Oliver Lodge Porque Creio na Imortalidade da alma



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Dificuldades e objeções


Faz-se objeção à utilização dos “médiuns” para o recebimento das mensagens. Pergunta-se por que não podemos comunicar-nos diretamente com o Além. Os que possuem faculdades mediúnicas podem fazê-lo, mas os que não as têm devem recorrer aos meios conhecidos. Quando desejamos comunicar-nos, por telegrama, com uma pessoa distante, não o fazemos diretamente, não sabemos como expedi-lo, mas nos utilizamos do serviço de operadores não interessados no caso. Utilizamo-nos constantemente do serviço de um “médium”, sem que o percebamos. Isso acontece com todos os nossos meios de comunicações. Para falar, utilizamo-nos das vibrações atmosféricas; para a visão, das vibrações etéricas e, para o tato, do instrumento habitual, que é o nosso próprio corpo. Para a comunicação com os desencarnados, somos obrigados a nos servir do mecanismo corporal de pessoas que possuam a faculdade necessária para uma comunicação de tal espécie.

Essa faculdade nos é talvez misericordiosamente recusada, a fim de que possamos ocupar-nos de nossos afazeres e de cumprirmos com nossos deveres. Um médium é uma pessoa que sacrifica parte de sua existência para correr em auxílio de seus semelhantes. Devemos ser-lhe gratos e tornar a sua tarefa mais fácil. A idéia de lhe censurar, em alguns casos, o recebimento de uma remuneração modesta, que lhe permita viver devotado ao serviço alheio, é inteiramente absurda. A suspeita geral, ao mesmo tempo que uma legislação antiquada, tornam, atualmente, sua missão bem difícil e ele padece por causa da atividade enganosa de alguns impostores que, não tendo nenhuma faculdade verdadeira, o imitam para chegar aos seus fins interesseiros. Esses desalmados infelizmente existem, mas é provável que o seu número seja bem pequeno. Um verdadeiro espírita não o fará nunca e um pesquisador experimentado pode descobri-lo logo e pôr termo à sua carreira fraudulenta. Lembremo-nos de que um mau advogado ou um médico interesseiro também exploram os seus clientes, muitas vezes de parcos recursos.

A faculdade real de comunicação é variável. Certos médiuns são mais poderosos do que outros e o poder não é uniforme em nenhum deles. É preciso usar de bom senso e de indulgência para com eles a esse respeito, bem como para com todos os outros. Se o método de comunicação fosse fácil, há muito teria sido descoberto. Não há motivo para que a demonstração científica e a prova da sobrevivência sejam fáceis. A ciência moderna começa a interessar-se por ela e o seu aperfeiçoamento será progressivo. Ela atravessa atualmente as primeiras etapas a que estão sujeitas todas as ciências. Outrora, a telegrafia sem fio era considerada impossível e já hoje é uma banalidade. Não quero dizer que o uso da telepatia ou da mediunidade tornar-se-á banal, porque temos que avir-nos aqui com forças que são bem menos compreendidas que os artifícios da telegrafia sem fio. Há apenas um século não sabíamos servir-nos da eletricidade e ela parecida e talvez pareça ainda algo misteriosa.

Negou-se a existência do éter universal, penetrando em todas as partes, apesar de sentirmos o seu contato quando nos aquecemos diante do fogo ou ao sol, e quando transmitimos diariamente mensagens por seu intermédio. Que exista um meio físico para a comunicação telepática, que o éter do espaço seja necessário para tal fim e que a nossa vida esteja constantemente associada com essa substância antes que com a matéria, eis do que estamos absolutamente certos.

