O surgimento dos cadernos culturais no Brasil



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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO

JORNALISMO

O ESVAZIAMENTO DA CRÍTICA NOS CADERNOS CULTURAIS:

UM ESTUDO DE CASO DO “SEGUNDO CADERNO”

NATHÁLIA PERDOMO ARAÚJO


Rio de Janeiro

2009
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO

JORNALISMO
O ESVAZIAMENTO DA CRÍTICA NOS CADERNOS CULTURAIS:

UM ESTUDO DE CASO DO “SEGUNDO CADERNO”

Nathália Perdomo Araújo

Monografia submetida à Banca de Graduação

como requisito para obtenção do diploma de Comunicação Social – Jornalismo.


Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Henriques Costa
Rio de Janeiro

2009
FICHA CATALOGRÁFICA


ARAÚJO, Nathália Perdomo.

O esvaziamento da crítica nos cadernos culturais: um estudo de caso do “Segundo Caderno”. Rio de Janeiro, 2009.


Monografia (Graduação em Comunicação Social – Jornalismo) – Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de Comunicação – ECO.
Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Henriques Costa.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

ESCOLA DE COMUNICAÇÃO


TERMO DE APROVAÇÃO
A Comissão Examinadora, abaixo assinada, avalia a Monografia O esvaziamento da crítica nos cadernos culturais: um estudo de caso do “Segundo Caderno”, elaborada por Nathália Perdomo Araújo.
Monografia examinada:

Rio de Janeiro, no dia ......./....../.......


Comissão Examinadora:
Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Costa

Doutora em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicação – UFRJ

Departamento de Comunicação – UFRJ

Prof. Dr. Micael Hershmann

Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação – UFRJ

Departamento de Comunicação – UFRJ

Prof. Ms. Augusto Henrique Gazir Martins

Mestre em Latin American Politics pela Universidade de Londres

Departamento de Expressão e Linguagem – UFRJ

Rio de Janeiro

2009
AGRADECIMENTOS
A Deus, por Sua luz nas horas mais difíceis, por sua benção diária, pela serenidade e paz;
À minha família, por ser a maior incentivadora das minhas escolhas, acreditando no meu potencial e presente em todas as horas;
Aos meus amigos, em especial a Carolina Ladeira e a Stéphanie Garcia Pires, pelos momentos de alegria e superação nesses quatro anos de faculdade;



À minha orientadora, Cristiane Costa, pelo estímulo, dedicação e confiança.
Aos profissionais da área que contribuíram para esse trabalho, compartilhando suas experiências e reflexões.



Dedico este trabalho ao amigo Rodrigo Brum, por ser minha principal referência em cultura. E pela amizade incondicional.

Araújo, Nathália Perdomo. O esvaziamento da crítica nos cadernos culturais: um estudo de caso do “Segundo Caderno”. Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Henriques Costa. Rio de Janeiro: UFRJ/ECO, 2009. Monografia em Jornalismo.




RESUMO
Este trabalho tem como objetivo abordar o visível esvaziamento da crítica cultural no jornalismo impresso brasileiro. Analisando a trajetória dos cadernos culturais, busca-se entender as tendências editoriais desencadeadas a partir da própria mudança na noção de cultura. A relativização da crítica, assim como a valorização das celebridades, do entretenimento e a proliferação das agendas de eventos divulgados nos veículos de comunicação impressos são alguns pontos enfocados ao longo dos capítulos. O crescimento da reportagem pautada pelos fenômenos de popularidade em detrimento do espaço antes ocupado pela crítica também é apontado neste trabalho, que conta com entrevistas com críticos e repórteres, a fim de discutir as possíveis causas desse esvaziamento. Para verificar as tendências citadas acima, realizou-se um estudo de caso do “Segundo Caderno” do jornal “O Globo”.

