Os Animais tem Alma



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Enquanto isso, procurava segurar fortemente a gata, ruas ela parecia não querer ficar nessa horrível vizinhança e, depois de alguns esforços desesperados, chegou a libertar-se, pulando por cima de cadeiras, mesas, tudo o que se achasse diante dela, lançando-se várias vezes e com violência extrema contra os caixilhos superiores da porta do aposento fechado. Em seguida, voltando-se para a outra porta, começou a atirar-se contra ela com uma raiva redobrada. Meu terror tinha assim aumentado. Ora observava essa megera cujos olhos maléficos continuavam a me fitar, ora seguia os olhos da gata, que ficava cada vez mais frenética. Finalmente, a espantosa idéia de que o animal talvez tivesse ficado enraivecido teve por efeito devolver-me o ar e eu comecei a gritar com todas as minhas forças.

Mamãe acorreu com toda a pressa. Logo que ela abriu a porta, a gata saltou literalmente sobre a sua cabeça e, durante uma boa meia hora, continuou a correr, para cima e para baixo, pela escada, como se alguém a perseguisse. Voltei para mostrar à minha mãe a causa de meu espanto. Tudo havia desaparecido.

Em semelhantes circunstâncias, é bem difícil apreciar a duração do tempo, todavia estimo a duração da visão de quatro a cinco minutos. Soube-se em seguida que a casa pertencera a uma mulher que se enforcara nesse mesmo quarto.

Srta. K.


(O general K., irmão da percipientes, confirma a narração acima. Para outros detalhes a este respeito, indico o Journal of the Society for Psychical Research, vol. III, pp. 268/271).

Este caso é incontestavelmente notável, quer por si mesmo, já que se trata de um fenômeno de assombração e tem relação com o suicídio de uma velha naquele mesmo quarto, quer por causa do paroxismo de terror verdadeiramente excepcional que se apossou da infeliz agora à vista do repugnante fantasma que surgiu, de repente, diante dela. Digo fantasma porque não se poderia achar outra coisa para explicar o pavor extraordinário que se apossou da gata, pavor que não deixou de existir mesmo depois do desaparecimento da causa que o provocou.

Pode-se acrescentar que, também neste caso, a percipientes ignorava o drama desenrolado naquele quarto, de modo que, se a gata não tivesse sido a primeira percipientes, a srta. K. não teria podido auto-sugestionar-se no sentido de provocar, em si própria, uma alucinação em relação com um drama que ela ignorava.

Segue-se daí que esta narração constitui um autêntico exemplo, muito interessante, de um caso de assombração com identificação do fantasma.

Caso LVI - (Visual-coletivo) - Colho-o nos Annales des Sciences Psychiques (1907, pp. 67 e 72, e 1911, p. 161). Refere-se às famosas experiências clássicas do professor Ochoroswicz com a médium srta. Stanislawa Tomczyk. Na sua ata de 16 de janeiro de 1909, diz ele o seguinte:

Na maior parte das precedentes sessões, tomaram parte, na qualidade de testemunhas sem voz consultiva, meus dois cães, um grande terra-nova e um pequeno fraldiqueiro de raça bastarda.

Eram bem-educados, não se preocupavam coar nada e se deitavam tranqüilamente no assoalho perto de uma poltrona, afastada cinco metros do divã onde se fazia a maior parte das experiências.

No instante em que a sonâmbula declarou que a pequena Stasia acabava de sentar-se na poltrona, o fraldiqueiro, deitado defronte dela, se pôs a rosnar.

Voltei-me e vi o animal fixando a poltrona. O terra-nova dormia e não prestava atenção em nada. Ele não podia, aliás, ver a poltrona, mas o outro repetiu o seu rosnado por três vezes, levantando apenas a cabeça e sem se mexer. Ele não ficou calmo senão depois que a sonâmbula declarou que a menina não estava mais ali.

Um pouco mais adiante, na ata da sessão de dezenove de janeiro de 1909 (p. 72), o doutor Ochorowicz relata este outro incidente, do qual uma gata é que é a protagonista:

Os começos da materialização do duplo pareciam se confirmar pela atitude de uma gata branca que se achava na sala de jantar. Ela fixa, com visível espanto, o lugar, debaixo da mesa, onde devia estar a pequena Stasia e, por várias vezes, vira o seu olhar para esse lado, depois salta apavorada, e se enfia num canto, o que nunca fez.

Na ata de dezessete de outubro de 1911 (Annales, 1911, p. 161), encontra-se um terceiro incidente do mesmo gênero, cujo protagonista é uma cadela São Bernardo. Eis o que conta o dr. Ochorowicz:

Estou sentado perto de minha mesa de trabalho, a srta. Tomczyk defronte de mim e conversamos. De repente a minha jovem cadela da raça São Bernardo, que se acha deitada debaixo da mesa, aos meus pés, se levanta e começa a rosnar, olhando para um canto do canapé colocado detrás de mim. Ela avança lentamente, como espantada, e se põe a latir, fixando sempre o mesmo ponto, onde não havia nada de visível.

A srta. Tomczyk sentiu, nesse momento, um arrepio que atribui à atitude incompreensível da cadela.

- Será que ela está vendo alguma coisa?

- É, sem dúvida, a pequena Stasia, digo que veio brincando, juntar-se a nós... Consultemos a prancheta.

A srta. Tomczyk coloca ali a sua mão esquerda, e esperamos... A prancheta aproxima-se de mim como que para me saudar com alegria.

- É bem você, pequena Stasia?

- Sim, respondeu pela mesa.

Então resolvo fazer uma primeira sessão depois de amanhã... A pequena Stasia se manifesta, mas está tão fracamente materializada que a sonâmbula apenas a percebe, ao passo que a cadela não vê nada absolutamente...

Os episódios que acabo de relatar, nos quais os animais, que viram a forma espiritual da pequena Stasia, são três, quando a própria médium, no estado normal, não chegou a vê-la, e não pôde vê-la senão em condições sonambúlicas, servem para mostrar que os animais superiores, não apenas partilham com os homens a posse de faculdades supranormais subconscientes, como estão aptos a exercê-las quase normalmente. Sem negar esta possibilidade, é preciso, entretanto, observar-se: nos casos de manifestações telepáticas, trata-se efetivamente do exercício de uma faculdade supranormal subconsciente, pois que qualquer manifestação telepática é determinada por uma mensagem psíquica transmitida pelo eu integral, ou espiritual, do percipientes, que o passa ao seu eu consciente, ou encarnado, em forma de projeção alucinatório-verídica, única forma acessível a uma personalidade desta natureza, porém, no caso das experiências que acabo de citar, poder-se-ia ainda explicar os fatos sem sair do exercício da visão terrestre, pois que, nesses casos, a forma espiritual da pequena Stasia conseguia manifestar-se de uma maneira mais ou menos vaga a tal ponto que se conseguia fotografá-la. Para explicar tais fatos, bastaria então supor que as pupilas desses animais são sensíveis aos raios ultravioletas (como uma chapa fotográfica) e que, por conseqüência, eles conseguem perceber, com os seus olhos corporais, o que permanece invisível aos olhos humanos.

Caso LVII - (Visual-coletivo, com diferença de percepções) - Consta dos Annales des Sciences Psychiques (1911). O sr. M. G. Llewellyn, conhecido escritor inglês, começa por prevenir os leitores de que ele não é espírita e que nada sabe sobre espiritismo, bem como que nunca leu livros ou revistas tratando desses assuntos até estes últimos tempos. Apenas lhe foi assegurado, de diferentes lados, que ele é um sensitivo. Depois destas premissas, prossegue assim:

Certa noite, de que não me esquecerei nunca, estava no meu estado normal de saúde e muito tranqüilo já havia ceado como de costume e me deitara pouco depois, achando-me nesse doce estado de espírito que constitui a sonolência. O quarto continuava mergulhado na mais completa escuridão, pois havia apagado a luz elétrica e fechado, além disto, as amplas e espessas cortinas que cobriam sempre as duas grandes janelas. Meu gatinho, que dormia sempre na minha cama, ali se achava como de hábito e ressonava tranqüilamente.

Enquanto permanecia assim, com os olhos semi cerrados, percebi, aparecendo subitamente no alto da parede, à direita (o lado para onde eu estava virado), um longo rastro de luz, de um azul claro e encantador. Ele se movia na direção da janela da direita e eu o observava com um olhar fascinado. É estranho - pensava eu. Nunca vi o luar entrar desta maneira quando estas cortinas estão fechadas e, ademais, é um azul que não é o do luar e se move de um modo tão bizarro! O que pode ser isto? Mas naturalmente deve ser o luar e talvez haja nuvens que passem sob a lua.

A luz, de um azul que nunca vira antes e que nunca mais vi depois, continuava a entrar pelo quarto, sempre do mesmo lado, perto do teto, e eu olhava estupidamente o alto da porta sobre a qual pendia um pesado reposteiro vermelho, como se a luz tivesse podido atravessar uma muralha!

Finalmente, saltei da cama para o chão, abri as cortinas e olhei pela janela. Meu olhar espantado não encontrou senão uma escuridão impenetrável. Nada de lua, nada de estrelas, e nem a menor claridade! Não podia ver a estrada, nem a fila arvores que havia nela, nada. As lanternas das mas eram apagadas cedo na localidade em que moro, e as trevas eram absolutas.

Podia ser alguém com uma lanterna ou um prolator?, perguntava-me, ainda espantado ao voltar para a cama. Não estava inteiramente tranqüilo e não me acorrera ainda à idéia de que em tudo isto havia algo de sobrenatural.

Enquanto eu torturava assim o meu cérebro, o gato pulava de repente para fora da cama, com o pêlo eriçado e os olhos brilhantes e, de um salto, correra para a porta, onde começou a arranhar furiosamente o reposteiro, sempre soltando os mais espantosos chios que jamais vi em um animal. Eu estava bem espantado, todavia, mesmo assim, não pensava em nada de sobrenatural. Só pensava que o gato tivesse ficado de repente maluco. Este novo acontecimento me fez esquecer completamente a luz azul.

Sofria de tal modo vendo o terror do pobre animal que o tomei nos braços e procurei acalmá-lo. Todo trêmulo, o gatinho aconchegou-se contra mim, ocultando a cabeça e demonstrando estar preso do mais intenso pavor. Acariciei-o e consegui acalmar um tanto, pouco a pouco, mas, com grande espanto meu, ele se mantinha em um lado da cama, olhando com medo, olhos luzindo e pêlo eriçado. Eu não via nada, portanto estou absolutamente convencido de que o gatinho percebia alguma coisa, embora nada pudesse abalar a minha convicção.

Sentindo-se em segurança nos meus braços, agora que o choque do horrível espetáculo - qual fosse ele - tinha passado, o pobre Fluff esticava o pescoço e olhava para baixo, para o tapete, seguindo os movimentos do inimigo, como se este, invisível para mim, andasse ao longo do leito, voltando diante do toalete. A coisa - qual fosse ela - estava no assoalho e não fazia nenhuma tentativa para subir para a cama. Se `isto se aproximasse de nós, estou certo de que Fluff morreria de medo imediatamente. Olhei à minha volta, na direção do olhar do gato, porém não vi nada no tapete!

Não resta dúvida de que não devo esquecer-me de que vi a luz azul quando o animal dormia. Poder-se-ia supor que o meu medo a respeito da luz foi transmitido ao gato, mas até então eu não tivera nenhum medo, pensando mesmo que se tratava de uma coisa natural.

Em todo caso, o que meu gato viu deveria ser uma forma bem horrível, porque Fluff o mais tranqüilo, o mais carinhoso animalzinho que jamais conheci. Durante bastante tempo acreditamos que ele tivesse ficado mudo, pois não se ouviram nunca mais os seus miados.

A respeito desta interessante narração, apresso-me antes em fazer observar que o extraordinário pavor manifestado pelo gato não deve necessariamente nos levar a crer que ele tenha visto algo de terrível. Numerosos exemplos atestam que os animais são tomados de um pavor irresistível na presença de qualquer forma espiritual, mesmo inteiramente angelical. O que determina o terror deles é a intuição instintiva de que se acham na presença de um fenômeno supranormal.

Quanto ao outro fenômeno da luminosidade errante que o senhor Llewellyn tinha precedentemente observado, serve para apoiar a gênese supranormal da manifestação percebida pelo animal e demonstra, com efeito, que, durante aquela noite e naquele lugar, se produziram realmente manifestações supranormais das quais um gato e seu dono foram espectadores de maneira diferente. Já disse que essa diferença de percepções, muito freqüente nas manifestações supranormais, se explica pelas idiossincrasias especiais dos percipientes, em virtude das quais uma mesma manifestação supranormal pode não afetar sob forma visual, a mente de uma pessoa, mas lhe ser parcialmente transmissível sob forma auditiva, táctil, olfativa,emocional. Esses são, com efeito, modos diferentes sob os quais pode-se transformar, indiferentemente, o mesmo impulso telepático-espírita que, para passar da subconsciência à consciência, só pode seguir a via de menor resistência traçada pelas idiossincrasias sensoriais próprias a cada um dos percipientes.

Tudo isso se liga às manifestações supranormais percebidas coletivamente por intermédio de sentidos diferentes, mas o mesmo fenômeno pode-se produzir para as manifestações supranormais percebidas coletivamente por intermédio de um mesmo sentido, como aconteceu no caso relatado pelo senhor Llewellyn. E essas diferenças, na forma da percepção de um fenômeno, são bem freqüentes nas manifestações metapsíquica. Lembro-me de que, no decurso das sessões com William Stainton Moses, acontecia freqüentemente que, no lugar em que o médium percebia uma entidade espiritual, as testemunhas viam uma coluna luminosa e, às vezes, uma simples banda luminosa errando pela parede, bastas vezes colorida de azul, como no caso que acabo de citar. Este caso pode então ser perfeitamente explicado da mesma maneira, supondo que o animal tenha percebido uma forma espiritual lá onde o seu dono só percebeu um traço errante azulado.

Caso LVIII - (Visual-coletivo) - Este caso foi publicado pelos mesmos Annales des Sciences Psychiques (1907, p. 423) e faz parte integrante da misteriosa história de Noula, relatada pelo coronel de Rochas. Trata-se de uma jovem dama russa, de alta linhagem, descendente dos príncipes de Radzwill, que percebia, constantemente ao seu lado, uma forma espiritual feminina, que ela chamava de Noula e cuja realidade objetiva foi aprovada pelo fato de ter sido fotografada por várias vezes. Nas primeiras vezes em que Noula apareceu, ela foi percebida, primeiramente, pelo cavalo da senhora a quem se deve a narração deste episódio:

Sempre vivi com essa dupla personagem que eu chamava de Noula. Quando criança, não a via, ruas sempre, para os meus olhos, existia a impressão de que eu não estava só. Ouviam-me sempre responder perguntas que pareciam aos outros formulados pela minha imaginação. A quem eu respondia? Eu não sei e não tenho absolutamente recordação dos fatos de que lhe falo mais meu pai, quando me levou aos médicos, recordou-se perfeitamente do caso. O que lhe posso afirmar é que não tinha nenhum prazerem brincar com as outras crianças, gostando de ficar completamente só, quando, na verdade, não o estava.

Vi Noula quando saía da infância e quando era, logo em seguida, moça. Sua primeira aparição deu-se certo dia em que fui passear a cavalo com meu pai, que me acompanhava sempre. Ela me apareceu tão assombrosa que, no começo, acreditei numa alucinação minha.

Ordinariamente eu montava um cavalo habituado à mira e dirigido da sela. Nesse dia tive a fantasia de montar um garanhão que nunca montara antes. No princípio pude dominar, depois, tomado de um capricho, partiu à disparada, Que se passou? Não sei, mas subitamente ele ficou dócil e, diante dos meus olhos, percebi Noula, mui distintamente. Pensei por um instante que alguma pessoa, vendo-me em perigo, tivesse detido o cavalo e quis agradecer-lhe. Meu pai veio para perto de mim e começou a me censurar suavemente por causa do meu capricho, quando, observando-me, ele me viu tão mudada que teve medo, muito medo. (Eu sentia precisamente, em tal momento, uma estranha sensação de um vácuo imenso como se eu estivesse sentada no ar). Ele me tomou nos seus braços e me desmontou. Eu estava ainda com o olhar fixo e olhos dilatados que o espantavam tanto. Isso durou talvez um minuto, que pareceu muito longo. Quando saí de tal estado, minhas palavras foram: O senhor não a viu? Diga-me! Meu pai não me entendeu e os seus olhos me observavam com tanta inquietação que adivinhei logo o seu pensamento. Contei-lhe então o que se tinha passado e, com a sua lógica de matemático, ele concluiu que o medo me causara uma alucinação. Mas eu sentia que não. Apenas desejava tranqüilizá-los, pois tivera tanto receio por minha causa!

Voltamos para casa sem novo incidente. Fazia todos os esforços para parecer alegre e, no entanto, tinha medo. Ao entrarmos, meu pai me levou para o meu quarto, pois entendia que eu sofria de alguma coisa. Afastou-se por um instante para deixar ir ao toalete e lá, quando estava só, ela voltou. Meus gritos atraíram meu pai que chamou o nosso médico, porque ele não via nada. E quando esse bom homem chegou, procurou acalmar-me um pouco, ministrou quinze gotas de ópio que me fizeram dormir.

Eis, caro senhor, a primeira visita de `Noula. E depois dessa ocasião, Noula tornou-se cada vez mais distinta para mim, sobretudo quando enfraqueci, porque a tristeza de minha vida incluiu danosamente no meu estado de saúde. Fiquei anêmica e fraca, enquanto que Noula era bem forte e de bom aspecto.

Interrompo aqui a interessante narração de onde extraí o incidente que se acaba de ler. O que se segue não entra, a dizer a verdade, no quadro do assunto tratado. Acrescentarei apenas que a dama de que falei, na esperança de que o coronel de Rochas pudesse livrá-la dessa forma obsedante, partiu para a França, mas, infelizmente, chegando a Varsóvia, ficou doente e faleceu.

Do conjunto do incidente exposto, nota-se que o cavalo viu a figura de `Noula antes da moça e que a aparição dela exercera imediatamente uma influência tranqüilizante sobre o animal. Ora, como esse efeito é diametralmente oposto ao que determina de ordinário a visão de um espírito sobre os animais, é preciso então deduzir que o fato se produziu de acordo com a vontade de `Noula, que evidentemente se propôs a salvar de um grave perigo a moça com a qual estava em relação.

Mas como explicar a presença e a persistência dessa forma espiritual misteriosa O coronel de Rochas hesita entre a hipótese de um fenômeno de desdobramento da percipientes e a de um caso de vampirismo. Em favor da primeira hipótese, pode-se citar a observação da narradora de que, no momento em que Noula lhe aparecera, tinha experimentado uma estranha sensação de vácuo imenso, simultâneo ao sentimento de planar no ar, observação que levaria efetivamente a supor um fenômeno de desdobramento. Todavia, neste caso, a percipientes devia ter visto a imagem espectral dela mesma, e não a de uma outra pessoa fisicamente muito diferente dela, pois que a percipientes era loura, delgada, pálida, ao passo que `Noula parecia morena, forte e corada. Levando em conta esse detalhe, a sensação de vácuo experimentada pela percipientes deveria explicar-se o atribuindo ao fato de uma subtração de força vital do seu organismo pela entidade que se manifestava.

Quanto à hipótese de um caso de vampirismo, exercido por `Noula sobre a percipientes, o coronel de Rochas o examina levando em conta sobretudo o progressivo depauperamento da saúde da referida senhora, depauperamento que se podia racionalmente atribuir a uma subtração persistente de força vital exercida por Noula. Esta última devia então ser encarada como uma entidade espiritual de baixa categoria, ainda desejosa de viver, e que, tendo encontrado, na constituição orgânico-funcional dessa senhora, uma sensitiva de quem podia subtrair força vital, dela se apoderaria a fim de encontrar a alegria de se sentir ainda ligada ao meio terrestre, revivendo a sua existência por reflexo. Conhecem-se alguns exemplos cientificamente estudados que sugerem esta hipótese, mas não se trata, até o momento, senão de casos bem raros e suscetíveis de serem explicados de outra maneira, entretanto eles não se poderiam prestar a autorizar, neste sentido, uma `hipótese de trabalho qualquer e ainda menos uma teoria clara e bem definida do gênero daquela que os ocultistas construíram sobre o vampirismo: melhor então suspender qualquer julgamento a este respeito, deixando a solução do problema aos que virão depois de nós.
*
Para nove outros casos pertencentes a esta categoria, envio o leitor às seguintes obras e publicações:
Caso LIX -Proceedings oft the S.P.R., vol. V

Caso LX -Proceedings oft the S.P.R., vol. VI

Caso LXI-Proceedings oft the S.P.R., vol. X.

Caso LXII - Light, 1903, p. 141

Caso LXIII - Journal of the S. P. R., vol. III

Caso LXIV-,Journal oft the S.P.R., vol. IV

Caso LXV -_Journal of the S.P.R., vol. V

Caso LXVI - Journal of the S.P.R., vol. VIII

Caso LXVII - Journal of the S.P.R., vol. IX,

QUINTA CATEGORIA


ANIMAIS E PREMONIÇÕES DE MORTE

Esta categoria se subdivide em três subgrupos distintos, dos quais só o terceiro reveste-se de uma importância especial relativamente ao assunto de que tratamos.

O primeiro subgrupo se refere aos casos de manifestações premonitórias percebidas coletivamente por animais e por homens, circunstância interessante, porém, que, do nosso ponto de vista, não difere em nada das outras circunstâncias já examinadas nas categorias precedentes.

O segundo subgrupo é composto de casos nos quais os acontecimentos premonitórios se repetem tradicionalmente numa mesma família e tomam geralmente uma forma simbólica, isto é, a iminência de um acontecimento de morte é anunciada pela aparição, por exemplo, de uma dama branca (como na família alemã dos Hohenzollern) ou pelo tique-taque característico que se chamou de `relógio da morte, ou pelo estampido de um tiro de fuzil, ou por gritos lastimosos, ou, enfim, pela aparição de uma forma animal, sempre o mesmo para uma dada família. Como se pode ver, este segundo subgrupo, no qual a forma animal não é senão um símbolo, não apresenta nada de comum com as manifestações de que nos ocupamos nesta obra, fora a simples aparência.

Enfim, o terceiro subgrupo é constituído de fatos importantes para o nosso estudo, pois se liga às faculdades premonitórias da psique animal e consistem no fato de que os animais domésticos manifestam às vezes a faculdade de prever, em curto prazo, o trespasse de uma pessoa da família, por meio de gemidos e uivos característicos. Esta faculdade de várias espécies de animais é bem conhecida e os gemidos da morte dos cães fazem parte da tradição de todos os povos. Tratar-se-ia então de uma faculdade semelhante à faculdade mas circunscrita em limites mais modestos

Nestas condições, limitar relatar um só exemplo pertencente ao primeiro subgrupo e dois outros, muito curtos, pertencentes ao segundo limitando-me a desenvolver, de uma maneira adequada, o assunto do terceiro subgrupo.

PRIMEIRO SUBGRUPO
Manifestações premonitórias de morte percebidas coletivamente por homens e por animais

Caso LXVIII - (Auditivo-coletivo) - Este caso foi narrado pela senhora Sidgwick na sua obra sobre as premonições (Proceedings of the S.P.R., vol. V, pp. 307/8) e recolhido e estudado pelo sr. Myers em abril de 1888.

Conta à senhora Cowland-Trevalor o seguinte:

Certa noite do mês de junho de 1863, em nossa residência no vicariato de Weeford (Staffordshire), minha irmã e eu fomos repentinamente despertadas por lamentoso uivo. Percorremos todos os recantos da casa que se elevava, isolada, no meio do campo, sem nada descobrir. Nesta primeira circunstância, nem a nossa mãe nem os criados foram despertados pelo uivo, mas, ao contrário, fomos encontrar o nosso cachorro buldogue com o focinho metido debaixo de uma pilha de lenha, tremulo de medo. No dia 27 do mês de junho, falecia a nossa mãe.

O segundo caso foi muito mais impressionante e se produziu no mesuro vicariato em agosto de 1879. Havia já algum tempo que o nosso pai estava enfermo, mas as suas condições de saúde permaneciam estacionárias e, no domingo, dia 31 de agosto, ele ainda oficiava na igreja, embora fosse morrer nove dias depois a família era, nessa época, composta de nosso pai, minha irmã, meu irmão, de mim, com dois criados e ainda de uma camareira. Dormíamos todos em quartos separados, distribuídos em diferentes partes da casa, que, para um presbitério, era muito vasta.



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