OrganizaçÃo do corpus diacrônico do português paulista



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FIM DO PROLOGO.
ACTO I.
ENTREVISTA DE AMOR.
ACTO I.
________

Sala pequena em casa de Raphael Proença. Uma janella de postigo, á| esquerda. Portas no fundo e á direita. Mobilia no gosto antigo,| cadeiras forradas de couro, candieiro de cobre sobre o bufete.


SCENA I.
RAPHAEL, VICTORINO DE BRAÇOS CRUZADOS, LUIZA| SENTADA NO VÃO DA JANELA E ONISTALDA COM UMA| CANDEIA NA MÃO.
RAPHAEL, afivellando o cinturão.
Então, tia Onistalda, que noticias nos dá da cêa ?| Olhe, que eu tenho pressa de sahir !
ONISTALDA.
Tenha mais um bocado de paciencia, Inhôzinho,| que a meza já está posta.–Ai ! eu não posso lidar| tanto. Estou do meio dia para a tarde.
VICTORINO.
Tarde, diz ella ! Isso é cousa que já passou : vá| rezando as Ave Marias, tia Onistalda, que vossuncê| já regula por ahi.
ONISTALDA.
Salta p'ra lá, tagarella ! eu te arrenego. Vim aqui| dentro buscar.... não sei o que.... ah sim ! uma| faca que deixei alli.
VICTORINO, á parte.
Tomei quezilia com esta mulher. Que figura ?| Parece um sacco de pinhões.
ONISTALDA, passando por Luiza.
(Em voz baixa). Síu, nhanhã !... elle está ahi| defronte.
RAPHAEL.
(Pegando rapidamente no braço de Onistalda, que| deixa cahir a candeia) Como ! que está ahi dizendo,| mulher ?
ONISTALDA, a tremer.
Ai ! pois mecê ouvio ?
RAPHAEL, irado.
Responda-me, se quer viver. Quem é esse elle?| não me está ouvindo ?
LUIZA, chegando-se.
Mano !
RAPHAEL.
Com mil demonios ! O que ella te disse, Luiza?
VICTORINO.
Ora, ora ! forte novidade ! Padrinho, quem está| ahi é o preto aguadeiro.
ONISTALDA.
Sim, é elle mesmo.... o Luiz.... Veio buscar o| dinheiro.... de dous barris.
VICTORINO, á parte.
Vá mais esta para o sacco !
RAPHAEL.
(Depois de alguns momentos de duvida). Então para| que diabo são estes segredos ? (Larga Onistalda que| respira com ruido). Paguem o que devermos ! não| quero crédores.
ONISTALDA, erguendo a candeia.
Ah ! minha Nossa Senhora, que mão pesada !
RAPHAEL.
Vamos, marche para a cozinha, que é lá o seu| lugar. (A' parte). Ai de quem me quizer enganar !| (Onistalda sahe ; Luiza torna-se inquieta).
SCENA II.
RAPHAEL, LUIZA E VICTORINO.
VICTORINO.
Pobre mulher ! Sahio vendendo azeite ás canadas.
RAPHAEL.
Vai-me fechar aquella janella, Luiza.–Póde bem| ser que fizesse agora um juizo temerario, mas é| certo que não me fio inteiramente d'esta mulher....| e nem aconselharei aos outros que se fiem.
VICTORINO.
Tem ao menos uma virtude, bem rara nos indios.| Não bebe.
RAPHAEL.
Má virtude está essa em quem gosta de fabricar| mexericos : não se descobrem com tanta facilidade.| Mas vejam se tenho ou não razão de desconfiar.| Hontem, á bocca da noite, voltando para casa, ví| a tia Onistalda que da porta da rua estava a con-| versar com um individuo, que não pude reconhecer,| por causa do capote em que estava embuçado.| (Luïza presta grande attenção).
VICTORINO.
Talvez algum parente.... Ella os tem por toda| parte.
RAPHAEL.
Não era, porque a tia Onistalda tractava-o por| senhor. Uma suspeita instinctiva, que não pude| vencer, fez-me parar na esquina. O embuçado pa-| recia pedir alguma cousa que lhe era negada, até| que tirando um objecto branco, que julgo ter sido| uma carta, entregou-o á velha e desappareceu. Mos-| trei-me então. A tia Onistilda estava confusa.... eu| não lhe disse palavra.... Confesso que envergonhei-me| de patentear a minha espionagem. Pretendo dar-lhe| alguma gratificação e despedi-la brevemente, pois| não preciso de correios em casa.
VICTORINO.
Isso não quer dizer nada. E' scisma sua, padri-| nho.
RAPHAEL.
Scisma?–Pois vão ouvindo. Hoje, ao levantar-me,| fui direito á janella e abri-a. Por dentro do posti-| go, que casualmente ficára aberto, ví eu.... advi-| nhem o que !... uma rosa branca. Linda flôr na| verdade, mas seria fatuidade em mim acreditar que| me era destinada.... como seria milagre ter brota-| do alli no espaço de uma noite.
VICTORINO.
Ahi está uma cousa bem galante. O padrinho a| receber flôres ! Isto não faz-lhe rir, Dona Luiza ?
RAPHAEL, a Luiza.
De que estás triste ?
LUIZA, a custo.
De nada, mano.
RAPHAEL.
Tenho-te estranhado, há uns poucos de dias. Tu,| tão jovial, tão amiga de rir e brincar, tens ficado| séria de repente.... andas sempre a pensar.
VICTORINO.
E isto em tempo de festa, quando a nossa cidade| está feita côrte ! Estou certo que.... a rosa branca,| achada pelo padrinho, foi posta alli.... pela mão| d'algum desses bonitos officiaes, de bigodes tão bem| retorcidos.
RAPHAEL, severo.
Está certo ?
VICTORINO.
Quero dizer.... que assim me parece. Elles apre-| ciam muitos esses galanteios.
RAPHAEL.
E para quem seria a flôr ?
VICTORINO.
Para.... Dona Luiza, por exemplo.
LUIZA, vivamente.
Para mim !–Está enganado.... eu não procuro| ser vista.
VICTORINO.
Perdôe.... eu não fallava sério. (Ironico). Bem| sei que a senhora não cubiça essas honras... não| busca os que estão ácima de nós.
RAPHAEL.
Assim deve fazer sempre. Eu lhe dou o exemplo.| (Disfarçando). Fallemos em outra cousa. Sabem uma| novidade ? Sua Alteza Real parte ámanhã para a| villa de Santos.
VICTORINO.
Boa noticia para os figurões.... de cá.
RAPHAEL.
Como assim ?
VICTORINO.
Pódem agora encurtar os cordões da bolsa, e fa-| zer a somma total da despeza.
RAPHAEL.
Esse total há de espanta-los certamente.
VICTORINO.
Padrinho, perdôe-me o atrevimento. Se eu fosse| Vosmicê aproveitava esta occasião.
RAPHAEL.
Qual occazião ?
VICTORINO.
Muita gente tem sido despachada. Porque não há| de requerer ao principe um posto mellhor ? Não é| cousa difficil. Quem guerreou tanto lá pelo Sul pó-| de pedir alguma mercê sem se envergonhar.
RAPHAEL.
Eu.... pedir ? Não tenho geito para isso, nem| vontade.
VICTORINO.
Ser alferes não é desgraça.
RAPHAEL.
Como soldado possuo o bom conceito e a amiza-| de dos meus companheiros. Subindo a official, des-| pertaria a inveja.... isso é o menos.... soffreria os| desdens d'aquelles, que não têem metade dos meus| serviços.
VICTORINO.
Quem se deixa desprezar tendo uma espada á| cinta ?
RAPHAEL.
Que mal conheces o mundo ! A honra é a ge-| ração ; ninguem me tira disto. Em vão nasce um| homem, á semelhança de Deus, possuindo intelli-| gencia, rico de vontade e esperanças. Se a natureza| imprimio-lhe no rosto uma côr odiosa, se a fortuna| atirou o seu berço para dentro de uma choça, todos| os seus esforços serão baldados, trabalhará inutil-| mente. Quando mesmo conseguisse elevar-se, ergue-| ria comsigo a humiliação. Martyr de seus deveres,| dando a vida pela patria, seu destino, sua recom-| pensa é o esquecimento ; não haverá uma cruz hu-| milde para fazer menção de sua morte.–Não, Vic-| torino, eu nada pedirei.
VICTORINO.
Como quizer, padrinho.
RAPHAEL.
Que estás fazendo ahi, Luiza ? Queres abrir a| janella.... para que fim?
LUIZA.
Pareceu-me ouvir bulha fóra.
RAPHAEL.
E' engano teu : eu nada ouço.
VICTORINO.
Há de ser algum pateta que volta das lumina-| rias, fallando em Constituição, garantias, e nas| visagens que nos estão fazendo os taes deputados| do Reino. E' o que se tracta nas praças, nas casas,| nas boticas, em toda parte.
RAPHAEL.
As cabeças estão a arder. Possa acabar isto sem| grandes disturbios, e para maior honra dos brasi-| leiros. Quizesse-o Sua Alteza, e o gigante america-| no punha-se hoje de pé.
VICTORINO.
Elle continúa a se fazer de rogado, mas não terá| outro remedio se não dar o sim á noiva.
RAPHAEL.
Ficamos hoje sem cêa ? A tia Onistalda é capaz,| por despique, de deixa-la esfriar antes de chamar-| me. Vamos vêr isso. (Sahe).
SCENA III.
VICTORINO E LUIZA.
LUIZA.
(Indo espreitar curiosamente á janella da Esquerda.) Será| verdade ?
VICTORINO, á parte.
Coitadinha ! Olha bem, á direita, á esquerda.| Torna a olhar.... assim mesmo.... A noite é das| mais escuras, os sinos estão a dar horas, lá se| ouvem as cornetas.... mas isso que tem ? Ella há| de enxergar o seu vulto, há de estremecer a cada| um de seus passos. Ah ! maldito !
LUIZA, voltando-se
Que está dizendo, Victorino ? Maldito quem ?
VICTORINO, confuzo.
Maldito.... eu mesmo. Ora, que grande figura| sou eu ? Um pobre diabo, aprendiz de alfaiate, que| passo a dia movendo os braços e a noite baten-| do as pernas. Mas sempre tenho o meu presti-| mo, divirto um pouco aos outros. Lá isso é muito| certo. Eu toco viola por pontos, canto dous ou tres| lunduns, e uma duzia de modinhas, danço, sapa-| têo : emfim sou um bom parceiro, inimigo da tris-| teza e de brigas ; e como não sou inteiramente| vadio, mereço o pão que estou comendo.
LUIZA.
Nós é que não merecemos semelhantes queixas,| senhor Victorino.
VICTORINO.
Oh ! meu Deus ! não me falle assim. Senhor Vic-| torino !... Pois eu estou fazendo queixas ?
LUIZA.
O mano tractou-lhe mal hoje ?
VICTORINO.
Nem hoje, nem nunca.
LUIZA.
Então sou eu a criminosa. Aqui estou : de que| me accusa ?
VICTORINO.
De nada, Dona Luiza. Se lhe offendí, perdôe-me.| E' que ás vezes tenho certas idéas, certas esperan-| ças.... cousas de rir, passam logo. Bem sabe que| eu procuro prestar-lhe algum serviço, sempre que| posso. Hoje mesmo.... se é que sirvo para alguma| cousa.... disponha de mim.
LUIZA.
Porque hoje então ?
VICTORINO.
Vejo que não lhe mereço confiança. Pois bem,| começarei eu. Vê esta cartinha ? E' a de que o| padrinho fallou. A tia Onistalda perdeu-a, não sei| como, mas eu a ergui logo e parece que ninguem| mais a viu. Aqui está ella.
LUIZA, tomando a carta.
Uma carta ! (Lê-a tremendo, torna a dobra-la e| com os olhos baixos). Victorino, diga-me uma cousa :| vossê leu este bilhete ?
VICTORINO.
Lí, sim, senhora.
LUIZA.
E conhece a pessoa que o escreveu ?
VICTORINO.
Conheço.
LUIZA, escondendo o rosto.
Deus meu, é certa a minha deshonra !
VICTORINO.
Conheço, sim. Eu sei de tudo, e vou-lhe dizer| para que se fie de mim ; mas antes perdôe-me.| Sim, Dona Luiza, perdôe-me ter sido um espião, um| villão-ruim, que tem seguido os seus passos, esprei-| tando as suas acções : mas eu, talvez pela demasiada| confiança que me davam, pensava que eramos to-| dos da mesma familia. Metteu-se-me isto na cabeça.| Tinha ciumes de quantos passavam por diante desta| casa ; da quitandeira que parava a conversar com| a tia Onistalda, do estudante de latim que ao vol-| tar da escola enfiava os olhos pelo nosso corredor,| do soldado que vinha visitar o padrinho ; emfim,| tinha ciumes de todos e de mim mesmo. Parecia-| me que a nossa casa era um Paraiso terrestre, por| onde os homens deviam passar de largo, com os| olhos baixos. Quer que lhe diga tudo ? Quando eu,| á noite, levava de viola até tarde, subindo e des-| cendo a rua, era ainda a mesma desconfiança ;| meu coração estava sempre sobresaltado, sempre| aqui.–Que loucuras, não é assim ? Perdôe-me.–| Foi então que me encontrei com o Senhor Ayres. Não| se o que me fez desconfiar dos seus passeios a| esta rua. Elle chegou-se a mim, e indagou se a| senhora não tinha adoecido com o susto que te-| ve aquella noite da chegada do principe ; e por| ahi seguio, fazendo perguntas sobre as pessoas de| casa : respondi a alguma dellas, afim de vêr qual| era o seu intento. Descobrio-se a final, e offere-| ceu-me dinheiro, se quizesse encarregar-me de uma| carta delle para a senhora. Dei-me aos diabos| com a tal proposta, e quiz arrumar-lhe uma tunda ;| mas fui eu que a tomei. Lembra-se d'aquelles tres| dias, que andei de lenço atado na cabeça ? Pois| foi elle.–Ante hontem, mexendo o samburá em que| tia Onistalda faz as compras, achei no fundo um| papel : era uma carta que o Senhor Ayres lhe man-| dava.... Que zanga tive de saber lêr ! Deu-me von-| tade de rasgar aquella maldita carta e engullir os| pedacinhos. Não fiz tal, pu-la no mesmo lugar.| Eu queria experimentar. A carta porém foi recebi-| da.... lida.... guardada.... Para que vigiar mais ?| A serpente tinha entrado no paraiso.-Peço-lhe ou-| tra vez perdão, Dona Luiza, e disponha de mim co-| mo quizer.
LUIZA.
Falla-me isso de coração ?
VICTORINO.
E' só como eu sei fallar.
LUIZA.
Eu me entrego á sua amizade. Vossê é bom....| nada há de dizer ao mano.
VICTORINO, á parte.
Máo principio. (Alto). Nem meia palavra.
LUIZA.
Escute. Elle está alli, enconstado na esquina, á| minha espera.... quer fallar-me. Raphael não tarda-| rá a sahir. Depois.... eu lhe peço.... faça esse moço| entrar aqui.
VICTORINO, com força.
Aqui ?.... Isso não. Pelo Senhor Bom Jesus de| Iguape !
LUIZA.
Victorino !
VICTORINO.
Prometti servir-lhe no que pudesse, hei de cum-| prir a palavra que lhe dei. Quer que defenda esse| homem, que o tracte como se fosse meu irmão, que| lhe obedeça como escravo?... quer que me incumba| dos seus recados ? Farei isso, descerei a tanto. Mas| introduzir um estranho, em ausencia de meu pa-| drinho, nesta casa que serve-me de abrigo.... nesta| casa em que tenho sido tractado como filho.... não !| nem fallar nisso, Dona Luiza.
LUIZA.
