Oliver Lodge Raymond



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Capítulo II
Raymond no Front


Darei alguns extratos da correspondência que Raymond manteve com membros da família durante os dias de serviço em Flandres, de modo a torná-lo melhor conhecido do leitor. Antes disso, porém, reproduzirei a breve nota que escrevi a seu respeito:

“Raymond foi recentemente transferido de Edinburgo para Great Crosby, perto de Liverpool; e imediatamente começou a vida de acampamento.

Ontem de manhã, segunda-feira, 5 de março, um dos subalternos foi designado para o Front; submetido à inspeção médica, teve de ser recusado em vista duma indisposição passageira. Perguntaram então a Raymond se estava em condições de partir. “Perfeitamente”, foi a sua resposta. Às 10 horas da manhã recebeu ordem para seguir rumo à França, à noite. Fez as malas. Às 3 recebemos em Mariemont um seu telegrama marcando encontro para as 5 e dizendo que podia ficar seis horas em casa.

Infelizmente sua mãe estava em Londres e tivemos dificuldade em encontrá-la. Só recebeu um dos nossos telegramas às 7; tomou o trem que pôde e chegou às 11.

Raymond tomou o trem da meia-noite para Euston; seus irmãos Alec, Lionel e Noel acompanharam-no. Chegaram a Euston às 3:50 da madrugada e tiveram de esperar duas horas. Encontrou o capitão Taylor e partiu para Waterloo via Southampton. Os rapazes planejaram vê-lo em Waterloo, voltando daí para casa.

Parece tudo muito bem; mas esta perturbação na nossa família deve estar se reproduzindo em inúmeras outras.

Mariemont, 16 de março, 1915.

O. F. L.

Cartas de Raymond

Hotel Dervaux, Grande Rue, 75
Boulogne-sur-Mer


24 de março, 1915, 11:30.

De acordo com o meu último telegrama, tenho a honra de comunicar que na nossa marcha para o Front encalhamos aqui.

Minha ordenança tem sido de inestimável valor e muito nos diverte. Andou caçando em redor da estação de carga de Rouen (donde partimos) e descobriu uma tampa de lata. Furou-a para formar um braseiro, ao qual adaptou um cabo de arame. Quando nos pusemos em marcha, acendeu o braseiro com carvão apanhado não sei onde, e ao pararmos no caminho, lá pelas 10 ou 11 horas, apresentou-se em minha cabina (quatro oficiais) com um excelente chá. Também havia comprado leite condensado. E ainda providenciou para que nos coubesse uma boa parte das rações distribuídas antes de partirmos, e cuidou da nossa bagagem da melhor maneira.

Insiste em considerar o trem como um simples bonde. Logo que a marcha reduz-se a 4 milhas por hora, desce a juntar lenha ou pilhar o que pode. Faz essas incursões usando o número de outras ordenanças do vagão bagageiro, e como não tínhamos luz, “abafou” numa das estaçõezinhas a lanterna dum guarda. Houve um barulhão; o guarda veio indignado reaver a sua lâmpada.

Assim que paramos em qualquer parte ele sai do seu vagão com o braseiro. Imaginem que o conserva aceso no carro! Não sei como os chefes do trem o permitem – mas se objetarem ele alegará que não sabe francês.

Com freqüência o trem parte antes que ele suba, de modo que salta para o nosso vagão, onde nos diverte com a história de sua vida até à próxima estação – e volta para o carro bagageiro.

É preciso muita atenção com ele, mas a despeito disso trata-se duma excelente ordenança.

Cartas do Front, em Flandres


Acampamento, 13 de abril, 1915.

Tudo bem aqui, exceto quanto às granadas. Ao chegar encontrei todos muito nervosos e não querendo absolutamente falar de granadas. Agora compreendo a razão. Outro dia um shrapnel rebentou em nosso posto, e um estilhaço pegou pelas pernas e pela mão o ordenança de Mr. Laws. O coitado perdeu os dedos da mão direita – e eu procuro não lembrar-me do estrago feito em sua perna. Vai ser amputada.

Esses projéteis nos abalam dum modo horrível, e quando vem vindo um, é surpreendente a rapidez com que cada qual some em alguma trincheira ou buraco próximo.

Uma granada de bom tamanho caiu no campo onde os homens estavam, na tarde de domingo, jogando futebol. Todos se aplastaram no chão; felizmente nada aconteceu, embora uns tantos estivessem a um metro de distância do ponto em que ela caiu. Eu e vários subalternos da companhia estávamos (mirabile dictu) na igreja nesse momento.

Meu revólver chegou esta manhã.

Depois que fui rendido na trincheira, quarta-feira marchei para trás, fiz uma refeição com os outros oficiais da Companhia C na Reserve Billets (uma cervejaria) e só à 1 hora ganhei a cama em nossa casinha. E tive de apresentar armas de manhã, por uma hora, com o dia a romper (como sempre faço, e ao escurecer também). Depois fui dormir e dormi até às 2 da tarde. Dormi num galpão sem portas, sobre palha arrumada em chão de tijolo. Minha coberta sobre a palha, meu capote feito cobertor, meus pés num saco e como travesseiro uma borracha de vento; e dormi tão bem como em casa. Isto aqui enxameia de ratos e piolhos; pode-se ouvir o barulho da bicharia quando cai o silêncio. Fazem plop, plop, plop sobre o teto, como se fossem obrigados a andar aos jatos por causa do afundamento das patas na palha. Exatamente sobre minha cabeça percebo, pelo barulho, que há uma família de ratinhos. De quando em quando assustam-se e fogem – e com o movimento cai-me sobre o rosto o pó do teto.

Mas a gente logo se acostuma, e depois de soltar um “Nom d’um chien!” volta-se para o outro lado. Esses ratos madrugam tanto quanto nós.

Fico aterrorizado à idéia dum rato passear sobre o meu rosto; mas como minha ordenança dorme ao lado, consolo-me com a chance de não ser eu o escolhido. É verdade que a ordenança ronca muito, o que lhe diminui a chance de ser passeado pelos ratos.

Nas trincheiras nem sempre ficamos à toa. Nos últimos três dias passei de pé toda a noite. O serviço era cavar comunicações entre as trincheiras. Ia para a cama às 4:30 e dormia até à hora do lanche, e ainda mais um pouco à tarde. Por essa razão minhas cartas não têm sido freqüentes.

O extraordinário é que o momento não requer soldados, mas engenheiros civis. Há trincheiras a serem abertas e há a drenagem e o transporte da terra. Muitas vezes as paredes são estaqueadas, e o chão é assoalhado com as tábuas sobre suportes de tacos. E há o abastecimento de água. Diverti-me arranjando uma “fonte” em minha trincheira. Uma agüinha muito clara e bebível depois de fervida corria de certo ponto na quantidade de meio litro por minuto, fazendo muita lama na trincheira. Represando essa agüinha e pondo uma garrafa sem fundo no topo da barragem, temo-la a correr num fio pelo gargalo; cai num buraco de largura suficiente para receber um balde d’água e depois corre por um rego escavado rente à parede. Lá adiante é de novo represada num tanque que os homens usam para lavagens; e finalmente perde-se num brejo que há atrás da trincheira.

Muito prazer me deu esse trabalho, e há outros assim; pontes de pranchas a fazer, degraus e assentos, etc. Um oficial botou meia dúzia de homens construindo uma cama de vento! Mas não era para ele, e sim para o capitão, que está com meningite e não pode dormir. Os soldados gostam desses serviços. Muito melhor do que não fazer nada.

Vou esgueirar-me para o meu quartel lá atrás e fazer um pouco de chá no Primus (não é permitido fogo).

Um cuco esteve cantando numa árvore próxima – bem visível. Fugiu precipitadamente quando um dos nossos canhões disparou perto, atrás do castelo. Foi a primeira vez que vi esse passarinho, suponho. Acho admirável como os animais ficam mansos. Eles têm muito terreno disponível agora – especialmente os ratos, e prosperam livremente no espaço entre as trincheiras.

Tudo está calmo por aqui, no momento.

Estamos à vista dum lugar bem conhecido (Ypres, certamente), que há dias vem sendo bombardeado em três ou quatro pontos – e o fogo prossegue forte. Um magnífico espetáculo à noite. O lugar parece uma cidade em ruínas, morta, e com certeza não há lá ninguém para pôr fogo naquilo. O fogo seria o melhor para o caso. Aquele sítio deve estar em terrível necessidade de purificação.

Interessou-me muito o sonho de meu pai.2 Sua carta é de 8 e diz que em sonho ele me viu no “mais espesso da luta”, mas que do outro lado estavam me protegendo.

Nada sei a respeito do “mais espesso da luta”, mas tenho estado no que poderei descrever como um inferno de shrapnels. Do meu diário vejo que a coisa foi no dia 7 às 10:15 da manhã. Nossa Companhia tinha sido mandada duma série de trincheiras para outra mais próxima da linha de fogo, e a formação adotada foi a de pelotões em fila de um, separados pela distância de 20 a 50 jardas. Eu estava no terceiro pelotão, com o 9º, não com o meu. Fletcher conduziu o último.

Bem. Não tínhamos avançado muito quando as metralhadoras nos perceberam, e também um avião, que passou a voar por cima de nossas cabeças e no mesmo rumo. Mandaram-nos alguns “Johnsons”, que não acertaram no alvo; estávamos defendidos por uma barragem de reservatório. Tínhamos, entretanto, de atravessar uma aldeia arruinada e eles sabiam disso, de modo que despejaram para lá os canhões. Ainda dessa vez escapamos. Mas ao sairmos da aldeia fomos apanhados. Granadas e mais granadas explodiam sobre nossas cabeças, e quando eu e mais três havíamos dobrado uma esquina, uma rebentou no lugar exato que eu visaria, se eu fosse o inimigo. Olhei para cima: vi o ar riscado de estilhaços, uns pequenos, outros grandes. Caíram como chuva em redor de nós. Nada me coube. Já o meu ordenança, que vinha logo atrás de mim, foi colhido num dos joelhos, levemente. Ficou bastante apavorado. Levei-o para trás, para a esquina, e escondi-o numa vala. O resto do pelotão fez a mesma coisa. Pareceu-me o melhor enquanto o bombardeio durasse, mas Fletcher gritou que tínhamos de seguir em frente, houvesse o que houvesse.

Chamei então os homens e deixando um deles com o ferido tocamos para frente. A coisa estava horrível. (Quando se está retirando tem importância não “dobrar” os homens, porque eles ficam desprotegidos; mas neste caso estávamos avançando, de modo que me parece que procedi bem). Senti-me muito protegido. Foi realmente um milagre que não fôssemos varridos. Os shrapnels, entretanto, pareciam de má qualidade. Tivemos um só homem morto e cinco ou seis feridos, nenhum gravemente.

Fomos ter a uma trincheira de suporte, e depois de dois dias passamo-nos para outras trincheiras de suporte, poucos metros adiante. As coisas estão calmas agora e eu muito me regalo. Não fossem os quadros horríveis que estamos constantemente arriscados a ver, a guerra seria uma coisa bem interessante.



* * *

Sinto-me um tanto desapontado de termos de sair daqui esta noite. Fletcher e eu íamos reconstruir esta trincheira. Ele, que é arquiteto, fez um cuidadoso plano.

Outro desapontamento foi quando me vi na retaguarda, numa floresta (como suporte). Isso me fez lembrar dum dos nossos sargentos em Edinburgo, um irlandês de nome O’Brien. Encontrei-o na plataforma muito triste. Perguntei-lhe o que havia e sua resposta me surpreendeu: “Levei na cabeça!” É que tinha reclamado do QG uma melhoria de posição e teve como resposta que não merecia nada. Isso o deixou de coração partido.

Pois bem, também eu levei na cabeça. Tenho recebido a incumbência de erguer uma cabana, estava já a acabá-la quando veio ordem de partir. Mas se retornar à floresta eu concluirei o serviço, seja lá qual for o remate que os posteriores ocupantes lhe hajam dado.

Tenho tido prazer em levantar barragens de sacos de areia. O sargento perguntou-me com toda a seriedade se eu era pedreiro de profissão. isso me deixou tremendamente orgulhoso.

14 de maio, 1915.

Consegui ontem um glorioso banho quente. Fletcher e eu fomos a uma cervejaria cá perto. Banheira de zinco, grande, com tanta água e tão quente como o queríamos...

Também gastei algum tempo me guardando das goteiras do nosso abrigo. Com os meus dois lençóis impermeáveis fiz uma defesa de minha cama, de modo que a água desce para os lados sem que eu saiba para onde ela vai. Pensei em encaminhá-la para o companheiro próximo, como os alemães costumavam fazer na campanha de inverno. Adaptavam uma bomba às suas trincheiras e despejavam a água do nosso lado – mas o plano foi descoberto...

16 de maio, 5:40 da tarde.

