Oliver Lodge Raymond



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Capítulo VIII
O grupo fotográfico


Tratarei agora duma evidência de muito valor, que emergiu das sessões que de tempos em tempos fazíamos no outono de 1915: a menção dum grupo fotográfico tirado no Front, de cuja existência estávamos em completa ignorância, mas que subseqüentemente foi verificada do modo mais perfeito. Vou dar com detalhes todas as circunstâncias.

Raymond faleceu a 14 de setembro. A primeira referência a uma fotografia em que ele aparece com outros camaradas tivemo-la em casa de Mrs. Kennedy, a 27 desse mês, numa sessão que Lady Lodge obteve de Peters.

“A senhora tem diversos retratos desse moço. Antes que partisse ele deixou um bom retrato, dois – não, três. Dois em que está só e um em que está num grupo de homens. É curioso que eu tenha de falar-vos disto. Num desses retratos vê-se a sua bengala.” (Peters coloca uma bengala imaginária debaixo do braço de Raymond).

Tínhamos realmente algumas fotografias de Raymond em uniforme, mas sempre só; em grupo nenhuma; e Lady Lodge mostrava-se céptica a esse respeito, pensando que fosse apenas alguma suposição por parte do médium. Mas Mrs. Kennedy, que tomava as notas, deu tento a essa passagem e mandou cópia, com o resto, a Mr. J. Arthur Hill, que me tem assistido na correspondência e me classifica o material.

De minha parte, entretanto, impressionei-me com a observação de que “é curioso que eu tenha de dizer-vos isto” e tratei de investigar, embora sem grandes esperanças de bom resultado. Por dois meses não se falou mais no assunto. A 20 de novembro, porém, chegou-nos uma carta duma desconhecida, Mrs. Cheves, mãe do Capitão Cheves, o que nos escrevera sobre o ferimento de Raymond e ainda se achava no Front.

28 de novembro, 1915.

Prezada Lady Lodge:

Meu filho, que é M. O. do 2º South Lancs., enviou-nos um grupo fotográfico de oficiais, tirado em agosto, e eu desejava saber se a senhora possui essa fotografia. Se não, enviarei uma cópia, pois tenho meia dúzia e também a chapa. Espero que me perdoe incomodá-la, mas tenho pensado freqüentemente na senhora e também sinto a grande dor que a colheu.

Sinceramente,



P. B. Cheves.

Lady Lodge respondeu agradecendo e pedindo a remessa da cópia, a qual, infortunadamente, não veio de pronto.

Antes que chegasse tive uma sessão com Mrs. Leonard, em sua casa, a 3 de dezembro, e nessa ocasião, entre outras questões, indaguei da fotografia, na esperança de conseguir mais informações antes de recebê-la. Cumpre-me notar que o caso não foi sugerido por Mrs. Leonard ou o seu guia. A primeira menção ao grupo fotográfico fora feita através de Peters. Eis o resultado, em que Feda se manifesta e muitas vezes fala de si mesma na terceira pessoa:

Feda – Pergunte-lhe algo mais:

Lodge – Raymond referiu-se a uma fotografia tirada com outros homens. Ainda não vimos esse grupo. Não quererá ele dizer mais alguma coisa sobre o assunto? Ele falou duma fotografia.

Feda – Sim, mas pensa que não foi aqui. Ele olha para Feda e diz que não foi para Feda que se referiu a tal retrato.

Lodge – Não foi, não; ele está certo. Pode dizer onde e a quem?

Feda – Diz que foi por meio da mesinha.

Lodge – Não, não foi.

Feda – Ele desconhece a pessoa a quem falou. As condições eram estranhas lá – uma casa estranha.

(Certo. Foi dito através de Peters, na casa de Mrs. Kennedy, na sessão de 27 de setembro).



Lodge – Recorda-se da fotografia?

Feda – Pensa que outros se fotografaram com ele, não um ou dois, mas diversos.

Lodge – Amigos?

