OrganizaçÃo do corpus diacrônico do português paulista



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ORGANIZAÇÃO DO CORPUS DIACRÔNICO DO PORTUGUÊS PAULISTA

Coordenador: Marcelo Módolo (USP) modolo@usp.br, marcelomodolo@hotmail.com



SANTOS, Vinícius Gonçalves dos. Sangue limpo de autoria de Paulo Eiró. Distribuição feita por modolo@usp.br, marcelomodolo@hotmail.com

SANGUE LIMPO


DRAMA ORIGINAL EM TRES ACTOS E PROLOGO
POR
Paulo Eiró
Representado pela primeira vez no Theatro desta Cidade| a 2 de Dezembro de 1861
________________
São PAULO
TYPOGRAPHIA LITTERARIA
Rua do Imperador numero 12

___
1863


AO
EXelentissiMo SenhoR DoutoR ANTONIO JOAQUIM RIBAS
OFFERECE
O Autor
PREFACIO
Seja-me permittido escrever algumas linhas preliminares, não em| favor da obra, pois como disse Madame de Stael, « um livro de-| fende-se a si mesmo », nem para expender difficuldades insepara-| veis de um ensaio em genero tão escabroso de litteratura, mas| para manifestar o pensamento capital que presidio á confecção| d'este drama.

Em principios do anno de 1859, o Conservatorio Dramatico Pau-| listano, tentando pôr em pratica uma idéa cheia de patriotismo,| abrio um concurso litterario, destinando premios para o melhor| drama original, revestido de moralidade, que tivesse por assumpto| algum dos gloriosos episodios da historia de nossos pais. Apezar de| minha fraqueza e obscuridade, propuz-me a entrar na liça, satis-| feito de antemão com a idéa de ser vencido por engenhos nasci-| dos no mesmo berço. Lançando um ligeiro olhar sobre o nosso| passado, descubri sem grande custo o assumpto que desejava. E' com| razão que Charles Ribeyrolles disse que a nossa historia tinha uma| pagina, a da Independencia ; e eu já pensava assim antes do ta-| lentoso proscripto francez. Sim, é do Ypiranga que data a nossa| vida real ; nunca se poderá chamar dia ao espaço que precede a| aurora. Este assumpto porém, tão bello e tão nacional, traz com-| sigo graves inconvenientes. O Illustrissimo Senhor Doutor Paulo Antonio do Valle| ennumerou-os todos em uma carta, publicada por esse mesmo tempo,| e assignalou os perigos a que se expunha o escriptor incauto que| ousasse apresentar na scena os vultos veneraveis e ainda palpitantes| dos Andradas e do primeiro imperador. Concordando plenamente| com a opinião desse illustrado Paulista, auctoridade em semelhantes| materias, pareceu-me entretanto que a pintura fiel da épocha, afas-| tadas as personagens principaes, teria ainda encanto bastante para| prender os espectadores.

Achada a moldura, faltava delinear o quadro.

Todos sabem de que elementos heterogeneos se compõe a população| brasileira, e os riscos imminentes que presagia essa falta de uni-| dade. Não é sómente a differença do homem livre para o escravo ;| são as tres raças humanas que crescem no mesmo solo, simultanea-| mente e quasi sem se confundirem ; são tres columnas symbolicas| que, hão de reunir-se, formando uma pyramide eterna, ou tom-| barão esmagando os operarios ! Penso eu (e este pensamento pare-| ce-me digno de ser a divisa de todos aquelles que trabalham no| magnifico edificio da arte nacional), penso eu que o presente deve| ser preparador do futuro ; e que é dever de quantos teem poder| e intelligencia, qualquer que seja a sua vocação e o seu posto, do| poeta tanto como do estadista, apagar essas raias odiosas, e comba-| ter os preconceitos iniquos que se oppoem á emancipação completa| de todos os individuos nascidos nesta nobre terra. Essa grande re-| volução, infallivel porque é logica, triumphante porque é santa, não| ha de ser contemplada pelos mais mancebos de hoje ; restar-nos-ha| porém a gloria de haver-lhe aplainado o caminho.

