O rei do brasil



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CHATÔ:


O REI DO BRASIL

FERNANDO MORAIS


Copyright (c) 1994 by Fernando Morais
Capa e projeto gráfico:

Hélio de Almeida


Foto da capa:

José Medeiros/Arquivo O Estado de Minas

Tratamento gráfico da capa:

Nelson Mielnik / Graphbox


Preparação:

Marcos Luiz Fernandes


Índice remissivo:

Beatriz Calderari de Miranda


Revisão:

Cecilia Ramos

Eliana Antonioli

Ana Maria Barbosa

Carmen S. da Costa

2 ª edição


5ª reimpressão

1ª edição (1994) com 1 reimpressão


Dados Internacionais de Catalogação na Publicaçãu (cie)

(Câmara Brasileira do Livro, sn, Brasil)


Morais, Fernando,1946-

Chatô : o rei do Brasil, a vida de Assis Chateau-

briand / Fernando Morais. São Paulo : Companhia das

Letras,1994.


Índices para catálogo sistemático:

7. Brasil : Jornatistas : Biografìa 420.5

1996

Para Marina


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André Malraux alimentava a ilusão de escrever a biografia do Chi-

quinho Matarazzo, mas eu consegui demovê-lo dessa rematada bes-

teira. Acho que, como vingança, tentou escrever um livro sobre

a minha vida, mas acabou desistindo. Depois foi a vez do padre

Dutra, que cercava parentes meus pelas esquinas, em busca de in-

formações para compor um romance sobre a minha vida. Quem

também andou bisbilhotando as minhas misérias, com planos de

imortalizar-me em papel, foi a princesa Bibescu, da Romênia, edi-

tora e escritora. Os três fracassaram, mas a todos eu havia feito

uma modesta exigência: a obra teria que começar descrevendo a ce-

na em que eu e minha filha Teresa aparecíamos nus, sentados na foz

do rio Coruripe, comendo bispos portugueses, tal como fizeram

meus ancestrais caetés, quatro séculos atrás. O deslumbrante pi-

quenique, que já povoou alguns delirios meus, seria a forma ideal

de divulgar a origem do meu sangue amerindio na Europa.

Assis Chateaubriand

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Inteiramente nus e com os corpos cuidadosamente pintados de verme-

lho e azul, Assis Chateaubriand e sua filha Teresa estavam sentados no chão,

mastigando pedaços de carne humana. Um enorme cocar de penas azuis de

arara cobria os cabelos grisalhos dele e caía sobre suas costas, como uma

trança. O excesso de gordura em volta dos mamilos e a barriga flácida, es-

condendo o sexo, davam ao jornalista, a distância, a aparência de uma velha

índia gorda. Pai e filha comiam com voracidade os restos do bispo Pero Fer-

nandes Sardinha, cujo barco adernara ali perto, na foz do rio Coruripe, quan-

do o religioso se preparava para retornar à pátria portuguesa. Quem apuras-

se o ouvido poderia jurar que ouvia, vindos não se sabe de onde, acordes do

Parsifal, de Wagner. No chão, em meio aos despojos de outros náufragos,

Chateaubriand viu um exemplar do Diário da Noite, em cujo cabeçalho era

possível ler a data do festim canibal:15 de junho de 1556. De repente o dia

escureceu completamente e ele sentiu algo úmido e frio encostado em seu

pescoço.

