Oliver Lodge Porque Creio na Imortalidade da alma



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Resumo de postulados ou conclusões
tirados da experiência

(Numerados para referência)


1) – Que a atividade mental não é limitada às suas manifestações corporais, se bem que, em certo meio material, seja necessária para demonstrar-nos sua atual atividade neste plano.

2) – Que o mecanismo cérebro neuromuscular, assim como o resto do corpo, formam um instrumento construído, dirigido e utilizado pela vida e pelo espírito, instrumento que pode deteriorar-se ou usar-se de modo a impedir a sua utilização regular pela entidade dirigente normal; que os sinais dessa deterioração ou desse deslocamento podem claramente mostrar-se sem dar-nos o direito de daí tirar outra conclusão que a de uma obstrução ou de uma imperfeição no canal ou laço de comunicação entre o espírito e a matéria.

3) – Que nem a vida nem o espírito deixam de existir quando são separados do seu invólucro ou órgão material: cessam somente de funcionar na esfera material anterior, como quando o instrumento estava em bom estado. De fato, nada deixa de existir; só a forma de vida é que muda. Certa coisa pode perfeitamente desaparecer diante dos nossos olhos, tornar-se imperceptível aos nossos sentidos, mas isso não é uma prova de que tenha deixado de existir. Esse fato, bem evidente quando se trata de matéria e de energia, é igualmente verdadeiro, em minha opinião, quando se trata da existência vital ou espiritual. Não temos razão alguma para supor que algo de real possa deixar de existir, ainda que facilmente disperso ou tornado inacessível aos nossos sentidos.

4) – Que o que chamamos “indivíduo” é uma encarnação definida ou associação com a matéria de algum elemento vital ou espiritual que possui em si mesmo uma existência contínua. A entidade, ou, nos seus desenvolvimentos superiores, a personalidade, não depende certamente da identidade das partículas materiais que a fazem manifestar-se; ela não pode ser senão um atributo da entidade dirigente que congrega tais partículas durante certo tempo, as deixa e as renova durante a sua vida ordinária, sem que a sua continuidade seja de qualquer forma alterada.

5) – Que o valor da encarnação se acha na oportunidade assim oferecida para a individualização de uma parte da mentalidade específica gradualmente mais vasta, isolada do seu meio primitivo cósmico, a fim de permitir-lhe desenvolver uma personalidade que será a característica desse organismo particular.

6) – Que, quando tal individualidade ou personalidade é real, há lugar para crer-se que ela persista como toda outra realidade e que, em conseqüência, pode sobreviver à sua separação do organismo material, que a ajudava outrora a isolar-se, para tornarem-se possíveis os traços característicos individuais do seu caráter. Que o caráter individual, assim formado, persiste verdadeiramente como indivíduo, conservando a sua memória, as suas experiências e as suas afeições, segundo oportunidades e privilégios associados ao corpo material, durante a vida terrena. É uma questão que será resolvida pela observação direta e pela experiência.

Eis, pois, a minha conclusão final:

7) – Que a evidência, já acessível, basta para provar que o caráter individual e a memória persistem, que as personalidades que deixaram esta vida continuam a existir com os seus conhecimentos e as experiências adquiridas neste plano e que, em certas condições parcialmente conhecidas, os nossos amigos invisíveis podem provar-nos a sua sobrevivência real, individual e pessoal.

Posição atual destas teses


No momento em que escrevo, todas estas conclusões ou deduções, provenientes de um longo inquérito, são consideradas duvidosas pela ciência ortodoxa, que, até aqui, se tem limitado a manifestações terrestres, sem buscar o que quer seja no plano espiritual.

Qualquer insistência sobre tais proposições topa com a zombaria que as encara como pura especulação ou mesmo como superstição. Essas conclusões, por outro lado, não parecem essenciais à religião, em sua aceitação geral, e são, na maioria, desaprovadas como ensino religioso. Pode-se, portanto, perguntar por que, como tantos outros fomos de tal forma tocados pela verdade e a importância vital desta doutrina que não nos importamos acarretar com todas as censuras e zombarias que nos possam lançar os seus adversários e por que considero um dever a defesa de tais teses, que merecem respeitosa consideração e que se aperfeiçoam na medida do progresso de nossa experiência e de nosso conhecimento.

Tal a pergunta que desejo responder brevemente nesta obra, tanto quanto possível. Uma resposta completa exigirá o estudo de fatos registrados em uma literatura pelo menos de meio século ou de mais ainda, porque a literatura antiga está cheia de fatos idênticos, alguns insuficientes e pouco científicos, que são as suas narrativas.

A evidência dos fatos aumenta dia a dia e aumentará mais rapidamente ainda quando o grupo da crítica desdenhosa tiver desaparecido e a pobre humanidade terrena ficar livre do jugo da opressão militante.


Capítulo II
As sete proposições


Dos milagres, o maior é este – que tu és tu
Com poder sobre os teus próprios atos e o mundo
Deste mundo real dentro do mundo que vemos
Do qual o nosso é apenas uma zona limítrofe.

(De um poema de Tennyson)

Tomemos as proposições do fim do capítulo anterior e procedamos à sua apreciação.

– 1 –


Primeira: O espírito pode agir independentemente dos órgãos corporais. Fiquei certo disto desde 1883 em razão dos casos de telepatia experimental que Sir William Barrett já assinalara em um relatório dirigido à British Association em 1876.

