OrganizaçÃo do corpus diacrônico do português paulista



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LUIZA.
Se eu ao menos tivesse os favores da fortuna !
AYRES.
De pouco te valeriam, Luiza. Meu pai desprezaria| a riqueza, ainda que lhe apresentassem todo o ouro| das Minas. Faria mesmo um esforço para esquecer| a humildade do teu nascimento. O que eu temo,| o que faz-me estremecer de pavôr....
LUIZA, offendida.
O que queria dizer ?
AYRES.
Não te magôes, Luiza. Eu não te quero offender.| Se eu te amo !
LUIZA.
Eu !... eu tambem.... (Cala-se perturbada).
AYRES, jubiloso.
Acaba, Luiza !... deixa fallar o teu coração !...| E' como eu quero. Abrires-me a tua alma inno-| cente, para eu guardar nella meus jubilos, minhas| lagrimas. Tenhamos coragem e chegaremos á ven-| tura.
LUIZA, vencida pelos affectos.
Ou á morte. Ayres, tem razão ! Meu sangue não| é puro.... ferve, queima-me ! e quando lhe ouço| fallar em sermos felizes.... Não ! nunca o sere-| mos !... E apezar disso, a minha lama arremessa-se,| abraça esta idéa insensata, e quanto ella faltar-me....| cahirei morta !
AYRES.
Não me falles em morrer : seria blasphemar de| Deus. Hoje mesmo contarei tudo a meu pai, hei de| abranda-lo ; depois tra-lo-hei aqui, e quando elle| te vir, a tua belleza, a tua angelica bondade....
SCENA IX.
OS MESMOS E VICTORINO.
VICTORINO.
(Trémulo e apressado). Estamos perdidos !
AYRES.
O que succedeu ?
VICTORINO.
O padrinho está de volta.
LUIZA, afflicta.
Raphael ?
VICTORINO.
Elle mesmo.
AYRES.
Olhe bem que póde ser engano.
VICTORINO.
Eu enganar-me !... não é possivel. Se eu fosse| cégo, era capaz de conhecer o seu passo no meio| d'um esquadrão de milicianos. Vi-o dobrar a es-| quina.
AYRES.
Deixem-me sahir....
VICTORINO.
Para ir esbarrar-se com elle ? Por ahi já não se| póde effectuar a retirada. A unica sahida que tem| é aquella janella.
AYRES.
Que ! pois eu hei de saltar por ahi ?
VICTORINO.
Assim é preciso. (A meia voz). Para escalar a| praça não acharia cousa tão difficil.–Vamos lá,| menino.
LUIZA.
Ah ! meu Deus, ouvi bulha.
VICTORINO.
E' o padrinho que empurrou a porta. Falle mais| baixo, senhor.... ou antes não falle.... sáia !
AYRES.
(A Luiza, abraçando-a). Eu não me esquecerei do| que promettí. Adeus, camarada. (Sóbe á janella e| salta ; o postigo fica erguido.)
VICTORINO.
O demo te persiga. Abraça-la adiante de mim....| que desafôro !
LUIZA.
(Apoiando-se em uma cadeira). Se elle me falla....| estou perdida.
SCENA X.
LUIZA, VICTORINO E RAPHAEL.
RAPHAEL.
(Largando o capote). Não esperavam vêr-me vol-| tar tão cedo, de certo. Saibam que ámanhã tenho| de ir a Santos acompanhar o Principe real. Não| gostei da incumbencia, mas esta vida acostuma-nos| a tudo. (Descansando). Então que fizeram vossês ?
VICTORINO.
Nada, pradrinho.... Iamos dormir.
RAPHAEL.
(Observando, desconfiado). Parecem tão assustados.| Andou por aqui alma de outro mundo ? (Vendo a| janella aberta). Ai ! que é aquillo ? ! (Corre ao pos-| tigo e debruça-se ancioso para fóra).
LUIZA, tremendo.
Mano, fui eu que....
RAPHAEL.
Foste tu ? Percebo agora.... não me enganei !| (Com impeto). Deshonra do meu nome.... morrerás| as nascer ! (Furioso arranca do punhal, e corre para| Luiza).
LUIZA.
(Cahindo de joelhos). Oh minha mãe !
RAPHAEL.
(Suspende-se, atïra fóra o punhal e ajoelha tambem).| Agradece-lhe, Luiza.... agradeçamos juntos. Se ella| não nos olhasse do céo, teu irmão seria agora um| miseravel. (Quadro. Cáhe o panno).
FIM DO 1.º ACTO.
ACTO II.
DOUS ORGULHOS.
ACTO II.
_______

A mesma vista do acto antecedente. E' manhã.


SCENA I.
RAPHAEL E LUIZA.
RAPHAEL, continuando.
Foste muito leviana, Luiza, e sobre tudo muito| ingrata para commigo.
LUIZA, dolorosamente.
Pois ainda não me perdoou ?
RAPHAEL.
Esse perdão dou-t'o em premio da tua sincerida-| de.... tardía. Bem vejo que o mal não é tamanho| como a principio imaginei ; mas não deixa de ins-| pirar-me cuidados. Que importa que não pronun-| ciasses palavra de que tenhamos de corar ? Que| importa que não praticasses acção alguma que se| torne nodoa do nosso nome ? Já não és livre, mi-| nha irmã ; teus pensamentos, teus desejos, teus so-| nhos, tua alma inteira pertence a esse homem.
LUIZA.
Por minha desgraça !
RAPHAEL.
A que devemos talvez a nossa honra ? Ao seu| procedimento respeitoso.
LUIZA.
A' sua alma grande e generosa.
RAPHAEL.
Mas não és tu unicamente quem deve implorar| perdão. Eu tãobem sou culpado. Perdôa o meu arre-| batamento de hontem. Se soubesses como eu te amo,| o ciume que tenho das tuas menores affeições ! Eu| nunca te disse isto, mas é assim.–Nós soldados| não gastamos o nosso tempo em protestos. Conta| pois commigo, Luiza ; mas não te hallucines. E'| pouco, muito pouco o que eu posso fazer a teu| favor. Se se tratasse de defender te, de vingar uma| injuria, de derramar por ti o meu sange, verias| como eu procedo em taes casos. Se desejasses algum| desses objectos de luxo, dessas lindas teteyas, que| não possuimos, mostra-te-ia que não sei festejar a| bolsa quando pretendo agradar-te. Satisfaria emfim| o teu menor desejo. Uma só cousa não posso fazer,| nem por ti.... é commetter uma vileza. Esse moço| te estima, dizes tu, deseja casar comtigo ; assim| será, mas o verdadeiro é não especular com um| momento de generosidade. Não nos curvemos inu-| tilmente. Aquelle que a sociedade injusta desherdou| dos seus gozos e triumphos ; o pariá abjecto, cuja| vista só empesta, esse ainda póde conservar in-| tacta a sua dignidade, o seu orgulho ; póde dizer| com desdem aos grandes e opulentos : Fartai-vos,| ride e folgai embora ! não me abaixarei para er-| guer as migalhas de vossa meza : o meu pão sec-| co hei de comê-lo com prazer.–Vamos. Não ali-| mentes esperanças enganosas que te hão de matar.| Acostuma-te a olhar a felicidade como uma cousa| impossivel ; quando chegar a hora do desengano| terás menos a perder. Faze-te forte, como deve ser| a irmã de um soldado.
LUIZA.
(N'um soluço). Sim, eu serei forte.
RAPHAEL.
Que é isso ? Tu me despedaças o coração. Pro-| cura distrahir-te, não te entregues assim.–Vai ar-| ranjar-me a roupa : olha, eu preciso de pouca| cousa.
LUIZA.
E tenho de ficar só ?
RAPHAEL.
Por pouco tempo será. Até ámanhã sómente.| Victorino há de fazer-te boa companhia. A' minha| volta.... veio-me uma boa idéa.... quando eu vol-| tar pedirei um mez de licença, e iremos passa-lo| no campo ; algures hei de arranjar uma chácara.| Que bella vida não levaremos nós ! As varzeas co-| meçam a brotar, as pitangueiras cobrem-se de flô-| res, estamos em plena primavéra. Só do que eu| não gósto é das queimadas ; o ar fica cheio de| fumo e tão pezado....
LUIZA.
E deixa tanta melancolia no coração !
RAPHAEL.
Mas assim mesmo é bello. Eu.... já se sabe !| levo o tempo todo a caçar. E tu.... que pretendes| fazer ?
