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o Último toque do Clarim
OBRAS PUBLICADAS:

• AS CORDAS DO SITAR- Crônicas. Recife. Indústrias Gráficas Barreto, Limitada, 1995.

• A CANÇÃO DO AMOR FRATERNO - (de parceria com Maria Dommell) Crônicas, Recife, Indústrias Gráficas Barreto, Limitada, 1997, transcrito também em Braille, pela SPLEB, Rio de Janeiro, RJ, 2002.

• UM SOL QUE SE PÕE - Crônicas. Recife. Indústrias Gráficas Barreto, Limitada, 2000.

Capa: Daniel Santiago

Diagramação e Composição Eletrônica: Gráfica Barreto Revisão: Luizandes Barreto e Ricardo Correia de Menezes. Arte Final e Fotolitos: Indústrias Gráficas Barreto Limitada. Mapa: Andréa Lyra

5677u Uchôa, Rubens, 1929 -

O último toque do clarim / Rubens Uchôa - Recife: Ed. do Autor, 2003.

165p. : il.

1. SOBREIRA, ELIAS, 1907-2003- BIOGRAFIA. 2. CAMPANHA DO QUILO-RECIFE(PE) -HISTÓRIA.

3. ESPIRITISMO. I.Título.

PeR-BPE CDU 92 SOBREIRA,E.

C D D 920

Impresso no Brasil

À memória de:
- Luiz Uchôa Cavalcanti e Julieta de Barros Cavalcanti, meus pais.

- Adalgisa Lenita, minha esposa.

A

Bartyra Soares,

José Antônio Neves de Matos,

José Bezerra de Souza Filho e

Ricardo Correia de Menezes.

Pelas ricas lições de amizade que recebo na convivência fraterna.

SUMÁRIO
Apresentação 09

Prefacio 11

PARTE I - Pegadas de Luz

Dia do Legionário do Quilo 15

Campanha do Quilo: valioso instrumento de resgate 17

Falem as Obras 19

O Arauto do Quilo 25

E a Semente Germinou 31

Após a Tempestade 39

Viajará Preciso 45

Mapa Geográfico das Viagens de Elias Sobreira 50

O bom Velhinho 51

O Menestrel do Quilo 57

Nos Entrelaços do Caminho 63

O Primeiro Dia 69

Escola Espírita Maria de Nazaré: Ontem e Hoje 75

O Caminho para o Quilo 77

A Rocha Viva do Quilo (fragmentos) 83

Um Sol que se Põe 89

O Último Toque do Clarim 93

PARTE II - O Legionário n° 1 (Depoimentos) - Elias Sobreira:

Personalidade In vulgar -Adauto Costa 101

Singular Dom Mediúnico- Antônio Alves 105

Diferente entre os Diferentes -Carlos Ramos 109

Empresário do Amor - Cícero Ferreira 113

Símbolo de Bondade -Damião Bezerra 117

Missão Cumprida -Fernando Oliveira 121

Anjo bom - Floriano Figueirôa 123

Missionário -Hélio Nogueira 125

Seareiro de Primeira Ordem - Humberto Vasconcelos 127

Caridade - sua Religião - Isoláquio Mustafá Filho 131

Bravo Guerreiro - José Antônio Neves de Matos 135

Grande Figura - Luzia Amaral Sobreira 137

Luz Desvendando a Penumbra-Maria Dommell 139

Iluminado -Marlene Barbosa 141

Paladino do Quilo - Osmar Azeredo 147



SolquQ se Pôs-Walter Lobato 151

Elias Sobreira-Notas Biográficas 153

Anexo 161

Notas Biobibliográficas do autor 163

Bibliografia 165

APRESENTAÇÃO


Luizandes Barreto
O Último Toque do Clarim, de nosso estimado Rubens Uchôa, já consagrado em outras publicações de agradável leitura, é o seu mais novo livro.

Na verdade, um toque, um som, jamais se perdem no universo do nosso Pai. E não seria diferente com o toque do clarim desta obra. Último para os nossos ouvidos físicos, porém, perpétuo para os ouvidos espirituais, porque quem executa um instrumento, qualquer que seja ele, e dele faz bom uso, suas notas, seus acordes, seus sons permanecerão vivos na acústica da alma daqueles que ”tem ouvidos de ouvir”.