SUMÁRIO

  1. INTRODUÇÃO




  1. A TRAJETÓRIA DOS CADERNOS CULTURAIS NO BRASIL

    1. “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”

2.2 “Caderno B”

2.3 “Segundo Caderno”




  1. RESENHA VERSUS TEXTO CRÍTICO

    1. Conceito de reportagem

3.2 Conceito de crítica


  1. O ESVAZIAMENTO DA CRÍTICA CULTURAL




  1. ESTUDO DE CASO DO “SEGUNDO CADERNO”




  1. CONCLUSÃO


7 REFERÊNCIAS
8 ANEXOS

1. Introdução Nas últimas décadas, o jornalismo passou por mudanças que redefiniram a linha editorial de grande parte dos cadernos culturais brasileiros. O jornalismo cultural perdeu algumas características originais que o identificavam como espaço privilegiado da crítica. No entanto, certa instabilidade faz parte da dinâmica da profissão. Sob a percepção do pensamento pós-moderno, que relativiza os dogmas – não há mais verdade absoluta –, a própria função da crítica foi colocada em jogo no universo cultural contemporâneo, assim como o poder dos jornais de serem gatekeepers, de ditarem o que deve ou não ser consumido em termos de bens culturais. O segundo capítulo desta pesquisa traz um resumo histórico dos suplementos culturais, desde os primeiros exemplos, ainda no século XIX, até a proliferação das rotativas que, na década de 1930, levaram à impressão do jornal dividido em cadernos. Neste capítulo, aborda-se também o embate entre a crítica feita por jornalistas e a crítica especializada, formada nas universidades. Dois modelos que ficaram cada vez mais distantes principalmente após a polêmica iniciada nos anos 50 pelos acadêmicos ligados à então recém-criada faculdade de Letras, que defendiam uma formação mais técnica e erudita para o exercício da crítica literária e condenavam os chamados críticos impressionistas, que contavam com o poder dos jornais para divulgar suas ideias e gostos. No terceiro capítulo, a proposta é mostrar a trajetória de dois importantes suplementos que influenciaram ao modernização dos cadernos culturais brasileiros (inclusive o “Segundo Caderno” do “O Globo, foco principal deste trabalho): o “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil” e o “Caderno B”. Tanto as reformas gráficas, quanto as editoriais merecem destaque pelo caráter inovador e ousado dos editores e colaboradores. E por terem ditado o modelo que seria seguido pelos principais suplementos culturais nacionais a partir de então, como o “Segundo Caderno”, de “O Globo”, o “Caderno 2”, de “O Estado de São Paulo”, e a “Ilustrada”, da “Folha de São Paulo”. Na sequência, um breve histórico do “Segundo Caderno” busca contextualizar o suplemento de “O Globo” na história político-cultural do país. No período que se seguiu à ditadura militar, enquanto outros jornais faliam, o “Globo” crescia e aumentava suas páginas de cultura. Afinal, se os interesses editoriais estivessem de acordo com os interesses do governo, não havia razão para temer cortes de verbas publicitárias ou o crivo da censura. A partir do capítulo 3, são estabelecidas algumas diferenças entre resenha e crítica, e a formação de repórteres e críticos é comparada. As análises baseiam-se, principalmente, em entrevistas realizadas com profissionais de ambas as áreas, entre eles Manya Millen (editora do “Prosa & Verso”), Antonio Carlos Miguel (repórter e crítico de música do “Segundo Caderno”), Bárbara Heliodora (crítica de teatro do “Segundo Caderno”) e Rodrigo Fonseca (repórter e crítico de cinema do “Segundo Caderno”). Os entrevistados respondem, basicamente, às mesmas perguntas, constituindo uma espécie de questionário, a fim de comparar os pontos de vista dos diversos profissionais citados ao longo do trabalho. A única exceção foi Bárbara Heliodora, que se dedica apenas às críticas e não escreve reportagem. Nos anexos, os interessados podem ler a íntegra das entrevistas. Mais importante do que reafirmar o esvaziamento da crítica nos cadernos culturais é encontrar razões para esta tendência. A cultura de celebridades, voltada para o entretenimento, pode ser apontada como um dos motivos para a perda de espaço da crítica. Entender por que as agendas de eventos vêm ganhando as páginas dos jornais em detrimento do debate de ideias provocado pelo crítico também se faz necessário para compreender este fenômeno. O estudo acerca do esvaziamento do conteúdo crítico nos cadernos culturais não é novo. Muitas pesquisas foram feitas em torno deste assunto, mas ainda é um desafio compreender qual a real a função da crítica na contemporaneidade. Criticas de música, filmes, livros, exposições e peças teatrais têm perdido espaço nos jornais em função de uma série de fatores mercadológicos.