LUIZA.
Eu?
RAPHAEL.
Emprestarei alguma historia para nos lêres, ou| então iremos juntos ás tinquijadas. De qualquer| modo que seja, divertir-nos-hemos á grande. A vida| é boa, nosso coração é que não sabe satisfazer-se.| Ora esta !... creio que estou voltando ás tristezas,| Vai, minha filha, vai cuidar na mala.
SCENA II.
RAPHAEL, só.
Pobre creatura ! Bem vejo que as minhas pala-| vras não dão consolação, mas é só o que tenho| para offerecer-lhe. O combate não tarda, e sinto-| me sem forças para luctar. Que martyrio não é| vê-la definhar assim, e beber suas lagrimas ! Antes| quizera ter adiante de mim as forças todas de Ar-| tigas e Fructuoso Rivera.–Meu Deos, afastai desta| casa alguma desgraça.
SCENA III.
O MESMO E ONISTALDA.
ONISTALDA.
Está prompto o almoço.
RAPHAEL.
Não quero almoçar : leve alguma cousa ao quarto| de Luiza. Depois dê uma boa ração ao meu ca-| vallo, ração de viagem. Espere, eu mesmo vou fa-| zer isso. (Sahe).
ONISTALDA.
(Sentando-se). Arre lá ! Parece que nem para isso| se fiam de mim. De certo tem medo que eu lhe| furte o milho. Ahi vem Victorino.... cantando sem-| pre.... Psíu ! Este não se ha de queixar de fastio.
SCENA IV.
VICTORINO E ONISTALDA.
VICTORINO, cantando.
Quem tiver moça bonita| Não a leve na funcção :| Se está livre d'um abraço,| Não está de um beliscão.

Que ditoso fim levaria a tia Onistalda ?


ONISTALDA.
Aqui estou, Pilatos. Que quer?
VICTORINO.
Almoçar.
ONISTALDA.
Sempre com a barriga nas costas, e sempre co-| mendo que nem um....
VICTORINO.
Que nem um indio, titia ?
ONISTALDA, arrufada.
Eu não sou india.
VICTORINO, á parte.
Mordeu-lhe a pulga. (Alto). Pois é pena. Os ca-| bôclos hoje estão sendo muito procurados ; maior| honra é descender de Tebiriçá que do rei de Hes-| panha. Há por ahi muita gente boa que se pudesse| deitar fóra o sangue de emboava que tem nas vêas,| fazia tal, ainda que tivesse de substitui-lo pelo de| papagaio ou anta.
ONISTALDA.
Vossê me chama de anta !
VICTORINO.
Eu, não : só se fosse pelo beiço que está me fa-| zendo. Mas vamos : dê-me de almoçar, que chego| da tenda, e de São Bento á Cruz preta não é um| pulo. Encontrei Sua Alteza Real, que parece andar| se despedindo desta boa cidade, com seu ajudante| de ordens e outras personagens, entre as quaes tro-| teava um pobre velho barrigudo, de cabello empoa-| do, cousa muito para se vêr e apreciar.
ONISTALDA.
Hoje não se gasta dinheiro com tapioca. Não há| moda que dure. Acabaram-se os josézinhos, os cal-| ções e as saias á Zamperini..... isso é cá do meu| tempo ; vossê não alcançou. Agora ninguem falla| já em trunfas e polvilhos : e o mesmo caminho hão| levar as mantilhas, os touros....
VICTORINO.
E a tia Onistalda. Requiescat in pace. Amen.
ONISTALDA.
Appello ! Vossê quer começar mal o dia, pagão ?| –Não sabe que isso é agouro ?
VICTORINO.
O que ? Fallar em lingua de padre ?
ONISTALDA.
Senhor sim. Ainda mais que esta noite esteve| cantando embaixo de minha cama um grillo preto.| E' sinal de morte.
VICTORINO.
Ora, o grillo preto !
ONISTALDA.
E os cães da vizinhança, reparou ? Uivaram a| noite inteira. Peguei um chinello do pé esquerdo,| bati tres pancadas no chão, e deixei-o virado : mas| os malditos continuaram a fazer a mesma motinada.| E' porque o sapato não era de homem.
VICTORINO.
Grillos.... cães.... Jesus ! D'aqui a pouco passa| revista aos mboytatás e almas do outro mundo.
