Oliver Lodge Raymond



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Capítulo IX
Amostra das primeiras sessões


Embora o episódio do grupo fotográfico seja uma alta prova evidencial, eu lamentaria ter de basear as minhas conclusões apenas em uma só prova, por mais inatacável que fosse. A prova deve ser cumulativa; e conquanto nos seja permitido exaltar as de grande força, há sempre necessidade de mais, de muitas, para que fique afastada a hipótese de leviandade.

Assim sendo, vou citar agora o que ocorreu em sessões realizadas depois da morte de Raymond por vários membros da nossa família. Devo acentuar que tais sessões foram sempre anônimas, com muito cuidado para que não transparecesse, nem no mínimo, a nossa identidade.

A primeira mensagem nos veio duma nova amiga de Londres, Mrs. Kennedy, que possui o dom da escrita automática, e depois de perder o amado filho Paul, anda controlada por ele. Usualmente Paul lhe transmite mensagens de afeição, mas às vezes também mensagens evidenciais. Mrs. Kennedy andara céptica quanto à autenticidade do dom que parecia possuir, e foi essa incerteza que a levou a escrever-me. Queria testar a escrita automática obtida e estava ansiosa por não decepcionar-se.

Lendo num jornal a notícia da morte de Raymond, Mrs. Kennedy “falou” a Paul a respeito, e pediu-lhe que o ajudasse. No dia 21 estava Mrs. Kennedy a escrever no jardim quando sua mão grafou estas palavras de Paul:

“Aqui estou... Vi aquele rapaz, filho de Sir Oliver; sente-se melhor e teve um esplêndido repouso. Conte-o aos seus pais.”

A 22 de setembro, durante uma “conversa” com Paul, a mão de Mrs. Kennedy também escreveu isto:

“Vou trazer Raymond a Sir Oliver quando ele vier ver-vos. Está muito contente – e todos o querem. Encontrou aqui uma quantidade de conterrâneos, e vai se firmando maravilhosamente. Diga-o ao seu pai e à sua mãe... Atualmente já fala claro... Não se debate como os outros, parece acalmado. Uma coisa agradável ver um rapaz assim. Esteve dormindo longo tempo, mas hoje falou.

Se os daí soubessem como ansiamos por aparecer, todos nos chamariam.”

No dia 23, durante a visita que Lady Lodge lhe fez, Mrs. Kennedy grafou nestes termos uma suposta mensagem de Raymond:

“Aqui estou, mãe... Também já estive com Alec, que não pode ouvir-me. Meu desejo é que ele saiba que estou seguro aqui; não é nenhum buraco triste, como muita gente supõe, antes um lugar cheio de vida.”

E depois:

“Espere até que eu haja aprendido melhor como falar... Poderemos dizer tudo depois. Dêem-me tempo.”

Escusado dizer que não há nisto nada de evidencial, embora seja o que há de natural.

Sessão de mesa com Mrs. Leonard


No dia seguinte Lady Lodge e Mrs. Kennedy, com uma senhora francesa, Mme. Le Breton, viúva que perdera os dois únicos filhos na guerra, Guy e Didier, e estava de coração partido, foram à casa de Mrs. Leonard para uma sessão de mesa. Mrs. Kennedy encarregou-se das notas.

As três damas e a médium sentaram-se em torno da mesinha, com as mãos levemente apoiadas, e tudo funcionou bem. Mensagens muito razoáveis foram transmitidas em francês. Guy deu o seu nome, mas Didier falhou em dar o seu – saiu “Dodi”. Também Raymond deu o nome de uma de suas irmãs e respondeu a mais coisas muito apropriadamente.

A 28 de setembro minha mulher e eu tivemos outra sessão com Mrs. Leonard, que por esse tempo já nos havia identificado.

Notas de Oliver Lodge sobre essa sessão


Uma sessão de mesinha não é a mais adequada à conversa psíquica, mas vale para as respostas breves e definidas, tais como nomes e incidentes. Tem a vantagem de ser interferida pela atividade mental do médium, tornando-se, por isso, mais direta. Mas há dificuldades. O oscilar da mesinha não é considerado “fenômeno físico” no senso técnico ou supranormal da expressão, embora não pareça determinado pelos músculos dos presentes. O esforço para mover a mesinha é mínimo, e evidentemente deve ser presumido como proveniente dos músculos. Mas a minha impressão é que tais movimentos constituem um início de “fenômeno físico”, e se a força vem dos presentes, não parece vir dum modo normal.