Hoje, não é mais possível realizar uma crítica militante na imprensa diária. Devido à grande demanda da indústria cultural, o jornal não consegue acompanhar todos os lançamentos do cinema, do teatro, da literatura, das artes plásticas, da música, da dança, etc. É preciso, portanto, selecionar e apresentar para o público as obras mais relevantes (do ponto de vista do profissional incumbido desta função). A linguagem acadêmica dos críticos também parece representar um empecilho para o jornalismo, que busca um texto mais leve e comunicativo do que os herméticos jargões e o vocabulário técnicos da academia. Hoje, o grande desafio é conciliar uma reflexão aprofundada, objetivo da crítica de arte, com a clareza e objetividade propostas pelo jornalismo.

Como foi dito no início desta Introdução, a relativização da crítica é outro ponto abordado no trabalho. Em um mundo sustentado por dois paradigmas – de um lado o pensamento moderno, de outro o pós-moderno – nada é absoluto. Neste sentido, torna-se cada vez mais difícil para o crítico se sentir capaz de dizer para o público com total propriedade se uma obra é boa ou ruim. Sob a perspectiva da lógica do consumo, a crítica não faz sentido, já que não está voltada para os fundamentos da arte e do valor do produto artístico. O papel do crítico, portanto, vem sendo questionado, assim como a influência da crítica no sucesso ou no fracasso de uma obra de arte. Se um fato artístico existe em si mesmo – e este é o pressuposto moderno –, ele pode ser apropriado de diversas maneiras, inclusive da maneira crítica, que é uma representação do objeto. No entanto, esta convicção é profundamente contestada pelo pensamento pós-moderno, em que a questão não é a busca da verdade, e sim a da eficácia dos produtos culturais no mercado.

Há quem acredite que o papel do crítico hoje é o mesmo de 50 anos atrás: fornecer subsídios para uma fruição mais proveitosa; orientar o público; aprimorar seu gosto e conhecimento estético; apontar e colocar em palavras dados que não são percebidos de imediato. Porém, as relações interpessoais mudaram, assim como as relações entre público, produto cultural e mercado. As motivações de um consumidor do século XXI não são as mesmas de um leitor ou espectador do início do século XX, por razões de ordem cultural, econômica, tecnológica. E com isso, algumas “verdades” são postas em cheque, entre elas, a legitimidade, utilidade e até mesmo possibilidade da crítica. Os próprios conceitos de alta e baixa cultura sofreram mudanças.

A bibliografia escolhida para a realização deste trabalho busca ser coerente com o tema proposto, utilizando-se principalmente de estudos feitos por jornalistas que trabalham ou trabalharam na área cultural. A partir dos livros de Cláudia Nina e Daniel Piza, pode-se combinar a discussão teórica com reflexão sobre a prática, sem que este trabalho se prendesse apenas ao discurso academicista de alguns críticos e o pragmatismo dos jornalistas. A análise comparativa entre os suplementos de hoje e das décadas passadas é baseada na dissertação de mestrado de Isabel Mauad (também ela jornalista que atuou na área), que tem como tema a trajetória dos cadernos culturais.

A discussão sobre o afastamento entre jornalismo e literatura recorre, principalmente, aos estudos do crítico literário Silviano Santiago. Segundo ele, à medida que os livros passaram a ser mais acessíveis ao leitor, o espaço para a publicação de textos literários foi reduzido na imprensa. Constatou-se que as reportagens factuais eram mais populares do que temas relacionados à ficção. Com isso, as notícias passaram a ter um valor mais comercial do que meramente informativo, devido à demanda por informação objetiva, a respeito da economia local ou da conjuntura política internacional.

Conceituar o que é a crítica e qual o seu papel exige uma bibliografia mais teórica, com base no filósofo Walter Benjamin, especialmente sua tese de doutorado “A crítica de arte no Romantismo Alemão”. Alguns conceitos são explorados neste trabalho a fim de discutir a capacidade da crítica de estimular a ação do público e conscientizar o autor da obra sobre seu trabalho.

Partindo para uma visão mais prática, é realizado um estudo de caso para qualificar e quantificar o espaço para reportagens e críticas no “Segundo Caderno”, de “O Globo”. Com isso, fica evidente a priorização das reportagens – quase sempre pautadas por um lançamento de livro, filme ou peça teatral – em detrimento das críticas, que em alguns números simplesmente não aparecem.

Ainda tratando do estudo de caso, optou-se por assuntos que tenham sido publicados em formato de reportagem e sido alvo da crítica especializada, como foi o seriado musical Glee, o espetáculo teatral “Simplesmente eu. Clarice Lispector” e o CD “Pimenteira” de Pedro Miranda. A partir das características observadas em cada texto, foi possível constatar as reais diferenças entre reportagem e crítica, além de perceber a autonomia do crítico em relação ao repórter.

Pretende-se mostrar ainda que a crítica não é mais um cânone e o jornal como espaço de debate de ideias já não é mais tão eficiente. E isso não é uma tendência apenas no Brasil. Países de primeiro mundo e culturalmente letrados também têm sofrido com a carência deste gênero nos suplementos culturais. Os próprios críticos acreditam que a recepção de seus textos pelo público mudou.

Por fim, o resultado deste trabalho é sintetizado na Conclusão, que não tem a pretensão de ser absoluta e incontestável. Pelo contrário, ela não busca responder categoricamente a todas as perguntas formuladas ao longo do trabalho. Porém, o fato de terem sido levantadas já demonstra o interesse em procurar respostas e, antes de tudo, debatê-las.

2. A trajetória dos cadernos culturais no Brasil

Vale pensar na lógica do suplemento como um acréscimo, diferentemente do complemento, que faz parte do todo. Silviano Santiago afirma que a literatura passou a ser esse algo a mais no jornalismo, a fim de “fortalecer semanalmente os jornais através de matérias de peso, imaginosas, opinativas, críticas, tentando motivar o leitor apressado dos dias da semana a preencher o lazer do weekend de maneira inteligente”. 1 Sem a concorrência do rádio, do cinema, da televisão e da internet, a literatura era no século XIX um grande assunto para os jornais, especialmente após o sucesso dos primeiros folhetins, a partir de 1836.

No livro “Os romances em folhetins”, José Ramos Tinhorão aponta os folhetins como precursores dos suplementos literários. Enquanto os primeiros estimulavam o gosto pela literatura a partir da publicação de grandes romances nos rodapés das páginas diariamente, os segundos buscam abordar temas variados como lançamentos de livros e peças teatrais, assumindo, em alguns casos, uma postura crítica. 2

Jornais de prestígio no Rio de Janeiro – àquele tempo capital do país – como “A Imprensa”, “A Tribuna” e “ O Jornal do Brasil” já reservavam espaço para a literatura com a publicação de seus folhetins no final do século XIX. Naquela época, o jornalismo era impregnado de textos literários, e quase todos os escritores de renome passavam pela imprensa, como uma espécie de batismo.

A “Gazeta de Notícias” aparece como o primeiro jornal a publicar um suplemento regular, ainda vinculado ao corpo do jornal de tomo único, em 1888. A partir de 1907, após passar por uma modernização gráfica, o periódico começou a publicar exemplares em cores, aos domingos, sob forma de encarte. Passou-se então a separar os textos literários das notícias meramente informativas dos primeiros cadernos.3

No entanto, o conteúdo deste primeiro suplemento não era exclusivamente literário, e sim de variedades, com crônicas da situação econômica-política-cultural do país. Vale mencionar, à época, a importância da “Revista da Semana” – encartada no “Jornal do Brasil” que, por ostentar um preço fixo na capa, não era considerada suplemento do jornal, e sim uma publicação independente, a ser vendida separadamente.