O delírio fora interrompido pelo gesto do enfermeiro que esfregava um

chumaço de algodão embebido em iodo na garganta do paciente. Ao lado, o

cirurgião duvidara que aquele homem - o interno número 4695 - tivesse

67 anos, como informava a ficha do hospital. A pele alva era lisa, quase fe-

minina, sem rugas nem estrias, contrastando com o pescoço pequeno e gros-

so, típico de nordestino. Através da janela de dez por dez centímetros corta-

da no centro do lençol cirúrgico que cobria o corpo da cabeça aos pés, só era

possível ver, além do pescoço, as pontas salientes das clavículas. O rosto es-

tava inteiramente oculto pelo lençol, sob o qual se desenhava o formato da

máscara de baquelita que envolvia o nariz e a boca do paciente, dando ao

perfil a aparência de um focinho. O tecido branco cobria parte de um tubo

de borracha sanfonada que estava ligado a um tambor de aço, de cujo inte-

rior o único pulmão vivo do doente tentava desesperadamente sugar oxigê-

nio para manter o organismo funcionando. A respiração estava ficando crí-

tica, e se a cânula da traqueostomia não fosse introduzida logo, as chances de

sobrevivência do paciente seriam nulas. O indicador e o polegar esquerdos

do médico esticaram a pele abaixo do pomo-de-adão, escolhendo o anel da

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FERNANDO MORAIS


traquéia que seria secionado pela incisão. Estendida para o lado, num gesto

mecânico, a mão direita recebeu o bisturi, cuja lâmina em forma de meia-lua

brilhava à luz forte do refletor preso no teto. Quando o cirurgião encostou o

aguçado fio de navalha na garganta do doente, acabou a luz do hospital e a

sala foi tomada por completa escuridão.

- Puta que pariu! - o médico levantou a mão direita num solavanco,

como se tivesse levado um choque. - Mais um segundo e eu degolava o ho-

mem!


Indiferente ao palavrão, uma enfermeira saiu pela sala cirúrgica tatean-

do o ar em busca da maçaneta da porta:

- Vou mandar ligar o gerador de emergência, doutor.

Antes que ela conseguisse sair, a luz voltou junto com o ruído de um ge-

rador que começava a funcionar no porão da clínica. Mal-humorado, o mé-

dico dava ordens:

- Esterilizem os instrumentos de novo. Enfermeiro, me dê mais iodo,

vamos começar tudo outra vez.

Não houve tempo para começar nada. O gerador engasgou uma, duas

vezes, a luz piscou e apagou de novo. O médico desabafou, a voz filtrada pe-

la máscara de linho que cobria metade do seu rosto:

- Não é possível! Alguém rogou praga neste sujeito. Se ele escapar des-

ta, não morre nunca mais.

Inerte sobre a mesa de operação, imerso em coma profundo, jazia o jor-

nalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, um dos homens

mais poderosos do Brasil. Ele fora transportado para a elegante clínica Dou-

tor Eiras, no bairro de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, na manhã do

dia anterior, 26 de fevereiro de 1960, sob a falsa suspeita de estar sofrendo

um infarto. O diagnóstico errado levou-o diretamente ao pronto-socorro car-

diológico. Ao tentar reanimá-lo, um jovem médico de plantão comprimiu-

lhe com tal força o tórax que uma das costelas trincou. Chateaubriand não

reagiu à agressão, nem deu qualquer sinal de que fosse recobrar os sentidos.

Assustado com a responsabilidade de ter nas mãos a vida de alguém tão im-

portante, o estagiário pediu que chamassem com urgência o próprio dono

do hospital. Meia hora depois chegaria um homem alto, magro, de nariz

comprido, aparência melancólica e ombros curvados - o médico Abrahão

Ackerman, um dos sócios da clínica e o mais famoso e festejado neurocirur-

gião brasileiro.

Ackerman cruzou cabisbaixo a pequena multidão de repórteres, políti-

cos e mulheres elegantes que se amontoavam nos jardins em busca de notí-

cias do ilustre moribundo. Atravessou sozinho a recepção, sumiu em uma

porta e minutos depois reapareceu vestido de guarda-pó branco, levando na

mão direita uma maleta de couro negro. Caminhou até o setor de cardiolo-
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CHATÔ, O REI DO BRASIL


gia e já encontrou Chateaubriand cercado por uma dúzia de médicos e en-

fermeiros. Sem cumprimentar ninguém, ordenou:

- Tirem a roupa dele.

