O romantismo na narrativa de um barão amazônico



Baixar 151.23 Kb.
Página1/3
Encontro26.01.2018
Tamanho151.23 Kb.
  1   2   3

O ROMANTISMO NA NARRATIVA DE UM BARÃO AMAZÔNICO:

Subjetividade, patriotismo e sentimentos na obra Motins Políticos
THE ROMANTICISM IN NARRATIVE OF A BARON AMAZONIC:

Subjectivity, patriotism and feelings in book Political Riots

Luciano Demetrius Barbosa Lima1



RESUMO:

O presente artigo almeja analisar algumas referências românticas, no livro intitulado Motins Políticos ou história dos principais acontecimentos políticos na Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835. Elaborado em finais do século XIX pelo historiador e político Domingos Antônio Raiol (Barão de Guajará), esse estudo caracterizado pela descrição de uma série de conflitos políticos e sociais ocorridos no Grão-Pará, entre as décadas de 1820 e 1830, e transformado, ao longo do século XX, em fonte central para a história da Cabanagem, também foi marcado por inúmeras considerações românticas direcionadas a natureza, ao Império e a mulher. Ao analisar essas percepções, valorizadoras de aspectos sentimentais e subjetivos, esse estudo objetiva adentrar em um caminho pouco conhecido e instigante da presente obra e do pensamento de seu autor em finais do segundo reinado.


Palavras-chave: Amazônia, Cabanagem, Romantismo.

ABSTRACT:

This article objective analyze some references romantic, at book titled Political Riots or history of the main political events in the Province of Pará from 1821 until 1835. Elaborated in the end of nineteenth century, by the historian and political Domingos Antonio Raiol (Baron of Guajará), this study, characterized by description a series the political and social conflicts occurred in Pará, between the decades of 1820 and 1830, being transformed, to Long of century XX in fount main for history of Cabanagem, too was marked by numerous considerations romantic directed to nature, the empire and the woman. Through analyzis of these perceptions, characterized by aspects emotional and subjective, this objective study has the penetrate a in path little known and provocative this work and thought its author at the end of the second reign.


Key words: Amazon, Cabanagem, Romanticism.

Ao analisar o contexto de lutas político-sociais que abalaram a província do Grão-Pará durante as décadas de 1820 a 1830, um intelectual paraense, descreveu o meio natural próximo a cidade de Vigia, expressando em uma de suas obras que aqueles “rios ramificam-se em tôda extensão de suas margens (...) onde assentam milhares de sítios aformoseados (...) com palmeiras e frondosas árvores que, sombreando os terreiros, abrandam nas habitações os ardores do sol ardente dos dias de verão”.1 Permeadas por diversas formas de sensibilidades e subjetividades, as palavras do historiador Domingos Antônio Raiol,2 escritas ao longo da segunda metade do século XIX, na obra Motins Políticos, se constituem em uma das características que auxiliaram na compreensão deste livro, pois aproximam sua narrativa de um movimento intelectual e literário, muito difundido naquele contexto: o romantismo.

No decorrer desta obra, Raiol construiu uma narrativa histórica em que as descrições dos “motins” refletiam indiretamente suas próprias vivências. Nelas, os sentimentos foram ganhando importância por representarem uma original “ponte” de mediação entre experiências pessoais e eventos político-sociais, além de possibilitarem “um diálogo de indivíduos e de grupos com a natureza”.3 Por estes e outros motivos, o pensamento expresso por este autor na obra em questão é muito mais amplo do que se pode imaginar, possuindo um valor sentimental em relação ao mundo natural, pouco conhecido, caracterizado por unir emoções exteriores, provenientes da literatura romântica difundida em sua época, com interiores, presentes em seu íntimo e em suas experiências pessoais.

Deve-se também enfatizar, que embora no século XIX e início do XX, para um grande número de historiadores ocidentais, “o único assunto importante era a política e (...) o único campo digno de interesse era o estado nacional”,4 a presença de referências ao mundo natural e social, ao longo dos cinco tomos do livro de Raiol, antes de exprimir uma contradição, simboliza e confirma que mesmo com a ênfase a história política, era difícil separar movimentos políticos locais da natureza amazônica. Assim, mesmo o romantismo sendo caracterizado como uma “literatura, cujo domínio pertenceu à sensibilidade, à imaginação, aos sentimentos e as paixões. Do primado do espírito passou-se para o da natureza”,5 não pode ser percebido como algo dissociado da historiografia política da Amazônia na segunda metade do século XIX.

