O quarto de Jacob Virginia Woolf



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O Quarto de Jacob
Virginia Woolf
Tradução de Lya Luft

2a edição


EDITORA NOVA FRONTEIRA
CAPÍTULO UM

CAPÍTULO DOIS

CAPÍTULO TRÊS

CAPÍTULO QUATRO

CAPÍTULO CINCO

CAPÍTULO SEIS

CAPÍTULO SETE

CAPÍTULO OITO

CAPÍTULO NOVE

CAPÍTULO DEZ

CAPÍTULO ONZE

CAPÍTULO DOZE

CAPÍTULO TREZE

CAPÍTULO QUATORZE




CAPÍTULO UM
"Assim, naturalmente", escreveu Betty Flanders enfiando os saltos dos sapatos mais fundo na areia, "não havia nada a fazer senão partir".

Brotando lentamente do bico da sua pena de ouro, a pálida tinta azul dissolveu o ponto final; pois sua caneta parou ali; seus olhos tornaram-se fixos, lágrimas inundaram-nos devagar. A baía inteira oscilou; o farol cambaleou; e ela teve a ilusão de que o mastro do pequeno iate do sr. Connor se inclinava, como uma vela de cera ao sol. A sra. Flanders pestanejou depressa. Acidentes eram coisas ter­ríveis. Piscou de novo. O mastro estava ereto; as ondas, regulares; o farol, em pé; mas o pingo de tinta se espalhara.



  • ...nada a fazer senão partir — leu ela.

  • Bem, se Jacob não quer brincar — (a sombra de Archer, seu filho mais velho, caiu sobre o papel, e parecia azul na areia, e ela sentiu frio — já era três de setembro) — se Jacob não quer brin­car... — Que borrão horrível! Devia estar ficando tarde.

  • Mas onde está esse menino cansativo? — disse ela. — Não o vejo daqui. Corra e vá procurá-lo. Diga-lhe que venha já. — "...mas graças a Deus", rabiscou, ignorando o ponto final, "tudo parece satisfatoriamente arranjado, estamos empacotados como arenques numa barrica, e fomos obrigados a deixar de lado o carrinho de bebê, que naturalmente o senhorio não quer permitir...".

Eram assim as cartas de Betty Flanders ao capitão Barfoot — cartas de muitas páginas, manchadas de lágrimas. Scarborough fica a setecentas milhas da Cornualha: o capitão Barfoot está em Scarborough: Seabrook está morto. Lágrimas fizeram balouçar em ondas rubras todas as dálias do jardim e reverberar em seus olhos a estufa de vidro, e enfeitaram a cozinha de setas luminosas, e fizeram a sra. Jarvis, esposa do reitor, pensar, na igreja, enquanto os hinos ressoa­vam e a sra. Flanders se debruçava sobre as cabeças dos filhos pe­quenos, que o casamento é uma fortaleza, e que viúvas vagueiam solitárias por campos abertos, juntando pedras, respingando palhas douradas, sozinhas, desprotegidas, pobres criaturas. A sra. Flanders era viúva há dois anos.

  • Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer.

"Scarborough" escreveu a sra. Flanders no envelope, passando debaixo uma linha audaciosa; era sua cidade natal; o centro do uni­verso. Mas, e o selo? Esquadrinhou a bolsa; depois virou-a de boca para baixo; finalmente remexeu em seu regaço, tudo isso tão vigoro­samente que Charles Steele, de chapéu panamá, suspendeu no ar seu pincel de pintor.

Ele tremia como a antena de um inseto irritadiço. Lá estava aquela mulher se movendo — ia até mesmo levantar — para o diabo com ela! Steele deu à tela um rápido toque negro-violeta. A paisagem pedia-o. Estava pálida demais — cinzas diluindo-se em lavandas, e uma estrela ou gaivota suspensa ao acaso —, pálida demais, como de costume. Os críticos diriam que estava tudo pálido demais, pois ele era um desconhecido expondo em galerias obscuras, favorito dos filhos de seus senhorios, usando uma cruz na corrente do reló­gio, muito grato quando os senhorios apreciavam seus quadros — e seguidamente eles os apreciavam.



  • Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer.

Exasperado com o barulho, mas amando crianças, Steele esgravatou nervosamente os pequenos emaranhados escuros em sua paleta.

  • Eu vi seu irmão, eu vi seu irmão — disse, balançando a cabe­ça quando Archer passou por ele, devagar, arrastando a pá e olhan­do de mau humor para o velho de óculos.

  • Ali, junto do rochedo — resmungou Steele com o pincel entre os dentes, espremendo vermelho-siena forte, olhos fixos nas costas de Betty Flanders.

  • Ja-cob! Ja-cob! — gritou Archer, prosseguindo devagar de­pois de um momento.

A voz denotava extraordinária tristeza. Pura, despojada do cor­po, despojada de toda paixão, saindo para o mundo, solitária, irrespondida, quebrando-se contra os rochedos — era assim que soava.

Steele franziu a testa; mas ficou contente com o efeito do negro — era exatamente aquela nota que dava unidade ao resto, e assim, tendo encontrado a tonalidade certa, olhou para cima e viu com horror uma nuvem sobre a baía.

A sra. Flanders ergueu-se, bateu seu casaco dos dois lados para tirar a areia e pegou o guarda-sol.

A rocha era um daqueles recifes castanhos tremendamente sóli­dos, quase negros, que emergem da areia como algo primitivo. Ás­pera por causa dos mariscos rugosos, aqui e ali raros tufos de algas secas, um menino precisava abrir bem as pernas e sentir-se mesmo um herói até galgar o topo.

Mas lá, bem em cima, há uma cavidade cheia de água, com o fundo arenoso; com uma gelatina-do-mar de um lado, e alguns mexilhões. Um peixe vara as águas tal uma flecha. A franja de algas castanho-amareladas esvoaçava, e aparece um caranguejo de casca opalina...


  • Oh, que caranguejo enorme — murmura Jacob... e começa sua jornada no fundo arenoso, as pernas inseguras. Agora! Jacob mergulhou a mão. O caranguejo era frio e muito leve. Mas a areia engrossava a água, e assim, escorregando para baixo, Jacob estava na iminência de pular segurando o balde à frente, quando viu, esten­didos absolutamente rígidos, lado a lado, rostos muito vermelhos, um homem e uma mulher enormes.