Não será dramatico desenrolar a velha bandeira do Ypiranga, e| nella apontar como antithese monstruosa a nódoa negra da escra-| vidão, verme nojoso que róe a flôr de nossas liberdades ? Não será| dramatico mostrar o que fizeram nossos pais, e o que nós temos a| fazer para coroar sua obra ?

Foi possuido desta idéa que eu utilizei os bellos dias de Janeiro| do anno passado, escrevendo o drama–SANGUE LIMPO. Encetando uma| empreza que me parece de alta moralidade, e que outros comple-| tarão mais efficazmente, aggredi as preoccupações que existem contra| os homens de côr. Bem sei que a execução não está á par da idéa ;| balbuciei uma lingua nova para mim, e o meu enthusiasmo juve-| nil extravasou por vezes dos moldes frios e inflexiveis do drama| moderno. Julgo porém haver attingido o meu fim. Só ao genio é| dado começar pelo irreprehensivel.

Poetas, artistas, cultivadores do bello, semeadores incognitos do| futuro, não esmoreçamos. Esta épocha vai rica de materialismo, de| descrença e de ignominias politicas : mas um dia erguer-se-ha o| sudario gelado desta nova Pompeia; e do cadaver só subsistirá o| cràneo, séde da intelligencia !
1.º de Setembro de 1862.
PAULO EIRÓ.
PESSOAS DO DRAMA

_____
Dom JOSÉ DE SALDANHA

AYRES DE SALDANHA

RAPHAEL PROENÇA

VICTORINO

MENDONÇA


LIBERATO

BRAZ


1.º DESCONHECIDO

2.º DITO


UM MILITAR

UM CABO


LUIZA PROENÇA

ONISTALDA


POVO, SOLDADOS
A acção passa-se na Cidade de São Paulo, no anno de| 1822, desde 25 de Agosto até 7 de Setembro.
____________

PROLOGO.
Pateo do Collegio, com vista da igreja ao fundo, e á direita o| Palacio do Governo, cujas janellas devem estar illuminadas e com| gente. Ao subir o panno uma banda de musica toca no centro| da praça o hymno constitucional de 1820, findo o qual, das ja-| nellas de Palacio rompem vivas á Constituição, a el-rei Dom João 6.º,| ao principe regente e aos briosos Paulistas : o povo corresponde| enthusiasta, e cricúla pelo pateo ; n'este passeio prolongado tra-| vam-se os dialogos seguintes.


