio. Um dia, todo um mundo de lembran�as despertar� em n�s. O passado, o futuro, a Hist�ria inteira tomar�, aos nossos olhos, um car�ter novo, um interesse profundo. Nossa admira��o aumentar� � frente de des-tinos t�o magn�ficos. As leis divinas nos parecer�o maiores, mais sublimes, e a pr�pria vida se tornar� bela e desej�vel, apesar de suas provas, de seus males! 55 � Doutor Pascal. Les lois de la destin�e (As leis do destino).?L�ON DENIS 122 A lei dos renascimentos, como vimos, rege a vida universal. Com um pouco de aten��o, poderemos ler em toda a natureza, como num livro, o mist�rio da morte e da ressurrei��o. As esta��es se sucedem em seu ritmo imponente. O inverno � o sono das coisas; a primavera � o seu despertar. O dia se alterna com a noite; o repouso segue a vig�lia; o esp�rito remonta �s regi�es superiores, para descer novamente em seguida e re-tomar, com mais for�as, a tarefa interrompida. As transforma��es da planta e do animal n�o s�o menos sig-nificativas. A planta morre para renascer cada vez que volta a seiva; tudo murcha para reflorir. A larva, a cris�lida, a borboleta s�o outros tantos exemplos que reproduzem, com maior ou menor fidelidade, as fases alternadas da vida imortal. Como s� o homem poderia ser exclu�do dessa lei? Quando tudo est� ligado por la�os s�lidos e numerosos, como admitir que nossa vida seja como um ponto lan�ado, sem liga��o, nos turbi-lh�es do tempo e do espa�o? Nada antes, nada depois! N�o, o homem, como todas as coisas, est� submisso � Lei Eterna. Tudo o que viveu, reviver� sob outras formas, para evoluir e se aper-fei�oar. A natureza nos fez morrer apenas para nos fazer reviver. Em conseq��ncia do renovamento peri�dico das mol�culas de nosso corpo, dispersadas e produzidas pelas correntes vitais, pela assimila��o e desassimila��o cotidianas, j� habitamos um grande n�mero de corpos diferentes nas nossas exist�ncias. N�o � l�gico admitir que ainda habitaremos outros no futuro? A sucess�o das exist�ncias apresenta-nos, portanto, como uma obra de grande proveito e de melhoramento. Depois de cada vida terrestre, a alma colhe e recolhe, em seu corpo flu�dico, as JUSTI�A E RESPONSABILIDADE. � O PROBLEMA DO MAL 6?O PROBLEMA DO DESTINO 123 experi�ncias e os frutos da exist�ncia decorrida. Todos os seus progressos se refletem nessa forma sutil da qual � insepar�vel, nesse corpo et�reo, l�cido, transparente, que, purificando-se com ela, torna-se o instrumento maravilhoso, a harpa que vibra a todos os sopros do infinito. Assim o ser ps�quico, em todas as fases de sua eleva��o, encontra-se tal qual a si mesmo se fez. Nenhum nobre objetivo � improdutivo; nenhum sacrif�cio � v�o. E na imensa obra, todos s�o solid�rios, desde a alma mais obscura at� o g�nio mais radioso. Uma cadeia sem fim religa os seres na majestosa unidade do cosmo. � uma efus�o de luz e de amor que, dos cumes divinos, se lan�am e se espalham sobre todos, para regener�-los e fecund�-los. Ela re�ne todas as almas em uma comunh�o univer-sal e eterna, em virtude de um princ�pio que � a mais magn�fica revela��o dos tempos modernos. * A alma deve conquistar, um a um, todos os elementos, todos os atributos de sua grandeza, de seu poder e felicidade. E para isso, � preciso o obst�culo, a natureza resistente, at� mesmo hostil, a mat�ria adversa, cujas exig�ncias e as rudes li��es pro-vocam seus esfor�os e formam sua experi�ncia. Da� tamb�m, nas etapas inferiores da vida, a necessidade das provas e da dor, a fim de que sua sensibilidade desperte e que ao mesmo tempo exer�a sua livre escolha e cres�am sua vontade e sua consci�ncia. � preciso a luta para tornar o triunfo poss�vel e fa-zer surgirem os her�is. Sem o mal, a arbitrariedade*, a trai��o seria poss�vel sofrer e morrer pela justi�a? � preciso o sofrimento f�sico e a ang�stia moral para que o esp�rito se depure, se desembarace de suas part�culas grosseiras, para que a d�bil centelha que est� nas profundezas da consci�n-cia se converta em uma chama pura e ardente, numa consci�ncia radiosa, centro da vontade, da energia e da virtude. Verdadeiramente s� se conhecem, saboreiam e apreciam os bens que se adquirem � pr�pria custa, lentamente, vencendo dificuldades. A alma, criada perfeita, como o querem certos pensa-dores, seria incapaz de apreciar e mesmo de compreender sua perfei��o, sua felicidade. Sem termos de compara��o, sem mudan-�as poss�veis com seus semelhantes, perfeitos como ela, sem objetivo para sua atividade, seria condenada � ociosidade, ao desleixo, o que seria o pior dos estados. Uma vez que viver, para * Arbitrariedade: procedimento que resulta apenas do desejo de algu�m; que n�o respeita regras (N.E.). ?L�ON DENIS 124 o esp�rito, � agir, � crescer, � conquistar sempre novos t�tulos, novos m�ritos, um lugar sempre mais alto na hierarquia luminosa e infinita. E para o merecer, � preciso ter trabalhado, lutado, sofrido. Para saborear a abund�ncia, � preciso ter conhecido a necessi-dade. Para apreciar a claridade dos dias, � preciso ter atraves-sado a sombra das noites. A dor � a condi��o da alegria e o pre�o da virtude. E a virtude � o bem mais precioso que existe no universo. Construir seu eu, sua individualidade, nas milhares de vidas, passadas em centenas de mundos e, sob a dire��o de nossos irm�os mais velhos, de nossos amigos do espa�o, escalar os caminhos do c�u, arrojarmo-nos cada vez mais para cima, fazer em si um campo de a��o sempre mais amplo, proporcional � obra realizada ou sonhada, tornar-se um dos atores do drama divino, um dos agentes de Deus na obra eterna, trabalhar para o univer-so, como o universo trabalha para n�s, eis o segredo do destino! Assim a alma sobe de esfera em esfera, de c�rculo em c�rculo, unida aos seres que amou; ela vai, seguindo suas peregrina��es, em procura das perfei��es divinas. Chegada �s regi�es superio-res, ela � livre da lei dos renascimentos. A reencarna��o n�o � mais uma obriga��o para ela, mas somente um ato de sua von-tade, a realiza��o de uma miss�o, uma obra de sacrif�cio. Depois que atingiu as alturas supremas, o esp�rito por vezes diz a si mesmo: �Estou livre, quebrei para sempre as algemas que me acorrentavam aos mundos materiais. Conquistei a ci�ncia, a energia, o amor. Mas o que adquiri, quero partilhar com os meus irm�os, os homens, e para isso irei novamente viver entre eles; irei lhes oferecer o que h� de melhor em mim; retomarei um corpo de carne. Descerei novamente at� aqueles que choram, que sofrem, que ignoram, para os ajudar, consolar, esclarecer!