O renascimento é caracterizado pelo desenvolvimento do espírito crítico, numa contestação do passado e assim do futuro, do pap



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5ª aula. História da Medicina. FMUP. A Medicina Internacional dos séc. XVI e XVII


Séculos XVI e XVII na Medicina Internacional

Baseado na aula leccionada pela Prof.ª Amélia Ferraz

29 de Abril 2005

O Renascimento é caracterizado pelo desenvolvimento do espírito crítico, numa contestação do passado e do papel do Homem (até o seu lugar no sistema solar), com a substituição da escolástica medieval pelo raciocínio lógico aplicado a todos os ramos do saber.

Na mesma linha surge o retorno aos autores clássicos, e à sua concepção da Natureza, medicina, doença, etc.. Ao longo da Idade Média, os livros foram constantemente copiados e traduzidos por monges copistas, que por vezes ignoravam o conteúdo dos textos. Assim, houve uma progressiva introdução de erros, que conduziu no Renascimento à procura dos textos originais, ao regresso às fontes greco-romanas.

Para o Renascimento contribuíram muito: a invenção da imprensa, que traz uma maior facilidade na divulgação dos novos conhecimentos “científicos”; a invenção da pólvora; os descobrimentos marítimos; o estabelecimento da astronomia heliocêntrica (Copérnico), a reforma e a expansão religiosa (noção de “franciscanismo”, encarando o homem na natureza).

NOTA: Com os Descobrimentos Marítimos vai aparecer uma situação nova em termos médicos. Vai haver permuta de conhecimentos, mas também de doenças: se levámos para os locais além-mar doenças que lá não existiam, a verdade é que também trouxemos e conhecemos outras novas, como o escorbuto. Novos recursos são facultados: animais, plantas, e novos conhecimentos que vão provocar um alargamento da terapêutica. Materiais como o ébano e outras madeiras exóticas são igualmente trazidos para Portugal e introduzidos no instrumental. (ver aula da medicina nacional)

Com a introdução das armas de pólvora, surge um ferimento de carácter diferente. Julgando-o maligno ou venenoso, era tratado com óleo a ferver.

A humanização do tratamento das feridas por arma de fogo surgiu com o cirurgião francês que utilizava apenas emolientes (calmantes como claras e gemas de ovo, etc.):



- Ambroise Paré, foi o autor do Renascimento cirúrgico. [Curiosamente, já o português Fernão Mendes Pinto tratava deste modo as feridas de pólvora em período anterior, como relata no seu livro Peregrinação.] Principiou por ser cirurgião-barbeiro e depois cirurgião militar nas campanhas francesas de Itália. Foi muito importante no fabrico de instrumentos de hemóstase – inventou as primeiras pinças hemostáticas - e de próteses palatinas engenhosas - estas pareciam uma borboleta de metal com uma esponja na parte superior, que se fixava no palato com a humidade. Foi igualmente um grande impulsionador da manufactura de membros artificiais, pois nos séc. XVI e XVII, quando havia alguma patologia, a solução mais utilizada era a amputação. Não estando a cirurgia plástica desenvolvida, as próteses eram o único recurso.

No entanto, a Índia era um caso pioneiro na cirurgia plástica: aqui era frequente a amputação do nariz como consequência do adultério ou outro desvio social. Esta era considerada um castigo severo porque quando havia amputação, a alma não reconheceria de novo o corpo depois da morte, o que era crucial para que não se perdesse segundo a filosofia indiana. Eram assim realizadas técnicas inovadoras de rinoplastia (reconstituição do nariz), com recurso a enxertos da pele da testa e dois tubos de bambu para narinas.

São três as principais figuras do Renascimento fixar:


  • Ambroise Paré, autor do Renascimento cirúrgico;

  • André Vesálio, (séc. XVI) autor do Renascimento anatómico;

    • Natural de Bruxelas, foi professor de Anatomia em Pádua, e depois médico de Carlos V e Filipe II, de Espanha. Corrigiu mais de 200 erros a Galeno. Fez dissecção humana contínua, com exemplificação no cadáver; publicou as suas observações anatómicas numa obra ilustrada por Calcar “De Humani Corporis Fabrica”.