Um homem e uma mulher enormes (estava quase anoitecendo) estendidos ali imóveis, as cabeças sobre lenços, lado a lado, a poucos passos do mar, enquanto duas ou três gaivotas tocavam graciosamente as ondas que chegavam, pousando depois perto das botinas deles.

Os grandes rostos vermelhos deitados nos lenços coloridos erguiam-se para Jacob. Jacob baixou os olhos sobre eles. Segurando o balde com muito cuidado, Jacob então saltou decidido, e saiu cor­rendo, indiferente a princípio, depois cada vez mais depressa, à medida que as ondas espumavam tão perto dele, que precisava des­viar-se para evitá-las, enquanto as gaivotas se erguiam à sua frente, esvoaçavam, pousando outra vez um pouco adiante. Havia uma gran­de mulher negra sentada na areia. Jacob correu para ela.



  • Nanny! Nanny! — gritou, soluçando as palavras na crista de cada respiração ofegante.

As ondas a rodearam. Era uma rocha. Coberta daquelas algas que estouram quando a gente espreme. Jacob estava perdido.

Ficou ali parado. Seu rosto se compunha. Quando ia começar a berrar, viu, entre paus pretos e palhas, debaixo de um recife, uma caveira inteirinha — talvez a caveira de uma ovelha, uma caveira, talvez, com os dentes. Soluçando ainda, mas já distraído, correu, correu, até segurar a caveira nos braços.



  • Lá está ele! — gritou a sra. Flanders, rodeando o rochedo e por alguns segundos cobrindo todo o espaço da praia. — O que está segurando aí? Largue isso, Jacob! Largue agora, já! E uma coisa medonha, eu sei. Por que não ficou conosco? Vocês dois, venham — e ela virou-se, segurando Archer com uma das mãos, tentando com a outra pegar o braço de Jacob. Ele, porém, se agachou e pe­gou do chão o maxilar da ovelha, que estava solto.

Balançando a bolsa, agarrando o guarda-sol, segurando a mão de Archer e contando a história da explosão de pólvora em que o pobre sr. Curnow perdera o olho, a sra. Flanders escalava depressa o caminho íngreme, consciente todo o tempo, nas profundezas da mente, de algum aborrecimento enterrado ali.

Na areia, não longe dos amantes, jazia a velha caveira de ovelha, sem maxilar. Limpa, alva, batida pelos ventos e esfregada pela areia, não havia em parte alguma da costa da Cornualha pedaço de osso mais impoluto. Os azevins do mar cresceriam através de suas órbi­tas; ela se desfaria em pó, ou algum jogador de golfe, batendo em sua bola, um belo dia, dispersaria um montinho de poeira — não, mas não em hospedarias, pensou a sra. Flanders. E uma grande aventura, vir para tão longe com crianças pequenas. Sem um ho­mem para ajudar com o carrinho. E Jacob dando tanto trabalho, já tão obstinado.



  • Jogue fora isso, querido, vamos — disse quando chegaram à estrada; Jacob, porém, desviava-se dela; e, como o vento aumentas­se, ela tirou o alfinete da touca, olhou o mar, espetou-o novamente. O vento aumentava. As ondas tinham aquela inquietação de coisa viva, indócil, à espera do látego, ondas antes da tempestade. Os barcos de pesca dirigiam-se para a margem. Uma luz amarelo-pálido varou o mar púrpura e apagou-se. O farol fora aceso. — Venham — disse Betty Flanders. O sol ardia em seus rostos e dourava as grandes amoras que emergiam trêmulas da sebe que Archer tentava golpear quando passavam.

  • Não andem tão devagar, meninos. Vocês não têm roupas para trocar — disse, empurrando-os, e contemplando alvoroçada a terra lúgubre, com os súbitos lampejos de luz das estufas nos jardins, com uma espécie de alternância amarela e negra, contra esse cre­púsculo abrasado, essa espantosa agitação e vitalidade de cores que excitava Betty Flanders, fazendo-a pensar em responsabilidade e perigo. Pegou a mão de Archer. E galgou a colina.

  • O que foi que pedi para você lembrar? — perguntou.

  • Não sei — respondeu Archer.

  • Bem, nem eu — volveu Betty com humor e simplicidade, e quem pode negar que nessa perplexidade, quando combinada com efusão, superioridade maternal, superstições de mulheres antigas, maneiras aleatórias e momentos de espantosa audácia, humor e sen­timentalismo — quem pode negar que nesses aspectos toda mu­lher é mais agradável do que qualquer homem?

Bem, para começar, temos Betty Flanders.

Ela estava com a mão no portãozinho do jardim.



  • Era a carne! — exclamou baixando a aldrava.

Esquecera a carne.

Rebeca estava na janela.

A pobreza da sala da frente da sra. Pearce tornava-se inteiramente óbvia às dez da noite, quando instalavam no centro da mesa um forte lampião de petróleo. A luz crua caía no jardim; varava o relvado; iluminava um balde de crianças e os ásteres purpúreos, e chegava à sebe. A sra. Flanders deixara sua costura na mesa. Ali estavam os carretéis de linha branca e os óculos de aro de aço; o agulheiro; a lã marrom enrolada num velho cartão-postal. Ali es­tavam os juncos e as revistas Strand; e o linóleo cheio de areia das botas dos meninos. Um gafanhoto saltava de um canto a outro, e bateu no bojo do lampião. O vento soprou pela janela rajadas de chuva que reluziram em prata ao passarem na luz. Uma única folha batia apressada e persistente na vidraça. Havia tempestade sobre o mar.

Archer não conseguia dormir.

A sra. Flanders inclinou-se para ele.


  • Pense nas fadas — disse Betty Flanders. — Pense nos lindos, lindos pássaros aconchegados em seus ninhos. Agora feche os olhos e veja a velha mãe-pássaro com uma minhoca no bico. Agora vire- se e feche os olhos — murmurou ela —, feche os olhos.

