Os Animais tem Alma



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Caso LXXXI - (Auditivo-coletivo):

Na notável narração de casa assombrada feita por um dignitário muito conhecido da igreja anglicana, que morou na referida casa por doze meses, é preciso considerar a conduta muito diferente dos cães em presença de insólitos efeitos reais ou fantasmagóricos. Quando uma tentativa de roubo foi feita no presbitério, os animais deram logo alarma e o clérigo se levantou devido aos seus ferozes latidos. Ao contrário, durante ruídos misteriosos, embora fossem muito mais fortes e inquietantes, eles absolutamente não ladraram. Foram encontrados num canto, num estado de lastimável terror. Estavam mais perturbados do que ninguém e, se não tivessem sido levados para baixo, teriam corrido para a porta do nosso quarto de dormir e teriam se agachado lá, rastejando e gemendo tanto tempo quanto lhes fosse permitido (Proceedings of the S.P.R., vol. II, p. 151).

Caso LXXXII - (Auditivo-coletivo):

Numa casa assombrada de Hammersmith (Proceedings of the S.P.R., vol. III, pp. 1 15/16), onde se ouviam ruídos de todas as espécies, inclusive o eco de passos e o som de lágrimas e de suspiros, onde se viam portas se abrindo sem qualquer causa aparente, onde, enfim, aparecia uma forma de mulher que foi sucessivamente vista por três pessoas adultas e uma menina de seis anos, o cachorro da casa percebia, por sua vez, os fenômenos. Breve -escreve à senhora K. - os antigos ruídos recomeçaram em nossa pequena biblioteca. Eram sons de objetos que tombavam, janelas que se agitavam violentamente, abalos tremendos por toda a casa, enfim, da mesma maneira, a janela do meu quarto começou a se agitar ruidosamente. Entrementes, o cão uivava sem parar e o ruído das pancadas e quedas aumentava em intensidade. Deixei meu quarto e me refugiei no de Helena, onde passei o resto da noite. Na manhã do dia seguinte, o cão mostrava claramente que a visão do quarto assombrado o espantava ainda. Chamei-o para entrar comigo lá, mas ele se encolheu no chão, metendo a cauda entre as pernas. Via-se que tinha medo de entrar lá. Eu estava só na minha casa, com Helena e a governanta.

Caso LXXXIII - (Auditivo-telecinésico-coletivo) - A propósito de uma casa assombrada em Versalhes (Annales des Sciences Psychiques 1895, p. 85), o sr. H. de V. se exprime assim numa carta dirigida ao doutor Dariex:

Ao cabo de cerca de dez minutos, como a criada nos contava os seus dissabores, um velho sofá de roldanas, colocado num canto à esquerda, se pôs em movimento e, descrevendo uma linha irregular, veio passar entre o senhor Shenwood e mim, depois voltou sobre si mesmo, cerca de um metro detrás de nós, bateu duas ou três vezes no assoalho com os pés de detrás e voltou, em linha direta, para o seu canto. Isso se passava em pleno dia e nós pudemos verificar que não havia nenhum compadrio, nem truque de qualquer espécie. O mesmo sofá fez o mesmo percurso por três vezes diferentes, tomando 0 cuidado - coisa estranha - de não ferir ninguém. Ao mesmo tempo, pancadas violentas se faziam ouvir no outro canto da sala, como se pedreiros estivessem trabalhando na peça vizinha que estava inteiramente aberta e completamente deserta. O amigo que nos havia levado empurrou o seu cão para o canto da sala e o animal voltou uivando, evidentemente presa de grande terror. Ele não queria mais se mexer em nenhum sentido e o seu dono foi obrigado a mantê-lo nos braços durante o tempo em que permanecemos na casa.

Caso LXXXIV - (Auditivo-coletivo) - Nos artigos publicados pelo dr. J. Morice a respeito do caso fantasmagórico do castelo de T., na Normandia, um dos casos mais interessantes e mais extraordinários que se conhecem (Annales des Sciences Psychiques, 1892/93, pp. 211/223 e 65/80), foi narrado o que se segue:


Ele comprou (o senhor de X., primeiro proprietário do castelo) dois formidáveis cães de guarda que eram soltos durante a noite e nada aconteceu. Certo dia, os animais se puseram a uivar na direção de um dos maciços do jardim com uma tal persistência que o senhor de X. acreditou que assaltantes se haviam ocultado ali. Ele se armou, fez armar os seus criados, cercou o maciço e lá soltou os animais. Eles se precipitaram com furor, porém, mal ali penetraram, os seus uivos se transformaram em latidos dolorosos, como os dos cavalos recebendo um corretivo. Depois fugiram com a cauda baixa e não se conseguiu que voltassem para o lugar. Os homens entraram então no maciço, revistaram em todos os sentidos e não acharam lá absolutamente nada (pp. 82/83).

Caso LXXXV - (Visual-coletivo, com anterioridade do animal sobre o homem) - Na relação muito bem documentada que a senhora R. C. Morton forneceu n Society for Psychical Research, a respeito de uma casa assombrada em que ela morava e na qual aparecia, entre outras coisas, uma forma de mulher de preto, ela fala assim da atitude do seu cãozinho fox-terrier:

Lembro-me de o ter visto, por duas vezes diversas, correr para o fundo da escada do vestíbulo, sacudindo alegremente a cauda e se fazendo importante, como os cães têm o hábito de fazer quando esperam carícias. Ele para ali correu com uma expressão de alegria, precisamente como se uma pessoa se achasse naquele lugar, mas logo o vimos escapar com toda pressa, de cauda entre as pernas, e refugiar-se, todo trêmulo, debaixo do sofá. Nossa impressão firme é de que vira um fantasma (Proceedings, vol. VIII, p. 323).

Pelos dois primeiros casos históricos narrados aqui, assim como pelo caso LXXX, pôde-se ver que os animais percebem manifestações metapsíquica que escapam às pessoas presentes, prerrogativa animal de que já houve um exemplo no caso LIII e de que falamos nos comentários ao caso LXI. Um pouco mais adiante, relataremos um outro fato notável que aconteceu à senhora dEspérance (caso XCV). Nos comentários ao caso LVI, onde se tratou, caso se recorde dele, de manifestações experimentais cora início de materialização de espírito, fiz notar que o fato de que os animais pareciam perceber a presença de uma forma espiritual quando mesmo as pessoas presentes não percebiam nada podia ser explicado supondo-se que os olhos de certos animais seriam sensíveis aos raios ultravioletas (como a chapa fotográfica) e que, em conseqüência, eles chegariam a discernir com os `olhos corporais o que era invisível aos olhos humanos. Entretanto, esta hipótese - justa para as circunstancias nas quais a havia proposto - não parece aplicável aos casos que examinamos agora e nos quais se trata de Fenômenos, não objetivos, mas subjetivos. Nestas condições, é preciso concluir que os animais se mostram efetivamente mais bem-dotados do que o homem, no fato de sensibilidade subliminal, nas manifestações supranormais. Os casos em que os animais se mostram refratários à produção de fenômenos psíquicos percebidos pelo homem são inteiramente raros, ao passo que os homens refratários a essas mesmas manifestações constituem a grande maioria. É difícil conhecer a causa dessa superioridade da suscetibilidade animal às percepções da atividade subconsciente ou espiritual, mas, como essa prerrogativa parece existir, em condições análogas, entre os povos selvagens, entre os quais as faculdades telepática e telestésica são bem freqüentes, seria preciso deduzir dela que a causa consiste ou na mentalidade ainda virgem deles, isenta de prevenções habituais de um meio contrário ao exercício das faculdades subconscientes, ou na circunstância de que a atividade psíquica deles não é continuamente gasta pelos cuidados e as preocupações da vida civilizada. A justeza destas observações é demonstrada pelo fato, muito conhecido, de que, entre os sensitivos clarividentes, basta uma contrariedade passageira ou uma ligeira condição de ansiedade ou de preocupação para neutralizar completamente as suas faculdades supranormais.

Caso LXXXVI - (Visual-coletivo) - Eu o extraio do Journal of the S.P.R., vol. XIV, p. 378. O rev. H. Northcote envia um relatório sobre um caso de assombração estudado por ele mesmo e que se produziu na residência de uma família de amigos seus. Tratava-se de um fantasma de homem que aparecia constantemente no mesmo quarto, na mesma hora de sempre e que foi visto, independentemente, por várias pessoas, das quais uma não sabia nada do que a outra havia visto. Certo dia, a família Clemsford, que morava nessa casa e ali deu hospedagem a srta. Dentou, a instalou no quarto assombrado. A srta. Dentou conta o seguinte:

Na noite do mesmo dia de minha chegada fui deitar-me bastante cansada e dormi muito mal... Não liguei muita importância a isso, atribuindo a coisa à minha excessiva fadiga c à mudança de cama, mas, na segunda noite, já me aconteceu à mesma coisa e, pelas três horas, fiquei surpresa ao perceber uma massa opaca, levemente luminosa, ao pé da cama. Pensei, a princípio, que se tratava de um reflexo de luz proveniente da janela, mas essa massa tomou gradualmente uma forma e acabou por transformar-se em um homem de muito alto porte que permaneceu imóvel durante um certo tempo - que me pareceu muito longo, embora pudesse tratar-se de apenas alguns segundos - para atravessar logo em seguida o quarto e desaparecer num armário. Na terceira noite assisti à mesma manifestação e, dessa vez, com grande espanto meu, o que fez com que, no dia seguinte, fosse pedir a um aos meus amigos para deixar o cão dele dormir no meu quarto, porque eu havia percebido risos. Meu desejo foi logo satisfeito e, no quarto dia, já fui deitar-me animada e tranqüila. O cão se acomodou no Jeitinho que eu lhe arrumara no sofá e não tardei a domar profundamente.

Lá pelas duas horas fui acordada pelos gemidos do animal e observei que se tinha levantado e girava em volta do quarto, sempre gemendo. Ao mesmo tempo, vislumbrei ao pé do leito o fantasma do meu visitante noturno. Presa novamente de um grande espanto, pus-me a gritar-lhe: Vá embora! Suma!

Uma outra noite, depois de cerca das dezoito horas, quando me achava na casa dos Clemsford, o fantasma me apareceu como se fosse de fogo, tal como uma figura aclarada por transparência, na qual os traços do rosto e as principais linhas do corpo sobressaíam com sinistro clarão. Meu pavor foi tal que me decidi a falar, não querendo absolutamente ficar no tal quarto. Conduzi a conversa para o assunto, no almoço, perguntando se alguém da casa já havia visto um fantasma no quarto em que eu dormia e, ao mesmo tempo, descrevi a figura que percebera. Minha surpresa foi muito forte quando me disseram que a minha descrição correspondia exatamente à aparência do fantasma visto no referido quarto e na mesma hora pelo senhor e senhora Clemsford. Naturalmente que não quis mais dormir no tal quarto...

Neste exemplo, a agitação e o espanto do cão podem parecer concludentes do ponto de vista que nos interessa especialmente, se os compara à mímica animal, infinitamente mais demonstrativa, em tantos outros períodos do mesmo gênero. Entretanto, aqui neste caso, há a circunstância eloqüente do animal que é presa, de repente, de pavor, às duas horas da madrugada, isto é, na hora exata em que se produzia constantemente a manifestação de assombração no lugar. Se considerar esta circunstância, não parece logicamente possível evitar a conclusão de que o animal bem que havia percebido o fantasma manifestado no quarto, naquele momento. A circunstância de que ele ali se achava sem conhecimento da srta. Dentou, adormecida, aumenta de valor probativo a manifestação, da qual o animal foi o primeiro percipientes.

Caso LXXXVII - (Visual-coletivo) - Este caso apareceu no American Journal of the S.P.R. (1910, p. 45). Faz parte de uma pequena coleção de fatos examinados por um ministro da igreja episcopal. O professor Hyslop diz que não se podem citar nomes dos percipientes que são, em grande parte, pessoas bem conhecidas e que não desejam dar seus nomes. O pastor, que faz a narrativa, relata o seguinte fato:

A vila do dr. G., residente na 5 Avenida, n° 13, em Nova Iorque, fica em Fishkill, no rio Hudson. A vinte de outubro a srta. F. G., filha dele, tinha ido a Nova Iorque, aonde chegara há uma hora avançada da noite. O cocheiro fora esperá-la na estação da estrada de ferro com uma charrete e um excelente cavalo. A noite estava muito sombria e a carruagem não se achava provida de lanternas. O caminho era fácil e o cavalo o percorria tranqüilamente. Colinas cercadas de árvores aumentavam ainda a escuridão, quando, em um dado momento, o cavalo começou a escoicear violentamente, enquanto o cocheiro não sabia para que santo apelar. A srta. F. G. olhou e viu uma comprida coluna esbranquiçada, semelhante ao nevoeiro, que, depois de ter-se elevado no caminho, em face do cavalo, passou ao lado desse, roçou no cotovelo da moça e desapareceu por cima dos seus ombros. No momento em que a aparição lhe tocou no cotovelo, ela experimentou uma sensação de frio e teve um estremecimento. Em todo o caso a sua mente era muito positiva para acolher uma explicação supranormal do acontecimento, todavia, dirigindo se ao cocheiro, lhe disse: Presta atenção, Michel. Devemos ter passado por cima de alguma coisa. Desça e veja o que sucedeu. Mas o cocheiro discordou e se mostrou inquieto, declarando que não se tratava, absolutamente, de um acidente material e sim, de um encontro com algum fantasma. E acrescentou: A senhora e eu podemos ter-nos enganado, mas não se pode dizer outro tanto do cavalo. O pobre do animal sua e treme nos vamos. Finalmente decidiu descer e olhar, mas não viu nada no chão, pondo-se a caminho. A srta. F. G. ordenou ao cocheiro que não Falasse o que se tinha passado a ninguém, com receio de assustar os criados.

Alguns dias mais tarde, ela contou o fato a um senhor que viera visitá-la e que morava há muito em Fishkill, o qual, depois de ouvi-la com vivo interesse, disse: A senhora viu o Fantasma de Verplanck, e forneceu as seguintes explicações: No tempo da geração anterior à presente, a srta. Verplanck, herdeira de urna grande família dinamarquesa residente aqui, estava enamorada de um jovem advogado de Nova Iorque, mas a sua família desejava que ela se casasse de preferência coar um seu primo chamado Samuel Verplanck. No dia vinte de outubro, o jovem advogado devia procurar, mas uma violenta tempestade estourou naquela ocasião e ele não apareceu. Na manhã seguinte, a srta. Verplanck anunciou: `Ele foi assassinato ontem à noite. Alguns minutos após, espalhou-se à notícia de que havia sido descoberto o seu cadáver com um punhal mergulhado no coração. Ao mesmo tempo, Samuel Verplanck desaparecia e não era visto em lugar algum. Passado bem pouco tempo começou-se a dizer que, na noite de vinte de outubro, Samuel Verplanck aparecia no lugar do crime. O que aconteceu à srta. F. G. naquela noite de vinte de outubro confirmaria essa tradição.

Ainda neste caso, o animal teria sido o primeiro percipientes, circunstância que mostra sempre melhor quão admiráveis sensitivos são os animais superiores.

Este caso é notável por si mesmo, sem apresentar nada de especial, pois se conhecem centenas de fatos análogos ligados a uma tradição de crimes consumados no local da assombração, assim como já fiz observar numa obra que consagrei a essas manifestações.

Caso LXXXVIII - (Visual-coletivo) - O conhecido sociólogo professor Andrew Lang conta o seguinte fato que sucedeu numa família de amigos seus. Transcrevo da Light (1912, p. 111) o texto que se segue:

Em um dos subúrbios de Londres há uma mansão especial, bem antiga, construída inteiramente de tijolos e cercada de um jardim, a qual conheci muito bem. Quando os meus amigos o senhor e senhora Rotherhams foram ali residir, a mansão era inteiramente assombrada. Entre outras coisas, quando a senhora Rotherhams se aproximava de uma porta, esta se abria espontaneamente diante dela. Algumas vezes sentia-se puxada pelos cabelos por mãos invisíveis, barulhos noturnos, estranhos e inexplicáveis, tais como de baixelas se entrechocando, de móveis arrastados, perturbavam sem parar o sono dos moradores dela.

Certa noite em que o senhor Rotherhams se achava ausente, sua esposa foi deitar-se com o seu bebê, no quarto acima da sala de jantar, tendo antes fechado nela o seu cãozinho da raça colhe. Ela observou que, quando começou a ouvir os ruídos dos móveis arrastados e das baixelas se entrechocando, o animal começou a uivar lastimosamente. A senhora não teve coragem de descer ao andar inferior a fim de soltá-lo, mas, quando, de manhã, abriu a porta do aposento assombrado, o cãozinho foi ao seu encontro com a cauda entre as pernas. Ela verificou que os móveis e as baixelas estavam perfeitamente nos seus lugares.

Outro dia, essa mesma senhora estava ocupada em ensinar uma lição à sua filhinha na sala de jantar, sentada defronte da porta. Em dado momento, tendo tocado a sineta para chamar a camareira, viu uma porta abrir-se e entrar uma mulher estranhamente vestida com um roupão cinza-claro e o rosto da mesma cor.

Um outro dia, quando o senhor Rotherhanrs se tinha demorado a fumar na mesma sala, ele viu o animal levantar-se com um pulo, o pêlo eriçado nas costas, e rosnar surdamente voltado para a porta. Olhando nessa direção, ele viu a porta abrir-se e entrar a mulher vestida de uma cor parecendo azul. Levantou-se para sair ao encontro dela, porém não viu mais nada.

Se tal fantasma tinha um objetivo, este seria o de obrigar os novos ocupantes da casa a se mudarem, mas eles permaneceram intrepidamente no lugar e as manifestações foram enfraquecendo pouco a pouco até cessarem definitivamente. Os membros da família são pessoas sãs e robustas e contam entre os íntimos amigos meus.
Professor Andrew Lang
No caso acima, acham-se dois fatos concernentes a percepções animais. No primeiro, de natureza puramente auditiva, o cão, encerrado na sala assombrada, mostra logo, por meio de uivos dolorosos, que ele percebe manifestações ruidosas que os outros ouvem de fora; no segundo, o animal é o primeiro a perceber o Fantasma da dama azul. Não resta então nenhuma dúvida sobre a participação do animal em manifestações de assombração às quais estão sujeitas coletivamente seus donos.

Caso LXXXIX - (Auditivo-coletivo) - Na bem conhecida obra do dr. Edward Binns, (Anatomia do Sono p. 479), encontra-se o seguinte fato comunicado ao autor por lord Stanhope, amigo íntimo do protagonista do acontecimento, sr. G. De Steigner, que conta:

Na minha mocidade, quando eu era oficial do exército dinamarquês, ocupava já há algum tempo o alojamento que me fora designado, sem perceber nada de especial. Meu quarto estava colocado entre dois outros aposentos, servindo de um pequeno salão e o outro de quarto de dormir de meu ordenança e comunicando-se as três peças entre si.

Certa noite em que estava deitado sem dormir, ouvi orar ruído de passos que iam e vinham no quarto e que pareciam ser de um homem de chinelas. Esse ruído inexplicável durou longo tempo.

Chegada à manhã, perguntei à minha ordenança se ele não havia percebido nada durante a noite e o mesmo me respondeu: Nada, a não ser que há uma hora avançada da noite o senhor passeou no seu quarto. Assegurei-lhe de que não havia deixado o leito e, como ele permanecesse incrédulo, lhe ordenei que, se o ruído de passos se repetisse, me chamasse.

Na noite seguinte eu o chamei sob o pretexto de lhe pedir uma vela e procurei saber se ele não vira nada. Respondeu-me negativamente, acrescentando, todavia, que ouvira um ruído de passos como se alguém se aproximasse dele para se afastar em seguida na direção oposta.

Tinha no meu quarto três animais: um cão, uma gatinha e um canário, que reagiam todos de um modo característico quando o ruído de passos começava. O cão pulava imediatamente para cima de minha cama e se encolhia junto de mim, tremendo; a gata seguia com o olhar o arrastar dos passos como se percebesse ou procurasse perceber o que os produzia. O canário, que dormia no seu poleiro, acordava logo e se punha a voar dentro da gaiola, tomado de grande agitação.

Em outras circunstâncias, ouviam-se sons musicais no salão como se alguém tocasse fracamente as teclas de um piano, ou bem se percebia um ruído característico como se girasse a chave da secretaria na fechadura e a abrisse, entretanto tudo permanecia nos seus lugares. Falei sobre esses ruídos inexplicáveis aos meus camaradas, do regimento que foram dormir sucessivamente no sofá do meu quarto e eles ouviram, uns após outros, os ruídos que eu mesmo percebi.

Em seguida, o senhor De Steigner conta que mandou examinar as tábuas do assoalho e os lambris do quarto, sem descobrir nenhum sinal de ratos. Algum tempo depois disso, ele caiu doente e, como a sua enfermidade tendia a piorar, o médico o aconselhou a mudar-se imediatamente de alojamento, sem lhe dar a respeito nenhuma explicação, e ele obedeceu. Quando já convalescente, insistiu junto ao médico para saber da razão que o levara a aconselhar-lhe a mudança, o médico lhe explicou, enfim, que o alojamento em que ele estivera gozava de deplorável reputação, pois um homem se enforcara naquele quarto e outro fora ali assassinado.

Os leitores já terão observado que, nos casos relatados até aqui, os animais percipientes têm sido ou cães ou gatos ou cavalos, mas no supracitado caso há um canário e isto mostra que o reino dos pássaros é capaz, por sua vez, de perceber as manifestações supranormais e de se espantar por causa delas.

Quanto à atitude do canário em face das manifestações auditivas acontecidas no quarto assombrado, não me parece possível levantar dúvidas sobre o seu alcance demonstrativo, isto é, que o canário percebia muito bem, como os outros animais, as manifestações em curso, pois, com efeito, o ruído de um passo leve, tal como o de um homem de chinelas, não é de molde a espantar um canário, habituado a viver com o homem. Segue-se daí que, se esse passarinho se espantava com ele, é porque percebia realmente as manifestações de assombração e que tinha a intuição instintiva de sua natureza supranormal.

SEGUNDO SUBGRUPO

Aparição de animais em lugares assombrados

Não é certamente fácil determinar o que representam as aparições de formas animais nas manifestações de assombração. Às vezes, a produção delas coincide com o fato de que animais semelhantes aos aparecidos tenham vivido no lugar. Nesses casos, as for mas animais poderão ser explicadas seja pela hipótese da sobrevivência da psique animal, seja supondo uma projeção telepática do pensamento de um morto (tanto mais que, muitas vezes, os animais se manifestam de combinação com fantasmas de pessoas falecidas), seja ainda pela hipótese da revivescência psicometria de acontecimentos que se produziram no local, na época. Mas, bastas vezes, não apenas não se verifica nenhuma coincidência que permita explicar a aparição animal por uma destas suposições, como se pode mesmo excluir absolutamente que as formas animais aparecidas em um lugar assombrado correspondam, de um modo qualquer, a outros animais que viveram no lugar. Neste caso, a explicação popular dos fatos é que as aparições de animais representam espíritos de mortos que, tornando-se culpados por faltas graves, tomam, depois da morte, formas animais correspondentes à natureza das suas faltas. Na minha obra Lês phénomènes de hantise (Fenômenos de assombração), capítulo III, citei um caso da aparição de um porco. A pessoa que conta esse fato diz que, tendo interrogado alguns pastores a respeito, esses explicaram que o responsável pelos fatos era Tommy King, um farmacêutico que vivera cem anos antes e que se enforcara numa casa situada nos arredores e, desde então, o espírito do infeliz errava por aqueles lugares e ali aparecia sob a forma de um animal.

Sobre o assunto escrevi:

É a explicação popular sobre as aparições de animais em lugares assombrados e, embora seja ela puramente tradicional e gratuita, não é fácil substituí-la por outra menos gratuita e mais científica. Limitar-me-ei então a observar que, na obra do doutor Justinus Kerner sobre a vidente de Prevorst, lê-se que a vidente, nas suas fases de sonambulismo, explicava da mesma maneira as aparições de animais. Assim, no capítulo VI (4° caso), a propósito de um espírito baixo que lhe aparecia, o doutor Kerner escreveu: No meu quarto, a aparição se renovou sob o aspecto de um urso. Adormecida, ela diz: Agora eu vejo quanto a sua alma deve ser negra, pois que ele volta sob formas tão espantosas, mas é preciso que eu o reveja.... No 5° caso, a vidente em sonambulismo se dirige a um espírito e lhe pergunta se ele poderia manifestar-se sob forma diferente da que tinha quando vivo, e o espírito respondeu: Se eu tivesse vivido como urna besta eu deveria aparecer-lhe como tal. Nós não podemos, entretanto, tomar as formas que queremos e devemos aparecer-lhe tal como éramos em vida. E no capítulo N: O devasso pode aparecer sob a forma de um animal ao qual ele se assemelhe por sua maneira de viver...



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