Olhe, Victorino ; elle não se há de demorar, sa-| hirá immediatamente. Quero só dizer-lhe duas pa-| lavras.... que fuja d'aqui, que não me procure, que| eu o aborreço de morte.... Ah ! se soubessem co-| mo eu tremí por elle, quando, ha pouco, Raphael| percebeu o que me dizia a tia Onistalda ! Fiquei| sem uma pinga de sangue no corpo. Faça o que| estou a pedir.... nada custa.... Eu sempre fui sua| amiga, não é ? porque não ha de fazer-me esse| favor ?
VICTORINO
Mas é que.... não sei o que faça.
LUIZA.
Faça o que eu lhe digo.... não se ha de arre-| pender por isso.
VICTORINO.
Se meu padrinho chega a descobrír....
LUIZA.
E' mesmo para evitar essa descoberta que eu| quero fallar-lhe, persuadi-lo a que não se exponha,| que não ande por tão perto.... que volte ao seu| palacio.... que me deixe.
VICTORINO, vacillando.
Ah ! que se fosse assim !...
LUIZA.
Não acredita pois em minhas palavras ? Falle,| quando é que o enganei ? Ah ! já sei o que é ; pensa| que eu tenho amor a elle : não ! nenhum, posso| jurar. Isso seria uma loucura. Elle está muito alto| para mim. Filho de fidalgos, e eu irmã de um sol-| dado.
VICTORINO.
Sargento, e muito honrado. Quem disse o con-| trario.... quebro-lhe os queixos.
LUIZA.
Não ouviu o que Raphael mesmo esteve nos di-| zendo ? A honra é a geração.
VICTORINO.
Será. Que nos importa isso ?
LUIZA.
Nós arranjaremos tudo muito bem. A rua está| deserta, e quando Raphael tiver sahido para o quar-| tel, dirás ao Senhor Ayres que entre. Peior é andar| elle rondando esta casa ; o mano está desconfiado,| e os vizinhos.... o que já não terão dito !
VICTORINO.
Está bom, eu farei quanto me manda ; que re-| medio posso eu dar a isto ? O que há de aconte-| cer tem muita força.
LUIZA.
Ah meu rico Victorino !
VICTORINO, á parte com tristeza.
E a dizer-me que não lhe tem amor !
SCENA IV.
OS MESMOS E RAPHAEL.
RAPHAEL.
Prompto e em marcha. Os soldados não correm| perigo de envelhecer á meza. Vamos vêr se há ser-| viço.... e que não haja.... voltarei tarde.
Ran, tan, plan, tan, plan, zabumba,| Bella vida militar !
Victorino, cerre bem a porta, rezem o terço e| durmam na paz do Senhor. Dê-me d'ahi o boné.| Vio o meu punhal ?
VICTORINO, dando-lh'os.
Aqui estão.
RAPHAEL, sahindo.
Adeus, gente.
VICTORINO.
Deus o acompanhe.
SCENA V.
LUIZA E VICTORINO.
Ficam silenciosos por algum tempo. Luiza vai depois á| janella e espreita de joelhos.
LUIZA.
Está parado e a fumar.
VICTORINO.
Quem ?
LUIZA.
Meu mano : vai agora descendo a rua.
VICTORINO.
E o outro.... foi-se embora ?
LUIZA.
Não. Sempre no mesmo lugar. (Levanta-se).
VICTORINO.
O que se tem de fazer faça-se já. A consciencia| está a remorder-me, mas eu dei palavra. Dona Luiza,| pela ultima vez lhe peço : não faça esta impru-| dencia. Pense bem.
LUIZA.
Descance, Victorino, e faça o que eu lhe ordenei.
VICTORINO, resoluto.
Vamos lá. (Sahindo). Este mundo.... este mundo....| (Luiza desce á bocca da scena).
SCENA VI.
LUIZA, só.
Meu Deus, que lhe vou dizer ? e o que elle dirá| de mim ? Tenho o espirito n'uma confusão ! E'| preciso desegana-lo, mostrar-lhe o obstaculo que| nos separa.... para sempre ! E depois que tiver| cumprido este dever, um adeus eterno e animo para| encarar a vida. Animo ?... é o que me falta. Porque| havia de apparecer-me este homem ? Porque deixei| entrar n'alma este sonho d'uma existencia superior| ao meu nascimento ? Se ainda elle fosse pobre, se| fosse humilde e desprezado.... sería uma grande| ventura. Não posso ter-me de pé.... que fraqueza| esta minha !...–Quem fallou ? ah ! é Victorino....| e vem acompanhado. (Mão no peito). Coração, não| batas tanto !