A análise das percepções românticas sobre aspectos como a natureza, pátria e mulher na obra Motins Políticos constitui uma abordagem essencial para o conhecimento do pensamento de um representante do mundo intelectual naquele contexto histórico, sobre um aspecto até então inexplorado de seu livro, e por isso inovador, ao simbolizar um quadro privilegiado para perceber como historiadores que “tendiam a limitar suas responsabilidades a nação-estado, sua política”6 percebiam o mundo natural. Embora admirado no meio acadêmico e político de seu tempo, “Domingos Antônio Raiol é hoje um ilustre desconhecido”.7 O mais famoso de seus estudos, Motins Políticos, foi elaborado ao longo de quase três décadas, sendo marcado desde as suas primeiras páginas, por múltiplos aspectos de aproximação com o pensamento romântico, principalmente nos momentos quando o autor almejava demonstrar variadas formas de “sentimentos”, frente a aspectos pertencentes ao mundo natural amazônico.

Mesmo que, como já foi demonstrado, um grande número de trabalhos subseqüentes, especificamente dos séculos XIX e XX, tenham privilegiado o enfoque sobre a obra Motins Políticos, valorizaram quase unicamente os eventos político-sociais como a “Cabanagem” ou “adesão do Grão-Pará”, deixando de lado qualquer pesquisa mais profunda sobre a presença de aspectos do romantismo nos escritos do Barão. Nesse sentido, o presente artigo propõe-se a analisar o problema da presença do pensamento romântico em suas interações com o mundo natural e social na obra Motins Políticos, que apesar de enfatizar as lutas sociais no Pará, é também caracterizada pelo contínuo uso destas sensibilidades existentes particularmente através das perspectivas apresentadas pelo autor Donald Worster, que delineou a existência de um “terceiro nível para o historiador ambiental”,8 marcado pela análise do quadro “puramente mental, em que as percepções, ideológicas, (...) tornaram-se parte de um diálogo de indivíduos e grupos com a natureza”.9

Simbolizador da vida, o mundo natural amazônico propiciava a sobrevivência dos homens no seu dia-a-dia, com sua água e seus alimentos. Por outro lado, esse mesmo espaço significava também a morte, com suas doenças e também, em alguns momentos, com a fome. A compreensão destes componentes é uma tarefa substancial para um delineamento da escrita de Raiol neste estudo, representando uma perspectiva desta narrativa. Homem e natureza, representados pela enorme diversidade do meio natural não podem ser dissociados, pois “do contato direto, da comunhão íntima do homem com as coisas, decorreu a noção romântica de uma natureza ora boa e acolhedora e ora impiedosa ou indiferente aos sofrimentos humanos”.10 Seres humanos e mundo natural interagem entre si continuamente, criando laços de dependência. Acredito sem qualquer determinismo, que ao longo da escrita de Motins Políticos, a natureza adequada ao pensamento romântico era “capaz de intervir na organização dos homens e no seu comportamento”.11

Vale ressaltar, que não almejo observar este livro, elaborado ao longo de quase três décadas (1865-1890), a partir de qualquer perspectiva homogeneizante, relacionada à presença do romantismo, pois este movimento não foi o único estilo literário que chegou ao Brasil no decorrer do século XIX, no mesmo período “se cruzam e entrecruzam, avançam e recuam, atuam e reagem umas sobre as outras, ora prolongando ora opondo-se, diversas correntes estéticas e literárias”.12 Evidentemente, a própria intelectualidade brasileira da qual este autor fazia parte, não esteve isenta de aspectos do romantismo em suas respectivas narrativas, adequando-se ao subjetivismo e sentimentalismo que evidenciaram a própria história daquele movimento, como se pode observar nas páginas a seguir.



