O Santuário



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O Santuário
Raymond Khoury
A

AGIR
Para minhas maravilhosas filhas,

meus elixires particulares.

Não há pai mais orgulhoso no mundo.

Quando um renomado cientista afirma que algo é possível, quase sempre tem razão. Quando afirma que algo é impossível, muito pro­vavelmente está errado.

- Arthur C. Clarke


Tempus edax, homo edacior.

[O tempo devora, o homem devora ainda mais.]

- Antigo dito popular romano


Prólogo
I

Nápoles - novembro de 1749
O rangido parecia bem distante, mas ainda assim foi o suficiente para despertá-lo. Não era tão forte a ponto de acordar alguém que dormisse profundamente, mas, a bem da verdade, há anos ele não dormia bem.

Era como se fosse um ruído de metal roçando contra uma pedra.

Podia não ser nada. Um ruído insignificante. Um dos servos levantando-se mais cedo para começar o dia antes dos outros.

Talvez.


Por outro lado, podia ser algo ruim. Como uma espada. Arranhando acidentalmente uma parede.

"Tem alguém aqui."

Ele se sentou, ouvidos atentos. Tudo ficou absolutamente quieto por um instante. Então, ouviu outra coisa.

Passos.


Subindo sorrateiramente os frios degraus de pedra.

No limiar de sua consciência, mas sem dúvida estavam lá.

E se aproximavam.

Ele pulou da cama e foi até a porta que conduzia à pequena varanda do outro lado da lareira. Puxou a cortina para o lado, abriu silenciosamen­te a porta e saiu, se esgueirando, para o ar cortante da noite. O inverno estava se aproximando rapidamente, e seus pés descalços se enregelaram ao tocar o chão frio de pedras. Inclinando-se sobre o parapeito, olhou para baixo. O pátio do palácio estava uma escuridão total. Fixou o olhar, buscando um reflexo, o vislumbre de um movimento, mas não conseguiu perceber qualquer sinal de vida lá embaixo. Não havia cavalos, carruagens, camareiros ou servos. Do outro lado da rua e mais além, percebia-se com dificuldade o esboço das outras casas, realçadas pelos primeiros clarões da alvorada que despontava por trás do Vesúvio. Ele já havia assistido várias vezes a outros nasceres do sol atrás do vulcão, acompanhados pelo sinistro rastro de fumaça. Era uma vista inspiradora e majestosa, que quase sempre lhe trazia consolo quando nada mais o fazia.

Mas essa noite era diferente. Podia sentir algo estranho no ar.

Voltou correndo para dentro e vestiu-se, sem perder tempo em abotoar a camisa. Havia coisas mais urgentes. Precipitou-se para a cômoda, abrindo a primeira gaveta. Seus dedos tinham acabado de se fechar em volta do cabo do punhal quando a porta do quarto se abriu violentamente e três homens entraram. Suas espadas estavam desembainhadas. À luz oscilante das brasas morrendo na lareira, pôde ver também que o homem do meio empunhava uma pistola.

A luz foi suficiente para que o reconhecesse. E soube instantaneamente do que se tratava.

- Não faça nada de que possa se arrepender, Montferrat - disse o homem que chefiava o ataque.

O homem que atendia pelo nome de marquês de Montferrat ergueu os braços com calma e afastou-se cuidadosamente da cômoda. Os intrusos o cer­caram, agitando ameaçadoramente as lâminas diante de seu rosto.

- O que estão fazendo aqui? - perguntou cautelosamente.

Raimondo di Sangro embainhou a espada e colocou a pistola na mesa. Apa­nhou uma cadeira e a lançou em direção ao marquês. Ao atingir uma ranhura do chão, ela caiu ruidosamente.

- Sente-se - grunhiu. - Creio que isso vai levar algum tempo.

Com os olhos fixos em Di Sangro, Montferrat endireitou a cadeira e sentou-se de maneira hesitante.

- O que o senhor deseja?

Di Sangro curvou-se em direção à lareira e, com uma tocha, acendeu uma lanterna de querosene. Colocou-a sobre a mesa e pegou de novo a pistola, com a qual acenou para que os homens saíssem. Eles assentiram e deixaram o quarto, fechando a porta. Di Sangro puxou outra cadeira e sentou-se em frente à sua presa.

- O senhor sabe muito bem o que quero, Montferrat - respondeu, miran­do-o ameaçadoramente com a pistola de cano duplo enquanto o estudava. - E pode começar por seu verdadeiro nome - acrescentou acidamente.

- Meu verdadeiro nome?