SCENA I.
Dom JOSÉ E UM MILITAR.
Dom JOSÉ.
Vêde ! O principe não podia ser mais ardente-| mente recebido e victoriado.
MILITAR.
E comtudo elle não quiz acceitar a guarda de| honra que lhe preparavam !
Dom JOSÉ.
Auras populares, ovações ephemeras ao homem| que representa um pensamento, e que durarão até| que outro pensamento desça, como Moysés do| monte, e faça em pedaços o idolo.
MILITAR.
Que importa o futuro ? Ninguem conta com elle.| Antes que passe a monção, terá Sua Alteza chegado| a seus fins ambiciosos.
Dom JOSÉ.
Culpa têem os que o impelliram em tal caminho.| Não lhe sabiam da indole ? Dom Pedro de Alcantara| não sabe receber ordens de quem quer que seja.
MILITAR.
Como vos enganais ! A desobediencia do principe| nunca teve por motivo o pundonôr offendido. Há| muito que elle vive sonhando com uma corôa ame-| ricana, de ouro, cravada de diamantes.
Dom JOSÉ.
O que prova isso ? Que só elle sabe differençar| o falso do verdadeiro, e considera o futuro com| olhos perscrutadores.–E entretanto pareceia que a| Providencia se propunha a renovar os destinos da| velha Lusitania ! Amigo, a mudança da côrte para| o Novo Mundo era talvez a realização do unico| meio de salvar Portugal. Quando a bandeira de| Ourique esvoaçasse n'este immenso paiz, por onde| se derramaria a superabundancia de nossa popu-| lação, cujos productos encheriam nossos cofres, cujas| florestas forneceriam o material para nossos esta-| leiros ; quando chamássemos a este grande mer-| cado as noções industriosas do mundo, estaria sa-| cudido para sempre o jugo pesado, que nos im-| põe a Inglaterra, o cadaver da monarchia erguer-| se-hia do túmulo em que dorme há tres seculos,| e seriamos de novo senhores do Atlantico. E que| murmurassem os filhos da Europa ! que nos im-| portava o egoismo de uma provincia remota ? Lá| só existiam as recordações gloriosas do passado ;| aqui porém estava a grandeza do futuro. Aqui...| estava uma epopéa, não a das luctas estereis do| Oriente, mas a das lides pacificas e dos fructos sa-| zonados da civilização.–Os portuguezes rejeitaram| esse brilhante destino. Fazia-lhes falta o docel da| realeza, o grupo matizado dos cortezãos ! Estavam| tão ermos os paços de Belém ! Clamaram em altas| vozes pelo seu monarcha esses vassallos zelosos :| Dom João VI obedeceu-lhes e abandonou o Brazil.| Desde esse dia está consummada irremissivelmente| a separação. De hoje ávante o oceano rolará entre| dous povos.
MILITAR.
Assim será, não duvido, mas o principe nem| por isso deixa de ser.... (Hesitando)
Dom JOSÉ.
O que ?
MILITAR.
Não o direi alto, que muitos curiosos nos cer-| cam (Afastam-se).
SCENA II.
1.º E 2.º DESCONHECIDOS.
1.º DESCONHECIDO.
(Em scena) E' um heróe o nosso defensor per-| petuo.
2.º DITO.
(Idem) E um heróe popular, meu caro reverendo.
1.º DITO.
Os nosso partidarios das côrtes é que estão se| mordendo, mas procuram fazer boa cara. Menos| susto lhes causou a vinda do Candido do que ago-| ra esta augusta visita.
2.º DITO.
Foi uma medida de politica bem perspicaz, e cu-| ja utilidade já reconheceu o principe na sua via-| gem a Minas. Pena será que elle não saiba apro-| veita-la. Os fructos estão maduros, porque não há| de colhê-los ?
1.º DITO.
E onde melhor que em São Paulo ? Mas o princi-| pe que tome as suas medidas antes que chegue o| sabio Mentor que deve conduzi-lo ás côrtes da Eu-| ropa, afim de aprimorar a sua educação.