A hospedaria parecia cheia de gorgolejos e movimentos rápidos; a cisterna transbordando; a água borbulhando e chiando e dis­parando pelos canos, jorrando janelas abaixo.

  • Para onde está correndo toda essa água? — murmurou Archer.

  • E só água do banho escoando — disse a sra. Flanders.

Alguma coisa estalou fora.

  • Será que aquele navio não vai afundar? — perguntou Archer, abrindo os olhos.

  • Claro que não — respondeu a sra. Flanders. — O capitão está na cama faz muito tempo. Feche os olhos e pense nas fadas dormindo profundamente debaixo das flores.

  • Pensei que não ia acabar nunca, um temporal desses — sussurrou para Rebeca, que estava curvada sobre um lampião de álcool no quartinho ao lado. O vento disparava, mas a pequena chama do lampião ardia sossegadamente, sombreada ao lado do berço por um livro em pé.

  • Ele tomou direito a mamadeira? — sussurrou a sra. Flanders, e Rebeca fez que sim e foi até o berço ajeitar a colcha, e a sra. Flanders inclinou-se para lá, olhando ansiosa o bebê adormecido, mas de sobrancelhas franzidas. A janela estremeceu e como um gato Rebeca esgueirou-se para prendê-la. As duas mulheres murmura­vam por cima do lampião, tramando a eterna conspiração do silên­cio e das mamadeiras limpas, enquanto o vento se enfurecia, provo­cando um súbito repelão nas fechaduras baratas.

As duas olharam o berço. Seus lábios estavam franzidos. A sra. Flanders foi até lá.

  • Dormindo? — sussurrou Rebeca, ainda olhando o berço.

A sra. Flanders confirmou com a cabeça.

  • Boa-noite, Rebeca — murmurou, e Rebeca chamou-a de madame, embora as duas fossem conspiradoras tramando a eterna conspiração do silêncio e das mamadeiras limpas.

A sra. Flanders deixara o lampião aceso no aposento da frente. Lá estavam seus óculos e sua costura; e uma carta com carimbo de Scarborough. Ela também não baixara as cortinas.

A luz atravessou o quadrado de relva; caiu sobre o balde verde de criança com a listra dourada e sobre os ásteres que tremiam violentamente ao lado. Pois o vento devastava a costa, lançando-se contra as colinas e voltando sobre si mesmo em súbitas rajadas. Como se espraiava pela cidade no vale! Como as luzes pareciam piscar e tremer nessa fúria, luzes no cais, luzes em janelas de quartos de dormir, lá em cima! E empurrando à frente as ondas escuras, a tem­pestade disparou pelo Atlântico, sacudindo de um lado para o ou­tro as estrelas por cima dos navios.

Ouviu-se um estalido na sala da frente. O sr. Pearce extinguia o lampião. O jardim apagou-se. Não passava agora de uma mancha escura. Cada polegada inundada, cada talo de grama curvado sob a chuva. Pálpebras teriam sido fechadas pela chuva. Deitando-se de costas, não se veria senão desordem e confusão — nuvens girando e regirando, e na treva alguma coisa amarela e sulfurosa.

Os meninos no quarto de dormir da frente tinham afastado os cobertores e jaziam debaixo dos lençóis. Fazia calor; estava sufo­cante e úmido. Archer esticara o corpo, com um braço através do travesseiro. Rosto corado; e quando a pesada cortina ondulou de leve, virou-se e abriu um pouco os olhos. O vento realmente em­purrava o tecido sobre a cômoda, deixando entrar um pouco de luz, de modo que a quina da cômoda ficou visível, erguendo-se vertical, até onde sobressaía uma protuberância alva; no espelho via-se uma fita prateada.

Na outra cama junto da porta ressonava Jacob, que adormecera logo, numa inconsciência profunda. O maxilar de ovelha com gran­des dentes amarelos jazia a seus pés. Ele o atirara com um pontapé contra a guarda de ferro da cama.

Fora a chuva desabava mais incisiva e mais intensa, depois que o vento amainara nas primeiras horas da manhã. Os ásteres jaziam derrubados no chão. O balde das crianças estava cheio até a metade com água da chuva; o caranguejo de casca de opalina girava lento no fundo, tentando com suas pernas débeis escalar a beirada; ten­tando e caindo; tentando e caindo.




CAPÍTULO DOIS


  • A sra. Flanders. — Pobre Betty Flanders. — Cara Betty. — Ela ainda é bem atraente. — Pena que não se casou de novo! -— Mas há o capitão Barfoot. — Visita-a todas as quartas-feiras, regular como um relógio, e nunca traz a mulher.

  • Mas é culpa de Ellen Barfoot — diziam as senhoras de Scarborough. — Ela não aparece para ninguém.

  • Um homem gosta de ter um filho, todo mundo sabe disso.

  • Alguns tumores têm de ser extirpados; mas o tipo que minha mãe teve, a gente carrega anos e anos, e nunca sequer nos servem uma xícara de chá na cama.

(A sra. Barfoot era inválida.)

Elizabeth Flanders, de quem isso e muito mais foi e seria dito, era naturalmente uma viúva na flor da idade. Estava a meio cami­nho entre os quarenta e cinqüenta. Entre eles, os anos e as mágoas; a morte de Seabrook, seu marido; três filhos; pobreza; uma casa nos subúrbios de Scarborough; a ruína e possível morte do irmão, o pobre Morty — pois onde andava ele? o que era ele? Protegendo os olhos com a mão, ela olhou a estrada à procura do capitão Barfoot



  • sim, lá estava, pontual como sempre; as atenções do capitão faziam Betty Flanders desabrochar, expandiam o seu porte, coloriam de alegria seu rosto, e inundavam seus olhos três vezes ao dia, sem razão evidente.

Claro, não há mal em chorar pelo marido da gente, e a pedra anular, embora simples, era uma peça sólida, e em dias de verão, quando a viúva trazia seus meninos para se postarem ali, as pes­soas simpatizavam com ela. Os chapéus eram erguidos mais alto que de costume; esposas agarravam firme os braços dos maridos. Seabrook jazia seis pés abaixo, morto todos esses muitos anos; encerrado em três conchas; as frestas lacradas com chumbo, de modo que, se terra e madeira fossem vidro, indubitavelmente seu rosto seria visível lá embaixo, o rosto de um homem jovem, de suíças, bem-apessoado, que saíra para caçar patos e se recusara a trocar de botas.