Enquanto os enfermeiros se esforçavam para mover aquele corpo iner-

te e despi-lo do terno de linho branco, Ackerman tirou da malinha um pe-

queno instrumento de metal brilhante, como uma colher de café de cabo des-

proporcionalmente longo. Deu dois passos até a cama e iniciou um exame

clínico sumário. Ao abrir as pálpebras do doente, deparou com duas pupilas

baças que pareciam anunciar que aqueles olhos jamais veriam de novo o que

quer que fosse. Mexeu a própria cabeça alguns centímetros para o lado, pa-

ra permitir a incidência da luz do refletor sobre os olhos opacos,arregalados

por seus dedos. Os cantos da boca de Ackerman caíram, dando à atenta e si-

lenciosa platéia o primeiro indício de que a coisa ali não ia bem. Deu um pas-

so, parou diante dos joelhos de Chateaubriand e martelou de leve sob cada

uma das rótulas com o instrumento de metal, testando os reflexos: nada. Ne-

nhum músculo se movia, nada respondia ao estímulo. Tirou um estetoscó-

pio da maleta, fechou os olhos como se aquilo o ajudasse a ouvir melhor e

auscultou o peito pálido do jornalista em vários lugares. Voltou à mesa late-

ral e olhou radiografias e papéis com resultados de exames. Com o ar cada

vez mais preocupado, agachou diante da sola dos pés do doente e passou a

dar batidas suaves na junção dos dedos com a planta dos pés, horizontal-

mente, na expectativa de que, como acontece com os macacos e os bebês re-

cém-nascidos, os dedos agarrassem instintivamente o estilete roliço. Tentou

em vão uma, duas, várias vezes, ora num pé, ora no outro. Derrotado pela

inércia do corpo, Ackerman pôs-se de pé e, grave, anunciou o diagnóstico:

- Infelizmente não foi um infarto. Ele apresenta sinal de Babinski nos

dois pés. Isso significa que o doutor Assis Chateaubriand sofreu uma lesão

neurológica grave, provavelmente uma trombose dupla, que afetou seu cé-

rebro bilateralmente. Tudo indica que ele esteja tetraplégico. O edema pare-

ce ter provocado também um distúrbio respiratório profundo: um dos pul-

mões já não funciona. Ele não vai sobreviver.

Os raros amigos íntimos e os auxiliares mais próximos de Chateau-

briand já suspeitavam, nos últimos meses de 1959, que sua saúde não ia bem.

Exímio remador e nadador, avesso à bebida e aos cigarros - que detestava

-, gabava-se às gargalhadas de ter uma "saúde muar ". Em setembro daque-

le ano, no entanto, ele surpreendera a todos com um gesto que pareceu um

presságio do que lhe aconteceria cinco meses depois: para espanto generali-

zado, assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do con-

trole acionário do maior império de comunicações jamais visto na América
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FERNANDO MORAIS


Latina, os Diários e Emissoras Associados. A imprensa internacional noti-

ciou que um "milionário excêntrico" havia dado um conglomerado de no-

venta empresas de presente a trabalhadores: dezenas de jornais, as princi-

pais estações de televisão, 28 estações de rádio, as duas mais importantes

revistas para adultos do país, doze revistas infantis, agências de notícias,

agências de propaganda, um castelo na Normandia, nove fazendas produti-

vas espalhadas por quatro estados brasileiros, indústrias químicas e labora-

tórios farmacêuticos, estes encabeçados pelo poderoso Schering. Dias antes

do anúncio da partilha ele, que nove anos antes tinha sido o pioneiro na ins-

talação da televisão na América Latina, inaugurara a Tv Piratini, em Porto

Alegre, a sexta de sua cadeia e a primeira do Cone Sul. A colossal rede de co-

municações se estendia do alto do rio Madeira, nos confins da selva amazô-

nica, até Santa Maria da Boca do Monte, nas vizinhanças do Uruguai. Para

alguns, a doação de um patrimônio tão valioso a empregados era "mais uma

loucura do Chatô", como era conhecido. Outros imaginavam que, vendo a

morte se aproximar, Chateaubriand decidira se antecipar ao destino e resol-

ver em vida o problema da sucessão nas suas empresas.