� E ent�o, temos Lao-Tse, Buda, S�crates, Cristo; em uma palavra, todas as grandes almas que deram a sua vida pela humanidade! * Resumamos. No decorrer deste estudo, demonstramos a import�ncia da doutrina das reencarna��es. Vimos a� uma das bases essenciais sobre as quais repousa o Espiritismo. Seu al-cance � imenso. Ela explica as desigualdades das condi��es humanas, a variedade infinita das aptid�es, das faculdades dos caracteres. Dissipa os perturbadores mist�rios e as contradi��es da vida; resolve o problema do mal. � por meio dela que a ordem sucede a desordem; a luz se faz no seio do caos; as injusti�as desaparecem, as mis�rias aparentes do destino se desvanecem, para dar lugar � lei forte e majestosa da repercuss�o dos atos e?O PROBLEMA DO DESTINO 125 de suas conseq��ncias. E essa lei de justi�a que governa os mundos Deus a inscreveu na ess�ncia das coisas e na cons-ci�ncia humana. A doutrina das reencarna��es aproxima os homens mais do que qualquer outra cren�a, ao lhes ensinar sua comunidade de origens e fins, ao lhes mostrar a solidariedade que os liga nova-mente no passado, no presente, no futuro. Diz-lhes que n�o h� entre eles deserdados nem favorecidos; cada um � filho de suas obras, mestre de seu destino. Nossos sofrimentos s�o as conse-q��ncias do passado ou a escola severa em que se aprendem as altas virtudes e os grandes deveres. Percorremos todas as etapas do imenso caminho. Passaremos alternadamente por todas as condi��es sociais, para adquirir as qualidades pertencentes a esses meios. Assim, essa solidarie-dade que nos liga compensa numa harmonia final a variedade infinita dos seres, resultante da desigualdade de seus esfor�os e tamb�m das necessidades de sua evolu��o. Com ela, para lon-ge v�o a inveja, o desprezo, o �dio! Os menores dentre n�s tal-vez j� tenham sido grandes, e os maiores renascer�o pequenos, se abusam de sua superioridade. A cada um, por sua vez, a ale-gria como a dor! Da� a verdadeira confraternidade das almas. N�s nos sentimos todos unidos nos degraus de nossa evolu��o co-letiva; aprendemos a nos ajudar, a nos sustentar, a nos dar as m�os! No decorrer dos ciclos dos tempos, todos se aperfei�oam e se elevam. Os criminosos do passado se tornar�o s�bios do futuro. Chegar� o tempo em que as nossas faltas ser�o apagadas, nos-sos v�cios, nossas feridas morais ser�o curados. As almas f�teis se tornar�o s�rias; as intelig�ncias obscuras se iluminar�o. Todas as for�as do mal que vibram em n�s ser�o transformadas em for�as do bem. Do ser fraco, indiferente, fechado a todos os gran-des pensamentos, sair�, com o passar dos tempos, um esp�rito poderoso, que reunir� todos os conhecimentos, todas as quali-dades e se tornar� apto a realizar as mais sublimes coisas. Essa ser� a obra das exist�ncias acumuladas. Sem d�vida, ser� preciso um grande n�mero delas para operar tal mudan�a, para nos purificar de nossas imperfei��es, fazer desaparecer as asperezas de nosso car�ter; transformar as almas de trevas em almas de luz! Mas s� � poderoso e dur�vel aquilo que teve o tempo necess�rio para germinar, sair da sombra, subir para o c�u. A �rvore, a floresta, as camadas do solo, os astros e os mundos nos dizem isso em sua profunda linguagem. Nenhuma semente se perde, nenhum esfor�o � in�til. A planta d� suas flores?L�ON DENIS 126 e seus frutos apenas na hora certa. A vida s� desabrocha nas terras do espa�o ap�s imensos per�odos geol�gicos. Vede os diamantes espl�ndidos que ornam a beleza das mulheres e fa�scam mil cores. Quantas transforma��es eles n�o tiveram de sofrer para adquirir essa pureza incompar�vel, esse brilho fulgurante? Uma lenta perman�ncia no seio da mat�-ria obscura! Acontece o mesmo com a entidade humana. Para se purifi-car de seus elementos grosseiros e adquirir todo o seu brilho, s�o precisos per�odos de evolu��o mais vastos ainda, muitos anos de aprisionamento na carne. � nesse trabalho de aperfei�oamento que aparece a utilidade, a import�ncia das vidas de provas, das vidas modestas e apaga-das, das exist�ncias de trabalho e de dever, para vencer as paix�es ferozes, o orgulho e o ego�smo, para curar as feridas morais. Desse ponto de vista, o papel dos humildes, dos peque-nos neste mundo, as tarefas modestas se revelam a nossos olhos em toda a sua grandeza: compreendemos melhor a necessidade do retorno � carne para resgate e purifica��o. * Ao resolver o problema do mal, o Espiritismo mostra uma vez mais sua superioridade sobre as outras doutrinas. Para os materialistas evolucionistas, o mal e a dor s�o cons-tantes, universais. Em todas as partes, dizem Taine, Soury, Nietzsche, Haeckel, vemos o mal desabrochar e sempre o mal reinar� na humanidade. Entretanto, acrescentam eles, com o progresso o mal se tornar� menos freq�ente, mas ser� mais dolo-roso, porque nossa sensibilidade f�sica e moral ir� crescer. E ser� preciso sempre sofrer e chorar sem consola��o, por exemplo, no caso de uma cat�strofe, irrepar�vel aos olhos deles, e igual-mente a morte de um ser querido. Por conseguinte, o mal ser� sempre superior ao bem. Certas doutrinas religiosas n�o s�o muito mais consoladoras. De acordo com o catolicismo, o mal parece tamb�m