A telepatia experimental, como já se sabe, é a transmissão de uma idéia, imagem ou sensação de um espírito encarnado a outro na mesma condição, sem necessidade dos órgãos materiais. Ela requer a participação de duas pessoas: o agente transmissor e o receptor. O receptor, ou o que recebe a transmissão, é posto ao abrigo de toda sensação, ao passo que o transmissor pensa em algo, fixa um objeto ou, de uma forma qualquer, procura fixar em seu espírito o que deseja transmitir mentalmente. Já se verificou que, em certas condições bem definidas, algumas pessoas possuíam faculdade receptora, de modo que, após breve intervalo de silêncio, estavam aptas a perceber a idéia e mesmo a fazer um desenho, sem auxílio da visão, da audição e do tato.

Esse fato, cuidadosamente estabelecido por numerosos observadores, serviu para explicar grande número de casos, outrora incompreensíveis, que pareciam causados pela utilização espontânea da faculdade telepática, consciente ou não, sob a influência de forte emoção. Assim, aplicando-se essa concepção – a mais aproximada da vera causa – esperava-se eliminar a superstição e explicar, de forma racional, numerosas lendas contemporâneas, onde se dizia que tal ou qual pessoa recebera de outra pessoa afastada impressão de doença, de perigo ou de morte.

Sabemos que tais fatos ocorreram muitas vezes sob a forma de visão ou aparição de fantasma e supomos que, em semelhantes casos, a impressão mental era de tal forma poderosa que provocava no espírito do percipiente uma alucinação de caráter visual ou auditivo, mentalmente e não fisicamente. Palavras eram ouvidas e uma visão percebida por vias anormais, como uma espécie de reconstrução mental. Nos casos melhores e mais importantes, a impressão era a que chamamos “verídica”, isto é, que corresponde realmente a acontecimentos que se produziram algures, de sorte que se podia provar a sua autenticidade.

Tal foi a conclusão de um livro, em dois volumes, cuidadosamente escrito e editado em 1886 sob o título de Phantasms of the Living (Fantasmas dos Vivos), cujos autores foram Myers e Gurney, com a colaboração de Podmore. Grande número de acontecimentos misteriosos, devidamente atestados, ocorrendo, constantemente, em todas as partes do mundo, se explicam, assim, de modo racional, sobre a fase do fato observado da comunicação psíquica, fato esse descoberto por meio da telepatia experimental. A aparição ou o fantasma, visto pelo percipiente sensitivo e que, até aqui, tinha naturalmente sido considerado como efeito de uma presença real e misteriosa, podia ser assim atribuído a uma impressão viva produzida, telepaticamente e sem seu conhecimento, por uma pessoa afastada, em angústia, perigo e mesmo prestes a falecer.

Numerosos casos análogos foram reunidos pelos seguidores daqueles e examinados a fundo por investigadores sérios e hábeis em um livro intitulado Census of Hallucinations (Censo de Alucinações). Foi uma tarefa trabalhosa, executada antes e durante o ano de 1894, tratando abertamente dos fantasmas dos vivos, bem como dos mortos. Depois da eliminação de todos os casos duvidosos, apresentados os pontos fracos e as explicações segundo as hipóteses normais, a conclusão dos investigadores foi resumida, nos Proceedings of the Society for Psychical Research, vol. X, pág. 394, da seguinte maneira:

“Existe, entre os casos de morte e as aparições de moribundos, uma relação que não é conseqüência só do acaso. Consideramo-la como um fato certo. A discussão de tudo que ela implica não pode ser feita só nesta obra e, provavelmente, não será mesmo esgotada em nossa época.”

Esse relatório, longo e extremamente consciencioso, estava assinado pelo professor Henry Sidgwick e Sra. e trazia também outras assinaturas. Não pretendo impor dogmaticamente a idéia de que a hipótese de telepatia do agente transmissor ao receptor seja realmente a explicação completa dessas experiências. Creio que existem outras explicações suplementares assim como outras causas. Em todos os casos, porém, a hipótese telepática, entre duas pessoas em relação, é a mais plausível e a mais racional.

Interessante recordar que o grande filósofo Kant se ocupou, em certa época, dos estudos psíquicos e examinou mesmo dois ou três casos notáveis, referentes a Swedenborg. O falecido professor William Wallace fez notar, em seu ensaio sobre Kant, que é possível considerar as aparições sob um ponto de vista subjetivo e termina com uma citação de Kant, que estava certamente a par da explicação telepática sugerida muito mais tarde por Myers e Gurney em sua obra Phantasms of the Living.

Eles se apóiam particularmente no fato de que tais visões, qualquer que seja a sua origem, são autênticas, podendo acontecer mesmo que tenham mais importância do que a que lhes queria Kant conferir.

Eis a citação de Kant, feita por Wallace:

“A possibilidade da comunicação entre um espírito puro e um espírito revestido de seu invólucro carnal depende do estabelecimento de uma ligação entre idéias abstratas e espirituais e imagens da mesma espécie, revelando concepções sensoriais que são análogas e simbólicas. Tais associações se encontram em pessoas que têm uma constituição especial. Em dados momentos esses videntes são assaltados por aparições que não são (como supõem) entidades espirituais, mas apenas ilusão da imaginação, que submetem as suas próprias imagens a influências reais e espirituais imperceptíveis à grosseira alma humana. Assim, a alma dos mortos e os espíritos puros, ainda que não possam jamais produzir certa impressão em nossos sentidos exteriores ou entrar em contato com a matéria, são, todavia, susceptíveis de atuar sobre a alma humana, que pertence, como eles, à grande comunidade espiritual. Destarte, as idéias que imprimem na alma se vestem, segundo a lei da fantasia, nas imagens ligadas e criam, fora do vidente, a aparição de objetos correspondentes.”