Embora ele jamais admitisse ter qualquer problema de saúde, os amigos

comentavam discretamente, entre si, que os sintomas de distúrbios se torna-

vam cada vez mais freqüentes. No começo de fevereiro o jornalista Carlos

Castello Branco, colunista de sua revista O Cruzeiro, cruzou com o patrão na

ante-sala da diretoria do Banco Nacional de Minas Gerais e ouviu o comen-

tário do dono do banco, o mineiro José de Magalhães Pinto:

- Está acontecendo alguma coisa com o Chateaubriand. Ele engordou

muito ultimamente e está com um ar meio aparvalhado. Na idade dele, isso

pode ser um mau sinal.

A amiga paulista Maria da Penha Miiller Carioba chamou a atenção do

jornalista mais de uma vez para o inchaço no rosto, os esquecimentos imper-

doáveis em alguém de memória tão atilada e a repetição desconcertante de

um antigo cacoete: os cochilos em público. Ao longo da vida, espetáculos

teatrais e discursos solenes sempre funcionaram como sonífero infalível para

Chateaubriand, que costumava deixar de sobreaviso Irany, o fiel secretário

particular que ele arrastava para onde fosse, a fim de evitar vexame maior:

- Enquanto for apenas um cochilo, deixe-me dormir em paz que eu

acordo logo. Quando eu começar a roncar muito alto, chute minha canela

sob a mesa.

Agora, entretanto, ele ressonava ao despachar com auxiliares, cochilava

durante a assinatura de contratos importantes, já dormira até no meio de

uma audiência com o presidente da República. Interrompia grosseiras des-

composturas nos subalternos com o queixo enfiado no peito, olhos fechados,

roncando - à sua frente, surpreso, o funcionário não sabia se ia embora ou

se esperava de pé até que o patrão acordasse para encerrar o sermão. Depois


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CHATÔ, O REI DO BRASIL


vieram as vertigens. Em ambientes abertos ele andava normalmente, mas os

espaços fechados, estreitos, faziam-no caminhar como um bêbado. Para ven-

cer os quinze metros que iam do seu caótico gabinete ao elevador do prédio

de O Jornal, na rua Sacadura Cabral, no centro do Rio de Janeiro, perdia o

prumo e camboleava, quase trombando nas paredes. Os que suspeitavam

de problemas circulatórios ou vasculares e se atreveram a aconselhar uma

visita ao médico tiveram o desprazer de ver um bicho raivoso. Nesses mo-

mentos ele se transtornava. Rangia os dentes com tal violência que o ruído

chegava a incomodar o interlocutor; sapateava os pequenos pés no chão e

berrava palavras metralhadas com um sotaque nordestino tão carregado que

poucos entendiam o que dizia. Aí também era possível conhecer outro ses-

tro peculiar - quando queria agradar, adoçar, o tratamento era "vosmecê".

Para ofender, "senhor" ou "senhora", sempre:

- O senhor se meta com a sua vida. Não preciso de médicos e muito

menos de conselhos.
Reconhecia a grosseria e recuava às gargalhadas:

- Estou muito bem, imagine. Quem pode atestar minha boa saúde são

as mulheres. As mulheres! Não se preocupe, eu vou morrer no ar, vou explo-

dir dentro de um avião, em pleno ar!

Indiferente às advertências, seguia como se nada o ameaçasse. Dividia

o tempo entre a embaixada do Brasil em Londres - cargo para o qual havia

sido nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek no final de 1957 - e o

comando de seus negócios no Rio e em São Paulo. Para desconforto do mi-

nistro das Relações Exteriores, seu velho amigo Horácio Lafer, o tempo que

passava no Brasil era infinitamente maior que o dedicado à embaixada. Al-

tos funcionários de carreira do Itamaraty, inconformados com a entrega de

um dos mais importantes postos da Chancelaria a um estranho à corporação,

eram os primeiros a ironizar seu desempenho:

- Quem somar os dias que Chateaubriand passou em Londres nesses

três anos descobrirá que na verdade ele é embaixador do Brasil na Inglater-

ra há apenas três meses - debochavam -, mas o Foreign Office prefere as-

sim. Estando no Brasil ele causa menos constrangimentos à Chancelaria bri-

tânica.


