Orígenes (185 – 253)



Baixar 56.69 Kb.
Encontro16.05.2018
Tamanho56.69 Kb.


ORÍGENES

(185 – 253)
[O que aparece entre colchetes são elucubrações, provavelmente, dispensáveis ao estudo em si, porém ao autor “toques decorrentes do clima envolvente pela reflexão e tempo de dedicação ao autor escolhido.]
[Inicialmente, uma consideração em face da santa ignorância da qual sou réu confesso: Há algum tempo apesar de ouvir ou ler referência aos Padres da Igreja – à Patrística, quase nada sabia acerca deles ou dela e nunca me dedicara à pesquisa para aprender.

Lembrei-me de um episódio: Certa feita a minha esposa me disse quando eu todo entusiasmado com a aula de Filosofia da noite passada quis lhe explicar o que vinha a ser “juízo sintético a priori”. Escuta, eu tenho mais de sessenta anos e tenho vivido tão bem sem saber o que é isso e você quer fazer com que eu fique “encucada” com isso agora?! Disse isso com um leve sorriso mais querendo ver a minha reação... e eu, pego de surpresa, me pus a rir e engavetei o assunto! Era conversa muito indigesta para uma hora gostosa da manhã reservada ao café com leite e pãozinho com manteiga, na padaria próxima de casa... eu tinha que perceber!? Mas ela brincou com a situação: Outra hora você me explica o que vem a ser isso, pode ser.

No outro dia, no mesmo local e circunstâncias ela me questiona: E aí?! O que teve na aula de ontem de Filosofia que foi interessante? Aí não tive coragem de lhe falar de “imperativo categórico de Kant”. Ela, inteligente e perspicaz, entendeu o silêncio como resposta emoldurada pelo olhar fixado num ponto bem distante, distraidamente. Palavras não foram necessárias, a atitude por si só respondeu.

Não se veja no episódio atitude desrespeitosa da minha interlocutora eis que quando falara sobre o “argumento ontológico de Anselmo” prestou atenção e pudemos conversar bastante sobre o conceito. E tantos outros assuntos teológicos puderam ser objeto de diálogos interessantes no mesmo ambiente e situação.

Mas, voltando ao assunto, quando a Professora de Patrologia/Patrística na primeira aula, pôs-se a discorrer sobre os Padres da Igreja e da Patrística, veio-me logo à mente: Ah! Agora vou-me obrigar a estudar esse assunto que tanta importância tem à história do Cristianismo. Aleluia! Vou aprender um pouco. Ante a proposta para que cada um dos alunos escolhesse um dos Padres da Igreja, sendo mencionado o primeiro nome - Orígenes, não titubeei e levantei a mão. Afinal de contas já ouvira nome de tantos outros: Clemente Romano, Gregório de Nazianzeno, Gregório de Nissa, Irineu de Lyon, Jerônimo, Filão de Alexandria, Inácio de Antioquia, João Crisóstomo, Cirilos, mas não me recordava de Orígenes. Esse nome trazia-me à mente alguém dos tempos de Cícero, ligado à civilização romana e filosofia grega, antes da Era Cristã e jamais a um Padre da Igreja dos tempos pós-apostólicos. Ainda mais que, diferentemente de todos os citados o nome Orígenes não aparecia antecedido nem de São e nem de Santo. Alguma coisa havia de ter e eu teria a ventura de descobrir o motivo! O nome lembra em sua gênese “origem” mas, ao buscar o significado do nome aprendi que era “ser vibrante”. Novamente a ignorância dando o ar de sua graça. Fazer o quê!? Aprender sempre e tanto até quando a Providência Divina me propiciar condições. Faço esse registro do sentimento que me assaltou de início para que, ao final, possa, ao registrar a situação futura que será presente (Ih! Veja aqui a influência agostiniana) a quem se dispuser a ler, estabelecer uma comparação.

É comum dizermos, após participar de qualquer evento, solenidade, celebração ou assistirmos a uma aula, ouvirmos uma pregação, que saímos diferentemente do que quando entramos. Apesar da obviedade, quer ressaltar que a nossa postura tem que ser de apreender conceitos, aprender mais, aprofundar a reflexão, capacitar-se mais, ser pessoa melhor que amplie a capacidade de amar e de se entregar à construção do Reino de Deus. É assim que entendo o estudo da Teologia. É assim que aprendo. Sofrendo diante da consciência do tanto ignorado, mas vibrando a cada aprendizado como se fosse a pérola mais preciosa do mundo que se está a adquirir.