Romantismo e historiografia no século XIX

No quadro diversificado de concepções literárias e filosóficas que circulavam no Brasil durante grande parte do século XIX, o pensamento romântico teve um lugar de importância, influenciando a produção intelectual e também as próprias percepções político-sociais naquele contexto, o “processo de formação da literatura brasileira, como da própria nação brasileira, na verdade antecipa e continua a obra dos românticos”.13



Inserido no país, durante o momento de formação do regime monárquico, o romantismo possuiu no Brasil características específicas, exprimindo na literatura e historiografia, aspectos que demonstravam a nacionalidade como, por exemplo, o Indianismo, no qual se destacou o escritor José de Alencar, que nas suas obras de ficção se valeu de aspectos da cultura medieval no seu “mundo primitivo e puro”,14 para construir a figura de um índio com “espírito” de “cavaleiro” na obra O Guarani.15 Quanto aos seus objetivos, este movimento tinha entre outros pontos a perspectiva de romper com as idéias neoclássicas, em voga na Europa desde o início da era moderna, através do movimento renascentista, ainda guardando muitos resquícios da cultura medieval:
Qualquer que tenha sido a época de introdução do termo romântico e seus derivados, o fenômeno, em sua história literária e artística, hoje conhecido como Romantismo, constituiu numa transformação estética e poética desenvolvida em oposição à tradição neoclássica setecentista, e inspirada nos modelos medievais. A mudança foi consciente, generalizada, de âmbito europeu, a despeito de não haver o mesmo acordo quanto à introdução da palavra que designaria o movimento. (...) o novo estilo, nasceu em oposição ao estilo neoclássico anterior, embora a etiqueta só depois tivesse aceitação geral. Mas o que ela veio designar foi cedo geralmente entendido: o movimento estético, traduzido num estilo de vida e arte, que dominou a civilização ocidental, durante o período compreendido entre a metade do século XVIII e a metade do século XIX.16
Nesse sentido, enquanto o classicismo observava a realidade de forma objetiva, exterior, o romantismo deforma a realidade que, antes de ser exposta, passa pelo crivo da emoção, valorizando os assuntos de seu tempo, como as lutas sociais e políticas, esperança e paixão, luta e revolução, simbolizando uma nova atitude do homem perante si mesmo. O interesse dessa nova forma de arte está voltado para os sentimentos e a simplicidade, opondo-se, desse modo, ao classicismo que cultivava a razão tão apregoada pelos iluministas. O romantismo teve influência em relação aos escritores brasileiros do período, estando presente nos escritos de nomes como: Gonçalves de Magalhães, Gonçalves Dias, Bernardo Guimarães, José de Alencar entre outros.

Embora não tenha sido exclusivo em sua penetração no país, o romantismo se constituiu como um movimento, que surgiu entre finais do século XVIII e início do XIX, representando, na literatura e na arte em geral, o abandono dos valores da nobreza e a valorização dos anseios da burguesia, que estava em ascensão na Europa. Por outro lado, o romantismo também pode ser percebido como um movimento literário, possuidor de relações íntimas com alguns eventos históricos daquele contexto, pois como ressaltou Francisco Falcon, “por romantismo entende-se um conjunto de movimentos contemporâneos, tanto da Revolução Francesa e das guerras napoleônicas, quanto das chamadas revoluções liberais e nacionais da primeira metade do século XIX”.17

Desse modo, a produção historiográfica apresentava outra característica de aproximação com o pensamento romântico do século XIX, ao tentar mesclar as idéias valorizadoras do subjetivismo e sentimentalismo, presentes neste movimento, com as práticas adotadas pela escola histórica da Alemanha que se originou no mesmo século, pois no “campo do conhecimento histórico, o romantismo traduz a articulação, em termos de coexistência e conflito, entre a especulação filosófica e as exigências eruditas da crítica documental, objetivando a verdade histórica”.18 Alguns dos principais representantes desta historiografia romântica pertenciam a “escola histórica alemã – de Humboldt, Niebuhr e Ranke”.19 Assim, as idéias românticas não estiveram presentes somente nos círculos literários, a produção historiográfica do período sofreu influência destas concepções, se constituindo em uma das características mais comuns entre os historiadores do século XIX, pois a “história exerce um verdadeiro fascínio sobre a geração romântica”,20 que atribuiu grande atenção a eventos como a Revolução Francesa. Além desta interação com algumas revoluções, ocorridas na época, a relação romantismo-historiografia teve outras aproximações, ainda mais intensas, pois o processo “avassalador de historicização que se desencadeou não apenas sob forma historiográfica, mas também antropológica com o historicismo romântico (...) foi gerada a ciência histórica moderna”.21