ONISTALDA.
Vossê brinca com estas cousas !
VICTORINO.
Que esta noite houve cousa de agouro, houve ;| mas muito differente disso....
ONISTALDA.
Que foi então ?
VICTORINO.
Escusa perguntar, que não lhe conto. Parece-me| que foi a hora mais assustada que tenho tido em| minha vida.... depois do dia em que fui vêr en-| forcar o Chaguinhas.
ONISTALDA.
Pensa então que eu nada sei ? Eu reparei bem| no [[no]] moço que entrou, e não vi mais sahir....| e o grito de Inhôzinho ?
VICTORINO, á parte.
Bruxa, quem te vazasse os olhos ! (Alto). Já que| põe tanto sentido no que se passa, diga-me o que| tem feito o padrinho esta manhã ?
ONISTALDA.
Esteve aqui, batendo bocca com a irmã. Os dous| estão bem tristes.
VICTORINO.
Elles têem razões de sobra. E eu.... estou com| um medo de lhes apparecer !
ONISTALDA.
Ora diga-me : que dia é hoje?
VICTORINO.
Quinta feira, 5 de setembro de 1822. Há de ser| um bello dia ; veja só que céo ! que manhã !–| Dá-me uma vontade de sahir a correr por ahi fóra.
ONISTALDA.
Quinta.... é isso mesmo. Domingo é dia de festa| na Penha, e não me fez ainda aquella touca que| me prometteu.
VICTORINO.
Ella está quasi prompta ; milagre será se puder| accommodar esses carijós.
ONISTALDA.
Sahiu uma alma do purgatorio.
VICTORINO.
Em troca da touca que vai-me dar ?
ONISTALDA.
Almoço de café.
VICTORINO.
Almoço de café ! Sahio outro alma do pugatorio.| Eu sou capaz de passar com esse bebida ; o meu| maior desejo é que este governo de São Paulo cubra-| se um dia de cafezaes : só então poderei beber café| a meu contento. Em quanto começão as plantações,| vamos para a varanda. Dona Luiza já almoçou ?
ONISTALDA.
Não. Está no seu quarto.... fazendo renda talvez.| Agora lembrei-me de que tenho uma carta para| entregar-lhe. (Tira-a do seio).
VICTORINO.
Uma carta !... de quem é ?
ONISTALDA.
Ora ! pois não sabe ?
VICTORINO.
Ah, ai ! Se o padrinho percebe.
ONISTALDA.
Que se lhe ha de fazer ! Tenho pena destes po-| bres moços....
VICTORINO.
Essa sua pena, tia Onistalda, ainda lhe ha de| fazer penar no inferno. (Vai-se).
ONISTALDA.
Mais póde Deos e o glorioso Santo Elesbão !
SCENA V.
ONISTALDA E LUIZA.
LUIZA.
Que carta é essa ?
ONISTALDA.
Bons dias, nhanhã. Passa melhor ?
LUIZA.
Essa carta é para mim ? Quem trouxe ?
ONISTALDA.
E', sim. Um moleque de libré veio entrega-la, ha-| verá meia hora. Aqui está. Quer que lhe traga aqui| o cafézinho ?
LUIZA.
Não , não quero.

ONISTALDA.


Ao menos uns ovos escalfadas !
LUIZA, abrindo a carta.
Tambem não quero. Deixe-me só.
ONISTALDA, sahindo.
Não sei como se póde viver assim !
SCENA VI.
LUIZA E RAPHAEL.
RAPHAEL, sevéro.
Escreveram-te, Luiza ?
LUIZA, com serenidade.
Sim, mano. Foi elle. Quer lêr?–Não ha mais| segredos entre nós. Leia alto, que eu não posso ;| tenho uma nuvem sobre os olhos.
RAPHAEL.
E tão pallida ! Não vás tu adoecer.
LUIZA.
Não, isto é nada.... falta de dormir. Verá como| logo estou boa. Faz favor de lêr ?
RAPHAEL.
