Oliver Lodge Raymond



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Capítulo III
Cartas de amigos


Algumas cartas de oficiais chegaram com detalhes. Era um momento excepcionalmente terrível para o saliente de Ypres, de modo que não havia tempo para escrever. Alguns dos seus amigos morreram na mesma ocasião, ou logo depois.

Do Tenente Fletcher


21 de setembro, 1915.

Raymond foi o melhor camarada que jamais tive; andávamos sempre juntos; primeiro em Brook Road, depois em Edinburgo e finalmente na França – e ninguém poderia ter melhor amigo do que ele o foi meu.

Jamais me esquecerei do dia em que nos reunimos em Dickebush e de como ficamos contentes de revê-lo. Foi sempre o mesmo, sempre pronto para cooperar da melhor maneira; seus homens adoravam-no e tudo faziam por ele.

24 de setembro, 1915.

Vim a saber que estávamos abrindo trincheiras à frente das atuais, em St. Eloi, na semana passada, de modo que deve ser lá que ele foi ferido. Raymond absorvia-se na abertura de trincheiras e numerosas vezes tive de aconselhá-lo a conservar-se abaixado enquanto fiscalizava o serviço...

Sempre esperei que saísse da guerra incólume, e ele também o esperava. Da última vez que o vi fizemos grandes planos para depois da guerra, e agora custa-me compreender que ele já não exista.

(Assinado) Eric Fletcher.

Do Tenente Case a Lady Lodge


24 de setembro, 1915.

Senti imensamente sua morte, porque era um dos melhores rapazes que conheci. Universalmente querido, tanto dos oficiais como dos soldados, escusa dizer...

Estive três meses na Companhia C e posso testemunhar sua extrema serenidade e habilidade em coisas militares. Foi ferido lá pelo meio dia e morreu meia hora depois. Não me recordo da data, mas escrevi com mais detalhes para seu irmão. Não creio que haja sofrido muito. Estava consciente quando cheguei; reconheceu-me, suponho, e fiquei ao seu lado algum tempo. Depois saí a ver se achava o médico, mas todos os telefones estavam cortados – e mesmo que viesse o médico nada teria a fazer. Os padioleiros fizeram o que era possível...

Outro oficial. M. Ventris, foi morto na mesma ocasião, com a sua ordenança, Gray.



(Assinado) G. R. A. Case.

Do Capitão S. T. Boast


17 de setembro, 1915.

Antes de tudo, meus sentimentos a si e à família pela perda de vosso filho, o Segundo Tenente Lodge. Essa perda foi muito grande: era uma criatura encantadora, sempre alegre e cooperante, rijo no trabalho, brilhante exemplo do que um soldado deve ser. Era um eficiente oficial, ultimamente qualificado no manejo e comando das metralhadoras Maxim – coisa importante nesta guerra. As circunstâncias de sua morte foram resumidamente estas:

A 14 de setembro a Companhia C, a que ele pertencia, estava em posição numa trincheira de fogo. Pela manhã o comandante da artilharia de cobertura informou-o, como comandante da Companhia, de que ia bombardear as posições inimigas e como suas trincheiras ficavam muito próximas das nossas, aconselhava-o a retirar-se durante o bombardeio. Lodge deu ordem à Companhia para retirar-se, mantendo comunicação com a trincheira de trás. Ele e o Segundo Tenente Ventris foram os últimos a deixar a trincheira, e ao chegarem à de trás, Ventris foi morto e Lodge ferido – vindo a morrer logo depois, São estas as circunstâncias de sua morte.

Do Capitão A. B. Cheves


22 de setembro, 1915.

O Coronel pediu-me que vos escrevesse dando alguma idéia do local em que vosso filho foi enterrado. Ele viveu cerca de três horas depois de ferido e todos falam altamente da sua conduta nesse tempo. O ferimento recebido foi desses que não deixam esperança de salvação, o que todos reconheceram e também ele próprio. Quando à tarde o corpo foi removido a expressão de seu rosto era absolutamente calma, donde concluo que morreu sem dor. Enterraram-no nessa mesma tarde, em nosso cemitério, ao lado do Tenente Ventris, morto na mesma ocasião. O cemitério é no jardim duma herdade em ruínas. Está bem cercado; o túmulo de vosso filho ficou debaixo dumas árvores grandes. Há ali túmulos de homens de vários regimentos. O de Lodge está cercado de arame, o que o singulariza dos outros. Há uma cruz de madeira no todo e uma menor aos pés. Nossas condolências serão de bem pequena consolação para um pai, mas Raymond foi um dos oficiais mais populares no Batalhão, tanto para os soldados como para os oficiais, e todos grandemente sentimos sua morte.



2ª Parte
O Supranormal


Peace, peace! He is not dead, he doth not sleep
He hath awakened from the dream of life.


Shelley, Adonais

Capítulo IV
Sobre as comunicações supranormais


But he, the spirit himself, may come
Where all the nerve of sense is num


Tennyson, In Memoriam
Qualquer que seja a atitude do mundo científico, muita gente há que por experiência pessoal sabe da possibilidade de comunicação entre o mundo percebido pelos nossos sentidos corporais e uma existência mais ampla, da qual conhecemos muito pouco.

Não é fácil essa comunicação, mas realiza-se; a humanidade tem razão para ser grata aos poucos indivíduos que, reconhecendo possuírem o dom de mediunidade, isto é, o dom de agirem como intermediários, se prestam a ser usados para esse fim.

Esses meios de alargar o nosso conhecimento e entrar em relações com o que está além do alcance da vista animal pode, como tudo na vida, ser mal usado; pode ser tido como mera curiosidade ou explorado dum modo indigno e egoístico, como tantos outros conhecimentos humanos. Mas também pode ser usado com reverente seriedade no propósito de reconfortar aos que sofrem e aos aflitos, restaurando as cadeias de afeto que ligam as almas e foram temporariamente descontinuadas por uma aparente barreira. Essa barreira começa a não ser intransponível; a comunicação entre os dois estados não é tão absurda como pensávamos; alguma coisa pode ser apreendida do que ocorre do outro lado; e é provável que uma grande soma de conhecimento venha a ser gradualmente acumulada a respeito.

A afeição criou a comunicação. O esforço para obtê-la tem sido orientado de modo a assegurar aos vivos a idéia da continuidade da existência pessoal, fazendo-os compreender que a mudança de mundo de nenhum modo enfraquece o amor ou destrói a memória – donde a ilação de que a felicidade terrena não fica irremediavelmente perdida com a morte dos entes caros. Com esse propósito muitos incidentes triviais são recordados, como os melhores para convencer a amigos e parentes de que uma certa inteligência, e não outra, deve ser a fonte donde provém as mensagens, sejam quais forem os meios de produzi-las.

Talvez o método de comunicação mais comum e fácil seja o da “escrita automática”, isto é, a escrita realizada por intermédio duma inteligência subconsciente; a pessoa que escreve deixa a mão livre para traçar o que lhe chega, sem nenhuma tentativa de controle.

Que usualmente nada consigam os noviços ou só obtenham verbiagem sem valor, é o que há a esperar; o notável está em certas pessoas obterem coisas com sentido, ligadas a fontes de informações inteiramente fora do seu alcance normal. Se numa pessoa existe um gérmen desse poder, torna-se possível, embora nem sempre desejável, desenvolvê-lo; mas faz-se mister muito cuidado, pertinácia e inteligência, para a boa utilização da faculdade. A não ser que se trate de pessoa de bom equilíbrio, autocrítica e sadiamente ocupada, o melhor é não entrar nesse caminho.

Em muitos casos de automatismo plenamente desenvolvido que me vieram ao conhecimento, o “automatista” lê o que vem e dá respostas orais, ou faz comentários às sentenças à proporção que elas surgem; de modo que a operação lembra uma conversa em que um fala e outro escreve – o lado que fala sendo usualmente o mais reservado e o lado que escreve o mais expansivo.

Lógico que nem todas as pessoas têm o poder de cultivar essa forma simples do que é tecnicamente conhecido como “automatismo agente”, uma das formas reconhecidas da atividade subliminal; mas muitas mais o teriam se o tentassem; embora para umas não fosse sensato e para outras de nada valesse.

A mentalidade intermediária empregada no processo parece ser o stratum usualmente submerso ou sonhador do automatista cuja mão é utilizada. Essa mão provavelmente atua por meio do mecanismo fisiológico normal, guiada e controlada pelos centros nervosos momentaneamente desconectados das partes mais conscientes e normalmente usadas do cérebro. Em alguns casos a matéria da escrita pode emanar totalmente dos centros nervosos e não ser de mais valor que um sonho; isto é freqüente no automatismo elementar posto em ação pelos instrumentos conhecidos como a “prancheta” e o “ouija”, em regra empregados pelos principiantes. Mas quando a mensagem se apresenta com valor evidencial, então é que essa parte subliminal da pessoa está em contato, telepaticamente ou de que modo seja, com inteligências no comum pouco acessíveis – com seres talvez vivendo à distância, ou mais freqüentemente com seres mais acessíveis que “passaram” a um estado em que a distância, no sentido em que a temos, nada quer dizer, a cujos elos de conexão de nenhum modo se revelam especiais. Escusa dizer que evidências de fenômenos desse tipo se tornam absolutamente necessárias, e que havemos de insistir no obtê-las; mas a experiência vem demonstrando que, aqui e ali, boas provas vão aparecendo.

Outro método é o do automatista em estado de transe. Nesse caso o mecanismo fisiológico parece mais suscetível de controle e menos falseável pela inteligência normal da pessoa em transe; de modo que mensagens de importância ou reservadas podem ser obtidas sem o conhecimento delas. Ao despertarem nada sabem do que transmitiram. A fala é nesse estado mais usada que a escrita, porque se torna mais cômodo para o recipiente, isto é, o amigo ou parente para quem a mensagem é transmitida. A personalidade comunicante pode ser a mesma que no outro caso atua por meio da mão do médium, e as mensagens podem ter o mesmo caráter das feitas por escrita automática, isto é, parcial. Mas no estado de transe surge uma caracterização dramática, com o aparecimento da entidade chamada “controle”, que na aparente ausência de seu dono ocupa o corpo do automatista.