Nessa perspectiva, o próprio desenvolvimento da história como ciência no século XIX, não pode ser dissociado do romantismo, pois este movimento esteve intimamente ligado a “revolução historicista”22 ocorrida naquele período, e caracterizada também pelo “interesse em aproximar as fronteiras entre os campos literário e histórico”,23 através, entre outros aspectos, da inserção do sentimentalismo romântico nas narrativas.

Por outro lado, o século XIX é considerado por muitos estudiosos como o “século do romantismo, do resgate das raízes nacionais, do surgimento da história ‘científica’”.24 Dessa forma, um dos principais historiadores europeus do período, cuja escrita estava inserida neste movimento foi Michelet, que em seus estudos sobre a Idade Média, deixou sua marca de historiador “romântico e militante apaixonado”.25

No Brasil, a criação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro26 (IHGB), teve influência dos ideais românticos, pois segundo a historiadora Lilia Moritz Schwarcz “é justamente esse recinto que abrigará, a partir da década de 40, os românticos brasileiros”.27 Nesse ambiente, “D. Pedro e a elite política da corte se preocupavam (...) com o registro e a perpetuação de certa memória, mas também com a consolidação de um projeto romântico, para a conformação de uma cultura ‘genuinamente nacional’”,28 ligada as propostas de construção de uma história para o país. Ademais, no plano das idéias, durante grande parte do regime Imperial a hegemonia de uma elite intelectual identificada com o pensamento romântico, se refletiu em “numerosas publicações e obras que marcam o início da historiografia brasileira em bases modernas”,29 pois, a “história foi uma das atividades intelectuais que maior favor gozaram sob a égide do Romantismo”.30 Além destas características, a hegemonia do IHGB em relação à produção historiográfica foi marcada por um momento em que essa área de conhecimento, principalmente em solo europeu, sofria influências das concepções em voga naquele contexto, “prevalecendo uma visão romântica”31 na produção historiográfica.

A formação do IHGB também pode ser percebida como fruto dos interesses de uma parte de elite intelectual brasileira, que sentia necessidade da elaboração de uma história nacional monarquista e católica, inspirada nos valores sentimentais do romantismo, e que acima de tudo, simbolizassem uma tarefa centralizadora, valorizadora da educação formal e também “civilizadora”, pois esta elite buscava “encontrar o seu espaço de atuação no contexto de um país dotado de vida cultural ainda muito incipiente. (...) apresentando-se como uma tarefa civilizadora, uma condição mesma para a admissão do Brasil no concerto das nações civilizadas”.32

Era essa elite, possuidora da perspectiva de aproximar o império das nações “civilizadas”, que admirava o pensamento de alguns intelectuais europeus no período, como por exemplo, o estudioso alemão Carlos Frederico Felippe Von Martius. Este, após vários anos de pesquisa no país, publicou na revista do IHGB o estudo Como se deve escrever a história do Brasil, no qual expressava que a história “póde diffundir entre os contemporaneos sentimentos e pensamentos do mais nobre patriotismo. Uma obra historica sobre o Brazil deve, (...) ter igualmente a tendencia de despertar e reanimar em seus leitores brasileiros o amor da patria”.33

As palavras de Von Martius, são um exemplo de como instituições como o IHGB, por meio do pensamento de sua intelectualidade, estabelecia algumas diretrizes, que deveriam compor, no plano político-ideológico, uma das tarefas centrais da produção histórica no regime monárquico, caracterizada pela perspectiva de “(...) inventar uma nação, o que se realizou com o romantismo”.34 Por isso, no meio historiográfico brasileiro, o romantismo também se constituiu num dos pilares de inspiração e erudição, sendo inserido de múltiplas formas nos trabalhos de vários estudiosos durante o século XIX.

