Os Animais tem Alma



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LIVRO
ERNESTO BOZZANO


OS ANIMAIS TÊM ALMA???


PREFÁCIO


se observou muitas vezes, a propósito das manifestações metapsíquicas, em que os homens são agentes ou percipiente, que elas foram conhecidas em todas as épocas e por todos os povos, mas não se pode dizer a mesma coisa nos casos em que o papel de agente ou percipiente é desempenhado por animais.

Naturalmente que as manifestações metapsíquicas, em que os protagonistas são animais, não podem deixar de estar circunscritas em limites de realização mais modestos do que quando os protagonistas são seres humanos, pois esses limites correspondem às capacidades intelectuais das espécies animais com as quais os fatos se produzem. Entretanto, eles parecem mais notáveis do que se poderia supor à primeira vista. Entre esses fenômenos encontram-se, com efeito, episódios telepáticos em que os animais não desempenham somente o papel de percipiente, mas também o de agentes, episódios concernentes a animais que percebem, ao mesmo tempo em que os homens, espíritos e outras manifestações supranormais fora de toda coincidência telepática e, finalmente, episódios em que os animais percebem, coletivamente com o homem, as manifestações que acontecem nas localidades assombradas. Deve-se acrescentar ainda a estas categorias episódios de materializações de formas de animais obtidas experimentalmente e, enfim, aparições post-mortem, de formas de animais identificados, circunstância que apresenta um valor teórico considerável, já que permite apoiar a hipótese da sobrevivência da psique animal.

O exame deste ramo dos fenômenos metapsíquicas foi completamente esquecido até aqui, embora nas revistas metapsíquicas e, sobretudo, nas coleções dos Proceedings e do Journal da excelente Society for Psychical Research, de Londres, encontrem-se numerosos casos do gênero, mas esses casos nunca foram recolhidos, classificados e analisados por ninguém, tendo-se, aliás, escrito e discutido bem pouco a respeito deles. Não há, pois, grande coisa a se resumir relativamente às teorias formuladas a este respeito.

Observarei apenas que, nos comentários de certo caso isolado pertencente à classe mais numerosa dos fenômenos em questão, isto é, aquela na qual os animais percebem, juntamente com o homem, as manifestações de telepatia ou de assombração, propõe-se a hipótese segundo a qual as percepções psíquicas dessa natureza extrairiam a sua origem de um fenômeno alucinatório criado pelos centros de idealização de um agente humano e transmitido em seguida, inconscientemente, aos centros homólogos do animal presente e percipiente.

Para uma outra classe de fenômenos e precisamente para a das aparições de formas de animais, supõe-se um fenômeno de alucinação pura e simples da parte do percipiente, mas a análise comparada dos fatos mostra que, muitas vezes, as formas de animais são percebidas coletiva e sucessivamente. Elas são, além disto, identificadas com as de animais que viveram e morreram na localidade, e mais, que os percipiente ignoravam que esses animais, vistos nessas condições, tivessem existido.

Assim sendo, é preciso concluir que, de modo geral, as duas hipóteses de que acabo de tratar são insuficientes para considerar os fatos. Esta conclusão é de uma grande importância teórica, pois que ela nos força a admitir a existência de uma subconsciência animal, depositária das mesmas faculdades supranormais que existem na subconsciência humana e, ao mesmo tempo, ela nos leva a reconhecer a possibilidade de aparições verídicas de formas ou almas de animais.

Resulta daí todo o valor científico e filosófico deste novo ramo das pesquisas psíquicas. Ele nos permite prever que devemos, antes, considerá-lo para estabelecer, em bases sólidas, a nova ciência da alma, que ficaria incompleta e mesmo inexplicável sem a contribuição que lhe trazem o exame analítico e as conclusões sintéticas relativamente à psique animal, o que me reservo demonstrar no momento preciso.

Inútil observar que não pretendo, de modo algum, que esta classificação - a primeira tentada sobre o assunto - baste para analisar a fundo um tema tão vasto e de grande importância metapsíquicas, científica, filosófica. Rejubilo-me unicamente de ter levado uma primeira contribuição eficaz às novas pesquisas e de ter com isso despertado o interesse de pessoas que se ocupam com estes estudos, favorecendo assim o acúmulo ulterior do material bruto dos fatos, o que parece indispensável para fazer confinar as pesquisas sobre este jovem ramo das doutrinas metapsíquicas.

Enfim, se quiser indicar a época em que se começou a levar à séria consideração as manifestações metapsíquicas dos animais, dever-se-ia indicar o famoso incidente de telepatia canina do qual o conhecido romancista inglês sir Rider Haggard foi o percipiente, incidente que se produziu em condições tais que é impossível duvidar se dele. Como resultado de uma dessas condições providenciais de tempo, de lugar, de meio, que se encontra bastas vezes no começo da história dos novos ramos da ciência, surgiu na Inglaterra um interesse inesperado, quase exagerado: os jornais políticos se apoderaram dele e o discutiram longamente, do mesmo modo que as revistas de variedades e as revistas metapsíquicas, determinando um ambiente favorável para as novas pesquisas.

É, portanto, oportuno começar a classificação das `manifestações metapsíquicas dos animais pelo caso telepático no qual o percipiente foi o romancista Rider Haggard.


PRIMEIRA CATEGORIA

ALUCINAÇÕES TELEPÁTICAS NAS QUAIS UM ANIMAL DESEMPENHA O PAPEL DE AGENTE


Caso I - (Em sonho, com indício aparente de posse) - É o caso Haggard, que me limitarei a narrar tal como foi resumido, com a maior exatidão, na edição de julho de 1904 da Revue des Études Psychiques, enviando o leitor que desejar detalhes mais amplos ao número de outubro de 1904 do Journal of the Society for Psychical Research. Ei-lo:

O senhor Rieder Haggard conta que se tinha deitado tranqüilamente lá pela uma hora da madrugada do dia 10 de julho. Uma hora depois, a senhora Haggard, que dormia no mesmo quarto, ouviu o seu marido gemer e emitir sons inarticulados tais como um animal ferido. Inquieta, ela chamou por ele e o senhor Haggard percebeu a voz como em um sonho, mas não conseguiu livrar-se do pesadelo que o oprimia. Quando despertou completamente, contou à esposa que havia sonhado com Bob, o velho cão perdigueiro de sua filha primogênita e que ele o vira se debater numa luta terrível, como se fosse morrer.

O sonho tivera duas partes distintas. A respeito da primeira, o romancista lembra-se apenas de ter experimentado uma sensação de opressão, como se estivesse a ponto de afogar-se. Entre o instante em que ouvia a voz de sua esposa e aquele em que despertou, o sonho tomou uma forma mais precisa. Eu via, conta o senhor Haggard, o velho Bob estendido entre os caniços de uma lagoa. Parecia-me que a minha própria personalidade saía misteriosamente do corpo do cão, que comprimia a sua cabeça contra o meu rosto de uma maneira bizarra. Bob procurava como que me falar e, não se fazendo compreender pelo som, me transmitia, de outro modo indefinível, a idéia de que estava preste a morrer.

O senhor e a senhora Haggard tornaram a dormir e o romancista não foi mais perturbado no seu sono. Na manhã seguinte, no desjejum, ele contou às filhas o que havia sonhado e riu com elas do medo que a mãe tivera. Atribuía o seu pesadelo à má digestão. Quanto ao cão Bob, ninguém se preocupou com ele, pois que, na tarde anterior, tinha sido visto com outros cães da vila e fizera os seus agrados à sua dona, como de costume. Quando as horas da refeição colidiam passou sem que Bob aparecesse, a srta. Haggard começou a experimentar alguma preocupação e o romancista a supor que se tratasse de um sonho verídico. Então se fizeram buscas ativas que duraram quatro dias, no fim das quais o próprio senhor Haggard achou o pobre animal flutuando na água de uma lagoa, a dois quilômetros da vila, com o crânio fraturado e duas patas quebradas.

Um primeiro exame, feito pelo veterinário, fez supor que o infeliz animal tivesse sido apanhado em uma armadilha, mas se encontraram em seguida provas indiscutíveis de que o cão tinha sido apanhado por um trem na ponte que atravessava a lagoa e que fora lançado, pelo choque, entre plantas aquáticas.

Na manhã de dezenove de julho, um cantoneiro da estrada de ferro achara na ponte a coleira ensangüentada de Bob. Agora não restava dúvida alguma de que o animal morrera na noite do sonho. Por acaso, naquela noite; tinha passado pela ponte, um pouco antes da meia-noite, um trem extraordinário de recreio que devia ter sido a causa do acidente.

Todas as circunstâncias são provadas pelo romancista por meio de uma série de documentos.

Segundo o veterinário, a morte devia ter sido quase instantânea; ela teria então precedido de duas horas, ou mais, o sonho do senhor Haggard.

Tal é, em resumo, o caso acontecido com o escritor inglês no qual se encontram várias circunstâncias de fatos que concorrem para excluir, de modo categórico, qualquer outra explicação que não seja a de Transmissão telepática direta entre o animal e o homem

Não se podia tratar, com efeito, de um impulso telepático proveniente da inteligência de uma pessoa presente, pois que ninguém assistira ao drama nem fora informado dele, assim como se verifica pelo inquérito feito pelo próprio senhor Haggard, como, aliás, é fácil de presumir, levando-se em conta a hora avançada da noite na qual ele se passou.

Não se podia tratar de uma forma comum de pesadelo alucinatório, com coincidência fortuita, pois que as circunstâncias verídicas, que se encontram na visão, são verdadeiramente bem numerosas, sem falar do fato em si da coincidência entre o sonho e a morte do animal.

Não se podia tratar de um caso de telestesia graças ao qual o espírito do romancista teria visto, de longe, o desenrolar do drama, pois que, então, o percipiente seria um espectador passivo, quando não foi assim. Como se pôde ver, ele foi submetido a um fenômeno muito notável de personificação ou de um começo de possessão. Esse fenômeno, tal como observou o editor do Journal ofthe Society for Psychical Research, oferece um paralelo interessante com as personificações e as dramatizações observadas tão freqüentemente nos sensitivos ou médiuns no estado de transe.

Não se poderia, finalmente, falar em sonho premonitório, pois o senhor Haggard nada sabia sobre o acontecido, do que só soube mais tarde quando o cadáver do cão Bob foi achado, boiando, na lagoa, isto, quatro dias depois do estranho sonho. Com efeito, com essa solução, não se chegaria a nenhuma explicação: nem o fato da coincidência verídica entre o sonho e o acontecimento, nem o fenômeno da dramatização igualmente verídica do caso, nem o caso, tão notável, de personificação ou possessão.

Eis as principais considerações que concorrem para provar, de modo incontestável, a realidade do fenômeno de transmissão telepática direta entre o homem e o animal. Achei dever enumerá-los para responder quaisquer objeções que chegaram de diferentes setores, depois que a Society for Psychical Research acolheu e comentou o caso em questão. Ao mesmo tempo, as mesmas considerações poderão servir de regra aos leitores para julgar sobre o valor da hipótese telepática relativamente aos casos que se seguirão.

Caso II - (Em sonho) - 10 de fevereiro de 1885.


Na primeira segunda-feira do mês de agosto de 1883 (folga do comércio), achava-me em Ilfracombe. Pelas dez horas da noite, fui deitar-me e adormeci logo. Acordei às dez e meia quando a minha esposa entrou no quarto. Contei-lhe que acabara de ter um sonho em que vira o meu cão Fox estendido, ferido e moribundo, ao pé de um muro. Não tinha uma idéia exata com relação à localidade, todavia observara que se tratava de um dos `muros secos que são uma particularidade do condado de Gloucester. Deduzi daí que o animal caíra do alto de um desses muros, tanto mais que ele tinha o hábito de pular por cima deles. No dia seguinte, terça-feira, recebi em nossa casa (Barton End Grange, Nailsworth) uma carta de nossa governanta que me avisava de que Fox não aparecia há dois dias. Respondi imediatamente, ordenando-lhe que mandasse dar as mais minuciosas buscas possíveis. No domingo, recebi uma carta que me escrevera na véspera e na qual ela me informava que o cão fora atacado e morto por dois buldogues, na noite da segunda-feira precedente.

