Oliver Lodge Raymond



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Capítulo VI
A mensagem do “Fauno”

Fatos preliminares


Raymond entrou para o exército em setembro de 1914, treinou em Liverpool e Edinburgo e em março do ano seguinte foi mandado para as trincheiras. Em meados de julho esteve em casa por alguns dias, de licença. A 20 voltou para o Front.

A mensagem inicial de “Piper”


A primeira sugestão que tive de que qualquer coisa má podia acontecer foi uma mensagem de Myers, colhida na América por Mrs. Piper, e aparentemente comunicada por “Richard Hodgson”, certa ocasião em que uma Miss Robbins estava em sessão em casa de Mrs. Piper, em Greenfield, New Hampshire, a 8 de agosto de 1915. De tudo fui informado por Miss Alta Piper, que me enviou a documentação original. Dou abaixo o relato do que, em certo momento da sessão de Miss Robbins, depois de tratarem de assunto que dizia respeito só a ela e nada a mim, começou abruptamente deste modo:

Richard Hodgson – Agora, Lodge, que não estamos aí como outrora, isto é, completamente, estamos, porém, aptos o suficiente para receber e enviar mensagens. Myers diz que V. toma a parte do poeta; e ele, a do Fauno.

Miss Robbins – Fauno?

Richard Hodgson – Sim. Myers. Protege. Ele compreendera (evidentemente referindo-se a Lodge). Que tem V. a dizer, Lodge? Bom trabalho. Pergunte a Mrs. Verral, ela também compreenderá. Assim pensa Arthur (refere-se ao Dr. Arthur Verral, falecido).

Carta de Mrs. Verral


A fim de interpretar esta mensagem, escrevi a Mrs. Verral, como foi sugerido, perguntando-lhe se a expressão O Poeta e o Fauno tinha para ela algum sentido, e se um “protegia” outro. Sua resposta veio breve a 8 de setembro:

“A citação refere-se ao que diz Horácio sobre a queda de uma árvore que por um triz o não matou; a proteção recebida ele a atribui a Fauno. Cf. Hor. Odes, II, XVii, 27; III, iv, 27; III, viii, 8. A alusão a Fauno está na Ode II, xvii, 27-39:



Me truncus illapsus cerebro
Sustulerat, nisi Faunus ictum
Dextra levasset, Mercurualium
Custus virorum.

(Fauno, o guardião dos poetas; “poeta” sendo a interpretação usual dos “homens de Mercúrio”).

As palavras citadas são rigorosamente aplicáveis à passagem de Horácio, como imediatamente percebi.

M. de G. Verral

Deduzo, pois, que desta interpretação da mensagem de Myers, a mim dirigida e evidentemente correta, a significação era que algum golpe iria sobrevir, ou tinha possibilidade de sobrevir, embora eu não pudesse saber qual; e que Myers interviria, aparentemente para proteger-me.

A mensagem chegou-me a 6 de setembro, na Escócia. Raymond faleceu em Ypres a 14, recebendo eu a notícia a 17. “Árvore que cai” é um símbolo de morte usado com freqüência, talvez devido a uma errônea interpretação do Eclesiastes, xi 3. Os demais eruditos a quem fiz a mesma pergunta foram unânimes em referir a citação de Horácio.

Resposta de Mr. Bayfield


Logo depois da morte de Raymond apresentei os fatos ao Rev. M. A. Bayfield, ex-diretor do Eastbourne College, como um incidente interessante para a S. P. R. e declarando, ao mesmo tempo, que Myers não pudera desviar o golpe. Eis a resposta recebida:

“Em nenhuma passagem dos seus poemas Horácio diz claramente que a árvore o apanhou, mas minha dedução é que o fez. Diz ele que Fauno “aliviou”, não que “desviou” o golpe. No vosso caso, a significação me parece ser de que o golpe sobreviria, mas não esmagaria; que seria “atenuado” pela asseguração dada por Myers de que o vosso filho ainda vive. Muitas criaturas, quando são assim golpeadas, ficam, como Merlin,



as dead,
And lost to life and use and name and fam

Isto me parece ter aplicação bem nítida à palavra sobre que Myers insiste e a toda a referência a Horácio”.

E no P. S. acrescenta:

“Os versos implicam que ele foi ferido pelo golpe, e na cabeça. Realmente, o perigo foi grande; e sou levado a crer que Horácio não se teria impressionado tanto se não fosse realmente alcançado pela árvore. Há em suas Odes quatro referências ao caso, todas fortalecendo a minha interpretação – e também a da mensagem de Myers, que devia estar bem consciente dos termos da citação dos versos de Horácio – e não teria dúvida de que o poeta não escapara ao golpe, o qual fora rude.”


Nota do autor


Embora alguns tradutores de Horácio se atenham à idéia do desvio do golpe, devo frisar que a maior parte dos eruditos consultados deram “aliviou” ou “atenuou” como a boa tradução. O prof. Strong diz: “Não há dúvida que levasset significa enfraqueceu; o galho da árvore caiu e alcançou o poeta, mas levemente, graças à intervenção de Fauno (variante latina de Pan). Levo tem comumente esse sentido, no clássico”.

A tradução em prosa de Bryce é clara – “um galho que caiu sobre minha cabeça teria sido o meu fim, se o bom Fauno não atenuasse o golpe”. E conquanto na tradução de Conington venha que “o golpe foi detido a meio caminho”, sua idéia é a mesma, porque foi detida a morte do poeta, não o golpe:



Me the curst trunk, that smote my skull,
Had slain; but Faunus, strong to shield
The friends of Mercury, check’d the blow
In mid descent.

Informação adicional


Mr. Bayfield também me relembra outra referência que recebi, oriunda de manifestação por meio da escrita automática, em casa ainda de Mrs. Piper, e datada de 5 de agosto, a qual me veio ter às mãos conjuntamente com a mensagem do Fauno.

“Sim. No momento, Lodge, tende fé e sabedoria (confiança) em tudo que é maior e melhor. Não haveis sido tão profundamente guiado e cuidado? Podeis responder que não? Graças à vossa fé é que tudo foi e irá bem.”

Recordo-me de ter ficado um tanto surpreso com as palavras acima, que me urgiam a admitir que todos – presumivelmente minha família – “tínhamos sido profundamente guiados e cuidados”, porque essa advertência parecia dizer que qualquer coisa estava iminente. Mas era alusão muito vaga para me preocupar, e ter-se-ia evaporado da minha cabeça se não fosse o aviso do “Fauno” dado três dias depois, embora por mim recebido juntamente com a mensagem – o que aceitei como uma profecia, realizável ou não. E realmente Raymond foi morto justamente uma semana depois da vinda da mensagem.



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