José Ignácio de Abreu e Lima, no seu Compendio de história do Brazil (1843), ao escrever sobre as lutas entre brasileiros e portugueses (a chamada noite das garrafadas), no Rio de Janeiro, durante o processo de independência política, afirmou que a “offensa da nacionalidade, e por consequencia do amor próprio dos nascidos no paiz, fez reunir então todos os Brasileiros, clamando que era mister reprimir a insolencia dos estrangeiros”.35

Francisco Adolfo Varnhagen, historiador que se constituiu num dos principais responsáveis pelo estabelecimento dos “marcos da história brasileira, numa perspectiva que privilegia a ação do Estado, (...) em prol da unidade territorial”,36 em sua obra História Geral do Brazil (1857), ao referir-se às ameaças à manutenção da integridade do império, expressou que o “patriotismo, sentimento tão sublime que faz até desaparecer no homem o egoismo, levando-o a expor a propria vida pela patria, ou pelo soberano que personifica o seu lustre e a sua glória”.37

João Manuel Pereira da Silva, no livro Historia da Fundação do imperio brazileiro (1865), ao analisar a chegada da família real portuguesa no Brasil, escreveu que estava “tão enraizado no espírito e n’alma do povo o sentimento monarchico, que a pessoa regia equivalia na opinião geral a uma especie de divindade, e que o amor do subdito pelo soberano formava uma segunda religião”.38

A presença do sentimentalismo Romântico na ênfase dada ao “patriotismo”, “amor” pelo regime imperial e também pela “terra natal”, não se constitui evidentemente em exclusividade da escrita dos estudiosos citados, muitos outros autores no Brasil “cultivaram na fase romântica o gênero – história”,39 com destaque para “Alexandre José de Melo Morais, Norberto de Sousa e Silva, João Francisco Lisboa, Joaquim Caetano da Silva, Cândido Mendes de Almeida e Joaquim Felício dos Santos”.40

Os trabalhos desses estudiosos se constituem em exemplos da importância dessas concepções no meio intelectual brasileiro em geral durante o período, a ponto de o historiador Nelson Werneck Sodré afirmar que “império traduzia a realidade econômica e social, aquilo que o Romantismo também traduzia no plano literário”.41

Influenciado por estudos valorizadores do subjetivismo romântico, o sócio-correspondente do IHGB, Domingos Antônio Raiol, em sua obra Motins Políticos, aderiu de diferentes perspectivas a variados aspectos deste pensamento, presente, entre outros pontos, por meio de observações do mundo natural amazônico, pois como ressaltou a autora Lilia Moritz Schwarcz, no “olhar romântico” direcionado a “natureza brasileira também cumpriu função paralela. Se não tínhamos castelos medievais, igrejas da Antiguidade ou batalhas heróicas para lembrar, possuíamos o maior dos rios, a mais bela vegetação”.42

Essa exaltação da “grandiosidade” e “beleza” da fauna e flora brasileira se constitui em um dos caracteres centrais do pensamento romântico no país, cujo “sentimento da natureza transformou-se num dogma e num culto”,43 aparecendo através de múltiplos caminhos, simbolizados nos próximos tópicos por aspectos como paisagem, pátria e proteção.


Natureza, paisagem e sentimentos nos escritos de Raiol

Tatuoca é um verdadeiro oásis num deserto d’águas. Atualmente arborizada por tôda parte liberaliza a agradável sombra dos seus arvoredos ainda na maior ardência do sol: debaixo dos leques entremeados das palmeiras ou das comas frondosas das mangueiras há sempre refrigério para o calor nos dias mais quentes do verão. A ilha é quase em si um pomar. Não a embelezam sòmente as àrvores singulares plantadas com mais ou menos simetria; embelezam-na também as árvores agrestes que brotam do solo e vicejam tanto nas praias como nas fendas das pedras, sobressaindo no contôrno da ilha os ajuruzeiros com os seus frutos púrpuros no verde escuro de suas ramagens.44

O bucólico trecho exposto acima, presente em uma obra elaborada na segunda metade do século XIX, não faz parte de nenhuma descrição feita por viajantes ou naturalistas europeus que percorreram a Amazônia naquele século, mas por um historiador paraense. Ele se refere à ilha de Tatuoca, localizada nas proximidades da cidade de Belém e que durante os conflitos político-sociais ocorridos no Grão-Pará, no contexto das décadas de 1820 e 1830, foi por certo tempo, ocupada por populações da capital da província que na época estavam refugiadas dos ataques cabanos.