Sua impaciência em permanecer na Inglaterra o tempo exigido pelo car-

go fez com que, sendo ele o embaixador de direito, o posto fosse exercido de

fato pelo ministro-conselheiro Antônio Borges Leal Castello Branco, irregu-

laridade freqüentemente denunciada pelos jornais que lhe faziam oposição.

Chateaubriand dedicava a estas e outras críticas o mais olímpico desprezo.

No máximo, repetia o clichê:

- Isso é coisa de comunistas, de índios botocudos. Gentinha atrasada,

esses jornalistas brasileiros. Pensam como africanos...


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#
FERNANDO MORAIS


Por mais tentadores que fossem os encantos da "Corte de Saint James",

como ele se referia à Inglaterra, era a sedução exercida pela política brasilei-

ra que o atraía permanentemente para o eixo Rio-São Paulo. Sobretudo na-

quele final de 1959: no ano seguinte haveria eleições presidenciais e em pou-

cos meses seria inaugurada a chamada "obra do século "- Brasília, a nova

capital brasileira, uma cidade nascida do nada, construída no meio do mato

em três anos por Kubitschek. Mesmo sendo devedor ao presidente por sua

nomeação para um dos mais cobiçados empregos do Brasil, Chateaubriand

tornou-se um adversário público da mudança da capital. Ainda que permi-

tisse a seus jornais cobertura jornalística simpática ao empreendimento, ele

pessoalmente, em artigos assinados, era implacável nas críticas ao presiden-

te, a quem chamava de "o faraó Kubitschek". Alheio à ingratidão, Juscelino

mantinha-o em Londres. Era um jogo que interessava a ambos: ter como em-

baixador na Inglaterra um ácido crítico de sua obra mais importante soma-

va pontos à imagem que Kubitschek cultivava com carinho especial - o pre-

sidente queria passar à história como um democrata, um estadista generoso,

que não guardava ressentimentos pessoais. Chateaubriand, por seu lado,

alimentava o mito de que seus jornais podiam defender posições opostas às

do dono - muito embora essa aparente liberalidade editorial escondesse uma

velha tática que ele adotava com habilidade havia meio século: acender uma ve-

la para cada santo e, assim, garantir ao seu império sempre uma porta aber-

ta em cada lado.

Mesmo tendo jurado, de maneira teatral, jamais pôr os pés na futura ca-

pital do Brasil, à medida que se aproximava a data da inauguração ele foi

mudando de posição, argumentando que o mal maior - a construção - já

estava feito e agora não restava outra alternativa senão ocupar a cidade. No

fim do ano já era um defensor de Brasília. Na noite de Natal, enquanto ves-

tia o smoking para ir a um jantar da alta sociedade carioca, brigou com seu

amigo e principal repórter, David Nasser, exatamente porque o jornalista

atacara a nova capital em artigos publicados na revista O Cruzeiro:

- Todo mundo já reconhece a grandeza de Brasília, de Furnas, de Três

Marias. Só você insiste em ser contra, turco maldito. Só você, com esse seu

eterno pessimismo. Por quê? Por que não muda de idéia, como eu mudei?

- Porque tenho a minha opinião.

- Opinião? Se você quer ter opinião, compre uma revista.

- Se o senhor está precisando de um jornalista sem opinião, compre um

de salário mínimo. Eu me demito.

Chateaubriand largou sobre a cama a camisa nova, da qual catava alfi-

netes, e bateu carinhosamente no ombro do empregado:

- Não faça uma coisa dessas. Um louco como o Juscelino não merece o

fim da nossa amizade. Estou lhe pedindo, por favor.
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#
CHATÔ, O REI DO BRASIL


Nasser sabia que aquela conversa era uma espécie de jogo não combina-

do entre os dois. Ele se gabava de ter sido anti-Dutra quando o patrão era

dutrista, anti-Vargas quando Chateaubriand defendia a permanência de

Vargas, e agora atacava Kubitschek em pleno idílio do chefe com Juscelino.