- Vamos deixar de brincadeiras, marquese. - Pronunciou a última pala­vra de forma debochada, o rosto cheio de condescendência. - Conferi suas cartas de nobreza. São falsas. Na verdade, nenhum dos vagos fragmentos que o senhor forneceu sobre seu passado desde que chegou aqui parece ser verdadeiro.

Montferrat sabia que seu acusador detinha todos os recursos necessários para fazer essas investigações. Raimondo di Sangro herdara o título de principe di San Severo ao completar 16 anos, após a morte de seus dois irmãos, e contava com o jovem rei espanhol de Nápoles e da Sicília, Carlos VII, entre seus muitos amigos e admiradores.

"Como pude interpretar esse homem tão mal assim?”, pensou Montferrat com um horror crescente. "Como pude interpretar tão mal este lugar?"

Depois de anos de tormento e dúvidas, ele finalmente abandonara sua busca no Oriente e retornara à Europa menos de um ano antes, chegando a Nápoles por Constantinopla e Veneza. Não quisera se estabelecer na cidade. Seu plano era prosseguir até Messina, tomar um navio para a Espanha e, talvez, voltar para casa em Portugal.

Parou ao pensar nisso.

Casa.

Uma palavra destinada aos outros, não a ele. Uma palavra oca, vazia, que o passar do tempo destituíra inteiramente de qualquer significado.



Nápoles lhe permitira esquecer os pensamentos de rendição. Sob os vice-reis espanhóis, tinha chegado a ser a segunda cidade da Europa, depois de Paris. Fazia também parte de uma Europa que ele estava descobrindo, uma Europa diferente da que deixara para trás. Era uma terra onde as idéias do Ilu­minismo conduziam os povos a um novo futuro, idéias que Carlos VII conhe­cera e alimentara em Nápoles, concepções que tinham patrocinado o discurso, o aprendizado e o debate cultural. O rei criara uma Biblioteca Nacional, assim como um Museu Arqueológico, para conservar as relíquias escavadas nas cidades soterradas recentemente descobertas, Herculano e Pompéia. O que o fascinava ainda mais era o fato de o rei ser hostil à Inquisição, que fora a mal­dição da vida pregressa de Montferrat. Cansado da influência dos jesuítas, o rei os neutralizara com cautela, para não suscitar a ira do papa.

Desse modo, ele voltou ao nome que tinha usado em Veneza alguns anos antes, marquês de Montferrat. Fora bastante fácil perder-se dentro daquela cidade cosmopolita, entre seus inúmeros turistas. Muitas cidades tinham fun­dado academias para abrigar o fluxo contínuo de viajantes que vinham escavar as cidades romanas recentemente descobertas. Em pouco tempo, estava se reunindo com intelectuais locais ou oriundos de toda a Europa, homens que partilhavam sua mente inquisitiva.

Homens como Raimondo di Sangro.

Sem dúvida, uma mente inquisitiva.

- Todas essas mentiras... - continuou Di Sangro, verificando sua pistola, observando Montferrat com uma faísca de cobiça mal disfarçada no olhar. ­E, no entanto, de maneira intrigante e bastante estranha, essa querida velha dama, a Condessa di Czergy, afirma que o conhecia pelo mesmo nome quando estava em Veneza, Montferrat... Há quantos anos mesmo? Trinta? Mais?

O nome atravessou o falso marquês como uma lâmina. "Ele sabe. Não, não pode saber. Mas desconfia”.

- Claro que a cabeça da pobre senhora não é mais o que costumava ser. Os desgastes do tempo alcançarão a nós todos, no final, não é mesmo? - insistiu Di Sangro. - Mas, no que diz respeito ao senhor, ela foi tão insistente, tão clara, tão resoluta e inflexível ao dizer que não estava enganada... que era difícil atribuir suas palavras aos desvarios desiludidos de uma pessoa ido­sa. Daí, descobri que o senhor falava árabe como um nativo. Que conhecia Constantinopla como a palma de sua mão e que viajara por todo o Oriente, disfarçando-se, impecavelmente, foi o que me disseram, de xeque árabe. Mistérios demais para um só homem, marquese. Isso desafia a lógica. Ou a crença.

Montferrat estremeceu, censurando-se por ter considerado aquele homem um espírito irmão, um aliado potencial. Por testá-lo, sondá-lo, ainda que dis­farçadamente.

Sim, tinha julgado muito mal aquele homem. Mas, pensou, talvez fosse o destino. Talvez fosse mesmo a hora de desvendar seus segredos, hora de deixar que o mundo os conhecesse. Talvez aquele homem pudesse encontrar um jeito nobre, magnânimo, de lidar com tudo aquilo.