predominar no universo e Satan�s parece ser bem mais poderoso do que Deus. O inferno, segundo essa vis�o tr�gica, povoa-se continua-mente de multid�es inumer�veis, enquanto o para�so � partilhado por uns poucos eleitos. Para o crente ortodoxo, a perda, a separa-��o dos seres que amou, � quase t�o definitiva quanto a do mate-rialista. Nunca h� para eles certeza completa de reencontr�-los, de se reunirem um dia. Com o Espiritismo, a quest�o toma um aspecto totalmente diferente. O mal � apenas o estado transit�rio do ser no caminho?O PROBLEMA DO DESTINO 127 da evolu��o para o bem. O mal � pr�prio e natural da inferioridade dos mundos e dos indiv�duos; � tamb�m, j� vimos, a corre��o, o resgate do passado. Toda escala comporta graus. Nossas vidas terrestres representam os baixos graus de nossa eterna evolu��o. Tudo, ao redor de n�s, demonstra a inferioridade do planeta em que vivemos. Muito inclinado sobre o eixo, sua situa��o astro-n�mica � a causa das perturba��es freq�entes e das bruscas mudan�as de temperatura, de tempestades, inunda��es, terre-motos, calores t�rridos, frios rigorosos. A humanidade terrestre, para subsistir, � condenada a um dif�cil trabalho. Milhares de ho-mens, curvados sob sua tarefa, n�o conhecem nem o repouso nem o bem-estar. Acontece que existem rela��es estreitas entre a ordem f�sica dos mundos e o estado moral das sociedades que os povoam. Os mundos imperfeitos como a Terra s�o reservados, em geral, �s almas ainda pouco evolu�das. Entretanto, nossa estada neste mundo � apenas tempor�ria e subordinada �s exig�ncias de nossa educa��o ps�quica. Outros mundos, mais bem contemplados em todos os aspectos, nos esperam. O mal, a dor, o sofrimento, atributos da vida terrestre, t�m sua raz�o de ser. S�o o chicote, a espora que nos estimulam e nos levam adiante. O mal, desse ponto de vista, tem apenas um car�ter relativo e passageiro; � a condi��o da alma ainda crian�a que ensaia para a vida. Com o progresso realizado, ele se atenua pouco a pouco, desaparece, desvanece � medida que a alma sobe as escalas que conduzem ao poder, � virtude, � sabedoria! Ent�o a justi�a se revela no universo. N�o h� mais eleitos nem reprovados. Todos sofrem a conseq��ncia de seus atos, mas todos reparam, resgatam e se preparam cedo ou tarde para evoluir desde os mundos obscuros e materiais at� a luz divina. Todas as almas que se amam se encontram, se re�nem em sua eleva��o, para cooperarem juntas na grande obra e participarem da comunh�o universal. N�o h� mal real, mal absoluto no universo; h�, sim, em toda parte, a realiza��o lenta e progressiva de um ideal superior; em toda parte a a��o de uma for�a, de um poder, de uma causa, que, nos deixando livres, nos atrai e nos arrasta para um estado melhor. Em toda parte vemos os seres trabalhando para desenvol-ver em si, � custa de imensos esfor�os, a sensibilidade, o senti-mento, a vontade, o amor! * Insistimos na no��o de justi�a, que � essencial, porque � uma necessidade. � imperioso para todos saber que a justi�a n�o � uma palavra v�, que h� raz�o e legitimidade em todos os?L�ON DENIS 128 deveres e compensa��o para todas as dores. Nenhum sistema pode satisfazer nossa raz�o, nossa consci�ncia, se n�o realizar a no��o de justi�a em toda a sua amplitude. Essa no��o est� gravada em n�s; � a lei da alma e do universo. � por t�-la desco-nhecido que tantas doutrinas se enfraquecem e se apagam na presente hora, ao redor de n�s. Acontece que a doutrina das vidas sucessivas � o reflexo da id�ia de justi�a. Ela lhe d� um relevo e brilho incompar�veis. Todas as nossas vidas s�o solid�rias umas com as outras e se enca-deiam rigorosamente. Nossos atos e os efeitos ou conseq��ncias que eles geram constituem uma sucess�o de elementos que se ligam uns aos outros pela rela��o estreita de causa e efeito. N�s nos submetemos constantemente em n�s mesmos, em nosso ser interior, como nas condi��es exteriores de nossa vida, aos resultados inevit�veis. Nossa vontade ativa � uma causa gera-dora de efeitos mais ou menos distantes, bons ou maus, que recaem sobre n�s e formam a trama de nossos destinos. O Cristianismo, renunciando a este mundo, prometia a felicida-de e a justi�a para o outro. E se os ensinamentos podiam bastar aos simples e aos crentes, tornavam f�cil aos c�pticos h�beis de se dispensar da justi�a com o pretexto de que seu reino n�o era da Terra. Mas com a prova das vidas sucessivas, o caso muda completamente de figura. A justi�a n�o � mais relegada a um dom�nio ilus�rio e desconhecido. � aqui mesmo; � em n�s e ao redor de n�s que ela exerce o seu imp�rio. O homem deve reparar, no plano f�sico, o mal que realizou sobre esse mesmo plano. Ele volta ao palco da vida, ao meio onde se tornou culpado, perto daqueles que enganou, despojou, espoliou, para sofrer as conseq��ncias de seus atos anteriores. Com o princ�pio dos renascimentos, a id�ia de justi�a se ex-prime com exatid�o e se verifica. A lei moral, a lei do bem se revela em toda sua harmonia. O homem compreende, enfim: esta vida � apenas um dos an�is da grande cadeia de suas exist�ncias; tudo o que semeia, colher� cedo ou tarde. Sendo assim, n�o � mais poss�vel desconhecer nossos deveres nem iludir nossas responsabilidades. Nisso, como em tudo, o amanh� se torna o produto da v�spera. Sob a aparente confus�o dos fatos, desco-brimos as rela��es que os ligam. Em vez de ser escravizado a um destino inflex�vel cuja causa nos seria exterior, tornamo-nos senhores e autores disso. Bem longe de ser dominado pela sorte, o homem a domina e a cria, por sua vontade e seus atos. O ideal de justi�a n�o � mais o ideal de um mundo superior;?O PROBLEMA DO DESTINO 129 podemos definir os termos disso em cada vida humana renovada, em sua rela��o com as leis universais, no dom�nio das causas reais e tang�veis. Essa grande luz se faz precisamente no