Nomes como Machado de Assis e José Veríssimo, conhecidos como a geração fin-de-siècle, escreveram nas chamadas páginas culturais – denominação anterior aos suplementos – e consagraram muitas publicações com seu prestígio. A partir deles, os periódicos brasileiros abriram espaço para o crítico informativo e profissional, que buscava refletir a cena literária da forma mais abrangente possível, e não apenas os lançamentos de obras mais relevantes. 4

Nos anos 30, os suplementos culturais deram um salto. Com a crescente industrialização e algumas novidades importadas de países desenvolvidos, como as máquinas rotativas, o papel-bobina e a composição mecanizada de texto, foi possível aumentar a produção. Já na década de 30, à exceção do “Jornal do Commercio”, os principais jornais tinham seus suplementos literários. 5

Os suplementos do “Correio da Manhã”, do “Diário de Notícias”, a “Revista” de “O Jornal”, o “Letras e Artes” e o “Autores e Livros” destacavam-se pelas críticas incisivas de seus colaboradores, como os críticos Agripino Grieco e Álvaro Lins. O depoimento da escritora Rachel de Queiroz, colaboradora do “Diário de Notícias” a partir de 1941, prova a grande influência que a crítica, principalmente a literária, exercia no cenário cultural do país:

Tínhamos medo. [A crítica] Podia derrubar ou consagrar o escritor. Cada jornal tinha o seu crítico. Agripino Grieco era dos mais temidos, muito sarcástico, mas um artigo favorável dele era uma consagração. Tristão de Ataíde era mais comedido, mas decisivo nas opiniões. Álvaro Lins, que morreu muito jovem, era muito culto, muito independente e também altamente considerado. 6

De fato, a década de 40 marcou os tempos áureos da crítica no jornalismo. Nomes como Álvaro Lins, Agripino Grieco, Otto Maria Carpeaux, Sérgio Buarque de Holanda, Brito Broca e Augusto Meyer foram de grande importância para o período, principalmente pelo eruditismo e ampla visão política combinados ao apurado estilo de seus textos, caracterizados por uma linguagem livre dos jargões usados posteriormente pela academia.

Entre os anos 40 e 50, surgiram diversos suplementos literários de destaque, principalmente o “Quarto Caderno”, suplemento dominical do “Correio da Manhã”, que polemizou a vida cultural do país. Na década seguinte, uma nova geração de colaboradores apareceu para compor o quadro do jornal, como Paulo Francis – que se tornou editor do suplemento em 1967 –, Sérgio Augusto e Ruy Castro.

No entanto, essas grandes duas gerações viveram o auge da polêmica que dividiu a crítica entre especialistas formados e autodidatas. Alguns acadêmicos capitaneados por Afrânio Coutinho passaram a questionar a qualidade dos textos produzidos por críticos sem formação universitária. A crítica impressionista feita por Álvaro Lins, o mais influente da década de 50, era seu maior alvo.

A crítica impressionista era rechaçada por analisar o objeto artístico a partir da apreciação pessoal do crítico. Em seu livro “Literatura nos jornais”, Cláudia Nina explica que a origem da palavra impressionista desde então, passou a significar a “prática de uma arte ou ofício de forma amadora sem levar em conta normas de ordem intelectual”.7

Afrânio Coutinho acreditava que o ofício de crítico exigia formação especializada, em um momento em que a teoria literária despontava nas universidades brasileiras. Apesar das críticas lançadas pelos acadêmicos, Álvaro Lins descobriu talentos como Guimarães Rosa – mas menosprezou a estréia de Clarice Lispector – e foi considerado o “imperador da crítica literária brasileira”, por autores como Carlos Drummond de Andrade. Para Silviano Santiago, por ironia, essa polêmica acabou esvaziando a grande imprensa de uma contribuição de qualidade e alta capacidade de influenciar o público: a “produção crítica e ensaísta dos não-especialistas”.8

Apesar da briga entre especialistas e amadores, entre os anos 50 e 60, o jornalismo cultural viveu um bom momento, mas não poderia imaginar as mudanças que estavam por vir nas décadas seguintes. Foi no período da ditadura militar que os press-releases produzidos pelas assessorias de imprensa ganharam as páginas dos jornais e os textos passaram a ter um tom mais superficial, menos crítico, predominando a agenda de divulgação.

