Oferta pública no combate à pobreza no brasil: uma análise a partir da curva crescimento-pobreza



Baixar 324.88 Kb.
Página1/3
Encontro02.12.2017
Tamanho324.88 Kb.
  1   2   3

OFERTA PÚBLICA NO COMBATE À POBREZA NO BRASIL: UMA ANÁLISE A PARTIR DA CURVA CRESCIMENTO-POBREZA
AUTORES:
FERNANDO HENRIQUE TAQUES

MESTRE EM ECONOMIA PELO PEPGEP-PUC/SP


RODRIGO DA SILVA ROCHA

GRADUADO EM ECONOMIA PELO CENTRO UNIVERSITÁRIO MOURA LACERDA


Resumo
Este artigo tem por objetivo realizar uma breve revisão teórica e empírica sobre o que ficou conhecido na literatura econômica como crescimento pró-pobre. Uma vertente desta teoria sugere que, para que o crescimento seja pró-pobre, a renda da parcela mais pobre da população deve crescer proporcionalmente mais em relação ao restante da população, reduzindo-se assim a pobreza. Busca-se, através da curva de crescimento-pobreza, proposta por Son (2003, 2004), realizar um exercício empírico para as unidades federativas do Brasil, além do Distrito Federal, no período entre 1995 e 2009. As estimativas apontam que 80% dos resultados foram conclusivos e em 70% houve crescimento pró-pobre, sendo mais representantivo os resultados obtidos para as regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste, em termos relativos, e para as regiões Nordeste e Norte em termos absolutos.
Palavras-chave: pobreza; crescimento econômico, crescimento pró-pobre
Classificação JEL: O4; I3
Abstract
This article aims to make a brief review of theoretical and empirical research on what is known in economic literature as pro-poor growth. One side of this theory suggests that for growth to be pro-poor, the income of the poorest fifth of the population should grow proportionally more than in the rest of the population, thus reducing poverty. Seeks, through the poverty-growth curve proposed by Son (2003, 2004), perform an empirical exercise for the federal units in Brazil, the Federal District, between 1995 and 2009. Estimates are that 80% of the results were inconclusive and 70% were pro-poor growth, and the results more representative for the South, Southeast and Midwest, in relative terms, and the Northeast and in North absolute.
Keywords: poverty, economic growth, pro-poor growth
JEL Classification: O4; I3

ÁREA – ECONOMIA REGIONAL E URBANA



OFERTA PÚBLICA NO COMBATE À POBREZA NO BRASIL: UMA ANÁLISE A PARTIR DA CURVA CRESCIMENTO-POBREZA
INTRODUÇÃO
De acordo com dados derivados do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEADATA), nas duas últimas décadas a taxa de pobreza1 declinou para a maioria dos estados brasileiros. Com exceção de Amazonas e Roraima, todas as demais unidades federativas (UFs) reduziram a taxa de pobreza no período que compreende 1981 até 2009. Ao mesmo tempo, a desigualdade de renda, mensurada através do índice de Gini, no mesmo período, também apresentou trajetória de queda para todos os estados do Brasil, enquanto houve elevação no nível de renda per capita média para todas UFs.

Associa-se, por muitas vezes, o aumento no nível de renda com menores taxa de pobreza, mas se realmente há uma correlação inversa entre estas variáveis, então quaisquer políticas públicas que promovam o crescimento econômico contribuem no combate à pobreza. Partindo da premissa de que esta relação pode ser fraca (ou mesmo nula), diversos autores investigaram, através de evidências empíricas, se o crescimento econômico pode reduzir substancialmente a pobreza, ou seja, beneficiar os mais pobres em detrimento dos mais ricos.

A literatura que investiga a relação entre crescimento econômico e pobreza é segmentada em dois grupos principais. Kakwani e Pernia (2000) postularam que o movimento conjunto entre crescimento da renda média e a diminuição na desigualdade de renda levam, necessariamente, a uma redução da pobreza, sendo este crescimento pró-pobre.

Ravallion e Chen (2003), por sua vez, apresentaram uma definição que contempla apenas a pobreza. Neste caso, se houver uma redução na pobreza absoluta o crescimento terá sido pró-pobre.