    • Depois de Vesálio, a anatomia desenvolve-se muito, graças à maior facilidade de dissecção do cadáver humano e aparecem anatomistas de relevo, como Eustáquio, Falópio, Varólio, etc.

  • Paracelso, autor do Renascimento médico.

    • Suíço. Foi professor em Basileia, donde o expulsaram dois anos depois, devido às suas ideias contestatárias - queimou na praça pública os livros de Galeno e Avicena, mas não os de Hipócrates.

    • Viajou muito e teve conhecimento sobre o trabalho das minas, o que lhe permitiu desenvolver os seus estudos de mineralogia e química. Teve ideia das intoxicações profissionais, dos princípios activos das substâncias, mas era, ao mesmo tempo, supersticioso.

    • Introduziu o antimónio na terapêutica e pode considerar-se pioneiro do uso dos medicamentos químicos.

Anterior a André Vesálio, para além de Miguel Ângelo, uma personalidade genial contribuiu grandemente para a concepção realista da anatomia e fisiologia humanas: Leonardo da Vinci. Aqui temos um feto no útero, na posição fetal, com o realismo único de quem pratica anatomia (até àquela altura, a representação do feto fora sempre bastante fantasiosa). André Vesálio não desenhava, mas tinha ao lado um excelente pintor, Calcar.

O séc. XVI e XVII, com o contacto entre diferentes civilizações e a promiscuidade que existiu, foi forte no aparecimento das doenças venéreas. No caso da sífilis a manifestação foi de tal maneira exuberante, quase epidémica, que se pensou tratar-se de uma doença nova. Isto não era verdade, como o confirmam as marcas da doença nos crânios pré-históricos europeus. Era tratada com mercuriais, pau santo da América, e o aumento da transpiração.



Jerónimo Fracastório escreveu um poema sobre um pastor chamado Sífilis, que tinha a doença que recebeu o seu nome.

Tal como na medicina chinesa, na Europa praticou-se largamente o tratamento por moxibustão: concentrados de plantas eram aplicados e queimados na pele em determinados pontos “energéticos”, que provocariam o equilíbrio dos humores. Na medicina chinesa o fim seria o equilíbrio do Yin e o Yang, o factor fraco e forte, feminino e masculino.

Tenta-se a transfusão sanguínea, de um animal para o homem, com resultados fatais (obviamente), pelo que foram proibidas. De lembrar que, para além disso, estamos ainda longe da identificação dos anticorpos por Karl Lainsteiner em 1900, que concluiu que é necessário fazer uma tipagem de grupos sanguíneos antes da transfusão. É importante ver que às vezes as descobertas não são logo acompanhadas por uma resposta tecnológica ou económica: este princípio não foi aplicado na 1ª Grande Guerra, conduzindo a várias mortes desnecessárias.

O séc. XVII é um século de transição, de certa acalmia, em resposta à explosão cultural renascentista. Oscilando entre a adopção entusiasta das novas ideias, e um conservadorismo intransigente, a actividade científica traduz-se sobretudo por descobertas individuais e ensaios científicos que irão ter mais tarde grande repercussão na medicina. É de reacção ao anterior, com a mudança da concepção hipocrática/galénica/arábica da fisiologia: dá-se a introdução da química e da física na Medicina. Para os iatroquímicos (lembrar Paracelso, percursor destas ideias ainda no séc. XVI) o Homem seria um tubo de ensaio repleto de reacções químicas; para os iatrofísicos este é uma máquina.

A corrente iatrofísica ou iatromecânica é essencialmente representada por Harvey e Sanctório. Esta é uma imagem de uma balança para nos lembrarmos que, graças a Sanctório, são introduzidas as investigações relacionadas com as medições: é pioneiro no estudo do metabolismo, inventando alguns aparelhos como o termómetro da água, um higrómetro e um “pulsilogium” (medir o pulso).