momento em que as velhas cren�as desabam sob o peso do tempo e todos os siste-mas se apresentam com sinais de ru�nas, em que os deuses do passado se cobrem e se afastam. H� muito tempo, o pensamento humano, ansioso, tateia nas trevas � procura do novo edif�cio moral que deve abrig�-lo. E eis que a doutrina dos renascimentos vem lhe oferecer o ideal necess�rio a toda a sociedade em marcha e, ao mesmo tempo, o corretivo indispens�vel aos apetites violen-tos, �s ambi��es desmedidas, � avidez das riquezas, dos lugares, das honras, um dique aos transbordamentos de sensualismo que amea�am nos arruinar. Com ela, o homem aprende a suportar sem amargura e sem revolta as exist�ncias dolorosas, indispens�veis � sua purifica-��o. Aprende a se submeter �s desigualdades naturais e passa-geiras que s�o o resultado da lei de evolu��o, a desdenhar as divis�es ilus�rias e separatistas, provenientes dos preconceitos de castas, de religi�es ou de ra�as. Esses preconceitos desapa-recem inteiramente desde que se saiba que todo esp�rito, em suas m�ltiplas vidas, deve passar pelos mais diversos meios. Gra�as � no��o das vidas sucessivas, as responsabilida-des individuais ao mesmo tempo que as das coletividades apa-recem- nos mais distintas. H� em nossos contempor�neos uma tend�ncia a empurrar o peso das dificuldades presentes sobre as gera��es futuras. Convencidos de que n�o retornar�o � Terra, deixam a nossos sucessores o cuidado de resolverem os pro-blemas espinhosos da vida pol�tica e social. Com a lei dos destinos, a quest�o muda totalmente de as-pecto. N�o somente o mal que tivermos feito recair� sobre n�s, como teremos de pagar nossas d�vidas at� o �ltimo ceitil*, mas o estado social que tivermos contribu�do para perpetuar com seus v�cios, maldades, nos prender� na sua pesada engrenagem quan-do voltarmos � Terra e sofreremos por todas as imperfei��es. Essa sociedade, � qual teremos pedido muito e dado pouco, se tornar� outra vez nossa sociedade, sociedade madrasta para seus filhos ego�stas e ingratos. No decorrer de nossas etapas terrestres, �s vezes como poderosos ou fracos, dirigentes ou dirigidos, sentiremos muitas vezes recair sobre n�s as injusti�as que deixamos se perpetuar. * Ceitil: moeda antiga de pequen�ssimo valor (N.E.).?L�ON DENIS 130 E n�o esque�amos uma coisa: as exist�ncias obscuras, as vidas humildes e apagadas ser�o muito mais numerosas para cada um de n�s, ao passo que os homens que possu�rem a abas-tan�a, a educa��o e a instru��o representar�o apenas uma minoria no conjunto das popula��es do globo. Mas quando a doutrina tiver se tornado a base da educa��o humana e for entendida por todos, quando a lei das vidas sucessi-vas se estabelecer com toda a clareza, ent�o, dos mais instru�dos aos mais reflexivos, desenvolvendo em si as intui��es do pas-sado, compreender�o que viveram em todos os meios sociais e agir�o com mais toler�ncia e benevol�ncia para com os peque-nos. Sentir�o que h� menos maldade e acidez do que sofrimento revoltado na alma dos deserdados; e que li��o admir�vel pode-r�o tirar de sua pr�pria experi�ncia, ao espalhar em torno de si a luz, a esperan�a, a consola��o. Ent�o, o interesse, o bem pessoal se tornar� o bem de todos. Cada um se sentir� levado a cooperar mais ativamente para o melhoramento dessa sociedade, no seio da qual ser� preciso renascer para progredir com ela e avan�ar para o futuro. * A hora presente ainda � de lutas: luta das na��es para a con-quista de territ�rio, de classes para a conquista do bem-estar e do poder. Ao redor de n�s se agitam for�as cegas e profundas, for�as que ignoram o ontem e que, hoje, organizam-se e entram em a��o. Uma sociedade agoniza; outra nasce. O ideal do passa-do vem � tona. Qual ser� o de amanh�? Um per�odo de transi��o est� aberto; uma fase diferente da evolu��o humana est� come�ada, fase obscura, cheia, ao mes-mo tempo, de promessas e de amea�as. Na alma das gera��es que sobem repousam os germes das flora��es novas: flores do mal ou flores do bem? Muitos se alarmam; muitos se apavoram. N�o duvidemos do futuro da humanidade, de sua ascens�o para a luz, e proclame-mos ao redor de n�s, com coragem e perseveran�a incans�veis, as verdades que assegurar�o o dia de amanh� e far�o as socie-dades fortes e felizes. Os defeitos de nossa organiza��o social prov�m principal-mente dos nossos legisladores que, em suas concep��es estrei-tas, visam apenas o horizonte de uma vida material. N�o compreen-dem o objetivo evolutivo da exist�ncia e o encadeamento de nossas vidas terrestres e por isso estabeleceram um estado de coisas incompat�veis com os fins reais do homem e da sociedade.?O PROBLEMA DO DESTINO 131 A conquista do poder pela maioria n�o consegue modificar esse ponto de vista. O povo segue o instinto surdo que o impele, incapaz de medir o m�rito e o valor de seus representantes, leva muitas vezes ao poder aqueles que se identificam com suas paix�es e partilham de sua cegueira. A educa��o popular precisa ser completamente refeita; porque s� o homem esclarecido poder� colaborar com intelig�ncia, coragem e consci�ncia para a renova��o social. Nas reivindica��es atuais, fala-se muito sobre a no��o de direito; superexcitam-se os apetites, exaltam-se os ideais. Esque-ce- se que o direito � insepar�vel do dever e que � simplesmente sua resultante. Da�, uma ruptura de equil�brio, uma invers�o das rela��es, de causa e efeito, ou seja, do dever para o direito na reparti��o das vantagens sociais, o que constitui uma causa permanente de divis�o e de �dio entre os homens. O indiv�duo que encara somente seu interesse pr�prio e seu direito pessoal ainda est� colocado bem abaixo na escala de evolu��o. Assim como disse Godin*, o fundador do familist�rio: � O direi- to � feito do dever cumprido�. Os servi�os prestados � humanida-de, sendo a causa, o direito torna-se o