Orque És Minha Lisa Kleypas



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orque És Minha


Lisa Kleypas

Segundo livro da Série Teatro Capitol
Por causa de um sonho…
Jovem e espirituosa, Lady Madeline Matthews está prometida em casamento para um velho e lascivo senhor. Mas ela prefere chocar toda a sociedade com sua recusa do que sacrificar a sua liberdade e para conseguir seu intento decide se entregar a um tórrido romance com o ator mais aclamado da Grã-Bretanha, Logan Scott.
Por causa de um coração...
Ele é uma lenda no palco e debaixo dos lençois. Mas quando as cortinas se fecham, Logan se torna intensamente reservado e misterioso, na verdade ele é um homem atormentado por um passado de traições e com uma grande ferida no orgulho e no coração. Agora uma atrevida senhorita que está completamente fora do seu mundo está o perturbando com sua presença constante, sua beleza inata e charme vibrante. E o que começa com um beijo no palco ameaça florescer em algo mais arrebatador e real.

Mas para que o sonho se realize Logan e Madeline precisam primeiramente tirar as mascaras nas quais se escondem, para que suas verdadeiras personalidades venham a tona para possam viver esse mágico e glorioso amor
Título Original: Because you’re mine

Título em espanhol: Porque eres mia

Gênero: Histórico

Protagonistas: Madeline Matthews e Logan Scott

Série: Teatro Capitol   Livro 2





Londres, outono de 1833

— Não posso me casar com ele. Não posso fazê-lo. — Ao contemplar lorde Clifton passeando pelo jardim em companhia de seu pai, a Madeline lhe revolveram as tripas.

Até que sua mãe, lady Mathews, respondeu-lhe, não se precaveu de que tinha falado em voz alta.

— Aprenderá a cuidar de lorde Clifton — disse secamente. Como era habitual, seu afiado rosto mostrava uma expressão séria de reprovação. Depois de conduzir sua vida com uma tendência a auto-imolação próxima ao martírio, tinha deixado claro que esperava que suas três filhas fizessem o mesmo. Os frios olhos castanhos, emoldurados em um rosto pálido e elegante, cravaram-se em Madeline. Exceto ela, que se ruborizava com facilidade, todas as mulheres Mathews compartilhavam idêntica brancura de tez.

— Espero que algum dia, quando tiver maturado — continuou Agnes— , agradeça que te tenha consertado tão estupendo enlace.

Madeline esteve a ponto de asfixiar-se devido a uma quebra de onda de ressentimento e sentiu que um rubor delator se instalava em suas bochechas, tingindo-as de um rosa brilhante. Durante anos tinha tentado ser o que seus pais esperavam dela: dócil, discreta, obediente... Mas já não podia conter seus sentimentos por mais tempo.

— Agradecer! — exclamou com amargura. — Por me casar com um homem mais velho que meu pai...

— Só um ou dois anos — a interrompeu Agnes.

—... que não compartilha nenhuma de minhas afeições e que me vê tão somente como a uma égua de cria...

— Madeline! — exclamou Agnes. — Semelhantes palavras não são dignas de ti.

— Mas é a verdade — replicou Madeline, esforçando-se por não elevar a voz. — Lorde Clifton tem duas filhas de seu primeiro matrimônio. Todo mundo sabe que quer ter filhos, e se supõe que eu sou a destinada a dar-lhe. Enterrar-me-á viva no campo ou, ao menos, até que ele morra, e logo serei muito velha para desfrutar de minha liberdade.

— Já está bem — disse sua mãe com rigidez. — Vejo que tenho que lhe recordar algumas circunstâncias, Madeline. É obrigação da mulher compartilhar os interesses de seu marido, não ao reverso. Não pode culpar lorde Clifton de que, casualmente, não se desfrute com atividades tão frívolas como a leitura ou a música. É um homem sério, com uma grande influencia política, e espero que se dirija a ele com o respeito que merece. No referente à sua idade, chegará a dar valor a sua sabedoria e terminará por procurar seu conselho em todos os aspectos da vida. Para uma mulher, não há outro caminho para a felicidade.

Madeline apertou os punhos e observou com tristeza através da janela a volumosa figura de lorde Clifton.

— Se ao menos me tivessem deixado alternar em sociedade um ano, possivelmente me tivesse sido mais fácil aceitar o compromisso. Nunca fui a um baile ou assistido a um jantar ou uma festa. Tive que seguir no colégio, apesar de todas minhas amigas já tivessem ido. Inclusive minhas irmãs foram apresentadas em palácio...

— Não foram tão afortunadas como você — respondeu Agnes com as costas mais rígidas que uma tábua.

— Economizar-te-á todas as preocupações e inconvenientes da temporada, porque já está comprometida com o melhor e mais admirável partido da Inglaterra.

— Essa é sua idéia e dele — replicou Madeline entredentes, ficando tensa, pois nesse momento seu pai e lorde Clifton entravam na habitação, — não a minha.

Igual a qualquer outra garota de dezoito anos, tinha fantasiado casando-se com um galhardo e arrumado jovem que se apaixonasse loucamente dela. Lorde Clifton se achava longe do que se pudesse imaginar daquelas fantasias. Era um cinquentão baixo e fornido, de bochechas bamboleantes, com o rosto sulcado por profundas rugas, a cabeça sem cabelo e lábios grossos e úmidos; todo o qual evocava em Madeline a imagem de uma rã.

Se tão somente tivesse senso de humor, uma natureza amável ou algo que ela pudesse encontrar sequer um pouco atrativo...! Mas Clifton não era mais que um pedante sem imaginação, com uma vida guiada pela rotina: a caça e as carreiras, a administração da fazenda, os ocasionais discursos na Câmara dos Lores... E o que ainda era pior: sentia um injustificado desprezo pela música, a arte, a literatura... Tudo aquilo, enfim, por isso Madeline suspirava.

Ao vê-la no outro extremo da habitação, Clifton se aproximou com um sorriso carnudo e as comissuras da boca brilhantes de umidade. Madeline odiava a forma em que a olhava como quem observa um objeto que deseja comprar.

Por inexperiente que pudesse ser, sabia que a queria por ser jovem saudável e presumivelmente fértil. Igual a sua esposa, viveria em um estado mais ou menos permanente de gravidez até que Clifton se visse satisfeito pelo número de filhos que lhe desse. Nada esperava do coração, a mente ou a alma do Madeline.

— Minha querida senhorita Matthews — disse com voz rouca e profunda, — cada dia está você mais encantadora.

Madeline pensou que inclusive tinha voz de rã e teve que reprimir um sorrisinho histérico. As pegajosas mãos do Clifton se fecharam sobre as dela e as atraiu até seus lábios. Teve que fechar os olhos e armar-se de força para suportar o calafrio de asco que a percorreu ao sentir os inchados lábios roçar o anverso de seu pulso. Clifton, confundindo a reação do Madeline com uma sorte de recato virginal — possivelmente inclusive de excitação, — olhou-a com um sorriso ainda mais amplo.

As desculpas aduzidas ante a petição de que dessem um passeio juntos não demoraram a serem previstas pelo entusiasta beneplácito de seus pais, determinados a ter na família a um homem de tais meios e influência; Lorde Clifton obteria deles quanto desejasse.

Depois de agarrar a contra gosto o braço de seu prometido, Madeline saiu a passear pelo jardim, de uma geométrica e meticulosa disposição de sebes de espinheiro alvo, pulcros atalhos de areia e canteiros de flores.

— Desfruta de suas férias escolares? — perguntou lorde Clifton, enquanto os pequenos, mas pesados pés faziam ranger o cascalho do atalho.

— Sim, obrigado, milord — respondeu Madeline sem deixar de olhar o terreno que se estendia ante eles.

— Sem dúvida tem que estar desejando abandonar o internato, tal e como já têm feito suas companheiras — observou Clifton.

— A meu pedido, seus pais acessaram a mantê-la ali dois anos mais que às outras garotas.

— A pedido seu? — repetiu Madeline, assustada pela influência que parecia ter sobre seus pais.