– 2 –


A segunda proposição – que o corpo é um instrumento – depende, de certa forma, da primeira proposição e serve de refutação ao argumento muitas vezes apresentado pelos anatomistas e fisiologistas de que cérebro e espírito são a mesma coisa, de modo que uma lesão no cérebro imprime, ipso facto, uma lesão correspondente no espírito e que a destruição de um equivale à destruição de outro.

Essa hipótese pode ser considerada como base da filosofia materialista e está, evidentemente, de acordo com a experiência ordinária de que uma lesão cirúrgica do cérebro implica em um defeito mental correspondente. Desnecessário é dizer que todos esses fatos de verificação corrente são inteiramente admitidos por mim, porém acho que a dedução proposta ultrapassa o que é legítimo. Tudo o que está realmente provado é que, se o instrumento ficar avariado, o poder de desenvolver a atividade mental ficará igualmente avariado, mas não se segue desse fato indubitável que temos o direito de deduzir o que quer que seja relativamente ao espírito, a menos que não suponhamos que cérebro e espírito sejam um “só”.

Se o cérebro deixa de funcionar, não há, naturalmente, mais comunicação: a manifestação do espírito, na falta de função do mecanismo, cessou. A afasia talvez se tenha declarado, as idéias não podem mais ser expressas se a porção do cérebro em função ficou avariada. Acontecimentos passados não podem mais ser retidos pela memória se as células cerebrais ou as suas vias de comunicação ficaram incapazes de estimular os músculos da mão ou da laringe. Dizer, porém, que a memória ficou aniquilada porque o seu órgão de reprodução não pode mais funcionar é uma dedução que ultrapassa o que é lógico. Aqueles que consideram que o cérebro não é apenas um instrumento do espírito, mas o próprio espírito, se vêem forçados a emitir suposição estranha, gratuita e intrinsecamente absurda de que a massa de matéria encerrada no crânio é capaz de conceber, de olhar para o passado e o futuro, de urdir grandes obras literárias e artísticas, de compor grandes poemas, de explorar o mecanismo do universo, de sentir a dor, de ter afeições, de praticar ações, em uma palavra, de não apenas manifestar, mas, na realidade, de sentir em si todos os sentimentos associados com as palavras: Fé, Esperança e Amor.

Deve-se, todavia, admitir que o cérebro não pode mais que a vista. A vista e o cérebro não constituem senão um instrumento único graças ao qual a visão se torna uma possibilidade. O ouvido é, indubitavelmente, um instrumento físico que nos permite ouvir, mas é bem verdade que é o espírito quem vê e ouve, é ele quem interpreta a significação da visão e da audição, quem extrai uma impressão mental ou uma emoção das imagens, poemas e músicas – resposta psíquica inteiramente estranha aos atributos da matéria.

O sentimento do belo, por exemplo, pode ser despertado por um conjunto de partículas materiais, mas nenhum conjunto dessas pode admirar a sua própria beleza. Não se pode supor tampouco que uma porção de matéria, por animada que seja, é capaz de tomar a iniciativa de uma série de ações, de imaginar uma obra de arte, de conceber uma teoria científica ou de praticar uma ação espontânea qualquer. As partículas materiais são inteiramente subordinadas a forças mecânicas que agem sobre elas. Não têm vontade própria, pois são absolutamente dóceis. Isto não é verdade acerca dos átomos da matéria orgânica quanto sobre a matéria inorgânica, porque a Ciência tende a abolir a distinção entre o orgânico e o inorgânico e a acentuar o fato, algo excepcional, tal como o modo de agir dos organismos, de que as partículas estão inteiramente subordinadas a leis da Física e da Química e não podem produzir fenômenos vitais e mentais senão em função de controle vital e mental.

Achei um singelo enunciado deste princípio em uma obra do professor Vincenty Lutolawski, filósofo polonês, intitulada O Mundo dos Espíritos, obra que parece ter sido escrita em 1899, só foi publicada na Inglaterra em 1924 e que não é suficientemente conhecida, apesar da apreciável recomendação que dela fez o professor William James.

Eis o trecho a que me refiro:

“Para compreender a relação que existe entre o pensamento e o cérebro, basta admitir que o cérebro é o órgão através do qual recebemos todas as nossas impressões exteriores e graças ao qual produzimos todos os movimentos, particularmente a palavra. A evidência consiste apenas em manifestar essas funções do cérebro e toda asserção que atribui a ele o poder de pensar é baseada em um sofisma semelhante ao de atribuir ao coração todas as emoções, porque as emoções tem certa influência sobre a ação do coração... Assim, o pensamento fica conhecido, não como processo fisiológico, mas como um fato de consciência, por nossa experiência mental, e não temos razão alguma para supor que possa ele identificar-se com uma atividade corpórea qualquer visível. Vossa alma outra coisa não é além daquilo de que tendes consciência... É por uma falsa analogia de linguagem que dizemos “minha alma”, como dizemos “meu cérebro”, “meu corpo” e assim por diante. Com efeito, sois uma alma e não deveis falar de possuir uma alma como se a alma diferisse de vós mesmos.”


– 3 –


Muitos fenômenos conhecidos permitem ilustrar a terceira proposição que estabelece que as coisas desaparecidas não perdem a sua existência. A indestrutibilidade da matéria não deixa de ser um fato que salta aos olhos, mas é preciso prová-lo cientificamente.

Acredita-se geralmente que uma coisa queimada está destruída, que o leite derramado na terra está perdido, que a nuvem se evaporou devido ao calor solar, etc. Todo o mundo sabe, porém, hoje, que qualquer que seja a dispersão da matéria, as suas partículas são indestrutíveis, que existe igualmente o vapor d’água, ainda que invisível, mesmo quando a nuvem se evaporou. Desnecessário é insistir, detalhadamente, sobre tal fato. Poder-se-ia, porém, replicar que a admissão disso depõe contra a sobrevivência individual; superficialmente sim, mas, no fundo, de modo algum. A nuvem não tinha individualidade, não era mais do que uma reunião de partículas que, por acaso, possuem poder de afetar os raios luminosos, de forma a torná-los visíveis aos nossos olhos. Uma multidão pode ser dispersa, um exército desmobilizado, mas sua existência foi corporal até a sua dispersão. A realidade dessa existência, durante sua permanência, encontra-se no estimulante mental que unia as partes constituintes e não no próprio grupo. Os componentes da multidão afastaram-se por ocasião da separação, porque nada é duradouro na justaposição. Um exército ou uma armada obedecem às ordens de homens de Estado, transmitidas a seguir por meio de oficiais graduados. Os componentes desses grupos assemelham-se a partículas de nosso próprio corpo, reunidas por algum agente superior, obedecendo a ordens durante certo tempo, até o instante do licenciamento. Eles deixam de existir ao mesmo tempo que o corpo, mas a entidade dirigente, que os comandava e dirigia, nada mais de comum tem com eles, que eram apenas o instrumento de que se servia o agente transmissor para possuir certos efeitos.

O poder dirigente pode continuar a funcionar muito tempo depois do abandono do mecanismo subordinado, porém sem instrumento não o pode fazer. Deus não produz resultados sem meios convenientes. O espiritual e o material parecem continuamente em relação. Em resumo: deve ser sempre verdade que a Divindade age por meio de seus agentes. O que chamamos leis da natureza são as nossas fórmulas de reconhecimento de algum de seus agentes operadores. Supõem os teólogos que anjos e outros seres sobrenaturais se contam entre os agentes e mensageiros divinos, ao passo que se reconhece como verdade corrente que somente o homem pode executar certas coisas. O homem é um instrumento das forças superiores e ele próprio tem necessidade de instrumentos para o exercício e a manifestação das suas faculdades.

Como um fabricante de instrumentos pode rejubilar-se quando um exímio artista faz bom uso deles, do mesmo modo o Altíssimo pode alegrar-se com o uso benéfico as faculdades e talentos dos seus filhos.

Diz George Eliott:

“Quando um maestro tem entre as suas mãos e sob o seu mento um dos seus violinos, sente-se feliz por ter Stradivarius vivido e fabricado os melhores violinos do mundo, porque, se Deus concedeu o gênio, deu instrumentos para ajudá-lo. Não teria podido fabricar violinos de Antônio Stradivarius sem Antônio Stradivarius.”


– 4 –


A quarta proposição – que um indivíduo é uma encarnação temporária de algo imortal – toca ao problema mais difícil da identidade pessoal. Que entendemos nós por “individualidade pessoal”? Deve-se supor que homem sempre existiu? Podemos, em suma, compreender que isso não é necessário. Um poema e um drama podem ser imortais, mas viram o dia em um tempo definido e circunstâncias especiais os fizeram nascer.

Parece-me hoje provável que a individualidade se formou durante o isolamento da matéria, do que podemos chamar substância psíquica bruta, não experimentada. O corpo é gradualmente saturado pela psique ou alma não identificada, segundo as suas capacidades de recepção, porção infinitesimal no começo do processo, aumentando pouco a pouco numa medida certa em razão dos esforços e das oportunidades do ser. O afluxo é às vezes de tal modo importante que forma o que chamamos um “grande homem”, se bem que, na maior parte dos casos, a ação pára muito tempo antes de chegar a esse resultado.

Depois de certo intervalo no desenvolvimento, a alma, agora identificada, retorna ao seu ponto de partida, quer gradual e naturalmente, quer bruscamente, em caso de acidente, mas em ambos os casos ela conserva as suas capacidades, as aptidões, os gostos, a memória e a experiência adquiridas durante a vida terrena. Leva esse acréscimo de valor e o faz adicionar ao Todo que ela junta – qualquer que seja esse Todo – apropriado à sua natureza, Todo esse que pode ser um “ego” subliminal maior cujas porções talvez estejam submetidas a uma forma modificada da reencarnação numa vida futura. Reservo minha opinião a respeito destas questões, mas podemos estar certos de que as partículas materiais, sempre subordinadas aos fins da pessoa cujo crescimento era temporário, desempenharam o seu papel e foram definitivamente abandonadas. Essas partículas provêm de uma nutrição qualquer, são assimiladas durante certo tempo, depois rejeitadas para dar lugar a outras. As partículas não exercem nenhuma função; impelidas dali e de acolá, são perpetuamente afluentes. Todo o organismo, porém, conserva a sua identidade, à moda de um rio que é sempre o Ganges ou o Tibre, ainda que partículas d’água, que passam pelo seu leito, mudem constantemente. Tais analogias não são, de forma alguma, exatas, mas simplesmente sugestivas. Uma vez recitado, um poema não deixa de existir. Uma partitura de orquestra é a encarnação temporária de um homem de gênio, cujas idéias são sujeitas à reencarnação.

– 5 –


A quinta proposição implica a idéia de que a encarnação terrena tem um fim e que podemos compreender-lhe parcialmente a razão. A entidade se manifesta a nós por seu corpo e a experiência ordinária nos mostra que assim é ele obrigado a viver a sua própria vida e desenvolver, da melhor forma, o seu próprio caráter. Quando ele encontra outros seres na mesma situação, tem ocasião de fazer amigos. O corpo material é uma espécie de anteparo psíquico, assim como um meio físico de união: encontramos gente na rua, que não teríamos conhecido de outro modo. Nosso aparelho corporal nos faz conhecer acontecimentos históricos e mesmo fatos que só existem na literatura. O corpo é um belo instrumento de educação.

O mecanismo cérebro neuromuscular que constitui, do lado material, o ser humano é bastante complexo em si mesmo; não é geralmente sensível às influências exteriores senão por meio de seus órgãos sensoriais. Torna-se assim consciente do mundo exterior e dos outros seres que estão numa condição semelhante à sua. Pode ter contato e cooperar com eles pelos meios físicos da comunicação para saber algo desse universo de que constitui uma porção individualizada. É inteiramente excepcional que uma pessoa possua uma relação telepática ou direta com outras pessoas ou delas receba uma inspiração imediata. Em geral, a experiência se limita à informação recebida pelos meios físicos e, sobretudo, por um código de símbolos constituindo a linguagem, que somos obrigados a aprender por meio de outros e que chegamos gradualmente a interpretar.

Todo conhecimento é difícil de adquirir e exige certo esforço: sem instrução e sem esforços, os nossos conhecimentos seriam bem limitados. Os órgãos especiais dos sentidos são, por assim dizer, umas tantas janelas que dão para o universo e através das quais a alma olha e recolhe os seus conhecimentos. Assim considerada, a matéria é útil e, todavia, parece ter algo de estranho, sendo preciso manipulá-la energicamente para que exprima ou receba as idéias. É preciso mesmo certo esforço para sustentar e para manter o corpo material.

As dificuldades assim encontradas fazem parte da educação da alma; o valor do caráter individual depende do bom êxito de seus esforços, da utilização de condições especiais, enfim, da sabedoria dos meios de seu emprego. O episódio, que é a vida terrena, é, pois, de grande transcendência para desenvolver o caráter, ampliar os conhecimentos, cultivar novas amizades e aumentar, de um modo geral, a riqueza da vida.


– 6 –


A sexta proposição afirma que as realidades são permanentes e não dependem dos veículos materiais que manifestam, ajudam e tornam possíveis as nossas compensações. Unidades psíquicas, encarnadas e isoladas, são munidas de órgãos sensoriais que lhes permitem comunicar-se com o resto do universo. É preciso, todavia, que nos lembremos de que os nossos sentidos especiais são muito limitados em seu alcance, que tiveram nascimento muito baixo, no reino animal, a fim de permitir ao organismo ganhar o seu sustento, escapar aos seus inimigos e evitar outros perigos ambientes. É apenas nos seres superiores que tais meios de informação são utilizados, não somente para as necessidades ordinárias, mas também para os estudos científicos e filosóficos. Sabemos, contudo, que os fatos, no homem, são apenas observados e citados como nos animais, mas, classificados e generalizados, formam o assunto de especulações de que se tiram conclusões.

A Ciência torna-se um sistema que ultrapassa, de muito, tudo o que se poderia esperar como resultado de simples vibrações e de contatos que só nos são transmitidos pelo universo material.

Falarei, no quinto capítulo, das deduções de nossos sentidos. Tudo que é preciso reconhecer, no momento, é que os nossos sentidos nos ensinam muito pouco, ou mesmo nada, diretamente do universo, em seu conjunto e em sua imensidade. Eles nos limitam à percepção da matéria. Não percebemos mesmo, na realidade, senão vibrações, senão os corpos sonoros, luminosos ou iluminados, de onde elas provêm. É por isso que a matéria desempenha papel tão vasto em nosso pensamento e certas pessoas são levadas a crer somente nelas. Eis por que nos parece tão difícil acreditar que há um universo de vida, espírito, pensamento e inspiração fora das aglomerações materiais temporariamente animadas por essas coisas que, somente elas, de qualquer forma, podem impressionar diretamente os nossos sentidos.

Quando ultrapassamos a sensação direta, somos obrigados a exercitar nossa imaginação e formar mentalmente imagens, isto é, formar o que a terminologia científica chama “modelos”, se bem que, nesse sentido, só tenha esta palavra uma significação puramente técnica. O físico imagina constantemente analogias ou modelos de experiências quando deixa o terreno positivo de suas equações. É assim que faz ou concebe imagens mentais do imperceptível, até mesmo na quarta dimensão, e é assim que segue as complicações da estrutura do átomo, o movimento dos elétrons, a natureza da radiação e tudo o que está em relação com o éter sutil do espaço, o físico pode ser incapaz de formar imagens claras e satisfatórias e durante todo o século XIX isso lhe foi até certo ponto impossível. Só no início do século XX é que ele começou a achar a chave do problema, mas, durante todo o decurso do século XIX o químico serviu-se desse método imaginativo para descobrir a composição das moléculas de quase todas as substâncias que o interessavam, com numerosos detalhes notáveis, dos quais uma parte se confirma atualmente com o progresso da Física. A distribuição de algumas manchas numa chapa fotográfica, exposta aos raios X, fala à imaginação do físico como o fariam vários volumes.

Em um nível mais elevado e mais misterioso, é o único meio que permite aos homens entrever os mistérios da religião e edificar uma teologia. A apreensão sensorial tem necessidade de ser ajudada, o que não é possível, com efeito, senão por meio de imagens. O invisível deve ser ilustrado e tornado acessível pelo que é visível.

A imaginação deve ter um ponto de percepção sensorial para ser clara e distinta. Se esse processo é levado muito longe, torna-se menos perigoso, o que incitou uma escola de pensamento a desaprová-lo. Não devemos, todavia, confundir a imagem com o ídolo. As verdadeiras imagens não são idolatria, mas visão. As imagens são essenciais para a compreensão das coisas espirituais; constituem uma espécie de incorporação, uma glorificação da natureza material e se elevam até a sua verdadeira altura na encarnação. E se a matéria se transforma durante uma encarnação in excelsis, não nos devemos espantar, porque tornar possível à alma a encarnação é a mais alta função da matéria, é a sua apoteose. Tal é a sua glória principal e a sua razão de ser, porque a alma é a forma e o modelo do corpo. O corpo é feito para encaixar e auxiliar a alma. A alma pode refletir, em seus momentos de serenidade, o próprio Deus. Presumo que é a significação de um poema escrito por um filho meu, no qual o corpo é representado como um tabernáculo da alma, que, por sua vez, é um cálice ou uma taça, cujo conteúdo, quando está calmo e sereno, pode refletir a realidade por mais afastada e brilhante que esteja:


A casa e a taça


Ó corpo, tu que és livre e bom, sê uma morada condigna para receber o espírito;

E tu, espírito, faz bela tua grande taça para receber a alma,

ó alma, sê calma, reflete a imagem clara e longínqua da Estrela da Noite.

O. W. F. L.

É pelo exercício de nosso poder de imaginação que formulamos teorias e descobrimos a verdade oculta, mesmo detrás da coisa mais ordinária. Inferimos constantemente a realidade, o substrato ou a entidade que não percebemos senão indiretamente, começando pelos fatos da eletricidade e do magnetismo. O magnetismo, por exemplo, não o conhecemos mais que pelos movimentos bizarros de certas substâncias e, todavia, todo o mundo admite a existência do campo magnético do vácuo. O desenvolvimento teórico da Ciência é imenso, nesse sentido. A luz, desde que ela existe, é também completamente independente da matéria e não deixa de existir, mesmo sem a matéria. Nada se perde na vida, tudo se transforma. As realidades são permanentes. Da mesma maneira que a luz existe e viaja durante milhares de anos no espaço, desprovida de matéria, levando consigo cada vestígio da impressão de que era objeto em sua origem, revelando os seus segredos e um espectroscópio muito afastado, no decurso de gerações vindouras, o mesmo acontece, em minha opinião, com a inteligência impressa da memória exata da vida terrena que ela conserva em seguida sob forma que pode ser decifrada por um médium possuidor de uma receptividade passiva.

– 7 –


A sétima proposição comporta a prova da sobrevivência humana – questão de uma importância capital. Mesmo admitindo-se uma espécie de persistência impessoal do espírito, pode a consciência conservar sua individualidade muito tempo após a dispersão do aglomerado de partículas que habitava, isto é, quando o organismo material é destruído, ainda que esse mesmo organismo tivesse podido ser a condição física de sua individualidade? Poderíamos imaginar, sem razão, que a personalidade depende do conjunto especial de partículas que, para nós, constituem o indivíduo e que, depois de sua dispersão, a personalidade desapareceria ou voltaria ao oceano cósmico de onde veio. Seria desarrazoado supor que ela deva deixar inteiramente de existir, mas é e tem sido razoável acreditar que o que chamamos morte é o fim do indivíduo, tal como o conhecemos. Não podemos estabelecer, só pelo raciocínio (quanto a mim, isto é impossível), a existência contínua da personalidade que se desenvolveu em associação com a matéria, quando essa matéria foi abandonada. O Sócrates de Platão fez o que pôde nesse assunto, mas a sua obra não é convincente.

Chegamos assim à pedra de toque da questão e devemos, pois, recorrer à experiência. Devemos guiar-nos por fatos resultantes da observação e estabelecer (como melhor pudermos) a sobrevivência do que podemos chamar agora de alma individual, não por meio da lógica, mas de fatos. Como?