Raiol, embora mais preocupado em descrever uma série de acontecimentos políticos que haviam abalado os “alicerces” sociais da região, não se desvencilhou do mundo natural que deixou marcas em todos aqueles eventos, pois esse “espaço é vivenciado de diferentes formas, através de uma projeção de sentimentos ou emoções pessoais, da contemplação de uma beleza cênica (...) ou como cenário/palco dos eventos históricos”,45 evidenciados na obra Motins Políticos. Além disso, a citação sobre a ilha de Tatuoca permite verificar a existência de referências de elementos exóticos ao meio natural amazônico, como “oásis” e “deserto”, em tom metafórico e exemplificativo, ao lado de uma contraposição entre “duas” concepções de natureza distintas: a modificada pelo homem, na qual existem “árvores singulares plantadas” e aquela que não sofreu transformações humanas diretas, em que predominam “árvores agrestes”. Ambas coexistindo na mesma ilha, e de diferentes formas, sendo consideradas “belas” na percepção romântica do autor.

Ao realizar essa descrição, Raiol transparecia a perspectiva em opor aquelas paisagens, “natural,” e “artificial”, caracterizadas respectivamente na presença de termos como “paisagem” e “agreste”. A coexistência de ambas, também simbolizava a própria marca contraditória do pensamento romântico, em que elementos heterogêneos se entrecruzam. Nesse sentido, além do “retrato real da beleza da natureza, os (...) escritores pré-românticos e românticos (...) retratavam também a paisagem como um reflexo de uma ‘paisagem interior’, dos sentimentos de melancolia e solidão”.46 Essa melancolia, expressa pelo Barão na descrição da natureza da ilha de Tatuoca, permite verificar a existência de outro aspecto romântico: o pitoresco, pois “o gosto das florestas, das longes terras, (...) geradoras da saudade e da dor de ausência”,47 elementos que compõem aquela estética, também podem ser percebidos no presente trecho da obra Motins Políticos.

Por outro lado, não é difícil perceber que o mundo natural é exposto a partir de uma lógica com forte sensibilidade, pois ao longo do século XIX “a natureza, seus elementos, recantos, arranjos e paisagens, constituíam lugar exemplar para a expressão dos sentimentos e emoções dos homens”,48 característica na qual o texto de Raiol estava inserido, assinalado por “um prévio ‘circuito de comunicação’ da natureza das coisas e da natureza humana”.49 Este pensamento de Benedito Nunes, ao ser relacionado com a narrativa de Motins Políticos, ganha importância por possibilitar o entendimento de que na obra de Raiol, o mundo natural ajuda a “moldar” não apenas o espaço dos conflitos, ele também direciona percepções sentimentais a própria “mentalidade” e “cultura” das populações amazônicas. Nessa perspectiva, o Barão, apesar dos enfoques distintos, aproximava-se em parte das idéias esboçadas por Jean Jacques Rousseau, um dos precursores do movimento romântico francês, que em sua obra Júlia ou a Nova Heloísa realizou uma espécie de “fusão entre o homem e a natureza a ponto de fazer dela o conteúdo da própria consciência”.50 Não por acaso, o Barão, em diversos momentos, pensa o meio urbano como “espaço da civilidade”51 e o vasto espaço natural amazônico, em suas florestas, rios e ilhas, através de um enfoque romântico, que se caracterizava pela valorização da paisagem. Como podemos observar na citação a seguir:


Aí o rio se estende por entre centenares de ilhas que formam um variado arquipélago (...) e apresenta largos horizontes assemelhando-se a um extenso lado marginado de inúmeros cacoeiros e palmeiras; e remontando o seu curso sempre caudaloso e de límpidas águas até unir-se ao Araguaia.52
O conhecimento das áreas naturais próximas de alguns núcleos populacionais como Cametá, estava estreitamente ligado ao interesse de expor a vastidão do Império brasileiro, a partir de um enfoque caracteristicamente subjetivo. Os limites quase sempre grandiosos e a enorme potencialidade de suas terras e rios simbolizavam também a valorização de um olhar tipicamente romântico, sobre “regiões consideradas e representadas como atrasadas, selvagens e bárbaras”53 mas que também eram descritas em sua grandiosidade e beleza. Assim, a presença na citação de toda uma riqueza de detalhes sobre a flora da região, deixa transparecer um aspecto importante em seus significados, pois aproximava homem e ambiente natural:
O ‘ambiente social’, o cenário no qual os humanos interagem uns com os outros na ausência da natureza, fica portanto excluído. Excluído também fica o ambiente construído ou fabricado, aquele conjunto de coisas feitas pelos homens e que podem ser tão ubíquas a ponto de formar em torno deles uma espécie de ‘segunda natureza’. Esta última exclusão poderá parecer especialmente arbitrária, e até certo ponto isso é verdade.54
As palavras de Donald Worster, além de esclarecerem sobre a importância da inserção da natureza na narrativa histórica, se relacionadas com o texto da obra Motins Políticos, mostram que os escritos de Raiol, por mais que tenham valorizado as questões político-sociais, não almejaram separar o homem do meio ambiente, apresentando à maneira de seu autor “os homens ou as sociedades como partes integrantes dos seus ecossistemas”.55 Entretanto, ainda que Domingos Antônio Raiol tenha enfatizado em muitos momentos a “beleza natural” da floresta, em constante integração com os grupos humanos, para este autor havia uma distância entre a grandiosidade do meio natural amazônico e a selvageria das populações que habitavam essa região, pois:
Nos escritos sobre o Brasil no século XIX, a facilidade como os homens em geral, estrangeiros ou brasileiros, se encantaram com a sua natureza – representada como exótica, bela, poderosa, potente – e, na mesma medida, nutriram sentimento contrário em relação a população que a habitava – representada como selvagem, desinteligente, inferior.56
Nesta perspectiva, enquanto para o Barão a floresta era grandiosa e bela, a maior parte das populações nativas da Amazônia, especificamente índios, caboclos e negros, eram enfocados a partir de sua participação nos “motins” como portadores de costumes “selvagens” e “inferiores”. Dessa maneira, diversas foram as descrições de Raiol em que o mundo natural, em suas variadas formas, esteve presente em trechos “sentimentais” que enalteciam sua beleza e grandiosidade, e as populações que habitavam essa região eram descritas em uma suposta distância do mundo “civilizado”.

No texto de Raiol, a concepção romântica de natureza admitia a existência de diferenças significativas entre o homem amazônico, muitas vezes considerado “bárbaro,” e o meio natural da região, descrito em variados momentos a partir de suas belezas ou grandiosidade. Em um destes momentos, o Barão expressa que na: “baía do Sol junto à ilha chamada do queimado”57 uma área onde o meio natural se apresentava de forma exuberante “por muito tempo foi considerada como perigoso coito de malfeitores, e os viajantes passavam distantes dela com temor de supostos homens perversos que lá habitavam; ninguém ousava aproximar-se de suas praias”.58

Em uma descrição como esta, na qual o meio natural aparenta constituir-se em um “pano de fundo” para supostas ações “violentas” de grupos rebeldes, a narrativa de Domingos Antônio Raiol caracterizava-se por demonstrar que as paisagens não eram descritas sob a égide do romantismo apenas em sua beleza e grandiosidade, mas através de outros sentimentos, como o medo originado pelo perigo que simbolizavam. Ademais, além destes caracteres românticos, Domingos Antônio Raiol também descreveu o mundo natural amazônico como forma de sobrevivência para os grupos participantes dos movimentos de rebelião. Essas características, inseridas no pensamento romântico, valorizador, entre outros aspectos, da natureza como “lugar de refúgio (...) proteção”,59 serão analisadas mais especificamente nas páginas a seguir.



Compartilhe com seus amigos:
  1   2   3


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal