Oliver Lodge Porque Creio na Imortalidade da alma



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Capítulo VII
Perspectiva. Breve resumo


“E a minha pequena chama de vida desaparecerá nas vossas profundezas e alturas?”

* * *

“Através das portas que vedam o horizonte me chega um raio do que está mais alto.”

(Dos últimos poemas de Tennyson)
Para concluir, lancemos um rápido olhar sobre o terreno já percorrido e encaremos o futuro. As nossas vistas começaram a ampliar-se de todas as maneiras, elevando-se de sua atenção somente sobre a Terra para a compreensão do mundo infinito de que a nossa Terra é uma porção integral. Penetramos já nos interstícios dos próprios átomos de que a Terra é composta.

Encontramos por toda parte um sistema de lei que governa o imenso e o infinitamente pequeno, não sendo a Terra uma exceção. Começamos a ser forçados a estender a nossa concepção cósmica ao domínio da vida e do Espírito. Procuramos o imperecível, o perfeito, o real, e achamos tais atributos no próprio espaço. É lá, e não na matéria, que está a nossa habitação permanente, lá que achamos o veículo físico que utilizamos agora e que continuaremos a usar sempre. Os nossos corpos materiais se gastam e somos obrigados a deixá-los na terra. Nenhum objeto material é permanente, cedo ou tarde cai em ruínas, mas a alma de uma coisa não se acha na sua aparência material. O lado material de um quadro é a tela e as cores, nada mais poderia ser descoberto pelo microscópio, porém, por um tal exame, não existe nenhum “quadro”; a “alma” ou a significação, a realidade, desaparece desde o instante em que o objeto material foi assim considerado analiticamente. Acontece o mesmo com os nossos corpos. Quando dissecados, são só músculos, nervos, vasos sanguíneos, um mecanismo maravilhoso, mas nenhum exame análogo pode descobrir nele o Espírito.

O Espírito utiliza e domina a matéria. Usa-a para fins de demonstração e execução, emprega-a como um veículo de manifestação, mas é um erro capital identificar o pensamento e a personalidade com qualquer aglomeração de átomos. O cérebro é uma massa mole de matéria, misteriosamente combinada para reagir sob a ação do pensamento, para receber e transmitir impressões, mas o cérebro não passa, não pode ver, nem ouvir, nem imaginar. Tais coisas são devidas só ao Espírito, de que o cérebro é o instrumento. Sem ele e sem a sua coordenação neuromuscular, seríamos impotentes para fazer mover a matéria e, conseqüentemente, impossibilitados de falar, escrever ou de transmitir as nossas impressões e os nossos pensamentos.

O nosso corpo material é um aglomerado de átomos habilmente unidos em uma estrutura maravilhosamente engenhosa e perfeitamente adaptada. Cada parte dele tem a sua função particular e nós vivemos cá em baixo graças à cooperação e ao funcionamento harmonioso do conjunto. É assim que vivemos na Terra e convivemos com outras pessoas construídas como nós. As partículas que compõem o nosso corpo provêm da união da substância animal e vegetal coordenada pela entidade psíquica interior que se pode chamar vida ou alma, coisa que não pretendemos compreender, mas é aí que se situam o eu, o caráter, a memória, e não no mecanismo.

A orelha não ouve, mas o mecanismo da audição ouve, pois aquela não é senão um mecanismo, como o é o telefone. O olho não vê, do mesmo modo que um aparelho fotográfico não vê. Somos nós acionados por vibrações. Nós interpretamos sensações como uma paisagem, uma obra de arte, um poema ou uma pintura. Quando ouvimos as palavras, o que percebemos não são senão vibrações atmosféricas. Os sentidos dos animais as percebem do mesmo modo, mas eles não têm o Espírito para interpretá-las. Esta faculdade de interpretação é surpreendente. Acabamos de aprender, por certas invenções engenhosas, como interpretar as ondas etéricas para traduzi-las em harmonia e em inteligência. Confundir o nosso ser verdadeiro com o seu instrumento é uma imbecilidade.

A forma mesmo do corpo não depende, em nada, da matéria, como não depende, muito menos, da natureza da nutrição absorvida como os cristais, nutrição que poderia servir igualmente para a formação de um frango ou de um porco. Nenhuma identidade pessoal reside nas partículas, nem no agregado delas. A identidade pessoal pertence à alma, princípio animador e vivificante que agrupa as células e afeta em cada uma delas o seu papel especial.

A célula protoplásmica, passando o sangue durante a digestão, vai a qualquer parte do tecido e, lá, é ela utilizada segundo as suas necessidades. Em certo lugar, ela contribuirá para formar uma unha; em outro para produzir o cabelo, em outros ainda para criar um músculo ou a pele. Feri a pele e ela se refará depressa; cortai um nervo e ele se curará logo. O fato é maravilhoso, ultrapassando completamente a nossa faculdade consciente. Quem, utilizando só o pensamento, poderia fazer crescer uma unha do pé, um dente ou um cabelo?

Os fatos físicos e químicos podem ser estudados, mas a força interior e imanente que os guia escapa ao nosso saber. Tudo obedece à lei e à ordem. Pode-se formular leis, observações hábeis podem estudar e descrever o processo de sua ação, mas apenas isto. Assim nós poderíamos estudar a estrutura de uma ponte, ou de uma máquina ou de um aparelho de telegrafia sem fio, enquanto que aquele que a imaginou ou criou fica invisível. Identificar a força que anima o veículo, com o veículo material mesmo, é tornar-nos ridículos e fechar os olhos à realidade. Um violão ou um órgão é um instrumento, mas a música pede um músico. Nós mesmos não somos matéria. Utilizamos a matéria e depois a abandonamos. O corpo é o nosso instrumento, que dura certo tempo. Depois é preciso enterrá-lo ou incinerá-lo, pois terminou o seu serviço e doravante as suas partículas podem ser utilizadas por um outro organismo.

Nós mesmos não baixamos nunca à sepultura, mas sim continuamos uma existência ininterrupta. É provável que tenhamos então um outro modo de manifestação e, em certo sentido, um outro corpo, que não é mais dessa matéria, pois o velho corpo material está morto e enterrado e não será nunca ressuscitado por nós. Não há ressurreição de cadáver, uma vez que a vida o deixou completamente; não seria uma ressurreição gloriosa, seria, sim, um milagre bizarro e inexplicável, ou bem um grande horror.

Aqueles que se limitaram a uma visão material da existência, aqueles que fecharam os seus olhos à realidade das coisas espirituais, encaram evidentemente o destino humano de um ponto de vista estreito e terra-a-terra. Eles consideram que a idéia de sobrevivência é um absurdo. Se o cérebro é o Espírito, se toda memória é nele conservada, se só ele é instrumento para a manifestação dos pensamentos e das idéias, ou, por outra, o ser humano real, então, com efeito, somos bem criaturas efêmeras, vivendo alguns anos e retornando em seguida ao pó de onde viemos. Vida fútil, sem continuação, sem significado! Todas as nossas esperanças, toda a nossa fé e o nosso amor, todas as nossas alegrias, as nossas dores e os nossos sacrifícios são sem nenhum valor, desfeitos e terminados como uma história acabada.

Para semelhantes teóricos, a única noção possível da sobrevivência seria a ressurreição do mecanismo corporal. Tal processo, a justo título, se chamaria necromancia, isto é, uma empresa limitada ao cadáver. Houve uma época em que se acreditava firmemente que os túmulos liberariam os seus mortos, que haveria uma ressurreição geral e que os nossos pobres aglomerados de partículas materiais, usadas e abandonadas, seriam reunidas de novo, para serem ou torturadas ou rejubiladas eternamente. Emancipai-vos de uma superstição tão grosseira!

Onde está a verdade? Contrariamente a tais afirmativas, a verdade é que não estamos destinados a morrer, que não sofremos desgaste, que temos uma existência permanente além da vida do organismo material, herança comum da criação animal, que é o Espírito criador e diretor que constitui verdadeiramente o nosso eu e que este persiste fora dos acidentes que possam sobreviver ao corpo, sensível, entretanto, aos males que possam assaltá-lo. Podemos subir a alturas inexprimíveis e descer a profundezas correspondentes.

O elemento permanente no homem é o caráter – a vontade. É ele que determina o destino do homem. Somos bem superiores ao mecanismo, não somos conduzidos por ele, não corremos sobre trilhos como os trens, não temos leme e somos livres para escolher os nossos caminhos. Muitos dentre nós estamos contentes se podemos evitar os obstáculos e caminhar livremente pela grande estrada, mas outros podem fazer mais. Têm, por assim dizer, asas, podem planar, ao menos durante certo tempo, acima das penas da vida habitual, podem ganhar a liberdade e atingir a beleza, cantar, conhecer a fé e encorajar os homens e partilhar de sua ventura diante da beleza e a majestade do universo do qual começam a entrever a luz.

A perspectiva esplêndida que se apresenta diante da entidade em estado de ver e de compreender tornar-se-á a esperança e a inspiração da raça humana neste planeta. Este planeta Terra é a região das almas que lutam e têm aspirações, mas que estão entravadas, e, no entanto, estão fortificadas pela sua associação disciplinar com a matéria. O homem, tal como o conhecemos, é um produto recente da evolução que não soube ainda controlar sabiamente o seu invólucro material. Ele se engana gravemente sobre a importância relativa das coisas, mas escritores inspirados lhe asseguraram que podem conseguir a sua salvação só pelos próprios esforços. As sementes da boa vontade já foram lançadas e, quando elas florirem, as gerações futuras herdarão um paraíso terrenal digno do longo trabalho de preparação, de sofrimento e de esforço que foram a obra das primeiras etapas. A Terra será então verdadeiramente um corpo celestial e o Reino do Céu a nossa última recompensa.

O homem não está, até aqui, plenamente desenvolvido, pois que somente alguns dentre eles ultrapassaram os seus companheiros e tempo virá certamente em que todo o mundo poderá receber essa herança. O mal-estar atual é bem um esforço quase cego para conquistar coisas mais elevadas, um sentimento de que este mundo não pode ser tudo, que a instrução e o repouso valem bem uma luta, que existem recompensas ao alcance atual do homem comum. Alguns desses esforços são terrivelmente falsos, o egoísmo perturba os idealistas e o seu sono, porém, mais cedo ou mais tarde, todo esse caos será refeito. A humanidade está no início de sua evolução e ainda resta muito tempo diante de nós. O homem e a sua raça têm diante de si uma perspectiva magnífica e, se almejamos firmemente Justiça e Direito, se procurarmos auxílio e direção certamente iminentes, se buscamos verdadeiramente compreender o que é a significação da existência, pondo as nossas vontades em harmonia com esse esforço sublime, então chegaremos à paz e à idéia de serviço que representam a liberdade completa.

Falo de auxílio e de direção. São realidades que ninguém nos força aceitar, mas serão nossas se as buscarmos. Multidões viveram e lutaram na Terra e elas não desapareceram.

Neste grande universo nada de real desaparece. Esse real pode estender-se além de nosso alcance, mas não deixa de existir. Os próprios átomos parecem ser permanentes. Cada fração de energia é conservada, não há nunca destruição, mas mudanças. Assim tem sido com todos os seres que viveram e sabemos muito bem que alguns deles sofreram para ajudar a humanidade. Pensais vós que eles não trabalham mais, que agora repousam e que nos abandonaram? Não, nunca! Não estamos sós. Não somos senão uma parte dos seres que lutam por condições melhores. Um grande exército está em atividade, não para destruir, mas para obra de regeneração, de ajuda e de orientação. Ele não abandonou a luta, de que se ocupa sempre, e agora a contempla de um ponto de vista mais elevado e, observando os nossos erros, está sempre pronto a nos estender a sua mão compassiva e amiga.

Tudo isso está, sem dúvida, submetido a um Poder Superior além de nossa imaginação, que trabalha por meio de leis, por meios físicos e com o auxílio de agentes que não podemos conhecer ainda, mas com os quais somos felizes em aprender. O destino de cada indivíduo depende muito de si mesmo. O destino de cada raça depende de nós e daqueles que nos precederam. Somos colaboradores deles. Essa condição mais feliz, que se chama Reino do Céu, é o começo e o fim, e um dia será alcançado na Terra. Poderes imortais trabalham para tal fim. Vontades rebeldes o retardam. O egoísmo a ele se opõe, mas certamente que as Forças do Bem serão mais fortes e terão finalmente a sua vitória.



Esta é uma terra maravilhosa e bela e cada vida terrestre tem, evidentemente, uma importância imensa no plano geral. O nosso grande ideal será realizado. Um dia a humanidade se elevará até as possibilidades que ela começa a entrever. Ela já produziu Platão, Shakespeare, Newton, tais cimos de montanhas que refletem, na aurora, os raios de sol sobre prados e vales e, quando o homem comum atingir tais altitudes, que serão os cimos?
FIM


Notas:


1Revista de Metapsicologia, ano I, número 2, página 45.

2La Revue Spirite, número de agosto de 1951, página. 138.

3Gastone De Boni, Metapsichica, Scienza dell’anima, página 19, edição de 1946.

4Oliver Lodge, Barriere Illusorie fra Materia e Spirito, tradução de Lisa Sarafati Scopoli, edição de 1936.

5Theodor Reike, Religião e Psicanálise. O Deus próprio e o Deus alheio. Traduzido diretamente do alemão por Odilon Gallotti, página. 193.

6Oliver Lodge, Vie et Matière, tradução de J. Maxwell.

7Necessário se faz um esclarecimento ao leitor: nesta obra, o autor se propõe a demonstrar, cientificamente, a imortalidade (ou a continuidade) do ser psíquico individual – sua memória, seu conhecimento, seu sentimento –, independentemente da existência efêmera do corpo físico. Em outras palavras, evidencia a continuidade perpétua de cada personalidade individual e pessoal. Isto posto, nada mais natural do que o título original, de caráter científico, adotado pelo autor: Por que creio na imortalidade pessoal (Nota do revisor).

8Infelizmente, essa longa comunicação a respeito da catástrofe do Himalaia (1924), recebida nas condições adiante descritas, foi emitida por deferência a um pedido formulado pela família interessada. Ela está, contudo, registrada nos arquivos da Society for Psychical Research, para referência futura, se tal for preciso. Substituí-a por outro episódio.

9Após a morte de Lord Glenconner, sua viúva desposou o Visconde de Grey, ex-Ministro das Relações Exteriores da Inglaterra.

10Ver os Philosophical Transactions of the Royal Society, de 1893 a 1897.

11Gladys Osborne Leonard é o seu nome completo e “Feda” era uma índia americana que desencarnou mocinha.

12Ver, por exemplo, I Sam. XXX, 7-8; 2 Sam. V. 23-34; 2 Sam. VII, 5; XXI, 1; XXIV, 2; I Reis III, 5; I Crôn. XVII, 3; XXI, 9; XXIX, 29; 2 Crôn. XVIII, 14; XXIX, 25; XXXIII, 18; Isaías, XXX, 10.

13Raymond, ou A Vida e a Morte.


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