Oliver Lodge Raymond



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Introdução


Esta obra leva o nome dum meu filho morto na guerra. Jamais ocultei minha crença de que a personalidade não só persiste, como ainda continua mais entrosada ao nosso viver diário do que geralmente o supomos; de que não há nenhuma solução de continuidade entre os vivos e os mortos; e de que existem processos de intercomunicação bastante efetivos quando o afeto intervém. Como disse Sócrates a Diotima, “o amor vence o abismo” (Symposium, 202 e 203).

Mas não é somente a afeição que controla e fortalece o intercâmbio supranormal: o interesse científico e o zelo do missionário também se revelam eficazes; e foi sobretudo graças a esforços desse gênero que eu e outros gradualmente nos convencemos, através de experiências diretas, dum fato que de há muito se tornou evidente para o gênero humano.

Até aqui vim sendo testemunha de ocorrências e mensagens de caráter mais intelectual do que sentimental; e embora muito dessa evidência permaneça inacessível ao público, parte, entretanto, aparece de tempos em tempos nos Proceedings of Society for Psychical Research e na minha coleção intitulada A Sobrevivência do Homem. Ninguém, portanto, se surpreenderá se agora surjo testemunhando comunicações que me sobrevieram dum modo especial – comunicações de que o sentimento não está excluído, conquanto apareçam como guiadas e dirigidas por um propósito inteligente, interessado em reunir provas. É a razão que me induziu a publicar este livro.

Mensagens inteligíveis e de caráter um tanto misterioso – de “Myers” – chegaram ao meu conhecimento uma semana ou duas antes da morte de meu filho; e quase todas as recebidas depois de sua morte diferem em caráter das que anteriormente recebi por intermédio de vários médiuns. Até essa época nenhuma criatura se me apresentara ansiosa de comunicação; e embora surgissem amigos promotores de mensagens, eram mensagens de gente da velha geração, diretores da Society for Psychical Research e antigos conhecimentos meus. Já agora, entretanto, sempre que eu ou alguém da minha família recorremos anonimamente a um médium, a mesma criatura se apresenta, sempre ansiosa de dar provas da sua identidade e sobrevivência.

E tenho que o conseguiu. O cepticismo da família, que nos primeiros meses foi muito forte, acabou vencido pelos fatos. Ignoro em que extensão esses fatos possam ser compreendidos por estranhos. Mas reclamo uma atenção paciente; e se incido em erros, já no que incluo, já no que omito, ou se minhas notas e comentários carecem de clareza, aos leitores peço, em todas as hipóteses, uma interpretação amiga: porque em matéria tão pessoal não ignoro que fico exposto à crueldade e ao cinismo da crítica.

Poderão alegar: por que motivo atribuir tanta importância a um caso individual? Na realidade não lhe atribuí nenhuma importância especial; mas acontece que cada caso individual é de interesse, porque tem plena aplicação nesta matéria a máxima Ex uno disce omnes. Se posso estabelecer a sobrevivência de um só indivíduo, ipso facto tê-la-ei estabelecido para todos.

Eu já tinha a sobrevivência como provada, graças aos esforços de Myers e de outros da Society; mas nunca são demais as provas, e a discussão de um novo caso não enfraquece a evidência já conseguida. Cada vara do feixe deve ser testada, e, a não ser que defeituosa, aumenta a força do feixe.

Basear tão importante conclusão, como seja a prova científica da sobrevivência humana, num fato apenas, sem o apoio lateral de grande número de casos similares, não seria judicioso; porque uma explicação diferente desse caso único poderia surgir. Mas plenamente se justificam o exame da força probante de cada caso cujos detalhes sejam bem conhecidos e a dedução, do modo mais completo e leal possível, da verdade que por ventura nele se contenha.



1ª Parte
O Normal


And this to fill us with regard for man,
with apprehension of his passing worth.


Browning, Paracelsus

Capítulo I
In memoriam


Os fatos são estes, como os revelou the Times:

“O segundo tenente Raymond Lodge era o filho mais moço de Sir Oliver Lodge e Lady Lodge, engenheiro por vocação e estudos. Alistou-se em setembro de 1914, sendo imediatamente mandado em comissão para o 3º South Lancashire. Depois de treinar perto de Liverpool e Edinburgo seguiu para o Front no começo da primavera de 1915, ligado ao 2º regimento de South Lancashire, indo para as trincheiras de Ypres ou Hooge. Sua capacidade como engenheiro foi de utilidade na construção de trincheiras e esteve algum tempo na Seção de Metralhadoras, onde correu muito perigo. Havendo o seu capitão destroncado o pé, foi posto à frente da Companhia em cujo comando se achava por ocasião da morte – num ataque ou tentativa de avanço em início. Ferido por estilhaço de granada no ataque a Hooge Hill, a 14 de setembro de 1915, veio a morrer horas depois.