— Mas por quê?

— Pareceu-me que seria benéfico para você, querida minha — afirmou com sorriso auto-suficiente.

— Tinha que polir-se e disciplinar-se. À fruta perfeita terá que lhe dar tempo para que mature. Agora já não é tão impetuosa como antes, né? Tal e como pretendia se feito mais paciente.

«Não acredito», tivesse querido lhe espetar Madeline, mas algo a obrigou a manter os lábios selados. Aqueles dois anos a mais marcados pelo rígido confinamento no internato para jovenzinhas da senhora Allbright quase a tinham feito louca. Também tinham propiciado que sua natureza rebelde e fantasiosa se convertesse em algo selvagem e ingovernável. Dois anos antes, o acanhamento e a falta de caráter lhe teriam impedido de opor-se ao desejo de seus pais de casá-la com o Clifton. Agora, entretanto, as palavras «paciência» e «obediência» tinham desaparecido de seu vocabulário.

— Trouxe-lhe algo — disse Clifton.

— Um obséquio que, estou seguro, esteve esperando.

Levou a Madeline até um banco de pedra e se sentou com ela, pressionando o flanco da garota com seu corpo fofo. Madeline aguardou sem dizer uma palavra embora, ao final, seu olhar se encontrou com o do velho. Clifton sorriu como se fosse um tio indulgente que conversa com sua travessa sobrinha.

— Tenho-o no bolso — murmurou, indicando o lado direito da jaqueta de lã marrom.

— Por que não o tira você mesma, como inteligente gatinha que é?

Nunca lhe tinha falado assim antes, pois nos anteriores encontros sempre tinham estado convenientemente acompanhados.

— Aprecio sua amabilidade, mas não é necessário que me dê de presente nada, milord — respondeu Madeline, e juntou as mãos com força, entrelaçando os dedos.

— Insisto. — Moveu o bolso da jaqueta para ela.

— Procure seu presente, Madeline.

Com rigidez, colocou a mão no bolso até que deu com um aro diminuto. Quando tirou o objeto e o contemplou, seu coração começou a golpear em seu peito com um ritmo endiabrado. Tratava-se de um pequeno anel de ouro, de desenho truncado e adornado com uma pequena e escura safira. Era o símbolo de sua futura escravidão como esposa do Clifton.

— Pertenceu a minha família durante gerações — explicou lorde Clifton.

— Minha mãe o levou até o dia de sua morte. Gosta?

— Tem encanto — respondeu Madeline com desdém, sentindo uma forte aversão pelo objeto.

Clifton agarrou o anel e o pôs no dedo da sua prometida. Como ficava muito folgado, Madeline teve que fechar o punho para evitar que lhe caísse.

— Agora, céu, já me pode agradecer.

Rodeou-a com seus pesados braços, apertando-a com força contra seu peito fornido. Desprendia um aroma fedido e rançoso, similar ao das peças de caça que, para sua maturação, passam muito tempo penduradas. Sem dúvida, lorde Clifton opinava que a frequência no banho era um prazer desnecessário.

Madeline tomou ar com reprimida amargura.

— Por que se dirige para mim como «céu» ou «gatinha»? — perguntou com voz trêmula e desafiante.

— Eu não gosto que me chamem essas coisas. Sou uma mulher, uma pessoa.

O sorriso de lorde Clifton descobriu uma enorme dentadura amarelada. Uma rajada de seu pestilento fôlego impactou na cara de Madeline, que não pôde reprimir uma careta de desagrado.

Antes de responder, Clifton aumentou a pressão de seu abraço.

— Sabia que antes ou depois tentaria me desafiar... Mas a minha idade, já se sabe todos os truques. Eis aqui a recompensa a sua rabugice, minha indisciplinada gatinha.

Clifton apertou seus fofos lábios contra os de sua prometida, selando com brutalidade a boca da jovem com o primeiro beijo que recebia. Os braços do Clifton, como aros de um tonel, fecharam-se ao redor de Madeline, que se manteve imóvel e silenciosa, estremecida pelo asco, fazendo provisão de toda sua fortaleza para suportar aquele contato sem gritar ou chorar.

— Verá que sou um tipo muito viril — afirmou Clifton entre ofegos, ao mesmo tempo em que mostrava seu orgulho pela conquista.

— Não sou dos que se andam com poesias ou respiram os ridículos desejos das mulheres. Faço o que me agrada, e verá como acabará lhe gostando em sobremaneira.

Com a mão gordinha acariciou a bochecha, pálida e tensa, de sua prometida.

— Bonequinha — murmurou.

— Jamais vi uma cor de olhos como o seu... Igual ao âmbar.

Enroscou os dedos em uma mecha solta do cabelo castanho claro de Madeline e o esfregou repetidamente.

— Como anseio que chegue o dia em que seja minha!

Madeline apertou os dentes para evitar que lhe tremessem as mandíbulas. Queria lhe gritar, lhe dizer que jamais lhe pertenceria, mas o sentido do dever e a responsabilidade que lhe tinham inculcado de berço lhe fizeram calar.

Clifton deve ter notado o involuntário calafrio.

— Estás com frio — disse em um tom que bem poderia ter utilizado para dirigir-se a um menino pequeno.

— Vamos! Entremos antes que se resfrie.

Aliviada, levantou-se com presteza e se dirigiu com ele para o salão.

Assim que lorde e lady Mathews viram o anel no dedo de Madeline prorromperam em risadas e felicitações; eles, que tinham por costume não mostrar qualquer entusiasmo por considerar que se tratava de uma emoção plebéia.

— Que obséquio tão generoso! — exclamou Agnes, cujo rosto, geralmente melancólico, resplandecia agora de prazer.

— E que primor de anel, lorde Clifton!

— Isso sei — respondeu sem modéstia o aludido, a quem a satisfação provocou um tremor na parte pendente de suas bochechas.

Madeline, com um sorriso leve e gélido, contemplou como seu pai fazia passar lorde Clifton à biblioteca para celebrá-lo com uma taça. Logo que se certificou de que não podiam as ouvir, arrancou o anel da mão e o atirou ao tapete.

— Madeline — exclamou Agnes, — recolhe-o imediatamente! Não tolerarei semelhante chilique de menina pequena. De agora em diante, levará sempre o anel... E se sentirá orgulhosa de levá-lo.

— Não me serve — respondeu Madeline com frieza. A mera lembrança da sensação provocada pelo úmido beijo do Clifton lhe levou a esfregar o rosto com a manga do vestido até que os lábios e o queixo avermelharam.

— Não me casarei com ele, mamãe. Antes me suicido.

— Não dramatize Madeline. — Agnes se agachou e recolheu o anel, sustentando-o como se seu valor fora incalculável.

— Espero que o matrimônio com um homem tão sério e prosaico como lorde Clifton acabe com seus grosseiros arrebatamentos.

— Prosaico — murmurou Madeline sorrindo com amargura. Não conseguia acreditar que sua mãe pudesse resumir todas as repulsivas qualidades do Clifton com uma palavra tão corriqueira.

— Justo a virtude que todas as garotas sonham que entesoure o homem que as despose.

Por uma vez se sentiu aliviada de voltar para o internato, aonde, à exceção do professor de baile que ia uma vez por semana, não encontraria homem algum. Madeline percorreu o estreito corredor com uma caixa de chapéus na mão; o resto dos pertences o subiriam mais tarde. Ao chegar à habitação que compartilhava com sua melhor amiga, Eleanor Sinclair, encontrou-se com uma pequena multidão de garotas tombadas nas camas ou recostadas nas cadeiras. Como Madeline era a maior de todas as pupilas do internato da senhora Albright, e Eleanor, com seus dezessete anos, a que a seguia em idade, estavam acostumadas a receber frequentes visitas das mais jovens, que viam nelas um modelo de maturidade e humanidade.

As garotas pareciam compartilhar uma lata de bolachas, enquanto uma gravura colorida, em mãos da Eleanor, arrancava de suas bocas todo tipo de exclamações. Ao advertir a chegada do Madeline, sua amiga lhe dedicou um sorriso de bem-vinda.

— Como está lorde Clifton? — perguntou sabedora desde antes da partida do Madeline do planejado encontro com seu prometido.

— É até pior do que imaginava — replicou Madeline dirigindo-se a sua estreita cama, situada a seguir da de Eleanor. Deixou cair a caixa de chapéus no chão e se sentou no bordo do colchão, desejando que as garotas abandonassem o quarto para poder falar em privado com sua amiga.

«Em seguida», prometeu o olhar amistoso da Eleanor, enquanto as outras garotas permaneciam apinhadas em excitado círculo.

— Mas lhe olhem! — exclamou uma delas.

— Podem imaginar como seria realmente uma entrevista com ele?

— Desmaiaria — confessou alguém, provocando a risada tola das demais.

— É o mais bonito...

— Parece um salteador de caminhos...

— Sim, tem algo no olhar...

Tal inundação de suspiros femininos provocou um reprovador movimento de cabeça no Madeline.

— Pelo amor de Deus! Pode-se saber o que estão olhando? — perguntou, sentindo que seu pesar era substituído por uma crescente curiosidade.

— Deixem que o veja Madeline...

— Mas se eu ainda não o vi bem...

— Toma Madeline. — Eleanor lhe entregou a gravura.

— Deu-me isso minha irmã maior, é a gravura mais procurada de Londres. Todo mundo quer uma cópia.

Madeline observou a imagem. Quanto mais a olhava, mais fascinada se sentia. A cara daquele homem poderia ter pertencido a um rei, a um capitão de navio, a um delinquente... a alguém poderoso... a alguém perigoso. Não se tratava de uma beleza clássica, os rasgos eram muito descarados. Mas uma qualidade leonina se desprendia daquela cara magra, daquele olhar escrutinador e penetrante, da ampla boca que desenhava o esboço de um sorriso irônico. Na gravura, a cor do cabelo era de um castanho impreciso, mas a cabeleira parecia espessa e ligeiramente encrespada.

As demais garotas esperavam que, igual a elas, ruborizasse-se e rompesse a rir como uma idiota, mas Madeline se absteve de mostrar emoção alguma.

— Quem é? — perguntou com calma a Eleanor.

— Logan Scott.

— O ator?

— Sim, o dono do teatro Capital.

Ao voltar a contemplá-lo, um estranho sentimento se apoderou de Madeline. Tinha ouvido falar do Logan Scott, mas nunca antes tinha visto um retrato dele. A seus trinta anos, Scott era um ator de fama internacional, que superava em muito as convencionais atuações do David Garrick e Edmund Kean. Alguns asseguravam, inclusive, que ainda não tinha alcançado o zênite de suas faculdades. Entre suas aptidões destacava a voz, da que se dizia que era capaz de acariciar os ouvidos como o veludo ou de inflamar o ar com sua faiscante intensidade.

Também corriam rumores de que as mulheres lhe perseguiam aonde ia, cativadas não só por suas magníficas interpretações de heróis românticos, mas também, sobre tudo, pelas de vilãos desalmados. Fazendo do Yago ou de Barrabás era insuperável... Era o sedutor, o traidor e o manipulador por excelência, e as mulheres lhe adoravam por isso.

Um homem na flor da vida, atrativo, culto... Tudo o que não era lorde Clifton. Madeline se sentiu rasgada por um veemente e repentino desejo. Logan Scott habitava em um mundo do qual ela nunca participaria. Jamais chegaria a conhecê-lo; nem a ele, nem a ninguém que lhe parecesse... Nunca paqueraria, nem riria, nem dançaria. Nunca seria seduzida pelas ternas palavras de um homem nem pelas carícias de um amante.

Ao olhar fixamente a cara do Logan Scott, uma idéia louca e selvagem brotou em seu pensamento com tal intensidade que lhe tremeram as mãos.

— O que te passa Madeline? — perguntou Eleanor preocupada, enquanto lhe retirava a gravura das mãos.

— Há-te posto branca de repente, e tem uma expressão tão estranha...

— Só é cansaço — disse Madeline com um forçado sorriso. Queria estar sozinha, necessito de tempo para pensar.

— Foi um fim de semana de muita tensão. Possivelmente, se descansasse um momento...

— É obvio. Vamos, garotas... Seguiremos a reunião na habitação de outra. — Considerada, Eleanor fez sair às moças e, antes de fechar a porta, deteve-se.

— Madeline necessita algo?

— Não, obrigado.

— Dou-me conta de que ter visto lorde Clifton este fim de semana foi uma dura prova. Oxalá pudesse te ajudar de algum jeito!

— Já o tem feito, Eleanor.

Madeline se tombou de flanco e encolheu as pernas até o peito, de maneira que as abas de seu singelo uniforme escolar se amassaram ao redor de seu corpo. Os pensamentos se amontoavam em sua mente e apenas se precaveu da silenciosa saída de sua amiga.

Logan Scott... Um homem cujo apetite pelas mulheres era quase tão legendário como seu talento como ator. Quanto mais voltas deu a seu dilema, mais se foi convencendo de que a solução se encontrava no Scott. Utilizá-lo-ia para fazer-se tão indesejável a olhos de lorde Clifton, que a este não ficasse outro remédio que cancelar o compromisso. Tinha decidido que teria uma aventura com o Logan Scott. Sacrificar sua virgindade resolveria todos os problemas. Se o preço a pagar era ter que viver o resto de seus dias com o opróbrio de ser considerado um objeto usado, pois muito bem. Algo era preferível a converter-se na esposa do Clifton.

Começou a meditar de maneira febril. Falsificaria uma nota de sua família, em que solicitaria que voltasse do internato um semestre antes. Durante as próximas semanas, seus pais dariam por certo que estava a salvo na escola, em tanto que a senhora Albright pensaria que tinha voltado para casa. Deste modo, deixar-lhe-iam as mãos livres para levar a cabo seu plano.

Iria ao teatro Capital e se apresentaria ao senhor Scott. Depois lhe informaria de sua boa disposição a deitar-se com ele. Madeline esperava que o problema tivesse uma rápida solução. De todos é conhecido que os homens, por honoráveis que pareçam, desejam seduzir às lindas jovenzinhas. E um homem com a reputação do Scott não teria que mostrar, em matéria de pecado e dissipação, nenhuma sombra de dúvida.

Uma vez perdida sem remédio, voltaria para casa e aceitaria qualquer castigo que seus pais lhe impuserem. O mais provável é que fora desterrada a casa de algum parente no campo. Lorde Clifton a desprezaria e assim se livraria, de uma vez por todas, de seus cuidados. O método escolhido não seria fácil nem prazenteiro, mas não cabia outra possibilidade.

Possivelmente não seria tão mau viver como uma solteirona uma vez culminados seus propósitos. Sobrar-lhe-ia tempo para ler e estudar, e ao cabo de uns poucos anos, mamãe e papai lhe dariam permissão para viajar. Tentaria envolver-se em obras benéficas e fazer algo bom pela gente desfavorecida. Faria o melhor que se pode fazer: «Ao menos — pensou com sombria determinação, — escolheria seu destino antes que este a manejasse a seu gosto.»


Primeira Parte
CAPÍTULO 1

Madeline, com a mala agarrada pela alça de pele, deteve-se ante a porta traseira do teatro Capital. Atravessar Londres tinha sido uma experiência aterradora, ao mesmo tempo em que excitante. O ruído das carruagens, os cavalos e os vendedores ambulantes tinham assediado seus ouvidos, enquanto os orifícios nasais lhe enchiam de uma confusa mescla de aromas: esterco, animais e imundícies, o aroma a levedura de uma padaria próxima, o da cera quente de um fabricante de velas...

A primeira hora da manhã tinha empenhado o anel que lhe tinha dado lorde Clifton e, agora, o bolso de seu vestido transbordava com o peso das moedas. Por receio dos ladrões de carteira, manteve-se bem amassada em sua singela capa cinza, mas ninguém tinha mostrado a intenção de aproximar-se. Agora, depois de ter chegado ao Capital, sua aventura estava a ponto de começar.

O teatro parecia constar de quatro ou cinco edifícios, que deviam albergar as oficinas e os armazéns. Depois de entrar no edifício principal, onde se localizava o cenário, caminhou através de um labirinto de corredores e quartos de ensaio. Podia ouvir como a gente falava, cantava, tocava instrumentos e discutia; a tentação de espionar pelas portas meio abertas lhe pareceu muito quase irresistível.

Finalmente chegou até uma grande habitação repleta de móveis velhos, que incluíam uma mesa com sanduíches ressecados, um queijo murcho e fruta. Atores e atrizes de diferentes idades vadiavam pela estadia, falando e bebendo chá. Acostumados ao parecer a contínuas idas e vindas, logo não emprestaram atenção a Madeline. Entretanto, um jovem empregado de ar soturno deixou o que estava fazendo e, curioso, ficou olhando-a fixamente de um modo amistoso.

— Deseja algo, senhorita? — perguntou.

Madeline sorriu, tentando encobrir seu nervosismo.

— Procuro o senhor Scott

— Ah! — Olhou-a intrigado e sacudiu a cabeça em direção à porta mais distante.

— Agora está ensaiando. O cenário é por ali.

— Obrigado.

— Não gosta que lhe interrompam — advertiu o rapazola a Madeline quando esta se dirigia já para a porta do cenário.

— Ah, sim? Não lhe incomodarei — replicou com alegria, e sujeitando a mala com uma mão abriu a porta com a que ficava livre. Deslizou-se a empurrões através de cenários móveis e bastidores de lona, até que chegou junto ao bastidor direito do cenário. Depois de deixar a mala no chão, aproximou-se da abertura de uma cortina de veludo verde e contemplou a sala.

Com uma capacidade para mil e quinhentas pessoas sentadas, o teatro Capital era um enorme e espaçoso edifício. Umas fileiras de sólidas colunas douradas com incrustações de cristal esmeralda percorriam os muros. Os camarotes e assentos ordenados conferiam ao auditório um esplendor aveludado, em tanto que os candelabros de cristal arrojavam sua brilhante luz sobre os delicados afrescos que adornavam o teto.

O chão do cenário estava inclinado, de maneira que, fossem quais fossem as localizações dos atores, pudesse-se ver todos por igual. As pesadas vigas mostravam as marcas indeléveis deixadas por botas, sapatos e cenários de milhares de representações. Nesse momento se levava a cabo um ensaio. Dois homens caminhavam pelo cenário com floretes na mão, discutindo a coreografia de uma cena de luta. Um deles, loiro e pálido, tinha a constituição esbelta e ágil de um felino. «Não está seguro do que quer...», estava dizendo com seriedade enquanto golpeava a ponta de borracha do florete contra a lateral do sapato.

Quando o outro homem lhe respondeu, a Madeline pareceu escutar a voz mais peculiar que jamais tinha ouvido: profunda, misteriosa, sofisticada... A voz, em suma, de um anjo cansado.

— O que quero Stephen, é que ponha um pouco de paixão na interpretação. Se não me equivoco, alberga a intenção de matar ao homem que esteve a ponto de seduzir a sua prometida. Entretanto, sujeita esse florete igual uma anciã agarraria uma agulha de fazer ponto.

Fascinada, Madeline ficou olhando de marco em marco. Logan Scott era mais alto do que esperava, mais carismático, mais... tudo. Seu corpo, esbelto e musculoso, estava coberto por uma singela camisa branca desabotoada no pescoço e umas calças negras, através dos quais se adivinhavam umas pernas largas e um estreito quadril. A gravura que tinha visto Madeline nem por indício o fazia justiça: a cor do cabelo, de um castanho escuro com brilhos vermelhos, a curva sardônica da ampla boca, o tom avermelhado da pele...

De algum jeito seu porte refinado se temperava com um pingo de brutalidade, dando a entender que a principesca fachada podia desaparecer em qualquer momento e deixar ao descoberto a um homem capaz de quase tudo. Madeline pestanejou com inquietação. Tinha esperado que Scott fosse uma espécie de elegante libertino, um mulherengo encantador, mas não via nele nenhum rasgo de desenvoltura ou de elegância.

— Senhor Scott, temo que se não me conter durante esta última parte da coreografia, não terá ocasião de parar o golpe... — protestou o ator loiro.

— Não conseguirá superar minha guarda — assegurou Scott com desconcertante auto-suficiência.

— Dê tudo o que tenha Stephen... ou darei o papel a alguém que o faça.

Stephen apertou a boca. Estava claro que o sarcasmo do Scott tinha dado no alvo.

De acordo, pois.

Levantou o florete e entrou a fundo, esperando pegar a Scott com a guarda baixa.

Acompanhado de uma breve gargalhada, Scott parou o golpe com perícia. Os floretes entrechocaram-se com estrépito quando os dois homens se lançaram a um frenético intercâmbio de golpes.

— Mais, Stephen — dizia Scott, ofegando por causa do exercício.

— Não perdeu alguma vez a uma mulher? Não quis matar a alguém por isso?

— Sim, maldito seja! — Como tinha pretendido Scott, o gênio do outro ator aflorou.

— Então, demonstre-me isso.

Com uma expressão de resolução no rosto velado pelo suor, Stephen explodiu em uma inundação de movimentos. Scott elogiava seus esforços com breves expressões, ora retirando-se, ora atacando com uma fileira de fintas e estocadas. Madeline nunca imaginou que um homem tão grande pudesse mover-se com semelhante graça. A visão do Scott a tinha deixado literalmente sem fôlego. Era poderoso, imponente e com um horripilante autocontrole. Fascinada pelo intenso combate, e querendo ter uma melhor visão, Madeline se adiantou.

Consternada, notou como um dos pés tropeçava com a mala que tinha depositado no chão e provocava sua queda sobre uma pequena mesa em que se empilhavam objetos de acessórios. Um candelabro, um florete de reposição e algumas peças de porcelana, que se fizeram pedacinhos, caíram ao chão com estrépito. A atenção dos atores se dividiu. A cabeça do Logan Scott girou com rapidez para o bastidor direito. Ao mesmo tempo, Stephen, incapaz de deter sua inércia, entrou a fundo com seu florete.

Scott, com um grunhido surdo, ficou sentado no chão sobre seu duro traseiro, a enorme mão apertada contra o ombro contrário. O silêncio que seguiu tão somente se viu turbado pela respiração entrecortada dos atores.

— Que demônios...! — murmurou Stephen, enquanto buscava com o olhar as sombras do bastidor onde Madeline lutava por incorporar-se. Voltou seu olhar para o Scott, que mostrava uma estranha expressão.

— Stephen — disse Scott com um tom de aspereza na voz, — parece que seu florete perdeu a ponteira.

E conforme o dizia, uma efusão escarlate se esparramou entre seus dedos e a camisa.

— Meu Deus! — exclamou Stephen com expressão mudada pelo horror.

— Não sabia... Não foi minha intenção...

— Não passa nada — respondeu Scott.

— Foi um acidente. Sua interpretação foi exatamente tal como eu queria. Faça-o sempre assim.

Stephen lhe dedicou um intenso olhar de incredulidade.

— Senhor Scott — disse com voz tremente, debatendo-se na aparência entre o desespero e a gargalhada, — como pode seguir me dirigindo aí sentado, enquanto sangra sobre o cenário? Às vezes me pergunto se você é humano.

Presa do pânico retirou a vista do jorro de sangue que se estendia pela camisa do Scott.

— Não se mova. Conseguirei ajuda... Mandarei chamar um médico...

— Não há necessidade de nenhum médico — assegurou Scott laconicamente, mas Stephen já tinha abandonado o cenário a toda pressa. Resmungando, tentou ficar em pé, mas voltou a cair ao chão com o rosto lívido.

Madeline tirou a capa e agarrou seu cachecol de lã.

— Aqui — disse, saindo a toda pressa do bastidor e ajoelhando-se junto a ele. Fez uma bola com o cachecol e a apertou com força contra o ombro de Scott.

— Isto ajudará a deter a hemorragia.

A dor da pressão obrigou Scott a inspirar com força.

Seus rostos estavam muito perto, e Madeline se surpreendeu olhando fixamente sob a sombra de umas espessas pestanas negras, os olhos mais azuis que jamais tinha visto. Margeados de uma azul safira, as íris pareciam conter todos os tons dessa cor, desde o das mais escuras profundidades do oceano até o do mais pálido céu invernal.

Madeline notou com estranheza que lhe faltava a respiração.

— Lamento... — deteve-se e, envergonhada, olhou por cima do ombro o montão de peças quebradas de porcelana.

— Tudo isso foi um acidente. Pelo geral não sou tão desajeitada, mas estava contemplando o ensaio do bastidor e tropecei...

— Quem é você? — perguntou Scott com frieza.

— Madeline Ridley — respondeu, utilizando o sobrenome de solteira de sua mãe.

— O que está fazendo aqui, além de interromper meu ensaio?

— Vim porque... — Madeline voltou a encontrar-se com seu olhar e, de repente, pareceu-lhe que não tinha mais remédio que confessar suas intenções de uma maneira franca e descarada. Tinha que captar sua atenção de algum jeito, conseguir distinguir-se das numerosas mulheres que deviam arrojar-se aos seus braços todos os dias —... porque quero ser sua próxima amante.

Nocauteado pela surpresa, Scott ficou olhando de marco em marco como se falasse em um idioma estranho. Pensou sua resposta com atenção.

— Não tenho aventuras com garotas como você.

— É por minha idade?

Nos olhos do Scott havia um brilho de diversão... não amistosa, a não ser zombadora.

— Entre outras coisas.

— Sou mais velha do que aparento — respondeu Madeline com rapidez.

— Senhorita Ridley — sacudiu a cabeça com aparente incredulidade, — tem você uma maneira única de apresentar-se a um homem. Sinto-me adulado por seu interesse, mas, embora a minha vida dependesse disso, não lhe tocaria um cabelo. Agora, se me desculpar...

— Possivelmente necessite mais tempo para pensar em minha proposta — disse Madeline.

— Enquanto isso ficaria muito agradecida se considerasse a possibilidade de me dar um emprego. Tenho aptidões que poderiam ser de grande utilidade no teatro.

— Não o duvido — respondeu Scott com secura, — mas nenhuma que eu necessite.

— Recebi uma esmerada educação em literatura e história, também falo francês com fluidez e desenho e pinto bastante bem. Estaria disposta a varrer, esfregar, tirar o pó... algo que seja necessária.

— Senhorita Ridley, estou enjoado, e não estou seguro se é por causa da perda de sangue ou de puro assombro... Em qualquer caso, pareceu-me muito divertida. — ficou em pé e sua cara recuperou a cor.

— Será você recompensada pela perda do cachecol.

— Mas eu... — começou a discutir.

Em turba, vários membros da companhia teatral, alertados do acidente, irromperam no cenário.

— Não é nada — assegurou Scott, visivelmente zangado pelas expressões de preocupação.

— Não, não necessito ajuda para caminhar, a minhas pernas não passa nada.

E se dirigiu ao camarim rodeado de uma nuvem de carpinteiros, músicos, pintores, bailarinos e atores, todos decididos a lhe ajudar.

Madeline ficou olhando fixamente. Que homem tão impressionante! Parecia um membro da realeza, embora muito provavelmente a maioria dos monarcas e princesas não fosse abençoada com tamanha beleza e uma compleição tão esplêndida. Estava segura de que Scott era o homem adequado para ter uma aventura. Não lhe coube a menor dúvida de que seria algo extraordinário: uma experiência única na vida.

Para falar a verdade, não tinha mostrado muita impaciência por deitar-se com ela..., mas Madeline não tinha terminado ainda. Esgotá-lo-ia com sua insistência, dedicaria cada minuto do dia a conseguir fazer-se imprescindível. Acabaria por lhe oferecer tudo que procurasse em uma mulher.

Sumida em seus pensamentos, Madeline voltou para bastidor onde, junto à mesa caída, jaziam dispersados os restos da porcelana quebrada. Sem dúvida havia um sem-fim de coisas que fazer no teatro Capital, e se perguntou se haveria alguém mais a quem pudesse dirigir-se em busca de trabalho. Depois de levantar a mesa do chão, começou a recolher as partes da louça.

Desde algum lugar próximo, chegou-lhe a voz suave e melodiosa de uma mulher.

— Cuidado, menina, ou te cortará. Já varrerão isso mais tarde.

Madeline colocou a porcelana sobre a mesa e se voltou para contemplar a uma mulher loira, algo maior que ela e de uma beleza surpreendente – o rosto, de porte aristocrático, os olhos azuis, o sorriso cálida... Estava grávida de vários meses.

— Olá — saudou Madeline, aproximando-se com curiosidade.

— É você atriz?

— Fui até recentemente — reconheceu com presteza.

— Entretanto, neste momento, e até que nasça o menino, limito-me a exercer de vice-diretora.

— Ah...!


Os olhos de Madeline se abriram como pratos ao precaver-se de que aquela mulher só podia ser a duquesa do Leeds, a famosa atriz que tinha compartilhado pôster com o senhor Scott em todo tipo de obras, desde comédias atrevidas até tragédias shakespearianas. Embora se dissesse que o duque do Leeds era bastante rico, tudo parecia indicar que tinha optado por não opor-se à paixão pelo teatro e a florescente carreira de sua esposa.

— Excelência, é uma honra conhecê-la. Rogo-lhe, por favor, que me perdoe pelo problema que ocasionei...

— Eu não me preocuparia — a tranquilizou.

— Aqui ocorrem acidentes todos os dias.

Olhou a Madeline intrigada.

— Pareceu-me ouvir que pedia emprego ao senhor Scott.

— Sim, excelência — reconheceu ruborizada Madeline, enquanto se perguntava que mais teria ouvido. Entretanto, a expressão da mulher era neutra e carente de malícia.

— Me acompanhe ao escritório... Como te chama?

— Madeline Ridley.

— Bom, Madeline, não é o tipo de garota que está acostumado a vir ao bairro dos teatros em busca de trabalho. Bem vestida, claramente educada... — Menina, não terá escapado de casa, verdade?

— Oh não — respondeu Madeline. Não era exatamente uma mentira, posto que o tivesse feito da escola, e não de casa, embora não por isso deixou de sentir-se incômoda pelo engano. Esmerou-se em escolher do modo mais adequado as palavras de sua resposta.

— As circunstâncias me obrigaram a procurar trabalho onde for... E esperava que pudesse ser aqui.

— Por que no Capital? — perguntou a duquesa, conduzindo-a entre as decorações até as dependências administrativas.

-— Sempre me interessou o teatro e ouvi e li muito sobre o Capital. Em realidade, nunca assisti a uma representação.

— Nenhuma vez? — À mulher pareceu lhe assombrar a afirmação.

— Só a obras de aficionados no colégio.

— Quer ser atriz?

Madeline negou com a cabeça.

— Estou convencida de que não tenho talento dramático e eu não gostaria de atuar diante de ninguém. Só em pensar me tremem as pernas.

— Que lástima — comentou a duquesa, enquanto entrava em um pequeno escritório presidido por uma brilhante escrivaninha de mogno onde que se empilhavam tramas e críticas. Alinhadas contra as paredes havia toda uma série de caixas repletas de livros e papéis.

— Uma garota com esse rosto seria uma boa atração para o Capital.

O elogio fez pestanejar a uma confundida Madeline. Sempre tinha acreditado que tinha um atrativo moderado, mas nada mais. Havia infinidade de garotas bem dotadas, que superavam a modéstia e magreza de sua figura, garotas com rasgos mais chamativos que uns olhos castanhos e um cabelo cor mel como o seu. Sua mãe, Agnes, sempre havia dito que a bonita da família era sua filha maior, Justine, enquanto que a mais inteligente era Althea. A menor, ou seja, Madeline, não se destacava por nada em particular.

Madeline sempre foi consciente de que deveria ter sido um menino. Devido aos problemas com os partos, na terceira gravidez o doutor havia dito a Agnes que aquele seria o último. Contra seu desejo, de novo foi menina, a terceira, lhe dando o maior desgosto de sua vida. Madeline não tinha deixado nunca de sentir-se culpada por isso. Se tão somente houvesse possuído algum dom extraordinário que tivesse orgulhado a seus pais... Mas até o momento não tinha se destacado em nada.

A duquesa fez um gesto a Madeline para que se sentasse em uma cadeira junto a ela.

— Me diga o que sabe fazer e verei o que posso fazer com o assunto de seu emprego.

Falaram durante uns minutos, dando tempo a que lhes trouxessem da sala de descanso uma bandeja com o chá. A duquesa falava com rapidez, sorria frequentemente e dava mostras de uma contagiosa e ilimitada energia. A uma mulher de sua fama lhe teria resultado muito fácil intimidar a outros; entretanto, era singela e afetuosa. Ao longo de sua acomodada vida, Madeline nunca tinha conhecido a uma mulher como a duquesa do Leeds. Sua mãe, as professoras da escola — com suas leituras sobre o decoro — e suas amigas — que sabiam tão pouco do mundo como isso — compunham todo seu mundo de relações femininas.

— Madeline — disse a duquesa, — como pode deduzir por meu estado, durante os próximos meses verei muito limitadas minhas atividades. Eu gostaria de ter uma ajudante que me trouxesse e me levasse as coisas e que mantivesse o escritório arrumado... Há tantas coisas para fazer que acaba nunca tendo tempo. Suas habilidades como bordadeira podem lhe ser muito úteis à senhora Littleton, encarregada de criar e manter o vestuário. E, embora o senhor Scott o tenha negado categoricamente, levamos anos necessitando que alguém reorganize a biblioteca.

— Posso fazer tudo isso e mais.

Seu entusiasmo arrancou um sorriso à duquesa.

— Muito bem. Considere-te parte da companhia.

O gritinho de prazer de Madeline se viu logo interrompido ao pensar na reação do Scott quando descobrisse que trabalhava ali.

— Não se oporá o senhor Scott?

— Falarei com ele. Tenho todo o direito a contratar a quem queira. Se tiver problemas com ele ou com qualquer outra pessoa, venha a mim.

— Sim, senhora. Quero dizer... Excelência.

Os olhos azuis da duquesa brilharam divertidos.

— Menina, não deixe que o título te impressione. Apesar de minha posição fora do Capital, aqui dentro só sou a diretora anexa e o senhor Scott o rei supremo.

Madeline nunca tinha ouvido falar de uma situação tão pouco corrente: a de uma nobre que trabalhasse de verdade no teatro. Ambos os mundos, o da aristocracia e o do teatro, eram incompatíveis. Perguntou-se como teria conseguido a condessa atravessar a linha.

A condessa sorriu, tinha-lhe lido os pensamentos.

— A maioria de meus iguais acredita que não faço honra a minha classe ao trabalhar aqui. O duque, Deus o abençoe, estaria encantado de que deixasse o teatro, mas entende que não poderia viver se me faltasse.

— Poderia lhe perguntar excelência... quanto tempo faz que trabalha no Capital?

— Fará cinco ou seis anos. — Ao recordá-lo, a expressão da duquesa se adoçou. — Que euforia a minha quando Logan me contratou como membro da companhia! Todos os atores e atrizes de Londres queriam trabalhar a suas ordens. Tinha desenvolvido um estilo de interpretação mais natural que qualquer outro que se praticou antes. Agora o imita todo mundo, mas então era algo extraordinário.

— O senhor Scott tem tanta presença — observou Madeline.

— E ele sabe — replicou a outra mulher com ironia. Verteu chá na xícara de Madeline e a olhou com dúvida.

— Há algo que deveria te advertir sobre o particular. Mais tarde ou mais cedo, a maioria das mulheres que trabalham no Capital acaba imaginando que estão apaixonadas pelo Logan. Meu conselho é que procure não ceder a semelhante tentação.

Madeline sentiu que lhe ardiam as bochechas.

— Bom, suponho que seria algo natural... Um homem com esse porte...

— Não é só seu porte. Há um “não sei que” distante nele que excita às mulheres, cada uma imagina que só ela poderá apaixoná-lo. Entretanto, para o Logan o teatro significa muito mais do que qualquer pessoa real possa chegar a supor para ele. É obvio que sua vida foi um incessante desfile de mulheres, mas nunca teve uma aventura em que se viu comprometido seu coração.

Sem dúvida, tudo aquilo facilitava as coisas. Se o plano de Madeline desse resultado, poderia deitar-se com o senhor Scott e partir sem sofrer complicações sentimentais.

— Já está bom de falar do Logan — disse a duquesa com energia, interrompendo os pensamentos do Madeline.

— Diga-Me, menina, já tem alojamento? Se não, posso te recomendar um lugar.

— O agradeceria, excelência.

Tenho uma amiga, uma mulher maior que em seus tempos chegou a ser uma atriz muito conhecida. Vive sozinha em uma preciosa casa, no Somerset Street e, de maneira ocasional, admite pupilas. Gosta de ter gente jovem a seu redor e, quando fica a recordar os velhos tempos, é muito divertida. Estou segura de que te alugará uma habitação por uma módica quantidade semanal.

— Parece perfeito — respondeu Madeline com um radiante sorriso.

— Obrigada.

Uma expressão de preocupação cruzou o rosto da mulher.

— Procuro não me colocar nos assuntos alheios, mas é evidente que não é daqui, Madeline.

Aludida ela guardou silêncio, sem saber o que responder. Baixou os olhos para evitar encontrar-se com o agudo olhar da duquesa.

— Não faz bem ao ocultar seus sentimentos — assinalou a mulher.

— Menina, se tiver algum problema... espero que decidas confiar em mim. Poderia te ajudar.

— Não posso entender por que teria que ser tão amável com uma estranha — respondeu Madeline.

— Parece tão sozinha... — murmurou a duquesa.

— No passado, mais de uma vez me senti assim. Seja qual for o problema de que foge a situação não pode ser tão grave como parece.

Madeline assentiu com a cabeça, em que pese a sua decisão de não confiar em ninguém. Depois de agradecer sinceramente à duquesa os cuidados, abandonou o teatro e agarrou um carro de ponto para ir até o Somerset Street.

O cabelo alvo alaranjado da anciã senhora Nell Florence testemunhava o presumível vermelho intenso da juventude. A pálida tez, que o tempo havia envelhecido com delicadeza, assim como as elegantes facções lhe conferiam um ar afetuoso e amável, não isento de um encantador toque de vaidade.

— Assim que te envia minha querida Julia, não? — perguntou a senhora Florence enquanto franqueava a entrada a Madeline.

— Estou segura de que nos levaremos às mil maravilhas. É atriz, suponho? Não? Não posso acreditar nisso, com esse rosto... Se eu tivesse tido a metade de sua formosura quando tinha sua idade... Mas o certo é que me arrumei bastante bem com o que tinha.

Mostro-lhe o interior da casa de dois andares sem deixar de lado um só detalhe; todas as habitações apareciam lotadas com lembranças de sua carreira de atriz.

— Então, toda Londres me aclamava — confessou a senhora Florence.

Seu passado, plasmado em retratos de uns trinta anos, ocupava uma parede ao completo. As pinturas a representavam em diferentes poses ou com diferentes vestidos, alguns incrivelmente indecentes.

Pareceu lhe agradar o rubor de Madeline.

— Ruboriza-te com facilidade, verdade? Que virtude tão reconfortante!

Intrigada pela coleção de lembranças, Madeline bisbilhotou os pôsteres teatrais emoldurados, as gravuras e as ilustrações coloridas de trajes antigos.

— Deve ter sido maravilhoso levar uma vida assim! — exclamou.

— Tive meus altos e baixos — afirmou a senhora Florence, — mas os desfrutei de todos. Nunca te arrependa de nada, este é meu conselho. Vem, mostrar-te-ei seu quarto e logo falaremos longamente. Tem que me contar tudo sobre ti.

Até então, Madeline nunca se precaveu da transparência de seus pensamentos. Parecia que a senhora Florence podia lê-los com a mesma facilidade com que o tinha feito Julia.

— Ah — disse a anciã olhando a cara de Madeline, — já vejo que não quer falar de seu passado. Bom, encontraremos outros temas de conversação.

Madeline agradeceu a compreensão da anciã.

— Obrigada, senhora Florence — disse, acompanhando-a enquanto terminava de lhe mostrar a casa.

Depois de desfazer a exígua bagagem, Madeline colocou um traje de algodão cinza pomba, adornado com umas fitas cor ameixa. Essa noite iria ao teatro a ver atuar ao Logan Scott e decidir por si mesma se tinha tanto talento como assegurava todo mundo. De pé ante o espelho, terminou de ajustar o vestido... e o resultado lhe fez franzir o cenho.

Embora o traje estivesse bem talhado, o estilo não era o adequado, todo recato e sensatez com aquele decote exageradamente alto. Como ia seduzir a um homem, e menos ao senhor Scott, sem um vestuário atraente? Alisou o traje com as mãos deixando-se levar pelo desencanto. Se tão somente tivesse um formoso traje de seda com babados de renda, sapatilhas debruadas de pérolas e flores frescas para o cabelo...

Uma vez escovado a longa cabeleira de cor castanha clara, enrolou-a e sujeitou com pinças no alto de sua cabeça. Desejava ter uns frisadores com os que pudesse fazer uns engenhosos cachos de cabelo que caíssem sobre suas têmporas e bochechas. «Nem sequer uma gota de perfume», protestou, sacudindo a cabeça.

Entretanto, ao cabo de um instante, seu natural bom humor acabou por impor-se. Resolveria esses problemas mais tarde. Essa noite só tinha uma coisa que fazer: ver sua primeira representação teatral em Londres.

A duquesa do Leeds, toda amabilidade, buscou-lhe um lugar entre os bastidores de onde pudesse ver a obra.

— Aqui estará bem — disse.

— Só te assegure de que não intercepte a ninguém. Nas mudanças de cena e vestuário, os atores passarão por aqui a toda pressa; não lhe agradaria que alguém tropeçasse contigo.

Obediente, Madeline se abaixou em uma lateral, comprovando que, embora de um ângulo estranho, podia ver a maior parte do que ocorria no cenário. A obra, titulada Um amante rechaçado, esteve precedida de uma atuação musical e uma farsa de um ato que arrancou quebras de onda de gargalhadas entre a audiência. Caiu o pano de fundo, e os cenários móveis e atores voaram pelo cenário formando um aparente caos. Como por milagre, ao cabo de um minuto tudo estava em seu lugar. Perto de Madeline dois jovens atiraram com perícia cordas e polias e as cortinas voltaram a abrir-se para descobrir o formoso pátio do interior de uma mansão londrina.

A visão do cenário despertou aplausos e exclamações entre um satisfeito público. Então, dois personagens, marido e mulher, começaram a discutir a lista de pretendentes de sua filha casadoura. O desenvolvimento da trama subjugou a Madeline, que se sentiu profundamente identificada com a heroína, uma ingênua jovenzinha a que impedem de casar-se com o amor de sua infância e a que, em troca, a promete em matrimônio com um homem malvado que se nega a entregá-la aos braços de seu autêntico amor. Para surpresa de Madeline, Logan Scott não foi o eleito para interpretar ao verdadeiro amor da garota, mas sim devia encarnar ao vilão da obra. Quando, com ar resolvido, entrou em cena, um estremecimento eletrizante se apoderou do público. Igual ao resto dos espectadores, Madeline ficou fascinada pelo ar ameaçador e o aprumo do personagem. Queria a garota para ele e nem sequer o fato de que ela amasse a outro impediria de alcançar seu propósito.

Cada minuto que passava era uma revelação para Madeline. Permanecia em silencio entre os bastidores, os dedos apertando uma dobra da cortina de veludo, o coração pulsando com tanta fúria que podia sentir as pulsações nas pontas dos pés. Cada vez que o senhor Scott falava, ela quase perdia o fôlego, tal era a simplicidade com que se metia no personagem e transmitia o egoísmo e o veemente desejo do homem. Igual ao resto da audiência, Madeline começou a desejar sem ser consciente que ele pudesse conquistar o inocente amor da garota.

O senhor Scott permaneceu no cenário durante a maior parte do primeiro ato, manipulando, intrigando e abrindo uma brecha entre os dois amantes, até o ponto que pareceu que aquele amor sincero jamais encontraria seu curso.

— O que acontece no final? — Madeline não pôde evitar perguntar em um sussurro a um tramoista que se tinha detido a seu lado.

— Consegue casar o senhor Scott com ela ou a deixa partir com o outro homem?

O empregado sorriu com ironia ao ver a encantada expressão com que Madeline seguia o que acontecia no cenário.

— Não posso dizer-lhe isso — respondeu isso.

— Nem louco te danificaria o final.

Antes que tivesse ocasião de lhe suplicar, terminou o primeiro ato e chegou o intervalo. Madeline se tornou a um lado quando caiu o pano de fundo. Um grupo de bailarinos entrou no cenário para entreter ao público até que começasse a segunda parte da obra.

Invadida pela melancolia, Madeline esperou na penumbra, escondida depois da abertura na cortina de veludo. O momento do reinício lhe fez eterno. Estava ansiosa e sentiu que um formigamento de felicidade percorria seu corpo. Não havia nenhum outro lugar no mundo no que desejasse estar mais que ali, respirando o aroma do suor e a pintura e o acre aroma das luzes de cálcio.

Uma grande forma negra passou a seu lado, era um homem que vinha a grandes pernadas do cenário, rumo aos camarins. Ao chegar a sua altura, os ombros de ambos se roçaram e o homem reduziu o passo. Deteve-se e levantou a mão até o ponto onde se haviam tocado. Lentamente, voltou-se para olhá-la. Os olhos de ambos se encontraram, e Madeline sentiu uma pontada de inquietação na boca do estômago. Era o senhor Scott.

O brilho da transpiração fazia ressaltar cada ângulo do rosto do ator. Embora a cor dos olhos estivesse envolto em sombras, o resplendor de uma crescente fúria resultou inconfundível.

— Você...? — disse.

— Que caralho está fazendo em meu teatro? Jamais ninguém tinha amaldiçoado diante dela. A surpresa fez que respondesse com lentidão.

— Senhor Scott... Pelo que vejo Sua Excelência ainda não lhe falou que mim.

— Disse-lhe que aqui não havia nada para você.

— Sim, senhor, mas a duquesa não estava de acordo. Contratou-me como sua ajudante.

— Está despedida — disse com brutalidade, ao tempo que se inclinava para diante, elevando-se imponente sobre ela.

Madeline podia cheirar o suor da pele e a umidade da camisa de linho do ator, algo que não lhe desagradou absolutamente... E mais, resultou-lhe fascinante. Scott fazia que todos os outros homens que tinha conhecido em sua vida parecessem mornos e insossos.

— Não, senhor — respondeu, sem acreditar que fora capaz de contradizê-lo.

Produziu-se um breve silêncio.

— Não? — repetiu Scott com um fio de voz, como se jamais tivesse escutado semelhante réplica.

— A duquesa me há dito que se tivesse vontade, podia me contratar, e que se você se opusesse fosse até ela.

Da garganta do ator brotou uma desagradável gargalhada.

— Isso há dito? Eu gostaria de saber a quem pertence este maldito teatro. Acompanhe-me.

E a agarrou pelo braço com dureza.

A tropicões, uma ofegante Madeline foi empurrada para o camarim do ator, enquanto seus ouvidos eram assediados pelas apagadas maldições do Scott.

— Senhor... agradecer-lhe-ia que não utilizasse semelhantes palavras em minha presença.

— Entra em meu teatro sem que a convidem, provoca um acidente nos bastidores, persegue-me suplicando um emprego... e agora me dá uma lição de boas maneiras?

A porta se fechou com estrépito e ficaram de pé olhando-se fixamente aos olhos; ele com fúria evidente, ela com calada obstinação. Madeline não ia permitir que a despedisse.

— Nunca teria imaginado que por trás de um homem como você se escondesse semelhante linguagem — disse Madeline com exagerada solenidade.

O senhor Scott abriu a boca para responder, mas se limitou a murmurar algo. Na pequena e bem iluminada habitação todos os detalhes da cara do ator apareciam cheios de vitalidade. A tez brônzea fazia desnecessária a maquiagem, seu olhar era tão penetrante que quase resultava doloroso mantê-lo, e sua ampla mandíbula tinha a consistência do granito.

— Cometeu um engano, senhorita Ridley. Aqui não há lugar para você.

— Senhor Scott, se segue zangado por minha estupidez desta manhã, desculpo-me por isso. De agora em diante serei muito cuidadosa. Não me dará outra oportunidade?

O que enfurecia ao Logan era sua forma de reagir ante ela. A lembrança da moça lhe tinha açoitado todo o dia. O certo é que o simpático bate-papo da garota teria podido derreter uma geleira, mas ao Logan só serviu para reafirmar-se em sua resolução.

— Não tem nada que ver com o desta manhã — disse com brutalidade.

— A única certeza é que aqui não faz falta.

— Mas a duquesa me disse que havia muitas coisas que fazer. Poderia ajudar com... o vestuário, a biblioteca do teatro...

— Julia tem um coração muito mole — a interrompeu, — e você se aproveitou dela. Eu não sou tão fácil de manipular.

— Não manipulei ninguém — protestou Madeline. Nesse momento chegou um criado, levando uma camisa limpa de linho branco e um colete, para ajudar ao Logan a trocar-se para o segundo ato.

— George — saudou Scott de maneira cortante ao tempo que desabotoava a camisa molhada. Faltavam poucos minutos para que começasse o segundo ato.

Até esse momento, Madeline jamais tinha visto despir-se a um homem. À medida que se soltavam os botões, ia surgindo uma brilhante musculatura. Emocionada, aproximou-se da porta.

— Senhor Scott... acredito que deveria ir agora.

— Vai abandonar o Capital? — inquiriu com frieza, enquanto terminava de tirar a camisa amassada.

Madeline baixou o olhar com precipitação, embora a imagem daquele peito amplo e nu ardia em seu cérebro.

— Se a duquesa me autorizar isso, ficarei.

— Então fique se quiser, mas pagará por isso. Vou converter sua vida em um inferno. Entendeu?

— Sim, senhor Scott — sussurrou Madeline, fugindo do camarim a toda pressa justo no momento em que Scott começava a desabotoar as calças.

Quando a porta se fechou, Logan se deteve e desejou com firmeza que se desvanecesse aquela furiosa excitação sexual. Com muito tato, George evitou olhar seu corpo e recolheu a muda suja.

— Necessitará algo mais senhor? — murmurou.

Um balde de água gelada não teria vindo mal, por não falar de um bom gole, mas Logan meneou a cabeça e, dando a volta, continuou despindo-se.

O criado ordenou algumas poucas coisas dentro do camarim e partiu em silêncio.

Com o olhar fixo no espelho, Logan suspirou tentando concentrar-se no trabalho que tinha por diante... Mas sua mente estava totalmente ocupada pela moça: Madeline.

Quem era e por que maldita razão queria trabalhar no Capital? Claramente era uma garota muito distinta para um lugar assim, ela não era para mesclar-se com a complicada gente do teatro. No que tinha pensado Julia ao contratá-la? Ter-lhe-ia encantado poder abordar a sua vice-diretora e lhe arrancar uma explicação, mas não tinha tempo. Tinha que acabar a representação, e nada havia mais importante que dar ao público do Capital exatamente o que queria.

Como pôde, Madeline voltou para seu privilegiado lugar entre bastidores. Colocou suas ardentes bochechas — sem dúvida, tintas de um pertinaz carmesim — entre as mãos. Equivocou-se ao insistir em permanecer no Capital face à desaprovação do senhor Scott? Não lhe coube dúvida alguma de que aquela não era a via adequada para seduzir a um homem.

Por que não gostava dela? Sempre lhe tinha resultado fácil fazer amigos, supôs que não era o tipo de mulher que preferia o senhor Scott. Ser-lhe-ia muito difícil trocar seus sentimentos para ela? E quanto tempo levaria? Preocupada, ficou olhando para as escurecidas decorações, onde os atores esperavam pacientemente entre os cenários móveis.

Elevou-se o pano de fundo, e a história dos jovens e afligidos amantes se iniciou. Prova inegável do talento do senhor Scott foi que, exceto o personagem que interpretava, da mente de Madeline desapareceu tudo.

Depois de uma série de intrincadas voltas nos argumentos, o vilão terminava por dar-se conta de que, mesmo que conseguisse casar-se com a bela moça, jamais conquistaria seu amor. Depois de adotar o papel de benfeitor anônimo, ajudou ao casal a fugir sem deixar que soubessem jamais que tinha sido o único responsável por sua felicidade. O senhor Scott interpretava ao personagem sem um pingo de autocompaixão e sem perder em nenhum momento a máscara de cinismo. Embora, de algum jeito, seu estrito autocontrole fizesse saber ao público que seu coração estava quebrado. O final da obra era convenientemente agridoce.

O teatro estalou em gritos ensurdecedores e aplausos de entusiasmo que duraram até que os atores voltaram para cenário para receber o merecido tributo. A maior parte dos vivas ia dirigida ao Scott, que aceitou com um sorriso e com uma série de reverências apenas perceptíveis. Depois de anunciar o programa da noite seguinte, o pano de fundo caiu pela última vez apesar dos insistentes clamores dos expectadores.

Madeline teve o cuidado de escapulir antes que o senhor Scott a visse de novo. Conseguiu ver sua cabeça morena entre os cenários, no momento em que uma multidão de admiradores o rodeava. Todos queriam estar perto dele. Com um suspiro, Madeline se dirigiu ao escritório da duquesa para recolher seu casaco.

— Desfrutaste da obra, Madeline? Elevou a vista para ver a duquesa do Leeds.

— Ah, foi a melhor experiência de minha vida! — respondeu depois de uma breve luta por encontrar as palavras adequadas.

— Meu Deus! — disse a duquesa, rindo pelo entusiasmo de sua protegida.

— Não é de estranhar que digam que o senhor Scott é uma lenda viva. O... ele — Madeline se deteve sem saber como descrever a atuação do Scott.

— Sim, já sei — respondeu a dama, ainda com um sorriso nos lábios. A euforia de Madeline se desvaneceu de repente.

— Temo que esta noite o senhor Scott me viu entre bastidores. Segue sem me aceitar. Deixou-o muito claro. Julia arqueou as sobrancelhas surpreendida.

— É muito estranho nele. Nunca discordou comigo pelas pessoas que contratei. Não compreendo o motivo... — Deixou de falar e ficou olhando atentamente a Madeline com expressão de perplexidade.

— Não se preocupe querida. Amanhã pela manhã, antes do ensaio, reunir-me-ei com ele e tudo se arrumará.

Espero que sim, Excelência — disse Madeline. Depois de uma pausa, acrescentou:

— Desejo com toda minha alma trabalhar no Capital.

— Então, fá-lo-á — lhe assegurou a duquesa, — a menos que o senhor Scott possa aduzir uma muito boa razão para o contrário... Algo que, suponho, será bastante improvável.



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