OrganizaçÃo do corpus diacrônico do português paulista



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Dom JOSÉ.
E não tem familia ?
RAPHAEL.
Sim, resta-me uma irmã solteira, a quem muito| estimo.... Quer Vossa Excelencia conhecê-la ?
Dom JOSÉ.
Porque não ? A minha sympathia deve abranger| toda sua familia.
RAPHAEL, chamando.
Luiza !
SCENA XI.
OS MESMOS E LUIZA.
LUIZA.
(Pallida e trémulo). Chamou-me ?
Dom JOSÉ, á parte.
Não se fez esperar muito.
RAPHAEL.
Sim, Luiza ; vem para o pé de mim. Acanhada !| debruça o braço sobre o meu hombro, esconde essa| cara. (Animando-se). Senhor Dom José de Saldanha, não é| certo que todo homem, pobre ou rico, bom ou| máu, festejado pela sociedade ou proscripto por ella,| tem um objetcto santo, um idolo venerado, que na-| da mancha e nem se póde manchar, que seria o| nosso Anjo da guarda, se Deos se tivesse esquecido| de no-lo dar ? Para uns é um filho, para outros| uma esposa, um amante. Póde ser tãobem a gloria, a| virtude, a liberdade. O meu idolo, senhor, ei-lo aqui ;| é esta pobre menina ; resume em si todas as minhas| affeições mortas, todos os meus sonhos do presente.| Fazê-la feliz e adorada seria para mim felicidade| e adoração. Que quero eu ? de que preciso ? Des-| conhecido em nome, pardo na côr, soldado na for-| tuna, não canso a minha alma com ambições :| mas para ella, para este anjo.... julgaria sem va-| lor uma corôa. Se tem por acaso um filho, senhor,| deve comprehender minhas palavras.
Dom JOSÉ, levemente enternecido.
Sim, tenho ; é bom e generoso. Ah ! porque cus-| ta-me tanto faze-lo feliz !
RAPHAEL.
Além disto, senhor.... veja a minha Luiza. Não| é bonita ? Que brilho de saúde e de mocidade !| Quando ella apparecesse em alguma côrte, no meio| de uma sociedade elegante, quem não diria que| nasceu em berço de riqueza, cercada de mimos e| regalos ? Quem não diria que nestas vêas gyra o| sangue europeo, que.... bem o sabe, senhor.... é o| unico sangue puro que há ?
LUIZA.
Como soffro !
RAPHAEL.
Pobre Luiza ! Retira-te agora, e vai descansar.–| Dorme sem cuidados.
LUIZA.
Obrigada, meu irmão. (Beija-lhe a mão e sahe.| Raphael accompanha-a até á porta).
SCENA XII.
RAPHAEL E Dom JOSÉ.
Dom JOSÉ, em pé e agitado.
Não, não devo ceder.... seria uma fraqueza de-| ploravel. (A Raphael), Senhor, fallemos em outro| tom ; o que tenho a dizer-lhe é bastante importante,| e dispensa preambulos.
RAPHAEL.
Como Vossa Excelencia quizer....
Dom JOSÉ.
Meu filho Ayres de Saldanha viu, por sua e mi-| nha desgraça, a essa menina que acaba de sahir| d'aqui ; a sua rara belleza, a sua graça e innocen-| cia fizeram impressão n'aquella alma sensivel. Vendo| que o casamento era o unico meio de possuir a| pessoa que adora, veio pedir o meu consentimento.| Eu sei o que devo aos meus quarenta antepassados.| Procurei fazer-lhe vêr as consequencias de seme-| lhante união, quiz mesmo dominar a sua vontade,| mas nada pude conseguir. Foi com a alma dilace-| rada que aqui vim ter. Confesso que tem-me agra-| dado summamente. Sei agora que sua irman é um| anjo, e o senhor um moço de educação e de brios.| Espero que não porá duvida a unir-se commigo para| obrigar meu filho a renunciar um projecto insen-| sato.
RAPHAEL.
(Com amarga ironía). Senhor, eu sei tudo isso que| acaba de dizer-me, mas permitta que ajunte algu-| mas pequenas explicações. Esse encontro de seu fi-| lho com Luiza, que Vossa Excelencia parece lamentar tanto,| não teve lugar debaixo dos meus auspicios. Eu não| tenho pressa de perder a companhia de mina ir-| man, buscando-lhe marido, e ella é bastante re-| colhida. Foi sómente hontem que eu vim no conhe-| cimento da honra que o Senhor Ayres queria fazer-nos.| Mas não pense Vossa Excelencia que eu contribua para li-| vrar os seus quarenta avós da desfeita que os ameaça.| Deixarei de ser advogado de Luiza, mas não me| unirei aos seus algozes. Sabe o que faço? Cruzo| os braços e digo-lhe friamente : Meu caro senhor,| proceda como entender.
Dom JOSÉ.
Eu não quero impôr sacrificios ; se deseja algu-| ma.... retribuição pecuniaria....
RAPHAEL, estremecendo.
Dinheiro ! (Pausa). E em quanto avalia Vossa Excelencia| a renuncia de minha irman ?
Dom JOSÉ.
Dir-mo-há, e será satisfeito.
RAPHAEL.
Eu lhe vou dizer, senhor.–Se Vossa Excelencia tivesse| uma irman como a que eu tenho, pura, bella e| extremosa, que nunca venderá seu corpo, mas que| sabe dar a quem ama toda sua alma ; e viesse| alguem porpôr-lhe o.... negocio, que me está pro-| pondo, que lhe diria, senhor ? qual seria a sua| resposta ?–Que ! pois será honesto e justo para o| fidalgo aquillo que parece infame e vil ao peão ?| (Com força) Senhor, o coração de Luiza não tem| preço !... minha irman não é uma prostituta !
Dom JOSÉ.
E' injusto em pensar....
RAPHAEL.
Nem mais uma palvra, senhor, para que eu| tome por um sonho a baixeza de que me julgou| capaz.
Dom JOSÉ.
Acredite que eu não sou desses fidalgos ridiculos| que não perdem occasião de fallar nos seus perga-| minhos. Abraçaria de boa vontade como filha a| uma moça do povo, se ella fosse semelhante á sua| irman. O caso presente porém é tão especial....
RAPHAEL.
Por causa da minha côr ? Tem razão. A sorte| do homem pardo é tão miseravel ! O pobre póde| chegar á fortuna ; o plebeu póde alcançar honras| e gloria : mas o homem que traz em si o sêllo de| duas raças diversas e inimigas, o que poderá fa-| zer elle ? Dirá ás suas vêas que conservem este| e não aquelle sangue ? Dirá á sua epiderme que| tome esta ou aquella côr ? Obstaculo insuperavel,| que esmaga os maiores arrojos da vontade ! Pre-| conceito barbaro e mostruoso que vota ao desalento| e á obscuridade tanta alma grande !
Dom JOSÉ.
Acompanho-os nesses sentimentos de philantro-| pia ; e bem que não deseje ir de encontro ás idéas| recebidas, por absurdas e deshumanas que sejam,| saltaria por cima desse inconveniente afim de asse-| gurar a felicidade de Ayres e a minha.... pois são| uma e a mesma cousa. O obstaculo que existe é| outro e maior, direi mesmo invencivel. Que importa| uma ligeira modificação do sangue?... mas deixar| pesar sobre a minha familia uma nodoa indelevel....| Sargente Proença, seu pai era escravo ?
RAPHAEL.
Meu pai ?... (Depois de um longo espasmo de furor)| Senhor, é uma pergunta ou a um insulto que eu| devo responder ?
Dom JOSÉ, com placidez e desdem.
Porque se exaspera assim ? Se na sua alma exis-| te uma chaga viva, não fui que a abri.
RAPHAEL, serenando.
Tem ainda razão, senhor Dom José. Sejamos até| o fim homens de gêlo. Eu responderei a essa per-| gunta contando a historia de meu pai. Ella nada| tem de rara, mas é curiosa.–Um fazendeiro abas-| tado havia perdido sua mulher. Ainda robusto, sen-| tia esses transportes, que na mocidade teem o no-| me de amor, mas que nos fins de uma vida, con-| sagrada toda ao dominio e á cubiça, tornam-se cé-| gos e vergonhosos como os instinctos dos brutos.| Para que contrahir um segundo hymeneu, que| transtornaria seus planos de familia e de engran-| decimento, quando viviam ahi pelas senzalas e cam-| pos tantas escravas complacentes ? foi o que elle| pensou e o que fez. A preferida, senhor, era uma| pobre mulata que, criada com mimo por sua se-| nhora, não fôra rasgar os pés na roça ou nas| matas virgens, nem crestára o rosto nas exhalações| ardentes do engenho de assucar. Foi a minha avó,| senhor Dom José. Ella não resistio aos affagos de seu| senhor.... pois não seria ridiculo ? D'ahi a nove| mezes o fazenderio tinha mais um filho e mais um| escravo. Sim, mais um escravo : e para que lhe| concederiam a liberdade ? Que direitos lhe dava a| ella esse pingo de sangue limpo que se lhe intro-| duzira nas vêas ? Para que diminuir a herança dos| filhos queridos?–A pobre criança viveu pois com| os outros crioulinhos, feliz por lhe deixarem sua| mãe. Quando morreu o fazendeiro, seus filhos ti-| veram escrúpulos de associar-se áquella injustiça| atróz : meu pai recebeu a sua carta de alforria.| –Eu já o tinha dito ; esta história é vulgarissima,| mas era preciso dar uma resposta á Vossa Excelencia.
Dom JOSÉ.
Vê agora que é....
RAPHAEL.
Sou filho de um escravo, e que tem isso ?..| onde está a mancha indelevel ?... O Brasil é uma| terra de captiveiro. Sim, todos aqui são escravos.| O negro que trabalha semi-nú, cantando aos raios| do sol ; o indio que por um miseravel salario é| empregado na feitura de estradas e capellas ; o| selvagem, que, fugindo ás bandeiras, vaga de matta| em matta ; o pardo a quem apenas se reconhece o| direito de viver esquecido ; o branco emfim, o| branco orgulhoso, que soffre de má cara a inso-| lencia das Côrtes e o desdem dos europeos. Oh!| quando cairem todas estas cadêas, quando estes| captivos todos se resgatarem–ha de ser um bello| e glorioso dia !
Dom JOSÉ.
Vejo com pezar que nada temos feito...
RAPHAEL, prorompendo.
E que quereis que eu faça, senhor ? Não bas-| ta já de vergonha e de humiliação ? A vós é| que compete retirar-vos, ante que eu m'esqueça| dos vossos cabellos brancos. (Dom José vai a sahir,| entra Ayres firme e altivo).
SCENA XIII.
AYRES E OS MESMOS.
AYRES.
Sargento Raphael Proença, venho pedir-lhe a mão| de sua irman.
Dom JOSÉ.
Ayres, que significa isto ?
RAPHAEL.
Chega tarde, senhor.–Eu sei bem o que faço,| lavro uma setença de morte. Embora ! Vosso| sangue não ha de unir-se com o meu sangue.| (Quadro. Cáe e panno.)
FIM DO 2.º ACTO.
ACTO III.
INDEPENDENCIA OU MORTE!
ACTO III.
Um pouso na estrada de Santos. O theatro é dividido em duas par-| tes, representando á Esquerda do espectador uma taberna com balcão, ban-| cos, &c. e duas portas, uma no fundo, dando para a estrada,| outra que communica com o interior de casa : á Direita uma salinha, com| trastes usados, e grandes estampas de batalhas, pregadas ás paredes ;| uma janella ao fundo. Porta na parede de divisão.
________
SCENA I.
Á Dom AYRES, DORMINDO COM O ROSTO ENCOBERTO. Á Esquerda MEN| DONÇA, JUNTO AO BALCÃO, E BRAZ ENTRANDO.
MENDONÇA.
Então como vai isso ?
BRAZ.
O arco está prompto, patrão : um arco todo feito| de murta, com dous coqueiros aos lados, que pa-| recem os batentes da porta do céu. Olhe-me cá da| porta um bocadinho ; verá que maravilha !
MENDONÇA, indo olhar.
Optimo. O principe há gostar disso.
BRAZ.
Ora, não me paga as tardes ? Olhe que o traba-| lho foi grande. Vamos ! Um copinho da brasileira.
MENDONÇA, desarrolhando uma botija.
Ah ! rapaz, cedo começas com o vicio.
BRAZ.
Que se lhe há de fazer ! Os Brazes todos soffrem| da garganta. (Bebe). Ai ! que pinga ! Se o patrão| repetisse a esmola....
MENDONÇA.
Vá para lá, velhaco. Não tenho camas desoccu-| padas em casa.
BRAZ.
Homem ! Por fallar em camas.... o moço ainda| está lá dentro ?
MENDONÇA.
Ainda.
BRAZ.
E dorme ?
MENDONÇA.
Certamente.
BRAZ.
Assim, fidalguinho. Aposto que aquelle não sabe| o que é a gente ganhar a vida. E o mais é que| estou com pressa de vê-lo acordar.
MENDONÇA.
Porquê.
BRAZ.
Pois não sabe ? Berganhámos a roupa.
MENDONÇA.
Que está dizendo ?
BRAZ.
A verdade certa. E eu então que fico tão preju-| dicado ! Dar meu chapéu de Braga, a minha calça| de todos os dias, e o meu jaléco sem botões por| uma roupa fina, que está allumiando de nova. E'| certo que está uma sopa. O sujeito pelos modos| andou conservando com os peixes.
MENDONÇA.
E por isso é mudo como elles. Não lhe pude| arrancar dez palavras do bucho. Deixemo-lo dormir,| que isso tudo me pagará, e vejamos um pouco da| banda da Ypiranga.–Nada ! Nem gente, nem poeira.

BRAZ.
E' cedo, patrão. O homem não passa antes das| quatro horas.



MENDONÇA.
E é mau porque perdem a sêde. Ainda te lem-| bras do que ajustámos ?
BRAZ.
Eu cá só me esqueço das dividas.–Veja bem se| não é isto. Assim que apontar a comitiva, saltamos| para a estrada e nos ímos metter debaixo do arco,| em risco de beijar as unhas dos cavallos. Ora, o| principe não é tão soberbo que nos queira passar| por cima. Pára. Os outros fazem o mesmo. Nós então| berramos que é um gosto ouvir.–Viva o principe| regente !–Vinho legitimo da Madeira, e Porto supe-| rior.–Abaixo o absolutismo !–Comida fina e bara-| ta ; a louça é de graça.–Viva a Constituição !–| Quartos para dormir : criada bonita.
MENDONÇA.
Alto lá !
BRAZ.
Ora, bem vê estes vivas nos hão de render| alguma cousa. Se o pinricpe parar, paga para be-| ber ; e senão, pega para passar.
MENDONÇA, abraçando-o.
Oh Braz, tu és um grande homem !
BRAZ, com modestia.
Deixe-me crescer primeiro. (Chega á porta da Direita| e espreita). Não se acordaria ainda !
SCENA II.
OS MESMOS E LIBERATO.
(E' um negro alto e robusto, de feições orgulhosamente| ferozes. Traz a roupa em andrajos e uma grande faca á| cinta. Entra silencioso, toca na aba do chapéu e vai sen-| tar-se ao fundo, ao pé do balcão).
MENDONÇA.
Que quer ?
LIBERATO, com vóz rouca.
Aguardante.... vinho .... sangue.... alguma cousa| que atordôe, sim, senhor. (Mendonça serve-o).
BRAZ, á parte.
Ahi está uma figura que eu não quero por nada| encontrar fóra de horas. E parece que pediu san-| gue para beber.... Ora esta ! com tanto que não| seja o meu....
MENDONÇA.
Donde vem vossê, tio ?
LIBERATO.
De baixo, meu senhor. Sim.... todo branco é| senhor.
MENDONÇA.
Ah ! vossê chega de Santos ? O que há por lá| de novo ?
LIBERATO.
Não há nada. Mataram um homem.
MENDONÇA.
Uma morte !
BRAZ.
São Braz ! Se a conversa continúa assim, desconfio.
LIBERATO.
Senhor, bota mais cachaça aqui. Eu tenho sêde. Eu| tenho dinheiro. Hoje é o dia de minha liberdade.
MENDONÇA.
Prenderam o matador ?
LIBERATO, rindo.
Ah ! não. Liberato é ligeiro, não pesa ; branco| tirou as carnes delle.
MENDONÇA.
E como foi esse crime ? Quem é esse tal Libe-| rato ?
LIBERATO.
Ah ! senhor quer ouvir historia ? Negro vai con-| tar. Eu conheço muíto Liberato.... é outro como eu| mesmo.
BRAZ, á parte.
Assim me está parecendo.
LIBERATO.
Liberato teve tres captiveiros.–Primeiro senhor| delle era um velho muito bom. Dava esmola p'ra| pobre : Liberato morria de fome. Senhor velho ou-| via missa todos os dias, não sahia de igreja : Li-| berato trabalhava sem parar, não tinha dia-santo| seu. Um dia, branco quiz fazer uma capella ; não| tinha dinheiro, vendeu Liberato na fazenda. Foi| mulher que comprou elle. Marido já tinha morrido.| Era bonita.... bonita.... cara de anjo.... falla della| era musica.–Negro apanhava todo o dia, negro co-| mia barro p'ra não morrer de fome, negro não ti-| nha licença de dormir. Sinhá dizia : Feitor não pres-| ta ! E sinhá ajudava feitor.–Um dia mucama que-| brou o espelho grande : sinhá arrancou os olhos de| mucama.
BRAZ.
Que santinha !
LIBERATO.
Liberato não pôde mais, fugiu. Foi gente atraz,| e pegaram nelle. Sinhá disse : Surrem até morrer.| –Liberato apanhou tres dias. Nisto chegou homem| branco, homem grande, lá no Rio, e disse : Dou| meu cavallo rosilho por este negro. Sinhá conside-| rou e respondeu : Pode levar. Liberato esperou que| desatassem as cordas e foi ajoelhar ao pé de bran-| co. Branco virou as costas. Liberato jurou não se| ajoelhar nunca aos pés de homem.–Senhor novo| delle tinha um filho, que gostou de moça bonita| de São Paulo, e quiz casar com ella. Senhor velho| foi vêr moça, e não deu licença. Senhor moço tei-| mou. Pai delle, então que faz ? Chama soldado,| leva filho á força p'ra Santos. Lá no Cubatão Se-| nhor entra n'um saveiro com filho.... rema que| rema.... chegou na villa. Havia duas noites que| senhor não dormia. Fechou filho delle n'um quarto| de cima, pôz Liberato de guarda ao pé da porta e| foi-se deitar. Outro dia, quando acordou, abriu o| quarto ; estava vazío. Chama Liberato.–Onde está| meu filho ?–Não sei, não, senhor.–Ajoelha, cão.| Liberato não quiz ajoelhar. Homem pegou n'um| chicote, e tornou a dizer : Ajoelha. Liberato pu-| xou a faca e abaixou-se. Quando branco deu a| primeira chicotada, Liberato extendeu o braço : se-| nhor Dom José cahiu morto. Ahi está como foi. En-| cha o copo, meu amo.

MENDONÇA.


E' um bom exemplo para os que são compassivos| em damasía. Se o tal pateta deixasse Liberato ex-| pirar no tronco, estaria hoje com vida e saúde.
LIBERATO, rindo atrozmente.
E com cavallo rosilho delle, sim, senhor.
BRAZ, de parte á Mendonça.
Não lhe parece que o negro sabe a historia tin-| tim por tintim ? Aposto eu em como viu tudo.
MENDONÇA.
Tens razão. Será bom dar com elle na cadêa....| mas é preciso disfarçar e não lhe negar aguar-| dente. (Toma o chapéu e sáe).
BRAZ.
Não há de ser precisa muita. Vejam como elle| cabecêa ! Oh preto, queres beber mais ?
LIBERATO, ébrio.
Bota, menino. Hoje Liberato é forro.... não há| de ajoelhar mais.
BRAZ.
Se não na forca.
SCENA III.
OS MESMOS, VICTORINO E LUIZA.
VICTORINO.
Adeus, Braz (Vem dando o braço a Luiza, que se| apoia nelle pállida e abstrahida).
BRAZ, alegre.
Oh ! senhor Victorino ! há tanto tempo que não| apparece !
VICTORINO.
Não tens por ahi um quarto, em que Dona Luiza| possa descansar ?
BRAZ.
A casa está á sua disposição.
VICTORINO.
Basta-me a salinha. Faz favor de me preparar| uma limonada ? (Entra com Luiza á Direita, e não dá fé| de Ayres que continúa immovel. Luiza parece acordar| de profundo somno, e deixa-se cahir em uma cadeira).
BRAZ.
Só assim poderá acordar o meu fidalgo.
LUIZA, suspirando.
Ai ! Aonde estamos, Victorino ?
VICTORINO.
Em casa de um nosso conhecido, o Senhor Mendon-| ça.... sabe ? E' preciso tomar fôlego. O sol| está de abrasar e a senhora tão abatida....
LUIZA, erguendo-se vacillante.
Não. Eu nada tenho. Vamos !
VICTORINO, com accento doloroso.
Dona Luiza.... espere um instante. Quer que me| arrependa de lhe haver obedecido ? Me diga, o que| significa pôr-se a senhora a pé, nesta estrada, doente| e acabrunhada como está ? Aonde imos nós ? Em| procura de quem ?–Se é do padrinho, a senhora| bem sabe onde elle pára, a sua commissão está| acabada, pois o principe é esperado hoje, Para que| então sahir de casa, deixar a cidade ? Se é por| outra pessoa.... se é por causa do senhor Ayres....
LUIZA.
Sim.... e se fôr por elle ?
VICTORINO.
Se fôr por elle.... callar-me-hei então. A senhora| interrogue sua consciencia, ella lhe responderà bem| alto.
LUIZA, quasi a chorar.
Já me despreza, Victorino ?
VICTORINO.
Eu, Dona Luiza ? !
LUIZA.
Eu bem ouço seu coração dizer : Que mulher| leviana e indigna é esta ! Que alma vil que esque-| ce o ultimo dos seus deveres e faz da affeição| desinteressada dos seus ponte para correr é deshon-| ra e á perdição !–Não é assim ?
VICTORINO, tristemente.
A senhora nunca entendeu o meu coração.
LUIZA.
Perdão, Victorino, perdão ! Não sei o que digo....| padeço tanto ! Se era um martyrio cruel estar lá,| sem Raphael para consolar-me, só e devorada de| febre e de cuidados. Mais valeria morrer.... morrer| caminhando sempre.... morrer mais perto de meu| irmão e de Ayres. Ah ! se ao menos eu tivesse no-| ticias..., Que estou a dizer ? Meu amigo, tem ra-| zão.... leve-me d'aqui... salve-me....
VICTORINO.
Quer que voltemos, Dona Luiza ?
LUIZA.
Não.... quero que me deixe só.
VICTORINO.
Tem razão. E' melhor esperar-mos aqui pelo pa-| drinho, e entretanto a senhora cobrará forças. Um| pouco de somno não lhe fará mal. Eu saio, para| vêr quem passa na estrada. Se precisar d'alguma| cousa, chama o Braz (Passa á Esquerda. Ayres ergue-se| mansamente).
BRAZ.
Aqui está sua limonada.
LUIZA.
Quem poderá luctar com a destino ?
AYRES, com brandura.
Eu, Luiza.
LUIZA, erguendo-se vivamente.
Ayres !... Meu Deus, eu queria morrer assim| (Cáe-lhe nos braços).
AYRES.
Que fiz eu ? Acabei talvez de matal-a.... Pois a| ventura tão bem mata ? Não : é apenas um des-| maio.... para que eu possa apertal-a ao seio sem| remorsos. Ah ! Luiza.... como estás pállida ! Que| transfiguração ! Que orvalho de morte mangrou a| minha linda flôr ?...
LUIZA, tornando a si.
Ayres ! Porque me deixaste, meu Ayres?
AYRES.
Deixar-te, Luiza ! Não viste por ventura a mão| que nos separou, e que se podía erguer para amal-| diçoar-me ? E entretanto eu soube tudo arrostar,| as iras de meu pai, a escuridão da noite, o mar| que não se dignou tragar-me, os desfiladeiros da| serra ; e aqui me tens.... amante feliz e filho mal-| dito.