Raymond Lodge fora educado na Bedales School e na Universidade de Birmingham. Tinha grande aptidão para a engenharia e amor, e estava para tornar-se sócio dos irmãos mais velhos, os quais muito apreciavam os seus serviços e desejavam o seu retorno, para que viesse colaborar com eles nos trabalhos da firma.”

Raymond Lodge (1889-1915)


A maior parte das vidas enchem-se com o casamento, o nascimento de filhos, os anos de trabalho; mas as vidas dos defensores da pátria revelam uma curta e majestosa simplicidade. As obscuras recordações da infância, os poucos anos de escola, universidade e trabalho construtivo e inventivo, e o repentino sacrifício de tudo quanto prometia o futuro em matéria de carreira, lar e amor; os meses de vida áspera e rijo esforço de guerra, as alegres cartas humorísticas que o aliviavam; e lá no front, numa terra em ruínas, a mutilação e a morte.

Meu irmão nasceu em Liverpool, a 25 de janeiro de 1889; esteve cinco ou seis anos na Bedales School e depois na Universidade de Birmingham, onde estudou engenharia e revelou-se excepcionalmente hábil na prática. Fez os dois anos de treino na Wolseley Motor Works e depois ingressou nas oficinas de seus irmãos, onde permaneceu até à ruptura da guerra.

Inteligência de raro vulto. Inteligência de poder e acuidade fora do comum. Dotado de paciência e compreensão das dificuldades como não vi igual – o que o tornava apto a fazer que os outros realmente compreendessem as coisas difíceis. Raymond causava-nos orgulho e nele depositávamos grandes esperanças. Levávamos-lhe, como o fazia eu, problemas técnicos e intelectuais, certos de obtermos a boa solução.

Embora a sua especialidade fosse em mecânica e eletricidade, não ficava aí. Lia muito, gostava da boa literatura do tipo intelectual, não da imaginativa – pelo menos não afirmo que haja lido Shelley ou William Morris, mas sei que adorava Fielding, Pope e Jane Austen. Naturalmente que lia Shakespeare, e em especial relembro Twelfth Night, Love’s Labor Lost e Henri IV. Depois de Fielding e Jane Austen os seus romancistas prediletos eram, creio eu, Dickens e Reade. Também com freqüência citava os ensaios e cartas de Charles Lamb.



* * *

A religião cristã não admite a morte como fim, e muitas provas da sobrevivência têm sido coletadas em prol dessa imortalidade que é a base da religião de Cristo. A morte é real, entretanto, e dolorosa; não a torna mais leniente a substituição do seu nome pelas expressões de “passagem” – mas a morte é real como termo dum estágio, não como termo da jornada. O caminho estende-se para além dessa crise – e para além da nossa imaginação: “o enluarado caminho sem fim”.

Pensemos, pois, de Raymond, não como enterrado em Ypres, com todo o trabalho da sua existência já feito, mas como, depois de merecido descanso, a prosseguir em sua nobre e fecunda carreira num ambiente mais pacífico, e serenamente nos chamando – exortando a família para um esforço mais alto, em vez da permanência em desolada aflição.

Realmente, não é sensato que choremos uma morte como a sua. Preferível que lhe rendamos as homenagens do louvor e da imitação, desenvolvendo-nos como ele e ofertando nossas vidas ao serviço da pátria, e por ela morrendo como morreu Raymond, se for necessário. Esta é a melhor honra e o seu maior monumento.

Não que menosprezemos os monumentos de bronze ou pedra, mas é a fama que os ilumina, e a fama não teve tempo de alcançar uma vida que aos 26 anos encerrou o seu estágio na terra.

Who shall remember him, who climb
His all-unripened fame to wake,
Who dies an age before his time?
But nobly, but for England’s sake.


Who will believe us when we cry
He was as great as he was brave?
His name that years had lifted high
Lies buried in that Belgian grave.


O strong and patient, kind and true,
Valient of heart, and clear of brain –
They cannot know the man we knew,
Our words go down the wind like rain.


Tintern, 1915 1

O. W. F. L.

Reminiscências, por O. J. L.


De todos os meus filhos, o mais novo era nos começos o que mais se assemelhava ao que fui em idade correspondente. No físico as velhas fotografias atestam a parecença; um antigo condiscípulo meu, que guardava os meus traços ali dos oito aos onze anos, de visita a Mariemont, em abril de 1904, acentuou essa semelhança com Raymond, então menino de escola; e inúmeros traços mentais também o aproximavam de mim. Parecidos até na absurda dificuldade de pronunciar as letras G e K.