De maneira alternativa, Ravallion e Chen (2003) propõem uma medida denominada growth incidence curve (curva de incidência do crescimento), para mensurar se o crescimento beneficiou relativamente mais os pobres. O cálculo é baseado nas taxas de crescimento das rendas de cada parcela da população em dois distintos instantes de tempo. Son (2003, 2004), por outro lado, desenvolve uma metodologia denominada poverty growth curve (curva crescimento-pobreza). A estimativa é baseada na curva de Lorenz generalizada e considera as variações na renda média da população e das respectivas parcelas da população em análise. Em ambas situações, caso a variação da renda seja superior para a parcela mais pobre da população, então o crescimento será pró-pobre.

O objetivo deste artigo é estimar a curva crescimento-pobreza de Son (2003, 2004) para as unidades federativas do Brasil, entre 1995 e 2009, a partir dos respectivos decis de renda. Esse contexto tem como premissa verificar se o crescimento no período em questão foi favorável aos mais pobres, ou seja, pró-pobre. O artigo está estruturado, além desta introdução e da conclusão, em quatro partes. A primeira relata brevemente o referencial teórico da literatura sobre crescimento pró-pobre, a segunda lista algumas evidências empíricas, principalmente para o Brasil, a terceira demonstra a metodologia de Son (2003, 2004) para a estimativa da curva crescimento-pobreza e, na última seção, são apresentados os principais resultados para as unidades federativas do Brasil e as considerações a respeito das políticas implementadas no período.


REFERENCIAL TEÓRICO
Primeiramente, cabe mencionar que não há um conceito único do que é crescimento pró-pobre. A literatura acerca deste tema contempla três distintas perspectivas: (a) agregada, (b) absoluta e (c) relativa. A primeira delas considera o padrão distributivo da renda na amostra, independemente da abordagem a ser utilizada (RAVALLION e CHEN, 2003; DATT e RAVALLION, 1992). Portanto, se o crescimento reduzir a proporção de pobres ele terá sido pró-pobre.

A abordagem absoluta considera que o crescimento é pró-pobre se, e somente se, o crescimento beneficiar os mais pobres em termos absolutos, ou seja, caso haja um ganho real na renda dos mais pobres entre dois períodos de tempo (RAVALLION e CHEN, 2003; KRAAY, 2004).2 O método de Kraay (2004) considera pró-pobre o crescimento quando se verifica redução na medida de pobreza, decomposta em três fontes potenciais de crescimento a favor dos mais pobres: (a) crescimento da renda média, (b) sensibilidade da medida de pobreza em relação ao crescimento da renda média, e (c) aumento das rendas relativas dos mais pobres (De França, 2010, pg. 76).

Por fim, a perspectiva relativa considera alterações na renda dos mais pobres em comparação com as variações na renda dos não-pobres. Assim, o crescimento é pró-pobre se, e somente se, o crescimento da renda for proporcionalmente favorável aos mais pobres (KLASEN 2001, 2004; MCCULLOCH e BAULCH, 2000; KAKWANI e PERNIA, 2000; KAKWANI e SON, 2002; SON, 2004; HERSEL, 2000). De maneira similar, White e Anderson (2001) consideram que o crescimento é pró-pobre se o aumento na renda dos mais pobres for maior do que a atual participação relativa dos pobres na renda total, de sorte que, neste caso, a renda per capita dos pobres tenderia a se elevar.

Outra definição, apresentada por Kakwani e Pernia (2000), contempla um método de decomposição proporcional. O índice de crescimento pró-pobre é dado pela razão da elasticidade renda-pobreza e da elasticidade crescimento-desigualdade. Assim, caso a relação seja maior que 1, então o crescimento é pró-pobre; se situar entre 0 e 1 o crescimento não é estritamente pró-pobre, e, por fim, caso seja negativo, o crescimento foi empobrecedor.