Tive bela novidade ontem. Há três semanas fomos chamados de noite para construir com urgência uma nova trincheira. Os homens operaram esplendidamente, realizando o trabalho com muita rapidez (trabalho feito no escuro). No dia seguinte o Brigadeiro inspecionou-a e mandou cumprimentos ao Coronel. Depois cumprimentou-nos de novo pelo mesmo trabalho! Tivemos várias obras desse tipo a fazer; recentemente uma na elevação 60, onde a tarefa consistiu em aprofundar as trincheiras e melhorar os parapeitos. Fomos, para esse serviço, mandados de empréstimo a outra Divisão (a Divisão que atualmente ocupa aquele setor), e estivemos ausentes daqui por uma semana justa. Conseguimos o louvor de General dessa outra Divisão e em conseqüência fomos escolhidos como o “Batalhão Pioneiro”. Estamos libertos do trabalho comum das trincheiras. Saímos à noite para cavá-las ou erguer parapeitos; o dia temo-lo para nós. Isto foi combinação de ontem, e na última noite voltei para aqui à 1:30 da madrugada. O trabalho é feito sob o fogo de inquietação, nada sério. O Coronel está satisfeitíssimo com a nossa operosidade – e eu muito contente com o novo arranjo. A grande vantagem é podermos nos estabilizar num ponto, sem constantemente termos de empacotar os tarecos e tocar para diante. Podemos agora fazer mesas, cadeiras e camas, uma porta mais decente para a cabana, uma vidraça – e assim por diante.


A um irmão


26 de maio, 1915.

Talvez já o tenhas lido, mas muito te recomendo o Simon Dale, de Anthony Hope.

Tivemos por aqui o gás, segunda-feira de madrugada, ali pelas 3 ou 4 horas. Embora vindo dumas quatro milhas de distância, como soubemos depois, chegou-nos muito forte e ardeu-nos bastante nos olhos.

Consegui algumas bebidas de Railhead – uma garrafa grande de Chartreuse e uma de Curaçao.

Adeus e felicidades.

29 de maio, 1915.

Recebi tua carta hoje às 5 horas. Muito prazer me deu. Não, não estou fazendo as coisas melhores do que realmente são, mas claro que gosto de escrever o mais agradável. Temos momentos desagradáveis, de bombardeio e coisas – mas nada muito ruim ainda. Estar sobre brasas é pior.

Quanto a Fletcher ser o que é, dá-se que ele veio para aqui muito mais cedo. Partiu de Edinburgo a 4 de janeiro – e Laws a 31 de dezembro. Agüentou passagens terríveis e fez toda a campanha do inverno; a extensão do tempo que um homem fica sob essa terrível pressão mental influi muito. Eu faço o possível por conservar-me alegre e feliz todo o tempo – e não acredito em enfrentar meia desgraça. – Se houvesse alguma indicação do fim próximo da guerra, isso melhoraria tudo. A visão do sem-fim é um tanto desalentadora. Estou contente de que a Itália entrasse – afinal!

2 de junho, 4:45 da tarde.

O último membro do nosso rancho é um homem que ainda não foi comissionado. Sargento-Mor do nosso 1º Batalhão, com cerca de 26 anos de serviço; conhece, pois, a tarefa.

Infelizmente sua chegada não constituiu uma bênção. O Capitão está entusiasmado e querendo fazer da nossa Companhia a melhor do Batalhão. Resultado: paradas e mais paradas, com muito menos descanso do que antes. Quando nos tornamos o batalhão pioneiro, o Coronel nos disse que cavaríamos trincheiras à noite e nada faríamos de dia, afora inspeção de armas. Agora, porém, temos a mais uma hora de treino de vários tipos pela manhã e uma preleção do N. C. O. à tarde, a que os subalternos têm que comparecer e tomar notas. No dia seguinte a uma noite de descanso, temos de estar levantados às sete horas para 30 minutos de exercícios físicos antes do café. Depois hora e meia de treino e a prelação. E as paradas vão aumentando. Tenho receio de que nos gastem todos e aos nossos homens. Thomas ressente-se muito e está muito aborrecido. Temo que ele fique como Laws e Fletcher. Alguns “veteranos” são muito bons companheiros. Possuem tremenda experiência, mas por outro lado também temos a nossa, e quando eles ficam de cima tornam-se insuportáveis...

Consegui hoje um suprimento de parafina; a Companhia D comprou um barril e mandei uma lata de querosene para trazer a nossa parte. Recebemos dois galões, com pedido, em troca, duma vidraça! Dei busca pelos arredores, achei-a, e mandei-a com os meus cumprimentos.



3 de junho, 1915.

Estou outra vez bem hoje; não dei atenção às minhas queixas, porque isso depende do estado do momento; e eu vou protestar contra estas paradas. Tivemos ótimo tempo na última noite. Fomos ao centro da cidade, que ainda está sob fogo. O inimigo não cessa de ocasionalmente mandar para lá suas bombas, para manter o “status-quo”. À beira da cidade há um cemitério quase liquidado! Visão bem desagradável.

A cidade virou coisa incrível. Ninguém pode imaginar que eles tenham feito tal dano, sem deixar uma casa intacta – e de longe, sem penetrar nela!