"Comerciante desta cidade", dizia a pedra tumular; mas por que Betty Flanders resolvera designá-lo assim, se, como muitos ainda recordavam, ele apenas ficara sentado atrás de um guiché de repar­tição por três meses, e antes disso domara cavalos, participara de caçadas, cultivara uns poucos campos, e fizera algumas loucuras — contudo, ela tinha de chamá-lo de alguma coisa. Um exemplo para os meninos.

Mas então ele não fora nada? Pergunta irrespondível, pois, mes­mo que o agente funerário não feche rapidamente os olhos dos mortos, a luz, mais cedo ainda, se apaga neles. Primeiro, Seabrook fora parte dela; agora, um numa multidão, imerso na grama, do lado íngreme da colina, mil e uma pedras brancas, algumas oblíquas, outras verticais, as coroas de flores deterioradas, as cruzes de esta­nho verde, os estreitos caminhos amarelos, os lilases que em abril fenecem sobre o muro do cemitério, com odor de quarto de invá­lido. Seabrook era tudo isso; e quando, saia arrepanhada, alimen­tando as galinhas, ela escutava o sino para uma cerimônia ou fune­ral, era a voz de Seabrook — a voz dos mortos.

O galo costumava voar para o ombro dela e bicar-lhe o pescoço, de modo que agora ela carregava uma vara ou levava uma das crian­ças ao dar comida às aves.

Você não quer levar minha faca, mãe? — disse Archer.

Soando ao mesmo tempo que o sino, a voz do filho mesclava vida e morte de maneira inextrincável e excitante.



  • Mas que faca enorme para um menino tão pequeno! — disse ela. Pegou-a só para lhe dar prazer. Depois o galo saiu voando do galinheiro, e gritando que Archer fechasse a porta da cozinha para o quintal, a sra. Flanders decidiu o cardápio, chamou as galinhas, li­dou atabalhoadamente no pomar, e foi vista do outro lado da rua pela sra. Cranch, que, batendo seu capacho contra a parede, sus­pendeu-o por um momento, enquanto comentava com a sra. Page, da casa ao lado, que a sra. Flanders estava com as galinhas no pomar.

A sra. Page, a sra. Cranch e a sra. Garfit podiam ver a sra. Flanders em seu pomar porque este fazia parte de Dods Hill; e Dods Hill dominava a aldeia. Não se pode descrever com palavras a impor­tância de Dods Hill. Era a própria terra; o mundo contra o céu; o horizonte de tantas visões quantas podem ser computadas pelos que viveram toda a sua vida na mesma aldeia, deixando-a apenas uma vez para lutar na Criméia, como o velho George Garfit, debru­çado no portão de seu jardim, fumando cachimbo. O avanço do sol era medido por Dods Hill; e a tonalidade do dia tinha que contras­tar com ela para ser avaliada.

  • Agora ela está subindo a colina com o pequeno John — disse a sra. Cranch à sra. Garfit, sacudindo o capacho pela última vez e correndo atarefada para dentro de casa.

Abrindo o portão do pomar, a sra. Flanders seguiu até o topo de Dods Hill, levando John pela mão. Archer e Jacob corriam à frente ou vagueavam atrás; mas já estavam na Fortaleza Romana quando ela chegou lá, e gritavam quais os navios que se podiam ver na baía. Pois descortinava-se um panorama magnífico — atrás os pântanos, à fren­te o mar, e Scarborough inteira, de uma ponta a outra, estendendo-se plana como um quebra-cabeças. A sra. Flanders, que estava engor­dando, sentou-se nas ruínas da fortaleza e olhou em tomo.

Toda a gama das mudanças na paisagem devia ser sua conhecida; o aspecto hibernal, a primavera, o verão, o outono; as tempestades subindo do mar; os pântanos tremendo e iluminando-se quando as nuvens passavam por cima; devia ter notado a mancha vermelha onde estavam edificadas as villas, o ziguezague de linhas onde esta­vam marcando os loteamentos; e a reverberação de diamante nas pequenas estufas de vidro ao sol. Ou, se detalhes como estes lhe escapavam, talvez ela extraísse prazer da coloração dourada do mar ao anoitecer, vendo esse ouro decompor-se em moedas que rutila­vam nos seixos. Barquinhos de passeio boiavam dentro dele; o bra­ço negro do quebra-mar o armazenava. Toda a cidade era rosa e ouro; ogival; brumosa; ressonante; estridente. Havia violões desafi­nando; a multidão de passantes cheirava a piche que grudava nos saltos dos sapatos; subitamente, cabras com seus carrinhos envere­davam pelos grupos adentro. Via-se que a Corporação tinha arru­mado bem os canteiros de flores. Por vezes, o vento soprava pelos ares um chapéu de palha. Tulipas ardiam ao sol. Vários calções bufantes estendiam-se em fila. Toucas roxas orlavam rostos macios, rosados e tristes, sobre almofadas em cadeiras de rodas. Cartazes triangulares eram empurrados sobre rodinhas por homens de casa­cos brancos. O capitão George Boase apanhara um tubarão-monstro. Um lado do cartaz comunicava isso em letras vermelhas, azuis e amarelas; e cada linha terminava em pontos de exclamação de três cores diferentes.

Então havia uma razão para descer ao Aquário, onde os estores amarelos, o cheiro decomposto de amónia, as cadeiras de bambu, as mesas com cinzeiros, os peixes sinuosos, a empregada tricotando atrás de seis ou sete caixas de chocolate (muitas vezes ela ficava praticamente sozinha com os peixes horas a fio) permaneciam na memória como parte do tubarão-monstro, ele próprio não passando de um receptáculo amarelo e flácido, uma bolsa vazia num tanque. Ninguém jamais se animara com o Aquário; mas os rostos dos que emergiam rapidamente perdiam sua expressão vaga e hirta ao perceberem que somente fazendo fila se entrava no quebra-mar. Vencendo as passagens de borboleta, todos andavam uma jarda ou duas com muita animação; uns instalavam-se nesta barraca; outros naquela. Mas era afinal a banda de música que os atraía, e também aos pescadores no molhe de baixo, colocando suas vozes na mesma tonalidade dela.