efeito. Em uma sociedade bem organizada, cada cidad�o se classificar� de acordo com seu valor pessoal, seu grau de evolu��o ser� proporcional � sua participa��o na vida social. O indiv�duo deve ocupar apenas uma situa��o merecida. Seu direito dever� ser proporcional e equivalente � sua capacidade para o bem. Tal � a regra, tal � a base da ordem universal, e, enquanto a ordem social n�o for seu reflexo, sua imagem fiel, ser� prec�ria e inst�vel. Em virtude dessa regra, cada membro de uma coletividade, em vez de reivindicar direitos fict�cios, deve se esfor�ar para tornar-se digno deles, aumentando o pr�prio valor e sua participa-��o na obra comum. O ideal social se transforma, o sentido da harmonia se desenvolve, o campo do amor ao pr�ximo se alarga. Mas, no estado atual das coisas, no seio de uma sociedade onde fermentam tantas paix�es, em que se agitam tantas for�as brutais, no meio de uma civiliza��o feita de ego�smo e de cobi�a, de incoer�ncia e m� vontade, de sensualidade e sofrimento, devemos temer muitas convuls�es. �s vezes, ouve-se o ru�do da onda que sobe. A queixa daque-les que sofrem transforma-se em crise. As multid�es contam-se. * Godin: fundador do que modernamente chamar�amos de cooperativa de fam�lias (fami-list�rio), em que o trabalho e os rendimentos s�o igualmente repartidos (N.E.).?L�ON DENIS 132 Interesses seculares s�o amea�ados. Mas uma nova f� se levanta, iluminada por um raio do �alto� e apoiada sobre fatos, sobre provas sens�veis. Ela diz a todos: � Sede unidos, pois sois irm�os, irm�os neste mundo, irm�os na imortalidade. Trabalhai em comum para tornardes mais doces as condi��es da vida social, mais f�ceis vossas tarefas de amanh�. Trabalhai para aumentar o saber, os tesouros da sabedoria, do poder, que s�o a heran�a da humanidade. A felicidade n�o est� na luta, na vingan- �a; est� na uni�o dos cora��es e das vontades!�?O PROBLEMA DO DESTINO 133 Estando demonstrada a prova das vidas sucessivas, como est�, o caminho da exist�ncia se encontra desimpedido, a rota firme e segura est� tra�ada. A alma v� claramente seu destino, que � a eleva��o para a sabedoria mais alta, para a luz mais viva. O equil�brio governa o mundo; nossa felicidade est� em nossas m�os. O universo n�o pode mais falhar. Seu objetivo, sendo a felicidade, seus meios s�o a justi�a e o amor. Portanto, todo receio ilus�rio, todo terror do al�m, desaparece. Em vez de recear o futuro, o homem saboreia a alegria das certezas eter-nas. Com a confian�a no amanh�, suas for�as redobram; seu esfor�o para o bem ser� multiplicado por cem. Entretanto, uma quest�o ainda se coloca: por que rela��es secretas se exerce a a��o da justi�a no encadeamento de nos-sas exist�ncias? Notemos, primeiramente, que o funcionamento da justi�a humana n�o nos oferece nada de compar�vel � lei divina dos destinos. Esta se executa por si mesma, sem interven��o exte-rior, tanto para os indiv�duos como para as coletividades. O que chamamos mal, ofensa, trai��o, morte, determina nos culpados um estado de alma que os entrega aos golpes da sorte, em uma medida proporcional � gravidade de seus atos. Essa lei imut�vel �, antes de tudo, uma lei de equil�brio. Ela estabelece a ordem no mundo moral do mesmo modo que as leis da gravita��o e da gravidade asseguram a ordem e o equil�brio no mundo f�sico. Seu mecanismo �, ao mesmo tempo, simples e grande. Todo mal se resgata pela dor. O que o homem realiza de acordo com a lei do bem lhe proporciona a quietude e contribui para sua eleva��o; toda viola��o provoca o sofrimento. Este pros-segue sua obra interior; cava as profundidades do ser; traz para A LEI DOS DESTINOS 7?L�ON DENIS 134 a luz os tesouros da sabedoria e da beleza que ele cont�m e, ao mesmo tempo, elimina os g�rmens doentios. Prolongar� sua a��o e voltar� � carga por tanto tempo quanto for necess�rio, at� que ele se expanda no bem e vibre em un�ssono com as for�as divinas. Mas, na persegui��o dessa obra grandiosa, compensa��es ser�o reservadas � alma. Alegrias, afei��es, per�odos de repouso e de felicidade se alternar�o, no ros�rio das vidas, com as exist�ncias de luta, de resgate e de repara��o. Assim, tudo � regulado, dis-posto com uma arte, uma ci�ncia, uma bondade infinitas na Obra da Provid�ncia. No princ�pio de seu curso, em sua ignor�ncia e sua fraqueza, o homem desconhece e desobedece muitas vezes � Lei. Da� as prova��es, as enfermidades, as servid�es materiais. Mas desde que se instrui, desde que aprende a colocar os atos de sua vida em harmonia com a regra universal, por isso mesmo � cada vez menos presa da adversidade. Nossos pensamentos e nossos atos se traduzem em movi-mentos vibrat�rios, e seu foco de emiss�o, pela repeti��o freq�en-te desses mesmos atos e pensamentos, transforma-se pouco a pouco em um gerador poderoso para o bem ou para o mal. O ser classifica-se assim, a si mesmo, pela natureza das energias de que se torna o centro radiador. Mas, enquanto as for�as do bem se multiplicam por si mesmas e aumentam sem parar, as for�as do mal se destroem por seus pr�prios efeitos, porque esses efeitos voltam para sua causa, para seu centro de emiss�o e se tradu-zem sempre em conseq��ncias dolorosas. O indiv�duo mau, como todos os seres, sendo submisso � impuls�o evolutiva, v� por isso aumentar for�osamente sua sensibilidade. As vibra��es de seus atos, de seus pensamentos maus, depois de haverem efe-tuado sua trajet�ria, voltam a ele cedo ou tarde, oprimem-no e apertam-no na necessidade de reformar-se. Esse fen�meno poderia se explicar cientificamente pela cor-rela��o das for�as, pela esp�cie de sincronismo vibrat�rio que traz sempre o efeito � sua causa. Temos demonstra��o disso neste fato bem conhecido: em tempo de epidemia, de cont�gio, s�o principalmente as pessoas cujas for�as vitais se harmonizam com as causas m�rbidas em a��o que s�o atacadas, enquanto os indiv�duos dotados de uma vontade firme e isentos de receio permanecem geralmente sadios. Acontece o mesmo na ordem moral. Os pensamentos de �dio e de vingan�a, os desejos de prejudicar, vindos de fora, s� podem agir sobre n�s e nos influenciar desde que encontrem elementos?O PROBLEMA DO DESTINO 135 que vibrem em un�ssono com esses pensamentos, com esses desejos. Se n�o existe nada em n�s de similar, essas for�as m�s passam por n�s sem nos prejudicar; retornam para aquele que as projetou, para, por sua vez, o ferirem, seja no presente, seja no futuro, quando circunst�ncias particulares as fizerem entrar na corrente do seu destino. * Na lei de causa e efeito a repercuss�o dos atos tem, aparen-temente, algo de mec�nico, de autom�tico. Entretanto, quando acarreta duras expia��es, repara��es dolorosas, esp�ritos eleva-dos interv�m para regular-lhe o exerc�cio e acelerar a marcha das almas no caminho da evolu��o. Sua influ�ncia se faz sentir principalmente no momento da reencarna��o, a fim de guiar essas almas em sua escolha, ao determinar as condi��es e os meios favor�veis � cura de suas doen�as morais e ao resgate das faltas anteriores. Sabemos que n�o h� educa��o completa sem a dor. Ao nos colocar nesse ponto de vista, � preciso nos precaver e n�o con-siderar as provas e os males da humanidade a conseq��ncia exclusiva das faltas passadas. Todos os que sofrem n�o s�o for�osamente culpados em processo de expia��o. Muitos s�o sim-plesmente esp�ritos �vidos de progresso, que escolheram vidas de dificuldade e laboriosas para retirar o benef�cio moral que anda ligado a toda exist�ncia sofrida. Contudo, em tese geral, � do choque, � do conflito do ser inferior, que n�o se conhece ainda, com a lei da harmonia que nasce o mal, o sofrimento. � pelo retorno gradual e volunt�rio do mesmo ser a essa harmonia que se restabelece o bem, ou seja, o equil�brio moral. Em todo pensamento, em toda obra, h� a��o e rea��o, sempre proporcional em intensidade � a��o realizada. Assim podemos dizer: o ser colhe exatamente o que semeou. Colhe-o, de fato, uma vez que, por sua a��o cont�nua, modi-fica sua pr�pria natureza, purifica ou materializa seu perisp�rito, o envolt�rio flu�dico, o ve�culo da alma, o instrumento que serve para todas as suas manifesta��es e sobre o qual se modela o corpo f�sico em cada renascimento. Como vimos, nossa situa��o no al�m resulta das a��es repetidas que nossos pensamentos e vontade exercem constan-temente sobre o perisp�rito. De conformidade com sua natureza e seu objetivo, transformam-no pouco a pouco num organismo sutil e radiante, aberto �s mais altas percep��es, �s sensa��es mais delicadas da vida do espa�o, capaz de vibrar em harmonia?L�ON DENIS 136 com os esp�ritos elevados e de participar das alegrias e das impress�es do infinito. No sentido inverso, far�o dele uma forma grosseira, opaca, acorrentado � Terra por seu pr�prio materia-lismo e condenado a ficar encerrado nas baixas regi�es. Essa a��o cont�nua do pensamento e da vontade, exercida no decorrer dos s�culos e das exist�ncias sobre o perisp�rito, nos faz compreender como se criam e se desenvolvem nossas aptid�es f�sicas, assim como nossas faculdades intelectuais e nossas qualidades morais. Nossas aptid�es para cada esp�cie de trabalho, nossa habi-lidade, nossa agilidade em todas as coisas s�o o resultado de inumer�veis a��es mec�nicas acumuladas e registradas pelo corpo sutil, do mesmo modo que todas as lembran�as e as aquisi-��es mentais s�o gravadas na consci�ncia profunda. Com o renascimento, essas aptid�es s�o transmitidas por uma nova educa��o, da consci�ncia externa aos �rg�os materiais. Assim se explica a habilidade consumada e quase nativa de certos m�sicos e, em geral, de todos os que em suas atividades de-monstram um grande dom�nio, uma superioridade de execu��o que surpreende � primeira vista. Acontece o mesmo com as faculdades e as virtudes, com todas as riquezas da alma adquiridas com a seq��ncia dos tem-pos. O g�nio � um longo e imenso esfor�o na ordem intelectual, e a santidade foi adquirida por uma luta secular contra as paix�es e as atra��es inferiores. Com um pouco de aten��o poder�amos estudar e seguir em n�s o processo de nossa evolu��o moral. Cada vez que realiza-mos uma boa a��o, um ato generoso, uma obra de caridade, de dedica��o, a cada sacrif�cio do eu, n�o sentimos uma esp�cie de dilata��o interior? Alguma coisa parece expandir-se em n�s. Uma chama se ilumina ou se aviva nas profundezas do ser. Essa sensa��o n�o � ilus�ria. O esp�rito se ilumina a cada pensamento de amor ao pr�ximo, a cada �mpeto de solidariedade e de amor puro. Se esses pensamentos e esses atos se repetem, se multiplicam e acumulam, o homem se encontra meio transfor-mado ao sair de sua exist�ncia terrestre. A alma e seu envolt�rio flu�dico ter�o adquirido um poder de radia��o mais intenso. No sentido contr�rio, todo pensamento mau, todo ato culposo e todo h�bito deplor�vel provocam um estreitamento, uma con-tra��o do ser ps�quico, cujos elementos se condensam, embrute-cem, se carregam de fluidos grosseiros. Os atos violentos, a crueldade, o suic�dio e homic�dio produ-zem no organismo flu�dico, no perisp�rito do culpado, uma pertur-?O PROBLEMA DO DESTINO 137 ba��o, um abalo prolongado, que repercute de renascimento em renascimento no corpo material e se traduz em doen�as nervo-sas, em tiques, convuls�es e at� mesmo em deformidades e enfermidades, em casos de loucura, conforme a gravidade das causas e o poder das for�as em a��o. Toda transgress�o � lei acarreta uma dificuldade, uma doen�a, uma priva��o de liberdade. As vidas impuras, a lux�ria, a embriaguez, a desordem, conduzem-nos a corpos d�beis, desprovidos de vigor, de sa�de, de beleza. O ser humano que abusa de suas for�as vitais conde-na a si mesmo a um futuro miser�vel, a enfermidades mais ou menos cru�is. �s vezes a repara��o se efetua numa longa vida de sofrimen-tos, necess�ria para extinguir em n�s as causas do mal, ou ent�o numa exist�ncia curta e dif�cil, encerrada por uma morte tr�gica. Uma atra��o misteriosa re�ne algumas vezes num mesmo lugar criminosos de lugares e tempos muito afastados, para feri-los cole-tivamente. Citamos como exemplos as cat�strofes c�lebres, as grandes desgra�as, as mortes coletivas, tais como os inc�ndios, as explos�es, o naufr�gio do Titanic e de tantos outros navios. Assim se explicam as breves exist�ncias. Elas s�o o com-plemento das vidas anteriores, terminadas muito cedo, abrevia-das prematuramente, seja pelo excesso, pelos abusos, seja por qualquer outra causa moral, as quais, normalmente, deveriam ter durado mais tempo. N�o devem ser inclu�das nesses casos as mortes de crian�as em tenra idade. A curta vida de uma crian�a pode ser uma prova para os pais, como para o esp�rito que quer encarnar. Em geral, � simplesmente uma entrada r�pida no teatro da vida, seja por cau-sas f�sicas seja por falta de adapta��o entre os fluidos. Nesse caso, a tentativa de encarna��o se renova pouco depois no mesmo meio; reproduz-se at� completo �xito, ou ent�o, se as dificuldades s�o muitas, efetua-se em um meio mais favor�vel. * Todas essas considera��es o demonstram: para assegurar a depura��o flu�dica e o bom estado moral do ser, h� uma disci-plina de pensamento a estabelecer, uma higiene da alma a se-guir, assim como h� uma higiene f�sica a observar para manter a sa�de do corpo. Em virtude da a��o constante do pensamento e da vontade sobre o perisp�rito, v�-se que a retribui��o � absolutamente perfei-ta. Cada um colhe o fruto imperec�vel de suas obras passadas e presentes. Ele o colhe, n�o pelo efeito de uma causa exterior, mas por um encadeamento que liga em n�s mesmos a pena � alegria,?L�ON DENIS 138 o esfor�o ao sucesso, a falta ao castigo. �, portanto, na intimidade secreta de nossos pensamentos e na viva luz de nossos atos que � preciso procurar a causa eficiente de nossa situa��o presente e futura. Colocamo-nos segundo nossos m�ritos no meio a que nossos antecedentes nos chamam. Se somos infelizes, � porque n�o somos perfeitos o suficiente para desfrutar de melhor destino. Mas nosso destino melhorar� desde que saibamos fazer nascer em n�s mais desinteresse, justi�a e amor. O ser deve se aperfei-�oar, embelezar sem parar sua natureza �ntima, aumentar seu valor pr�prio, construir o edif�cio de sua consci�ncia: tal � o obje-tivo de sua evolu��o. Cada um de n�s possui esse g�nio particular que os druidas chamavam awen, ou seja, a aptid�o primordial de todo ser para realizar uma das formas especiais do pensamento divino. Deus depositou no fundo da alma os g�rmens das faculdades poderosas e variadas; todavia, h� uma das formas de seu g�nio que � cha-mada a desenvolver acima de todas as outras, por um trabalho constante, at� que a tenha levado a seu ponto de excel�ncia. Essas formas s�o inumer�veis. S�o os aspectos m�ltiplos da intelig�ncia, da sabedoria e da beleza eternas: a m�sica, a poesia, a eloq��ncia, o dom da inven��o, a previs�o do futuro e das coisas ocultas, a ci�ncia ou a for�a, a bondade, o dom da educa��o, o poder de curar, etc. Ao projetar a entidade humana, o pensamento divino impreg-na- a mais particularmente de uma dessas for�as e por isso mes-mo designa-lhe um papel especial no vasto concerto universal. As miss�es do ser, seu destino, sua a��o na evolu��o geral se mostrar�o cada vez mais no sentido de suas aptid�es pr�prias, aptid�es latentes e confusas no in�cio de seu curso, mas que v�o despertar, crescer, acentuar-se, � medida que percorrer a imensa espiral. As intui��es, as inspira��es que receber do �alto� corresponder�o a esse lado especial de seu car�ter. Conforme suas necessidades e apelos, � sob essa forma que sentir�, do fundo de si mesmo, a divina melodia. Assim Deus, da variedade infinita dos contrastes, sabe fazer brotar a harmonia, tanto na natureza como no seio da humanidade. E se a alma abusa desses dons, se os aplica �s obras do mal, se concebe disso a vaidade ou o orgulho, ser� preciso, como expia-��o, que ela renas�a em organismos impotentes para sua mani-festa��o. Viver�, g�nio desconhecido, humilhado, entre os homens, por tanto tempo quanto seja necess�rio para que a dor tenha triun-fado dos excessos da personalidade e lhe permita retomar seu v�o sublime, seu curso, num momento interrompido, para o ideal.?O PROBLEMA DO DESTINO 139 * Almas humanas que percorreis estas p�ginas, elevai vossos pensamentos e vossas resolu��es � altura das tarefas que vos cabem. Os caminhos do infinito se abrem diante de v�s, semea-dos por maravilhas inesgot�veis. Em qualquer ponto a que vosso v�o vos leve, em todos os lugares vos aguardam objetos de estu-do, com fontes inesgot�veis de alegrias e de deslumbramentos, de luz e de beleza. Em todos os lugares e sempre, horizontes inimagin�veis suceder�o aos horizontes percorridos. Tudo � belo na obra divina. Em vossa evolu��o, vos est� reservado saborear os aspectos inumer�veis, desde a flor deli-cada at� os astros flamejantes, assistir ao surgimento dos mun-dos e das humanidades. Ao mesmo tempo, sentireis se desen-volver vossa compreens�o das coisas celestes e aumentar vosso desejo ardente de compreender Deus, de mergulhar n�Ele, em Sua luz, em Seu amor; em Deus, nossa fonte, nossa ess�ncia, nossa vida! A intelig�ncia humana n�o saberia descrever os futuros que pressente, as ascens�es que avista. Nosso esp�rito encerrado num corpo de argila, nos la�os de um organismo mortal, n�o pode encontrar nele os recursos necess�rios para exprimir esses es-plendores; qualquer express�o permanecer� sempre aqu�m das realidades. A alma, em suas intui��es profundas, tem a sensa-��o das coisas infinitas, de que