Os olhos de Di Sangro se fixaram nele, estudando cada expressão de seu rosto.

- Ora, vamos. Tive que sair da cama a esta hora apenas para ouvir sua história, marquese - disse, altivamente. - E, para ser franco, não dou a mínima para quem o senhor é ou de onde vem. Só quero saber seu segredo.

Montferrat encarou seu inquisidor diretamente.

- O senhor não quer saber isso, príncipe. Confie em mim. Isso não é uma dádiva para homem nenhum. É uma maldição pura e simples. Uma maldição sem trégua.

Di Sangro não pareceu se comover.

- Por que não deixa que eu mesmo julgue isso?

Montferrat se inclinou.

- O senhor tem uma família - disse, com voz vazia e distante. – Uma esposa. Filhos. O rei é seu amigo. O que mais um homem pode desejar?

A resposta veio rapidamente.

- Mais. Do mesmo.

Montferrat sacudiu a cabeça.

- O senhor devia deixar as coisas como estão.

Di Sangro aproximou-se do prisioneiro. Seus olhos brilhavam com fervor messiânico.

- Ouça-me bem, marquese. Esta cidade, este desprezível menino-rei... isso não é nada. Se o que suspeito que o senhor sabe for verdade, podemos ser imperadores. Não entende isso? As pessoas venderiam suas almas por isso.

O falso marquês não duvidou disso nem por um segundo.

- É justamente o que me dá medo.

A respiração de Di Sangro tornou-se pesada de frustração, enquanto ele tentava avaliar a determinação daquele homem. Baixou os olhos quando pen­sou distinguir algo no peito de Montferrat que chamou sua atenção. Inclinou-­se ameaçadoramente para mais perto e estendeu-se sobre a mesa, puxando um medalhão que pendia de uma corrente no peito do falso marquês. A mão de Montferrat se ergueu e agarrou o pulso de Di Sangro, imobilizando-o, mas o príncipe rapidamente engatilhou sua pistola. Lentamente, Montferrat soltou o braço de Di Sangro. O príncipe segurou o medalhão entre os dedos por alguns momentos e, de repente, arrancou-o do pescoço de Montferrat, arrebentando a corrente. Aproximou o medalhão dos olhos, examinando-o de perto.

Era uma peça simples, redonda, fundida em bronze, como uma grande moeda, com um pouco mais de dois dedos de diâmetro. A face ostentava um único desenho, uma cobra enrolada como um anel, cuja cabeça ficava em cima do círculo formado por seu próprio corpo.

A serpente devorava o próprio rabo.

O príncipe olhou para Montferrat com expressão interrogativa. Os olhos endurecidos do falso marquês nada deixavam transparecer.

- Estou cansado de esperar, marquese - sussurrou Di Sangro, ameaçadoramente. - Estou cansado de tentar dar sentido a tudo isso - disse ele com a voz seca, enquanto seus dedos se fechavam em torno do medalhão e o sacudiam em direção a Montferrat -, cansado de suas observações enigmá­ticas, de tentar ler através de suas referências esotéricas. Estou farto de ouvir relatórios sobre as perguntas que o senhor faz a certos intelectuais e viajantes e de juntar o que agora sei ser verdade sobre o senhor. Quero saber. Exijo saber. Então, deixo-lhe uma escolha. Ou me conta agora o que desejo saber ou leva seu segredo para o túmulo. - Ele aproximou ainda mais a pistola. O cano duplo pairava agora a centímetros do rosto do prisioneiro. Di Sangro deixou a ameaça pairar no ar por alguns segundos. Depois acrescentou: - Mas, se sua decisão for morrer aqui esta noite e levar seu conhecimento junto, peço que considere uma questão: o que lhe dá o direito de nos privar disso, de deixar o mundo no desprezo e na ignorância? O que fez o senhor para merecer o direito de fazer essa escolha em nome de todos nós?

A pergunta que o homem fizera muitas vezes a si mesmo, que assombrara toda sua existência.

Num passado longínquo, outro homem, um homem idoso que ele vira morrer, um amigo cuja morte - a seus olhos - ele chegara até a apressar, tinha feito essa escolha por ele. Com a respiração ofegante de uma pessoa à beira da morte, seu amigo o espantara ao lhe dizer que, apesar das ações odiosas e deploráveis de Montferrat, podia ver dúvidas e reticências em seu olhar. De algum modo, o velho homem tinha certeza de que a coragem, a nobreza e a honestidade daquele jovem estavam lá, profundamente enterradas, sufocadas por um senso de dever mal orientado. Em sua hora mais sombria, aquele amigo conseguira ver comprometimento e propósito na vida daquele jovem, algo a que o falso marquês há muito renunciara. E, com isso, vieram a aceitação, a revela­ção e a missão que iriam consumir o resto da vida de Montferrat.