A banda tocava no Quiosque Mourisco. O cartaz anunciava o número nove. Uma valsa. As mocinhas pálidas, a velha viúva, os três judeus hospedados na mesma casa, o almofadinha, o major, o co­merciante de cavalos e o cavalheiro que vivia de rendas, todos mos­travam a mesma expressão difusa e entorpecida, e pelas fendas das tábuas a seus pés podiam ver as verdes ondas do verão balouçando tranqüilas e doces em torno dos pilares de ferro do quebra-mar.

Houve um tempo em que nada disso existia (pensava o rapaz encostado à amurada). Fixem-se os olhos na saia da mulher; a cinzen­ta serve — por sobre as meias de seda cor-de-rosa. Ela vai mudando; cobre os tornozelos — os anos noventa; depois se alarga — os seten­ta; agora é de um vermelho queimado, esticada sobre uma crinolina — os sessenta; um diminuto pé preto em meias de algodão branco espia. Ainda sentada ali? Sim — ela ainda está no quebra-mar. Agora a seda está salpicada de rosas, mas de alguma forma já não a distingui­mos bem. Não há mais quebra-mar debaixo de nossos pés. A pesada carruagem pode vir sacolejando pela estrada do pedágio, mas não há quebra-mar onde parar, e como é pardo e turbulento o mar do sécu­lo XVII! Vamos ao museu. Balas de canhão; pontas de flecha; vidro romano e uma pinça, verde de azinhavre. O reverendo Jaspar Floyd os descobriu em escavações feitas por conta própria no começo dos anos quarenta no Campo Romano de Dods Hill — vê-se no papelzinho com escrita esmaecida.

E agora, o que mais vamos ver em Scarborough?

A sra. Flanders estava sentada na elevação circular do Campo Romano, remendando os calções de Jacob; apenas erguia a vista quando molhava de saliva a ponta do fio de linha, ou quando al­gum inseto batia nela, zumbia em seu ouvido e partia.

John corria por ali jogando no colo dela grama e folhas mortas, que chamava de 'chá', e ela as arranjava metodicamente, mas distraída, jun­tando as pontas floridas de capim, pensando que Archer ficara nova­mente acordado a noite passada; o relógio da igreja estava dez ou 13 minutos adiantado; ela queria poder comprar a propriedade dos Garfits.



  • Isso é uma pétala de orquídea, Johnny. Veja as manchinhas castanhas. Venha, querido. Temos de ir para casa. Ar-cher! Ja-cob!

  • Ar-cher! Ja-cob! — pipilou Johnny imitando-a, girando nos saltos dos sapatos, espalhando grama e folhas que tinha nas mãos, como se estivesse semeando. Archer e Jacob pularam de trás do montinho em que estavam agachados com intenção de saltar sobre a mãe e assustá-la, e todos começaram a voltar lentamente para casa.

  • Quem é aquele? — perguntou a sra. Flanders protegendo os olhos com a mão.

  • O velho na estrada? — disse Archer olhando para baixo.

  • Não é um velho — respondeu a sra. Flanders. — Ele é... Não, não é... Pensei que fosse o capitão, mas é o sr. Floyd. Venham, meninos.

  • Ora, o chato do sr. Floyd! — disse Jacob, cortando uma ponta de cardo com um golpe, pois sabia que o sr. Floyd ia dar-lhes aulas de latim, coisa que realmente veio a fazer durante três anos, em suas horas livres, apenas por bondade, pois não havia na vizinhança ou­tro cavalheiro a quem a sra. Flanders pudesse pedir tal coisa, e os meninos mais velhos já a tinham ultrapassado em conhecimentos, e tinham de ser preparados para o colégio, e isso era mais do que a maioria dos clérigos teria feito, vir depois do chá ou recebê-los nos seus próprios aposentos — sempre que conseguia dar um jeito, pois a paróquia era muito grande e, como seu pai antes dele, o sr. Floyd visitava cottages a milhas de distância, nos pântanos, e assim como o velho sr. Floyd, era um grande erudito, o que tornava tudo absolutamente inverossímil — ela jamais sonhara com uma coisa dessas. Deveria ter adivinhado? Mas, além de ser erudito, ele era oito anos mais novo do que ela. Betty Flanders conhecia sua mãe — a velha sra. Floyd. Tomava chá com ela. E foi na mesma noite em que voltava de um chá com a velha sra. Floyd que encontrou no vestíbulo aquele bilhete e o levou para a cozinha quando foi entre­gar o peixe a Rebeca, pensando tratar-se de um aviso sobre os meninos.

  • Foi o sr. Floyd quem trouxe pessoalmente, não foi? Acho que o queijo deve estar no pacote, no vestíbulo, ah, no vestíbulo... — pois ela estava lendo. Não, não era a respeito dos meninos.

  • Sim, certamente é o bastante para os bolos de peixe amanhã. Talvez o capitão Barfoot... — Ela chegara à palavra 'amor'. Foi ao jardim e leu, recostada a uma nogueira para se firmar. Seu peito subia e descia. Seabrook apareceu nítido diante dela. Betty Flanders sacudiu a cabeça e olhava através das lágrimas as folhinhas balou­çando contra o céu amarelo quando três gansos, meio correndo meio voando, dispararam pelo gramado com Johnny atrás a brandir uma vara.

A sra. Flanders ficou vermelha de raiva.

  • Quantas vezes já lhe disse? — gritou, agarrou-o e jogou fora a vara.

  • Mas eles escaparam! — gritou o menino lutando para libertar-se.

  • Você é um menino impossível. Eu lhe disse uma vez, disse milhares de vezes. Não quero você perseguindo os gansos! — e amas­sando a carta do sr. Floyd, segurou Johnny firmemente e tangeu os gansos de volta ao pomar.