2.º DITO.
Ah ! ah ! ah ! que vão esperando.
1.º DITO.
Olhem que a desconfiança torna bem tolos os ho-| mens, ainda que sejam deputados. (Vão-se rindo)
SCENA III.
RAPHAEL, LUIZA E VICTORINO, DESCENDO.
VICTORINO.
Meu Deos, como está bonito isto ! Que alvoroto !| Desde os tempos do conde de Palma, ou do marquez| de Alegrete, que não vejo o povo contente como| está hoje.
RAPHAEL.
O que o povo quer é festa.
VICTORINO.
Mas festa em que haja liberdade e não arrogan-| cia e bazofias de magnatas.
LUIZA.
Apreciem a variedade de gente que há. Aqui vê-se| de tudo ; a baeta roça nas sedas, a farda das milicias| encontra-se com o poncho dos caipiras ; olhem lá,| ás direitas ! um negro esbarrando-se na batina de| um padre. Nunca vi semelhante mistura de pobres| e ricos, de velhos e crianças. A cidade toda está| aqui.
RAPHAEL.
Signal certo de que a alegria é geral.
VICTORINO.
Não é tanto assim. Gente de outra banda não| vejo muitos, salvo algum negociante de jaqueta,| raça de judeus, a quem o almotacé tem multado| vinte vezes, e que tem por timbre servir tanto a| Deus como ao diabo.
RAPHAEL.
Que fim levou a tia Onistalda ?
VICTORINO.
Cansou-se de navegar por este mar bravo, e foi| dar fundo á porta da casa de fundição.
LUIZA.
Psiu ! Deixem-me ouvir a musica (Intervallo de| musica ; continúa o passeio e alguns vivas).
SCENA IV.
Dom JOSÉ E O MILITAR.
MILITAR, continuando.
Essa gloria era pura de mais para elle. Preferio| revoltar-se contra a auctoridade paterna, e adular| tendencias revolucionarias.
Dom JOSÉ.
Basta. Não vos posso seguir a esse terreno : sou| servidor do principe...
MILITAR.
Primeiro que tudo sômos portuguezes, bem que| degenerados filhos dos heróes da India. Abata-se| quem quizer ; eu não hei de comer angú para agra-| dar espiritos revoltosos.
MILITAR.
Sentido ! Estais provocando um povo inteiro...
MILITAR, desdenhoso.
Se ouvisseis o que por ahi dizem !..
SCENA V.
OS MESMOS E AYRES.
AYRES.
Até que os encontrei.
Dom JOSÉ.
És tu, Ayres ? Que andas fazendo ?
AYRES.
Passeio, meu pai, e divirto-me com o que vejo.
MILITAR, jovialmente.
E quaes são as bellezas que o encantam ?
AYRES, no mesmo tom.
As da natureza, meu coronel. São Paulo é um| viveiro de moças bonitas, mas em compensação as| velhas são horriveis.
Dom JOSÉ, rindo.
E' o effeito dos contrastes.
SCENA VI.
OS MESMOS, RAPHAEL, LUIZA, E VICTORINO,| (EM ANGULOS OPPOSTOS DA SCENA).
LUIZA.
Que linda noite ! Até o céo pôz luminarias.
MILITAR, a Ayres.
Parece-me que sabe aproveitar os seus vinte an-| nos. Ora, diga-me que tal lhe parece aquella tri-| gueirinha, que alli vem acompanhada de dous fi-| gurões, um delles sargento de linha ? Falle : Dom Jo-| sé lhe permitte ser franco.
AYRES.
Essa de vestido branco, que está olhando agora| para as janellas de palacio ?
MILITAR.
Essa mesma.
AYRES.
E' a segunda vez que a vejo...
MILITAR.
E que mais ?... (maliciosamente).
AYRES.
E pela segunda vez confesso que é de rara per-| feição.
MILITAR.
Rara perfeição ! Isso é ser avarento de palavras.| Olhe-a bem. Que corpo formoso e languido ! Que| movimentos cheios de graça e de indolencia ! Como| o brilho de seus olhos é adormecido ! parecem duas| estrellas gemeas, em noite quente de verão.–Real-| mente é a mistura mais deliciosa da raça branca| com o typo indiano.
Dom JOSÉ.
Valha-nos Deus ! Está-me parecendo que ídes fa-| zer um estudo sobre as bellezas paulistanas.