Já que assim o queres.... (Lê). « Fallei a meu pai,| « Luiza. Ao principio tomou elle as minhas palavras| « como um gracejo, um capricho de criança. Mas| « quando conprehendeu a firmeza de minha voz, o| « fogo dos meus olhos, ergueu-se e interrogou-me| « severamente. Contei-lhe tudo. Nada encobri, nada| « dissimulei. Ameaçou-me então com a volta ao Rio| « de Janeiro ; respondi-lhe que era livre, e que se| « tentassem violentar-me tinha a lei a meu favor.| « Ameaçou-me com o desprezo e a aversão da so-| « ciedade ; asseverei-lhe que preferia as doçuras do| « amor. Disse que me desherdaria ; offereci-me para| « chamar um tabellião. Supplicou-me com lagrimas| « que não enchesse de amargura os ultimos dias de| « sua velhice ; chorei com elle, mas não cedi. Cal-| « lou-se então. Oh Luiza, nunca eu vi passar n'um| « rosto humano uma tempestade assim ! afinal so-| « cegou bastante para poder fallar, e perguntou-me| « a tua morada. Elle há de ir vêr-te ; com que fim ?| « Para admirar tantas virtudes e dar-te o suave no-| « me, de filha ? ou para arrancar uma renuncia| « que eu nunca farei ? Não sei dizer. Elle padece| « horrivelmente. Meu Deus, não permittais que eu| « me torne um parricida ! Adeus, Luiza ; deveis| « amar-me e muito. »
LUIZA.
(Tomando-lhes as mãos e radiante). Então, Raphael,| não é bom ? não é altivo ? não é digno de amor ?
RAPHAEL.
Sua alma é generosa e independente.... mas é| seu pai quem tem razão.
LUIZA.
Ah ! todos me abandonam.
RAPHAEL.
Por ti eu sacrificarei.... o que puder sacrificar.| Mas temo bem pelo fim de tudo isto. Dom José de| Saldanha é um fidalgo de tempera rija, incapaz de| consentir em uma alliança, que (segundo elle) des-| honraria os seus brazões. Eu... sou um soldado| grosseiro e teimoso, que não posso soffrer a menor| dúvida sobre o meu desinteresse. Ah ! Luiza, Luiza,| entre estes dous orgulhos tu hás de ficar esmagada.
LUIZA.
E diz-me isso, mano ?
RAPHAEL.
Queres então que te minta ? Olha, quando eu| penso que póde chegar um dia em que alguem| se julgue com direito para dizer : Rapahel de Proen-| ça é um homem de tino, sabe tirar a sardinha com| a mão do gato : aproveitou-se da simplicidade de| um namorado para arranjar a irmã optimamente.| E' um homem de fortuna.–Queres que eu ouça isto ?
LUIZA, abatida.

Não me resta esperança alguma.


RAPHAEL.
Resta-te o meu amor, Luiza. Porque não havia| de elle bastar á tua alma ? Olha, Luiza, eu tam-| bem tenho-me vencido, tenho arrancado muito de-| sejo do coração. Pensas tu que a minha mocidade| é uma arvore maninha, sem rama e sem verdor ?| Só Deos sabe o que tem sido. Mas eu nunca em-| balei essas illusões ; vestia a minha farda, dava-te| um beijo na testa e esquecia-me de tudo. Ás vezes| sómente demorava-me a olhar para o futuro e dizia| commigo : O soldado há de ter descanço um dia,| e poderá em algum retiro plantar a flôr cheirosa| de sua felicidade.
LUIZA.
E se plantasse essa flôr, mano, cultivando-a com| amoroso desvélo, regando-a com a agua de seus| olhos e o sangue mais puro, e viesse a depois o sol,| quente, sem nuvens, sem dó, e fizesse murchar a| pobre flôr, não sentiria a sua morte, não desejaria| morrer com ella?
RAPHAEL.
Eu !... talvez que assim fôsse.
LUIZA.
Vossê é homem, Raphael, é forte, póde fallar| como falla. Eu sou uma pobre mulher, hei de mor-| rer.... como morro.
RAPHAEL.
Que destino ! Luiza, tu me assustas.
LUIZA.
Porque ? Ninguem deve fazer caso do que diz| uma louca. Eu não tenho a cabeça bôa.

RAPHAEL.
Sentes febre ?


LUIZA.
Sim, tenho. Quiz vêr se dormia um pouco...| não pude fechar os olhos ?
RAPHAEL.
Banha as fontes com agua e vinagre, e deita-te| outra vez. Hás de sentir melhoras, verás.
LUIZA.