"Como é que eu poderia pensar em casamento!", disse para si mesma, amargamente, enquanto prendia o portão com um pedaço de arame. Jamais gostara de homens de cabelo ruivo, pensou, lem­brando a aparência do sr. Floyd, naquela noite quando os meninos tinham ido para a cama. E empurrando para o lado sua caixa de costura, puxou o mata-borrão para junto de si e releu a carta do sr. Floyd, e seu peito subia e descia quando chegou à palavra 'amor', mas não tão depressa dessa vez, pois via Johnny a perseguir gansos, e sabia que era impossível casar-se com quem quer que fosse — muito menos o sr. Floyd, que era tão mais novo do que ela, mas um homem simpático e, além disso, erudito.

"Caro sr. Floyd", escreveu. "Será que esqueci o queijo?", espan­tou-se, depondo a caneta. Não, dissera a Rebeca que o queijo esta­va no vestíbulo. "Estou muito surpresa..." escreveu.

Contudo, a carta que o sr. Floyd encontrou na mesa ao acordar cedo na manhã seguinte não começava com "Estou muito surpre­sa", e era uma carta tão maternal, respeitosa, inconseqüente, apreen­siva, que ele a guardou por muitos anos; muito depois do seu casa­mento com a srta. Wimbush, de Andover; muito depois que ele deixara a aldeia. Pois que solicitou uma paróquia em Sheffield, que lhe foi dada; e mandando chamar Archer, Jacob e John para despe­dir-se, disse que escolhessem o que quisessem de seu gabinete, como lembrança dele. Archer escolheu um cortador de papel, porque não gostava de escolher coisas boas demais; Jacob escolheu as obras completas de Byron em um volume. John, ainda muito jo­vem para uma escolha apropriada, optou pelo gatinho do sr. Floyd, o que seus irmãos consideraram um absurdo, mas o sr. Floyd o defendeu quando o menino lhe disse:

— Ele tem pêlo igual ao seu.

Então o sr. Floyd falou sobre a Marinha Real (para onde Archer iria); e sobre o Rugby (para onde Jacob iria); e no dia seguinte ganhou uma bandeja de prata e partiu — primeiro para Sheffield, onde encontrou a srta. Wimbush, que estava de visita ao tio, depois para Hackney — e então para Maresfield House, da qual se tornou diretor, e finalmente, como editor de uma série muito conhecida de Biografias Eclesiásticas, retirou-se para Hampstead com mulher e filha, e pode ser visto seguidamente alimentando patos em Leg of Mutton Pond. Quanto à carta da sra. Flanders — quando ele a pro­curou recentemente, não conseguiu encontrá-la, e não quis per­guntar à esposa se a guardara. Encontrando Jacob em Picadilly há pouco tempo, reconheceu-o em três segundos. Mas Jacob crescera, tornando-se rapaz tão distinto, que o sr. Floyd não quis interpelá-lo na rua.


  • Meu Deus — exclamou a sra. Flanders quando leu no Scarborough and Harrogate Courier que o rev. Andrew Floyd, etc., etc., se tornara diretor de Maresfield House — esse tem de ser o nosso sr. Floyd.

Uma claridade baça descia sobre a mesa. Jacob servia-se de ge­léia; o carteiro falava com Rebeca na cozinha; uma abelha zumbia em torno da flor amarela que cabeceava na janela aberta. Todos estavam vivos, enquanto o pobre sr. Floyd se tornava diretor de Maresfield House.

A sra. Flanders ergueu-se, foi até o guarda-fogo da lareira e aca­riciou Topázio na nuca, atrás das orelhas.



  • Pobre Topázio — disse (porque o gatinho do sr. Floyd agora era um gato muito velho, um pouco de sarna entre as orelhas, e um dia desses teriam de matá-lo).

  • Pobre, velho Topázio — disse a sra. Flanders quando o gato se esticou ao sol; sorriu então, pensando em como o mandara cas­trar, e como achava feio cabelo ruivo em homens. Sorrindo ainda, voltou para a cozinha.

Jacob jogou um lenço bastante sujo sobre o rosto. E subiu as escadas para seu quarto.

Besouro morre devagar (era John quem colecionava besouros). Mesmo no segundo dia as pernas deles ainda se mostravam flexí­veis. As borboletas, porém, estavam mortas. Um bafo de ovos po­dres liquidara as pálidas amarelas que vinham como doidas pelo pomar subindo para Dods Hill, depois dirigindo-se ao pântano, num momento ocultas atrás de um arbusto de tojo, noutro esvoa­çando em desordem ao sol escaldante. Uma fritilária aquecia-se numa pedra branca do Campo Romano. Do vale subia o som dos sinos da igreja. Todos comiam rosbife em Scarborough àquela hora; pois era domingo quando Jacob apanhou as pálidas amarelas no campo de trevos, a oito milhas de casa.

Rebeca pegou na cozinha a mariposa cabeça-de-caveira.

Um forte cheiro de cânfora saía das caixas de borboletas.

Misturado ao cheiro de cânfora sentia-se o odor inconfundível de algas. Fitas fulvas pendiam da porta. O sol dava nelas em cheio.

As asas anteriores da mariposa que Jacob segurava estavam niti­damente marcadas por sinais amarelados em forma de rins. Mas não havia meia-lua na asa posterior. A árvore tombara na noite em que ele a apanhara. Subitamente tinham escutado uma série de ti­ros de pistola nas profundezas da mata. Sua mãe o tomara por um ladrão quando ele chegara tarde em casa. O único dos filhos que nunca obedecia, disse ela.

O Morris designava a mariposa como "um inseto muito local encontrado em lugares úmidos e pantanosos". Mas às vezes o Morris se engana. E Jacob, pegando uma caneta muito fina, de vez em quan­do fazia uma correção na margem do livro.

A árvore tombara, embora fosse noite sem vento, e a lanterna, pousada no chão, iluminara as folhas ainda verdes e as folhas já mortas da faia. Era um lugar seco. E a asa inferior vermelha girara em torno da luz, reverberara e sumira. A asa inferior vermelha não retornara mais, embora Jacob esperasse. Era depois das doze quan­do atravessou o relvado e viu a mãe no quarto iluminado, jogando paciência, ainda acordada.