MILITAR.
Estudo superficial. Deixo ao vosso Ayres o cuida-| do de aprofundal-o.
AYRES, rindo.
Ah ! ah ! ah ! Coronel, qual de nós é o rapaz ?
MILITAR.
O senhor, que duvida ! Mas eu já o fui tão-| bem. Hoje o meu coração é cinza, mas cinza que| ainda conserva calôr.
RAPHAEL, amuado.
Que nos quererão aquelles fidalgos, que tanto| para nós olham ?
VICTORINO.
Para nós, não, para Dona Luiza.
LUIZA, com vaidade.
Deixa-los, não me hão de derreter.
AYRES.
Até já.
MILITAR.
Que vai fazer ?
AYRES.
Vou.... estudar. (Segue de longe a Luiza : Dom José| e o Militar desapparecem por entre o povo).
SCENA VII.
RAPHAEL, LUIZA E VICTORINO.
RAPHAEL.
Sabem o que eu desejava agora ? Era ser o prin-| cipe. Queria sahir a furto do palacio, acotovellar| desconhecido esta multidão, respirar o incenso da| popularidade, ouvir meu nome repetido mil vezes,| e formar um livro agradavel de todas estas palavras| entrecortadas, de todas estas perguntas indiscretas,| de todos estes vivas incessantes.
VICTORINO.
Seria o livro mais mentiroso que se tem escripto.
LUIZA.
Quem sabe ! Já ouvi dizer que Sua Alteza gos-| tava de passeiar incógnito como aquelle rei das| Mil e uma noites.–Eu tãobem desejava, mas era| saber se aquella condessa que lá vai coberta de| seda e joias estará mais alegre e feliz que eu.
RAPHAEL.
Penso que não. A soberba é mãe da desgraça.| O ouro é brilhante, mas não deixa de ser metal.
VICTORINO.
Pois eu, como já esto cansado do passeio, que-| ria antes estar no theatro, ouvindo a Zacheli cantar| algum duetto, ou assentado ao balcão de um bo-| tequim, a comer pasteis e bolos de arroz.
RAPHAEL.
Se querem voltar para casa....
LUIZA.
Que pressa ! se ainda é tão cedo ! Demos outro| gyro pelo pateo e depois voltaremos.
RAFAEL.
Pois bem ; fica passeiando com o Victorino, em| quanto vou comprar alguns doces para ti. Eu logo| volto.
LUIZA.
Procrure-nos aqui ; sim, mano ?
RAPHAEL.
Está dito. (Vai-se : Ayres e o militar no fundo).
VICTORINO.
Estou com medo que a tia Onistalda pegasse no| somno ahi por algum canto.
LUIZA.
Lá começa a musica : vamos ouvil-a de mais per-| to. (Afastam-se. Intervallo de musica).
SCENA VIII.
1.º e 2.º DESCONHECIDOS, O MILITAR E DEPOIS| RAPHAEL.
1.º DESCONHECIDO.
Que noticias há de Lisboa ?
2.º DITO.
Más. Continúa a mesma obstinação dos portugue-| zes na guerra que fazem á emancipação brasileira.| Esperam-se novos decretos repressivos. Os deputa-| dos paulistas têem-se assignalado na defeza dos nos-| sos direitos. Antonio Carlos sobretudo faz lembrar os| Regulos e Pompilios. Mas não é de qualquer d'esses| nobres campeões que depende hoje a sorte do Bra-| sil. A hora da independencia está a soar, bate agora| talvez ; mas sem um nome prestigioso que conte-| nha as ambições, sem uma aguia possante que em-| punhe esse feixe de raios, tenho bem medo que a| hydra da anarchia venha dilacerar-nos.
1.º DITO.
Assim é de temer. Não existem acaso as antipa-| thias do provincialismo, origem de tantas dissen-| sões ? Ficará o Brazil retalhado em republicas como| está succedendo á America hespanhola : sem contar| com os partidistas dedicados que Portugal conserva| em algumas provincias.
2.º DITO.
Desses não me temo. Acho impossivel que o Bra-| sil continúe unido á corôa portugueza. (Ao Militar)| Não pensa assim, meu caro senhor ?
MILITAR.
Não vejo impossibilidade em uma união que exis-| te há tão largo tempo.
