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Encontro16.03.2018
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Giuseppe TAVANI
Lusófilo italiano (n. Roma, 1924). Li­cenciado na Univ. de Roma com disser­tação sobre gramáticas bilingues luso-italianas, alcançou em 1961 a Livre Docência em Língua e Cultura Portu­guesas, tendo ganho no ano seguinte a Cátedra de Língua e Literatura Espanho­las na Univ. de l’Aquila. De 1963 a 1970 ocupa a Cátedra de Língua e Lite­ratura Portuguesas na Faculdade do Ma­gistério da Univ. de Roma. Permaneceu na Univ. de Veneza, na mesma Cátedra primeiro e depois na de Filologia Româ­nica, de 1970 a 1973, ano em que pas­sou para a Univ. de Siena. De 1974 em diante assegura a Cátedra de Filologia Românica na Univ. de Roma «La Sa­pienza».

O vasto leque de interesses de Tavani reflecte-se no âmbito das suas publica­ções, sobre os mais diversos aspectos das línguas e literaturas românicas. As cultu­ras privilegiadas pelo filólogo italiano fo­ram a catalã, galega, portuguesa e pro­vençal, e, entre estas, será talvez a portuguesa a que mais tem beneficiado com o seu labor. Tendo publicado estu­dos sobre autores tão diferentes como os trovadores, Gil Vicente, Sá de Miranda, Camões ou Pessoa, o período medieval vem suscitando a sua atenção de modo detido e sistemático.

O papel de T., em particular no que diz respeito aos estudos sobre a lírica ga­lego-portuguesa, tem sido o de inaugurar ou reactivar modalidades de trabalho que, quando as praticou, eram pouco ou nada cultivadas. É o caso das edições críticas das cantigas do jogral Lourenço e de Ai­ras Nunes, ambas de 1964, monografias que assinalariam o início de uma época de fulgor das edições de cancioneiros indivi­duais, nomeadamente em Itália.

Na reflexão sobre a tradição manuscri­ta, os seus contributos, integrados inicial­mente no vol. Poesia del Duecento nella Penisola Iberica (1969), apresentam-se como indispensável abordagem integrada das estruturas de testemunhos cancionei­rescos da lírica galego-portuguesa. As propostas de reformulação do stemma co­dicum que defendeu, depois elaboradas em diferentes momentos por Jean-Marie d’Heur, EIsa Gonçalves, Anna Ferrari e António Resende de Oliveira, são indes­ligáveis dos alicerces instaurados pela precursora reflexão que lhe é devida.

Outro marco no seu percurso biblio­gráfico é a suma sobre a poesia galego­-portuguesa publicada originalmente no Grundriss der Romanischen Literaturen des Mittelalters, em 1980 e 1983, de que há versão portuguesa actualizada vinda a lu­me em 1990. Tratando-se de uma síntese dos dados geográficos e cronológicos, da transmissão manuscrita e de um ensaio estratigráfico e topográfico, tudo comple­mentado por fichas biobliográficas dos trovadores, esta suma, graças sobretudo à sistematização genológica apoiada no conceito-chave de campo sémico, exerceu tal influência na universidade portuguesa que se alçou a verdadeiro vade-mécum dos estu­dos medievais nesta área específica.

No campo da métrica, em que se re­gista a reunião de vários seus estudos no livro Poesia e Ritmo. Proposta para uma Leitura do Texto Poético (1983), T. ela­borou o monumental e utilíssimo Reper­torio metrico della lirica galego-portoghese, dado à estampa em 1967. Constitui livro de referência fundamental sobre os as­pectos métrico-versificatórios das canti­gas trovadorescas, com os seus diversos índices organizados de acordo com os es­quemas métrico-rimáticos, as extensões do verso, as ligações interestróficas, os dispositivos paralelísticos, entre outros.

O Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa (1993), que organi­zou com Giulia Lanciani e no qual cola­borou com numerosos verbetes, marca a confluência de duas tendências de estudo que não se conciliam facilmente: a com­pilação e actualização dos conhecimentos sobre certas matérias, títulos e autores ca­nónicos no domínio medieval, antes quantas vezes dispersos em artigos de revistas especializadas; o alargamento do câ­none da literatura medieval, com a inclu­são de verbetes sobre escritores, obras e assuntos menos conhecidos.

A par de publicações como as indi­cadas, colaborou com diversas universidades portuguesas enquanto responsável por se­minários de pós-graduação, membro de júris e orientador de pesquisas académi­cãs. Tudo isto faz de T. um distinto con­tinuador da linhagem de filólogos italia­nos que estudaram as letras lusitanas, como Ernesto Monaci, Enrico Molteni, Cesare de Lollis, Giulio Bertoni, Silvio Pellegrini.

Não cabe aqui apresentar a bibliografia por si produzida sobre temas e línguas estran­geiros, mas justificar-se-á fazer um sumá­rio das publicações periódicas e colecções de títulos a que se encontra ligado. Fun­dou e dirige as colecções de estudos filo­lógicos e edições críticas «Quaderni di Ro­manica Vulgaria» e «Romanica Vulgaria». É co-director da revista Teoria e critica e re­dactor das revistas Cultura Neolatina, de cujo comité científico faz hoje parte, e Rassegna Iberistica. Entre os diversos car­gos que desempenhou ou desempenha, merece destaque o de presidente do Co­mité Científico da Associação Archives du XXe Siècle, que se dedica à publica­ção de edições crítico-genéticas de autores latino-americanos contemporâneos.

OBRAS (bibliografia fundamental na área da litera­tura portuguesa): Edições críticas – Le poesie di Ayras Nunez, ed. critica con imroduzione, note e glossario, Milão, 1964; Lourenço, Poesie e tenzoni, ed., imro­duzione e note, Modena, 1964; Gil Vicente, Comé­dia de Rubena, imroduzione, testo e note, Roma, 1965. Estudos – Poesia del Duecento nella Penisola Iberica. Problemi della lirica galego-portoghese, Roma, 1969; «La poesia lirica galego-portoghese», in Grun­driss der Romanischen Literaturen des Mittelalters, II, 6 e 8, Heidelberga, 1980 e 1983, trad. A Poesia líri­ca Galego-Portuguesa, Lisboa, 1990; Poesia e Ritmo. Proposta para uma Leitura do Texto Poético, Lisboa, 1983; Ensaios Portugueses. Filologia e Linguística, Lis­boa, 1988. Instrumentos de referência – Repertorio metrico della lirica galego-portoghese, Roma, 1967; (org. com Giulia Lanciani) Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, Lisboa, 1993.



João Dionísio
Biblos – Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, 5, Lisboa, Verbo, 2005, coll. 288-291.

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