Oliver Lodge Raymond



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Capítulo XVIII
O caso “Honolulu”


Sobrevieram muitos incidentes que podem ser relatados, alguns bastante característicos, outros equivalentes a bons testes. O que vou publicar é na realidade de valor.

Sessões simultâneas em Londres e em Edgbaston


Lionel e Norah foram a Londres a 26 de maio e conseguiram uma sessão de Mrs. Leonard, entre 11:55 e 1:30 da tarde.

Mais ou menos a essa hora ocorreu a Alec, que estava em Birmingham, a lembrança de fazer um teste de correspondência psíquica. Deixando o escritório, foi de auto em procura das irmãs, no Lady Mayress’s Depôt, onde estavam trabalhando em gazes cirúrgicas, e levou-as a Mariemont para uma rápida sessão de mesinha. Essa sessão durou dez minutos, das 12:10 às 12:20 da tarde. O teste consistia em chamar Raymond e pedir-lhe que se comunicasse com Feda em Londres a propósito da palavra “Honolulu”. Todos acharam ótima a idéia.

O relato dessa breve sessão Alec enviou-me em carta que recebi na mesma tarde – e foi por essa carta que vim a saber da experiência. O carimbo do envelope marcava: “I p. m. 26 May 16”. Ei-la:

Mariemont, sexta-feira, 28, maio, 12:29 da tarde.

“Honor, Rosalynde e Alec em sessão de mesinha. Sabem que Lionel e Norah estão em sessão com Feda em Londres. Sugerimos a Raymond que saúde Norah e Lionel e induza Feda a anunciar a palavra “Honolulu”. Lionel e Norah nada sabem disso, que foi coisa improvisada por Alec depois das 12 de hoje.



(Assinado) Alec M. Lodge
Honor G. Lodge
Rosalynde V. Lodge

Uma nota a lápis: “Posto no correio às 12:43; e a tinta: Recebida por mim às 7 da noite. Aberta, lida e classificada imediatamente. O. L.”

Os da sessão em Londres nada sabiam da sessão em Mariemont; e coisa nenhuma lhes foi comunicada no momento, ou depois. Nada observando de estranho na sessão, deixaram de escrever imediatamente o relato, o que fizeram uma semana depois do regresso.

As notas então tomadas foram-me transmitidas para que eu as lesse em família. Ao fazê-lo encontrei quase no fim a referência à palavra “Honolulu”. O pedido de música pareceu intencional da parte de Raymond a fim de que Feda voltasse a anunciar aquela palavra sem nexo ou significação; e o momento em que isso se deu foi entre 1:10 ou 1:15. Mais nada de interesse foi observado no momento.

Eis as notas da sessão de Londres:

Sessão de Lionel e Norah com Mrs. Leonard, em
Londres, sexta-feira, 26 de maio, 11:55 da manhã


Extrato das anotações feitas por Lionel Lodge:

Depois de referir-se à irmã casada de Raymond e ao seu esposo. Feda disse subitamente: Como vai Alec?



Lionel – Muito bem.

Feda – Reymond queria saber como ele estava e recomenda-se.

Ele nem sempre percebe quem está na mesa; a uns percebe melhor que a outros.

Sentem-se calmamente uma ou duas vezes por semana, dêem-se as mãos, a direita sobre a esquerda e fiquem assim por dez minutos – com paciência. Ele pode esperar até o dia de juízo.

Diz ele: “Esperem e vejam”. Está rindo!

Viu Curly.

L. L. – Curly está aí agora?

Feda – Não; mas vemo-la quando queremos. É uma que se agita e vai... (aqui Feda produz um som de cão que ofega com a língua de fora – uma boa imitação).

(Para Norah) Quer tocar?



Norah – Tocar o quê?

Feda – Música.

Norah – Receio não poder, Raymond.

Feda – (a meia voz) Ela pode sim.

Ele quer saber se você pode tocar Hulu – Honolulu.

Então, não quer experimentar? Ele está rolando de tanto rir.

Diz qualquer coisa sobre um iate; refere-se ao teste da tenda e do iate. Os Argonautas!

Raymond retira-se. Saudades a todos de Mariemont.

A sessão prosseguiu ainda por pouco tempo e terminou à 1:30, mas esta anotação pode parar aqui.


Nota sobre o caso “Honolulu”, por O. L.


Tenho de insistir sobre o caso “Honolulu”:

1) porque valoriza as sessões em família;

2) porque elimina qualquer hipótese de colusão, consciente ou inconsciente, e

3) porque, no conjunto, forma um teste excepcionalmente valioso.

A telepatia não está de todo excluída. As circunstâncias podem sugerir essa explicação, isto é, uma variedade do que freqüentemente denominamos telepatia, ou seja, comunicação mental entre agente e percipiente. Porque em Edgbaston estava um grupo de três pessoas sentadas à mesinha e pensando por alguns segundos na palavra “Honolulu”; e em Londres estavam duas diante duma médium observando o que vinha. E na anotação feita surge a palavra “Honolulu”. Telepatia, entretanto, seja de que tipo for, não constitui explicação normal; e atrevo-me a dizer que não há do caso nenhuma explicação normal, posta do lado hipótese de coincidência. O convite à música foi forçado ao comunicador, de modo a provocar a palavra “Honolulu”; não ocorreu naturalmente; e ainda que o assunto música houvesse surgido naturalmente, não havia razão para nenhuma especial referência àquela cantiga. O principal que noto no caso é o valor das sessões familiares sem médium, ocasionalmente realizadas em Mariemont. Por meio delas é que Raymond se conservava membro da família, como antes.

Nota de O. L. em conclusão da parte 11 em 1916


O número de provas, mais ou menos convincentes, que até aqui obtivemos é muito grande. Algumas se apresentam de mais força a uns do que a outros; mas tomadas em conjunto parecem, à família, limpas de todas as dúvidas e suspeitas. E cumpre ainda dizer que em parte graças à atividade de Raymond, certa soma de socorro foi dada a outras famílias.