Voltei para a minha casa quinze dias após e comecei logo um rigoroso interrogatório do qual resultou que, na segunda-feira em questão, pelas cinco horas da tarde, uma senhora vira dois buldogues atacarem e estraçalharem ferozmente o meu cão. Uma outra senhora, que morava não longe de lá, contou que, pelas nove horas da noite, descobrira meu cão morrendo perto de um muro que ela me indicou e que eu via pela primeira vez. Na manhã seguinte, o cão havia desaparecido. Soube a seguir que o dono dos buldogues, sabendo do que acontecera e temendo as conseqüências, tivera o cuidado de mandar enterrá-lo pelas dez e meia da mesma noite, hora do acontecimento que coincidia com a do meu sonho.

E. W. Phibbs

O caso que acabo de narrar foi citado várias vezes pelo professor Charles Richet no seu Tratado de metapsíquicas com o fim de demonstrar que ele podia ser explicado pela criptestesia, sem que fosse preciso supor um fenômeno de telepatia em que o animal tivesse desempenhado o papel de agente e o seu dono o de percipiente. Richet observa a respeito: É muito mais razoável supor que a noção do fato é que atingiu o seu espírito em lugar de admitir que a alma de Fox foi abalar o cérebro do senhor Phibbs. (p. 330)

Pela expressão a noção do fato, o senhor Richet se reporta à sua hipótese de criptestesia segundo a qual as coisas existentes, assim como o desenrolar de toda ação no mundo animado ou inanimado, emitiram vibrações sui generis, perceptíveis para os sensitivos, que, dessa maneira, estariam teoricamente em estado de conhecer tudo 0 que se produziu, se produz e se produzirá no mundo inteiro.

Respondi a essa hipótese em um longo artigo publicado na Revué Spirite (1922, p. 256), onde constatei essa onisciência, suposta, das faculdades subconscientes, demonstrando, pelo exame dos fatos,.que as faculdades em questão eram, ao contrário, condicionadas e, portanto, limitadas, pela necessidade absoluta da `relação psíquica, isto é, que, se não existisse anteriormente algum laço afetivo, ou, em casos mais raros, relações de simples conhecimento entre o agente e o percipiente, as manifestações telepáticas não podiam verificar-se. Em seguida, reportando-me ao caso acima, continuava assim dizendo:

Exclui-se que o pensamento do cão, voltado com uma ansiedade intensiva para o seu protetor ausente, tenha sido o agente que determinou o fenômeno telepático, ou, em outros termos, se exclui que a coisa tenha podido verificar-se graças à existência de uma `relação afetiva entre o cão e o seu dono, então não se pode deixar de perguntar: por que o senhor Phibbs viu, justamente naquela noite, seu cão agonizando e não viu todos os outros animais que, durante a mesma noite, agonizavam certamente um pouco por todas as partes? É impossível responder esta pergunta de outra forma senão a de reconhecer que o senhor Phibbs não viu tal coisa porque nenhuma relação psíquica, de qualquer sorte que seja, existia entre ele e os outros animais: ele viu, ao contrário, a agonia do seu cão porque laços afetivos existiam entre ele e o animal e porque, naquele momento, o animal agonizante voltava intensamente o seu pensamento para o seu protetor ausente, circunstância que não tem nada de inverossímil e que, ao contrário, demonstra que o pobre animal moribundo desejava urgente socorro.

Parece-me que o bom fundamento destas conclusões permanece incontestável. De todo modo, os nossos leitores acharão na presente classificação numerosos exemplos de diferentes espécies, que confirmam amplamente a minha maneira de ver, ao passo que contradizem a hipótese de uma criptestesia onisciente.

Caso III - (Em sonho) -Tiro o seguinte caso do livro do Senhor Camille Flammarion intitulado Linconnu et les problèmas psychiques (O desconhecido e os problemas psíquicos)


Posso citar-lhe ainda um fato pessoal que me perturbou bastante quando aconteceu, mas, como desta vez se trata de um cão, talvez eu esteja errado em tomar o seu tempo. Peço-lhe que me desculpe em me perguntando onde param os problemas.

Era então moça e possuía muitas vezes, em sonho, uma lucidez surpreendente. Tínhamos uma cadela de uma inteligência pouco comum. Era particularmente afeiçoada a mim, pois a acariciava muito. Certa noite sonho que ela morre e que me olha com olhos humanos. Ao acordar, disse à minha irmã: Lionne morreu, via-a em sonho, é verdade. Minha irmã riu e não acreditou em mim. Chamamos a governanta e lhe dissemos que chamasse a cachorrinha, que não apareceu. Procurada em todas as partes possíveis, apareceu, finalmente, morta em um canto. Ora, na véspera ela não estava doente e o meu sonho não podia ter sido provocado por nada.

K. Lacassagne, Dutant em solteira (Castres).

Também neste caso, a hipótese mais verossímil é a de que o animal agonizante voltou ansiosamente seu pensamento para a dona, determinando assim as impressões telepáticas, percebidas por ela em sonho; todavia esse episódio é bem menos probante que o anterior, tanto mais que, desta vez, não se acha em presença de detalhes de modo a eliminar a outra hipótese, a de um possível fenômeno de clarividência, em sonho.

Caso IV- (Impressão)- Eu o extraio da Light (1921, p. 187). O seu narrador é o sr. F. W. Percival, que escreve:

O senhor Everard Calthorp, grande tratador de cavalos puro-sangue, no seu último livro intitulado The horse as comrade and friend (O cavalo como companheiro e amigo), conta que ele possuía já há alguns anos uma magnífica égua chamada Windermere, à qual era profundamente ligado e que era retribuído com um transporte afetivo de modo a conferir ao caso aqui apresentado um caráter realmente emocionante. Quis a infelicidade que a égua se afogasse numa lagoa perto da herdade do senhor Calthorp, que expõe assim as impressões experimentadas no trágico momento:

Às três e vinte da manhã de 18 de março de 1913, despertei, de sobressalto, de profundo sono, não por causa de algum ruído ou algum latido, mas por um pedido de ajuda que me transmitia - não sei como - a minha égua Windermere. Apurei os ouvidos e não percebi o menor ruído naquela noite calma, mas, assim que despertei completamente, senti vibrar, no meu cérebro e nos meus nervos, o apelo desesperado de minha égua. Compreendi deste modo que ela se encontrava em perigo extremo e que invocava auxílio imediato meu. Vesti o sobretudo, calcei as botas, abri a porta e pus-me a correr pelo parque. Não ouvia latidos nem gemidos, porém sabia, de um modo incompreensível e prodigioso, de qual lado vinha essa espécie de `telegrafia sem fio. Retiniam sempre mais fracamente no meu cérebro e, quando cheguei à margem da lagoa haviam cessado. Buscando na água da lagoa, percebi que ela estava ainda enrugada por pequenas ondas concêntricas que atingiam a margem e, no meio dela, percebi uma massa preta que se precisava sinistramente na primeira claridade da alvorada. Compreendi logo que se tratava do corpo de minha pobre Windermere e que, infelizmente, eu respondera muito tarde ao seu apelo, pois ela estava morta.

O sr. F. W. Percival, reproduzindo esta narração na revista Light (1921, p. 187), observa:

Sem dúvida, nos casos iguais a este, falta-nos o testemunho do agente, mas isto não impede que as três regras de Myers, destinadas a distinguir os fatos telepáticos daqueles que não o são, sejam todas da mesma maneira aplicáveis ao caso de que nos ocupamos. As ditas três regras são as seguintes: 1ª - que o agente seja encontrado numa situação excepcional (aqui o agente lutava contra a morte); 2ª - que o percipientes tenha experimentado algo de psiquicamente excepcional, inclusive uma impressão de natureza a fazer conhecer o agente (aqui a impressão que revela o agente é manifesta); e 3ª - que os dois incidentes coincidam no ponto de vista do tempo (esta condição é igualmente satisfeita).

Poder-se-ia acrescentar que o fato do impulso telepático foi bastante preciso e enérgico para despertar o percipiente de um sono profundo e fazer-Ihe perceber imediatamente que se tratava de um pedido de socorro da parte de sua égua e orientar os seus passos, sem nenhuma hesitação, para o teatro do drama. Não parece então que se possa pôr em dúvida a origem realmente telepática do acontecimento.