Alguém fizera aquela escolha por ele. O direito de decidir lhe fora legado por alguém com muito mais méritos do que ele jamais imaginara ter.

Mas ficara surpreso consigo mesmo.

Tinha dado o melhor de si, tentara o máximo para descobrir o que continham as páginas que faltavam ao códice, para arrancar os segredos perdidos daquele antigo livro.

Conseguira escapar de seus acusadores em Portugal. Procurara na Espanha e em Roma. Viajara a Constantinopla e mais além, até o Oriente. Mas não acha­ra coisa alguma que fizesse sua busca progredir.

Ele falhara.

Pensou que a volta à terra natal o ajudaria a saber qual seria o próximo passo. A intervenção de Di Sangro contribuíra para interromper tudo isso. Na neblina que envolvia sua mente, uma coisa brilhava com certeza: tratar com desprezo o homem sentado diante dele e mantê-lo na ignorância era uma escolha que ele faria alegremente.

Quanto ao resto do mundo... bem, isso era outra coisa.

- Então? - cortou Di Sangro, com a mão vacilando um pouco pelo peso da pistola.

O homem que chamava a si mesmo de Montferrat pulou da cadeira e jogou-se sobre o adversário, agarrando e empurrando a pistola para trás ao mesmo tempo que Di Sangro puxava o gatilho. O tiro explodiu com um barulho ensurdecedor, enquanto ambos lutavam pela posse da pistola. A bala de chumbo saíra do cano superior e, zunindo no ouvido de Montferrat, se cravara no revestimento de madeira que cobria a parede atrás dele. Os dois homens caí­ram sobre a mesa ao lado da lareira, ainda lutando pela posse da arma, quando a porta do quarto se abriu com um estrondo. Os capangas de Di Sangro avan­çaram com as espadas levantadas. Montferrat aproveitou a distração momen­tânea que viu nos olhos do adversário, atingindo o príncipe com uma violenta cotovelada, que o pegou na altura da garganta. Este recuou com o golpe, afrou­xando a pressão sobre a arma o bastante para que Montferrat pudesse arrancá-la de suas mãos. Montferrat empurrou o príncipe para longe, levantou a pistola, engatilhou a arma ao se afastar do primeiro capanga, que já vinha para cima dele, e disparou. A bala atingiu o homem no peito, fazendo-o virar-se de lado e cair aos pés de Montferrat.

Montferrat jogou a pistola vazia sobre o segundo atacante e rapidamente agarrou a espada do homem caído. O príncipe tinha se recomposto um pouco e, apesar de ainda vacilar sobre os pés, desembainhou a própria espada.

- Não o matem - sussurrou, aproximando-se de seu capanga. - Preciso dele vivo... por enquanto.

Montferrat empunhou a espada com ambas as mãos, segurando-a defensivamente, manejando-a para os lados a fim de manter seus adversários a distância. Os dois homens a sua frente estavam impacientes e, pela sua experiência, o equilíbrio era uma arma tão eficaz quanto a espada. Esperaria que eles cometessem um erro. O capanga estava louco para provar seu valor e avançou, descuidado. Montferrat bloqueou o golpe com a espada e seu pé atingiu a coxa do homem com toda a força. Ele uivou de dor e, de canto de olho, Montferrat notou que o príncipe recuara, atento. Decidiu concentrar a atenção no capanga e girou a espada, fazendo-a chocar-se em cheio contra a lâmina do homem vacilante e arrancando-a de sua mão. O príncipe gritou de raiva e avançou, interrompendo Montferrat, cuja espada precisava se voltar para o outro lado. Montferrat conseguiu chutar o primeiro atacante antes de se virar para enfrentar Di Sangro. O homem camba­leou para trás, batendo na mesa e caindo dentro da grande lareira. Fagulhas e brasas se levantaram do fogo e ele gritou de dor por ter usado a mão para evi­tar a queda. Montferrat viu a manga do homem pegar fogo, ao mesmo tempo que a lanterna, que caíra da mesa, incendiava o tapete.

