Orelha da capa



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Orelha da capa


Sem dúvida alguma, Stephen King é o escritor mais popular da ficção americana. Ele deve a seus fãs uma carta de amor. Misery é essa carta.

Paul Sheldon, autor de uma série de romances de época que viraram best-sellers acorda num lugar estranho numa manhã de inverno: uma isolada casa de campo no Colorado. Ele acorda com dores terríveis (a bacia deslocada, o joelho esmagado e duas pernas quebradas) e com o extraordinário cumprimento da mulher que lhe salvou a vida: "Sou sua fã número um".

Annie Wilkes é uma robusta enfermeira que maneja habilmente remédios controlados pelo governo e maneja alguns instrumentos de forma abusiva, entre eles, um machado e um maçarico. Annie Wilkes, uma psicótica perigosa, com um sentido distorcido do que é bom ou mau, certo ou errado, pode ser a personagem mais aterrorizante de Stephen King. Para Annie, por exemplo, não é certo que sua personagem preferida, Misery Chastain, tenha sido morta por seu próprio criador — o que ela acaba descobrindo quando o último livro de Paul chega às livrarias. E ela não acha bom que seu escritor favorito não tenha sido uma abelha operária ao escrever um romance diferente, um romance nojento, o romance que ele sempre quis escrever, e cuja única cópia encontra-se agora nas mãos furiosas de Annie.

E como deseja que Paul seja uma boa abelha operária, Annie lhe compra uma máquina de escrever, uma resma de papel, e exige que ela traga Misery de volta. Preso a uma cadeira de rodas, viciado num remédio e trancado num quarto, Paul não tem outra alternativa. Ele é o artista mantido prisioneiro por seu próprio público. Um escritor metido em sérios apuros.

Mas escritores também têm suas armas...

Misery é um pesadelo que apenas Stephen King poderia ter concebido, e que apenas ele — e só ele — poderia ter contado com esta riqueza de detalhes tenebrosos. Gentileza dele dividi-los conosco.

Stephen King e sua esposa, a escritora Tabitha King, vivem em Bangor, Maine, e têm três filhos. Todos eles, afirma Stephen King, são Abelhas Operárias.

Gostaria de expressar meu agradecimento a três profissionais da área médica, que forneceram os dados concretos contidos neste livro. São eles:

Russ Dor, assistente particular;

Florence Dorr, enfermeira;

Janet Ordway, médica e doutora em Psiquiatria;

Eles me auxiliaram dando informações que, na maioria das vezes, passam despercebidas ao leitor. Caso percebam algum erro gritante, foi cometido por mim.

Evidentemente, não existe nenhum remédio com nome de Novril, embora existam vários medicamentos semelhantes a ele, compostos basicamente de codeína. Infelizmente, os ambulatórios hospitalares às vezes são muito relapsos em não manterem esse medicamentos muito bem guardados e em não exercerem um rígido controle de seus estoques.

Os lugares e personagens deste livro são fictícios.

S. K.
I
ANNIE
Quando você olha para dentro do abismo, o abismo também olha para dentro de você. Friedrich Nietzsche
1
fannnnn

umer ummmmm

fannnnn umer ummmmm

Isto ressoa: mesmo no nevoeiro.


2
Mas algumas vezes esses sons diminuíam — assim como a dor — e permanecia apenas o nevoeiro. Lembrava-se das trevas: trevas sólidas haviam precedido o nevoeiro. Isto significava que estivesse melhorando? Faça-se a luz (mesmo que nevoenta) e a luz foi feita. E dai em diante? Aqueles sons existiam durante as trevas Ele não sabia responder a essas perguntas. E fazia sentido formular tais perguntas? Não sabia responder a esta também.

A dor localizava-se em algum lugar abaixo dos sons, à esquerda do sol e ao sul dos seus ouvidos. E isso era tudo o que realmente sabia.

Por um período de tempo que lhe pareceu longo demais (e assim foi, já que a dor e o nevoeiro eram as duas únicas coisas que existiam), aqueles sons eram a única realidade exterior. Não tinha a menor idéia de quem ele era ou do lugar onde estava, e não fazia questão de saber, seria preferível ter morrido. Mas dentro daquele nevoeiro de dor que lhe envolvia a cabeça como nuvens de uma tempestade de verão, ignorava até mesmo este desejo.