Nosso trabalho de escavação, na última noite, foi perto duma estradinha muito usada (ouve-se o barulho do trânsito à noite). Isso faz que eles mandem para lá os seus shrapnels, o que nos trouxe um bom “tempo quente”. Foi uma alegria o regressarmos incólumes.

Muito me interessei no panfleto de papai sobre a Guerra e o Cristianismo – e passei-o aos outros. Gosto do modo como ele fica de lado e olha as coisas de cima. Uma leitura muito suavizante.

6 de junho, 1915, 12 horas.

Ontem o Rancho vibrou intensamente à chegada dos salmões. Que esplêndido! Tivemos uma grande refeição matutina hoje, quase igual às nossas festas – breakfast depois do banho – com Alec, sem dúvida!...

Diariamente conseguimos rosas para o refeitório – o que muito nos alegra. Tivemos outro dia uma excelente refeição. Sentamo-nos à mesa com velas no centro e vasos de rosas em redor (esses vasos na realidade não passavam de latas velhas). As iguarias, uma especialidade, embora não me lembro o que fossem; o clou foi um violinista e um... violino, tudo real! Não sei como esse violino veio parar aqui, e mais o violinista, que é da Artilharia e toca lindamente. Traz cabeleira, costeletas, grandes botas – um ar de vienense.

Começou tocando óperas clássicas e deu-nos um intermezzo da Cavalleria Rusticana. Depois, o Amor de Cigana e a Viúva Alegre. Terminou com um ragtime americano. Estimulamo-lo com uma dose de whisky e daí por diante a música tornou-se leve. Diverti-me muito em observar o efeito. Por último passou a dar voltas em redor da mesa, tocando de rijo, como em serenata.

Fui vacinado novamente na sexta-feira porque a vacina só tem efeito por seis meses e há o medo do tifo. Isto aqui parece o ambiente ideal para o tifo – terra baixa, poucas águas, solo fortemente estercado. Andei um pouco febril e fraco, mas já estou melhor. Tenho de repetir a vacina dez dias depois, mas a segunda vez não é tão ruim.

Por falar em rosas, Thomas colheu uma beleza esta manhã (antes que me levantasse) e trouxe-a para minha cama. Está neste momento diante de mim – cinco polegadas de diâmetro e muito perfumada.



16 de junho, 1:30.

Houve ataque cedo esta manhã e nossa Companhia ficou aguardando os prisioneiros. Pobres diabos! Muito me condoí deles. Um oficial de 16 anos, com seis semanas de serviço. Velhos de barbas grisalhas e estudantes de óculos – gente inadequada para a luta.

Estou no serviço de metralhadoras, para um curso de 15 dias, a começar em 26 de junho.

21 de junho, 4:30.

Tivemos ultimamente um período terrível, e sinto muito dizer que perdi o Thomas. Foi ferido na cabeça por estilhaço de shrapnel, na noite seguinte ao ataque – os jornais devem ter dado a notícia – e morreu uma hora depois sem haver recobrado os sentidos.

Noite trágica; todo o batalhão recebeu ordem de escavar e consolidar as posições conquistadas. Avançamos meio caminho e paramos bloqueados pelos feridos. Num carreiro ao longo duma cerca, esperamos uma hora e, conquanto não pudéssemos ser vistos, tivemos muito shrapnel sobre nossas cabeças. Para piorar a situação, vieram bombas de gás, o que nos obrigou a pôr as máscaras. Excessivamente desagradável; a gente fica quase sem poder ver. Foi nessa espera que Thomas caiu.

Estamos desolados com essa perda, e eu mais que todos – e que será em sua casa, em que é ele o favorito?

Na noite seguinte saímos outra vez, mas foi noite calma, sem desastres. O campo de batalha, péssimo; todos os meus homens de reserva empregados em enterrar cadáveres.

Ansiamos todos por voltar novamente ao “pioneirismo”.

Nossa preocupação é o tiro escoteiro. Estamos numa floresta e é preciso mandar vir água e mais coisas do acampamento, havendo necessidade de caminhar fora das trincheiras, não por dentro delas. E os que saem nesse serviço tomam o caminho mais curto, apesar dos avisos. Há um ponto que oferece boa mira e eles apanham nossos homens de volta, antes que afundem na trincheira. Tivemos um ferido esta manhã e há poucos minutos fui obrigado a interromper esta para acudir um homem da Companhia B que foi baleado seriamente. E sempre no mesmo lugar! Pusemos lá um aviso que espero dê resultado.