Feda – Diz que uns eram, mas não conhece a todos muito bem. Só conhece alguns; de outros conhece de ouvir falar; não eram todos amigos.

Lodge – Lembra-se de como aparecia nesse grupo?

Feda – Não, não se lembra disso.

Lodge – Não é o que pergunto; quero saber se estava sentado ou de pé.

Feda – Ele não supõe que estivesse de pé. Alguns estavam de pé em redor. Ele estava sentado, com outros de pé atrás. Uns sentados e outros de pé, supõe ele.

Lodge – Eram soldados?

Feda – Diz que sim – uma mistura. Um, chamado C, estava com ele; e alguém chamado R. – não o seu nome, mas outro R. K, K, K, – ele diz qualquer coisa a respeito de K. E também menciona um nome que começa por B (a pronúncia torna-se indistinta, dando idéia de Berry ou Burney; depois aclara-se). Tome nota de B.

Lodge – Estou perguntando da fotografia porque ainda a não vi. Alguém no-la vai mandar. Só sei que esse grupo existe e é tudo. (Quando isto anotamos, a fotografia ainda não tinha vindo).

Feda – Ele tem impressão duma dúzia de companheiros. Uma dúzia, se não mais. Feda supõe que deve ser uma fotografia grande. Não, ele não pensa assim. Diz que estavam agrupados muito juntos.

Lodge – Raymond estava de bengala?

Feda – Não se lembra disso. Lembra-se de que alguém inclina-se-lhe sobre o ombro, mas não tem certeza se foi fotografado assim. O último do grupo, que era B, deve estar saliente nessa fotografia. O grupo não foi tomado num atelier.

Lodge – Ao ar livre, então?

Feda – Sim, praticamente. (E a meia voz:) Que é que quer dizer com “sim, praticamente”? Deve ser fora de casa ou dentro de casa. Você disse “sim”, não é? Feda pensa que ele diz “sim”, porque também diz “praticamente”.

Lodge – Pode ter sido num galpão.

Feda – Pode sim. Procure mostrá-lo a Feda.

Atrás da fotografia vejo linhas que descem. Parece um fundo escuro, com listas. (Nesse ponto a mão de Mrs. Leonard traça linhas no ar).

Houve, por qualquer causa, considerável demora na chegada da fotografia. Só a tivemos na tarde de 7 de dezembro. No dia anterior Lady Lodge estivera lendo o diário de Raymond, remetido do Front com a sua bagagem, e encontrou esta nota:

24 de agosto: tiramos uma fotografia.

Raymond só tivera uma licença desde que partiu para o Front, de 16 a 20 de julho. Por esse tempo a fotografia ainda não fora tirada e nada, pois, nos disse a respeito. Foi tirada vinte e um dias antes de sua morte, e algum tempo tinha de passar-se antes que fosse copiada e ele a visse – se é que a viu. Em suas cartas nunca a mencionou. Estávamos portanto na mais completa ignorância do assunto.

No dia 7 de dezembro chegou-nos outro aviso de Mrs. Cheves, em resposta à nossa consulta sobre a demora, declarando-nos que a cópia ia ser mandada. Em vista disso ditei uma carta a Mr. Hill, dando minhas impressões sobre o que a fotografia podia ser à vista da comunicação recebida por intermédio de Mrs. Leonard. Nessa carta dizia eu o seguinte:

A respeito da fotografia que Raymond mencionou através de Peters (dizendo: “Uma em que está num grupo de homens. É curioso que eu tenha de falar-vos disto. Num desses retratos vê-se a sua bengala”), há mais coisas, obtidas através de Mrs. Leonard. Ponto duvidoso quanto à bengala. O que ele diz é que há muitos homens no grupo; que os da frente estão sentados e que há uma fila atrás; diz também que há uma dúzia ou mais no grupo e que alguns não eram seus conhecidos; e que há também um C; que ele está sentado e que há outros atrás dele, um dos quais apoiado em seu ombro, ou tentando apoiar-se.