Com o passar do tempo, percebeu que havia períodos sem dor, e que estes obedeciam a um ciclo. E então, pela primeira vez, desde que se elevara das trevas, precedidas pelo nevoeiro, ele teve um pensamento e este nada tinha a ver com qualquer que fosse a sua atual situação. Ele pensou numa estaca partida ao meio que fora fincada nas areias da praia Revere, onde seus pais freqüentemente o levavam quando criança. Ele sempre insistia para que estendessem a toalha num local onde pudesse contemplar aquela estaca, que lhe parecia uma presa saliente e solitária de um monstro ali enterrado. Gostava de ficar sentado e observar a maré vir subindo até cobrir a estaca e então, horas mais tarde, depois de terem comido seus sanduíches e a salada de batatas, depois dele ter persuadido seu pai lhe dar os últimos drops de Kool-Aid que ele trouxera dentro de uma enorme bolsa térmica, e pouco antes de sua mãe decidir que era hora de arrumarem as coisas para voltarem para casa, a ponta da estaca de madeira apodrecida tornava a aparecer. À princípio, via-se apenas um pedaço dela reluzindo por entre as ondas e, depois, ela começava a crescer, mais e mais. por volta da hora em que todo o lixo fora recolhido e jogado dentro de um enorme latão onde se lia mantenha sua praia limpa, em que todos os brinquedos de Paulie haviam sido guardados,

(Paulie, é esse meu nome eu sou Paulie e hoje à noite a mamãe vai passar óleo Jonhson's para crianças em minhas queimaduras de sol, pensou ele por entre as estrondosas trovoadas que agora vivia) e em que a toalha de praia já havia sido dobrada, a estaca teria reaparecido quase totalmente, com suas laterais escurecidas e gastas pelo limo, coberta de espuma. É o movimento das mares, tentara lhe explicar seu pai, certa vez. Mas ele sempre soubera que era por causa da estaca. A maré ia e voltava. A estaca permanecia, mesmo que algumas vezes não pudesse ser vista. Se não fosse a estaca, a maré não existiria.

Essa lembrança girava e girava em sua cabeça, como o vôo de uma mosca indolente, e ele tentou descobrir seu significado, mas os sons o interromperam por um longo tempo.

fannnn

liii tuuuuuuudo



fannnn umer ummmm

Às vezes os sons cessavam. Às vezes ele cessava. A primeira lembrança verdadeiramente clara deste "agora", o "agora" fora do nevoeiro da tempestade, era de ter morrido, de subitamente ter dado conta de que não conseguia mais respirar. Mas estava tudo bem, isto até era bom; conseguia suportar um pouco de dor, mas assim já era demais e ele sentiu-se feliz por estar chegando o seu fim.

Foi então que sentiu uma boca grudar-se na sua, sem dúvida alguma a boca de uma mulher, apesar dos lábios secos e duros. A respiração daquela mulher entrou pela sua boca, desceu-lhe pela garganta e lhe invadiu os pulmões, e quando aqueles lábios se afastaram dos seus, ele sentiu, pela primeira vez, o cheiro de sua carcereira. Sentiu-a pelo hálito da respiração, que ela forçara para dentro dele como um homem força certa parte de seu corpo dentro do corpo de uma mulher relutante. Era um hálito fétido, mistura de biscoitos de baunilha com sorvete de chocolate, molho de galinha e manteiga de amendoim.

Escutou uma voz que gritava:

— Respire, seu filho da mãe! Paul, respire!

Aqueles lábios encaixaram-se de novo aos seus e aquele hálito desceu por sua garganta abaixo, deslocando o ar como um trem do metrô que passa e levanta atrás de si folhas soltas de jornal e papéis de bala jogados pelo chão. Os lábios dela soltaram-se dos seus e ele pensou: "Pelo amor de Deus, não expire esse ar em cima de mim", mas ele não pôde evitar e aquele mau cheiro, oh que mau cheiro, que terrível mau CHEIRO.

— Respire, seu filho da mãe! — guinchou aquela voz que ele não via de onde vinha.

— Eu respiro, mas por favor não me faça isso de novo, não me contamine mais — e ele realmente tentou respirar, mas antes que terminasse, aqueles lábios grudaram-se de novo aos seus, aqueles lábios secos e mortos como duas tiras de couro curtido, E ela o invadiu com seu hálito novamente.

Quando ela tirou os lábios de sua boca, ele não só deixou que a respiração dela saísse de seus pulmões, como a expulsou com todas as suas forças, numa gigantesca expiração. Cuspiu-a para fora dele; e esperou que seus pulmões voltassem a trabalhar, da maneira como vinham fazendo durante toda a vida, sem qualquer ajuda sua. E como eles não voltaram, ele fez um esforço gigantesco e inspirou ruidosamente e aí, sim, seus pulmões voltaram a trabalhar sozinhos e com a maior rapidez, numa tentativa de expulsar o gosto e o cheiro daquela mulher para fora dele.

O ar comum nunca lhe pareceu tão agradável.

Ele começou a ver-se envolvido de novo no nevoeiro, mas antes

que aquele mundo se desvanecesse diante dele, ouviu a mulher murmurar:

— Ufa! Esta foi por pouco!

Não, não foi por pouco, pensou ele, e desmaiou.

Sonhou com a estaca, tão real, que ele quase podia tocar a ponta verde-musgo com palma da mão.

Quando voltou ao seu estado de semiconsciência, ele conseguiu relacionar a estaca com a sua situação atual — que lhe fugia das mãos. A dor nada tinha a ver com as marés — essa foi a mensagem do sonho que lhe ficou realmente na memória. A dor parecia ir e voltar, mas era como a estaca — às vezes visível, outras vezes coberta, mas sempre presente, quando a dor não o arrasava com aquele nevoeiro denso e cinzento feito pedra, ele agradecia silenciosamente, mas não se deixava enganar — ela ainda estava ali, esperando para reaparecer. E não era mais uma única estaca e sim duas; a dor eram as estacas, e uma parte já descobrira há um longo tempo o que só agora sua mente reconhecia: as estacas partidas ao meio eram suas duas pernas quebradas.

Só muito tempo mais tarde, porém, ele foi capaz de entreabrir os lábios colados um no outro pela saliva ressecada e resmungar um "Onde estou?" dirigindo-se à mulher sentada ao lado de sua cama, que tinha um livro nas mãos. O nome do autor daquele livro era Paul Sheldon e foi sem a menor surpresa que ele reparou ser esse um de seus livros.

— Sidewinder, Colorado —, respondeu ela quando ele finalmente conseguiu falar — Meu nome é Annie Wilkes e sou...

— Sei quem você é — interrompeu ele —, você é minha fã número um.

— Sim! — exclamou ela, sorrindo — é isso mesmo o que eu sou.


3
Trevas. Dor e nevoeiro. A seguir, tomar conhecimento de que, apesar da dor constante, ela era algumas vezes sufocada através de um acordo desagradável que ele supunha trazia-lhe alívio. A primeira lembrança verdadeira: a de ter morrido e de ter sido trazido de volta graças à respiração fedorenta daquela mulher.

Lembrança seguinte: os dedos daquela mulher enfiavam-lhe alguma coisa na boca, a intervalos regulares. Era algo parecido com umas cápsulas, mas como não lhe desse água, as cápsulas permaneciam em sua boca, e à medida que iam se desmanchando, deixavam um gosto terrivelmente amargo, como o de aspirina. Teria sido ótimo cuspir aquele amargor, mas ele sabia que era melhor engolir, pois era ele quem fazia a maré subir, cobrir a estaca

(ESTACAS são ESTACAS, elas são duas, tudo bem, elas são duas agora, mas fiquem quietas, vocês sabem, bem quietas quietinhas shhhhhhh) e fazer com que ela sumisse por algum tempo.

Todas essas lembranças lhe chegavam a intervalos bem espaçados, mas como a dor não cedesse e, sim, se desgastasse (tal como a estaca da praia Revere também devia ter se desgastado, já que nada é eterno, pensou ele — a criança que fora um dia teria certamente zombado de tamanha heresia), as coisas externas começaram a tomar um ritmo mais rápido e o mundo real, com toda a sua carga de lembranças, experiências e preconceitos, se restabeleceu. Ele era Paul Sheldon, e escrevia livros de dois tipos: os bons e os best-sellers. Casara-se duas vezes e se divorciara outras tantas. Era um fumante inveterado (ou tinha sido, antes que isso acontecesse, o que quer que "isso" significasse). Algo muito sério acontecia a ele, mas ainda estava vivo. O nevoeiro cinza-chumbo começou a se dissipar cada vez mais rápido, antes mesmo de sua fã número um lhe comprar a velha Royal, com seus estalidos, seu sorriso amarelo onde faltava um dente, e sua voz de Ducky Daddles. Mas muito antes disso, Paul já havia compreendido que estava numa bruta de uma enrascada.


4
A fração intuitiva de sua mente via aquela mulher antes mesmo que ele desse conta que a estava vendo, e devia também tê-la compreendido antes mesmo dele pensar que a estava compreendendo — e por que outra razão ele associava a ela imagens tão sinistras e ameaçadoras? Todas as vezes em que ela entrava no quarto, vinha-lhe à cabeça a imagem de túmulos, do destino, e de ídolos cultuados por supersticiosas tribos africanas, descritas nos romances de H. Rider Haggard.

A imagem de Annie Wilkes como uma deusa africana saída de livros como She ou As minas do rei Salomão era, não só ridícula, como também estranhamente apropriada. Ela era uma mulher corpulenta e, com exceção dos seios volumosos e nada convidativos que sobressaíam por baixo do casaco de malha cinza com que estava sempre vestida, seu corpo parecia totalmente desprovido de curvas femininas — não se notavam as curvas da cintura, das nádegas, e nem mesmo as da batata das pernas, sempre escondidas pelas diversas saias de algodão que usava em casa (quando cuidava de suas tarefas ao ar livre, ela se recolhia em seu quarto e colocava calças jeans). Seu corpo era robusto, mas nada atraente. Passava-lhe a sensação de algo coagulado, fechado, sem orifícios, sem espaços abertos ou hiatos.

Acima de tudo, ela lhe dava a perturbadora sensação de solidez, como se não houvesse ali veias ou órgãos internos, como se ela pudesse ser apenas uma compacta Annie Wilkes, de um lado a outro e de cima a baixo. E estava cada vez mais convencido de que os olhos dela, embora aparentassem se mover, eram apenas pintados. Eles não deviam se mexer mais do que os olhos de certos rostos pintados, que dão a impressão de segui-lo com o olhar para qualquer lado que você ande. Imaginava que se pudesse enfiar dois dedos de sua mão por dentro das narinas dela, não conseguiria avançar nem três milímetros, e logo esbarraria numa superfície sólida (talvez levemente suada ao toque dos dedos); até mesmo o casaco cinza, as saias antiquadas que usava em casa, e o jeans desbotado para as tarefas no quintal, pareciam fazer parte daquele corpo fibroso, sólido e sem orifícios. Sendo assim, a sensação de que ela fosse como uma deusa num romance impetuoso não o surpreendeu nem um pouco. Como os ídolos, ela oferecia uma única coisa: um terror incômodo, constante e profundo. Como um ídolo, ela tudo dominava.

Não, espere um pouco, isso não está correto. Ela realmente oferecia alguma coisa a mais. Ela lhe dava as cápsulas que faziam a maré subir, cobrindo as estacas.

As cápsulas eram a maré; Annie Wilkes era a presença da lua, enfiando-lhe cápsulas na boca como quem joga detritos ao mar. Ela lhe dava duas cápsulas a cada seis horas. A princípio, ele percebia a chegada dela quando sentia dois dedos entrando-lhe pela boca (muito cedo ele aprendeu a absorver avidamente aqueles dedos nojentos, apesar do gosto amargo do remédio), e, mais tarde, já a distinguia pelo casaco cinza e uma de suas muitas saias. A noite, ela sempre trazia consigo um de seus livros. Surgia num roupão felpudo cor-de-rosa, o rosto reluzente e besuntado de creme (ele seria capaz de dizer facilmente o principal componente daquele creme, mesmo que jamais tivesse posto os olhos na embalagem: o cheiro de lanolina era forte e notório) e o sacudia, tirando-o de seu sono profundo. Trazia suas cápsulas aninhadas na palma das mãos e ele percebia, por trás dos ombros sólidos daquela mulher, a lua cavernosa, aninhada a um canto da janela

Passado algum tempo — depois do seu temor ter se tornado evidente demais para ser ignorado — foi que ele percebeu que ela o vinha dopando com um analgésico chamado Novril, composto por uma alta dosagem de codeína. A razão por que ela não precisasse lhe trazer a comadre com a freqüência habitual não se devia apenas ao fato de estar numa dieta baseada unicamente em alimentos líquidos e gelatinosos (anteriormente, durante o nevoeiro, ela o alimentara por via intravenosa), mas também por que o uso de Novril acarretava prisão de ventre nos pacientes que o tomavam. Outro efeito colateral do Novril, e este muito mais sério, era a redução do nível respiratório em pacientes sensíveis. Paul não se encaixava particularmente nesta categoria, embora fosse um fumante crônico há quase dezoito anos, mas sua respiração havia parado de verdade pelo menos uma vez: quando ela lhe fizera respiração boca a boca. Era possível que houvessem ocorrido outras paradas respiratórias durante o nevoeiro, mas ele não poderia lembrar. O que aconteceu a ele poderia ter sido apenas uma parada respiratória, mas ultimamente vinha suspeitando que ela quase o matara com uma acidental dose excessiva. Ao contrário do que se imaginava, ela não sabia tanto assim a respeito do que estava fazendo. E isso era apenas uma das coisas que o amedrontavam em Annie.

Cerca de dez dias após ter emergido das trevas, Paul descobriu três coisas quase ao mesmo tempo. A primeira delas era a certeza de que Annie dispunha de uma grande quantidade de Novril (na verdade, ela dispunha de uma grande quantidade de remédios, de todos os tipos). A segunda, que estava viciado em Novril. E a terceira, que Annie Wilkes era uma mulher louca e muito perigosa.
5
As trevas haviam antecedido a dor e o nevoeiro; pouco depois, ele começou a lembrar do que existia antes das trevas, à medida que ela ia contando o que havia acontecido. Ele fizera as perguntas habituais que uma pessoa normalmente faz após recobrar a consciência e fora informado que se encontrava na pequena cidade de Sidewinder, no Colorado. Ela lhe contou que lera cada um de seus oito romances pelo menos duas vezes, e que os seus prediletos, os livros da série Misery, ela havia lido umas quatro, cinco, seis vezes talvez, e que desejara que ele pudesse escrevê-los com mais freqüência. Ela contou ainda, que mal pôde acreditar que o seu paciente fosse mesmo o escritor Paul Sheldon, mesmo depois de ter conferido o documento de identidade, que estava na carteira.

— E por falar nisso, onde anda minha carteira? — perguntou ele.

— Eu a guardei num local bem seguro — respondeu. Subitamente, porém, o sorriso dela se fechou e seu semblante anuviou-se, numa expressão que ele não gostou nem um pouco — era como descobrir uma fenda muito profunda no meio das flores de verão em um campo aprazível.

— Você acha que eu teria coragem de roubar alguma coisa de sua carteira? — indagou ela.

— Não, é claro que não. É que... —É que toda a minha vida está ali naquela carteira, pensou ele. A minha vida longe deste quarto. Longe dessa dor. Longe do jeito com que o tempo parece se esticar, como um fio comprido e cor-de-rosa de chiclete que um menino estica com a mão quando está aborrecido — porque é isso o que está acontecendo nessa última hora mais ou menos, enquanto as cápsulas não vêm.

— E então, meu caro? — insistiu ela.

Aterrorizado, ele percebeu que os olhos dela se fechavam e tornavam-se cada vez mais sombrios. A fenda estava se abrindo, como um terremoto se alastrando por trás das sobrancelhas. Ele podia ouvir o gemido penetrante do vento lá fora e, subitamente, lhe veio à cabeça a imagem dela levantando-o pelos ares e jogando-o por cima dos ombros sólidos. Ele cairia estendido no chão como um saco de estopa atirado contra uma parede de pedras e ela o deixaria lá fora até transformar-se num bolo de neve. Ele morreria de frio, mas, antes disso, suas pernas latejariam e ele gritaria de dor.

— É só porque meu pai sempre me dizia para não tirar os olhos de minha carteira — retrucou ele, assombrado com a facilidade com que a mentira lhe saíra dos lábios.

Seu pai tinha um modo de vida tal, que nem dava conta da existência de Paul, a não ser para o absolutamente necessário. Tanto quanto podia se lembrar, seu pai só lhe dera um único conselho em toda a sua vida. No seu décimo quarto aniversário, seu pai havia lhe dado um envelope pequeno com uma camisinha Red Devil dentro.

— Deixe isso na carteira — dissera Roger Sheldon —, e se algum dia você ficar excitado com alguma garota num drive-in, perca um segundo entre excitado o bastante para querer e excitado demais para se preocupar e coloque a camisinha. Já tem criança demais neste mundo e não quero ver você entrando para o exército aos dezesseis anos de idade.