— Mas como você me assustou! — exclamara. Já estava pensan­do que algo de terrível houvesse acontecido. Ainda por cima, acor­dara Rebeca, que tinha de levantar tão cedo.

Jacob ficou ali parado, pálido, emergindo do fundo das trevas, no quarto aquecido, piscando na luz.

Não, Tião podia ser uma de asa posterior com bordas cor de palha.

A máquina de ceifar estava sempre mal lubrificada. Barnet a dirigia debaixo da janela de Jacob, e ela rangeu — rangeu e matra­queou pelo gramado, e rangeu de novo.

Agora o céu se cobria de nuvens.

O sol voltou, ofuscando.

Caiu como um olho sobre os estribos, depois, rápido, mas ainda assim muito suave, pousou na cama, no despertador e na caixa aberta de borboletas. As pálidas amarelas tinham voado como doidas so­bre o pântano, ziguezagueando através do campo de trevos roxos. As fritilárias exibiam-se ao longo das fileiras de cerca-viva. As azuis instalavam-se sobre pequenos ossos que jaziam na turfa, e as damas- pintadas e as borboletas-pavão se banqueteavam com entranhas san­grentas que um falcão deixara cair. Milhas longe de casa, numa cova entre cardos debaixo de uma ruína, ele encontrara as poligônias. Vira uma almirante-branca girando mais e mais alto em torno de um carvalho, mas nunca a apanhara. A velha moradora de um cottage, que vivia sozinha bem no topo, contara-lhe de uma borboleta púr­pura que vinha ao seu jardim todos os verões. E contou-lhe que os filhotes de raposa brincam nos tojos de manhãzinha. E se a gente olhasse para fora ao amanhecer, poderia sempre ver dois texugos. Às vezes eles se dão socos como dois menininhos.

— Você não vai longe esta tarde, Jacob — comunicou sua mãe metendo a cabeça pela porta — porque o capitão vem dizer adeus. — Era o último dia das férias de Páscoa.

Quarta-feira era o dia do capitão Barfoot. Ele se vestia muito bem, de saija azul, pegava a bengala com ponta de borracha — pois era manco, e faltavam dois dedos de sua mão esquerda, perdidos em combate pela pátria — e saía de casa com seu bastão exatamen­te às quatro da tarde.

Às três o sr. Dickens, o homem encarregado da cadeira de rodas, vinha ver a sra. Barfoot.

— Mova a minha cadeira — diria ela ao sr. Dickens depois de sentar-se na esplanada por 15 minutos. E em seguida: — Assim está bem, sr. Dickens. — Ao primeiro comando ele procuraria o sol; ao segundo deixaria a cadeira na faixa de claridade.

Sendo ele próprio um velho morador da aldeia, tinha muito em comum com a sra. Barfoot — filha de James Coppard. O bebedou­ro onde a West Street se encontra com a Broad Street é presente de James Coppard, que foi prefeito ao tempo do jubileu da rainha Vitória, e Coppard está retratado nas carretas de água, por cima de vitrines de lojas, e nas persianas de zinco em janelas de escritórios de advogados. Contudo, EUen Barfoot jamais visitara o Aquário (embora tivesse conhecido muito bem o capitão Boase, que apa­nhou o tubarão) e quando os homens passavam com cartazes, olha­va-os com desdém, pois sabia que nunca veria os pierrôs, os irmãos Zeno, ou Daisy Budd e sua trupe de focas amestradas. Pois Eilen Barfoot em sua cadeira de rodas na esplanada era uma prisioneira — uma prisioneira da civilização —, todas as grades de sua jaula caindo oblíquas na esplanada em dias de sol, quando a prefeitura, as lojas de tecidos, a piscina e o Memorial Hall riscavam o chão de sombras.

Sendo ele próprio um velho morador, o sr. Dickens ficaria em pé um pouco atrás dela, fumando seu cachimbo. Ela lhe faria per­guntas — quem eram as pessoas — quem cuidava agora da loja do sr. Jones — ou sobre a estação — e se a sra. Dickens tentara não importa o quê — palavras brotando de seus lábios como migalhas de biscoito seco.

Ela cerrou os olhos. O sr. Dickens foi dar uma volta. As emoções de homem não o tinham abandonado inteiramente, embora, vendo-o aproximar-se, a gente notasse uma botina preta abotoada cambaleando diante da outra; uma sombra entre o colete e as cal­ças; e ele avançava inseguro, como um cavalo velho subitamente desatrelado dos varais, sem carroça para puxar. Mas, enquanto o sr. Dickens tragava e soprava outra vez a fumaça, em seus olhos se notavam as emoções de homem. Pensava em como agora o capi­tão Barfoot se dirigia para Mount Pleasant; o capitão Barfoot, seu patrão. Pois em casa, na saleta por cima das estrebarias com o ca­nário na janela e as mocinhas na máquina de costura, e a sra. Dickens entre os reumáticos — em casa, onde lhe davam pouca importância, a idéia de ser empregado do capitão Barfoot o sus­tentava. Gostava de pensar que, enquanto conversava com a sra. Barfoot na frente de casa, estava ajudando o capitão a ir ao encon­tro da sra. Flanders. Ele, um homem, cuidava da sra. Barfoot, uma mulher.

Voltando-se, viu que ela conversava com a sra. Rodgers. Voltando-se outra vez, notou que a sra. Rodgers se afastara. Então regres­sou para junto da cadeira de rodas, e a sra. Barfoot lhe perguntou as horas, e ele tirou seu grande relógio de prata e disse as horas, muito solícito, como se soubesse muito mais do que ela a respeito da hora e de todas as coisas. A sra. Barfoot, porém, sabia que o capitão Barfoot estava indo ao encontro da sra. Flanders.

Na verdade ele se dirigia para lá, tendo saído do bonde, e vendo Dods Hill a sudeste, verdejando contra um céu azul difuso pela cor da poeira no horizonte. Ele escalava a colina. Apesar de manco, havia algo de militar na sua maneira de aproximar-se. Saindo do portão da reitoria, a sra. Jarvis o viu chegar, e seu cão terra-nova, Nero, abanou o rabo de um lado para outro.