Elias Alverne Sobreira foi um desses exímios instrumentistas, que soube tirar notas impregnadas de amor fraterno de um saco e de uma mochila, seguido por uma multidão de discípulos, fiéis executores da maravilhosa sinfonia do Quilo.

Rubens, como um excelente aluno, soube aproveitar os ensinamentos do seu companheiro de farda e de tarefas quilenses. E, como um arauto do bem, projetou através de suas crônicas, os encantos de relatos verídicos, dos seus livros anteriores, culminando com essa publicação, que veio para completar o seu trabalho, em homenagem a Elias Alverne Sobreira: o menestrel do Quilo.

Assim como os sons não se perdem no espaço, os escritos de Rubens Uchôa permanecerão vivos nas mentes, nas estantes dos bons ”degustadores” de uma boa escrita, que, sem sombra de dúvida se perpetuará no tempo.

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PREFÁCIO


Uma Eterna Presença

Osmar Azeredo

Quando prefaciou o ”O bom Combate”, de Elias Sobreira, utilizado na preparação da Campanha do Quilo, levada a efeito pelo Brasil afora, creio que Rubens Uchôa não imaginava o quanto essa tarefa o estava ligando ao amigo. com convicção, trata-se de um reencontro, tais são as afinidades existentes entre Sobreira e Rubens.

Ambos, por exemplo, são devotados à causa do mais carente. Coincidentemente, os dois foram militares, da mesma corporação

- a Aeronáutica, além de pernambucanos.

Somente demorou esse reencontro, porque Sobreira servia na antiga capital federal, o Rio de Janeiro, e Rubens no Recife.

Enquanto o decano do Espiritismo em Pernambuco escrevia ”O bom Combate”, provavelmente não cogitava ligar a sua obra àquele jovem companheiro de farda, através de um prefácio. E muito menos que viesse a constituir um vínculo inapagável com a Campanha do Quilo.

Em ”O bom Combate” há um estudo aprofundado de como bem executar o trabalho do saco/mochila, pelos exemplos nele contidos. Os Mandamentos, os Resgates, os Benefícios, dissecados, um a um, pelos legionários, dão aos mesmos uma visão do que os espera, quando o trabalho for bem feito, como orientou o Espírito Bezerra de Menezes.

A Campanha do Quilo surgiu com o objetivo de assistir às comunidades mais carentes, bem como servir de auxílio na reforma

íntima de quem a pratica. Em outros estados ela desempenha o mesmo serviço, apenas mudando de nome como Auta de Souza, da Fraternidade, etc.

Em meados de 1995, veio à luz o primeiro livro de Rubens Uchôa, enfocando como prioridade a Campanha do Quilo, ”As Cordas do Sitar”, crônicas com relatos de pessoas abnegadas ao trabalho do Quilo e solidárias com os carentes do pão e da alma.

Rubens iniciava assim, um trabalho de divulgação, enquanto ocorria o declínio físico de Elias, ficando registrados os exemplos que preenchem as páginas de seu livro. ”As Cordas do Sitar” foi o primeiro dentre outros que viriam. Linguagem simples, notava-se que a emulação pela empreitada tinha nascido da grande admiração e companheirismo entre ambos e a nobre tarefa do Quilo.

Como se fosse um sinal verde para o futuro, não tardou muito e novamente éramos brindados com a segunda obra: ”A Canção do Amor Fraterno”, quando Rubens teve a parceria de Maria Dommell e que, como a primeira obra, trouxe novas lições de humildade e de trabalho fraterno, na assistência aos necessitados. Quantos exemplos dignificantes e cheios de carinho para a posteridade!

Prosseguindo, no apagar das luzes do século XX, fomos agraciados, mais uma vez. Rubens Uchôa nos presenteou com ”f/m Sol que se Põe”, homenageando o inseparável amigo de campanhas Elias Sobreira.

Chega-nos, agora, mais uma pérola literária do Quilo.

Desta vez Rubens Uchôa abre um espaço único e profundo para a figura deste cancioneiro do Quilo - ELIAS SOBREIRA, com ”O Ultimo Toque do Clarim” que, agregando impressões e depoimentos dos companheiros legionários do Quilo, marcará uma eterna presença na história da Campanha do Quilo em Pernambuco.

12

PARTE I


PEGADAS DE LUZ

Toda luz que acendermos, de fato, na Terra, lá ficará para sempre, porque a ventania das paixões humanas jamais apagará uma só das luzes de Deus”.



