Origens da liderança científica e tecnológica paulista no século XX



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ORIGENS DA LIDERANÇA CIENTÍFICA E TECNOLÓGICA PAULISTA NO SÉCULO XX
Tamás Szmrecsányi**

RESUMO
Com este trabalho estou iniciando formalmente a elaboração de um estudo mais amplo sobre As Instituições de Pesquisa do Estado de São Paulo na Primeira República, 1890-1930, a ser desenvolvido junto ao Grupo de Estudos de História Social da Ciência e da Tecnologia, DPCT/IG/UNICAMP.
Estima-se que os pesquisadores radicados em São Paulo sejam os autores de 75% de tudo o que se publica em ciência e tecnologia no Brasil. Esse nível de concentração da produção científica e tecnológica costuma ser atribuído principalmente às atividades de pesquisa das suas três universidades públicas estaduais, e ao apoio que lhes é dispensado há décadas pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). O desenvolvimento dessas instituições, por sua vez, tem sido vinculado à prosperidade econômica de nosso Estado, e mais particularmente ao estágio alcançado por sua industrialização a partir da década de 1930.
Embora sejam corretas, tais interpretações deixam de explicar como e por que elas surgiram e prosperaram em São Paulo, e não alhures - como, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro, que também foi bastante próspera durante as primeiras décadas do século XX, tendo sediado a capital do País até os anos cinqüenta e a maior parte do seu setor industrial antes de 1920. Uma resposta a tais indagações talvez possa ser encontrada na política científica e tecnológica do governo paulista na Primeira República, a qual deu origem à criação de centros de pesquisas como o Instituto Butantan, o Instituto Biológico etc., bem como de vários estabelecimentos de ensino superior que mais tarde iriam integrar-se à Universidade de São Paulo - casos da Escola Politécnica, da Escola de Agronomia de Piracicaba, e das Faculdades de Medicina e de Farmácia.
O presente trabalho procura identificar e caracterizar as condições econômicas, sociais e culturais que tornaram possíveis a gênese e a evolução da referida política, tentando, além disso, fazer uma primeira avaliação de seus principais efeitos a médio e longo prazos.

INTRODUÇÃO
Os anos da Primeira República (1889-1930) foram o período no qual São Paulo definitivamente se adiantou em relação aos demais Estados brasileiros, transformando-se de longe na área mais desenvolvida do País. Sua hegemonia só não chegou a manifestar-se então ainda no plano demográfico, com respeito ao qual Minas Gerais iria continuar mantendo o primeiro lugar até o início dos anos quarenta. Mas, mesmo no que se refere à população, principalmente por causa da imigração estrangeira, tanto o Estado como a cidade de São Paulo já estavam crescendo bem mais rapidamente do que o resto do Brasil, conforme se pode observar na tabela apresentada a seguir, para cuja análise é preciso levar em conta que a superfície do território paulista representa menos de 3% do total do Brasil. Nessa tabela sobressai de imediato, em termos absolutos e relativos, o fenomenal incremento da Capital, que, apesar de ainda se manter distante da sua condição atual de maior metrópole da América do Sul, já deixava entrever o momento em que iria ultrapassar, em tamanho e importância, a cidade do Rio de Janeiro, a qual, na época, era não apenas bem maior do que São Paulo, mas também a própria capital do País.
TABELA I: CRESCIMENTO DA POPULAÇÃO DE SÃO PAULO NA PRIMEIRA REPÚBLICA (mil habs.)

ANOS

ESTADO

% DO BRASIL

CAPITAL

% DO ESTADO

1890

1.385

9,7

65

4,7

1900

2.282

13,2

240

10,5

1910

3.437

14,1

416

13,6

1920

4.592

15,0

593

16,7

1930

6.863

16,2

964

17,6

1940

9.134

17,4

1.326

18,5

FONTE (para 1890, 1900, 1920, 1940): NOGUEIRA (1963) pp.9 e 15 com base nos dados dos Censos Demográficos.

OBSERVAÇÃO: Os dados de 1910 e de 1930 são estimativas obtidas por interpolação linear.


Na verdade, os dados populacionais aqui apresentados constituíam apenas um pálido reflexo da crescente pujança da economia paulista durante o período. Em 1920, o primeiro Censo Econômico realizado no Brasil revelou que São Paulo já era responsável por quase um terço da produção nacional - tanto na agricultura como na indústria, e que o valor da produção paulista representava o dobro do valor correspondente de Minas Gerais, então ocupando a segunda colocação. Vinte anos mais tarde, por ocasião do segundo Censo Econômico, a participação relativa de São Paulo tinha aumentado ainda mais, eqüivalendo a mais do triplo do valor da produção do segundo colocado - na época, o Rio Grande do Sul. (LOVE, 1980, p. 37).
Até o final dos anos vinte, as origens de toda essa prosperidade residiam principalmente, mas não apenas, na crescente produção e exportação de café1. Contudo, embora se dissesse na época que São Paulo era o café, e que o café era São Paulo, apenas esta última proposição se mostrava rigorosamente verdadeira. Isto porque, com a possível exceção de seus primórdios no Vale do Paraíba, a economia cafeeira nunca chegou a configurar propriamente uma monocultura em São Paulo, estruturando-se pelo contrário - como bem assinalou CANO (1981, cap. I) - num complexo econômico, integrado por atividades e unidades econômicas que eram não apenas agrícolas, mas também comerciais, financeiras e industriais. Tanto era assim que, no início da década de 1930, quando a crise dessa economia se revelou irreversível, o setor industrial já estava suficientemente desenvolvido para poder assumir o comando do processo de acumulação, e fazê-lo retornar a seu rumo e ritmo expansivos2.

O modo pelo qual isto se deu já é bastante conhecido, graças às análises de numerosos autores das mais diversas orientações teóricas e ideológicas, os quais inclusive acabaram produzindo um certo consenso a respeito. As divergências que ainda subsistem vinculam-se principalmente às causas do processo - ou seja, aos fatores responsáveis pela supremacia alcançada e mantida por São Paulo no cenário nacional. E, a este respeito, cabe assinalar que a referida supremacia, ao contrário do que geralmente se supõe, foi muito mais econômica do que política, durante o período aqui considerado. Apesar do fato de que os três primeiros civis a ocuparem a presidência do País (entre 1894 e 1906) tenham sido paulistas, da mesma forma que o último presidente da Primeira República (de 1927 a 1930), o comando do Estado nacional nunca chegou a ser exercido completa ou mesmo primordialmente por políticos de São Paulo.


Com efeito, em todos aqueles anos, os políticos mineiros tiveram uma ascendência pelo menos equivalente à dos seus colegas paulistas, e isto se devia em boa parte ao maior tamanho tanto do eleitorado de Minas Gerais, como de sua bancada no Parlamento nacional. Algumas vezes, os políticos mais influentes da Primeira República originaram-se também de outros Estados - como foi o caso, por exemplo, de Joaquim Murtinho, que representava o Mato Grosso, ou do gaúcho Pinheiro Machado. Além disso, mesmo quando Presidentes paulistas estiveram no poder, os interesses do Estado e de sua burguesia cafeeira foram freqüentemente contrariados, conforme se pode observar na política monetária da época3 - inclusive por ocasião da crise de 1929/30.
Mas, se a natureza dessa supremacia foi de fato predominantemente econômica, não há dúvidas de que as suas causas eram essencialmente sociais e políticas, prendendo-se, de um lado, a estruturas e formas de organização diversas das vigentes nas demais regiões do País4, e do outro, a níveis de coesão e de suporte eleitoral de suas elites, bastante superiores aos que prevaleciam no resto do Brasil5. Embora no final do Império, a então Província de São Paulo tivesse sido uma das últimas a aderir à abolição do escravismo, graças à incorporação maciça de trabalhadores imigrantes, foi na sua economia que a penetração das relações de produção capitalistas se deu com maior velocidade e vigor, sem que as elites regionais tivessem, por um momento sequer, perdido o comando e o controle da situação6. Com o advento da República, essas elites congregaram-se todas no mesmo partido político, e assim se mantiveram praticamente até 1930, garantindo e preservando seus privilégios econômicos e sociais.