  • Oh, capitão Barfoot! — exclamou a sra. Jarvis.

  • Bom-dia, sra. Jarvis — disse o capitão.

Andaram juntos, e quando chegaram ao portão da sra. Flanders, o capitão Barfoot tirou o boné de tweed e curvando-se muito cortês, disse:

E deixou-a sozinha.

Ela tencionava passear pelo pântano. Estivera mais uma vez an­dando pelo seu gramado tarde da noite? Tamborilara outra vez na janela fechada, exclamando:



  • Olhe a lua, olhe a lua, Herbert!

E Herbert olhava a lua.

Quando se sentia infeliz, a sra. Jarvis passeava pelo pântano, al­cançando uma certa ravina em forma de pires, embora sempre qui­sesse seguir até um cume mais distante; lá sentava-se tirando de baixo da capa o livrinho escondido, lendo algumas linhas de poe­sia, olhando em torno. Não era muito infeliz; como já tivesse 45 anos, talvez nunca chegasse a ser muito infeliz, quer dizer, desespe­radamente infeliz, e abandonar o marido, e arruinar a carreira de um bom homem, como por vezes pensava fazer.

Não é preciso dizer que riscos uma esposa de clérigo assumia ao an­dar sozinha pelo pântano. Baixa, morena, olhos acesos, uma pena de faisão no chapéu, a sra. Jarvis era exatamente o tipo de mulher capaz de perder a fé de tanto andar pelo pântano — confundindo Deus com o universo —, mas ela não perdia a fé, não abandonava o marido, jamais lia seu poema até o fim, e continuava a passear pelo pântano, olhando a lua através dos olmos, e sentindo, quando sentava na relva bem acima de Scarborough... Sim, sim, quando a cotovia voa alto; quando, movendo-se um passo ou dois à frente, as ovelhas comem a turfa e fazem soar os cincerros; quando a brisa começa a soprar e depois morre, deixan­do o rosto beijado; quando os barcos no mar abaixo parecem se atra­vessar uns aos outros e passam dirigidos por uma mão invisível; quan­do há estrondos ao longe no ar, cavaleiros fantasmas galopando, depois de repente cessando; quando o horizonte flutua, azul, verde, comovi­do — então, com um suspiro, a sra. Jarvis pensava consigo mesma, "se ao menos alguém pudesse me dar... se eu pudesse dar a alguém...". Mas ela não sabe o que deseja dar, nem quem poderia dá-lo a ela.


  • A sra. Flanders saiu faz poucos minutos, capitão — disse Rebeca. O capitão Barfoot sentou-se para esperar. Descansando os cotovelos nos braços da poltrona, colocando uma mão sobre a ou­tra, estendendo a perna manca, e pondo ao lado dela a bengala com ponta de borracha, ficou sentado absolutamente imóvel. Havia nele algo de rígido. Estaria refletindo? Provavelmente os mesmos pensa­mentos, outra vez e sempre. Mas seriam pensamentos 'bons', pen­samentos interessantes? Era um homem de caráter; tenaz e fiel. Mulheres teriam sentido "Aqui há lei. Aqui existe ordem. Precisa­mos valorizar esse homem. Ele estará na ponte do navio esta noi­te", e, passando-lhe a xícara ou o que fosse, entregar-se-iam a vi­sões de naufrágio e desastre, em que todos os passageiros sairiam cambaleando das cabines, e lá estaria o capitão, abotoando a jaque­ta, lutando com a tempestade, vencido por ela, mas por ninguém mais. "Mas eu tenho uma alma", refletiria a sra. Jarvis quando subi­tamente o capitão assoasse o nariz no seu grande lenço colorido, "e é a estupidez desse homem que causa tudo isso, e a tempestade é tão minha quanto dele"... era assim que a sra. Jarvis refletiria quan­do o capitão entrasse para visitá-los e encontrasse Herbert fora de casa, e passasse duas ou três horas quase em silêncio na poltrona. Betty Flanders, porém, não pensava em nada parecido.

— Oh, capitão — disse a sra. Flanders entrando precipitadamente na sala. — Tive de procurar o homem do Barker... Espero que Rebeca... Espero que Jacob...

Estava muito ofegante, mas não muito aborrecida; quando depôs a escova para lareira que comprara do vendedor de óleo, co­mentou que estava quente, abriu mais a janela, alisou uma toalha, pegou um livro, como se se sentisse muito confiante, muito encan­tada com o capitão, e muitos anos mais nova do que ele. Com efei­to, no avental azul, não parecia ter mais de 35. Ele estava bem além dos cinqüenta.

Ela moveu as mãos sobre a mesa; enquanto Betty seguia tagare­lando, o capitão mexia a cabeça de um lado para outro, emitindo pequenos ruídos, perfeitamente à vontade — depois de vinte anos.


  • Bem — disse ele finalmente —, tive notícias do sr. Polegate. O sr. Polegate lhe dissera que não podia aconselhar nada melhor

do que mandar um rapaz a uma das universidades.

  • O sr. Floyd esteve em Cambridge... Não, Oxford... Bem, uma das duas — disse a sra. Flanders.

E olhou pela janela. Janelinhas e lilases e o verde do jardim refletiram-se em seus olhos.

  • Archer está indo muito bem — disse. — Tive informações muito boas pelo capitão Maxwell.

  • Deixarei a carta aqui, para que a mostre a Jacob — disse o capitão, recolocando-a desajeitadamente no envelope.

  • Jacob está caçando borboletas, como sempre — disse a sra. Flanders irritada, mas surpresa com um súbito pensamento. — Natu­ralmente o críquete começa na semana que vem.

  • Edward Jenkinson entregou sua demissão — disse o capitão Barfoot.

  • Então o senhor vai presidir o Conselho? — exclamou a sra. Flanders olhando-o abertamente no rosto.

  • Bem, quanto a isso... — começou o capitão Barfoot, ajeitando-se mais fundo na poltrona.

Assim Jacob Flanders foi para Cambridge em outubro de 1906.




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