André Luiz in Nosso Lar

*

Homenagem ao 02 de março, Dia do Legionário do Quilo

A dádiva divina de poder ajudar, segurar saco e mochila, olhar seus companheiros de caminhada, distribuir mensagens utilizando o sublime instrumento de suas mãos, com elas bater palmas de casa em casa, a levar o convite do Céu em termos de edificação espiritual, caminhar ruas afora, encontrar obstáculos construtivos para a sua moral, receber sorrisos e críticas com a mesma serenidade para ambos, enfim, esse complexo de situações que se constituem na Campanha do Quilo, este é o Dia do Legionário do Quilo.



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Grupo de Legionários do Quilo da Fraternidade Espírita Peixotinho, em Boa Viagem, num domingo de Campanha (26.09.1999).

16

A CAMPANHA DO QUILO é valioso instrumento de resgate das dívidas desta e de outras reencarnações.

Elias Sobreira in O bom Combate

Quando iniciei a tarefa da Campanha do Quilo, passei a ter sonhos impressionantes. Noites seguidas eu sonhava que era detentor de quantias fabulosas, que mantinha enterradas.

Certamente o meu Anjo Guardião possibilitava-me a visão dos meus erros de existências passadas, para me estimular no respectivo resgate.

Nos sonhos, eu tinha a impressão de que enormes quantias enterradas eram pertencentes a outrem. Estes sonhos coincidiam com uma revelação que recebi em São Luís do Maranhão, faz alguns anos.

No LAR DE JOSÉ, onde me encontrava hospedado, a serviço da Campanha do Quilo, vai por alguns anos, numa solenidade, um médium, caindo em transe, me transmitia o seguinte:

- Irmão Sobreira, faz 1005 anos que estiveste revestido de alta posição sacerdotal, no Clero Romano.

com a presente revelação, que senti corresponder às minhas tendências padrescas e autoritárias, desde a minha infância, compreendi que a grande fortuna monetária que eu via diversas vezes em sonhos, enterrada, era resultante das grandes quantias recebidas por mim, quando na alta investidura sacerdotal, para serem aplicadas em benefício dos pobres, e desviadas para fins mundanos. Por esta razão, no mundo dos espíritos, quando desencarnado, escolhi a prova da Campanha do Quilo, como instrumento de resgate daqueles desvios clamorosos.



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No subconsciente ficam os registros de todos os nossos atos praticados no decurso das eras. Persistindo na realização da Campanha do Quilo, durante mais de trinta anos, não mais sonhei com as referidas quantias enterradas, donde concluí que devo ter restituído, no transcurso dos referidos anos, o dinheiro que desviei das finalidades justas. A cada qual conforme suas obras, ensinou o Divino Mestre.



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FALEM AS OBRAS

No educandário da vida, o espírito, de prova em prova, adquire o mérito indispensável para a escalada evolutiva.

Emmanuel

Voltar à carne não lhe seria fácil. Houvera desbaratado oportunidades mil nas facetas das encarnações passadas. Agora, rogara ao Senhor aquele momento divino do retorno, o ensejo sublime do regressar. Mas, voltar, como? Em que condições? Explorara seus semelhantes com o iludir de promessas vãs, uma desonesta aplicação do que lhe corria nas mãos endereçado aos carentes e que ele destinava, entretanto, a efeitos distorcidos em seus caprichos de homem sedento de emoções de calibre inferior. Rios e rios de moeda corrente, donativos em abundância, das mais variadas qualidades, que auxiliariam desde o vestir, o agasalhar, o alimentar, até a subsistência em termos de necessidades prementes de vida. Assim o fizera em encarnações diversas, sem no começo, atinar para as conseqüências a que tudo isso levaria - seus irmãos e a ele próprio. com o passar do tempo já não ignorava tais previsões e até mesmo assumira certa postura de consciência do mal a que se propusera.

Quanto vagara, neste último desencarne, nos umbrais trevosos da espiritualidade, não se recordava. Sabia apenas que estava cansado e reconhecido de como tmalbaratara reencarnações sucessivas, acionando a mesma tecla de indiferença às

oportunidades. O desânimo aportara em seu espírito e não conseguia divisar

horizontes claros, livres da cinzenta nuvem do pessimismo. Ele mesmo não se

acreditava mais. Temia um novo fracasso. Taciturno, na Colônia em que fora recolhido, ouvia de seu guia espiritual as colocações sobre sua próxima volta ao

convívio terreno. As palavras lhe chegavam com um misto de ternura e esperança.