Certas declarações curiosas, feitas por fisiologistas eminentes e por alguns médicos (que não têm tendência para o Espiritismo, antes certa repulsão) afirmam a formação ou a produção de matéria protoplásmica fora do corpo de uma pessoa em estado de transe, enfim, a observação dessa substância como a manifestação de uma inteligência temporariamente encarnada. Tal inteligência, depois de ter executado algumas ações ordinariamente feitas por contração muscular, como, por exemplo, o deslocamento de objetos, deixando talvez certa impressão na matéria plástica, abandona o tecido organizado que ocupava provisoriamente e volta provavelmente à região espiritual de onde veio, ao passo que a substância material, supostamente emprestada, retorna evidentemente à sua fonte. Não devo insistir muito em tal fenômeno; pode-se admitir que seja difícil acreditar nele.

Muitos fatos, porém, inerentes à materialização normal e à hereditariedade nos pareceriam incríveis se não nos fossem familiares, todavia a evidência da telecinesia e dessa materialização ainda um tanto comum me impressiona. Creio que esses fatos estranhos, uma vez estabelecidos, serão susceptíveis de fortalecer e de ilustrar a minha doutrina da associação temporária, com a matéria, de uma entidade que habita o éter, associação que se encontra na base de todas as encarnações.

É mesmo possível que eles surgiram como métodos para levar a vida e o espírito a entrar em relação com a matéria, de uma forma diferente daquela com a qual estamos familiarizados, mas a ocorrência mesmo dessas encarnações ou materializações, por assim dizer, anormais, dessas alterações materiais psicofísicas, é discutível e, em todo o caso, sua significação e finalidade continuam um tanto obscuras. É pouco razoável que, por esse meio ou com tal auxílio, cheguemos a fortalecer nossa convicção na sobrevivência pessoal. Para muita gente, tais fenômenos parecem fora do caminho trilhado, considera-os lúgubres e experimenta certa repugnância por eles, mas a Ciência nunca os repelirá por tais motivos.

Cito-os de passagem, porque testemunham, em todos os casos, algo de tangível e de físico, além do alcance da doutrina científica reconhecida e pode ser que, por meio dessa via de aproximação, a fortaleza científica seja flanqueada, que a curiosidade e o interesse sejam despertados e que, em seguida, portas se abram à invasão de um fluxo de conhecimentos supranormais. Tenho a esperança de que tal aconteça com o decorrer do tempo.

Deixemos de lado esta parte do assunto, como se fosse relativamente fora de propósito, e voltemos à questão. Qual o meio mais simples e mais direto para se estabelecer a persistência da personalidade individual depois da morte? Se realizável, o meio mais direto seria seguramente o de permanecermos em comunicação com os mortos para sabermos se eles sempre existem e se conservam, sem modificação, o caráter e a memória. Como, porém, pôr-nos em relação com as entidades desencarnadas, supondo-se que elas existam desde que não têm mais corpo material, nem meio algum de manifestação ou método de comunicar-se conosco, graças aos nossos sentidos? Poderá isso parecer impossível, mas os que viram a coisa de perto e que abriram os seus espíritos à evidência dos fatos, verificaram pouco a pouco que a coisa não é impossível, e a telepatia veio em seu auxílio.

Já vimos que certas pessoas não ficavam completamente ao abrigo das influências psíquicas quando os seus órgãos estavam como “fechados” e que nenhuma excitação física se aplicava no caso. Poder-se-ia “receber” algo independentemente de todo o instrumento transmissor ou receptor. Se essas influências persistiam ainda, tais pessoas poderiam receber impressões mesmo da parte de inteligências desencarnadas, pois que não seria preciso recorrer sempre aos métodos de comunicação física, no caso em que elas as tivessem ainda. Seria possível, por conseqüência, utilizar algum meio de comunicação quer etérea, quer puramente psíquica, quando os velhos corpos materiais estivessem destruídos.

Parece assim possível que uma verdadeira comunicação se possa estabelecer com os desencarnados, todavia a faculdade de receptividade não é ainda muito espalhada, só é possuída não por muitas pessoas ainda, como acontece com qualquer outra faculdade. Uns há que possuem a faculdade matemática ou simplesmente a aritmética lhes é particularmente notável, sendo tais pessoas os calculadores-prodígios. Outros já têm excelente dom musical e o conhecimento da relação entre os tons que lhes vêm naturalmente. Têm, por conseqüência, a faculdade de apreciar e produzir a sucessão e a co-existência das vibrações etéreas que podem igualmente ser apreciadas, em um grau inferior, por pessoas comuns.

Tal faculdade não é apenas resultado de educação, pois que se mostra também em crianças de pouca idade. Pessoas há em que é ela muito desenvolvida, de modo que uma reunião de cores suscitará em uns e outros uma emoção intensa: podem falar ao mundo uma linguagem de cor e de forma, linguagem somente em parte compreendida pelas pessoas comuns.

Há grande diversidade de dons, que não são resultado de desenvolvimento material e sim espiritual. Não nos espantemos, pois, quando encontrarmos pessoas dotadas de uma facilidade especial de receptividade psíquica, que lhes parece natural fora de uma educação especial.

Encontramos, em conseqüência, seres cuja faculdade receptiva ou telepática é particularmente desenvolvida. Em linguagem popular, são chamados “médiuns”, pois que é por eles e com o auxílio deles que nos é possível obter o privilégio da comunicação indireta com os desencarnados. Tal faculdade parece independer de raça, circunstância, educação, sexo e mesmo da inteligência. São homens, são mulheres, são crianças, uns instruídos, outros ignorantes, porém, a maior parte pessoas comuns e simples, que não seriam consideradas por ninguém como excepcionais.