Sinto muito que esta carta não esteja saindo alegre, mas temos tido muita tristeza ultimamente. Estamos nos dominando. Por felicidade essas coisas se absorvem gradualmente; eu não compreendia isso no começo. Foi um rude golpe, porque, sobretudo depois que Fletcher partiu (está agora em casa), ficamos todos muito amigos e há sempre a possibilidade de perdermos subitamente um. Thomas foi o primeiro oficial da Companhia C que morreu nestes sete meses.

Da outra vez em que estivemos abrindo trincheiras nesta floresta a Companhia B perdeu o Capitão Salter. Suponho que tenhas visto o seu nome na Lista de Honra. Estávamos a recolher nossas pás quando ele foi atingido na cabeça. Bala perdida.

Estou triste, mas bem de saúde. Quando viemos para aqui, nossa caixa de munição de boca desgarrou com todas as coisas boas. O resultado foi ficarmos curtos de bóia. Tenho comido ranchos horríveis e gostado. Ovos fritos e bacon frito, tudo junto! horrível, mas, por Deus, a fome é um fato!



22 de junho, 4:45 da tarde.

Oh, que guerra demorada, não? Pouco importa; há de acabar sem muito esforço nosso, cujo trabalho realmente consiste em matar o tempo. E não é difícil, tão agradável anda ele. Os dias correm, belos dias ensolarados, aproximando-nos cada vez mais do fim. Têm havido casos em que a guerra vira a cabeça dos povos, mas muitas vezes penso que se a paz viesse de súbito haveria muito viramento de cabeça.

Parece-me admirável a unanimidade de opiniões a esse respeito, e o mesmo deve dar-se do lado dos alemães.

Penso que nunca houve no mundo tantos homens tão “fartos” de guerra. E tantas mulheres também fartas, em casa; e por isso não sei donde vem a força que faz a guerra continuar.

Mas não quero que tenhas uma impressão falsa. Com base em minha última pensarás que as coisas aqui são sempre horríveis. Não é verdade. No total não é. A vida apresenta muito interesse, e os maus momentos constituem minoria. Apresentam-se, mas como exceções. A coisa parece um interminável piquenique em toda a sorte de lugares, sob constrangimentos e com a inquietação no ar. Essa inquietação é puramente mental; e quanto menos a gente pensa nela, melhor; de modo que podemos viver contentes e felizes a não ser que não haja tendência ingênita para isso. É o que acontece a Fletcher e Laws e mais uns outros. Já estão na guerra há muito tempo e têm sofrido muita coisa desagradável, sem os necessários repousos. Sós os muito fortes poderão suportar isso.

Lord Kitchener e Mr. Asquith estiveram cá à noite; aqui, neste convento. Para que fim não sei – mas a visita causou reboliço.

Eu e Way fomos à cidade a noite passada. Alugamos um fiacre para a volta. Muito gozamos o passeio. O fiacre é o veículo que na Inglaterra foi designado com a denominação de “vitória”, mas em França, onde a etiqueta parece não ligar importância a veículos, fiacre é a única palavra aplicável ao carrinho – e vai bem. Exprime não só a sua miséria como o aspecto atrasado.

Entramos nalguns estábulos à procura desse veículo; um rapaz gordo, de avental azul, com um lenço amarrado no olho, disse que poderíamos obter um. Perguntei: “E o cocheiro?” Ele bateu no peito: “Eu”.

O preço foi de seis francos, mais a gorjeta. Não se esqueceu da gorjeta. Concordamos, e ele foi buscar um cavalinho francês.

Era um fiacre bem confortável, mas ficávamos desajeitados de rodar naquela coisa absurda, principalmente quando cruzávamos oficiais, coisa freqüente. E quando o cocheiro se foi embora, sentimos bastante.



29 de julho, 7:35.

Cá estou de novo nas trincheiras,3 tudo como da primeira vez, apesar do efeito perturbador dos dias passados em casa. Ah, não posso deixar de rir-me com certas coisas daqui. Coisas que às vezes me fazem sentar para rir (não histericamente, bien entendu, mas às gargalhadas). Tudo tão absurdo, as razões e causas que me arrastaram a este desagradável recanto da Bélgica! Mal chegado, tenho imediatamente de caçar casa – por toda parte, como a coisa mais natural do mundo. E apanhada a casa e arrumada nela meus pertences, fico a considerá-la o meu lar e nele passo uns dias. Mas de repente minha ordenança e eu arrumamos a bagagem e lá a levamos às costas, como dois ciganos, para outro campo uns quilômetros adiante – e toca a arrumar nova moradia...

Custou-me deixar meu buraco na linha de frente, porque eu havia organizado as coisas a meu modo – com a mesa posta de jeito a ter luz, etc. Havia a mesa feita lá dentro, uma cadeira e cama de sacos de areia. Pequenino e cômodo.

Mas esta minha toca de agora também é gentil. Espaçosa, com janelas encaixilhadas, embora sem vidros, mesa quadrada para quatro pernas, três cadeiras e cama de areia. De modo que estou muito feliz. A cama de areia faz-se assim: um pedaço de chão de 6 pés e 6 polegadas por 3 pés e 6 polegadas é ajeitado com sacos de areia cheios de terra. Sobre isto vão vários sacos vazios. Se as depressões e elevações forem propriamente distribuídas, a coisa se torna um sucesso. Dormimos vestidos, cobertos pelo capote, com travesseiro de ar.

Temos tido nas trincheiras um tempo muito alegre. Creio que já falei do aeroplano que voou sobre nós. Foi no domingo. Derrubamo-lo. O boletim oficial diz que os dois pilotos morreram. Segunda fui para uma trincheira de suporte, tomar chá e conversar com Holden e Ventris, dois oficiais da Companhia C. Às dez menos um quarto houve uma terrível explosão que estremeceu o nosso buraco por alguns segundos. Os alemães haviam explodido uma mina a 60 pés dali, na esperança de mandar para os ares parte das nossas defesas.

Corri às minhas armas – as duas estavam incólumes. Queria que ouvisses o estrondo! Todos os homens correram ao parapeito e arregalaram os olhos. Excitante! Uma das metralhadoras despejou 500 tiros e outra 50. Soube depois que muitos inimigos foram vistos pular os parapeitos, mas tiveram de voltar quando ouviram a metralhadora pipocando. Levou tempo para que a calma retornasse.

Estivemos na Elevação 60 e também acima, em Ypres. Agora estamos ao sul desse lugar horrível – mas com pesar vim a saber que amanhã vamos para o norte. Isso nos deixou deprimidos.

7 de agosto, 7:30.

Tenho tido maus momentos estes dias – desses momentos que nos fazem ver que a guerra não é nenhum piquenique – mas graças a Deus a coisa parou.

Completamos hoje uma quinzena de trincheira – e é fácil de ver como ansiamos por mudar de roupa. A mor parte dos oficiais não trocou de roupa todo esse tempo, mas eu tive sorte. Depois dos dois banhos frios aí, consegui hoje um magnífico banho quente numa banheira de pau. Luxo tremendo! Também consegui mudar as meias.

No dia em que fui bombardeado no buraco, minha ordenança Bailey recebeu uma estilha na perna, sendo levada para a retaguarda; não creio que seja ferimento grave. Foi uma grande perda, mas já tenho outra ordenança, Gray, que vai indo muito bem. Moço de muito boa vontade e inteligente.

A cama de areia torna-se muito úmida, de modo que tenho de forrá-la com o meu oleado. Durmo assim, ou sobre sacos vazios novos. Mas, aí, não é só a umidade que nos incomoda!

Quando vivemos na ativa a umidade não incomoda muito. É comum ficarmos de sapatos molhados e passarmos três, quatro dias, sem tirá-los dos pés – desagradável, sim, mas não funesto para a saúde.



16 de agosto, meio-dia.

Estamos agora descansando. Fizemos 19 dias de serviço e alguns ainda fizeram mais. Três semanas é muito tempo – três semanas contínuas sem tirar a roupa do corpo, sem tirar os sapatos e as polainas...

Cinco meses já que estou aqui – e no exército, onze. Logo estarei pensionando como veterano.

29 de agosto, 11:30.

Estou gozando um calmo lazer neste momento e muito merecido. Estive nas trincheiras de suporte por três dias, e trabalhei duas noites, das 7:30 às 3 da manhã, na construção e em reparos. Na terceira noite houve algo excitante. A Companhia do Capitão Taylor foi mandada para a frente, a abrir nova trincheira ligada com a nossa da esquerda. Tínhamos de subir uma trincheira e em certo ponto galgar o parapeito e arrastar-nos ao ponto em que seria escavada a nova. Fizemos o serviço na maior calada, mas havia lua e fomos vistos. A distância da linha inimiga era de 30 jardas. Um pelotão nosso nos guardava com bombas. Foi trabalho duríssimo, porque eles não cessaram de nos lançar granadas e o pior era o tiro com pontaria, assim de tão perto.

Mas nossas perdas foram menores do que esperei. Logo que a deixamos o Coronel veio à nova trincheira, e muito gabou a Companhia C; o mesmo fez o General. O Capital Taylor orgulhou-se.