A evidência real varia em muitos casos de acordo com a personalidade em ação. Freqüentemente acontece que pequenos traços pessoais, sem importância para terceiros, manifestam-se e destroem os últimos vestígios da descrença. O que a mais que isto ocorre depende de treino pessoal e do interesse. Em muitos casos qualquer inquérito científico falha nesse ponto, porque a comunicação passa a resumir-se num intercâmbio emocional de idéias domésticas. Em outros casos, emerge o desejo de produzir informações novas; e quando há suficiente receptividade e está em ação um médium de valor, muita informação instrutiva de ordem geral pode ser assegurada. Explicação, por exemplo, dos métodos de comunicação como vistos do outro lado; ou informações sobre a vida nesse outro lado; e ocasionalmente boas tentativas para esclarecer os nossos embaraços em matéria de concepções religiosas ou esclarecer-nos quanto às idéias sobre o Universo. Os comunicantes, entretanto, insistem em que os seus informes são de pouco mais valor que os nossos, e que também eles não passam de tateantes investigadores da verdade – da qual, todavia, sentem a beleza e a importância – e a infinitude inacessível à sua apreensão mental. O mesmo que se dá em nosso mundo.

Esse tipo de comunicação é o “inverificável”, porque não podemos testar as informações como o fazemos com as coisas da terra. Informações desta categoria têm aparecido em quantidade, e muitas foram publicadas; mas não podemos medir-lhes o valor, já que são inverificáveis.

Com freqüência vejo alegar-se que todas as comunicações psíquicas são de natureza trivial, ou só dizendo respeito a coisas sem importância. Mas as pessoas de experiência na matéria não podem aceitar semelhante opinião; enquanto persistir a preocupação de provar a sobrevivência e de identificar os comunicantes, serão justamente essas trivialidades reminiscenciais as mais adequadas aos fins mirados. Caso em que os fins justificam os meios. Os parentes ou amigos recebem referências a fatos verificáveis; e desde que para terem valor esses fatos não podem ser de natureza pública, ou dos que constam ou se deduzem de biografias ou da história, claro que têm de referir-se a coisinhas de família ou passagens humorísticas das que cravam na memória. Podemos admitir que tais fatos se redimem da trivialidade graças à dose de afeição que neles há e graças ao propósito em vista. A idéia de que o amigo ou parente morto tem que estar inteiramente ocupado com altos assuntos, sem já recordar-se das coisinhas da terra, não se justifica. Não há razão para que o “humour” seja coisa exclusivamente nossa.

Poderão perguntar-me se a todas as pessoas aflitas eu recomendo que se devotem à colheita de comunicações, como fiz e exponho neste livro. Claro que não. Sou um estudioso do assunto, e os estudiosos de um assunto têm que empreender trabalhos especialíssimos. O que a todos recomendo é a compreensão de que os seus entes amados persistem ativos, interessados e felizes – em certo sentido mais vivos do que nunca – e também que se preparem para uma vida útil na terra até o momento em que se reúnam a esses entes amados.

Os passos a dar para a consecução desta calma certeza é coisa que depende de cada um. Conseguem-no uns com as consolações da religião; outros, com idéias recebidas de pessoas em quem depositam confiança; outros, por meio de convicções hauridas de experiências pessoais. E se esta experiência pode ser obtida reservadamente, em calma meditação ou sonho, sem o auxílio de estranhos, melhor.

O que há a fazer é não fechar o espírito à possibilidade da continuação da existência; não é procurar egoisticamente diminuir a dor pela fuga de toda menção ou pela repulsa de tudo que possa lembrar os que morreram; nem é entregar-se à aflição sem fim. Estamos numa época ativa; e será ingratidão para com os que morreram pela pátria o deixar-nos arrastar pelo desânimo e o vivermos em lamentações em vez de conduzirmos uma vida o mais possível útil à pátria e à humanidade. Todos os passos tendentes a levar a este saudável resultado claro que se justificam; mas aconselhar o que fazer em cada caso individual é coisa que não me compete.

Venho sugerindo que o novo conhecimento, quando incorporado aos sistemas existentes, terá influência na região até aqui explorada por outras faculdades e considerada o domínio da fé. As conclusões a que fui levado não contradizem as obtidas pelas teologias mais adiantadas; embora eu tenha de confessar que o investigador de psiquismo não pode ter simpatias por pontos de vista eclesiásticos que se firmam em idéias idas. Se foge o investigador psíquico de atacar esses pontos de vista é unicamente por estar na certeza de que a seu tempo morrerão de morte natural. Há muito joio misturado do trigo para que outro, que não o especializado em eclesiástica, tente arrancá-lo.

Entrementes, e embora alguns dos exploradores oficiais da doutrina cristã condenem qualquer tentativa de investigação do assunto por meio de métodos seculares; e enquanto outros evitam criticar os resultados assim obtidos; alguns há que os adaptam aos seus ensinamentos, indiferentes ao risco de ofender irmãos de mente mais fraca.4




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