O depoimento da crítica literária Flora Süssekind explica o cenário em que o jornalismo cultural está inserido atualmente.
Não só nas seções dedicadas a livros e espetáculos, mas nos jornais brasileiros como um todo, o gênero dominante hoje é a coluna social. (...) Essa situação vem se anunciando desde o período militar, quando as colunas ganharam força como lugares em que se plantavam, anonimamente, notas e em que “informantes”, como os de polícia, se tornaram muitas vezes mais importantes que os repórteres. Não é a toa que nos anos 70, essas seções serviram, muitas vezes, de porta-vozes oficiosos para os meios oficiosos para os meios militares. Sua popularização se associa também a uma preocupante ligação da atividade jornalística ao marketing e a um evidente empobrecimento cultural das classes médias, um público consumidor, mas não leitor, porque é incapaz de se concentrar em textos mais longos ou mais analíticos. A diagramação, por vezes, até mesmo transforma os segundos cadernos em simples extensões das colunas sociais, em geral as mesmas de jornal para jornal, e com fotos apenas ilustrativas. O mais grave é que só o que parece possível de venda imediata, de marketing, se torna noticiável. A cultura é vista como objeto de divulgação, não de reflexão. Daí não ser de estranhar a rarefação, talvez mesmo a impossibilidade, de algo sequer próximo da crítica cultural.9


2.1 “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”
Na década de 50, a cobertura cultural brasileira sofreu uma grande revolução. Em 1956, o “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil” (SDJB) surgiu com a proposta de diversificar o conteúdo editorial do “Jornal do Brasil” e dedicar um espaço à efervescente produção cultural do país.

À frente do processo estava o poeta Reynaldo Jardim, importante nome na revitalização do “JB”. Antes de levar a ideia de um caderno cultural para o papel, o jornalista produzia um programa para o rádio com o mesmo nome: “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”. À pedido da condessa Pereira Carneiro, proprietária do jornal, Reynaldo levou o suplemento para as páginas do JB.

Foi literalmente uma revolução. A coluna intitulada “Literatura Brasileira Contemporânea” publicava poemas, críticas e o que mais pudesse interessar a respeito de livros. Mário Faustino criou a página “Poesia Experiência”. Ferreira Gullar, um dos poetas do neoconcretismo, tornou-se crítico responsável pela página de artes plásticas.

Composta por grandes intelectuais em início de carreira, como Carlos Heitor Cony, o cineasta Glauber Rocha e o filósofo José Guilherme Merquior, a equipe fixa e de colaboradores do “SDJB” estava profundamente engajada nos movimentos culturais da época. Não foi por acaso que o suplemento publicou, em 1959, o Manifesto Neoconcreto, e abraçou as ideologias do movimento. Em carta sobre sua atuação à frente das reformas promovidas no “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”, Reynaldo Jardim comentou:


O concretismo aconteceu nesse período e o caderno que eu editava, o SDJB, encampou o movimento e deu a projeção nacional que tornou o experimento temido, respeitado e, portanto, até ridicularizado.10

O layout do suplemento era uma das características mais inovadoras, pois equilibrava o excesso de textos e ilustrações de uma página com o branco e o vazio de outra. Um belo exemplo de como a diagramação de um suplemento cultural pode ela mesma se colocar no nível de obra de arte foi a página que lançou as bases do neoconcretismo.




A reforma gráfica ficou a cargo de Amílcar de Castro, artista plástico mineiro, que, baseado no equilíbrio dos quadros de Mondrian, implementou a diagramação no formato vertical e valorizou os espaços em branco, tornando as páginas esteticamente mais bonitas e os textos mais legíveis.

O “SDJB” é até hoje apontado como o principal responsável pelas reformas gráfica e conceitual dos jornais do país. A partir dele, foram lançados novos autores, críticos literários e cineastas.

Em relação à importância do “SDJB” para o cenário cultural da época, Ferreira Gullar acrescenta:

Nenhum outro suplemento desempenhou tal papel formador de conhecimento teórico. Nele, José Guilherme Merquior foi lançado como crítico literário, Mário Faustino tinha página de poesia, eu tinha uma página na qual escrevi a série de artigos ‘Etapas da arte contemporânea’, depois publicada em livro. O suplemento dava também acolhida ao Cinema Novo: Glauber Rocha, Cacá Diegues, Joaquim Pedro, Leon Hirzman. O Teatro Novo Brasileiro também era enfocado, com Flávio Rangel e Guarnieri. 11

O “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil” foi publicado até 1961, pouco depois do surgimento de um outro caderno, que se tornaria popular por abordar como temática principal o comportamento. Nascia em setembro de 1960, o também revolucionário “Caderno B”.



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