SCENA VII.
LUIZA, VICTORINO E AYRES.
VICTORINO.
Póde entrar, senhor, sem receio.
AYRES.
Como foi isto ? Custa-me a acreditar. (A Victorino,| dando um patacão). Meu rapaz, tome esta moeda| em agradecimento, e depois.... procure-me.
VICTORINO.
Dinheiro ? ! Nada, não preciso delle. Guarde-o.| O meu offcio é outro. (Indo a Luiza). Está con-| tente ?
LUIZA.
Retire-se agora.
VICTORINO, espantado.
Como disse ?... Retirar-me !
LUIZA, fitando-o.
Sim. Teme alguma cousa ? Retire-se e vigie á| porta.
Mais essa ! E' o que eu não esperava. (Rispido).| Boa noite. (Sahindo). O peior é dar-se o primeiro| passo. (Passando por Ayres). Ora pois, porte-se como| homem de bem. (Sahe. Ayres approxima-se indeciso).
SCENA VIII.
LUIZA E AYRES.
LUIZA, inclinando-se.
Ahi tem uma cadeira, senhor. Póde sentar-se.
AYRES.
Obrigado. Acceito. (Senta-se). Senhora, a commo-| ção em que me vê diz-lhe bastante o apreço que| dou á graça que acabo de receber, e me parece| ainda um sonho delicioso. Há dez dias que lhe| consagro todos os meus instantes. Há dez noites| que passo velando embevecido ao pé das suas janel-| las, ditoso por estar mais perto da senhora. Quan-| tas cartas não lhe tenho escrito ! Quantos meios| não tenho imaginado para vê-la de relance ! Este| pensamento immutavel, esta insistencia maravilhosa| não póde ser recebida com fria indifferença ; não| julga assim ? Ella deve produzir amor ou odio. E| agora pergunto a mim mesmo a qual destes dous| sentimentos devo a felicidade de estar aqui, adiante| da senhora, á noite, sem testemunhas, como dous| amigos que a longos annos se não viam. Em seus| olhos não percebo vestigio algum de odio.... pode-| rei lêr nelles o amor?
LUIZA.
(Com acanhamento). Essa curiosidade.... não pos-| so satisfazer.
AYRES.
Pensa que o desejo ? Não. Eu sou agora como| um doente, exhausto de febre e de insomnia ; que| conta as horas, a revolver-se no seu leito solitario ;| até que, descobrindo os primeiros clarões da ma-| drugada, suspira, fecha os olhos e adormece. Sin-| to-me tão feliz !
LUIZA, agitada.
Escute-me agora, senhor, eu lhe peço. Ao dar| um passo tão melindroso, não tive o intento de| satisfazer vaidades, escutando palavras que não fi-| cam bem na bocca que as profere, nem dever soar| em meus ouvidos. E' verdade que recebendo-o nesta| casa, em ausencia de meu irmão, contradigo-me,| expondo esta mesma reputação, de que pareço tão| zeloza, mas Deus sabe qual foi o meu pensamento....| Senhor, deve enteder-me : peço-lhe com a instancia,| de joelhos, se fôr preciso, que se afaste desta casa,| que não procure mais vêr-me.... (Com esforço). Do| contrario.... a sua vida corre perigo....
AYRES, altivo.
Minha vida !... ninguem tema por ella !
LUIZA.
Raphael é bom e reconhecido, mas quando se| tracta de seu nome, do seu crédito, perde o tino,| é capaz de tudo. Quando me lembro que elle po-| deria voltar agora.... E' tão desconfiado ! Deixe-me| pois, senhor Saldanha, e por este sacrificio conte| com a gratidão d'uma pobre moça. Ella já lhe era| devedora da vida, dever-lhe-há hoje a honra. Não| vê que toda insistencia seria inutil e perigosa ? Não| queira perder-me. (Com voz trémula e perturbação).| O senhor é nobre de mais para ser meu esposo....| eu muito honesta para ser sua amante. Que espera| pois ?