As chamas do tapete lamberam com fúria as pesadas cortinas de veludo, incendiando-as inteiramente, enquanto o falso marquês lutava para defender os novos golpes de Di Sangro. O calor e a fumaça no quarto eram infernais. O príncipe lutava impiedosamente e surpreendeu Montferrat com um golpe feroz, que tirou a espada de suas mãos. Montferrat recuou, tentando evitar o gume da espada de Di Sangro, muito próxima a seu pescoço. Através da fumaça que invadia o quarto, percebeu que o facínora com a mão queimada conseguira apagar as chamas de seu casaco e tentava voltar ao combate. O homem moveu­-se para o lado, posicionando-se junto à porta do quarto, impedindo qualquer tentativa de fuga por parte de Montferrat.

Montferrat sabia perfeitamente que estava vencido pelo número de inimigos e pela quantidade de armas.

Olhando nervosamente para os lados, decidiu aproveitar a única possibilidade de retirada. Levantou as mãos e moveu-se em direção à cortina incendia­da, os olhos cravados nos de Di Sangro.

- Precisamos apagar esse incêndio antes que se espalhe pelos outros andares - gritou Montferrat, com os pés girando cautelosamente em direção às cortinas.

- Que se danem os outros andares - respondeu Di Sangro -, desde que as chamas não devorem o que o senhor sabe.

Montferrat conseguiu abrir caminho até as cortinas em chamas. O casaco do capanga jazia ali, fumegante. Montferrat entrou em ação. Agarrou o casaco e usou-o para proteger as mãos ao atravessar as chamas e arrancou as cortinas dos trilhos, jogando-as sobre Di Sangro e seu lacaio. O casaco caiu pe­sadamente sobre o homem do príncipe, que gritou de terror, tentando apagar as chamas que lhe queimavam o corpo. As chamas o envolveram até que conseguiu jogar o casaco no chão, criando uma barreira de fogo entre eles e o inimigo. Montferrat não esperou. Abriu a porta da varanda e desapareceu na noite.

Depois do intenso calor, o ar gelado vindo da baía atingiu o quarto como uma bofetada. Olhando rapidamente para dentro, viu Di Sangro e o lacaio pisando febrilmente nas chamas e virando-se para segui-lo. Di Sangro olhou para Montferrat, que acenou com a cabeça, e, com o coração na boca, subiu pelas grades da varanda, e atirou-se de lá.

Aterrissou na varanda do quarto do andar de baixo. A queda enviou um choque de dor através da boca e dos dentes até a cabeça. Sacudindo-a, ele ficou de pé e voltou a subir pelas grades de ferro, antes de se atirar sobre o telhado dois andares abaixo, exatamente no mesmo momento em que Di Sangro con­seguiu chegar à varanda.

- Peguem-no - gritou ele na escuridão, enquanto ficava ali, de costas para as chamas, como um demônio no inferno. Montferrat olhou para a entrada do pala­zzo e viu dois homens correndo no escuro, cujas silhuetas transparecia à luz da lanterna que um deles carregava. Escalou um dos telhados e pulou no teto de uma estrutura ao lado, derrubando algumas telhas no chão. Olhou para os telhados e chaminés à sua frente, planejando sua rota de fuga. Sabia que poderia despistar seus perseguidores e desaparecer na escuridão da cidade densamente construída.

O que mais o preocupava era o que ele sabia que estava por vir.

Quando encontrasse o precioso tesouro que mantinha oculto num lugar secreto, longe de seu palazzo - precaução que ele sempre tomava -, teria que ir embora.

Teria que encontrar um novo nome e um novo lar.

Reinventar-se. Mais uma vez.

Ele já tinha feito isso antes.

E faria de novo.

Ouviu Di Sangro berrando "Montferrat!" dentro da noite, como se estivesse possuído. Sabia que ainda não o tinha visto pela última vez. Um homem como Di Sangro não renunciaria assim facilmente. Fora contagiado pela ganância febril que, quando se apossa de um homem, nunca o abandona.

Esse pensamento fez com que ele congelasse até os ossos, enquanto se perdia na noite.
II

Bagdá - abril de 2003
- Senhor, acabamos de ultrapassar a marca dos dez minutos.

O capitão Eric Rucker, do Primeiro Batalhão, Sétimo Regimento de Cavala­ria, conferiu o relógio e concordou com a cabeça. Olhou os rostos a sua volta, implacáveis e tensos, escorrendo suor. Ainda não eram dez da manhã e o sol já os castigava. O pesado equipamento que os protegia tampouco ajudava, não quando fazia 43 graus à sombra, mas não podiam dispensá-lo.

O prazo se esgotara.

Era tempo de avançar.

Com misteriosa sincronia, um chamado à prece vindo de um minarete próximo cortou o ar poeirento, sufocante. Rucker ouviu um ruído atrás de si e, erguendo os olhos, viu uma mulher idosa com cabelos meio brancos, meio pin­tados de hena, debruçar-se da janela de uma casa apenas uma rua além do alvo. Ela o examinou com olhos amargos, sem vida, antes de fechar as persianas.

Concedeu a ela alguns instantes para que encontrasse abrigo nos fun­dos da casa, e então com um breve aceno ao subcomandante, deu início ao ataque.

Uma granada Mark 19 lançada do Humvee que vinha na frente assoviou através da larga rua e destruiu o portão principal do complexo residencial. Os líderes de esquadrão avançaram seguidos de uns vinte soldados e logo esta­vam sob o fogo de armas leves. As balas zuniam enquanto eles se espalhavam pelo pátio, tentando proteger-se atrás da primeira coisa que encontrassem. Dois homens caíram antes que os outros pudessem achar posições seguras dos dois lados da entrada da casa. Logo, eles desfecharam uma torrente de balas em direção à casa, como cobertura, enquanto homens com grandes bíceps e corações ainda maiores carregavam rapidamente os feridos para a relativa segurança da rua.

A porta da frente da casa tinha uma barricada, e as janelas estavam bloquea­das. Durante os 22 minutos seguintes, centenas de tiros foram trocados, mas o avanço foi reduzido. Outro soldado foi atingido quando balas atiradas da casa atravessaram o carro atrás do qual se escondia.

Rucker deu ordem de retirada. A casa estava cercada. Os homens dentro dela não poderiam ir a lugar nenhum.

O tempo corria a seu favor.


Como muitas das outras que se seguiram, esta batalha tinha começado com uma vitória fácil.

Nessa tarde quente de primavera, um homem de meia-idade vestido com um terno esfarrapado e um trapo sujo amarrado em volta da cabeça se aproxi­mara dos soldados que guardavam o portão da Base Avançada de Operações do Campo Headhunter. Cansado de ser identificado como aliado do inimigo, ele falou baixo e depressa. Os soldados o mantiveram afastado e foram chamar um habitante local que usavam como intérprete, que ouviu as alegações do homem e disse que deviam permitir sua entrada, depois que o examinassem para ver se carregava explosivos. O intérprete, então, correu para alertar o co­mandante do campo.

Aquele homem detinha informações sobre uma "pessoa que lhes interessava”.

A caçada começara.

Perseguir a gangue de Saddam, formada por um núcleo irredutível de militantes do partido Ba’ath, era a prioridade número um dos militares no Iraque. A invasão-relâmpago tinha sido eficaz e a cidade fora tomada mais rápida e facilmente do que esperavam, mas a maior parte dos bandidos tinha fugido. Poucos dos que figuravam no baralho do Pentágono, composto pelos 55 iraquianos mais procurados, tinham sido capturados ou mortos - nem o próprio Ás de Espadas ou seus dois filhos.

Mantido em segurança numa sala de interrogatórios da base, o homem de turbante estava agitado quando começou a falar. Mais do que agitado, ele estava absolutamente aterrorizado. O intérprete salientou isso para o comandante da base, que não tinha percebido. Para ele, isso era de se esperar. Aquelas pessoas tinham vivido durante décadas sob uma ditadura monstruosa e impiedosa. Delatar um de seus algozes não era exatamente uma ação simples.

Já o intérprete não tinha tanta certeza assim.

O comandante da base ficou desapontado ao perceber que o homem do regime denunciado pelo velho não estava na lista dos mais procurados pelo Pentágono. Na verdade, ninguém tinha ouvido falar dele. Ninguém parecia saber absolutamente nada sobre ele.

O homem do turbante sequer sabia seu nome. Referia-se a ele apenas como o hakim.

O doutor.

Mesmo em segurança, dentro da Base Avançada de Operações, ele só ousava pronunciar aquela palavra num tom velado, intimidado.

Ele não podia lhes fornecer sequer um nome. Os detalhes que tinha eram su­mários, exceto que, antes da invasão, homens em carros escuros, com aparência oficial, tinham sido vistos com freqüência, no meio da noite, dentro do comple­xo residencial. O próprio líder destemido viera visitá-lo em algumas ocasiões.

Ele foi incapaz de descrevê-lo, a não ser por um único detalhe alarmante, que deixou intrigados todos os que o escutavam na sala: o hakim não era iraquiano, ou sequer árabe.

Era um ocidental.

E certamente o baralho do Pentágono não incluía nenhum ocidental.