A maneira de exercer os dons varia segundo os casos. A faculdade receptiva não é nunca contínua. Uma certa serenidade é bem necessária. A sós ou com um observador, o organismo corpóreo é posto em ação por uma inteligência que não é a própria. Dir-se-ia mesmo, em certos casos, que o operador espiritual age diretamente sobre o organismo por intermédio do respectivo aparelho cérebro neuromuscular. Em outros casos, a transmissão parece de natureza telepática. O espírito do percipiente recebe idéias que são reproduzidas pelo seu organismo fisiológico, da maneira mais simples, à qual estamos habituados, por algo misteriosa que seja a ação entre o espírito e a matéria. Desenvolverei esta idéia no capítulo V.

Resulta daí que ou bem a mão escreve ou a boca emite palavras e frases, talvez mensagens a um parente ainda na Terra, cujo significado seja inteiramente estranho ao escrevente automático, mas que representa, mais ou menos bem, a intenção da personalidade comunicante, adaptada para ser mais bem compreendida pela pessoa a quem se dirige ou a quem é destinada. Tais mensagens são muitas vezes recebidas por pessoas que perderam algum membro de sua família. É assim que elas chegam a pôr-se em relação com os seus caros mortos e a descobrir que a memória, a afeição e o caráter deles persistem sempre. A prova da identidade é fornecida e deve ser dada pelo que se pode chamar de fatos triviais, espécie de reminiscências de que se serviria naturalmente uma pessoa afastada, desejosa de estabelecer a sua identidade, digamos, pelo telefone. A prova da identidade é às vezes tão forte que o ceticismo da pessoa aflita desaparece e o consolo e a esperança lhe voltam ao coração. Pode-se supor por que as pessoas, assim aflitas, sejam particularmente aptas a crer e prontas a se agarrar a um pedaço de palha. Isto pode acontecer, mas nem sempre sucede assim; algumas vezes o desejo ardente de convicção as torna, justamente, muito céticas.

A prova, aliás, não depende apenas do testemunho daqueles que perderam os seus. A evidência da identidade foi estudada por investigadores científicos que consideraram todas as dificuldades resultantes, tais como a possibilidade de transmissão do pensamento entre vivos, o perigo da personificação e outros mais. A evidência da identidade pessoal é assim gradualmente estabelecida de um modo sério e sistemático pelo exame crítico dos pesquisadores e, sobretudo, por esforços especiais e altamente inteligentes de comunicantes do Além. Alguns deles muito se interessaram pelo assunto, quando de sua existência terrena, e parecem fazer um esforço pessoal para a exclusão de hipóteses fáceis ou engenhosas, gradualmente acumuladas e apresentadas como hipóteses de explicações possíveis.

Para mim a evidência é virtualmente completa e não tenho mais dúvida alguma sobre a existência e a sobrevivência da personalidade, do mesmo modo que não a tenho sobre a dedução de uma experiência qualquer, comum e normal. As personalidades comunicantes se apresentam mais ou menos como eram neste mundo. Elas progridem gradualmente, sem dúvida alguma, mas não perdem logo o seu contato com a Terra. Algumas estão animadas de afeição por aqueles que nela ficaram, sofrem com a dor de que padecem, compartilham das suas alegrias e desejam vivamente dar-lhes consolo e esperança, tomando parte em suas afeições, em seus interesses, dando-lhes auxílio contínuo, a certeza de reconhecimento e de esperança da reunião final. Outras são animadas de sentimento de dever que as impele a esclarecer o mundo terreno sobre a realidade da sobrevivência, a nos instruir sobre o seu meio de existência, a nos mostrar a sua simpatia e o seu poder de nos auxiliar nos negócios desta vida. Parece que elas podem, de quando em quando, prever o futuro e dar-nos conselhos, tal como fariam quando na vida terrestre. Em geral, podem fazer-nos sentir a importância da existência terrena, a responsabilidade dos nossos atos, a manutenção do nosso caráter, o valor do trabalho e da atividade no Além.

Uma vez estabelecida a sua identidade, podem conversar conosco, ainda que com alguma dificuldade e em condições especiais, não no que diz respeito à visão engrandecida de suas existências e suas possibilidades. Inútil é dizer que a sua compreensão das coisas está longe de ser completa, pois o seu saber é apenas um pouco maior do que o nosso. Há coisas que os intrigam ainda, embora já tenham encontrado a chave de alguns dos nossos problemas.

Não devemos considerá-las como oráculos ou fontes de informações infalíveis. Elas têm as suas falhas, mas tudo isso diminui com o tempo e o seu ensino apresenta, em geral, um caráter nobre e elevado. Poder-se-ia afirmar que certas inspirações nossas – os pensamentos geniais – provêm delas, que estão mais ao corrente das nossas idéias do que o suspeitamos, e parece que, de nosso lado, podemos auxiliá-las com os nossos bons pensamentos e as nossas boas ações. Não há, entre nós e o Além, nem precipício nem abismo, e sim apenas uma lacuna dos nossos sentidos: somos ainda a mesma família.

Essas inteligências venceram as dificuldades materiais, mas não mudaram de outra forma. Encaram a nossa vida terrena com coragem e esperança; formam, como se diz, um mundo de testemunhas. Aguardam uma época de reunião, um progresso contínuo e uma aquisição de condições ainda mais elevadas e melhores que, sem o homem, não seriam realizáveis.



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