Quanto à evidência, porém, o caso deve ser limitado à inteligente direção da energia. Com segurança apenas podemos dizer que a energia é inteligentemente dirigida, que a parada da mesa na letra justa traz uma certa sensação de inibição para as mãos que sobre ela pousam. A luz pode ser o bastante para se verem as mãos, e a mesa opera à luz do dia. O método é o do desfilar do alfabeto até que a mesa se detenha em certa letra. A mesa move-se três vezes para indicar Sim e uma para indicar Não; mas como um só movimento também indica a letra A, existe a possibilidade de erros interpretativos por parte dos assistentes. Assim também C pode confundir-se com Sim, ou vice-versa – mas tal erro é pouco provável.

O guiamento inconsciente dificilmente pode ser excluído, isto é, não pode ser excluído com segurança quando a resposta é dum tipo esperado. Mas no caso vertente o nosso desejo era evitar esse controle; as paradas vinham às vezes em letras inesperadas; e uma longa sucessão de letras, breve se nos tornava sem significação, exceto para o que tomava notas.

Cumpre também observar que na sessão de mesa é natural que os assistentes realizem a maior parte do falado, e que tenham por objetivo respostas curtas e não dissertações.

Em certo momento o controle parece melhorar, talvez em conseqüência de melhor prática por parte do comunicante; e lá para o fim surgem sinais de enfraquecimento ou cansaço; e se a sessão chega a uma hora ou mais, o cansaço que sobrevém não é de nenhum modo uma surpresa.

Nessa sessão estivemos presentes minha mulher, o casal Kennedy e eu – com outra mesinha para o anotador das letras. Empregamos uma mesinha de vime, de 18 polegadas quadradas. Eu e minha mulher sentamo-nos frente a frente; os Kennedy e Mrs. Leonard ocuparam os outros lugares. Aos quatro minutos a mesa começou a mover-se.

O nome de Paul foi soletrado em primeiro lugar; e depois:

Raymond quer apresentar-se.

Aqui Lady Lodge murmurou: “Caro Raymond!” e inconscientemente emitiu um suspiro. A mesa, com Raymond no controle, soletrou:

Não suspire.



Lady Lodge – Suspirei?!...

Lodge – Raymond, sua mãe está muito mais feliz agora.

Sim.


Lodge – Posso propor perguntas?

Sim.


Lodge – Espere um momento. Vamos ver. Como os rapazes chamavam a você?

Pat.


(Isto era do nosso conhecimento e portanto não constitui resposta estritamente evidencial – mas não era do conhecimento da médium, nem de Mrs. Kennedy).

Lodge – Já que respondeu a isso, posso perguntar outra coisa?

Sim.


Lodge – Quer dar-me o nome dum seu irmão?

O alfabeto foi repetido pela médium da maneira usual e a mesa parou primeiramente no N; depois no O; no R; no M; depois no A. – Lodge achou que as letras R e M tinham vindo erradas, pois tendiam a formar o nome NORMAN, e disse:



Lodge – Você está confuso. Melhor recomeçar.

O nome foi reiniciado e deu:

Noel.

Lodge – Agora está certo (Ver Nota no fim do capítulo).

Fizemos aqui uma pausa, depois da qual a mesa indicou desejos de prosseguir e soletrou algo aparentemente sem sentido, que o Dr. Kennedy anotou:

Fogo!

Lodge – Oh, ele manda-nos que façamos outra pergunta! Pode dizer-nos o nome de um oficial?

Sim.


Lodge – Vamos lá, então.

Mitchell.



Lodge – O nome do oficial é Mitchell?

Sim.


Lady Lodge – Raymond, eu não conheço Mitchell.

Não.


Lodge – Melhor; será ainda mais evidencial.

Sim.


Lodge – Foi por isso que escolheu esse nome?