- Dino, atenta bem para as palavras do Senhor sobre as possibilidades infinitas de recuperação do tempo perdido, quando Ele nos afirmou: ”Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá”. Tua vez chegou, novamente, e poderás, por um acréscimo de misericórdia, escolher o meio, a maneira do resgate das falhas em que caíste.



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Naquele departamento de programação de reencarne, ante possibilidades diversificadas para o regresso à crosta terrestre, ele tentava investir-se na situação que o acompanharia na próxima jornada reencarnatória.

Conduzido a uma sala, lá sentou-se diante de uma tela onde apareceram vários segmentos, com as possíveis condições de retomada de provas, aparentemente fáceis, desde uma infância paupérrima seguida de uma juventude dolorosa, velhice na mendicância, ou de outras situações semelhantes, bem como o contraste de um lar abastado, riqueza material com facilidades financeiras que lhe permitissem convergir para um bom acervo de ajuda em favor do próximo. A todas ele recusou, receando sucumbir por revolta ou repetição de faltas como das outras vezes, ou mesmo a indiferença que lhe poderia grassar face ao conforto que pode endurecer os corações mal preparados para o embate.

Num certo momento ele divisou, lá adiante, um quadro que dizia:



Saco, mochila e Evangelho.

Sem entender o significado daquilo, recorreu ao seu guia espiritual. Veio a explicação:

- E um trabalho que se moldará nas heranças espirituais deixadas pelo Pobrezinho de Assis e por aquele que foi chamado de Pádua, baseado no grande pensamento deste último: ”Cessem as palavras, falem as obras”. Muito difícil, por sinal, exigirá, antes de tudo, renúncia, disciplina, coragem e dedicação, principalmente nos primórdios de implantação. Deverá surgir na década de 30, em seus anos finais, na Pátria do Evangelho e para isso já estão sendo providenciadas as convocações de seareiros, comprometidos por falhas do passado e ansiosos, como tu, para o ressarcimento das mesmas. com a tua experiência de homem da Igreja, sacerdote que foste nas três últimas encarnações, poderás ser um dos pioneiros deste tipo de trabalho e te será exigido, de primeira mão, a disciplina ferrenha de um militar no cumprimento de tuas obrigações. Se-

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rás comparado a um mendigo e, ao pedir em favor de crianças e velhos, treinarás a paciência, a devoção, o amor ao semelhante. Verdadeira escola do viver, este trabalho dar-te-á a grande abertura para repores aquilo que retiraste. Terás, possivelmente, dificuldades com os próprios familiares, que não entenderão a tarefa. Trabalharás em benefício da infância e da velhice carentes, das quais tiraste o pão de cada dia, nos teus arroubos do passado...

Não se fez necessária a continuidade da explanação. Ali estava a grande ocasião do retorno e ele não hesitou.

Anos mais tarde, num domingo de agosto de 1938, um homem iniciava, junto com alguns companheiros, um trabalho estranho de pedir esmolas de casa em casa, em nome do Divino Mestre, à semelhança daqueles precursores dos séculos XII e XIII. Dentre aqueles desbravadores, verdadeiros apóstolos, estava ele, Elias Sobreira, que traria para o nosso Nordeste, terra de onde partira, essa missão de amor, num exemplo milenar de doação ao próximo.

O Quilo surgira...

23

u

t:

ELIAS SOBREIRA, foto da época em que iniciou a Campanha do Quilo, no Rio de Janeiro, 1938.

O ARAUTO DO QUILO

Quando o servidor está pronto, o serviço aparece. (in NOSSO LAR, Edição FEB)

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Desde o ano de 1938 Elias Sobreira havia assumido a posição de Legionário do Quilo. Fora naquela viagem de trem, com destino a Santa Cruz, Rio de Janeiro, que conhecera Matos Vieira. Ambos já se haviam encontrado, em viagens anteriores, rotineiras, cotidiano do trabalho, quando utilizavam o mesmo transporte e, ”coincidentemente”, o mesmo horário de deslocamento. Troca de olhares, observações mútuas, ligeiros cumprimentos, num processo gradativo de identificação, chegando ao cume da conversa. A revelação veio selar com clareza e patentear o objetivo daqueles encontros: ambos eram espíritas e perseguiam o ideal da ascese, com vistas ao progresso espiritual. O convite veio, também como um chamamento para a grande missão que esperava pelo seu timoneiro.