Caso V - Tirei-o do Journal of the Society for Psychical Research, vol. XII, p. 21. Lady Carbery, esposa de lorde Carbery, envia do castelo de Freke, condado de Cork, a seguinte narrativa datada de 23 de julho de 1904:

Durante uma quente tarde de domingo do verão de 1900, fui, depois do almoço, fazer a minha costumeira visita às estrebarias a fim de distribuir açúcar e cenouras aos cavalos, entre os quais se achava uma égua assustadiça e nervosa chamada Kitty e de que eu gostava muito. Uma grande simpatia existia entre ela e eu, que a montava todas as manhãs, antes do almoço. Eram excursões tranqüilas e solitárias ao longo de colinas pendendo para o mar e sempre me pareceu que Kitty gostava, como a sua dona, desses passeios na frescura matinal.

Na tarde de que se trata, saindo das estrebarias, segui sozinha pelo parque, percorrendo um quarto de milha e me sentando em seguida à sombra de uma árvore, com um livro muito interessante, pois era minha intenção permanecer ali umas duas horas. Depois de uns vinte minutos, um súbito influxo de sensações penosas veio se interpor entre eu e a minha leitura, ao mesmo tempo em que experimentava a certeza de que algo de penoso tinha acontecido à minha égua Kitty. Busquei afastar tal impressão, continuando a leitura, mas a impressão aumentou de tal forma que fui obrigada a fechar o livro e a me dirigir para as estrebarias. Uma vez lá chegada, fui logo para o boxe de Kitty e encontrei-a estendida no chão, sofrendo e necessitando de uma assistência imediata. Fui imediatamente buscar os rapazes da estrebaria, que se achavam numa outra seção, afastada do imóvel, os quais acorreram, a fim de prestar ao animal os cuidados necessários. A surpresa deles foi grande ao ver-me aparecer na estrebaria pela segunda vez, circunstância inteiramente insólita.

Lady Carbery
O cocheiro que cuidou da égua, naquela ocasião, assim confirma a supracitada narração:

Era então cocheiro do castelo de Freke e sua senhoria vieram, durante à tarde, distribuir, segundo o seu costume, açúcar e cenouras aos cavalos. A égua Kitty achava-se solta no seu boxe e em excelentes condições de saúde. Logo depois, voltei para o meu alojamento, em cima das estrebarias, e os empregados delas foram para os seus quartos. Depois de meia hora ou quarenta e cinco minutos, fiquei surpreso ao ver voltar sua senhoria que acorria para me chamar, assim como aos rapazes, a fim de que fôssemos socorrer Kitty que se achava estendida no chão, vítima de um mal súbito. Entrementes, nenhum de nós havia entrado nas estrebarias.

Edward Nobbs
Este segundo caso é menos sensacional que o primeiro: a impressão telepática experimentada por lady Carbery foi também menos precisa, entretanto ela foi bastante forte para dar a percipiente a convicção de que as sensações que ela sentia indicavam que a égua Kitty tinha necessidade de urgente assistência e para fazê-la decidir se a correr imediatamente para o local. Ora, essas circunstâncias de ordem excepcional e de uma significação precisa e sugestiva são suficientes para autorizar a concluir em favor do caráter telepático do presente caso.

Caso VI - (Impressão) - Este caso apareceu na Light (1915, p. 168). O senhor Moldred Duke, conhecido sensitivo e autor de artigos bem profundos sobre assuntos metapsíquicas, relata o seguinte fato que lhe aconteceu:

Há alguns dias, fui levado a escrever até uma hora avançada e estava absorvido pelo assunto de que tratava quando fui literalmente invadido pela idéia de que a minha gata tinha necessidade de mim. Levantei-me e fui procurá-la. Depois de ter feito, inutilmente, a volta pela casa, passei para o jardim e, como a escuridão me impedia de ver, passei a chamá-la. Percebi um fraco miado à distância e, cada vez que eu repetia o meu chamado, o miado me respondia, mas a gata não apareceu. Voltei para casa, a fim de apanhar uma lanterna, e atravessei em seguida o quintal, dirigindo-me para um local de onde me pareciam vir os miados. Depois de algumas buscas, achei a minha gata numa cerca, presa por um laço estendido para coelhos, com os nós lhe apertando o pescoço. Se ela tivesse se esforçado para se livrar dele, teria se estrangulado. Felizmente teve a inteligência de não se mexer e de enviar, ao contrário, ao seu dono, uma mensagem de pedido de socorro, pelo telégrafo sem fio.



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