Quando entrou na juventude percebi que a vocação e os gostos de Raymond eram os meus – a mesma paixão pela engenharia e as artes mecânicas; embora em meu caso, por falta de oportunidade, me volvesse para a especialização em física. Raymond não era forte em física, nem tinha o meu entusiasmo pela matemática, mas revelava-se mais que eu em engenharia, mais forte de caráter em muitos pontos – e teria dado um profissional de primeira classe. Notável a sua tenaz habilidade em trabalhos de mecânica e sua capacidade de direção. Nada viria mais de revés às suas tendências naturais do que a entrada na carreira militar; unicamente o senso do dever o impeliria num rumo de todo alheio às tradições da família, pelo menos do meu lado.

Também me excedia em senso de humor. Todos na família nos admirávamos da prontidão com que apanhava o lado humorístico das coisas; daí a animação que dava a todas as reuniões a que comparecia. Na escola a vivacidade do seu espírito não deixava de interferir nos estudos, seus e dos colegas, e no interesse geral teve de amordaçá-la; mas até o fim Raymond conservou-se um dos brincalhões da escola.

Tremendamente ocupado como sempre fui, não pude acompanhar a vida de meus filhos como o desejava, mas sempre houve entre mim e Raymond uma simpatia instintiva; e hoje me é de grande consolo não poder recordar uma só ocasião em que ele me irritasse. Em todos os assuntos sérios foi sempre um dos melhores moços que jamais conheci, donde todos lhe prevermos uma vida feliz e uma carreira brilhante.

Sabia admiravelmente lidar com operários; seu modo de tratar com capatazes insolentes nas oficinas Wolseley, onde esteve alguns anos de aprendiz, revelou-se habilíssimo e muito apreciado pelos companheiros; sinceramente não sei de nenhum traço do seu caráter que eu quisesse diferente, a não ser um pouco mais de amor pela especialização em física.

Quando veio a guerra, sua mãe e eu estávamos na Austrália; só algum tempo depois soubemos que se alistara. Isso ocorreu em setembro de 1914; teve uma comissão no exército regular, antedatada de agosto. Raymond cumpriu as suas obrigações militares com a mesma dedicação e esforço com que se aplicava às ocupações vocacionais. Fez o treinamento em Great Crosby, perto de Liverpool, no 3º South Lancashires, comissionado no posto de tenente, e foi adido ao 2º quando este seguiu para o Front; sua companhia passou o inverno em serviço ativo em Firth of Forth e Edinburgo; e teve oportunidade de seguir para Flandres a 15 de março de 1915. Lá consagrou suas habilidades de engenheiro à construção de abrigos e trincheiras, além dos deveres militares comuns; logo depois foi elevado a oficial de metralhadoras. Escusa dizer como a família ansiava pelo seu retorno no fim da guerra. Raymond teve no Front um trabalho estrênuo, e todos desejávamos ardentemente que recebesse a compensação do mimo caseiro. Era esperar muito – embora eu confesse que o tenha esperado.

Raymond está agora em serviço noutra região: sabemos disto. Porque se no primeiro momento do desastre a vida se nos obscureceu horrivelmente, breve tivemos a percepção de que sua atividade não cessara, apenas mudara de rumo. O seu brilhante engenho o levará a desenvolvimentos muito maiores que os previsíveis – e temos luminosas esperanças para o futuro.

Mariemont, 30 de setembro, 1915.



O. J. L.

Lamento de sua mãe


Escrito num pedaço de papel a 26 de setembro de 1915
e recolhido por Oliver Lodge sem que ela o soubesse.

Para aliviar a dor e tentar aproximação


Raymond querido, já te foste do nosso mundo, e para aliviar a minha dor quero saber se és feliz, que realmente me estás falando e não me enganando.

Nunca mais terei cartas de ti, meu querido filho, das quais eu tanto gostava. Tenho-as todas aqui; vou datilografá-las num livro.

Agora, ficaremos separados até que me reúna a ti. Não te vi tanto quanto desejava, durante tua permanência na Terra, mas recordo-me com enlevo dos momentos em que te tive ao meu lado, principalmente na nossa viagem à Itália. Eras meu, então – e tão amado!

Quero acentuar, meu querido, como reconheço a maneira gloriosa pela qual cumpriste o teu dever, nunca deixando que te vissem o esforço, sempre a brincar e a rir, animando e ajudando aos outros. Deves saber como teus irmãos e irmãs sentiram a tua perda – e o teu pobre pai!




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