A invenção do microscópio por Leewenhoeck permitiu completar os dados da observação a olho nú.

Também é o século do método empírico: sem a experiência não é possível adquirir conhecimento.

Estes foram então séculos de grande mudança:

As doutrinas de Galeno, até aí aceites com o argumento da autoridade, eram baseadas na dissecção de animais; os anatomistas, de que o expoente máximo foi Vesálio, dissecavam cadáveres humanos, enfrentando a reprovação popular e as reservas da Igreja.

A partir da estrutura foi possível especular sobre a função: a descoberta da pequena circulação e da função do coração (Serveto, Harvey) partiu da demonstração da inexistência de comunicação interventricular postulada por Galeno e da presença de válvulas venosas, só compatíveis com um fluxo de sentido único (Acquapendente, Amato Lusitano). A descoberta da existência dos capilares deve-se mais tarde a Malpighi, com o recurso ao microscópio.”

No entanto, apesar da viragem ideológica, continuam a ser usadas as mesmas terapêuticas universais, como a sangria, com a atenuante de que, com o conhecimento da circulação sanguínea, reconhecem a importância de existir um mínimo de sangue circulante.

...

Neste período do séc. XVI/XVII, eram curiosamente retratadas na zona de Flandres (Holanda, Bélgica) cenas quotidianas cheias de informação, graças a uma maior tolerância religiosa:



Conseguimos observar actos médicos e cirúrgicos com a utilização de vários instrumentos, doenças, etc.. Aqui se vê uma trepanação craniana feita numa cozinha, sem condições de higiene, com um cão a passear, uma mulher a chorar e uma criança muito curiosa. Esta era algumas vezes feita por charlatães, que alegavam querer extrair a “pedra da loucura”. Muitas indicações podem ser tiradas deste retrato: a expressão de dor revela a não utilização do poder narcótico das plantas, apesar de já conhecido nos mosteiros e conventos da época medieval.

Como já foi dito, a amputação era uma prática frequente do séc. XVI e XVII. Vemos nesta imagem a serra, o cautério, o garrote (mais tarde com um torniquete, um parafuso) e a bacia do barbeiro sangrador. De notar a posição do assistente, que varia em representação ao longo dos tempos. Nesta outra figura estão já a fazer a cauterização após a amputação. O médico está vestido com as rendas contemporâneas (por vezes considerava-se que, quanto mais sujo de materiais orgânicos estivesse o médico, mais experiente e sapiente era.) Os cuidados de higiene eram, nesta altura, tidos como secundários: não lavavam as mãos nem mudavam de roupa.



Brugel e Bosh, grandes retratistas das cenas quotidianas, também pintaram dismorfias corporais.

Eis aqui representada, numa figura do séc. XVII, a extracção dolorosa da mama em caso de patologia: era atravessada por uma agulha a rasar a grade costal e havia depois fios que a traccionavam e cortavam. Havia já prótese mamária.

Nesta outra, do séc. XVIII, vê-se a aplicação de uma agulha, furando a córnea, para fazer baixar o cristalino.

Em oposição ao século XVII materialista, o século XVIII era sobretudo idealista.


O exponente máximo do séc. XVIII foi Boerhaave, um professor influente cuja didáctica também foi adoptada em Coimbra, em substituição da medicina hipocrática, galénica e dos árabes. Era um Mestre de tal maneira apreciado que as ruas da sua cidade tiveram de ser alargadas para deixar passar as carruagens das pessoas que afluíam para o ouvir.
Um seu discípulo português, Ribeiro Sanches, tirou um primeiro curso em Espanha, um segundo com Boerhaave e depois foi para a Rússia, recomendado pelo seu Mestre, onde teve um papel muito importante na organização do sistema de saúde do exército.

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