O discorrido até aqui é explicitação do que ocorre no fundo da alma e do hemisfério cerebral direito (do emocional, intuitivo e artístico) mais do que do hemisfério cerebral esquerdo (da lógica e da razão).

Registre-se a inevitável angústia pelo fato de que tudo o que se vai pesquisar e depois escrever seja sobejamente conhecido por quem o lerá. Dada a pouca carga horária para tanto conteúdo, introduzir-nos no rico e relevante universo de pensadores da Igreja dos primeiros séculos, despertando a curiosidade de aprender mais sobre outros Padres ou doutores da Igreja é uma estratégia interessante.

Por onde começar o trabalho sobre Orígenes?

Na Biblioteca orientando-me pelas indicações bibliográficas! Nem há muito jeito de ser diferente. Só isso é o suficiente? Pode até ser que sim, se o horizonte for apenas o cumprimento da meta: entregar o trabalho escrito sobre a personagem escolhida, no dia definido, conforme os parâmetros estabelecidos. Mas, considerando-se o tempo disponível, pus-me a pesquisar incessantemente na internet, mormente em sites acadêmicos e católicos, sobre Orígenes. Não encontrei, diga-se de passagem, dados contraditórios como às vezes acontece quando se tenta aprofundar a pesquisa em torno de uma personalidade da história antiga. Lembro-me de que no passado tive a curiosidade em face de um trabalho de Palestina do Tempo de Jesus, de saber, com certeza quem foi Herodíades, mãe de Salomé. Uma confusão: acabei não tendo certeza de quem ela era esposa, nem de quem era filha. Acontece o mesmo quando se trata de assunto do campo do Direito. Algumas vezes, mais se é confundido do que esclarecido, encontrando-se a solução e a certeza em livros, códigos comentados por doutrinadores consagrados. A internet mal usada pode levar a erro, algumas vezes, de conseqüências funestas. No tocante a Orígenes não encontrei contradições entre as diversas matérias]

Extra! Extra! Informação prestada por Dan Martins em 15/06/2012, portanto, recentíssima, dá conta de que “uma série de escritos encontrados pela pesquisadora Marina Molin Pradel está chamando atenção entre os estudiosos da história da igreja cristã. Escritos raros de Orígenes, um dos Pais da Igreja, encontrados no seu idioma original. A descoberta aconteceu enquanto ela preparava um novo catálogo dos manuscritos gregos da Bayerische Staatsbibliothek, em Munique (Alemanha). Enquanto examinava o conteúdo do Codex Monacensis Graecus 314 (do século 11 a 12), uma coleção anônima de 29 homílias (supostamente inéditas) dos Salmos, ela descobriu que os manuscritos incluíam 4 das 5 homílias de Orígenes sobre o Salmo 36 traduzidos por Rufino.

A descoberta foi anunciada por Lorenzo Perrone, o maior especialista em Orígenes na atualidade, e já está sendo chamada entre os eruditos como o “achado do século” ¹

Desfiarei, antes de mais nada, um rosário de considerações, referências biográficas e menções encontradas nos diversos escritos sobre Orígenes., o que dá mostras da extensão da importância do seu pensamento, das suas obras e da sua existência para o Cristianismo; além de toda a carga denotativa ou conotativa latente nas definições e epítetos:

Ei-lo, conforme anotações manuscritas que não registraram a autoria: Raiz do mal de onde se originavam heresias; fanático religioso; juntamente com Santo Agostinho o maior gênio do cristianismo antigo; fundador da ciência bíblica por suas pesquisas sobre as versões da Escritura; constituiu a primeira grande síntese teológica e quem primeiro se esforçou de maneira metódica a explicar o mistério cristão; fundador da teologia espiritual; ancestral do grande movimento monástico do século IV; super-herói de sua época com o apelido Adamâncio – “o homem de aço” pela produção literária abundante e por várias viagens e algumas atitudes radicais; o grande Mestre da Igreja depois dos apóstolos; o maior teólogo da antiga escola de Alexandria; catequista; filósofo neoplatônico grego; exegeta; mestre de teologia; elaborador de uma síntese da filosofia grega e da sabedoria bíblica em elaborado raciocínio sistemático; pensador à frente do seu tempo; influenciador do pensamento de vários expoentes da ortodoxia como Atanásio e dos luminares do Oriente: Basílio, seu irmão Gregório de Nissa e Gregório Nazianzeno e Pai da ortodoxia.

Esse rol citado comportaria outras classificações positivas e negativas. Dá mostras da extensão da importância do seu pensamento, das suas obras e da sua existência para o Cristianismo; além de toda a carga denotativa ou conotativa latente nas definições e epítetos. Evidentemente, não se eleva tudo o que ele ensinou como verdade doutrinária, pelo contrário – há grandes reservas.

Nesse escarafunchar da internet para me familiarizar com Orígenes, encontrei duas catequeses do Papa Bento XVI nas audiências das quartas-feiras, a respeito dele. ² O mais interessante é que isso se deu em duas oportunidades. No ano 2007 dias 25/04/2007 e 02/05/2007 e 16/04/2008 e 23/04/2008. Em ambas o conteúdo ministrado foi o mesmo, o que vem corroborar o elevado conceito devotado pelo magistério a Orígenes. Não nos esqueçamos de que o magistério da Igreja hoje está confiado a um dos maiores teólogos: Joseph Ratzinger, Papa Bento XVI.

[Ah! Ainda bem que não tem nenhum xará de Diógenes, pensei! São tantos os xarás Gregório, por exemplo; que acaba causando confusão.] Importante não o confundir com o filósofo Orígenes, o Pagão (210-280), mais jovem e também integrante da Escola de Alexandria, porém discípulo de Plotino – recomendação existente em alguns escritos sobre a biografia de Orígenes.

Orígenes nasceu em 185 na cidade de Alexandria, no Egito, filho de Leônides que foi martirizado sob jogo do Império Romano. Esse martírio foi almejado por Orígenes, porém, impedido pela providencial atitude de sua mãe. [Mãe é mãe!] Em uma homilia, quarenta anos depois da decapitação do pai, Orígenes confessou: “De nada me serve ter tido um pai mártir se não tenho uma boa conduta e não honro a nobreza de minha estirpe, isto é, o martírio de meu pai e o testemunho que o tornou ilustre em Cristo” (Hom. Ez. 4, 8). Orígenes foi preso e torturado cruelmente na perseguição de Décio, vindo a falecer em 253 depois de algum tempo em decorrência dos sofrimentos. Pode-se dizer, então, que o martírio desejado se concretizou.

Ainda quando se estuda o desenvolvimento de um pensamento original [com o perdão da redundância] acerca de alguns “complexos” conceitos teológicos, começa-se a entender o seu posicionamento filosófico e religioso, desvendando-se o motivo de alguns acontecimentos indesejáveis em sua vida. O altíssimo nível cultural e intelectual de Orígenes demonstrado nos ensinamentos onde quer que lecionasse, pregasse ou prelecionasse o levaram a ser alvo de críticas e invejas. Mais ainda, a ser condenado, ainda que postumamente, pela hierarquia sob a alegação de ensino enganoso ou desvirtuado. Orígenes teve Clemente de Alexandria como mestre, em 2003 [imagine com 17 ou 18 anos. Um prodígio que hoje “bombaria” na mídia, tanto quanto o jovem craque Neymar, ídolo dos amantes do futebol] foi nomeado pelo Bispo Demétrio para dirigir a Escola de Alexandria e lá permaneceu no ofício de ensinar. Pela postura de vida através de palavras e atitudes, conquistou muitos alunos e discípulos e sua fama cada vez mais se alastrava a tal ponto que a mãe do imperador Alexandre Severo de nome Júlia Mamea, chamou-o para que lhe ministrasse e, há quem garanta, também ao filho os ensinamentos que a tantos causavam admiração.

Orígenes foi ordenado presbítero pelos Bispos Teoctisto e Alexandre, fato que provocou a irritação de Demétrio que não fora consultado.

Ao episódio da autocastração que praticara com base na leitura equivocada de uma passagem paulina não é dado grande destaque. É fato um tanto quanto irrelevante diante de tão grandiosa produção intelectual, só importando ao Bispo Demétrio que o utilizaria para atrapalhar o quanto podia a vida clerical de Orígenes.

[Dá vontade de brincar e afirmar que diante da dor do flagelo, referente à autocastração que praticou Orígenes enxergava os três níveis de leitura bíblica: a literal, a alegórica e a espiritual. Se assim não proceder, podem advir conseqüências que induzem a erros. Fazer-se eunuco deve ser compreendido no sentido espiritual sem qualquer implicação física. [Longe de mim, aluno iniciante nos estudos teológicos, pretender ensinar a quem foi reconhecidamente grande no ensino das verdades reveladas. Entenda-se como mera referência que contribui didaticamente para memorização. Nada mais do que isso.]

“Orígenes foi posto sob acusação. Demétrio aproveita a ocasião para reunir um Concílio e excomungá-lo. Dois concílios convocados sucessivamente e que reúnem bispos e sacerdotes do Egito irão privá-lo do encargo de ensinamento na escola de Alexandria e o declararão indigno do ministério sacerdotal e o expulsarão da comunidade. A Igreja de Roma ratifica as deliberações do clero egípcio.” ³ (CTP)

O Bispo Demétrio é quem deveria ordená-lo presbítero em Alexandria consideradas as regras vigentes, porém não o fazia por nutrir pelo “subordinado” certa inveja pelos seus dotes intelectuais e pela notoriedade que alcançara.

[Inveja é algo que não deveria existir no seio da Igreja de Cristo, mas, ironicamente é algo que se faz presente de modo muito firme e devastador. Basta analisar o cenário que presenciamos nas paróquias, inclusive, nas pastorais das quais participamos. Isso sem falar na comentada, pública e notória “rivalidade” entre os padres “midiáticos” católicos que jamais se unem num só evento atraindo um só rebanho. Isso para não termos que ficar apontando o dedo para os pastores eletrônicos que a si atribuem títulos de apóstolos e bispos (sem que haja sucessão histórica), fundadores de seitas e igrejas que disputam fiéis quase à tapa, cada qual produzindo mais milagres, curas e prosperidades do que o outro, aplicando as mais modernas técnicas de marketing e auto-sugestão de que se tem notícia na história da evangelização. E as ovelhas, sedentas e famintas, seguem a voz do pastor, fazendo ouvidos moucos ao que grita a lógica do mundo que se lhes apresenta demoníaca e destruidora. Suicídio coletivo, lento e gradual, em busca do bem propagado e dado publicidade pelas ondas do rádio e imagens da televisão que a pretexto de prosperidade, subtraem o que de mais precioso o Altíssimo nos dotou: a liberdade.]

Tudo isso escrevo, pois retidas na memória as palavras de Orígenes que a todos encantava pela profundidade: “que a conduta deve corresponder exatamente à palavra, e foi sobretudo por isso que, ajudado pela graça de Deus, induziu muitos a imitá-lo.” Não obstante toda a riqueza teológica de pensamento, nunca é um desenvolvimento meramente acadêmico; está sempre fundado na experiência da oração, do contacto com Deus. De fato, em sua opinião, a compreensão das Escrituras exige, ainda mais do que o estudo, a intimidade com Cristo e a oração. Ele está convicto de que o caminho privilegiado para conhecer Deus seja o amor, e que não se verifica a autêntica scientia Christi sem se apaixonar por Ele.”² Gregório de Nissa, irmão de Basílio, pensava a “Teologia não como mera reflexão acadêmica, mas uma expressão de vida de fé vivida”. Ainda nesse contexto prático teológico, repercutiu intensamente a construção poética e teológica de Gregório de Nazianzeno amigo de Basílio, que mereceu afixação de cartaz no mural da sala de aula apresentando o que deve preceder a ação, para que não se configure falacioso:

“Primeiro purificar-se e depois purificar,

Primeiro deixar-se instruir pela sabedoria, para depois instruir,

Primeiro converter-se em luz, para depois iluminar,

Primeiro aproximar-se de Deus, para depois elevar os outros até Ele,

Primeiro ser santo para depois santificar.” (AULA)

A afixação no mural visa à conscientização de todos os alunos de Teologia para a relevância do testemunho próprio para a eficácia dos gestos e atitudes daquele que se dispõe a servir.


OBRAS
Produção literária: “São Jerônimo, em sua Epístola 33, cita os títulos de 320 livros e de 310 homilias de Orígenes. Lamentavelmente, a maior parte dessa obra se perdeu, mas inclusive o pouco que resta dela lhe converte no autor mais prolífico dos primeiros três séculos cristãos. Seu raio de interesse se estende da exegese ao dogma, à filosofia, à apologética, à ascética e à mística. É uma visão fundamental e global da vida cristã.”²

Infelizmente, constata-se que pouco sobrou das obras de Orígenes até os nossos dias, por vários motivos, inclusive decorrentes da condenação explícita da igreja.



Héxaplas: Orígenes realizou um grande estudo da Bíblia e nele apresentava seis colunas paralelas, de esquerda a direita, com o texto hebreu em caracteres hebreus e depois o texto hebraico transliterado em caracteres gregos, seguiam-se quatro traduções diferentes em língua grega. Essa disposição lhe permitia fazer comparação com as diversas traduções e recebeu o título por causa das seis colunas. Conhecia-se exatamente o texto bíblico do ponto de vista literal. Depois disso, Orígenes fez seus Comentários a partir de uma reflexão sobre o texto bíblico e deles se utilizava na escola de Alexandria e também em Cesaréia. O estudo compreende minuciosamente quase versículo a versículo. Ele aprofunda, pesquisa e aponta notas de caráter filológico e doutrinal. Aplicava-se para bem conhecer o que os hagiógrafos quiseram transmitir.

Contra Celso: A obra apologética encomendada por Ambrósio, em vista da alta capacidade intelectual de Orígenes, tornou-se célebre. Cada parte do pensamento que se entendia herético desse tal de Celso (filósofo pagão do qual pouco se sabe) foi analisado, criticado e publicado. A obra compõe-se de oito livros. Conhece-se mais sobre as concepções de Celso pelo que foi contraditado na obra de Orígenes.

Tratado sobre os Princípios: “No tratado traz reflexões teológicas sobre a natureza de Deus, do seu Logos e sobre a Criação. Esta obra é considerada de enorme influência sobre todo o pensamento teológico posterior. Nesse tratado fez distinção clara entre “principiantes, avançados e perfeitos relacionando respectivamente com as interpretações literal, moral e alegórica da Escritura (Princípios IV, 2,4). Nas homilias à primeira categoria, à qual, porém não nega a interpretação alegórica; não é provavelmente por acaso que, nas homilias sobre o Levítico (5,5), ele mencione as três interpretações, histórica, moral e mística, mas sem relaciona-lãs as três categorias diferentes de leitores.” (HLCAGL)

Escritos diversos: Destacam-se da produção de Orígenes: i. escólios que são breves explicações de passagens bíblicas difíceis ou de destacado interesse; ii. homilias que pregava freqüentemente pois faziam parte da atividade sacerdotal de Orígenes quando em Cesaréia e iii. comentários que mereciam maior empenho pois refletiam seu ensinamento escolástico. Salvaram-se os Comentários a São Mateus e Comentários a São João, bem como os quatro livros do Comentários ao Cântico dos Cânticos; além de uma parte do Comentário aos Romanos. Lamentável é a perda do Comentário aos três primeiros livros do Gênesis. “Estes capítulos tiveram uma grande importância entre os Padres pela sua antropologia, criptologia e doutrina trinitária.“ (CTP)

CONCEITOS ORIGENIANOS
Trindade Santa: Ressalte-se que na época na busca por bem definir quem foi Jesus Cristo como homem e Deus, construíam-se pensamentos que hoje são conhecidos como heresias. Segundo Orígenes em sentido estrito só o Pai é Deus. É o único que não foi gerado. É o motor primeiro, imóvel, na concepção aristotélica. É o Pai fim e a fonte de toda a existência. O Pai trouxe à existência um mundo de seres espirituais, ou almas, que são co-eternas consigo. Daí resulta toda uma grande discussão a respeito da plena restauração no mundo vindouro (paraíso).

Entende Orígenes que apesar de ser Deus, o Filho por ser derivado, apresenta-se secundário. E, depois do Filho, vem o Espírito Santo que é definido como o mais que merece honras de todos os que vieram à existência pelo Verbo, o primeiro da série.

Orígenes usava o termo grego hipóstase (que originalmente é sinônimo de ousia) para afirmar que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Pessoas. O termo empregado significa a essência: aquilo que uma coisa é, e não a substância individual. Só que o emprego da palavra por Orígenes, algumas vezes significa essência, mas o sentido de substância individual é o mais presente.

O Filho gerado e não criado pelo Pai é eternamente emanado do ser do Pai. Participa assim de sua Divindade. Só o Pai é Deus, o Filho possui participação de maneira derivada.

A raiz última do ser do Espírito Santo é o Pai. Muitos concluíram que Orígenes colocou uma tríade de seres em vez de uma trindade. Mas a verdade é as três pessoas da Trindade são real e eternamente distintas. A plenitude da Divindade não originada está no Pai, que é a sua fonte por excelência. A divindade do Filho e do Espírito Santo tem a sua essência derivada do Pai.

Influência platônica visível em Orígenes ao aceitar o mundo dos seres espirituais coeternos com o Pai. Os seres espirituais são imagens do Verto e este é imagem do Pai. A verdade e bondade do Filho são reflexos da imagem da verdade e bondade do Pai.



Apocatásteses: [Isso deu o que falar e lhe custou caro] Orígenes entendia que no fim, haveria a volta a um estado preexistente, em que o homem com Deus coexistia. Além do que seria um estado de perfeição ainda mais elaborado e espiritualizado que o Éden bíblico. A apocatástases, fartamente discutida em sala de aula, consistia na restauração de todas as coisas ao estado primitivo. Mesmo que o homem, dotado de livre arbítrio se afastara de Deus, no final seu regresso seria certo e universal. Os castigos diante dos pecados não seriam punitivos, mas corretivos eis que o entendimento é de que no final todos se salvarão. Exclui-se assim o lugar de condenação eterna, com fogo inextinguível. No fundo, o que existe é um paraíso antes e depois dessa atribulada vida terrena que, assim seria como que uma ponte entre duas margens esplendorosas onde corria ou escorria leite e mel.

O atingimento do paraíso ao final, no entanto, dava-se gradualmente, passando por estados de perfeição e por um processo de aprendizagem crescente. Como todos possuem desde a criação a mesma natureza, portanto seres bons, Orígenes inclui até a salvação do diabo como algo que fatalmente ocorrerá. [Aí sua tese realmente provocou polêmicas mil. Também pudera!]. Há quem afirme que Orígenes não concluía várias afirmações, deixando-as em aberto para os que se dispusessem a tal tarefa. Algumas vezes, Orígenes parece se perder em ilações, de tal forma que, por mais elaborado o raciocínio parecia predominar a veia filosófica nas questões teológicas. Ficavam em aberto as questões em nome das verdades da fé. Derivação estranha do ensinamento de Orígenes: Com o precavido afastamento, li um extenso texto da internet, melhor dizendo, uma coletânea de pensamentos de autores, filósofos, pensadores, intelectuais, apontando que a Igreja Primitiva acatava a reencarnação conforme conceito kardecista e que Orígenes a defendia explicitamente com base no seu conhecimento bíblico. Sem explicitar, no entanto, um dos pensadores é exatamente Allan Kardec que aparece com seu nome original – León Denis, revelando desejo de levar o leitor desavisado a engano. Provavelmente, em função do conceito externado de mundo pré-existente, pelos estados de perfeição e pela aprendizagem crescente, conforme comentado nos dois itens anteriores os adeptos da reencarnação exultaram com esse ensino, pretendendo-o “católico” (universal).

Ao ler atentamente ao que Orígenes escreveu fica difícil sustentar a tese da reencarnação posto que ele defendia a existência de um só corpo sujeito a uma só morte. Ainda mais - no “Comentário sobre Mateus” Orígenes argumentou contra a reencarnação de forma clara. Os reencarnacionistas, no entanto, colocam sob suspeição esse posicionamento de Orígenes alegando que resultaria de uma tentativa de despistar os que a ele se opunham.

No caso de Orígenes vãs as tentativas destinadas a filiá-lo à tese da reencarnação. Tendo-se aprofundado na doutrina da Revelação, pressupõe a aceitação da total incompatibilidade entre a ressurreição e a reencarnação.

[Em defesa desta, usa-se o raciocínio lógico ante a “total” incoerência do que pregava Jesus: basta o arrependimento, “imediatamente”, o perdão! Muito mais coerente a reencarnação do ponto de vista lógico e humano. Aliás, o Cristianismo parece mesmo sem qualquer inteligência e lógica: Amar os inimigos? Como fazer o bem aos que nos querem o mal? Como oferecer a face esquerda a quem lhe esbofeteia a face direita? Pagar pelo erro, repetidas vezes até aprender e atingir um estado de perfeição é muito mais lógico e inteligente!]

Sobre os Evangelhos (incluindo-se o papel de Maria): Orígenes destaca “que de todas as Escrituras os Evangelhos são as primícias e, entre os Evangelhos, as primícias são o Evangelho de João, cujo sentido ninguém pode captar se não se reclinou sobre o peito de Jesus e se não recebeu de Jesus a Maria por mãe. E, para ser outro João, é preciso tornar-se tal que, como João, se houve designado por Jesus como sendo o próprio Jesus. Ora, segundo aqueles que têm dela uma opinião sã, Maria não tem outro filho senão Jesus; portanto, quando Jesus disse a sua mãe: “Eis aí teu filho” e não: “Eis esse homem é também teu filho”, é como se lhe dissesse: Eis aí Jesus, a quem tu geraste. Com efeito, quem quer que tenha chegado à perfeição “não vive mais, porém Cristo vive nele” e, se Cristo vive nele, dele é dito a Maria: Eis aí teu filho, o Cristo. (ASP) Percebe-se claramente a grande influência dos escritos paulinos nos escritores patrísticos pois não foi outro a não ser Paulo a afirmar que não era ele que mais vivia e sim o Cristo que nele vivia.

Em nenhum dos seus escritos Orígenes fala da virgindade perpétua, apesar de considerar virtude a virgindade e de nutrir alta estima por Maria. Sua opinião piedosa é de que Jesus não tinha outros irmãos.

Por mais desejável que fosse verdade, não se pode afirmar que Orígenes concebia a “virgindade perpétua” de Maria tal qual a Igreja concebe.

Por todas as concepções de Orígenes que na época causaram grandes discussões e comparando-se com o posicionamento que prevaleceu na Igreja, soa compreensível: “Onde Orígenes foi bom, ninguém conseguiu ser melhor, onde foi ruim, ninguém foi pior.” Citado por Henry Chadwick, Early Christian Thought and the Classical Tradition (New York: Oxford University, 1966) 95. (GOSPEL) Também se explica a falta de São ou Santo antecedendo o seu nome, como no início comentei.



Dimensões da leitura bíblica (incluindo-se o papel do Espírito Santo): Nas Homilias Orígenes aproveita todas as ocasiões para recordar as diversas dimensões do sentido da Sagrada Escritura, que ajudam ou expressam um caminho no crescimento da fé: existe o sentido “literal”, mas este oculta profundidades que não aparecem em um primeiro momento; a segunda dimensão é o sentido “moral”: o que devemos fazer vivendo a palavra; e finalmente o sentido “espiritual”, ou seja, a unidade da Escritura, que em todo seu desenvolvimento fala de Cristo. É o Espírito Santo que nos faz entender o conteúdo cristológico e, assim, a unidade da Escritura em sua diversidade. (...) Mas este sentido nos transcende para Cristo, na luz do Espírito Santo, e nos mostra o caminho, como viver.²

Deus e o crente: “Adão conheceu Eva, sua mulher. Ela concebeu..." (Gn 4, 1). Assim como o homem e a mulher são "dois numa só carne", assim Deus e aquele que crê tornam-se "dois num mesmo espírito". Desta forma a oração do Alexandrino alcança os níveis mais elevados da mística, como é confirmado pelas suas Homilias sobre o Cântico dos Cânticos.”²

Predominância no pensamento de Orígenes: “A categoria predominante no pensamento origeneano é a do progresso, tanto no que se refere ao conhecimento, quanto à santidade. A passagem da letra ao espírito lança o cristão no conhecimento sempre mais aprofundado do mistério de Deus. Ele tem seu correspondente na vida prática do homem orientando-o para uma perfeição sempre maior. É o combate pela santidade que torna viva no homem a tensão existente entre a carne e o espírito. O resultado desta caminhada é o homem espiritual. Ele já não mas se prende à letra, mas através dela alcança a compreensão espiritual das Escrituras. Ao mesmo tempo, na ordem prática da vida, ele se situa no Bem, fazendo aparecer um modo de ser não carnal, mas que deixa transparecer a gratuidade dadivosa do próprio Deus. É o homem pneumático, cujo espírito participa livremente do Espírito divino, deixando-se guiar por Ele. E Ele provoca o desabrochar do pneuma humano. Cada momento proclama a novidade do seu encontro com o Outro. É um perder-se na fala do silêncio de Deus.” (CAT)

[A propósito de perder-se na fala do silêncio de Deus, trago a explicação da Madre Tereza de Calcutá a respeito da sua postura de ficar um razoável tempo em silêncio diante do Santíssimo: é que estou escutando o que Deus tem a me dizer. Ao ser indagada novamente: Mas o que Deus tem tanto a dizer à senhora? Responde: Ele só me ouve. É o diálogo místico do silêncio profundo que transporta a essência do pensamento ao mais alto ponto toda a comunicação e todos os sentidos na plenitude da comunhão de vidas.]

[Nas palavras do Santo Padre proferidas nas catequeses inexiste censura a Orígenes ou as suas ideias, como que pedindo-lhe perdão pelo inglório e injusto passado que a História da Igreja lhe reservara. Reconhece-se publicamente a sua imensurável contribuição ao Cristianismo dos primeiros séculos, influenciando gerações que se seguiram. Seus ensinamentos, alguns comentados no trabalho, provocaram uma grande agitação nas calmas águas em que a Igreja navegava.]

A prevalecer o entendimento de que texto significa tecido em que fios são entrelaçados e amarrados uns aos outros formando a união peça nova e única podemos afirmar que no avesso dos tecidos dos Padres da Igreja enxerga-se a presença dos fios paulinos, extraídos do epistolário do grande apóstolo dos gentios, do maior exemplo de conversão do Novo Testamento – do antes perseguidor dos cristãos Saulo. Da mesma forma, sem correr o risco de incorrer em erro, nos avessos dos tecidos dos luminares do Oriente (Capadócios) serão percebidos fios de diversas espessuras com características origenianas. Produziram-se tecidos de outros grandes teólogos e pensadores cristãos que também aprenderam com Orígenes: Gregório Taumaturgo (não confundir nem com o Nisseno nem com o Nazianzeno que conhecemos em aulas presenciais na PUC - Santana); Dionísio de Alexandria, o Grande; Sexto Júlio Africano, Firmiliano, bispo de Cesaréia (Capadócia); Pedro de Alexandria, Teognosto, Pânfilo e Hesíquio.

Levados pela notório saber filosófico e teológico de Orígenes muitos o procuravam e, deveriam procurar a escola de Alexandria onde lecionava, para conhecer mais profundamente o “Deus” que ensinava com tanta profundidade, tornando-se alunos e discípulos aplicados que acabavam se convertendo à fé cristã e por ela se entregavam.

Oxalá tivéssemos hoje uma liderança intelectual que pela postura de vida através de palavras e atitudes, conquistasse muitos seguidores a exemplo de Orígenes. Um intelectual respeitado que se dedicasse a abordagens e elaborações que procurassem conformar, como fazia Orígenes, a mensagem da salvação com o modo de pensar atual (chamado pós-modernidade, seja lá o que isso queira significar) trazendo fecundidade à discussão filosófico-teológica com uma reflexão reveladora de maturidade e que trouxesse mais luzes para clarear a noite traiçoeira que paira sobre as nossas cabeças e, especialmente, dos jovens; um bálsamo para os espíritos tão acabrunhados diante da ansiedade e secularização reinantes nesse mundo em que o futuro chega tão rápido que nem dá tempo de curti-lo pois já se torna pretérito. [Olha de novo a presença de pensamento agostiniano!] E Deus que nele habita é ilustre desconhecido ou ignorado.

Com os poderosos veículos da pós-modernidade – internet e outros que tais cibernéticos e virtuais uma mensagem realmente dignificante e bem elaborada que conquistasse uma significativa legião de seguidores, como nas redes sociais atuais, poderia realizar o milagre da conscientização livrando-nos do profundo poço da ignorância e alienação morais e espirituais.

A grandeza da personalidade de Orígenes e a grandiosidade dos seus ensinamentos, bem como as controvérsias que os acompanharam, não podem ser retratadas em poucas laudas. O que registrei, portanto, é uma amostra da vida e obras desse grande e revolucionário filósofo, teólogo, professor e pensador cristão.

“Orígenes é uma figura majestosa à sombra da qual toda a Igreja pré-nicena esteve, por bem ou por mal. A era pós-nicena, em ambos os lados da moeda, estava pagando o que lhe devia. E ainda hoje lhe devemos.” (ICBNES)

Pois bem, o ensaio resultou a confecção de um novo tecido em que na trama entraram linhas, fios e retalhos de um passado longínquo; pensamentos, conceitos e quem sabe, preconceitos do tecelão. Alguns cuidados houve como usar as cores e a matéria prima originais a fim de não desfigurar tanto o tecido que se pretendeu.



Ao término, percebe-se que o significado do nome Orígenes realizou-se por inteiro: “ser vibrante”. Ser: sujeito ou verbo, não interessa. O que importa é “ser vibrante!”

[Não se considere a quantidade de páginas que excedeu o recomendado, eis que, originalmente, continha 21 páginas que foram sendo eliminadas após análise tendo-se por escopo os aspectos solicitados para o trabalho]

Compartilhe com seus amigos:


©ensaio.org 2017
enviar mensagem

    Página principal