Sim, eu farei tudo quanto quizer ; mas antes| disso há de conceder-me um favor.
RAPHAEL.
Qual é ? Pódes dizer.
LUIZA.
Queria fallar a esse homem quando vier cá.
RAPHAEL.
Tu, Luiza ?–Não, sou eu quem devo recebê-lo,| elle te intimidaria facilmente e conseguiria de ti| quanto quizesse. Não tenhas medo que eu abando-| ne a tua causa, servi-la-hei o melhor que puder,| não te darei razão de queixa. Vai descançar, filha,| e tem fé nas minhas forças.
LUIZA, suspirando.
Ai ! Eu preferia a minha fraqueza.
RAPHAEL.
(A' porta da Direita). Victorino, venha cá. Olha, Lui-| za, vai para o teu quarto, mas não durmas ; e quan-| do eu te chamar.... entendes-me ?...
LUIZA.
Sim, eu virei.
RAPHAEL.
Bem vês que satisfaço como posso as tuas von-| tades.
SCENA VII.
OS MESMOS E VICTORINO.
VICTORINO.
Aqui estou, padrinho. (A' parte). Lá vai sermão.
RAPHAEL.
D'aqui a pouco há de vir procurar-me um ho-| mem. Chama-se Dom José de Saldanha. Faça-o entrar| para aqui, entendeu ?
VICTORINO.
Sim, senhor. (Partindo ). Saldanha. Aonde foi que| ouvi este nome ?
LUIZA, vacillando.
Meu Deos ! (Victorino torna atraz vivamente).
RAPHAEL.
(Correndo para Luiza e amparando-a). Que foi isso ?
LUIZA.
Nada.... Uma vertigem....
VICTORINO.
Há de ser fraqueza. Se ella não almoçou !
RAPHAEL, sollicito.
E não queres ficar doente ! Vamos para dentro.| (Mais baixo). Minha Luiza, não te deixes abater.| Para te salvar, eu farei tudo.... tudo, percebeste ?
VICTORINO.
Quer que eu mande vir um caldo ?
LUIZA.
Não. Já passou.
RAPHAEL.
Um calix de vinho será melhor. Vem cá, firma-te| no meu braço. (Sahem).
SCENA VIII.
VICTORINO E DEPOIS AYRES.
VICTORINO.
Passou-me a vontade de rir. Não volto hoje ao| trabalho, que tudo nesta casa vai mal encaminhado.| Estou quasi acreditando com a tia Onistalda em| grillos pretos.
AYRES.
(Fóra do postigo). Victorino !
VICTORINO, espantado.
Donde é que me fallam !
AYRES.
Da janella. Abra.
VICTORINO.
Elle ainda ! (Vai abrir-lhe o postigo). Que vem| fazer aqui, imprudente ?
AYRES.
Diga-me, meu pai está aqui ?
VICTORINO.
Seu pai ?! Quem é seu pai ?
AYRES.
Dom José de Saldanha.
VICTORINO.
Ah ! Não veio ainda, mas não deve tardar muito| por ahi. Tenhor ordem de faze-lo entrar.
AYRES.
E Luiza.... não a posso vêr ?
VICTORINO.
Está doente, senhor, muito doente. Tem febre, e| há pouco deu-lhe uma vertigem.
AYRES.
Pobre anjo ! terás de voltar para o céo ?
VICTORINO.
Ah ! senhor Ayres, diga-me uma cousa. Acredita| em agouros ?
AYRES.
Que está dizendo ?–E' elle, é meu pai. Adeus,| Victorino. (Afasta-se).
SCENA IX.
VICTORINO E ONISTALDA.
VICTORINO.
Pobre moço, gosta tanto d'aquella janella ! Ai !| (Voltando-se assustado). E' a tia Onistalda.... Qual-| quer sombra me assusta. Pensei vêr um grande| grillo preto.... historias !
ONISTALDA, entrando.
Não ouvio bater, Victorino ?
VICTORINO.
Sim, eu lá vou. (Vai-se).
ONISTALDA, só.
Elle não acredita em agouros.... está bom.–Cou-| sas de velhas, cousas de crianças. Quando tem uma| cruz no pescoço pensa que Deos fechou os olhos.| O que tem vêr um grillo, uma sombra que se move,| um homem vestido de preto ? Nada. Mas esse nada| leva muita gente ao cemiterio. (Sahe).