Uma breve seleção de muitos incidentes posteriores vai agora ser publicada como exemplo do que houve depois que a primeira edição deste livro apareceu.


Capítulo XIX
Seleção das mais recentes ocorrências


Depois das primeiras edições desta obra, muitas outras conversas foram naturalmente obtidas, fornecendo matéria para outro volume ainda maior que o primeiro. Acho, porém, que bastará mencionar nesta tiragem uns poucos casos novos, que serão bem recebidos pelos que já assimilaram os fatos principais e sentem interesse por mais detalhes. Começo com as sessões em que pela primeira vez Feda atuou em Mariemont.

Este livro entrou para o prelo em junho de 1916, saindo em novembro desse ano. E como, do ponto de vista da evidência, já não havia nenhuma vantagem em continuarmos tratando Mrs. Leonard como desconhecida, convidamo-la a vir passar uns dias conosco em Mariemont. Seria interessante observar a ação de Feda em nosso ambiente caseiro. Mrs. Leonard chegou a Mariemont a 15 de julho de 1916 e nesse mesmo dia, à noite, suas faculdades de clarividência se revelaram.


Primeira noite de Mrs. Leonard
em Mariemont, sábado, 15 de julho de 1916


Mrs. Leonard foi acomodada no quarto branco. A noite ouviu pancadas no guarda-roupa; abrindo os olhos notou no recinto uma luz esverdeada. Sentiu-se enrijecida e quase em estado cataléptico; mas esforçou-se por mover o braço e fazer o sinal da cruz sobre o peito, coisa que na sua idéia afasta os perigos. A sensação era de que só podia mover os olhos, não a cabeça, o que lhe limitava o alcance da visão. Ouviu uma voz dizer “Raymond”, e imediatamente divisou uma figura em roupagem cinzenta. Percebeu quem era. Raymond estava medindo passos pelo aposento. Mrs. Leonard pensou lá consigo: “Estou realmente desperta” e ouviu o som da pesada chuva que caía, o que a confirmou na idéia de não estar sonhando. Também conta que Raymond muito se parecia com o retrato da biblioteca, à paisana.

Nas seguintes noites passadas em Mariemont (domingo e segunda) novamente ouviu pancadas no guarda-roupa, tão fortes na de domingo que lhe pareceu que iriam quebrá-lo; e pancadas que tiveram começo logo que ela se deitou.

Nenhuma experiência foi tentada no dia da sua vinda, mas na noite de sábado, todos da família se reuniram no salão para fazer música; a mesinha foi posta em movimento como de costume, e mostrou-se muito mais impetuosa quando Mrs. Leonard lhe apôs as mãos. A indicação foi imediata: Raymond preferia uma conversa, porque “podia agora falar e ver mais claramente”. A mesa começou uma frase que não pôde concluir: “É um dia especial, ele havia voltado de...”

Justamente um ano antes, a 16 de julho, havia ele estado ali pela última vez, em gozo de uma folga rápida, que desejou intensamente.

Apesar do concurso da médium, a mesinha breve estacionou. Afastamo-la e Mrs. Leonard preparou-se para o transe. Apareceu Feda. Disse primeiramente que Ronn (o Tenente Ronald Case) e diversos outros amigos de Raymond estavam presentes, e que tínhamos de cantar para eles. Pediram Honolulu, The Orange Complexioned Lady, Irish Eyes e coisas assim. Em conseqüência, numa sessão posterior, quarta-feira, essas canções foram cantadas, e ainda o Gipsy Love, Mélisande e música sentimental dos índios – os chamados Temple Songs. Feda mostrava grande predileção por esse gênero, ao passo que parecia sofrer com os ragtimes. A tristeza de Mélisande não a afetou; disse que não se “doía de ver gente triste, se era uma tristeza bela”.

Mas voltando à sessão de domingo: depois de alguma conversa Raymond declarou que em outra sessão queria ver-nos a todos no sótão. “Todos irão para lá. Ele gosta do sótão, não do terraço, ele não se refere ao terraço, sim a um lugar mais interessante” – e Feda continuou:

Há alguma coisa em relação a um quadro no sótão. Um quadro que não está na parede. Ele procura mostrar qualquer coisa que lembra uma comprida vara (e Feda faz um gesto vago).

[Havia um quadro sem valor que figurava em casa de sua avó, em Newcastle-under-Lyme, representando uma rapariga de capote e chapéu, enfiando um bilhete num oco de árvore por meio duma vara comprida.

Lady Lodge o tinha deixado em Newcastle para ser vendido com outras inutilidades, mas o quadro veio parar em Mariemont. Dizem os rapazes que Raymond o adquirira em New Street, Birmingham, por 5 xelins e o havia pendurado na parede do dormitório. Lady Lodge, que ignorava isso, fora ao dormitório no dia seguinte ao da partida de Raymond e vendo lá o quadro botou outra coisa na moldura.

Parece ser nesse quadro da moça com a vara que Raymond estava pensando: notou-lhe a falta – e procurava dar a entender que o haviam mudado. – O. L., agosto, 1916].

[Nota de março de 1922: Esse quadro, desaparecido em 1916, acaba de ser descoberto em Worthing e parece ser o mesmo de Newcastle. Está agora em Normanton, no laboratório].

Eu então perguntei se ele, Raymond, queria dizer algo mais sobre o sótão, ou ao que chamavam assim.



Feda – Sim, ele diz que é especialmente familiar. (E Feda murmurou consigo: Dawnatry, daw, daw). Ele diz daw não sei que, Dormouse... Não... Diz dormitório, isto é, um jovem dormouse.8

(Aqui os presentes deram uma gargalhada; Feda encafifou e disse:)

Ele está caçoando de Feda. Diz que quando o jovem mouse está no sótão eles lhe chamam “o de cima”. É um enigma.

[O quarto do sótão, onde Raymond e dois outros rapazes costumavam dormir, é conhecido na família como o “dormitório de cima”, e os rodeios para fazer Feda dizer “dormitório” e “de cima” são muito divertidos. Mas do ponto de vista da evidência o episódio foi um pouco estragado pela circunstância de Alec e Noel, numa recente sessão em Londres, terem dito a Raymond qualquer coisa sobre o “dormitório de cima” – O. L.).



Feda – Ele diz que o “dormouse” é um passageiro de terceira classe. Está caçoando.

[Esta observação não foi compreendida no momento; mas depois Lady Lodge fez-me ver que uma parte adjacente ao sótão é conhecida na família como “o navio”. Para chegar ao “dormitório de cima” há necessidade de seguir por um corredor de tábuas, com vidraças que levam luz ao hall dos fundos; essa passagem é “o navio”. De modo que o dormitório pode ser considerado a parte final, ou a terceira classe do navio. – O. L., agosto, 1916].

Para esclarecimento do próximo episódio devo dizer que Sir Herbert Tree, por ocasião das suas visitas profissionais a Birmingham, costumava aparecer para o lanche em Mariemont, onde era sempre bem recebido, especialmente pelo nosso Raymond, ao qual contava histórias dum modo encantador. Raymond gostava de imitar alguns dos seus maneirismos, para divertimento da família; de modo que o que segue foi muito apreciado.

Feda continua:

Ele parece estar fazendo qualquer coisa de especial. Vestido de terno escuro – azul escuro. Terrivelmente elegante. E está aqui, de pé. Seus cabelos reluzem.

Lady Lodge – Sim, ele é muito elegante.

Feda – E faz assim (imita um gesto de Sir H. Tree) e diz languidamente): Por que nasci tão belo?

Todos riem. Raymond curva-se diante do grupo e diz:

– Muito agradecido!

Ele vestiu esse terno de caso pensado. Realça-o. Quer que saibam que ele é justamente ele – nem uma linha diferente. O mesmo de sempre. Quer que compreendam isso mais que qualquer coisa. Está sério. A única diferença agora é que não come, não se preocupa, não se interessa por isso.

[Depois da imitação de Sir Tree, a qual muito fez rir a assistência, Raymond diz o mesmo “muito agradecido” que costumava dizer. Esse detalhe é extraordinariamente característico. Lady Lodge confessa ter tido a sensação exata de Raymond. – O. L., agosto, 1916].

Andou excursionando de iate, razão de estar de roupa azul marinho.

Um divertido episódio se seguiu a propósito duma roda de volante que Raymond fizera para um carrinho. Mas a falta de espaço coibe-me de publicá-lo aqui.

Na noite de domingo novamente Raymond declarou desejar ir ao sótão para uma sessão lá. Eis o que sucedeu:



Feda – Raymond quer que todos, e também Feda, vão para o “dormouse”. Quer uma sessão lá. Não há inconveniente para a médium, embora ele ache o lugar um tanto frio.

Alec – A noite passada ele contou alguma coisa acontecida lá. Poderá agora esclarecer-nos melhor? Só falou de qualquer coisa que aconteceu.

Feda – Ele diz que qualquer gira mas nem sempre da mesma maneira.

Alec – Onde?

Feda – O “dormouse” pode ver isso. O “dormouse” põe os olhos nisso e canta: Oh, winds that blow from the South. Quando o vento sopra do norte, o “dormouse” olha para o outro lado. (a meia voz): Isto é absurdo!

Alec – Não. Está direito.

Feda – Se o tirassem de lá, o dormouse sentir-se-ia perdido.

Alec – Diga-lhe que compreendemos o que ele quer dizer.

Feda – Compreendem? É estranho! Ele está fazendo assim com os braços. Oh, deve ser um interessante “dormouse”. Lá vai indo ele. Até logo!

[O cata-vento dos estábulos não fica distante e é visível das janelas do dormitório de cima. Mrs. Leonard não tinha absolutamente estado lá].

Terça-feira decidimos ir ao sótão, que Mrs. Leonard ainda não conhecia; e aqui publico o resultado.

(Depois do chá, seis horas passadas, toda a família foi para o dormitório de cima e baixou os estores. Existe lá um quartinho, batizado “o rabugento”, que Raymond costumava usar como gabinete de estudo. Depois de tudo pronto desci em busca de Mrs. Leonard, que veio e sentou-se de costas para o quartinho, cuja porta estava aberta. Quando Feda apareceu, ela voltou-se e espichando as mãos para esse cômodo disse):

– Que está fazendo aí? Não fique aí, saia e venha falar. Ele está lá. Que está fazendo? Venha! Ele diz que está vendo o “dormouse”. Está fazendo qualquer coisa lá. Diz que costumava ficar lá.

[Raymond, de fato, trabalhava às vezes nesse quarto em desenhos técnicos – O. L.].

Está procurando qualquer coisa nas paredes. Diga a Feda o que procura.

[Um dos rapazes havia pendurado a roda de volante, a que já nos referimos, num prego da parede, sobre um certificado de Raymond posto em moldura. – O. L.].

Não é um quadro o que ele quer, mas se achar um quadro terá o que procura. Não pode alcançá-lo, diz ele. É melhor tirarem-no de lá e darem-no a ele.

O. L. – Uma coisa quadrada? [a pergunta foi feita com o propósito de atrapalhar].

Feda – Ele diz: Pai, a sua vista não melhorou. Três pernas.

[A roda de volante tinha três raios recurvos, sugerindo as três pernas da ilha de Man].

Uma coisa de rodar, diz ele. Redonda. (a meia voz): Que é? Um bicho, talvez. Ele diz que vocês sabem muito bem do que se trata.

Nós – Sim, sabemos. Quer que o tiremos do prego?

Feda – Ele responde que não, já não o quer mais. Diz que as uvas ficaram muito doces. (E Feda comenta:) Está falando bobagem. Fez uma grande questão daquilo e agora não quer mais.

Este breve episódio é muito instrutivo no mostrar o que eles pretendem quando dizem “precisar” de certas coisinhas triviais a que estiveram associados. O objeto é apenas mostrar que as têm na memória apesar da memória estar separada do corpo. Raymond prosseguiu mencionando uma porção de coisas que no seu tempo havia naquele quarto; por brevidade só me referirei ao pedido da fotografia duma embarcação que já lá não estava, mas estivera; também fez referência ao seu hábito de utilizar-se de certa janela do sótão para a exposição de chapas fotográficas. E disse que o cata-vento do estábulo (ao qual se referiu como o brinquedo do “dormouse”) era visível duma das janelas – naquele momento fechada pelos estores, e na qual Mrs. Leonard não tinha estado. Em seguida Raymond tentou assumir o controle direto da médium. Não foi feliz; mas o fato é interessante, sobretudo por causa das observações de Feda. Eis o que houve:



O. L. – Raymond está aí? Pensa que o vai conseguir agora?

Feda – Ele não sabe, mas Feda gostaria que experimentasse.

Pelo que diz Paul, quando menos o esperar ele o conseguirá.



O. L. – Paul parece tê-lo conseguido muito bem.

[Fui informado que em casa de Mrs. Kennedy Mrs. Leonard tem sido controlada por Paul com muita freqüência. – O. L.].



Feda – Sim, às vezes; mas Raymond não pode falar quando controlado. Diz que não pode lembrar-se das coisas. Quanto mais sente de modo físico, menos pode pôr o cérebro no trabalho. Quanto mais se aproxima do toque físico, mais perde isto (Feda indicou a cabeça, significando “inteligência”). Eis por que, quando estava falando através de Mrs... ele mostrava estilo de sermão de Escola Dominical. É o que lhes acontece quando não dominam o médium de modo absoluto.

Feda sabe quando domina o que ela (indicando a médium) pensa. Mas os que não sabem adquirir controle têm que usar o que encontram lá (isto é, no cérebro do médium). E então ficam naquilo que o Dr. disse de Feda – Ele disse que Feda era uma “fase da mente subjetiva do médium”. Horrível essa designação de Feda! “Fase da mente subjetiva!” Não foi blasfêmia, mas foi muito feio! (pausa).

[Cumpre notar que embora Feda muitas vezes fale na primeira pessoa, como sendo Raymond, o controle direto deste é raro; e quando ocorre, raramente é de caráter estritamente evidencial, exceto quando mais tarde há referência ao fato por parte de outro médium].

Houve um longo silêncio, e tiques na médium, com vãs tentativas para a emissão de palavras. A mão de Lady Lodge foi agarrada e fortemente apertada. Depois chegou minha vez. Tive a mão apertada e sacudida violentamente por longo tempo.

Palavras desconexas foram ditas e a médium começou a chorar. As palavras “Raymond” e “Mãe” foram pronunciadas, mas com dificuldade e repetição.

Sua mãe retribuiu a manifestação de carinho e observou-lhe que não se afligisse, pois estávamos todos muito contentes com o que fora realizado.

E ele:

– Não me sinto infeliz mas apenas exaltado. (E depois, em voz alta:) Pai. (Aqui Lionel murmurou:) Pat (e ofereceu-lhe a mão, que foi agarrada com força). Outro grito sobreveio. Alec, Norah e Honor também apertaram a mão de Raymond, que disse:



– Retiro-me.

[Tudo isso levou muito mais tempo do que o gasto nesta anotação].

Em seguida as mãos da médium caíram frouxas em seu colo. Feda não mais se manifestou, e Mrs. Leonard voltou a si lentamente. Por fim esfregou os olhos e disse:

–Sinto-me diferente do costume.

(Levamo-la a respirar à janela e depois ao jardim. Não parecia mal. Os outros sentiam-se um tanto cansados. No dia seguinte Mrs. Leonard informou-me de que passara muito bem a noite e não ouvira pancadas no quarto – pela primeira vez desde que o ocupava – O. L.)

Alguns meses depois tive notícia de duas senhoras dotadas de grande poder mediúnico, que às vezes se punham à disposição de estranhos devidamente apresentados por amigos.

Graças à gentileza duma senhora de suas relações, Lady Lodge pôde ser recebida sem dar-se a conhecer – isso a 21 de setembro de 1916 – e obteve uma comunicação de grande valor evidencial. Os guias reconheceram-na imediatamente, e logo depois anunciaram-lhe o nome, a despeito de Lady Lodge ter-lhes pedido que não o fizessem. As duas senhoras muito se surpreenderam de saber quem estava ali; haviam suposto tratar-se da irmã do amigo apresentante. A única parte que aqui darei dessa sessão – em que o meio empregado foi a mesinha – consiste em algo tão obviamente desconhecido das duas médiuns, que vale como prova de alguma espécie de poder supranormal, embora, para mim erroneamente, possa ser atribuído à telepatia. Lady Lodge não tocava na mesinha, diante da qual só se sentara uma das médiuns, que por esse tempo nos eram completamente desconhecidas. Raymond mostrou-se ostensivo em comunicar-se de modo a produzir a melhor demonstração de evidência.

Raymond – Como vai Harris?

Lady Lodge – Não conheço nenhum Harris.

Raymond – Oh, mãe! Não importa. Há de lembrar-se.

Lady Lodge – Algum parente?

Raymond – Não.

(Nesse momento uma luz entrou em minha cabeça. Havíamos tido em Mariemont uma empregada, Harrison, que permanecera na família vinte e quatro anos – e os meninos tratavam-na de “Harrie”).



Lady Lodge – É um “ele”?

Raymond – Não.

Lady Lodge – É uma “ela”?

Raymond – Sim.

Lady Lodge – Oh, então você deve enviar-lhe uma mensagem inteligível.

Raymond – Diga-lhe que já não preciso que me remendem a roupa.

(Harrison remendava a roupa dos meninos. Lembro-me dumas calças de tênis que ficaram históricas na família por causa de certo remendo seu).



Raymond – Mãe, sou eu mesmo. Meu amor a todos. Coragem, mãe.

Outros guias vieram e uma notável evidência ocorreu proporcionada por um desconhecido do outro lado – mas como não seja referente a Raymond, deixo de mencioná-la neste livro.

Em 1917 o que de mais interessante consegui foi uma sessão de voz direta, ocorrida em janeiro, com Mrs. Roberts Johnson, a chamada “médium-corneta”; interessante, à vista de posterior referência feita ao fato através de outro médium.

A sessão realizou-se nas proximidades de Birmingham, em casa dum médico, com várias pessoas presentes, entre as quais Lady Lodge e Honor, que se apresentaram anonimamente.

Aqui reproduzo as notas tomadas por minha filha:

Senti grandes ondas de vibração, como se estivéssemos no mar, ondas que se erguiam do chão sob a minha cadeira e que todos os presentes igualmente sentiam. Também lufadas de ar frio.

Os presentes eram amigos do Dr. ..., que é um investigador psíquico não muito crédulo na corneta.

Depois de algum tempo do início da sessão uma profunda voz escocesa vibrou na corneta, ou nas suas vizinhanças, dizendo:

– Bom dia, senhores!

Explicaram-me tratar-se do guia principal, David.

Continuamos a cantar; a voz manifestou-se de novo:

– Todos estão agindo bem.

A corneta começou então a dar voltas pelo recinto, batendo nas pessoas; algumas confessaram ter sido tocadas por mãos, ou terem ficado manietadas dos braços, como que agarradas por outros braços. Por fim a corneta dirigiu-se a nós, e Mrs. Johnson declarou que estava vendo um moço em uniforme cáqui, de pé à minha frente, com papel e lápis na mão. E a corneta nos disse:

Ray mnd. Ray mond. (a segunda sílaba era quase imperceptível para quem desconhecesse a palavra).

– Diga a meu pai que estive aqui.

Isso foi enunciado em falar muito débil, mas no qual reconhecemos a voz de Raymond. Como houvéssemos percebido mal, pedimos-lhe que repetisse a última frase, o que foi feito num tom gritado que estragou a voz com misturá-la à vibração da corneta. Minha mãe aborreceu-se. Raymond então disse:

– Não se aflija, mãe. Estou bem.

Minha mãe perguntou:

– Sabia antecipadamente que vínhamos aqui?

– Sem dúvida. Estou sempre convosco.

A corneta bateu em mim e em minha mãe. Mrs. Johnson conservava-se repetindo durante todo o tempo:

– Fale, fale, amigo!

A corneta foi em seguida para o centro da sala e comunicou mensagens a outras pessoas. Lá para o fim da sessão vimos luzes pelo teto, como estrelas; também ocorreram batidas no canto da sala, fenômeno a que ninguém deu importância.

Essa sessão foi realizada a 23 de janeiro de 1917. A 12 de fevereiro, três semanas depois, numa sessão de Mrs. Leonard, Feda nos disse, a Lady Lodge e a mim – referindo-se à família em geral:



Feda – Ele (Raymond) declara que andou procurando falar convosco. Não por meio da mesinha, mas por meio de voz falada – e que ficou um tanto desapontado.

Lodge – Por quê? Por não o ter conseguido? [não sabíamos ainda ao que ele se referia].

Feda – “Sim. Eu estava lá. Estava, mas desapontado por não adquirir força e agir adequadamente. Tenho esperança de atuar melhor em outra ocasião. Alguém lá presente me falou; mas eu não podia ver com clareza; uma espécie de névoa envolvia tudo. Alguém procurava ajudar-me, alguém que eu não conheço”.

Ele está mostrando a Feda uma sala de visitas, não em vossa casa – em outra. Não foi hoje ou ontem. Ele julga que estavam lá várias pessoas não só você. Faz tempo.

(Lady Lodge percebeu ao que Raymond se referia e perguntou:)

Lady Lodge – Quem estava lá?

Feda – Miss Olive 9 e uma senhora. Soliver não estava. Raymond não podia ver com clareza as pessoas, mas havia lá mais gente além de vocês. Raymond experimentou falar.

Lady Lodge – Diga-lhe que ouvi sua voz.

Feda – Isso alegra-o. Mas naquela ocasião sentiu-se decepcionado por não conseguir força bastante. Adquiriu-a, mas perdeu-a logo. No momento não pôde pensar em testes. Interessa-se em testes e tinha alguns preparados – mas nada pôde fazer. Nada pôde dizer além de generalidades. Diz que tocou na senhora – duas vezes, parece.

Lady Lodge – Sim, está certo.

Feda – Isso foi-lhe um prazer. Agora pergunta se a voz lembrava a sua. “Alguém estava me ajudando muito”. Alguém do outro lado, diz ele, estava a ajudá-lo. Procurava fazê-lo erguer a voz, e quando a ergueu o som tornou-se estranho, irreconhecível como voz. Isso o desapontou. Achou que era preferível não ter elevado o tom. (muito certo). Sentiu-se inclinado a dizer “ah weel”.

Lady Lodge – Ótimo!

[A aprovação de Lady Lodge vem de que um dos guias de Mrs. Johnson era David Duguid, que falava em dialeto escocês. “Ah weel” é dialeto escocês].



Feda – “Sim, eu me sinto como que dizendo “ah weel”, mas felizmente pude conter-me. Mãe, estive muito perto de falar.

Lady Lodge – Sim, ouvi a sua voz, Raymond, e reconheci-a muito bem.

Feda – “A entonação era melhor quando falei baixo. Eles procuraram ajudar-me e isso me desconcertou”.

[Honor observa em sua anotação que enquanto a corneta falava Mrs. Johnson não parava de dizer: “Fale, amigo, fale!”].

“Espero que breve tenhamos outra oportunidade. Experimentem. E então eu falarei disto.”

Lady Lodge – Quem estava lá comigo? (pausa).

Feda – “A dizer a verdade, não pude perceber. Pareceu-me uma das meninas; senti como que alguém da família – alguém que conheço; mas apenas senti, não pude ver. Perceberam-me a fazer um pouco de dança – um bate-bate? (Feda) Ele fez isso.

Lady Lodge – Não. Nada percebi.

Feda – Ele o fez no assoalho, com qualquer coisa de metal.

Lady Lodge – Provavelmente o atribuímos a algum dos presentes.

Feda – Não, ele estava fazendo assim: um, dois, três (batidas).

[Honor declara que de fato a corneta bateu no chão na frente dela, exatamente como Raymond conta].



Lady Lodge – Sim, ouvimos isso.

Nota de O. L.


A geral confirmação recebida pelos fatos dá muito valor àquela sessão de voz direta com a outra médium, a não ser que admitamos a estúpida hipótese de cooperação fraudulenta.

No começo de 1920 fui aos Estados Unidos e lá procurei alguns médiuns amadores aos quais Raymond se referiu, através de Feda, depois de minha volta à Inglaterra. Várias observações de Raymond nas sessões de voz direta são bastante instrutivas. O que se segue é um resumo do que lhe ouvimos. Perguntado se falara através dum homem dotado dum estranho modo de exprimir-se, respondeu:

“Sim, eu disse qualquer coisa, mas não gostei. Não me utilizei de sua língua, mas apenas de sua laringe – sem a língua, sem os lábios. Foi como se desarrolhasse qualquer coisa e a deixasse aberta. Interessei-me muito por esse homem, e se o conhecesse melhor podia gostar dele. Possui forte mediunidade. Quis utilizar-me dele para produzir alguma coisa bem evidencial; outras pessoas, porém, estavam lá, de modo que não pude dizer o que queria. O homem tem muito poder. Anda pensando em visitar a Inglaterra.”

Nota


As notas de Lady Lodge sobre o incidente da América são as seguintes:

“Primeiramente vi Mr. ... num jantar em casa dos Kovens. Eu sempre me interessara pelo encontro desse famoso escritor, de quem tanto ouvira falar. Encontrei um homem muito diferente do esperado, mas não desgostei do seu aspecto fisionômico. Conversamos durante o jantar sobre assuntos do dia; depois, apesar da presença de mais três pessoas, falou-me ele duma extraordinária experiência psíquica que influenciara sua vida, como aquela visão influenciara a vida de S. Paulo. Chegou a adquirir força psíquica. Perguntei-lhe se podia dar-me uma demonstração disso. Estávamos sentados um pouco à parte dos outros. Mr. ... acedeu.

Abriu a boca e, sem que seus lábios e língua se movessem, uma voz soou nela – a voz de Raymond. Não tomei nota do que foi dito, e não era coisa evidencial, mas revelava-se muito semelhante ao que Raymond nos costumava dizer – naquela sua maneira tão peculiar.”

Na sessão de Feda, de 3 de junho de 1920, que vínhamos narrando e foi interrompida por estes incidentes intercalares (para a boa compreensão do resto, será conveniente reler o que está atrás), Raymond, depois de breve conversa sobre outros assuntos, acrescentou o seguinte:

“Voltemos agora ao homem que abriu a boca. Isso equivale à mediunidade que usa a corneta. Em ambos os casos a fonte é a mesma. Na mediunidade de corneta, a voz, embora pareça independente do médium, está de qualquer modo ligada à sua garganta e à sua laringe. Por isso é que a voz do médium se trai e mostra o seu colorido. Na realidade a voz da corneta não é autônoma. Ultimamente cansei-me dela.”

A seguinte comunicação de Myers, através de Feda, tivemo-la a 24 de março de 1917 e parece-me instrutiva:



Lodge – Não poderá Myers fazer que alguns dos meus amigos, homens de ciência, mandem-me qualquer coisa nova e importante? Até aqui só temos tido as coisas clássicas. Por que não as termos científicas?

Myers – Os homens de ciência (disse Myers sorrindo) acham mais difícil comunicar-se por meio dos métodos extremamente limitados de que ainda dispomos, do que as pessoas que desenvolveram suas faculdades em outros setores.

Feda – Raymond diz “isto é com você, pai”. E o gentleman que falou diz “Espero que compreenda esta dificuldade”.

Lodge – Sim, certamente que compreendo.

Myers – É mais difícil apanhar fatos do que simples manifestações poéticas ou literárias. Estas acodem mais livremente, como coisa que flutua à tona das vagas (e sua mão fez um gesto sinuoso). Mas a produção de fatos científicos é dura, é difícil. Teríamos de criar novos meios e métodos... (Feda não apanha bem isto). Sim, vou explicar-me melhor. Teríamos de estabelecer os meios, ou um código, para melhor entendimento mútuo, de modo que a expressão de termos científicos, através dos médiuns, não apresente dificuldade, como hoje acontece. Temos de tomar a cabeça do médium como um crivo. Poucos têm esse crivo nas condições de coar o que desejamos. O médium absorve e transmite com grande dificuldade.

Lodge – Sim, mas quando os assistentes são pessoas de cultura, podem interpretar qualquer sugestão.

Myers – É o que penso (refere-se ao código que lembrou), e tenho esperanças de que por meio de você consigamos alguma coisa.

Há também umas observações de Raymond sobre os erros da transmissão:



Raymond – Não sei como formular isto, pois vocês podem não compreendê-lo perfeitamente. Quero falar destas mensagens. Não notam nelas muitas contradições e perplexidades? Parece-me que sim. Não sei se perceberam isto antes. Houve uma ocasião – ou duas – em que você, meu pai, teria ficado impressionado, se não fosse quem é. Mãe também o sabe. Pense nisso. Uma dessas contradições e perplexidades ocorreu à distância, outra perto de casa.

Lodge – Tenho recebido mensagens atribuídas a você, mas que não admiti como autênticas.

Raymond – Especialmente em duas ocasiões vi meu pai envolto em condições que deviam pôr à prova a sua paciência, se não a sua fé.

Lady Lodge – Houve uma em que me chamavam “Mãe anjo”, e que não admiti que viesse do meu Raymond.

[Por amor à brevidade, parafrasearei o resto do que foi dito sobre esse assunto].

Condições diferentes podiam não ser as adequadas. Há mistura do guia e do médium. Ainda quando estou presente há mistura. Ando procurando meios de vencer isso. Falo, mas a voz não é minha. O tom não é meu. Seria melhor se me deixassem só. Os guias são muito bondosos. Eu não falo o inglês da América. Falo?

Lady Lodge – Não. Sei que não usarias esse modo de falar.

Raymond – Posso ver você às vezes. Quando há bastante força, consigo ver o que é físico. As trevas parece que me ajudam a ver.

Ocasionalmente compareço a sessões onde há assistentes impressionados pelo nosso livro – costumo chamar “nosso” ao livro de meu pai. Quando sei disso, e o pensamento dessas pessoas me alcança, costumo mandar-lhes uma palavrinha.

Um fato de algum interesse ocorreu em setembro de 1916, antes que este livro aparecesse.

Falando a Raymond, perguntei-lhe como reagiria diante de certo nome (que enunciei, sem lhe dar nenhuma outra indicação). Imediatamente ele respondeu “sim” e mencionou um soldado desse nome, que fora sua ordenança, citando particularidades. Disse depois que esperava que esse homem não houvesse causado incômodos – que lhe dera algum dinheiro – e que supunha que ia bem.

Como matéria, de fato, direi que esse homem me havia recentemente visitado e eu lhe dera algum dinheiro, dizendo que “vinha de Raymond”. Jamais esperei que Raymond estivesse no conhecimento disso, e indicasse tão claramente a pessoa. Não tem conta o número de incidentes reveladores de que Raymond acompanha a vida dos seus, e mantém-se a par do que se passa em casa, do que estamos fazendo, das doenças, das nossas dificuldades e vitórias. Seu contato conosco é permanente.

Outra passagem. Raymond advertiu Lady Lodge dum erro de data no memorial a ele erigido na igreja de S. Jorge, em Edgbaston. Através de Feda declarou de uma quarta-feira gravada lá em vez de terça-feira (que era o certo, pois é uma terça-feira que corresponde ao dia do mês) não o irritava, apenas o divertia; mas que:

“É preciso mudar aquilo. O defeito foi gravado e ficará para sempre. Equivalerá à consagração dum erro. Minha mãe compreende”, diz ele, rindo-se.

[Reproduzo em gravura esse memorial, onde o erro do dia da semana pode ser verificado].

Na mesma sessão que tivemos com Mrs. Leonard, em Datshet, a 2 de abril de 1918, depois de referir-se com intuitos evidenciais, a diversas pessoas, Raymond abordou matéria inverificável; falou de coisas do “além”, das quais não havia tratado ultimamente. Lady Lodge tinha consigo um estenógrafo, de modo que o que Feda diz aparece mais completo do que usualmente – e com isto rematarei este já muito dilatado capítulo.

Aqui vai o que foi estenografado – e o dou pelo que vale. Raymond já havia falado de diversas pessoas quando Lady Lodge o interrompeu, dizendo:



Lady Lodge – Raymond, diga-me algo da sua vida.

Feda – (à meia voz) Parece falar dessa gente. Ele gosta de falar sobre essas pessoas porque surgem coisas que a senhora pode verificar.

Lady Lodge – Julguei que gostasse de questões-teste.

Feda – É necessário, embora ele muito deseje falar da vida que leva. Sabe que será bom para outras pessoas que a senhora tome nota disto.

Ele – espere um instante – ele está aprendendo muito ultimamente. Aprendendo, Miss Olive. Está aprendendo tanto que ganhou fúria de aprender.



Lady Lodge – Em livros?

Feda – Não; em preleções. E depois de demonstrações. O de que mais gosta é de ir para as outras esferas. Gosta disso. Lembre-se da experiência nesse sentido que já foi contada?

Lady Lodge – Perfeitamente (ver cap. XVI).

Feda – Lá esteve ele muitas vezes, depois daquela. Muitas, muitas vezes.

Lady Lodge – Vai lá agora mais facilmente?

Feda – “Já disse que da primeira vez não pude coordenar completamente minhas idéias. Da segunda vez foi melhor; senti mais dominação sobre mim mesmo. Aprendi melhor. Mas na terceira vez eu estava muito confiante e senti-me tão confuso como da primeira. Para ir lá precisamos preparar-nos, e manter-nos em estado de timidez, sem nenhuma confiança da nossa capacidade de suportar coisas. Recebi muitas lições. Lições.”

Ele diz que aprendeu muito, mas não pode encontrar palavras que o comuniquem através dum médium. Tudo se lhe tornou claro – tudo que se passa no plano terrestre a propósito de religiões, do justo e do injusto e da escolha entre um e outro. Muitas vezes ele pensa que se pudesse voltar ao plano terrestre, voaria através da vida. E crê que se de vez em quando as pessoas pudessem auscultar-se a si mesmas, poderiam aprender boa parte do que ele aprendeu. Mas quando essas pessoas agem na terra, não entram dentro de si mesmas, porque receiam chegar a decisões contrárias aos seus desejos. Essa é a razão dos homens não poderem escolher entre o justo e o injusto.

Encontrou muitos amigos seus na esfera em que se encontra, e acha admirável como tais amigos lhe aparecem, observados de diferentes pontos de vista. Uns pensam uma coisa; outros pensam outra. Diz estar certo de que quando ele lhes fala é como Raymond pensou a princípio. Ele não lhes fala com palavras, mas de alma a alma, de mente a mente. Se fosse com palavras, milhares de nós não andaríamos a dar mensagens diferentes.

Raymond diz: “Sei que muitos procuram provar que existem outros grandes mestres; e pode ser que sim; mas quando entrais no mundo do espírito, compreendeis por que não há outro senão Ele.10

Raymond foi um dia levado ao... Não pode dizer com palavras para onde foi levado, porque as palavras não expressam o que ele quer.