RAPHAEL, procurando alguem.
Aonde foram elles ?
2.º DESCONHECIDO.
O estado actual é muito differente : lusos e bra-| sileiros têem-se extremado.
MILITAR, com escarneo.
Sim... graças á vossa mistura de sangue.
RAPHAEL, voltando-se vivamente.
Chama-nos então.... mestiços ?
MILITAR.
Póde entender como quizer.
RAPHAEL.
Mestiços ! Ah ! meu bravo, a vós outros cabe| metade da injuria. Tomai-a ! (Animando-se) Não vos| envergonhais de lançar-nos em rosto consequencias| do crime por vós praticado ? Por vós, que tendes| feito da America um pelourinho? Por vós, que não| podendo obrigar o indio a cultivar a terra de que| o despojastes, ídes procurar além dos mares servos| mais obedientes e mais vís?–Quaes serão os que,| ainda não satisfeitos com a exploração infame dos| sentimentos do amor e da paternidade, não desde-| nham fecundar o leito da escravidão ? Somos nós,| de certo.–Sois generosos em demasia : não o achais,| senhores ?
MILITAR.
Bravo ! Está fallando como um lettrado.... mas| não me admiro : parece-me interessado na causa| que advoga com tanto calôr.
RAPHAEL, sério e contendo-se.
Basta de insolencias, senhor. Se o seu trajo não| é um disfarce, dirijo-me a um militar ; eu trago| tãobem uma espada que ganhei na Cisplatina. Quer| dar-me a honra de vir commigo ?
2.º DESCONHECIDO.
Mestiços a nós.... que insulto !
MILITAR.
Nunca recusei um desafio. Se bem que proposto| por um inferior.... Vamos !
RAPHAEL.
Tende a bondade de seguir-me. (Vão-se).
2.º DESCONHECIDO.
Que tal lhe parece esta ? (Para o 1.º).
1.º DITO.
As affrontas não me admiram. Estes lobos de| boa vontade nos estrangulariam, se o seu poder| chegasse a tanto.
UM HOMEM DO POVO.
Viva o nosso bravo sargento !
UMA MULHER.
Que fez elle ? Como se chama ?
O HOMEM.
Raphael Proença. E' meu conhecido, e acaba de| desafiar um atrevido mata-mouros que estava a| apouquentar-nos, á nós Brasileiros. Lá está se ba-| tendo, Deus o ajude.
A MULHER.
Oh meu Deus ! Vou já correndo contar isto á| minha chará. (Vai-se).
1.º DESCONHECIDO.
Verá como a noticia espalha-se em pouco tempo| por todo este povo.
2.º DITO.
Basta que as mulheres entrem nisso. (Afastam-se.| Vai-se levantando um borborinho no povo).
SCENA IX.
LUIZA E VICTORINO.
LUIZA.
Paremos aqui : o mano não póde tardar.
VICTORINO.
São dez horas, e o povo cresce cada vez mais| e fica desassocegado. Dizem cada mentira ! Uns| fallam em recrutamento ; outros em levante dos| portuguezes, inimigos do nosso principe, que Deos| conserve por muitos annos....
LUIZA.
Cousas sem pé nem cabeça.
VICTORINO.
As cousas sem pés são as que andam mais, e as| que perderam a cabeça mais presumem de ter in-| teirinho o miôlo.–Dona Luiza, está vendo aquelle su-| jeito pimpão, que ali passa com chapéo amarro-| tado e uma casaca do tempo de Martim Affonso ?
LUIZA.
Estou vendo. Quem é ?
VICTORINO.
Sem mais nem menos é aquelle a quem devo a| honra de vir a este mundo, posto que por decen-| cia chamem-me filho de pais incognitos. O que há| muito nesta terra são pais de filhos incognitos, se-| meadores que não colhem. Este bom velho creio| que nunca pensou na minha existencia, e eu dei-| xo ficar a cousa assim, porque não desejo herdar| o seu chapéu amarrotado, nem a sua casaca decré-| pita. (Redobra o tumuto na multlidão).
SCENA X.
OS MESMOS E A MULHER DE HA POUCO.
LUIZA.
Olhe, Victorino, como o povo está amotinado. O| que será aquillo ?
A MULHER.
Não sabe então, minha flôr ? Eu lhe conto. E'|um desafio que houve entre um sargento....
VICTORINO.
Um sargento !
A MULHER.
Sim, é um guapo sargento, bravo com um leão.| Desafiou uma duzia de soldados, dos portuguezes,| e lá estão malhando.
VICTORINO.
E como se chama elle ?
A MULHER.
Ora, deixe-me lembrar.... Raphael Proença.
LUIZA, atemorizada.
Meu irmão !
A MULHER.
Ah ! é seu irmão ? Pois saiba que é um valente| homem. Até logo : vou correndo contar isto ao meu| compadre. (Vai-se apressada).
VICTORINO, anciado.
Espere um pouco, mulher. Conte-me onde elles| estão.... (segue-a correndo ; grande reboliço do povo).
LUIZA.
Victorino, aonde vai ? Não me deixe só, por pie-| dade ! (Uuma onde de povo envolve-a, cáe). Me acudam !| (Musica).
SCENA XI.
LUIZA E AYRES.
Confusão. O povo afasta-se e deixa vêr Ayres, que traz Luiza| desfallecida para o meio da scena. A agitação vai ces-| sando gradualmente.
AYRES.
Oh meu Deos, quasi a suffocaram. Que linda ca-| beça ! Vou conduzi-la para alguma casa, até que| recobre os sentidos.
LUIZA, tornando a si.
És tu, Victorino ?
AYRES.
Não, mas creia que é um amigo. Sente-se melhor,|menina ?
LUIZA, confusa.
Sim, já estou boa : deixe-me ir procurar meu| irmão.
AYRES, detendo-a.
Bem vê que isso agora é impossivel ; não se| póde atravessar a praça. Diga-me aonde fica a sua| casa ; para lá iremos, e em breve ter-se-há noticias.
LUIZA.
Mas deixa-lo em meio de tantos inimigos !
AYRES.
Está enganada ; eu estive presente ao desafio. O| contrario de seu mano é um velho militar, um| pouco teimoso, mas de excellente coração. Creio| que se contentarão com cruzar as espadas.
LUIZA.
Ah ! senhor, Deus o encha de bençãos pelo que| acaba de dizer-me ! já estou tranquilla. Deixe-me| buscar uma pessoa conhecida com quem possa vol-| tar á minha casa.
AYRES.
E porque não serei eu mesmo ?
LUIZA.
Não quero dar-lher mais esse incommodo.
AYRES.
Eu lhe chamo felicidade. Aonde mora ?
LUIZA.
Rua da Cruz preta, em uma esquina.
AYRES, batendo na testa.
Louco que sou ! Hoje é o primeiro dia que pas-| so nesta cidade ; não conheço ainda as ruas. Tome| a senhora mesma o caminho, e eu a acompanharei.| Aqui o meu braço ; firme-se nelle.
VICTORINO, chegando.
Dona Luiza, aqui estou.
LUIZA.
Ah, Victorino, não pensava que fosse assim ! A| não ser.... este senhor, ficava eu hoje pisada por| todo esta gente.
VICTORINO.
Agradeço muito a elle os seus fovores, e peço| perdão á senhora : mas quando ouvi fallar que o| padrinho estava cercado de inimigos, não pude dei-| xar de acudir.
LUIZA.
Encontrou-o?
VICTORINO.
Sim. Houve intervenção da policia e tudo aca-| bou por duas cutiladas.
AYRES.
Senhora, vejo que já não necessita do meu pres-| timo : bem a pezar meu, deixo a sua companhia.| O que me consola é que, graças a esta noite, por| algum tempo lembrar-se-há de mim.
LUIZA.
Como de um amigo generoso, a quem devo tal-| vez a vida. Vamo-nos, Victorino. Deus o guarde,| senhor, e o felicite pelo bem que me fez.
AYRES.
Felicitar-me !... ah ! bem o podia a senhora, sem| recorrer a Deus ! (Pausa. Luiza e Victorino partem).
SCENA XII.
AYRES, só.
(Seguindo Luiza com os olhos). Rua da Cruz pre-| ta, em uma esquina.... Heide vê-la ainda uma vez.| (Pensativo). E' tão formosa ! (O movimento do povo| tem cessado : a musica repete o hymno constitucional.| Cáe o panno).


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