SCENA X.
Dom JOSÉ E VICTORINO DEPOIS RAPHAEL.
Dom José entra silencioso, de feições contrahidas e sevéras.| Mistura de orgulho e ironia.
VICTORINO, afadigado.
Queira sentar-se, senhor.... aqui está uma cadei-| ra. Eou vou chamar meu padrinho. (Dom José incli-| na-se).
RAPHAEL.
(Entra e corteja a Dom José). Retire-se, Victorino.| Queria fallar-me, senhor ? (Victorino sahe).
Dom JOSÉ
Quero fallar ao senhor Raphael Proença.
RAPHAEL.
Estou ás ordens de Vossa Excelencia. (Sentam-se).
Dom JOSÉ.
Sargento, é a primeria vez que o vejo em minha| vida, e quanto ao senhor, creio que nunca lhe| passou pela idéa que existisse Dom José de Saldanha.
RAPHAEL.
Nem todos pódem ter uma fama universal.
Dom JOSÉ.
Entretanto venho pedir-lhe.... uma cousa tão sin-| gular que não sei explica-la. Tem lido novellas ?
RAPHAEL.
O tempo não me sobra para isso.
Dom JOSÉ.
Faz muito bem ; eu tambem já não as leio, mas| sei o que ellas contêem. Um homem encontra-se| com outro que lhe é inteiramente extranho.... Es-| tamos nesse caso. Vê-lhe uma grande tristeza im-| pressa no semblante, sympathiza com ella. Chega-se| ao extranho, dá-lhe os bons dias e indaga o que| tem, convidando-o a verter em seu seio as mágoas| que soffre. O outro, movido pela mesma sympathia,| conta-lhe a sua vida desde a meninice. Assim é,| se me não falha a memoria.
RAPHAEL.
Quer Vossa Excelencia então....
Dom JOSÉ.
Ser seu confidente. Parece-lhe isto uma farça ?| Ponho sentido que Sua Alteza Real, ou alguma| outra pessoa influente deseja o seu adiantamento e| mandou-me tirar informações.
RAPHAEL.
Seria melhor que Vossa Excelencia se dirigisse aos meus| superiores. Dar-lhe-iam todos os esclarecimentos.
Dom JOSÉ.
E porque não seria o senhor ? Dá-se por sus-| peito ?
RAPHAEL.
Pois bem ; seja assim como deseja.–Estou hoje| com vêa de intimidade maravilhosa.
Dom JOSÉ, ironico.
O negocio é mesmo de vêas. (Raphael levanta-se| impetuosamente, e estaca fitando os olhos no quarto de| Luiza). Está incommodado ?
RAPHAEL, acalmando.
De nenhuma sorte. Tenho uma pessoa doente em| casa ; não é de extranhar que julgasse ouvir cha-| mar pelo meu nome.–(Sentando-se). Fallavamos nas| informações que exige de mim : quer Vossa Excelencia vêr| a minha arvore de costado : é pena que os meus| antepassados se esquecessem de planta-la.
Dom JOSÉ.
Um general da antiguidade dizia : A minha fa-| milia começa em mim. Não quer seguir essa opi-| nião ?
RAPHAEL.
Com muito gosto, e será um grande refrigerio| para a minha memoria. Ouça-me, Senhor Dom José, a| minha historia é breve. Fiquei orphão de pai na| idade de doze annos. Minha mãi teria igualmente| succumbido ao pezar, se não lhe restassem filhos,| que precisavam da sua dedicação. Fechou as lagri-| mas no seio, e trabalhou corajosamente, dia e noi-| te, para que não nos faltasse o alimento. Quando| eu começava a ser-lhe de alguma utilidade, fui re-| crutado, arrastado para longe de minha familia, ás| campanhas mortiferas do sul. O que eu soffri n'a-| quelle tempo, de saudade e de privações, é impos-| sivel contar. Serví ás ordens do illustre general| Curado, combati no Carumbé e em Catalan, e ga-| nhei a banda de sargento depois da batalha de Ta-| cuarembó. Acabada a guerra com a tomada de| Montevideo, pude volta a São Paulo. Ah ! minha| mãi já não existia !–Dessde então tenho-me conser-| vado nesta cidade, e gozo graças a Deos, do me-| lhor conceito.


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