AYRES, impaciente.
Que espero ? Tudo. Luiza, eu estou lendo em| seus olhos como n'um livro aberto. Debalde está| a dizer-me razões que não comprehendo. Falle ; di-| rija-me rogos, ameaças, injurias mesmo. Eu só| percebo uma cousa ; é que sou amado.
LUIZA, envergonhada.
Senhor !...
AYRES.
Repellis-me, pobre criança, porque vos sentís at-| trahida, porque quereis tirar pela corrente até que-| bra-la, mas quando a vossa força esgotar-se, meu| triumpho será certo.
LUIZA, erguendo-se.
Victorino !
AYRES.
Não o chameis, de ninguem precisamos agora.| Tenho tanto a dizer-vos ! Sim, haveis de ouvir-me| quanto guardo no coração. Quero mostrar-vos esses| dias compridos, que empreguei adorando esta casa,| feliz quando via alvejar um lenço branco por de-| traz do postigo ; ou fechado em meu quarto, fu-| gindo a festas e etiquetas, para vos escrever cartas| longas e ardentes, que não têem merecido uma| palavra em resposta. Quereis vêr as minhas noites ?| Eu tenho-as gasto em tentativas inuteis ou sonhos| que me desfallecem.
LUIZA, sempre agitada.
E' tarde, senhor.... Peço-lhe que se retire.
AYRES, continuando.
Nesses sonhos eu vos vejo como aquella noite,| bella, sobresaltada, segurando-me convulsa pelo bra-| ço : outras vezes, na igreja dos Remedios, de man-| tilha preta, que não podia encubrir uns olhos bri-| lhantes, nem disfarçar um corpo gracioso.|
LUIZA, sentida.
E' isto o que tinha para dizer-me ?
AYRES, com ardor.
O que eu vos queria dizer, Luiza, é que esta| approximação de nossa existencia tem alguma cousa| de fatal, e que a morte é o unico obstaculo á| união de duas almas apaixonadas.
LUIZA.
E eu lhe digo, senhor, que a sua confiança é de-| masiada, que não conseguirá ruins intentos. (Com| esforço). Sou fraca, conheço bem isso, mas saberei| defender-me das suas seducções.
AYRES.
Quem vos falla em seducção ? Não merecia ser| avaliado tão mal. Olhai para mim, Luiza ! Eu vos| amo mais do que a meu pai e mais do que á vi-| da : como ousaria a sangue frio manchar a mi-| nha primeira affeição ? profanar o meu idolo ?
LUIZA, anhelante.
Ayres !
AYRES.
Sim, dá-me esse nome ; como elle me parece| doce, pronunciado pela tua bocca ? Eu amo-te, po-| bre anjo, e é tanta a força deste amor que a meus| olhos desapparecem os perigos. Temes teu irmão,| eu duvido de meu pai ; como póde ser que os| entes, a quem damos nomes tão santos, tornem-se| inimigos mortaes da nossa felicidade ? Não é pos-| sivel ! Não nos deixemos abater, que o tempo é| precioso. Sua Alteza Real pouco se póde demorar| aqui e meu pai deve regressar com elle. Chega-te| ao pé de mim, Luiza.... mais perto.... quero con-| tar-te o que tenciono fazer.
LUIZA, escutando sobresaltada.
Meu irmão....
AYRES.
Teu irmão é talvez como meu pai, afferrado aos| seus preconceitos, sacrificando tudo a um ponto| de honra ; mas Dom José de Saldanha tem coração| de pai, e sou eu o seu unico amor, o seu pri-| meiro orgulho. Quando eu fôr lançar-me a seus| pés, e quando lhe der a escolher, d'uma parte o| sacrificio de algumas conveniencias, com uma vida| toda de gratidão e respeito ; e d'outro lado a re-| volta ou a desgraça de seu unico filho.... vacillará| talvez, mas o amor paterno há de prevalecer.


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