A senhora lembra-se do que ele disse da sua ida através das esferas até à sétima. Avançou por uma abertura da quarta, da quinta e da sexta. A atmosfera da sétima era diferente a ponto de não poder suportá-la. Sentia-se pouco seguro e perdeu a dominação de si próprio. Gentes na terra falam em outras dimensões. Ele se sentiu em outras dimensões, com tudo mudado.

(Feda continua):

Há pouco tempo, antes da última sessão com Soliver (ele nada disse a respeito porque nunca está seguro de que o possa explicar), Raymond formulou esta pergunta: “Se há a sétima esfera, que existe além?” E responderam-lhe: “Deus apenas”. E ele perguntou: “Que significais com Deus apenas?” Queria saber se era Jesus ou o que podemos chamar a corporificação de Deus. E eles disseram: “Como te foi ensinado no plano terrestre, Jesus é o Filho de Deus, e o espírito de Deus está com Ele; não é o próprio Deus, mas o que nele cabe de Deus. Por isso Jesus chamou-se Filho de Deus, e não Deus. “Eu quis apanhar o sentido disso; estava ansioso por isso; disseram-me que antes de ir ver, aguardasse preleções especiais a respeito. Muito poucos vão, disseram-me.

Mas quando na minha esfera foi às preleções, percebi que certos conhecimentos materiais e certas coisas mecânicas, que me haviam interessado no plano terrestre, ajudavam-me a compreender o que eu ia ver nas outras esferas. Meus irmãos podem compreender alguma coisa disto; os demais, não.

Assim, levaram-me além da sétima esfera. Não pararam na sétima, foram além, e mandaram-me concentrar e pensar em mim como mente apenas, não como espírito. Que experimentasse fazer isso. E que quanto mais eu o experimentasse, mais fácil se me tornaria pensar de mim como um gérmen.

“Por que não posso ser eu mesmo?” perguntei.

Resposta: “Nada de perguntas, pensa de ti mesmo como algo muito pequeno. Como mente, só; como poder de percepção apenas.” De fato disseram-me para pensar de mim como um óvulo! Eu não sabia de que modo o julgar-me óvulo me trouxesse facilitação; mas ao pensar assim comecei a ver que o momento, o vôo, se me tornava mais fácil. E lá cheguei ao – não sei como dizer. Cheguei ao que pode ser chamado uma esquina – como a da Land’s End na Inglaterra. Compreendo porque me mandaram pensar em mim mesmo como algo pequeníssimo; porque era uma maravilha que eu não fosse soprado para norte, sul, leste e oeste ao mesmo tempo. O ar parecia como formado de rios elétricos – se é que era um rio. Um rio de eletricidade ou força, fluindo ao mesmo tempo em todas as direções. Por um segundo, fluía deste lado; por outro segundo, fluía daquele.

Minhas sensações eram extraordinárias; eu não me afligia, mas alcancei aquela grande luz a que já me referi, quando na sétima esfera estive na presença de algo que não podia apreender, mas minha alma via e compreendia que eu estava na presença do Infinito. Aquilo não tinha forma, nem tamanho; não era quente, nem frio. Não era nada que a mente finita possa apreender. Senti assim enquanto lá – mas não o sinto agora.

Estava comigo um dos guias – não sei se já contei – o qual avisou: “Conserve-se mínimo”, e vi que tinha de contrair-me ainda mais.

Não perguntei ao guia: “Que força é esta?” mas ele apanhou meu pensamento e respondeu: “Estás na presença do Infinito. O que sentes é a Vida-Força, que vai de Deus a todas as esferas e alimenta o plano terrestre. Sem ela, nada haveria vivo na face do globo. Nem animal, nem planta – sem esta Força que agora sentis.”

Eu queria que fosse algo definível, algo que tivesse forma.

O guia disse: “Não compreendes que só no plano terrestre as coisas possuem formas definidas, de modo que vossas mentes finitas possam apreender alguma coisa? Talvez que no futuro muito mais seja apreendido. Mas é algo além de vós mesmos. É o Infinito. Por isso não percebes.”

Minha mente não apreendeu isso, mas minha alma apreendeu; e o guia me disse, sem que eu nada perguntasse: “Tua alma apreende porque tua alma faz parte disto. Só com tua alma poderás compreender isto. A mente não necessita incomodar-se com formas. Deixa tua alma desenvolver-se que tua mente a seguirá passo a passo.



Lady Lodge – É essa Força toda-poderosa? O Mal não a está combatendo?

Raymond – Não aqui.

Mãe, todos aqui sabemos, todos os espíritos sabem, que o mal é próprio do plano terrestre e de outros planos inferiores – os astrais.

O Deus Infinito está lutando contra o Mal no plano terrestre e no astral. E o Deus Infinito tem de vencer. O Mal persiste na terra porque é de lá. Foi o baixo eu físico dos homens que o criou; e mais as almas se desenvolvem, mais se bastarão a si mesmas. Esta Força assiste às almas. Vai conquistá-las, mas não miraculosamente. Se o homem não vê a luta, não pode compreender a importância de desenvolver o Bem no plano físico.

Eis a razão de a guerra estar sendo tão longa. Se a guerra houvesse acabado nos primeiros meses, os homens estariam novamente prontos para o mal; a Inglaterra em dois anos estaria de novo pronta, e todos os demais países igualmente.

A Inglaterra aprendeu uma lição espiritual de que não se esquecerá nunca. Meu pai sabe disso – e o saberá ainda mais. Eu e meu pai não teríamos feito o que fizemos se não fora a guerra. A guerra é a alavanca que está a abrir a porta entre os dois mundos, combatendo o mal e fomentando o bem. Parece horrível; mas se você tivesse visto o que eu vi, compreenderia que o mal não passa de pequena mancha em imensa superfície de brancuras.

Feda – Ele está perdendo a força.

Isto é apenas uma das coisas: ele já aprendeu muito. Tem aprendido muito sobre essa Força e sobre o como é empregada. “É uma força tão real como a eletricidade, diga a meu pai.”




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