A fotografia ainda não chegou, mas deve estar chegando; por isso envio essas notas antes que ela chegue. O relato do que foi dito na sessão está sendo datilografado; mas o que aqui escrevo representa o meu resumo do que houve.

A fotografia chegou a Mariemont na tarde de 7 de dezembro. Tarde chuvosa. O pacote foi recebido pela irmã de Raymond, Rosalynde, que abriu o envoltório molhado. Media 12 por 6 polegadas, ampliada dum original de 5 por 7. Era de 21 o número das pessoas fotografadas. Cinco na primeira fila, sentados na grama – e aí Raymond, o segundo da direita. Sete na segunda fila, sentados em cadeiras. Nove na última, de pé, de costas para uma construção provisória, de madeira, como que abrigo de hospital ou coisa assim.

Examinando a fotografia vejo que todas as peculiaridades que meu filho mencionou se confirmam. Está lá a bengala (que Peters pôs-lhe debaixo do braço, o que não é certo); e estão lá as linhas, ou listras, do fundo, que Feda indicou não só por meio dos gestos da médium, como ainda por meio das palavras “linhas que descem” – “um fundo escuro com listras”. De fato há seis linhas quase verticais e bem nítidas no teto do galpão, e as linhas horizontais do fundo também são bem perceptíveis.

Por “uma mistura” compreendemos que se trata de membros de diferentes Companhias – não só da Companhia de Raymond. Isto deve estar certo, porque os fotografados são muitos, para que todos pertençam à mesma Companhia. É provável que pertençam ao mesmo Regimento, exceto um, cujo boné parece revelar um emblema escocês, em vez das três penas.

Quanto ao que “está saliente”, consultei várias pessoas sobre qual lhes parecia o mais proeminente, e quase todas indicaram a esbelta figura da esquerda. É um B, como disse Feda – ou o Capitão S. T. Boast.

Alguns desses oficiais deviam ser apenas conhecidos de Raymond; outros, seus amigos. Oficiais cujos nomes começam com B, com C e com R – mas nenhum de nome que comece com K. Mas o som da letra K assemelha-se ao som do C duro – um que está no grupo: Case.

Alguns fotografaram-se sentados e outros de pé, atrás. Raymond sentou-se na frente, com a bengala aos pés.

O fundo da fotografia é escuro e nitidamente riscado de linhas.

Grupo tirado ao ar livre, junto a um galpão, ou cabana militar, o que foi sugerido por Mrs. Leonard quando falou em “abrigo”.

Mas o que mais me impressiona como evidência é o fato de estar alguém atrás de Raymond e apoiar-se em seu ombro. A fotografia mostra-o muito bem, e quase indica que Raymond não está contente com isso; tem a fisionomia um tanto amarrada e a cabeça afastada do braço importuno. É o único caso na fotografia de um a apoiar-se em outro, e não considero esse detalhe como dos que ficam na memória.


Confirmação da mãe de Raymond


Há quatro dias (6 de dezembro) estava eu lendo o diário de meu filho, devolvido do Front com a sua bagagem (meio encharcado, com algumas folhas grudadas pelo seu sangue). Impressionou-me encontrar esta nota: “24 de agosto: Tiramos uma fotografia”, e passei-a para o meu próprio Diário, nestes termos: “6 de dezembro – Li o Diário de Raymond pela primeira vez e encontrei esta nota: “24 de agosto: Tiramos uma fotografia”.

10 de dezembro, 1915.

Mary F. A. Lodge.

Acho desnecessário chamar a atenção do leitor para a importância deste caso. Mais tarde falou Raymond de outra fotografia em que disse estar incluído o seu amigo Case. Esta fotografia obtivemo-la de Gale & Polden, e de fato Case está nela conjuntamente com Raymond, embora não tenha figurado no primeiro grupo. Em tudo as duas fotografias diferem, de modo que se eu a houvesse recebido antes da outra, teria considerado como falsa a descrição de Feda, supondo ser desta que se tratava. E temos pois que o caso da fotografia veio a constituir uma das melhores peças de evidência que ainda conseguimos.




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