Kakwani, Khabdker e Son (2004) propõem uma medida denominada taxa de crescimento equivalente da pobreza, onde consideram a magnitude do crescimento e como os benefícios deste são distribuídos entre pobres e não pobres. Nesta abordagem os autores buscam satisfazer o critério de monotonicidade.3

Para mensurar o crescimento pró-pobre, Ravallion e Chen (2003) elaboram um método a partir das taxas de crescimento de renda de cada uma das parcelas da população, denominado curva de incidência do crescimento. A área situada acima desta curva até a medida de pobreza (proporção de pobres), foi denominada pelos autores de taxa de crescimento pró-pobre e representa a taxa média de crescimento da renda para os mais pobres. Ravallion (2005) postula que a redução da pobreza não está vinculada unicamente ao aumento no nível de renda, mas também ao padrão distributivo da renda. Para tanto, realiza, utilizando o método da taxa de crescimento pró-pobre, estimativas para dados da China e Índia e encontra evidências que sustentam a afirmação de que houve piora na distribuição de renda e, por conseguinte, não houve crescimento pró-pobre, apesar da redução na pobreza absoluta.

Kakwani, Neri e Son (2006) desenvolvem um novo indicador de crescimento pró-pobre vinculado às taxas de crescimento da renda média e à desigualdade de renda. Se houverem ganhos na taxa de crescimento oriundos de uma queda na desigualdade, então o crescimento terá sido pró-pobre. Além disso, os autores elaboram uma metodologia de decomposição relacionando padrões de crescimento, performances do mercado de trabalho e políticas sociais.4

A respeito de políticas públicas, Barreto (2005) argumenta que as envidadas no aumento proporcional da renda dos mais pobres em relação à renda média da população podem gerar perdas de bem-estar ao não contemplarem possíveis efeitos negativos no crescimento econômico. Assim, tal argumento indica que o crescimento é tido como pró-pobre se reduzir a pobreza com concomitante crescimento ou manutenção no nível de renda (DE OLIVEIRA, 2008).

Estas diferentes abordagens suscitaram uma série de evidências empíricas, tanto para estudos internacionais quanto relacionados ao Brasil. Diversos autores identificaram fatores que podem contribuir no entendimento da relação entre crescimento econômico e pobreza.
EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS
Diversas estimativas foram realizadas para testar a relação entre crescimento e pobreza utilizando distintas metodologias. Nesta seção serão listados alguns destes trabalhos, com ênfase nos estudos aplicados ao Brasil sob diversos níveis de abrangências.

Datt e Ravallion (2002), partindo de dados relativos à pobreza, sugerem a inclusão de variáveis que reflitam as diferenças sistemáticas nas condições iniciais de cada estado para o entendimento da trajetória da pobreza. Assim, para análises cross-region seria relevante adicionar variáveis relacionadas aos diferentes níveis de desenvolvimento, produtividade e educação entre as regiões (SALVATO, 2009).

Ravallion e Datt (1999, 2001) analisaram a variação na pobreza de diversos estados da Índia no período de 1960-1961 e 1993-1994, a partir das elasticidades da pobreza em relação à renda não agrícola entre estados. Como resultado, os autores encontraram uma tendência temporal de aumento na pobreza que pode ser originária de uma distribuição adversa da população na pobreza, compatível com o fato desta ser insignificante quando se adiciona ao modelo o log da população (Herskovic e De Figueiredo, 2008). A segunda análise levou os autores a concluírem que as condições iniciais têm forte influência na formação das elasticidades.

Ravallion (1997) e Kraay (2004) estimaram um efeito interação entre a desigualdade incial e o crescimento econômico para uma amostra cross-country. Nesse caso, menor é o ganho dos pobres quanto mais desigual é a distribuição de renda (SALVATO et al., 2008).

Outros autores como De Oliveira (2008), Silveira Neto (2005), Manso et al. (2008) e Tochetto et al. (2004) testaram a hipótese de crescimento pró-pobre para o Brasil – ou outras áreas de abrangências da federação como estados, mesoregiões, regiões ou municípios – com distintos focos metodológicos.

De Oliveira (2008) revela que municípios e microrregiões diferentes não necessariamente apresentam efetividades semelhantes sobre a redução na pobreza.5 Ademais, a mudança na renda de um município é capaz de alterar a incidência da pobreza em municípios vizinhos.

Feitas tais considerações, o autor utiliza um modelo econométrico espacial com dados em painel para os municípios nordestinos, relativo à década de 90. Através de elasticidades renda e concentração o autor constata que o crescimento econômico contribui para a redução da pobreza em 775 municípios e não contribuiu para outros 1012 municípios.

A partir das estimativas, De Oliveira (2008) afirma que as desigualdades regionais auxiliaram na explicação da pobreza na região nordeste e que o crescimento econômico foi o principal responsável pela queda no nível de pobreza onde esta ocorreu, ou seja, o crescimento de alguns municípios nordestinos foi pró-pobre6, onde houve redução na pobreza e na desigualdade.

Silveira Neto (2005) analisa, pelas elasticidades da pobreza, se houve crescimento pró-pobre entre as regiões do Brasil, com dados censitários de 1991 e 2000. Os resultados encontrados revelam que as elasticidades da pobreza são menores no nordeste e maiores nas demais regiões do país.

Manso et al. (2008) analisaram se o crescimento foi mais pró-pobre no meio urbano ou rural para as regiões brasileiras, entre 2002 e 2005. Os autores utilizaram a técnica de Kakwani, Khandker e Son (2004) com as medidas proporção de pobres, hiato da pobreza e severidade da pobreza. Como resultado, encontraram evidências de que houve predominantemente crescimento pró-pobre em todas regiões.

Herskovic e De Figueiredo (2008), seguindo a metodologia de Ravallion e Datt (2001), estimaram elasticidades da pobreza para o sudeste brasileiro. A conclusão dos autores revela que os estados mais ricos (São Paulo e Rio de Janeiro) apresentam elasticidades maiores – em módulo.

Tabela 1 – Evidências empíricas de crescimento pró-pobre para o Brasil (continuação)



Autor

Método

Período

Nível de Análise

Resultados

Salvato et al. (2008)

Curva de incidência do crescimento

1991 e 2000

Região Metropolitana de Belo Horizonte e Salvador e diferentes municípios de Recife e Manaus em diferentes níveis de agregação

Para as regiões pesquisadas nenhuma grande região como um todo apresentou crescimento pró-pobre na década de 1990, porém, ao reduzir o nível de agregação, é possível verificar focos de crescimento pró-pobre, particularmente em Belo Horizonte e Salvador

Salvato et al. (2007)



Curva de incidência do crescimento

Década de 1990

Dados de municípiso brasileiros em distintos níveis de agregação

Não houve evidências que em grandes regiões o crescimento foi pró-pobre na década de 1990. Entre estados apenas se deu em Roraiam. Nas mesorregiões brasileiras, apenas 7,35% apresentou crescimento pró-pobre, enquanto para as microrregiões o número não ultrapassa 11%. Por outro lado, em 25% dos municípios brasileiros houve crescimento pró-pobre

Tejada et al. (2008)

Curva crescimento-pobreza

1991 e 2000

Microrregiões do estado de Alagoas

Na maioria das microrregiões houve crescimento empobrecedor

Silveira Neto (2005)

Curva crescimento-pobreza

1991 e 2000

Estados e microrregião do nordeste brasileiro

Não há evidências de crescimento pró-pobre para nenhum estado. Quanto às microrregiões, apenas 11 das 188 apresentaram crescimento pró-pobre

Salvato (2009)

Curva de incidência do crescimento

1991 e 2000

Mesorregiões, microrregiões e municípios brasileiros

Crescimento pró-pobre para o estado de Roraima unicamente. Das 136 mesorregiões, um total de 10 apresentaram crescimento pró-pobre. Para as microrregiões foram encontradas 65 evidências de crescimento pró-pobre de um total de 558. Por fim, a nível municipal cerca de 25% dos resultados sugere crescimento pró-pobre

Guidolin e Porto Júnior (2006)

Curva crescimento-pobreza

(a) 1981 à 2003 e (b) 1991 e 2000

(a) Estados da região centro-oeste e (b) municípios das microrregiões desta mesma região

Das 57 curvas estimadas, 20 apontaram para um crescimento pró-pobre nos estados. De um total de 100 municípios estudadosapenas em 14 casos houve crescimento pró-pobre

Resende et al. (2007)

Curva crescimento-pobreza

1991 e 2000

Capitais brasileiras

Preponderamente resultados de crescimento não pró-pobre e empobrecedor

Tabela 1 – Evidências empíricas de crescimento pró-pobre para o Brasil (conclusão)

Gonçalves e Silveira Neto (2010)

Curva crescimento-pobreza

1991 e 2000

Municípios nordestinos

Apenas para 21 municípios o crescimento foi pró-pobre; em 247 o crescimento foi não pró-pobre; e em 1031 casos, foi inconclusivo, alémde 159 com crescimento empobrecedor

Diniz et al. (2007)

Curva crescimento-pobreza

1990 à 2004

Estados Amazônia legal (Acre, Amazonas, Amapá, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins)

No princípio da década em análise, foi verificado um padrão de crescimento não pró-pobre. Para o período após o Plano Real, observa-se um comportamento pró-pobre. Entre 1999-2001 e 2003-2004 os resultados foram inconclusivos, sendo pró-pobre entre 2002-2003

Resende (2008)

Curva crescimento-pobreza

1991 e 2000

Municípios mineiros

Houve crescimento pró-pobre para 203 municípios, sendo não pró-pobre para outros 216 municípios e em 35 deles o crescimento foi empobrecedor. Nos demais 399 municípios, os resultados foram inconclusivos

Gonçalves et al. (2010)

Curva crescimento-pobreza

2000 à 2006

COREDES do Rio Grande do Sul

Incidência de crescimento pró-pobre em 9 COREDES, 11 resultados foram inconclusivos e em dois houve crescimento empobrecedor

Tochetto et al. (2004)

Curva crescimento-pobreza

Décadas de 1980 e 1990

Unidades federativas do Brasil (apenas 22)

Das 372 curvas estimadaso crescimento foi pró-pobre em 137 casos, sendo 107 resultados de crescimento não pró-pobre, 53 crescimento empobrecedor e 75 de resultados não conclusivos

Pinto e De Oliveira (2010)

Curva de incidência do crescimento

1995 à 2007

Unidades federativas do Brasil

Dentre as curvas estimadas para os estados brasileiros, 12 apontam para o crescimento pró-pobre e 7 para crescimento empobrecedor

Fonte: Elaboração dos autores
De França (2010) elabora três ensaios com distintas metodologias para mensurar o crescimento pró-pobre, no período entre 1995 e 2005, para o Brasil. Partindo do método de Kakwani, Khabdker e Son (2004), o autor conclui que as políticas direcionadas aos mais pobres foram mais impactantes nas regiões sul e sudeste neste período. O segundo ensaio calcula as elasticidades renda-pobreza e desigualdade-pobreza e revela que, como a elasticidade desigualdade-pobreza é maior do que a elasticidade crescimento-pobreza, a redução de desigualdade medida pelo índice de Gini torna-se mais sensível à queda dos níveis de desigualdade do que o crescimento da renda média. Para concluir, o terceiro artigo utiliza a metodologia de Kraay (2004), e encontra evidências de que o crescimento da renda tem sido mais relevante que a queda na desigualdade como fonte de crescimento pró-pobre para a região nordeste, ao passo que, para a região sudeste, a redução na desigualdade é mais relevante.

Pinto e De Oliveira (2010) estimam a elasticidade renda-pobreza e a curva incidência do crescimento para as UFs do Brasil, no período entre 1995 e 2007. Os resultados obtidos indicam que a pobreza caiu rapidamente no Brasil, desde 2001, porém com divergências intra e inter-regionais.

Kakwani, Neri e Son (2006) buscam ligações entre crescimento pró-pobre, programas sociais e mercado de trabalho para o Brasil, com dados da renda per capita, no período entre 1995 e 2004. Como conclusão afirmam que no período analisado não houve crise de pobreza (choques na renda dos mais pobres), pois as rendas originárias de seguros sociais e outras transferências governamentais contiveram os efeitos adversos dos choques.

Tochetto et al. (2004) analisaram a qualidade do crescimento econômico no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, utilizando tanto o método da curva crescimento-pobreza quanto da elasticidade da pobreza. As evidências revelaram uma heterogeneidade das elasticidades entre os estados e um crescimento pró-pobre para a década de 1990.

A metodologia empregada neste trabalho envolve as rendas de cada décimo da população para cada uma das unidades federativas do Brasil, no período 1995-2009. O método desenvolvido por Son (2003, 2004) será apresentado na próxima seção.

METODOLOGIA
A literatura a despeito do crescimento pró-pobre busca, essencialmente, compreender o papel do crescimento econômico na redução da pobreza, bem como seus efeitos sobre a distribuição na sociedade. Para tanto, foi proposta uma série de indicadores e métodos para mensurar esta relação. Neste trabalho será empregada a metodologia da curva crescimento-pobreza (poverty growth curve - PGC), elaborada por Son (2003, 2004).
CURVA CRESCIMENTO-POBREZA
Son (2003, 2004) desenvolve uma metodologia baseada no teorema de Atkinson7 e na curva de Lorenz generalizada para dados da Tailândia e de diversos outros países. Utilizando a análise de dominância estocástica de segunda ordem - Lorenz generalizada (Shorrocks, 1983) – o autor mensura o que chamou de curva crescimento-pobreza. A estimativa parte da equação:

(1)

onde,


(2)

Assim, temos que é a curva de Lorenz – que descreve a percentagem da renda (despesa) que beneficia a proporção da população –, a média da renda da sociedade e a renda pessoal com a probabilidade da função densidade , portanto é a curva de Lorenz generalizada.

Alterações na curva de Lorenz indicam que a desigualdade modifica-se com o crescimento econômico. Logo, o crescimento é pró-pobre se a curva de Lorenz se aproxima da linha de igualdade perfeita, ou seja, para todo , logo, quando a nova distribuição é dominante sobre a distribuição anterior temos a dominância de segunda ordem, ou a chamada curva de segunda ordem dominante.

A partir da curva de Lorenz, podemos obter:



(3)

onde, é a renda média de 10, 20, ..., 100 da população. Tomando-se o logaritmo de ambos os lados de (3), temos:



(4)

Efetuando a primeira diferença de (4) obtemos:



, onde (5)

Também podemos escrever como:



, sendo (6)

onde, é a taxa de crescimento da renda média da população mais pobre quando os indivíduos são classificados de acordo com a renda per capita e é a taxa de crescimento da renda média da sociedade.

De acordo com a teoria desenvolvida por Son (2003, 2004), existem 4 possíveis cenários para a curva crescimento-pobreza:


  1. Pró-pobre: Se para todo , pois a curva de Lorenz como um todo se desloca para cima para todo ;

  2. Não pró-pobre: Se para todo , então há redução da pobreza em virtude do crescimento, mas com concomitante aumento da desigualdade para todo . Este efeito é conhecido como crescimento trickle-down onde há redução na pobreza, mas os pobres proporcionalmente recebem menos que os não-pobres;

  3. Empobrecedor: Se para todo e se , então há um crescimento empobrecedor, pois o crescimento econômico positivo aumenta a pobreza;

  4. Inconclusivo: Demais casos. Para esta classificação há duas distintas situações:

‘’A primeira, as ocasiões em que o crescimento da renda dos p% mais pobres, com p=1,...,30 (ou p=1,...,50), é maior que aquele verificado para renda média de toda a população (onde p=100), mas ao menos para algum p intervalo 30


(ou 50
), o crescimento da renda média é menor que aquele observado para renda média de toda a população. A segunda, as situações em que o crescimento da renda de pelo menos algum dos p% mais pobres, com p=1,...,30 (ou p=1,...,50), é menor que aquele verificado para renda média onde p=100, mas para p intervalo 30
), o crescimento da renda média é maior que aquele observado para renda média de toda a população’’ (GONÇALVES e SILVEIRA NETO, 2010, pg. 804).
Neste trabalho, estas duas ocasiões serão classificadas como resultado inconclusivo. Serão considerados conclusivos quaisquer resultados que não sejam inconclusivos. Conforme sugere Son (2004, pg. 313), uma alternativa para minimizar os resultados inconclusivos parte da escolha de um valor menor de . Para tanto, neste trabalho será utilizado nas estimativas o decil mais pobre, i. e., . Levando em consideração que a curva crescimento-pobreza pode nos dizer como determinar a natureza do crescimento, sem especificar a linha e medida de pobreza, então temos um instrumento poderoso que nos possibilita tirar conclusões definitivas (SON, 2004, pg. 313).

Com dados da Tailândia entre 1988 e 2000, Son (2003) dividiu a análise em diversos períodos, entre os anos de 1988 e 2000.



Tabela 2 – Estimativa da curva crescimento-pobreza para a Tailândia: 1988-2000

Percentile

1988-1990

1990-1992

1992-1994

1994-1996

1996-1998

1998-2000

1988-2000

10

6.31

2.51

8.89

7.27

-2.55

-4.39

3.01

20

6.10

3.21

8.72

7.30

-2.46

-3.11

3.29

30

5.84

3.61

9.16

7.14

-2.20

-2.67

3.48

40

5.85

4.05

9.41

6.99

-2.14

-2.34

3.64

50

5.89

4.48

9.58

6.81

-2.13

-2.10

3.75

60

5.95

4.80

9.68

6.72

-2.14

-1.85

3.86

70

6.00

5.19

9.69

6.59

-2.07

-1.55

3.97

80

6.05

5.76

9.36

6.54

-1.96

-1.21

4.09

90

6.29

6.52

8.49

6.48

-1.63

-0.77

4.23

100

9.06

7.49

7.65

5.75

-1.00

-0.85

4.68

Fonte: Son (2003)
O autor ainda utiliza dados de 87 países para testar a curva crescimento-pobreza e constata que houve crescimento pró-pobre em quase 40% dos casos, sendo 80% da amostra com resultados conclusivos8. O método de Son (2003) se diferencia pelo seguinte aspecto:

‘’ […] we conclude that our methodology is quite powerful because in majority of cases, we can make definitive conclusions about the nature of growth without specifying the poverty line and the poverty measure’’ (2003, pgs. 7-8).


Além disto, demonstra não ser sensível às medidas de pobreza utilizadas na literatura, o que favorece, em grande medida, as análises intra e inter-regionais (TOCHETTO et al., 2004).

Son (2004) dedica uma seção de seu artigo para mencionar as diferenças entre a curva crescimento-pobreza e a curva de incidência do crescimento, proposta por Ravallion e Chen (2003). Primeiramente, o método de Ravallion e Chen (2003) é baseado na dominância de primeira ordem, ao passo que o método de Son (2003, 2004) é derivado da dominância de segunda ordem. Assim, temos que as estimativas da curva de incidência do crescimento serão mais fortes do que a curva crescimento-pobreza se as condições requeridas de dominância forem satisfeitas. Contudo, como a dominância de primeira ordem implica dominância de segunda ordem, então é provável que as condições requeridas de segunda ordem sejam satisfeitas com maior frequência do que as de primeira ordem, o que implica que as estimativas da curva crescimento-pobreza são mais conclusivas do que o método da curva de incidência do crescimento (SON, 2004, pg. 310, tradução nossa).

Outro ponto destacado pelo autor que cabe menção se refere à base de dados, os quais originam a taxa de crescimento da renda do percentil para a metodologia da curva de incidência de crescimento. Sendo os dados baseados em registro de unidade, como as pesquisas domiciliares, a estimativa está mais suscetível a erros, pois se trata de uma fonte de dados discreta. Mesmo que se ajuste a curva de Lorenz para tornar os dados contínuos, a precisão dos resultados dependeria do próprio ajuste da curva de Lorenz. Por outro lado, a dominância requerida para estimar a curva crescimento-pobreza é baseada na estimativa da taxa de crescimento da renda média até o percentil , estando sujeita a menos erros. Ainda assim, pelo método de Son (2003) basta os decis ou quintis de renda média para o cálculo (SON, 2004, pg. 310, tradução nossa).

Dessa forma, temos que uma diferença entre as duas metodologias reside no fato de que enquanto a curva crescimento-pobreza é calculada pela curva de Lorenz generalizada e contempla em sua estimativa as rendas médias acumuladas até o décimo, a curva de incidência do crescimento considera a renda média de cada um dos décimos da população.

Para Son (2003), o crescimento econômico apresenta trajetórias distintas entre os países, e o mesmo fato pode ser dito para a pobreza. Portanto, mesmo com taxas de crescimento de renda similares, o nível de pobreza pode ser distinto entre países e até mesmo entre regiões de um mesmo país. Este argumento reforça que a heterogeneidade entre os estados brasileiros pode revelar trajetórias distintas de pobreza e nível de renda.



  1   2   3


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal