OrganizaçÃo do corpus diacrônico do português paulista



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LUIZA.
D'aqui a pouco estarei prompta. Volte logo. (Con-| certa a roupa, etc.)
SCENA V.
OS MESMOS E MENDONÇA.
MENDONÇA.
Muito bem !... o nosso canhembora não se arre-| dou do lugar. Já lhe deixei arranjada na cidade| casa de graça. Não tarda ahi a escolta.
AYRES, á Esquerda.
Senhor !...
MENDONÇA.
Que manda ?
AYRES.
Não tem um cavallo para vender ?
MENDONÇA.
Tenho dois.
AYRES.
Melhor. São meus. Faça o favor de vir entregar-| m'os, que preciso delles já.
MENDONÇA.
Prompto. Oh ! Braz, já sabes o que tens a| fazer ?... Vê que os soldados façam despeza.... e|

que a paguem.


BRAZ.
Deixe por minha conta. (A Ayres.) Meu amo, a| minha roupa.... quero dizer, a sua roupa está lá| dentro. (Sahem Mendonça e Ayres.) Oh ! foi uma verdadeira pechincha. O panno é bom e não está| rasgado.
LUIZA.
Meu Deus, sinto que me falta o animo ! (Cáe| sobre uma cadeira, e esconde o rosto nas mãos.)
SCENA VI.
LUIZA, BRAZ, UM CABO, E QUATRO SOLDADOS.
O CABO, da porta.
Psiu !
BRAZ.
Pódem entrar, camaradas.
O CABO.
Aonde está o fulano ? Será este ?... (Indica Libe-| rato adormecido.)
BRAZ.
Sem tirar, nem pôr.
O CABO.
Está me fazendo pena. Vejam como está avina-| grado, e a roncar que nem um bispo ! Oh lá, ra-| pazes, qual de vossês quer carregar esse baril de| cachaça ?–Nenhum ?...
UM SOLDADO.
Eu, Senhor cabo. Deixe primeiro tomar-lhe o pezo.| Aposto que este tratente não traz passaporte....
BRAZ.
Ah ! malandro ! está-lhe fazendo cócegas nas al-| gibeiras. (Liberato desperta, e ergue-se impetuosa-| mente. Os soldados recuam.)
O CABO.
Está preso. Camaradas, sentido com a porta !| não o deixem fugir.
LIBERATO.
Preso !... Quem quer me prender ? !...
O CABO.
Eu, se fôr do seu gosto. Foi denunciado á Jus-| tiça, por haver feito uma brincadeira.... lá por| Santos.... não é isto ?
LIBERATO.
Preso.... entrar na cadêa.... forca depois.... Não,| caminho é comprido.... quero outro mais curto.| (Desembainha a faca.)
O CABO.
Não se entrega ?... Cheguem, amigos.... agarrem-| n'o, e se resistir....
LIBERATO.
Espera, branco. Vê esta faca ? ainda tem san-| gue.... mas preto não quer mais defender a vida.| Fui eu que matei Senhor Dom José, é o meu nome| é.... Liberato. (Fere-se e cáe morto. Horror nos| soldados.)
O CABO.
Oh ! diabo ! Quem esperava por esta brincadeira ?| Que pressa teve elle !
UM SOLDADO.
Poupou uma corda á Justiça.
O CABO.
E talvez alguns arranhões é tua pelle. A dili-| gencia está feita. Ponham-se em marcha. (Vai a| sahir ; Braz corre a detel-o.)
BRAZ.
Então, Senhor cabo, não gasta alguma cousa ?
O CABO.
Agora não póde ser. (Baixo a Braz.) Não vês| que somos cinco ? Espera, meu rapaz : eu volto| logo.... só. (Alto.) Vamos, gente. Arrastem isso.| (Sáe com os soldados, levando o cadaver.)
SCENA VII.
BRAZ, AYRES E MENDONÇA.
MENDONÇA.
Os cavallos são bons. Ficam-lhe quasi de graça.| Não se ha de arrepender do negocio.
AYRES.
Dê-me a conta do que devo, que não me posso| demorar muito. E' verdade.... não ha outro ca-| minho para sahir na estrada ?
MENDONÇA.
Ha outro, aqui por dentro. Encurta bastante.| (Ayres entra á Direita.–Mendonça senta-se ao balcão para| escrever.) Braz, dá-me papel e tinta. Esqueci-me| de perguntar-lhe o nome. Que vá.... Francisco José| Penna.
BRAZ.
Não lhe vai deixar uma só.
LUIZA.
Pois já ?...
AYRES.
Vamos, Luiza, não ha tempo a perder. Que| fazes ? Aqui está o teu chapéo.... toma o xale....| apressa-te.
LUIZA.
Ayres, o coração bate-me tanto.... não é uma| acção má que imos commetter ?
AYRES.
Que, Luiza ! Já te arrependes do passo que vais| dar ? Que é feito do teu amor, e da tua resolução ?
LUIZA, desatando o pranto.
Ayres....
VICTORINO, fóra.
Dona Luiza.... elle ahi chega.
AYRES.
E' Victorino.... Oh ! meu Deus, que tudo se vai| perder !
LUIZA, erguendo-se.
Não, Ayres.... eu já estou prompta. Aonde quer| que eu va ? diga....
AYRES.
Segue-me. Ah ! a minha bolsa que eu esquecia....| Vamos agora. (Dá-lhe o braço, e dirigem-se á Esquerda.)
SCENA VIII.
OS MESMOS E RAPAHEL.
RAPHAEL, fóra.
Ella está aqui, Victorino ? (Entra precipitadamente| pela Esquerda, como quem chega de longa marcha, e vai| direito a Mendonça.) O principe vai passar.... (Atira| ao balcão um punhado de moeda.) Tomem isto.... e| não se esqueçam de gritar : Independencia ou| morte !
MENDONÇA.
Ouves, Braz ?... corramos ao arco. Deixa o di-| nheiro rolar, avarento ! (Saem ambos correndo.)
SCENA IX.
RAPHAEL, AYRES E LUIZA.
LUIZA, á Esquerda.
Ah ! Ayres, o amor que eu lhe tenho deve ser| bem grande....
RAPHAEL, correndo para Luiza.
Minha irman.... (Ao tomal-a nos braços, vê Ayres,| repelle Luiza com indignação e pasmo, e recúa violenta-| mente.) Ah !
LUIZA, cahindo de joelhos.
Perdão.... Rapahel !
AYRES, aniquilado.
Elle !... elle aqui !...
RAPHAEL, com frieza.
Senhora.... perdôe-me.... não a conheço. Vinha| de fóra, aqui está tão escuro.... enganei-me.
LUIZA.
Meu irmão....
RAPHAEL, desdenhoso.
Engana-se igualmente : eu já não tenha irman.| (A Ayres, dando um passo.) Que vinha aqui fazer,| Senhor Saldanha ?
AYRES, mostrando Luiza.
Leval-a commigo, ou morrer.
RAPHAEL.
Leval-a comsigo.... nada mais justo. Tem pro-| vavelmente direitos sobre ella ; e eu, quando ainda| os tivesse.... não os quereria sustentar. (Rindo com| amargura.) Ha ! ha ! ha ! Cuida que eu os em-| bargarei ? que arrancarei os cabelles, e me atra-| vessarei na porta ?... Oh ! não ! Que tenho eu com| isso ? Um passeio ao luar..... com uma bella amante| ao lado.... é cousa que a ninguem se pohibe.| Não valia a pena apear-me para vêr essa bagatela.| Senhora, póde passar.
LUIZA.
Mano, mate-me.... mate-me antes.... mas não me| falle assim.
RAPHAEL.
Matal-a.... Para que ? Seria uma brutalidade sem| motivo. Uma noite.... não faz muito tempo isso....| haverá quem se lembre.... suspeitei que o meu| amor só não bastava a minha irman, e estive a| ponto de commetter um crime. Hoje, vejo-a des-| honrada.... e vou-me embora. (Dá alguns passos| para sahir, e volta-se repentinamente. Prorompendo.)| Meu Deus !... e sou forçado a amaldiçoar este dia !...| Luiza, que fizeste ?... Aonde estava o teu anjo da| guarda ? Não te lembraste de mim ? não te lem-| braste de nossa mãe ?–Desgraça ! desgraça !–Eu| ardia de impaciencia de vêr-te, guardava para ti| mil beijos, mil consolações.... e tu abandonavas-| me.... Luiza !
LUIZA.
Perdão !
RAPHAEL.
Não, não posso perdoar-te.... porque não te posso| punir. Pensas que é a elle que odeio e detesto ?...| não ! é a ti, a ti sómente. Que é Ayres de Sal-| danha a meus olhos ? um extranho, um filho de| outra patria, uma vida que ha de cessar quando| eu quizer. Mas tu, Luiza !... tu, minha irman !...
LUIZA.
Perdão para elle !
RAPHAEL.
Nunca ! São baldadas as tuas supplicas. Roja !| roja, miseravel ! satisfaze a tua natureza. As mu-| lheres são viboras.
AYRES.
Ergue-te, Luiza.... Pedir por mim é degradar-me.
RAPHAEL.
Que disse elle ? Parece que o infame ainda se| atreve a provocar-me !... Cuidado, Saldanha.... ou| verás como a esmago diante dos teus olhos.
AYRES, pondo-se de permeio.
Mate-me antes, Proença !
RAPHAEL.
Desgraçado !
AYRES, erguendo Luiza.
Ergue-te Luiza ; não fraquêes. Lembra-te que| me amas, e que te amarei o dobro dos affectos| que pódes perder. Teu irmão te repelle.... eu tam-| bem fui amaldiçoado por meu pai.
SCENA X.
OS MESMOS E VICTORINO.
VICTORINO.
Já não tem pai, senhor.
AYRES, admirado.
Que dizes ?
RAPHAEL.
Dom José....
VICTORINO.
O Senhor Dom José foi assassinado por um escravo,| que elle julgava ter favorecido a fuga do seu filho.| (Raphael medita.)
AYRES.
Assim, fui eu que o matei.... foi a minha mão| que descarregou-lhe o golpe !–Vês tu, Luiza ? o| meu destino é este.... Foge de mim ! Eu sou um| ente maldito.... cujo contacto tudo mancha e in-| felicita. Oh ! Luiza, que futuro eu sonhava !... e| que existencia é esta !
RAPHAEL, gravemente.
Escuta, Saldanha. Deus acaba de tirar-te os bens| mais estimaveis da vida. Da tua familia resta só| uma sepultura ensanguentada. Esta terra que pisas| já te não conhece ; é uma terra livre, que te re-| jeita com suas faixas de escravidão. Nem patria,| nem familia....
AYRES.
Acaba, tirnado o que Deus me deixa.
RAPHAEL.
Quando tinhas tudo isso, eras para mim um ini-| migo. Hoje, que nada tens, extendo-te a mão, e| digo-te : Queres acceitar a minha patria, e a minha| familia ?
AYRES, maravilhado.
Que vens a dizer ?
RAPHAEL.
Dá-me a tua mão, Luiza. Hoje é o dia do Ypi-| ranga e da felicidade.–Ayres de Saldanha, queres| ainda ser meu irmão ?
LUIZA, com um grito de jubilo.
Raphael ! eu devo-lhe a vida.
AYRES.
Irmão ! tu és grande como Deus. (Abração-se es-| treitamente.)
RAPHAEL, commovido, tentando desembaraçar-se.
Basta.... Que é isto ? Querem estrangular-me em| agradecimento do que fiz ? (Tropear de cavallos, tinir| de espadas, vozes fóra.) Ouvem ?...
MENDONÇA, BRAZ, ETC., fóra.
Independencia, ou morte ! (O Principe e seu se-| quito atravessão o fundo do theatro.)
VICTORINO.
E' Sua Alteza que chega.
RAPHAEL, grave e descobrindo-se.
Descubram-se, filhos.... E' o Brasil que passa.
VOZES DO SEQUITO, fóra.
Independencia, ou morte ! (O ruido afasta-se ;| cáe o panno.)
FIM DO DRAMA.
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São Paulo.–1863.–Typographia LITTERARIA, Rua do Imperador numero 12.

ERRATA
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PAGina [espaço] LINha [espaço] ERROS [espaço] EMENDAS


7 [espaço] 9 [espaço] MILITAR. [espaço] Dom JOSÉ

12 [espaço] 22 [espaço] Pompilios. [espaço] Popilios.

20 [espaço] 23 [espaço] Aqui o meu [espaço] Aqui tem o meu

45 [espaço] 15 [espaço] dever [espaço] devem

52 [espaço] 16 [espaço] acompanhar [espaço] acompanhando

60 [espaço] 16 [espaço] tiquijadas. [espaço] tiguijadas.

62 [espaço] 9 [espaço] titia ? [espaço] titia.

81 [espaço] 5 [espaço] braço [espaço] rosto

84 [espaço] 19 [espaço] não é uma prostituta ! [espaço] não se vende ! (*)

93 [espaço] 2 [espaço] Porquê. [espaço] Porquê ?

104 [espaço] 2 [espaço] estava [espaço] estaria

109 [espaço] 9 [espaço] baril [espaço] barril


(*) Isto é para não excitar os biôcos de certos espectadores, que| se arripiariam ouvindo o brutal « whorse » de Othello, e que ap-| plaudem todavia as Revoltas, as Lusbelas, e a demais caterva rea-| lista. A cousa é sempre a mesma ; o nome é que tem variado.
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