Oliver Lodge Raymond



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Capítulo V
Explanação elementar


Para os já familiares com assuntos psíquicos, ou que hajam versado obras sobre a matéria, escusa explicar o que é uma “sessão”. Os noviços ganharão com a leitura de livros como os de Sir W. Barrett ou J. Arthur Hill ou Miss H. A. Dallas, ao alcance de todos, ou a minha obra, A Sobrevivência do Homem.

Muitos graus de mediunidade existem, sendo um dos mais simples o que em estado normal, sob certas condições, permite receber impressões, ou produzir a escrita automática; mas é assunto muito amplo para ser tratado aqui. Limitar-me-ei a dizer que o tipo de mediunidade a que para este livro recorri é o em que o médium, depois de calma espera, entra mais ou menos em transe, e então fala ou escreve sob a direção duma inteligência tecnicamente conhecida como o “controle” ou o “guia”. A transição em muitos casos se efetua de modo calmo e natural. Imerso nesse estado, o médium adquire certo grau de clarividência ou lucidez acima da sua consciência normal, permissora de referências a fatos inteiramente fora do seu conhecimento. O “guia”, ou a terceira personalidade que fala durante o transe, parece estar mais intimamente em contato com o que é vulgarmente chamado “o outro mundo”, e portanto torna-se capaz de transmitir mensagens de pessoas mortas, transmiti-las por meio da fala ou da escrita do médium, usualmente com alguma obscuridade e atrapalhação, e com maneirismos pertencentes tanto ao médium como ao guia. O quantum de falseamento varia de acordo com a qualidade e o estado do médium nas diversas ocasiões; pode ser atribuído fisiologicamente ao médium e intelectualmente ao guia.

A confusão não é maior que a que poderíamos esperar de dois telegrafistas ligados por um instrumento delicado e de qualidade incerta, e que transmitissem informações dum estranho para outro. Um dos estranhos procura apanhar as mensagens transmitidas, embora não seja muito hábil em pô-las em palavras, enquanto o outro se conserva em silêncio e sem dar nenhuma assistência. O que recebe a mensagem, usualmente conserva-se mais ou menos suspeitoso de que aquilo é uma ilusão e que o seu amigo, ou parente – o comunicante – não está de fato ali. Sob tais circunstâncias, o esforço do comunicante dirige-se sobretudo para a recordação de coisinhas que desfaçam o natural cepticismo do receptor, fazendo-o admitir que o seu amigo está presente, embora fora do alcance sensorial dos vivos.

Sabemos que as comunicações sofrem o embaraço da influência inconsciente, mas inevitável, do mecanismo transmissor, seja ele de caráter mecânico ou fisiológico. Cada artista reconhece que tem de adaptar a expressão do seu pensamento ao material de que dispõe, e que o que é possível com um “médium” (no sentido artístico da palavra) não é possível com outros.

E quando o método de comunicação é puramente mental, ou telepático, temos de admitir que o comunicante do “outro lado” há que escolher suas idéias e utilizar-se dos canais peculiares ao médium; embora com a prática, e com muito engenho, esses ingredientes possam ser entretecidos de forma que traduzam as intenções mentais do comunicante.

Compreender a atuação duma mesinha em contato com músculos humanos constitui matéria muito mais simples. É coisa elementar, mas em princípio não parece diferir da escrita automática; entretanto, como se trata de um código de movimentos muito simples, parece ao noviço coisa mais fácil. Tão simples é, de fato, que se tornou uma espécie de brincadeira e caiu em descrédito. Mas não podemos deixar de reconhecer as suas possibilidades; e como é método mais direto, que não pede a agência duma terceira pessoa, constitui o sistema preferido por alguns comunicantes.

Admitam-no ou não, devo testemunhar que quando um objeto móvel é controlado desta maneira direta torna-se capaz de revelar muita emoção – e da mais feliz maneira. Uma chave de telégrafo dificilmente o conseguiria: tem o raio dos movimentos muito restrito; age dum modo descontínuo, ligando e cortando; mas a leve mesinha não se revela inerte, comporta-se como um ser animado. Durante a atuação torna-se animada – qualquer coisa como o violino ou o piano nas mãos do “virtuose” – e o dramático da ação desse modo conseguido é notável. A mesinha pode demonstrar hesitação ou certeza; pode pedir informação ou dá-la; pode aparentemente ponderar antes de vir com a resposta; pode saudar um recém-chegado; pode marcar compasso, como se estivesse num coro; e, mais notável que tudo, pode, de maneira mais inconfundível, revelar afeição.

A mão dum médium de escrita automática também fará isso; e que o corpo inteiro duma pessoa normal revele essas emoções, não é preciso dizer. Em ambos os casos tudo não passa de matéria, esta mais permanentemente animada que aquela. Mas todos esses tipos de matéria animam-se temporariamente – nenhuma permanentemente – e parece não haver nítidas linhas de demarcação. O que temos de compreender é que a matéria, sob qualquer forma, torna-se apta a atuar como agente da alma, e que com o auxílio da matéria várias emoções, bem como a inteligência, podem ser temporariamente encarnadas e reveladas.

A produção de música elementar por meio de qualquer objeto – tralha de cozinha, por exemplo – é coisa freqüente nos palcos. A utilização de objetos disparatados nas comunicações, embora não o fosse de esperar, pode incluir-se nessa mesma categoria.

Sabemos que com objetos feitos para esse fim, do violino aos bonecos dum teatrinho de marionetes, as paixões humanas podem ser exibidas ou estimuladas. A mesma possibilidade existe com objetos feitos para outros propósitos.

O jogo da mesinha é um velho passatempo conhecido de inúmeras famílias e, com muito acerto, já posto de lado; mas com as necessárias cautelas torna-se um meio de comunicação aceitável; e a soma de poder mediúnico necessário a esta forma elementar de atividade psíquica parece ser muito menor que a requerida em métodos mais elevados.

Uma coisa temos forçosamente de admitir: que em todos os casos em que um objeto se move por direto contato com o corpo do operador, inconscientes movimentos musculares se realizam; e tudo que vem duma causa conhecida ou suspeitada pelo operador deve ser descontado. Às vezes, todavia, a mensagem revela-se inesperadamente e de forma enigmática, dando informes desconhecidos do operador. O valor supranormal dessas comunicações têm que ser apreciado pelo seu conteúdo.

Não abordarei neste livro os casos ainda mais enigmáticos dos fenômenos físicos, como a “voz direta”, a “escrita direta” e a “materialização”. Nestas estranhas e, de certo ponto de vista, mais adiantadas ocorrências, a matéria inerte parece operada sem nenhuma intervenção do mecanismo fisiológico. Não obstante, esse mecanismo tem que permanecer nas proximidades. Estou inclinado a pensar que tais fenômenos, quando bem estabelecidos, se diluirão dentro dos que ora nos ocupam e que nenhuma teoria completa de uns e outros surgirá antes que sejam ambos muito mais conhecidos. Eis uma das considerações que me fazem fugir ao dogmatismo quanto à questão de se todos os movimentos provêm dos músculos. Limito-me a presumir-me contra qualquer decisão prematura. Este assunto da interação psicofísica requer muito estudo, em tempo e lugar; mas é campo traiçoeiro, de numerosos mundéus e pouco atrativo para muita gente. Esperemos que a artilharia de longo alcance haja destruído as defesas para só depois iniciarmos o avanço.



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