Quanto a isso, apenas uma pessoa da lista não fazia parte do Exército ou do governo. Curiosamente, era a única rainha do baralho - biologicamente falan­do, pelo menos. A carta mais baixa do baralho era uma mulher, uma cientista chamada Huda Ammash, conhecida pelo apelido de sra. Antrax, filha de um antigo ministro da Defesa, apontada como a cabeça do programa iraquiano de armas biológicas.

Todos os elementos estavam reunidos. Um médico. Próximo de Saddam. Ocidental. Denunciado por um cidadão local aterrorizado. Era o bastante para o pontapé inicial.

Solicitaram informações da Inteligência, que lhes foram passadas naquela mesma noite. Planos foram feitos.

Nas primeiras horas da madrugada, Rucker e seus homens tinham reforçado o cordão exterior de segurança com forças terrestres e veículos blindados. A localização do alvo, tal como fora indicado pelo homem de turbante, era uma casa de três andares, no centro do distrito de Saddamiya, em Bagdá. O lugar nem sempre se chamara assim. Fora, no passado, uma área bastante violenta. Saddam crescera em suas ruas cruéis, freqüentara a escola local e moldara ali seu estilo de vida. Depois de conquistar o país, trouxera escava­deiras e destruíra toda aquela área, construindo em seguida uma comunidade fechada, composta de modernas e imponentes casas de alvenaria, cercadas por ruas com galerias e praticamente separadas do resto da cidade. A comunidade recebeu seu nome e se tornou o lar daqueles que ele considerava merecedores. O batalhão ficara encarregado daquela área desde que as tropas tinham ocu­pado Bagdá, e a tratava cautelosamente, dada a aversão que as pessoas leais ao regime que ainda viviam ali sentiam pelas forças invasoras.

Os esquadrões armados assumiram suas respectivas posições; os franco-atiradores estavam a postos. O ataque estava pronto para começar.

Segundo os mais novos moldes de procedimento para esses casos, Rucker adotara uma abordagem de "cerco e busca”. Como o perímetro estava seguro, as tropas avançaram em direção à casa, deixando evidente sua presença. Pelo auto-falante, um intérprete informava aos habitantes que tinham dez minutos para sair da casa com as mãos para o alto.

Dez minutos mais tarde, o inferno entrara em erupção.


Enquanto os feridos eram transportados para locais em que pudessem receber tratamento adequado, Rucker deu ordem de "preparar o objetivo" para minimizar os acidentes durante a inevitável tentativa de entrar de novo na casa. Dois helicópteros OH-58D Kiowa se aproximaram e despejaram na construção mísseis de 7 centímetros de diâmetro e rajadas de metralhadora, enquanto as tropas terrestres a bombardeavam com mais granadas Mark 19 e alguns mísseis antitanque AT-4 mais potentes, levados sobre os ombros.

A casa ficou finalmente silenciosa.

Rucker enviou seus homens de volta, mas, dessa vez, dois Humvees atacaram antes deles, com fumegantes metralhadoras calibre .50. Ele logo se deu conta de que o objetivo fora mais do que bem preparado. Seus homens avan­çaram sem problemas, encontrando muitos cadáveres e apenas três solitários guardas republicanos, ainda traumatizados pelos morteiros, que foram rapida­mente carregados para fora.

Uma onda de alívio o percorreu quando ouviu o grito de "Tudo limpo" pelo rádio. Suas tropas avançadas confirmaram o controle do local.

Rucker entrou na casa do hakim, enquanto os cadáveres eram alinhados para identificação. Ao olhar nos rostos sujos e manchados de sangue, ele fran­ziu a testa. Todos eram cidadãos locais, iraquianos, soldados de infantaria há muito abandonados por seus oficiais comandantes. Pediu que lhe trouxessem de novo o homem de turbante, que fora mantido sob guarda pesada, e lhe permitiram examinar os corpos. Diante de cada um, ele sacudia a cabeça. Seu medo parecia aumentar com cada identificação negativa.

O hakim não estava ali.

Rucker fez cara feia. Aquela operação custara recursos consideráveis: três homens tinham sido feridos, um deles seriamente, e pelo visto nada daquilo servira. Estava a ponto de ordenar outra limpeza quando uma voz, que reco­nheceu como a do sargento Jess Eddison, irrompeu pelo rádio.

- Senhor - a voz de Eddison estava apreensiva, de uma maneira que Rucker nunca ouvira antes -, acho que precisa ver isto.

Rucker e seu subcomandante seguiram um líder de esquadrão até o vestíbulo interior da casa, de onde partiam grandes escadarias revestidas de mármore que conduziam aos quartos. Uma porta arrancada de suas dobradiças levava ao porão. Com lanternas iluminando a passagem sem janelas, os três homens avançaram cuidadosamente pelas escadas e se encontraram com Eddison e dois soldados de primeira classe do Segundo Pelotão. Eddison dirigiu a luz da lanterna para a escuridão, conduzindo-os até o salão.