LUIZA.
Ayres !
AYRES.
Tu não me deves agradecimento, nada fiz por ti.| Não vêr-te, não estremecer ao som de tua voz é| superior ás minhas forças. Mil vezes antes morrer !| Quando estás commigo, Luiza, vejo o céu azulado,| as restias de sol ; as aves cantam e eu sou feliz.| Se estou ausente de ti.... não sei para que Deus| fez o mundo.
LUIZA.
Sim, Ayres, eu o entendo. Se me pudesse expli-| car assim ! Queria contar-lhe qual tem sido meu| soffrimento nestes tres dias. Se eu não precisasse| de vê-lo ainda.... teria morrido. Somos bem des-| graçados !
AYRES.
Antes, mas agora.... no céu não estava melhor.
BRAZ, á Esquerda.
Dona Luiza.... parece que está doente.
VICTORINO.
E' verdade.... a caminhada lhe fez mal. Ficou| descansando um pouco.
BRAZ.
Bem.... mas deixou-a só na salinha ?
VICTORINO, impaciente.
Ficou dormindo.
BRAZ.
Dormindo !.... mas então..... Ah ! entendo.
VICTORINO.
Quanto te devo ?
BRAZ.
Cinco réis. (Victorino paga-lhe e sáe) Se eu pu-| desse espiar um pouco aquella porta.... veria cou-| sas engraçadas. Nada de asneiras, e trabalhar !
SCENA IV.
AYRES E LUIZA.
AYRES.
Luiza !
LUIZA.
O que é ? Porque me acorda deste sonho ?
AYRES.
Não queres que te deixe só ? Precisas talvez de| repouso.
LUIZA.
Não.... não preciso.... estou tão bem ! As mi-| nhas lagrymas ainda correm, e já quer deixar-| me.... Ingrato ! Não consinto que se vá.... temo| tanto tornal-o a perder !... Ayres, não falle mais| nisso.... fique....
AYRES.
Meu coração não pede outra cousa e todavia....| é inevitavel a nossa separação. Ai ! daqui a meia| hora Victorino te virá buscar.
LUIZA.
Não o acompanharei.
AYRES.
E quando chegar teu irmão ?...
LUIZA.
Que chegue.... Ah ! elle diz isto para me affligir| mais.... Ainda que Raphael me amaldiçôe.... ouve| bem ?... eu não lhe obedecerei. Não hei de, não !| Ayres, se me ama.... não me abandone.... só sua| presença me dará forças para resistir.
AYRES.
Meu anjo.... que direitos tenho eu para exigir| tanto ?... mas se tu me comprehendesses....
LUIZA.
Escute, Ayres. Eu sei bem quanto lhe devo....| quanto por mim quiz sacrificar. O affecto de seu| pai ; seu orgulho de familia ; as graças e a riqueza| de tantas mulheres.... tudo.... até a honra.... não| é certo que se deshonrava casando commigo ?–E| que tenho eu para dar-lhe em troca de isso tudo ?| meu amor só. Pois bem !... eu lh'o dou e quero| que me agradeça.
AYRES, ajoelhando.
De joelhos, Luiza.
LUIZA.
Raphael disse-me tanta cousa que não sei en-| tender. Se amo, porque não hei de dizel-o ? Sou| sua esposa ; porque não hei de lhe pertencer ?
AYRES, erguendo-se
Posso eu contradizer-te, Luiza ? Sim, fóra do| amor tudo é vaidade. Espera-me aqui.... em breve| partiremos.... Vou apromptar dois animaes para| nos conduzirem. Lembra-me ter visto na mange-| doura um bonito cavallo branco : será para ti.| Estás prompta a acompanhar-me.... não é assim ?...| tu o disseste. Mas Victorino.... elle está á tua es-| pera.... se descobrir nossos projectos de fuga, ha de| oppôr-se sem duvida. Vou sahir por esta janella....| Ah ! eil-o ahi fóra.–Chega agora o dono da casa....| vou fallar-lhe. Até já, Luiza ; não desanimes.


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