Os desencarnados parecem pensar que assim é e, tanto quanto sei, têm eles razão. Justo é, pois, que prossigamos em nossas próprias investigações para resolver todas as questões científicas, não aceitando as opiniões do Além, ainda que aparentemente bem fundadas, senão depois da devida verificação. Relativamente a essa questão e a muitas outras também obscuras, poderemos adquirir mais conhecimentos e estaremos em boa posição de formular melhor teoria se progredirmos gradualmente, seguindo as pegadas do método científico, que já se mostrou tão fértil. Para citar ainda Fredrich Myers:

“A Ciência é uma linguagem comum de toda a humanidade. Ela pode dizer se é mal compreendida e retificar as suas afirmativas, se estiver errada. A humanidade ainda não verificou que, seguidos com inteligência e sinceridade, os métodos da Ciência não têm, afinal de contas, induzido ao erro.”


Capítulo III
A pesquisa psíquica


“Quando o pioneiro, experimentado e combatido por forças opostas, tiver, enfim, estabelecido a sua afirmativa na opinião geral, então a Autoridade inclinar-se-á perante ele e abrir-lhe-á as portas. Aquilo considerado outrora herético, passará tranqüilamente para os arquivos da Ortodoxia.” Hubbert Journal de janeiro de 1928 (artigo sobre as opiniões do Barão von Hugel a respeito de certas questões eclesiásticas).

“Se o nosso inquérito nos conduzir primeiramente através do espantalho da fraude e da loucura, haverá motivo para alarmar-nos? Cristóvão Colombo teria assim cedido ao pânico dos seus marinheiros quando se viu embaraçado no Mar de Sargaços. Se os primeiros fatos claramente estabelecidos a respeito do mundo invisível nos parecem ínfimos e comuns, deve isto desviar-nos de nossas pesquisas? Colombo teria retomado o caminho para a Espanha quando a América ainda estava bem longe, sob o pretexto de que a descoberta de um continente, que só se manifestava por meio de troncos de árvores flutuantes, não valia a pela.” (Fredrich Myers, em Human Personality, II, pág. 306).

A história da ciência é, sem dúvida alguma, o quadro de resultados interessantes, mas é também o registro da oposição e da obstrução conservadoras. As teorias, ao contrário, dominam o mundo e as hipóteses novas são mal acolhidas. Os defensores da verdade têm sempre apanhado a luva da crítica hostil e alguns tiveram ocasião de escapar à perseguição. Os anatomistas foram obrigados a prosseguir nos seus estudos em segredo. A circulação do sangue foi acolhida com desdém. As descobertas telescópicas de Galileu tiveram adversários e certos sábios recusaram a olhar em seus instrumentos, pois, por suas idéias, as aparências enganavam. Assim, não só teorias mas também fatos têm sido repelidos ou desdenhados. Roger Bacon foi acusado de magia e superstição. Uma reprovação unânime tem acompanhado quase todas as descobertas. Basta recordar que, em nossos dias, as primeiras demonstrações de Joule sobre a conservação da energia foram repelidas e que a primeira comunicação feita à Royal Society, a respeito da teoria cinética, também foi rejeitada. Não podemos mesmo dizer que a descoberta do argônio, gás quimicamente inerte, tenha sido acolhida com entusiasmo pelos químicos. Nada, pois, de espantar que as investigações de Sir William Crookes, sobre os fenômenos psíquicos, tenham sido mal recebidas, desprezadas e deixadas completamente fora do domínio científico. Não foram admitidas por muitos até hoje e o ceticismo aí encontra certamente alguma culpa, considerando-se que tais experiências tiveram um caráter que pareceria absolutamente incrível. Todavia, ele persistiu em algumas experiências simples e mecânicas, mostrando quer uma modificação aparente no peso dos corpos, quer a existência de uma força misteriosa, e esperava, ainda assim, poder persuadir os membros da Royal Society a investigá-la, nada, porém, conseguindo, visto que recusavam, sistematicamente, verificar o que lhes parecia uma impossibilidade.

Ainda que isto se nos afigure talvez um pouco difícil na época atual, é sem dúvida instrutivo compreender que o método experimental e o método do livre exame dos fenômenos não têm numerosos séculos no seu ativo. Ele foi sustentado por Francis Bacon, Lord Verulam e, quando posto em prática por Galileu, consideraram-no uma novidade quase ímpia. Os resultados obtidos estavam muitas vezes em contradição com antigos ensinos, que tinham a autoridade de séculos, ou mesmo de milênios, a seu favor. Tais oposições, sem dúvida, vinham não somente dos filósofos aristotelianos, mas também eclesiásticos, que se baseavam em velhas escrituras sacras, com as quais pareciam estar em contradição os fatos da Astronomia e da Geologia. A oposição clerical à Geologia continua quase até aos nossos dias.

Apesar disto, a obstinação dos homens da Ciência já ganhou a luta pela livre exploração da natureza em quase todos os terrenos, mesmo em detrimento de antigas doutrinas e sem levar em conta as contingências. Nas ciências químicas, físicas e biológicas o método experimental ganhou, finalmente, o favor geral, à parte alguns dissidentes.

A oposição racional formula ainda hoje, principalmente, pontos de vista teóricos que podem ser legitimamente postos em debate, ao passo que os fatos são, na maior parte, aceitos ou pelo menos cuidadosamente examinados e estudados por quase todo o corpo científico. Assim, fatos verdadeiros são separados de falsos e todas as hipóteses de trabalho são toleradas como um esforço razoável para compreendê-los. Poder-se-ia dizer que atualmente nada existe, nas doutrinas estabelecidas sobre as ciências mecânicas, físicas ou químicas, que se possa considerar muito sagrada ou absolutamente certa, de modo a evitar a sua reconsideração, melhoria ou reforma. Poder-se-ia afirmar que a tolerância atual em admitir teorias revolucionárias, como as do “Quanta” e da “Relatividade”, é levada ao extremo, porque tais hipóteses são formuladas livremente, sem a mínima prova, e admitida como um passo preliminar para um conhecimento futuro mais amplo e mais elevado, embora às vezes vão temporariamente de encontro aos nossos conhecimentos adquiridos e às nossas predileções, baseados no que pensamos.

Não obstante tudo isso seja verdade no que se refere à maior parte das ciências conhecidas, é digna de nota que a que chamamos de “Ciência Psíquica” não tenha ainda ganho o seu inteiro direito à liberdade total. Nesta ciência, o método experimental ainda está sob uma nuvem de suspeita e aversão. Fatos são afirmados por investigadores competentes, embora nenhuma sociedade ortodoxa se digne de conceder-lhes atenção, por parecerem estar eles em contradição com a estrutura geral do universo, tal como é por nós conhecida e, por conseqüência, ultrapassarem os seus limites. O momento, porém, chegará, por certo, em que a oposição será vencida pelo valor das provas e pela renovação contínua dos próprios fatos, sem falar da ação de pesquisadores que se sacrificaram em produzi-los.

O método experimental desta ciência, que o professor Charles Richet denominou “Metapsíquica”, isto é, ramo anormal e raro da Psicologia, está em prova. Ele caminha lentamente, arcando com as dificuldades causadas pela desaprovação quase geral e pela tendência em perseguir os “instrumentos humanos”, os únicos que permitem se façam tais experiências, graças às quais é possível adquirir conhecimentos sobre o assunto.

É preciso suportar tal estado de coisas algum tempo ainda, porque é falso admitir que os fatos sejam surpreendentes. Estudados em condições pouco comuns, são, por isto, cercados de uma atmosfera de lenda, de superstição e de fraude. Muitos desses fatos, indo ao encontro das esperanças e aspirações da humanidade, contribuem para o seu consolo e despertam a fé religiosa. Sentimos intuitivamente, por isto mesmo, que devam ser criticados e examinados, com meticuloso cuidado. É necessário fazer certo esforço para considerá-los com o sangue-frio e o espírito crítico que são peculiares ao método científico.

Tais fenômenos têm sido registrados em toda a existência humana sob uma forma ou outra, abundando na história religiosa da Antigüidade. É também observado nas práticas religiosas de raças não civilizadas. Parecem, de qualquer forma, estranhos ao estado atual de nossa civilização e não podem ser aceitos facilmente pelos observadores modernos, científicos e práticos. Tudo isso, porém, só servirá para demonstrar-lhes a imensa importância, pois a sua variedade é muito grande. Tais fatos não são apenas intelectuais, mas também físicos e fisiológicos e, logo que a sua autenticidade seja provada, como vem sendo, isto significará o início de mais um novo capítulo da história dos conhecimentos humanos.

Recapitulemos brevemente alguns pontos em que parece que há desacordo com a tendência geral da explicação mecânica e material, tão frutuosa e vitoriosa depois de Newton. Preciso é insistir antes sobre o fato de que não se substitui, nem se nega, de forma alguma, a explicação mecânica e sim a suplementam como todos os fenômenos vitais, pois nos convidam claramente a ir mais longe e a admitir que a máquina fisiológica não é, de maneira alguma, a última palavra do problema. A explicação mecânica é incompleta se não se admitir alguma coisa mais. Os fatos implicam a admissão de que a vida e o espírito são realidades fora da matéria e dos processos materiais. São eles, no entanto, capazes de agir sobre esses últimos na qualidade de guia, em perfeito acordo com as leis da energia, a fim de obter resultados que pela natureza inorgânica somente não seriam nunca produzidos.

O cérebro torna-se órgão ou instrumento do espírito e não é o próprio espírito. O organismo, quer seja uma célula protoplásmica ou uma aglomeração de células semelhantes, é animado por uma entidade desconhecida que se chama Vida. É esta que se utiliza da matéria e da energia para os seus próprios fins. As operações mecânicas podem ser seguidas em cada domínio do metabolismo, as fases do crescimento de um organismo e de suas diversas partes podem ser estudadas em detalhe, mas a ação espontânea de um organismo não pode explicar-se somente segundo os termos da atividade molecular. Demais, essas entidades superiores, a que chamamos vida e espírito, parecem possuir faculdades de um caráter que, até aqui inexplorado e desconhecido, ultrapassam as leis atuais, estudadas nos diversos ramos da Biologia e da Psicologia.

Certos fatos parecem demonstrar que a atividade do espírito não se limita ao funcionamento do seu órgão corporal, mas que pode operar sem o auxílio de um instrumento material qualquer, ainda que se admita que um aparelho material seja necessário para indicar o resultado de tais operações. A razão disto reside provavelmente em que somos embaraçados em nossas percepções pela limitação dos órgãos de nossos sentidos – órgãos que partilhamos com os animais – que não nos instruem diretamente senão sobre a matéria e que não evoluíram senão para fins bem afastados da pesquisa científica e filosófica.

Verdade é que acrescentamos aos nossos órgãos fisiológicos vários instrumentos, mas esses são também de natureza material e mecânica, pelo menos se admitirmos a eletricidade como parte do universo material. De modo exato, porém, a eletricidade, o magnetismo e a luz, a coesão e a gravitação, ainda que percebidos por intermédio da matéria, são, em um sentido lato, de natureza física mais do que material, no sentido comum desta palavra. Parece-me que se levarmos em conta o éter, podemos esperar descobrir a chave da atividade dessas entidades sobre a matéria. A vida e o espírito, segundo toda probabilidade, têm uma ligação mais real e mais permanente com o éter do que com as partículas materiais dissolvidas nele. É, no momento, uma simples hipótese de trabalho sobre a qual não é preciso insistirmos muito, porém aqueles que estão compenetrados da necessidade de um apoio físico para a atividade mental ou para qualquer outra não ficam obrigados a abandonar, prematuramente, a sua crença, mas podem ter a esperança de que uma explicação, até aqui desconhecida, da vida e do espírito, seja descoberta para uma compreensão mais justa da estrutura, das propriedades e das funções do éter do espaço.

Deixando tudo isto como matéria especulativa, quais são os fatos experimentais bastante aprofundados que devemos tomar para formar uma opinião a respeito? É primeiramente a telepatia, isto é, a comunicação de informações, de idéias ou mesmo de sensações entre dois espíritos, fora dos meios ordinários da comunicação corpórea. A faculdade de recepção telepática não é muito espalhada entre os povos civilizados, que têm usado mais de outras faculdades. É possível que a palavra e a escrita tenham tornado a telepatia inútil, de modo que essa faculdade ficou parcialmente atrofiada ou se tornou talvez gérmen de uma faculdade latente, que não atingirá o seu completo desenvolvimento senão depois do abandono do organismo corporal, porque esse parece isolar-nos individualmente e estorvar-nos na receptividade dos pensamentos a não ser pelos meios conhecidos da audição, da visão e do tato.

A experiência tem demonstrado que, em certas pessoas, a transmissão de idéias é possível por meios desconhecidos. A idéia transmitida pode ser noção de um objeto, uma dor localizada, uma impressão de doença ou morte. Esta última não entra, todavia, nas categorias da experiência; vem, antes, como uma impressão espontânea aparentemente independente da distância. É, às vezes, bastante forte para provocar uma imagem, a que se dá o nome de alucinação ou visão ou mesmo uma audição, da parte da pessoa afastada, muito desejosa de vê-las. A possibilidade de tais exemplos, às vezes patéticos, tem sido justificada pela transmissão experimental do pensamento, onde a idéia transmitida é de um caráter muito banal e determinada somente pelo investigador encarregado da experiência.

As condições gerais das experiências telepáticas desse gênero devem ser hoje bem conhecidas e é inteiramente provável que, se mais experiências forem tentadas com cuidado, descobrir-se-ão sinais de faculdade receptiva em muita gente.

Tais fenômenos têm, sem dúvida, as suas leis próprias e está em nós descobrir as condições de êxito do processo e todo o experimentador sabe que o insucesso não deve desencorajá-lo.

Supondo-se que a existência da telepatia seja definitivamente estabelecida, qual seria a sua importância? Sua importância principal parece residir na demonstração de que a atividade mental não é limitada aos órgãos corporais e aos instrumentos que a transmitem regularmente ou, em outros termos, que o espírito é independente do corpo e que não somos obrigados a supor que o espírito deixa de existir quando o seu instrumento é destruído. Com efeito, seria um passo, mas um primeiro passo apenas, para a demonstração da sobrevivência.

Os pesquisadores, porém, já foram mais longe. Afirmam, com efeito, e eu também o afirmo, que é possível pôr-nos em comunicação telepática com aqueles que sobreviveram à morte do corpo. O espírito, o caráter e a personalidade deles persistem e, ainda que não possam fazer uma impressão direta sobre os órgãos de nossos sentidos, todavia, impelidos pela afeição ou por outra causa qualquer, são capazes, de vez em quando, de utilizar um instrumento fisiológico – o mecanismo cérebro neuromuscular pertencente a uma pessoa viva, dotada de faculdade receptiva ou telepática – de modo que podem transmitir mensagens aos que deixaram na Terra. Destarte, muitas vezes usam de meios especiais para provarem suas identidades e a continuidade das suas existências.

Tudo isto não é fácil de dizer-se, porque não é uma coisa que se diga levianamente. Falo sob o peso de um grande conjunto de provas hoje conhecidas por mim e outras pessoas mais. Ou ela é verdadeira ou é falsa. Se é verdadeira, difícil é encobrir a sua formidável importância. É preciso longa e cuidadosamente examinar-se o assunto, pois a esperança e o futuro da humanidade dependem dela.

Tais experiências têm sido ignoradas pela ciência ortodoxa até os nossos dias. O mundo científico e o mundo religioso zombam, um e outro, das experiências sobre essas coisas. os instrumentos humanos, isto é, os médiuns, com o auxílio dos quais fazemos as experiências, continuam expostos a certas perseguições legais no momento. A Ciência ainda não conquistou a sua liberdade. Existem ainda ramos impopulares de pesquisas, assuntos sobre os quais nos é interdito falar: é preciso afrontar o ridículo. Os tempos, porém, se modificam gradualmente e o horizonte se aclara também, pois já está mais claro do que no tempo de minha mocidade quando então se repelia, como eu também o fiz, tudo isto como simples superstição. Espero ver, em futuro próximo, alguns membros mais jovens da elite científica, não somente físicos, mas biólogos, abrirem o seu espírito a possibilidades insuspeitadas e, com o decorrer do tempo, construírem um edifício suntuoso sobre as apalpadelas, as hesitações e as asserções incríveis do passado.

Esses fenômenos mentais, porém, que parecem grupar-se em torno da telepatia e estabelecer a sobrevivência, não são, de forma alguma, os únicos que os investigadores têm descoberto e sustentado. São, de alguma sorte, os mais interessantes, ainda que os menos tangíveis e os menos materiais dos fenômenos. Pretende-se, às vezes, que a telepatia, isto é, a ação do espírito sobre o espírito, existe, mas que existe também a telergia ou ação do espírito sobre o corpo e sobre o cérebro.

Que o espírito aja sobre o corpo é um fato bem conhecido, mas habitualmente se trata do próprio corpo. Em casos extraordinários, trata-se de um espírito estranho, agindo temporariamente sobre o mecanismo fisiológico de um dono que lhe cedeu temporariamente o aparelho. É provável que os fenômenos hipnóticos sejam produzidos por uma transmissão mental comum, mas o espírito subconsciente pode agir, de forma bizarra, sobre um corpo, segundo testemunho médico, produzindo estigmas e outras marcas, e intervir, de maneira incompreensível, no processo vital.

Afirma-se que isso pode igualmente produzir-se a distância e que as células de um cérebro, em seguida a um esforço especial, podem ser estimuladas por um espírito desencarnado, não habitualmente associado com o cérebro individual. É assim que a escrita ou a palavra automática se produz com relação a coisas desconhecidas pela personalidade normal. Enfim, afirma-se que, em condições especiais e na presença de um organismo em relação com elas, coisas inorgânicas podem ser movidas, pesos levantados, objetos transportados e outras ações executadas, as quais, embora fáceis de se executarem pela ação dos músculos, podem aparente e excepcionalmente fazer-se de outra forma.

Esses fenômenos bizarros foram, no continente europeu, estudados principalmente por pesquisadores cuja educação médica lhes permitiu tomassem todas as precauções capazes de garantir a autenticidade deles.

A hipótese de trabalho é que os objetos são movidos por uma espécie de emanação chamada “ectoplasma”, que sai do corpo do médium, porção do organismo exteriorizada temporariamente e que, tendo atingido o seu fim, volta ao corpo de onde emanou.

Alguns desses fenômenos podem parecer de aspecto repulsivo, porém, da mesma forma, merecem ser estudados pelos homens de Ciência. Pertencem à Biologia e talvez à Patologia, assunto sobre os quais tenho o hábito de calar-me. Pretende-se que, por meio dessa substância bizarra, verdadeiras materializações podem ser produzidas, mostrando formas que existiam antes somente no éter. Sustenta-se igualmente que, da mesma maneira que somos encarnações ou materializações associadas com a matéria, durante pouco menos de um século, essas coisas são formações ou materializações que só se mostram durante limitado tempo, para desaparecerem em seguida, sendo, nesse ínterim, vistas, tocadas e fotografadas. É de espantar que a Ciência faça ouvido surdo e fique cega diante desses fenômenos fantásticos tão perturbadores e às vezes tão penosos de se produzirem e tão difíceis de serem estudados, mas não é o caso de se espantar.

Todo fato novo pode, de início, parecer estranho, mas a prova é forte e aqueles que possuem competência para estudar tais coisas incorrem em falta, repelindo-o logo. Parece que elas não têm lugar no conjunto das ciências conhecidas. Quanto a mim, porém, nada direi no momento a seu respeito, porque os meus primeiros conhecimentos são comparativamente limitados em um domínio tão amplo. Tenho, porém, visto muitos deles para poder confirmar que a telecinesia, isto é, o deslocamento de objetos sem contato aparente, se produz realmente e a minha experiência me faz encarar, com interesse, a afirmativa dos fisiologistas e anatomistas que têm atestado a autenticidade dos fenômenos de materialização.

A emissão de matéria ectoplásmica fora de um corpo pode parecer, a princípio, um caso de investigação desagradável, mas é preciso nos lembremos de que os nossos próprios órgãos internos não são especialmente atraentes, embora úteis e interessantes aos que os estudam. Ectoplasma é nome dado a uma espécie de matéria celular organizada, que se diz emanada, temporariamente e com propriedades extraordinárias e inexplicáveis, de certas pessoas. Tal substância se molda, toma forma de rostos e mãos, como se fosse guiada por uma inteligência subconsciente, para executar, fora do corpo, as mesmas funções que habitualmente cumprem no interior deles. O fenômeno é devido, provavelmente, à atividade normal do corpo nos diversos órgãos destinados à manifestação. Não é o próprio sustento, mas o princípio formativo que determina o crescimento de uma unha ou de um cabelo ou de qualquer outra parte do corpo. Com efeito, com o auxílio da placenta, um óvulo fecundado é capaz de formar um organismo novo completo e separado, coisa que em si mesma poderia ser considerada como bastante extraordinária.

O fato de que esse princípio formativo seja capaz de agir fora do corpo, como faz normalmente no seu interior, é crível e, no entanto, a ciência ortodoxa ainda não o admite. Quanto à questão de saber se um fato é ou não líquido, o que cumpre é resolvê-lo, não por teoria ou preconceitos, mas pelas observações e pelas experiências. Os que fazem tais experiências já devem possuir certos conhecimentos biológicos e anatômicos, pois o caso é puramente científico. Se for resolvido afirmativamente, alargará os nossos conhecimentos sobre as relações entre a matéria e o espírito, sem qualquer relação com a sobrevivência ou outros problemas que interessam a quase todo o mundo.

É preciso admitir-se, ao mesmo tempo, que todo fato, desde que seja verdadeiramente um fato, possui certa importância em si. Já uma autoridade competente afirmou que na natureza nada se deve considerar ordinário ou vil.

Existe ainda um grupo de fenômenos que são superficialmente menos desagradáveis do que esse último, como a clarividência e a lucidez, isto é, a percepção de acontecimentos sucedidos a distância, a leitura de cartas lacradas ou de livros fechados, a descoberta de objetos ocultos ou de cursos d’água subterrâneos. A prova de que certas pessoas possuem tal faculdade se confirma dia a dia. Alguns desses fatos não parecem explicar-se pela telepatia ou pela leitura do pensamento. Deve-se levar a hipótese telepática até ao seu extremo limite, antes de admitir-se qualquer outra. Desejamos ter o menor número possível de hipóteses. Considerando que tudo que está escrito ou impresso deve encontrar-se no espírito de alguém, em um dado momento, devemos abster-nos de supor que tais textos sejam lidos de forma supranormal, isto é, de um modo com o qual não estejamos habituados e do qual não possuímos o menor indício. Já é bem extraordinário que sinais negros no papel possam ter para nós um significado e ainda que estejamos habituados a este método de estimular as idéias e as percepções das coisas, seria temerário supor que se tenham esgotado todas as possibilidades de leitura desses traços, em face de prova contrária.