O que eles encontraram não foi exatamente uma sala comum de recreação.

A menos que você se chamasse Josef Mengele.

O porão ocupava as fundações da casa e do pátio externo. As primeiras salas que percorreram não eram particularmente inquietantes. A primeira era um escritório, cujo conteúdo parecia ter sido retirado às pressas. Papéis ras­gados cobriam o solo e alguns livros queimados jaziam numa pilha de cinzas negras e encadernações deformadas. O cômodo seguinte era um banheiro, seguido de outro, com sofás e um grande aparelho de televisão.

A sala que visitaram depois era muito mais ampla. Era uma sala de cirurgia muito bem equipada. A mobília e o equipamento cirúrgico eram os mais mo­dernos. Sua relativa limpeza acentuava o estado sórdido do resto da casa. Com certeza, os guardas que vigiavam a construção não tinham se aventurado até ali. Possivelmente por escolha própria. Ou talvez por medo.

O assoalho estava molhado com um líquido azulado. Rucker e sua equipe seguiram Eddison, as botas rangendo contra as frias lajes de pedra. A passagem levava a um laboratório no qual, sobre o balcão de fórmica branca com gavetas que percorria toda a longa parede, tinha sido colocada uma fileira de tonéis transparentes cheios de uma solução verde-azulada. Alguns deles tinham sido quebrados no que parecia ser uma tentativa apressada de encobrimento. Outros estavam intactos.

Rucker e o líder do esquadrão se aproximaram para ver melhor. Tubos mergulhavam no líquido e, em suspensão nos tonéis intactos, havia órgãos humanos: cérebros, olhos, corações e outras partes menores do corpo, que Rucker não conseguiu identificar. Uma mesa de trabalho estava coberta de placas de Petri, pequenos recipientes redondos para cultura de microrganismos, cujos rótulos meticulosamente identificados eram indecifráveis a seus olhos de leigos. Ao lado das placas, havia um par de potentes microscópios. Fios e cabos, provavelmente de computadores, jaziam sem função. Todos os computadores tinham sido levados.

No canto do aposento havia um outro quarto, longo e estreito, onde Rucker descobriu várias geladeiras grandes de aço inoxidável, alinhadas. Pensou se devia examinar pessoalmente seu conteúdo ou esperar pela equipe especializada em substâncias tóxicas. Por fim, decidiu que não havia nenhum risco, devido à ausência de cadeados ou marcações, e abriu a primeira delas. Estava cheia de tonéis contendo um espesso líquido vermelho. Antes mesmo de ver os rótulos escritos com datas e nomes, Rucker soube que aqueles reci­pientes continham sangue.

Sangue humano.

Não pequenas bolsas plásticas usadas pelos médicos, às quais ele estava acostumado.

Mas barris de sangue.

Eddison os conduziu à parte do porão à qual se referira inicialmente. Um estreito corredor levava a outra área, provavelmente escavada sob o pátio, em­bora Rucker não pudesse ter certeza, já que aquele labirinto sombrio confundia qualquer sentido de direção que pudesse ter ao ar livre. Era visivelmente uma prisão. Celas ladeavam a passagem, seus interiores decentemente mobiliados com camas, privadas e pias. Rucker tinha visto piores. Parecia mais uma enfer­maria de hospital sem janelas.

Não fosse pelos cadáveres.

Havia dois em cada aposento.

Tinham recebido um tiro na cabeça, num ato de insanidade final, desesperado. Havia homens e mulheres. Jovens e velhos. Pelo menos uma dezena de crianças, meninos e meninas. Todos vestidos com macacões brancos idênticos. A última cela marcaria Rucker até o fim de seus dias.

Em seu solo branco, estavam deitados os corpos inertes de dois meninos, cujas cabeças tinham sido inteiramente raspadas fazia pouco tempo. Eles o en­caravam com olhos fixos, imóveis; suas testas ostentavam pequenas perfurações redondas, e pequenas poças de sangue, espessas e brilhantes, como se fossem de acrílico, rodeavam seus crânios. Na parede da cela, havia um desenho grosseiro, como se tivesse sido gravado com um garfo ou outro instrumento duro.

Gravura feita por uma alma em desespero, grito silencioso de uma criança apavorada dirigido a um mundo que não se importava com ela.

A imagem circular de uma serpente, curvada sobre si mesma e devorando o próprio rabo.



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