- Estamos precisando de tarefeiros - teria dito Matos Vieira.

- O nosso Abrigo-Creche está à beira da falência e a Campanha tem sido a alternativa para sua manutenção, embora carente de trabalhadores. Apareça lá! Teremos grande alegria em contar com mais um.

O resto da viagem decorreu quase que em silêncio, talvez porque Elias teria sido tocado em suas recordações milenares, de um passado que lhe atormentava o presente, aqueles sonhos em noites seguidas de lembranças impressionantes, quando se via investido daquele manto sacerdotal, traindo o voto de fidelidade prometida, e malbaratando as quantias fabulosas em dinheiro que chegavam às suas mãos, desviando-as dos objetivos nobres a que se destinavam.

E em silêncio penetrou no quartel, local de seu trabalho. Passou a semana toda pensando no convite, e o sorriso amigo do agora companheiro de viagem e a conversa, a adentrar os objetivos maiores da caminhada terrena, fizeram-lhe optar pelo sim àquele apelo tao simpaticamente chegado ao seu coração.

A intenção era conhecer o trabalho, realizá-lo a título de coo-

Peração e se integrar como mais um seareiro daquela casa. E assim

0 tez, comparecendo no primeiro domingo que a cronologia lhe

avoreceu. Nunca havia realizado tarefa daquela natureza. Deram-



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lhe um saco, uma mochila e o orientaram no processo do peditório: de casa em casa, em nome do Senhor Jesus, objetivo da Campanha, detalhes sobre comportamento, etc.

Agora Elias Sobreira já estava integrado no mister do saco e da mochila. Destinava as manhãs de domingo a essa tarefa e comparava-a a uma balsa que se atira a um náufrago, pois assim se considerava antes daquela marcante viagem de trem.

Também se alastrara a sua área de serviço. Os subúrbios do Rio, como Bangu, Méier e outros, igualmente entraram no seu roteiro de trabalho, afora o próprio quartel, onde, nos dias de pagamento, mochila discretamente presa à mão, procurava os companheiros de caserna, dando-lhes a oportunidade sublime de colaborarem com o apoio à manutenção de creches e abrigos. Dissabores foram encontrados, incompreensões lhes chegaram à frente de combate, mas a persistência e o vigor de um consciente tarefeiro a tudo isso suplantava. Verdade era que a esposa não o compreendia muito bem no seu dia-a-dia de legionário do Quilo, mas a filhinha, rebento daquela união, interpunha-se entre os dois e equilibrava a situação. Era um homem feliz, agradecido a Deus por aquela libertação de sonhos tenebrosos e tormentos de angústia e depressão. Até o sorriso se lhe fizera melhor, olhava agora as criaturas como irmãs, cada qual no seu estágio de evolução, e, como tais, deveriam ser compreendidas. Estava tudo bem, tudo relativamente em equilíbrio.

A notícia surgira inesperadamente. Primeiro trazida pelos colegas, depois confirmada oficialmente: fora transferido para o Recife, de onde viera, nas primeiras luzes da sua juventude, após uma infância no interior longínquo de Pernambuco, onde passara pelo cadinho da orfandade materna. O impacto emocional não se fez tardar. Agora, graças ao trabalho dignificante que assumira perante a Espiritualidade Maior, começara a conquistar, dentro de si mes-

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mo, aquela posição de tarefeiro responsável, cioso de seus comprometimentos, iria afastar-se do local de tantas recordações confortadoras e incentivadoras daquela peregrinação terrena em busca do ideal espírita. Por quê? - fazia de si para si esta interrogação. E buscava a resposta sem atinar para a razão de tudo aquilo. Consultara a esposa e tivera o dissabor de vê-la não propensa a segui-lo, pelo menos inicialmente, naquela jornada que a profissão lhe impusera. E a filhinha, ainda na tenra idade, seu tesouro de afeição, como deixá-la? Sozinho, no Recife, o que faria? A quantas andaria aquela cidade, em termos de espiritismo? Soubera, por outros, que aquela era uma cidade mergulhada em uma obsessão coletiva, guardando ainda as lembranças amargas de um berço de escravidão, onde as marcas indeléveis da servidão negra se faziam sentir. E para ali ele iria, tão bem que se encontrava no Rio, integrado nos trabalhos material e espiritual. Por quê? - tornava a perguntar a si mesmo.