Parece existir, com efeito, uma ação recíproca entre o espírito e a matéria. Podemos moldar a matéria com os nossos pensamentos, a nossa vontade, a nossa intenção, e produzir, assim, não somente a escrita e a palavra, mas também grandes coisas, como pontes e catedrais, que não existiam antes senão na mente humana. E as combinações materiais assim obtidas, digamos, as obras de arte, são susceptíveis de evocar nos espíritos dos que existirem mais tarde algo lembrando a emoção experimentada pelo gênio inventor. Tal é o princípio total das obras de arte, tal o acúmulo de inteligência e de emoção latentes.

Fica a questão de saber se outras combinações da matéria podem impressionar os nossos sentidos, de modo menos determinado. As impressões mentais já podem ser registradas na matéria por meio de instrumentos como os discos de músicas e as chapas fotográficas. Pessoas há que pensam que uma emoção viva pode igualmente ser registrada inconscientemente na matéria, de sorte que um quarto, em que uma tragédia aconteceu, pode influenciar a geração seguinte ou qualquer outra pessoa bem sensível. Espera-se que um dia, por esse meio, a influência estranha de certos lugares seja explicada de modo racional e, assim, o perturbador fenômeno, conhecido sob o nome popular de “assombração”, desapareça como superstição e entre para o domínio dos fatos.

De acordo com muitos relatórios existentes, as faculdades do subconsciente, tais como se mostram nas diversas espécies de clarividência e na lucidez, o que o professor Richet denominou “criptestesia”, ultrapassam os limites ordinários do espaço, de modo que a distância e a opacidade não são obstáculos a essa percepção ultranormal.

Alguns outros fatos, que gradualmente venceram o ceticismo daqueles que os estudaram e levaram os pesquisadores a pensar que as limitações do tempo podem vagamente ser vencidas, não só quanto a longínquo passado, mas também quanto a certo ponto do futuro, têm sido observados.

Essa questão das premonições e do pré-conhecimento é de uma dificuldade excepcional. Até que ponto é o futuro precisamente determinado para que se torne possível a percepção do que verossimilmente possa acontecer? Trata-se de uma questão que diz com problema relativo à natureza do tempo e que não podemos resolver no presente momento.

Sabemos que a predição é possível no que diz respeito ao mundo inorgânico, particularmente pelos movimentos estudados pela Astronomia e é permitido supor-se que um conhecimento mais amplo, digamos movimentos moleculares e da estrutura da matéria, nos permitiria prever essas mudanças catastróficas a que chamamos comumente acidentes e antecipar, assim, os desastres e as convulsões da natureza, antes de qualquer indicação normal.

Pode-se admitir que o universo seja uma conseqüência da lei de causa e efeito e que um conhecimento mais completo das condições atuais poderia permitir-nos deduzir a emergência futura do que se prepara. Não possuímos ainda tais dados, mas, se há inteligências superiores no universo – seria absurdo supormos que somos as mais elevadas inteligências existentes – podem elas possuir meios de informações de que não dispomos e a nós comunicar por meio dos médiuns.

Tais especulações nos levam bem mais longe dos atuais limites das ciências conhecidas, por isso devemos caminhar nesse terreno com toda a prudência. Descobriremos, pouco a pouco, que não estamos tão isolados no universo como pensamos e que nos achamos cercados de inteligências sobre as quais pouco sabemos e ainda que não estão sendo senão direta e ocasionalmente associadas com a matéria.

Espero que um estudo do assunto, contínuo, prudente e cuidadoso, nos conduza bem mais longe de nossos presentes conhecimentos sobre as coisas, guiando-nos para regiões de que não temos, no momento, senão noções vagas e estranhas.

A Ciência está apenas no começo. Talvez não tenha ela mesmo começado a descobrir a realidade desse mundo espiritual que durante certo tempo exerceu sua influência sobre os poetas, os santos e os místicos, mundo que tem sido a fonte de inspiração, o tema da teologia e a eterna forma animadora da religião.



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