A alta capacidade de aglutinação dessas elites políticas e econômicas, assim como seu elevado grau de articulação foram bastante facilitados pelas origens sociais comuns e pela homogeneidade cultural de seus membros. Nada menos que 90% de seus integrantes tinham uma formação universitária completa, e a maioria de seus expoentes ou já haviam estudado e vivido no exterior, ou mantinham relações econômicas diretas e permanentes com empresas de capital estrangeiro. Tratava-se, em suma, da camada dominante melhor educada e mais cosmopolita do País (LOVE, 1980, pp. 154, 158 e 168). Isto explica em boa parte a continuidade dos objetivos e instrumentos das políticas econômicas e sociais que tais elites puseram em prática no exercício do poder. Uma continuidade que, muitas vezes, traduziu-se inclusive na longa permanência em seus cargos e funções dos técnicos e especialistas encarregados da gestão cotidiana dessas políticas.



Neste ensaio ainda parcial e preliminar, além de inteiramente baseado em fontes secundárias, procurarei abordar um aspecto das mesmas até agora pouco sistematizado - os contínuos esforços de institucionalização da ciência e da tecnologia. Tanto esta como aquela, apesar de terem sido às vezes encaradas inicialmente como simples meios para resolver problemas concretos do funcionamento e da reprodução ampliada da economia cafeeira, com o passar do tempo, acabaram se transformando em sustentáculos permanentes do sistema produtivo e da estrutura social vigentes. Os esforços em questão materializaram-se através da criação e manutenção, não apenas de institutos de pesquisas especializados, mas também de centros de ensino superior destinados, entre outros fins, à formação e capacitação de novos pesquisadores, configurando nesses termos pelo menos um esboço de política científica e tecnológica. Apesar de não ter sido permanente, e de apresentar muitas vezes um caráter mais implícito do que explícito, essa política esteve longe de ser vazia e inconseqüente no período em pauta. De um lado, porque os programas, projetos e estudos dela decorrentes são perfeitamente enquadráveis nas várias modalidades do que hoje entendemos por pesquisa científica e tecnológica7; e, do outro, porque as atividades desenvolvidas nas e pelas referidas instituições produziram importantes efeitos no Estado a curto, médio e longo prazos.
Sem pretender ser exaustivo, irei agrupá-las e examiná-las nos três blocos setoriais mais significativos do ponto de vista da economia e da sociedades paulistas do período em questão: agricultura e recursos naturais, saúde pública e medicina, construção civil e indústria. Embora seja útil do ponto de vista analítico, esse agrupamento temático não passa de uma primeira aproximação ao problema que se pretende estudar em maior profundidade: a gênese e o desenvolvimento das instituições de pesquisa do Estado de São Paulo durante a Primeira República. Tal estudo deverá contemplar basicamente uma abordagem global e um recorte cronológico dos processos detectados - ou seja, uma metodologia capaz de identificar e caracterizar tanto as diferenças como as relações intersetoriais, algo que ainda não estou em condições de fazer aqui e agora.

1. AGRICULTURA E RECURSOS NATURAIS
Dadas as características fundamentais e o tipo de desenvolvimento da economia paulista durante a Primeira República, não é de estranhar que tenha sido este setor o primeiro a merecer uma atenção prioritária por parte das elites de São Paulo, no que se refere aos conhecimentos científicos e tecnológicos inerentes às suas atividades produtivas. Essa atenção, na verdade, antecedeu o próprio advento do novo regime político, podendo-se encontrar suas raízes e reconstituir sua trajetória através do tempo a partir de dois diplomas legais do final do Império: a Lei Provincial no.9, de 27 de março de 1886, que criou a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo; e a Lei Orçamentária do Império no. 3314, de 16 de outubro do mesmo ano, que, ao fixar “a despesa geral do Império para o exercício 1886-87”, autorizava a fundação de uma estação agronômica no País. Esta última lei foi bastante peculiar, pois, mesmo sem ter discriminado expressamente qual seria a localização da referida estação, determinou a sua instalação na Província de São Paulo, vindo a dar origem ao atual Instituto Agronômico de Campinas8, uma entidade pioneira na época, e que durante muitas décadas se manteria como a mais importante do Brasil no gênero.
Afora e depois dessas duas iniciativas fundamentais, também tiveram grande importância a criação pelo Governo do Estado da Escola Prática de Agricultura “Luís de Queiroz”, instalada em Piracicaba desde 1901, e que se tornaria mais tarde a principal faculdade de agronomia do País; e a fundação pelo mesmo Governo do Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal, estabelecido na capital paulista em fins de 1927, após uma bem sucedida campanha contra a broca do café, um inseto cujo nome científico é Hypothenemus hampei, e que na época ameaçava destruir a principal fonte de riqueza de São Paulo. Ao contrário do Instituto Agronômico, nenhuma das outras três entidades citadas chegou a ter um caráter pioneiro no Brasil.
Formalmente inspirada no modelo dos geological surveys, ou serviços geológicos, dos Estados Unidos, a Comissão Geográfica e Geológica de São Paulo fora precedida cronologicamente por uma instituição congênere de âmbito nacional, embora de curtíssima duração: a Comissão Geológica do Brasil (1875-1877), criada e extinta no Império, e da qual o próprio fundador da entidade paulista, o geólogo norte-americano Orville Adelbert Derby (1851-1915) chegou a fazer parte. Mas, apesar dessa aparente continuidade , a CGG de São Paulo não pode ser considerada uma simples réplica ou um mero prolongamento da Comissão Geológica do Brasil. Tanto suas motivações iniciais como as características que veio a adquirir através do tempo foram inteiramente diversas. No caso paulista, como bem salienta FIGUEROA (1996, p. 167), o seu surgimento foi devido fundamentalmente a demandas práticas colocadas pela cafeicultura paulista, cujo desenvolvimento - já a partir da década de 1860 - teve que enfrentar simultaneamente os problemas vinculados ao estrangulamento da oferta de mão-de-obra, ao desconhecimento das terras disponíveis na sua extensa fronteira agrícola, e à precariedade do sistema de transporte e escoamento da produção.
O primeiro desses problemas fora criado pela gradativa extinção do escravismo, iniciada em 1850 pela Proibição do Tráfico e completada em 1888 pela Abolição, e estava começando a ser resolvido através da imigração em massa de trabalhadores estrangeiros. O terceiro seria superado pela implantação de uma ampla e eficiente malha ferroviária, iniciada pela San Paulo Railway em 1867, ligando Santos a Jundiaí. Restava, porém, o segundo, que também era crucial, por envolver o dimensionamento e a caracterização das reservas de terras explotáveis, um fator de suma importância na agricultura essencialmente extensiva e itinerante praticada naquela época. E foi em função dele que o Visconde de Pinhal, um dos mais proeminentes cafeicultores de São Paulo apresentou à Assembléia Legislativa um projeto para a confecção de mapas da então Província, na escala de 1:100.000, que fossem simultaneamente geográficos, topográficos, itinerários, geológicos e agrícolas. Este projeto foi aprovado por unanimidade e rapidamente promulgado, transformando-se na já citada Lei no.9, de 27 de março de 1886 (FIGUEROA, 1996, p. 169).
Pouco tempo depois, as “Instruções de Trabalho” que a regulamentaram, baixadas no dia 7 de abril do mesmo ano, além de reproduzirem vários itens no Esboço de um Plano para Exploração Geográfica e Geológica da Província de São Paulo, elaborado por Derby, continuavam a enfatizar o “valor econômico” e a “aplicação prática” dos estudos em pauta. Em função destas características, almejadas pelas elites de São Paulo, e da visão de mundo do próprio Derby, os primeiros trabalhos da CGG adotaram uma postura essencialmente “naturalista”, abrangendo não apenas estudos de Geografia e Geologia, de Topografia e Meteorologia, como também de Botânica e Zoologia, e até de Arqueologia, visando alcançar uma visão abrangente e, ao mesmo tempo, precisa do meio físico paulista (Idem, p. 170-171).
Essa proposta de trabalho acabaria não se mantendo a longo prazo, mas muitos de seus resultados - de boa qualidade científica - foram publicados sob a forma de Boletins Técnicos, e até hoje servem de material de referência, o mesmo ocorrendo com o mapeamento do Estado então realizado, e com o Relatório de Exploração do rios Itapetininga e Paranapanema, este publicado em 1889 (Idem, p. 172-174). Por outro lado, ela acabaria se revelando extremamente frutífera do ponto de vista institucional, já que - ainda de acordo com FIGUEROA (1996, p. 169, nota 226) - muitas entidades científicas e técnicas oficiais, até hoje em plena atividade no Estado, originaram-se de desdobramentos da CGG, como foi o caso dos Institutos Astronômico e Geofísico, Geográfico e Cartográfico, Geológico, Florestal, e de Botânica; dos Museus Paulista e de Zoologia; e do Serviço de Hidrografia, atualmente localizado no Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica.
Derby ficou na CGG até 1905, tendo sido substituído por um engenheiro, João Pedro Cardoso, que permaneceria no cargo de diretor até a extinção formal do órgão em 1931. Depois da saída de Derby, sua proposta de trabalho, voltada para o conhecimento científico da Natureza, foi substituída por concepções mais “pragmáticas”, visando a sua conquista pelo Homem e pela “civilização” - um enfoque aplicado principalmente ao extremo-oeste de São Paulo, cujo desbravamento ferroviário e colonizador estava começando a ocorrer exatamente naquela época. Os Relatórios de Expedição que dele resultaram tornaram-se mais numerosos e passaram a ser fartamente ilustrados por fotografias, contribuindo para uma melhor visualização das regiões visitadas (Idem, p. 186-192). Ao mesmo tempo, todavia, o conteúdo deles deixou de ter a mesma qualidade científica das primeiras publicações da Comissão. E isto, no fundo, refletia a sua transição de um centro de pesquisas científicas para uma entidade prestadora de serviços técnicos e administrativos (Idem, p. 193-197). Na verdade, como acabamos de ver , os seus setores de cunho mais científico foram se autonomizando através do tempo, adquirindo com isto suas próprias personalidades institucionais.
É interessante registrar que uma evolução até certo ponto paralela teria chegado a esboçar-se no Instituto Agronômico de Campinas, Isto, em princípio, não seria de se estranhar, tendo em vista que se tratava igualmente de uma entidade, na época como hoje, subordinada à Secretaria da Agricultura. Ocorre, porém, que, na prática, seja por razões científicas, seja por motivos organizacionais, ela deixou de se consumar.
Apesar de toda a importância histórica que teve, e que continua tendo até hoje, a trajetória desse Instituto não foi ainda devidamente estudada, pelo menos no que se refere ao período aqui analisado. Os poucos e sumários relatos até agora disponíveis9 identificam a ocorrência de três fases no seu desenvolvimento: uma inicial, de aproximadamente dez anos, entre 1887 e 1897, dominada pela atuação do seu primeiro diretor - o já citado Franz Wilhelm Dafert; uma fase intermediária, de mais de um quarto de século, entre 1898 e 1924, na qual se sucederam vários diretores, e que teria sido dominada por uma mentalidade pragmática e imediatista, cujos fracos resultados acabaram gerando certo descrédito para a instituição; e uma terceira, de recuperação do Instituto, a partir de 1924, durante a gestão de Theodureto de Camargo, que permaneceu no cargo até 1942.
Quando aceitou vir para o Brasil, o químico agrícola F. W. Dafert tinha apenas 24 anos de idade, mas já ostentava um doutorado pela prestigiosa Universidade de Giessen, exatamente a mesma em que o “pai” daquela disciplina, Justus von Liebig (1803-1873) havia ensinado, formando sucessivas gerações de pesquisadores. A estação agronômica que ele criou em Campinas foi implantada com grande presteza, considerando-se os graves problemas da época - que incluíram desde a abolição da escravatura em 1888 até as epidemias de febre amarela que assolaram Campinas em todos aqueles anos, passando pela Proclamação da República, em função da qual a Estação foi transferida ao Governo do Estado, em fevereiro de 1892, ostentando desde então o seu nome atual. Entre abril de 1890 e março de 1892, o próprio Dafert se retirou para a Europa, a fim de curar-se e de convalescer de uma doença. Durante toda sua estadia no Brasil, ele lutou constantemente para aumentar o grau de tecnificação da cafeicultura, mediante a incorporação do uso de adubos e de máquinas agrícolas. Apesar de procurar se adaptar às especificidades locais, nunca encontrou muita receptividade por parte da maioria dos fazendeiros paulistas. Suas principais idéias, que levaram tempo para ser entendidas e aceitas, encontram-se nos primeiros relatórios anuais da instituição (1888-90 e 1892-96), na Coleção de Trabalhos Agrícolas por ele publicada em 1895, e numa série de artigos sobre o Brasil e sua agricultura que publicou em alguns periódicos científicos europeus. Em 1897, voltou a seu país de origem para assumir, no ano seguinte, a direção da Estação Agronômica de Viena.
Pôr sua vez, Theodureto Leite de Camargo (1880-1958), foi um dos poucos engenheiros agrícolas formados pela Escola Politécnica de São Paulo, onde se diplomou em 1905. Quando assumiu a direção do IAC, já era professor-catedrático da Escola de Agricultura de Piracicaba. Desde o início de sua gestão, procurou imprimir um maior rigor aos trabalhos experimentais do Instituto, tanto aos de campo como aos de laboratório, criando seções para pesquisa básica, que iriam ter grande relevância a partir da década de 1930. Além de ampliar o número de pesquisadores e de estações agronômicas, introduziu, a partir de 1929, o regime de trabalho em tempo integral. Os resultados concretos de todas essas medidas só começaram a se fazer sentir após o término do período aqui analisado.
O mesmo se deu com o Instituto Biológico, igualmente já mencionado, cuja criação em 1927 procurou aliar objetivos científicos relacionados à defesa sanitária das culturas e dos rebanhos10, com finalidades práticas como a produção de soros e vacinas, a orientação de campanhas de combate às epifitias e epizootias, a divulgação dos resultados das pesquisas efetuadas e outras formas de assistência técnica aos produtores. Devido ao alto nível do pessoal científico que conseguiu arregimentar, esse Instituto não tardou a transformar-se no principal centro de pesquisas fitopatológicas do País (REIS, 1980, p. 24).
Durante o período aqui analisado, a outra mudança mais significativa deu-se no campo do ensino, com a institucionalização da formação de engenheiros-agrônomos, entre os quais também se incluiriam novos pesquisadores agrícolas bem como futuros professores das diversas disciplinas que integram o currículo de Agronomia. Nesse campo, nem São Paulo nem Piracicaba foram pioneiros no Brasil; desde meados da década de 1870, já estava funcionando em Cruz das Almas a Imperial Escola Agrícola da Bahia, que foi a primeira e única faculdade de agronomia do País até o início da década de 1890, quando foram criados o Liceu Riograndense de Agricultura e Veterinária de Pelotas (Rio Grande do Sul) e o curso de Engenharia Agrícola da Escola Politécnica de São Paulo, da qual voltaremos a falar daqui a pouco.
Embora também tenha sido formalmente criada no começo daquela mesma década, a Escola Agrícola de Piracicaba só começou a funcionar de fato a partir de 1901. Ela foi originalmente instalada como simples Escola Agrícola Prática, de nível médio, “apesar de ter sido uma das escolas (superiores) mais ansiosamente reclamadas pela imprensa (paulista) desde os fins do Império” (NADAI, 1987, p. 101). Devido a isso, através da Lei no. 26, de 11 de maio de 1892, o Legislativo estadual já havia autorizado o Governo a fundar uma “Escola Superior de Agricultura” (Idem, p. 105). Mas, em abril do mesmo ano, um senador (estadual) também havia apresentado um projeto, pedindo uma subvenção de 300 contos de réis (cerca de 17 mil libras esterlinas ao câmbio da época) para a “Escola Agronômica de Piracicaba”, que estava então sendo construída e organizada pelo fazendeiro Luiz Vicente de Souza Queiroz, que se havia formado engenheiro-agrônomo em Grignon (França) (Idem, p. 106-107).
Pioneiro em várias outras iniciativas, como a eletrificação de sua fazenda e da cidade de Piracicaba, Luiz de Queiroz vinha procurando há tempo implantar o projeto com seus próprios recursos, contratando um especialista para assessorá-lo na parte pedagógica, e viajando para outros países com o fim de conhecer as melhores escolas do ramo. Embora fosse rico, e apesar de já haver adquirido uma fazenda para sediar o empreendimento, seus recursos financeiros pessoais revelaram-se insuficientes, levando-o a solicitar a ajuda do Governo. Como esta lhe fora negada, resolveu doar ao Estado todos os imóveis destinados ao projeto, com a única condição de ali efetivamente vir a ser implantada uma escola agronômica (Idem, p. 110-111). Uma vez aceita essa doação, o Governo paulista contratou em 1893 o seu ex-assessor, o Engenheiro Leão Affonso Morimont, para ultimar o projeto pedagógico da nova escola. Este engenheiro apresentou a proposta de que se criasse uma instituição de ensino técnico de nível médio, tendo em vista que a Escola Politécnica acabara de instalar o seu curso de Engenharia Agrícola na Capital. Sua proposta foi aceita pelo Legislativo estadual, que a transformou na Lei no. 367, de 3 de setembro de 1895, autorizando o Executivo a criar uma Escola Prática de Agricultura em Piracicaba (Idem, p. 112-113). Mas, devido ao surgimento das primeiras crises de superprodução de café no final do século XIX, a implantação do projeto foi várias vezes adiada pelo Governo, até finalmente vir a efetivar-se em junho de 1901, durante a administração de Rodrigues Alves, que, no ano seguinte, iria ascender à Presidência da República.
A organização curricular da nova escola, que recebeu desde o início o nome do seu idealizador, foi sendo amadurecida paulatinamente, através de uma seqüência de ensaios e erros. Sua trajetória inicial (anterior a 1934, ano em que seria incorporada à Universidade de São Paulo) foi subdividida por NADAI (1987) em duas fases: a inicial, entre 1901 e 1916, quando se procurou definir a sua organização, tanto em nível médio como no superior (p. 124-138); e a de 1916 em diante, quando se completou a sua definitiva transição para o ensino universitário e para a pesquisa científica e tecnológica (p. 138-147). As diferenças quantitativas entre ambas podem ser observadas na tabela apresentada a seguir, comparando-se as suas duas primeiras colunas com as duas últimas. Na primeira metade do quadro, pode-se notar claramente uma aceleração do aumento no número de diplomados; já na segunda, a tendência se inverte, até chegar a um certo equilíbrio em patamar mais baixo.


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