Sim. aer


Mrs. Leonard (a meia voz) – Não, não pode ser.

Lodge (idem) – Quem sabe lá? Vamos ver. Continue.

oplano.


Lodge – Quer dizer que Mitchell é oficial de aeroplano?

sim (muito forte).



Lodge – Tem muito que fazer aí, Raymond?

Sim (alto).



Lodge – Escute; vou dar outro nome.

Não.


Lodge – Não quer? Bem. Perguntarei outra coisa: Encontrou aí algum particular amigo meu?

Sim.


Lodge – Muito bem. Soletre-lhe o nome.

Myers e vovô.



Lady Lodge – Ele está com Myers e Gurney?

Não (com ênfase).



Lady Lodge – A que avô se refere? Dê a primeira letra de seu nome de batismo.

W.

Lady Lodge – Meu querido vovô! Ele tinha certamente de vir ajudar você!



Lodge – Acha este sistema da mesinha melhor que o de “Feda”?

Sim.


Lodge – Esteve interessado na Itália?

Sim.


Lodge – Lembra-se de certa pessoa na Itália?

Sim.


Lodge – Soletre o nome.

(Um nome foi soletrado corretamente).



Lodge – Você está perito nisso!

Sim (alto).



Lodge – Sempre gostou de coisas mecânicas.

Sim.


Lodge – Pode explicar como opera com a mesinha?

A mesa soletrou por longo tempo e como as palavras não aparecem divididas, os assistentes ficaram atrapalhados, sem nada entenderem. Eu, por exemplo, perdi-me depois da palavra “magnetismo”, e não achei sentido no que era soletrado. Mas o apontador tomou todas as letras e separou-as assim:

Vocês fornecem o magnetismo que se acumula no médium e passa para a mesa; e nós manipulamos.

O interesse dessa resposta está em que a mesa ia soletrando palavras sem nenhuma divisão, de modo que não podendo pegar o sentido não podíamos exercer controle. A noção dada não é evidencial, porque podia estar no conhecimento do médium; em muitos outros casos, porém, as coisas ditas estavam totalmente fora do conhecimento do médium.



Lodge – É o mesmo que aqui chamamos magnetismo, não?

Não.


Lodge – E você não objeta contra esse termo?

Não.


Lady Lodge – Pode ver-me, Raymond, quando não está com o médium?

Às vezes.



Lady Lodge – Quando penso em você?

Sim.


Lodge – Isso deve ser muito freqüente.

Sim. (alto).

Perguntei-lhe sobre algumas residências, das quais ele especificava certos aspectos numa sessão que tive com Peters em setembro. Raymond deu mostras de lamentar a confusão havida, e corretamente soletrou o nome de Grovepark como o de uma das casas, e Newcastle como o lugar em que ficava a “casa de mamãe”. Mas omito os detalhes.

Lodge – Precisa agora descansar, Raymond.

Sim.


Lady Lodge – Um daqueles seus sonos, Raymond...

Sim. (alto).


Observações feitas nesse mesmo dia


Muita coisa certa foi dita nessa sessão. Mas dois nomes apareceram que pediam comentário, porque os assistentes os não compreenderam e se fossem esclarecidos poderiam constituir ótima evidência.

O primeiro nome foi Norman, a propósito do qual muita coisa pode agora ser dita; mas acho melhor deixar para depois, porque de fato se trata de circunstância inesquecível e da mais alta importância.

O outro foi Mitchell, cuja existência no momento não podemos verificar. O ponto tem que ser adiado. Basta que eu consigne que até hoje (6 de outubro) esse nome nada nos diz.

Observação sobre o nome “Norman”


Verificamos que “Norman” era uma espécie de nome de guerra que meus filhos empregavam no jogo do hockey – o que faziam com freqüência como ginástica. Raymond, que era forte nesse jogo, tinha o hábito de gritar: “Agora, Norman!” ou outras palavras de animação para os mais velhos a quem ele queria estimular, especialmente para Lionel. Foi o que vim a saber agora. Posso pois testemunhar que até aquela sessão eu tudo ignorava quanto a esse nome. E minha mulher, idem.