Os homens que perdemos com os tiros de pontaria foram enterrados logo atrás, depois de um quarto de hora de tombados. Horrível.

O General deu-nos descanso, ao ver o nosso estafamento. Foi uma grande mercê. Descanso curto. Penso que temos de voltar, talvez esta noite.

Ficaremos aqui até amanhã à noite e então, suponho, temos de abrir mais trincheiras perto das novas. Estamos com falta de subalternos e eu fora do serviço de metralhadoras. Estou farto, mas agüentando. Na última trincheira construída havia uma boa posição para metralhadoras e tive o gosto de prepará-la a contento...



6 de setembro, 9:30.

Obrigado pela tua carta consoladora. Já estou afeito a isto. Às vezes duvido da minha utilidade – que não me parece ser a que eu gostaria que fosse. É provável que eu ajude a conservar os oficiais da Companhia C de ânimo mais alegre! O que me aborrece é terem-me tirado das metralhadoras. Espero que não seja por muito tempo.

Grandes acontecimentos são esperados para breve, nos quais tomarei parte. Estamos de repouso agora. Só temos tido ultimamente períodos de três dias nas trincheiras.

Nossos dois últimos dias de trincheiras foram tremendamente molhados. Aí em casa isso me teria trazido pneumonia dupla. Meu capote está empapado, de modo que tenho de dormir de túnica, com o culote molhado.

A chuva tem sido incessante; o chão da nossa trincheira está alagado – a água verte em baixo dos sacos de areia.

Por sorte escapei de dormir neles porque fui rendido esta noite. Mas antes de partir tive de trabalhar com 50 homens, até meia noite, no esvaziamento da trincheira. Às 8:30 enfiei as botas cheias d’água e fiquei com elas até às 12, e então marchei por umas oito milhas. Depois de nove horas de merecido descanso e alguma bóia, mais três ou quatro milhas. Que agradável mudar de botas e encontrar nossas valises e uma tenda!

Esta noite fui a Poperingne com o Capitão Taylor e tivemos um jantar realmente bom – grande festança!

Continuamos infelizmente com as paradas; fora isso, tudo bem...

Alec teve boa idéia enviando-me uma “Molesworth”. Muito útil.

Gostaria de receber um jornal – The Motor, de preferência, ou The Autocar. É ser criança, não?

O Capitão Taylor destroncou o pé numa queda de cavalo e está de folga. O comando da Companhia me coube. Só quero que não seja por muito tempo. Muita responsabilidade.

9 de setembro, 3:30 da tarde.

Tenho de apressar-me para alcançar o correio.

Fomos inspecionados pelo Comandante do corpo de Exército, General Plumer (Sir Herbert).

Estou ainda no comando da Companhia C, e tive de dar voltas com o General e uma fieira de Generais menores, Coronéis, etc. Perguntaram-me muitas coisas.

– Há quanto tempo está na Companhia? Quanto tempo esteve fora? Respondi que desde março. Perguntaram-me então se fora ferido ou estivera doente. Respondi que não.

– Rapaz agüentador! disse o General, ou pelo menos pensei que fosse dizer.

Andamos muito ocupados agora. Escreverei carta mais longa depois. Peço desculpas.

Uma caixa de cigarros chegou ontem, creio que mandada por Alec. Virgínias.

Estamos com uma tenda nova – e fazia falta porque andávamos dormindo cinco na mesma. Agora ficamos reduzidos a dois. A nova tenda é dum lindo gris – cor de nuvem carregada. Quando terminar a guerra hei de adquirir uma.

Tornar-me-ei insuportável, eu sei; quererei tudo à hora e a tempo. Não importa – que venha o fim da guerra!

Viva, viva! Tempo bom, grandes deuses! Aeroplano (inglês) descido ontem em nosso campo, levemente avariado. Tudo bem, Adeus! Amor, amor.

Raymond

12 de setembro, 2 da tarde.

Participo que continuo no comando da Companhia e que vamos para as trincheiras da frente esta tarde às 5 horas para uma vistoria comum. Vamos de ônibus!...

O Capitão T. pensa ficar fora um mês!

* * *

Telegrama do Ministério da Guerra


17 de setembro, 1915.

Profundamente lamentamos ter de informar-vos que o Segundo-Tenente R. Lodge, do 2º South Lancs, foi ferido a 14 de setembro e veio a falecer. Lord Kitchener manda suas simpatias.


Telegrama do Rei e da Rainha


Profundamente o Rei e a Rainha lamentam a perda sofrida por vós e pelo Exército, com a morte do vosso filho a serviço da pátria. Suas Majestades sinceramente comungam com a vossa dor.


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