David Nasser ficou. Semanas depois Chateaubriand sairia a público para de-

fender o presidente da "campanha pertinaz" que lhe movia O Estado de S.

Paulo, que ele passara a chamar ironicamente de "o porta-voz do esquerdis-

mo udenista" :

- O Estado agora deu de negar tudo o que a administração Kubitschek

tem promovido pelo progresso do Brasil. Se alguém nesta terra tomasse a sé-

rio os vaticínios desse jornal, o abismo já haveria tragado este país. A sorte é

que os leitores olham os articulistas do Estado como uma fauna delirante, re-

crutada entre o que o paroxismo partidário tem de mais doentio.

Se Assis Chateaubriand estava mal, como suspeitavam seus amigos, is-

so não transparecia em seus escritos e muito menos em sua febril atividade

política. Quando foi nomeado embaixador em Londres, tentou em vão man-

ter a cadeira de senador pelo estado do Maranhão, embora a Constituição

fosse clara quanto à ilegalidade de alguém ocupar simultaneamente os dois

cargos. Assumiu em Londres sem ter renunciado ao mandato parlamentar,

que acabou sendo extinto pela Mesa do Senado. Mas continuou fazendo po-

lítica como se ainda fosse senador. O mesmo Kubitschek que ele defendera

semanas antes era insultado nos primeiros dias de 1960 nas páginas de seus

jornais. "Em vez de perturbar a vida da Brazilian Traction, que tanto tem fei-

to por este país", escreveu, "o presidente deveria se dedicar a arranjar titica

de galinha para adubar nossos cafezais. Trabalhe duro, forte e feio em titi-

ca de galinha, presidente, que é o melhor que pode haver em matéria de es-

terco para a recuperação dos nossos cafezais." As vésperas da trombose, cha-

mava Kubitschek de "pateta alvar ' porque o presidente prometera pôr fim

à condição do Brasil de fornecedor de matérias-primas para os países indus-

trializados:

- Nesse ponto, minhas divergências com o presidente Kubitschek sem-

pre foram as maiores e mais profundas. Por toda parte, na Inglaterra, me

apresento com orgulho como produtor de algodão, café, milho, arroz e ma-

mona. Se depender de mim, o Brasil continuará por mais trinta anos como

produtor preferencial de matérias-primas.

Exageradamente elegante, Kubitschek responderia ao artigo malcriado

com um convite para o jornalista ir a Brasília, ainda não inaugurada, partici-

par da recepção que o governo ofereceria no Palácio da Alvorada ao presi-

dente dos Estados Unidos, Dwight Eisenhower, que ali iniciaria uma viagem

oficial de quatro dias pelo Brasil. A deferência era completa: na manhã de

terça-feira, 23 de fevereiro, Chateaubriand embarcou no avião presidencial

em companhia da primeira-dama, Sarah Kubitschek, com destino à futura


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#
FERNANDO MORAIS


capital. No avião ia também um velho amigo seu, o banqueiro Walther Mo-

reira Salles, então embaixador do Brasil em Washington. Dias antes, ao che-

gar ao Brasil para preparar a viagem de Eisenhower, Moreira Salles lera uma

notinha em O Jornal, certamente escrita por Chateaubriand, em que era cita-

do como "dono da segunda fortuna do Brasil". Mineiro discreto, avesso a

coisas desse tipo, ele aproveitou a viagem para cobrar do amigo a referência

provocadora:

- Chateaubriand, por que você escreveu aquela bobagem? Você sabe

que nem é verdade e sabe também que eu não gosto dessas coisas...

Ele admitiu o crime e, sem risos, revelou que a causa era a informação

que chegara a seus ouvidos de que o Moreira Salles, o sólido banco do em-



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