— Meu pai me disse isso tantas vezes, que nunca mais me esqueci prosseguiu Paul. — Peço desculpas se a ofendi.

Ela se descontraiu. Abriu um sorriso, a fenda fechou-se. As flores de verão balançavam no campo outra vez. Ele imaginou que se enfiasse uma de suas mãos dentro daquele sorriso não encontraria nada além de trevas, ainda que flexíveis.

— Não fiquei ofendida. Sua carteira está bem guardada. Espere um pouquinho só... tenho algo para você.

Ela saiu do quarto e retornou logo depois trazendo um prato nas mãos, onde boiavam alguns legumes numa sopa fumegante. Ele não conseguiu comer muito, mas ainda assim comeu mais do que julgara de início, e ela pareceu ficar satisfeita. Enquanto lhe dava a sopa, ela ia contando o que havia acontecido e ele foi se lembrando de tudo à medida que ela falava. Afinal, era bom ficar sabendo como você aparece com as duas pernas quebradas, embora a maneira como você ficasse sabendo de um fato como esse fosse bastante perturbadora — era como se ele fosse personagem de um livro ou de uma peça, um personagem cuja biografia não fosse recontada como uma história e, sim, fosse sendo criada como uma história de ficção.

Ela havia ido a Sidewinder em seu jipe de tração nas quatro rodas; pretendia fazer algumas compras na mercearia e se abastecer com ração para seus animais... ah, sim, também queria ver os livros novos que haviam chegado no Wilson's. Isso fora há quase duas semanas, numa quarta-feira, pois os livros novos sempre chegavam às terças.

— Eu ia pelo caminho pensando mesmo em você! — recomeçou ela, enquanto lhe dava outra colherada e, muito profissionalmente, enxugava com um guardanapo uma gota que ficara no canto da boca. — E isso é que torna essa coincidência mais incrível ainda, você não percebe? Eu ia pensando que O filho de Misery tivesse finalmente saído, mas, para azar meu, não tinha chegado ainda.

Segundo ela, uma tempestade estava a caminho, mas até o meio-dia o serviço de meteorologia garantia que ela seguiria para o sul, em direção ao Novo México e Sangre de Cristo.

— Foi isso mesmo — recordou-se ele. — Eles disseram que ela mudaria de direção. À princípio, foi por isso que resolvi sair.

Ao tentar mexer as pernas, sentiu uma dor dilacerante e Paul soltou um gemido.

— Não faça isso, advertiu ela. — Se permitir que suas pernas abram a boca, elas não vão mais parar de falar. . . e eu não posso lhe dar o remédio durante as próximas duas horas. Eu até já estou lhe dando cápsulas demais. . .

Porque não estou num hospital? Essa era a pergunta a ser feita, mas ele não estava certo que tanto ele quanto ela quisessem tal pergunta sendo formulada. Pelo menos, não por enquanto.

— Quando cheguei à mercearia, Tony Roberts me aconselhou a entrar e esperar que a tempestade passasse, antes de começar a voltar para cá e eu lhe disse que. . .

— Qual é a distância daqui até a cidade? — interrompeu ele.

— Uma boa distância — respondeu ela, vagamente, olhando pela janela.

Houve uma pausa desagradável e Paul ficou aterrorizado pelo que viu no rosto dela, porque nele só havia o vazio; o negro vazio de uma fenda que se abre nos campos de uma colina; o negro vazio onde flores não crescem e onde uma queda poderia não mais ter fim. Aquele era o rosto de uma mulher que se desligara momentaneamente de suas opiniões, de suas referências, de toda a sua vida. Era o rosto de uma mulher que perdera não só o fio da história que contava, mas que perdera também toda a memória. Ele visitara um hospício certa vez (há alguns anos atrás, quando estava colhendo material para o livro Misery, o primeiro dos quatro da série que acabou sendo sua principal fonte de renda nos últimos oito anos) e já havia visto aquele olhar, ou, melhor dizendo, aquele não-olhar. Essa expressão vazia no olhar era chamada de catatonia, mas para o que deixara Paul aterrorizado, ainda não havia uma expressão definida. Talvez fosse melhor explicá-la com uma vaga comparação: naquele momento, era como se os pensamentos dela houvessem se transformado na mesma consistência de seu corpo: pensamentos sólidos, fibrosos, sem orifícios, sem espaços vazios ou hiatos.



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