Algumas noites passara mal dormidas, acabrunhado mesmo, pelo fato recente. Não esquecera a oração, a vigilância, é certo, sentia que algo estava a lhe ser revelado. As malas estavam arrumadas, a viagem marcada, a família alojada, com permanência no Rio. Tudo nos seus devidos lugares. Mas faltava-lhe algo. Por que esse deslocamento, esse afastamento?

Naquela noite, véspera da viagem, lembrara as palavras do Mestre: ”Pai, se esse cálice não pode passar sem que eu o beba, que seja feita a Tua vontade”. E dormiu. Um sono profundo, diferente daqueles dos últimos dias. Quando acordou, dia amanhecendo, lembrou-se do sonho, quando alguém lhe dissera: ”O saco e a mochila te esperam no Recife, onde tens um compromisso inadiável, por isso o Senhor te convocou para aquelas terras. Isto te custará momentos de solidão e renúncia, mas atenta que, na realidade, jamais estarás sozinho para o fiel cumprimento de tua missão para com o trabalho do Quilo. Essa a razão de tua ida. Terás que deixar, por



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enquanto, as afeições familiares, pois aquela cidade está altamente necessitada de espiritualização e a missão cabe aos espíritas. A mensagem do Senhor tem que ser levada de casa em casa, para que seus habitantes a sintam e sejam impregnados da humildade e da fraternidade no amparo à infância e à velhice. Sob a tutela de Bezerra de Menezes, dele receberás a orientação precisa, oportuna, para o trabalho que irás ali coordenar. Não te detenhas nem te lamentes, o Senhor te convocou.”

Levantou-se devagar, quis ruminar lembranças, mas agora a situação lhe pareceu clara, evidente. Olhou a esposa, acariciou a filhinha e dispôs-se à missão que lhe estava confiada. Foi amarga a separação.

Ano de 1945, Elias Sobreira chega ao Recife. Circunspecto, aparentemente tristonho, traz, entretanto, dentro de si, a consciência da complexa tarefa que lhe cabe. Está intimamente em alegria cristã.

Começa ali, naquele instante, no Recife, a tarefa do Quilo.

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**

E A SEMENTE GERMINOU



O vaso serve ao oleiro, após suportar o clima de fogo.

- André Luiz in Agenda Cristã Edição FEB

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HI

Ao pisar no solo, após um vôo de algumas horas entremeadas de reflexões e planejamento, Elias Sobreira sentiu um certo impacto emocional. E agora, o que o esperava naquele seu torrão natal, de onde saíra, há muitos anos, para tentar a vida como soldado, ”sentando praça” naquele regimento, com destino ao Rio de Janeiro? Olhou em volta de si, a paisagem lhe era familiar, embora tivesse sido um moço do interior - matuto, na melhor expressão da palavra. Tinha, às vezes, reflexos de recusa para o trabalho que o esperava, não por má vontade, é claro, mas porque se considerava um inexperiente, um ainda frágil colaborador naquela obra de tamanha envergadura. Deixara para trás, por imperativos da missão que recebera e que pretendia cumprir integralmente, um manancial de vida evangélica. Família, amigos, companheiros que no dia-a-dia compunham e preenchiam o seu espaço íntimo. Sentiu os primeiros abalos emocionais e a saudade o visitou, em seu alojamento. Orou, e na sua sensibilidade auditiva vieram-lhe colocações sobre a perseverança, caminho da salvação. Dentro do seu quarto agradeceu ao Mestre o bem-estar que estava sentindo. E percebeu, realmente, a presença de seu mentor espiritual, que, num sorriso carinhoso, lhe aparecia e o aconselhava a descansar para renovação de forças físicas e espirituais.

Começou a freqüentar as primeiras reuniões doutrinárias nessa nova etapa de sua vida, assistindo, nas casas espíritas de projeção na cidade, a oradores famosos, inflamantes, que contagiavam de conforto espiritual aos ouvintes de suas arrebatadas alocuções. Sentiu que o campo era fértil na difusão da doutrina. O material humano, de melhor qualidade no setor da oratória. Seareiro de ação, entretanto, buscou as °bras, acostumado que estava ao trabalho braçal, ao dinamis-

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