Devo recordar que eu perguntara que nome os rapazes lhe davam, e que depois duns enganos, obviamente devido ao mau manejo da mesinha, ele respondeu com o de “Pat”. Muito certo. Perguntei-lhe então se podia dar-me o nome de um irmão, e a resposta foi “Norman”, que julgamos ser erro. Não o deixei manifestar a derradeira letra, o N, dizendo que estava confundido e pedindo que começasse de novo. Depois disso, a mesa soletrou a palavra “Noel”, aceita como certa. Mas tenho agora de observar que o nome “Norman” foi o melhor que ele podia apresentar, por ser um apelido que todos se davam uns aos outros. E um apelido assim constituía a melhor resposta, porque já havíamos aceitado o apelido “Pat”. Em subseqüentes ocasiões Raymond explicou que era o apelido que ele dava a Lionel, embora através de Mrs. Kennedy houvesse dito ser o apelido dado a Alec. Muito possível que nessa ocasião ele quisesse dizer Lionel e Mrs. Kennedy apanhasse Alec. Não sei. Em outra sessão em família, sem médium, um dos rapazes perguntou: “Pat, lembra-se de Norman?”, ao que, com alguma excitação, a mesinha respondeu: “Hockey”, fechando assim o círculo.

A parte mais rica de evidência, porém, foi a obtida quando nenhum dos presentes compreendeu o que fora dito, isto é, o nome “Norman”, que julgamos erro; e também a explicação dada a Mrs. Kennedy, de que era o nome pelo qual ele tratava um dos seus irmãos – o que revela que o nome fora pronunciado intencional e não acidentalmente.

Quanto ao apelido “Pat”, reproduzo aqui algumas passagens do Diário de Noel, como prova de que realmente era o apelido de Raymond – mas este fato nos era conhecido.

1914

Set. 09 – Pat vai a L’pool recomissionado.



Set. 10 – Pat comissionado no 3º South Lanc’s.

Set. 14 – Pat arranjando mochila. Inspecionamos os revólveres.

Set. 18 – Pat vai praticar tiro em Harborne. Não acha fácil.

Set. 19 – Torno-me membro do Harborne Rifle Club.

Set. 20 – Pat no tiro outra vez.

Set. 23 – Pat deixa L’pool para treinar em Crosby. Eu abandono por enquanto a idéia da comissão.

Out. 17 – Pat vem receber os velhos de volta da Austrália.

Out. 20 – Pat volta a L’pool.


Nota sobre o nome “Mitchel”


Quando perguntado, a 28 de setembro, sobre o nome dum oficial, Raymond soletrou a palavra “Mitchell” e associou-a com firmeza à palavra “Aeroplano”. Disse também que sua gente não conhecia Mitchell, o que vinha aumentar a evidência.

Depois de várias tentativas de identificação graças aos bons ofícios do bibliotecário da Biblioteca de Londres, vim a saber, a 10 de outubro, que havia um Segundo Tenente E. H. Mitchell adido ao Royal Flying Corps. Em conseqüência escrevi ao Record Office, e ultimamente, em novembro, recebi uma carta do Capitão Mitchell, ao qual peço desculpas de utilizar-me do seu nome:

“Muito agradecido pela sua bondosa carta. Creio que encontrei o vosso filho, embora não me lembre onde. Meus ferimentos estão quase sarados e eu adido por algum tempo ao Home Establishment, no posto de Capitão. Sua carta só me chegou esta manhã; daí a demora da resposta.”

E. H. Mitchell.

Para rematar este capítulo vou transcrever um trecho bastante característico de uma comunicação de “Paul”, embora não seja evidencial. Essa comunicação foi recebida por Mrs. Kennedy sozinha, a qual anotou nestes termos a parte a que me refiro:

“Acho difícil dar idéia da rapidez com que Raymond aprende; parece saber tudo aquilo que lutamos para que os outros aprendam.

Pobres criaturas, ninguém os esclarece antes que passem, e sofrem quando nos vêem e se sentem vivos – e os parentes aí chorando. Para a senhora e para mim a tarefa se torna cada vez mais dura, à medida que os dias se passam; seriam precisos milhares na empresa – e a senhora é tão pequena.”




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