participa e as quais deseja. Seu destino � viv�-las e goz�-las cada vez mais. Mas procuraria em v�o exprimi-las com as balbucia��es de uma fraca linguagem humana; ela se esfor�aria em v�o para traduzir as coisas eternas na pobre linguagem da Terra. A palavra � impotente, mas a cons-ci�ncia evolu�da percebe as sutis radia��es da vida superior. Chegar� o dia em que a alma engrandecida dominar� o tem-po e o espa�o. Para ela um s�culo durar� apenas um instante, e num lampejo de seu pensamento transpor� os abismos do c�u. Seu organismo sutil, purificado pelas milhares de vidas, vibrar� em todos os sopros, em todos os caminhos, em todos os apelos da imensidade. Sua mem�ria mergulhar� nas idades extintas, poder� reviver � vontade tudo o que tiver vivido, chamar a si as almas queridas que compartilharam suas alegrias e suas dores. Porque todas as afei��es do passado se encontram e se religam na vida do espa�o; fazem-se novas amizades e, de cama-da em camada, uma comunh�o mais poderosa re�ne os seres em uma unidade de vida, de sentimento e de a��o. Cr�, ama, espera, homem, meu irm�o, depois, age! Aplica-te a semear em tua obra os reflexos e as esperan�as de teu pensa-?L�ON DENIS 140 mento, os desejos de teu cora��o, as alegrias e as certezas de tua alma imortal. Comunica tua f� �s intelig�ncias que te rodeiam e partilham tua vida, a fim de que te acompanhem em tua tarefa e que, por toda a Terra, um esfor�o poderoso levante o fardo das opress�es materiais, triunfe das paix�es grosseiras, abra uma larga sa�da aos v�os do esp�rito. Logo uma ci�ncia jovem e renovada � n�o mais a ci�ncia dos preconceitos, das rotinas, dos m�todos estreitos e velhos, mas uma ci�ncia aberta a todas as pesquisas, a todas as investi-ga��es, a ci�ncia do invis�vel e do al�m � vir� fecundar o ensina-mento, esclarecer o destino, fortificar a consci�ncia, apoiada sobre a rocha da experi�ncia e desafiando toda a cr�tica. Uma arte mais idealista e mais pura, iluminada por luzes que n�o se apagam, imagem da vida radiosa, reflexo do c�u entre-visto, vir� alegrar e vivificar o esp�rito e os sentidos. Acontecer� o mesmo com as religi�es, cren�as, sistemas. No v�o do pensamento para elevar-se das verdades de ordem relativa �s verdades de ordem superior, chegam a aproximar-se, a alcan�ar-se, a fundir-se, para fazer das cren�as m�ltiplas do passado, hostis ou mortas, uma f� viva que reunir� a humanida-de em um mesmo impulso de adora��o e de prece. Trabalha com todos os poderes de teu ser para preparar essa evolu��o. � preciso que a atividade humana se dirija com mais intensidade para os caminhos do entendimento. Depois da huma-nidade f�sica, � preciso criar a humanidade moral; depois dos corpos, as almas! O que foi conquistado em energias materiais, em for�as exteriores, perdeu-se em conhecimentos profundos e revela��es do sentido �ntimo. O homem triunfou do mundo vis�vel; seus conhecimentos no universo f�sico s�o imensos; resta-lhe conquistar o mundo interior, conhecer sua pr�pria natureza e o segredo de seu espl�ndido futuro. N�o discutas, trabalha. A discuss�o � v�; a cr�tica, est�ril. Mas a a��o pode ser grande, se consistir em te engrandecer a ti mesmo, em engrandecer os outros, em fazer o teu ser melhor e mais belo. Porque n�o deves esquecer que trabalhas para ti ao trabalhar por todos, associando-te � tarefa comum. O universo, como tua alma, renova-se, perpetua-se e embeleza-se sem parar pelo trabalho e pela mudan�a. E Deus, ao aperfei�oar Sua obra, goza dela como tu gozas da tua, embelezando-a. Tua obra mais bela �s tu mesmo. Por teus esfor�os constantes, podes fazer de tua intelig�ncia, de tua consci�ncia, uma obra admir�-vel, da qual gozar�s indefinidamente. Cada uma de suas vidas � um caminho fecundo de onde deves sair apto para as tarefas,?O PROBLEMA DO DESTINO 141 miss�es sempre mais altas, apropriadas �s tuas for�as, e cada uma das quais ser� tua recompensa e tua alegria. Assim, com tuas m�os ir�s, dia a dia, moldando teu destino. Renascer�s nas formas que teus desejos constroem, que tuas obras geram, at� que teus anseios e teus apelos tenham prepa-rado para ti formas e organismos superiores aos da Terra. Re-nascer�s nos meios que anseias, pr�ximos aos seres queridos que j� foram associados aos teus trabalhos, �s tuas vidas e que viver�o contigo e para ti, como viver�s com eles e para eles. Depois de terminada tua evolu��o terrestre, quando tiveres exaltado tuas faculdades e tuas for�as a um grau de poder sufi-ciente, quando tiveres esvaziado a ta�a dos sofrimentos, das amarguras e das felicidades que nos oferece este mundo, son-dado suas ci�ncias e suas cren�as, te comunicado com todos os aspectos do g�nio humano, ent�o subir�s com teus amados para outros mundos mais belos, mundos de paz e de harmonia. E, depois que teu �ltimo envolt�rio humano tiver retornado ao p�, tua ess�ncia depurada chegado �s regi�es espirituais, tua lembran�a e tua obra ainda amparar�o os homens, teus irm�os, em suas lutas e suas provas, e poder�s dizer com a alegria de uma consci�ncia serena: � Minha passagem sobre a Terra n�o ter� sido est�ril; meus esfor�os n�o ter�o sido v�os.� Ao terminar a leitura deste livro, provavelmente voc� tenha ficado com algumas d�vidas e perguntas a fazer, o que � um bom sinal. Sinal de que est� em busca de explica��es para a vida. Todas as respostas de que voc� precisa est�o nas Obras B�sicas de Allan Kardec. Se voc� gostou deste livro, o que acha de fazer com que outras pessoas venham a conhec�-lo tamb�m? Poderia coment�-lo com aquelas do seu relacionamento, dar de presente a algu�m que talvez esteja precisando ou at� mesmo emprestar �quele que n�o tem condi��es de compr�-lo. O importante � a divulga��o da boa leitura, principal-mente a literatura esp�rita. Entre nessa corrente!?

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