Os Animais tem Alma



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Ao contrário, eu observo que, entre os casos de assombração animal que reuni, há dois deles que sugerem uma explicação diferente, o que, aliás, não excluiria a outra. Foram publicados no Journal of the S.P.R. (vol. XIII, pp. 58/62 e vol. XV, pp. 249/252). Trata-se das aparições de um cão e de uma gatinha com esta circunstância notável de que, onde apareciam, haviam morrido um cão e urra gatinha idênticos aos que se manifestavam. No que diz respeito à gatinha, a identificação foi ainda melhor estabelecida pelo da forma coxa, à imagem da gatinha, que fora, quando viva, aleijada por um cachorro. Encontra-se, aqui, diante de um autêntico caso de identificação, de modo que é possível deduzir daí que, se chegar a acumular, em grande número, exemplos desta natureza, eles levarão à demonstração da sobrevivência da alma do animal, possibilidade que não deveria certamente espantar.

Devo acrescentar agora, ao que escrevi na supracitada obra, que cheguei, com efeito, a reunir um certo número de fatos análogos aos que acabei de fazer alusão e dos quais tratarei na oitava categoria. Eles contribuem para tornar provável que se chegue um dia a demonstrar cientificamente a sobrevivência cia psique animal. Isto não exclui aliás, de modo algum, que as outras hipóteses indicadas há pouco não possam ser legítimas por sua vez e doe elas devem, segundo as circunstâncias, ser levadas em consideração para a explicação de certas modalidades das formas animais. Mais ainda, tudo contribui para demonstrar que as hipóteses expostas acima explicam alguns dos casos pertencentes a esta categoria.

Caso XG - (Visual-coletivo) - Hereward Carrington, um dos mais distintos metapsiquistas dos Estados Unidos da América e autor de obras conhecidas por todos os que se ocupam das nossas pesquisas, relata no American Journal of the S.P.R. (1908, p. 188) o seguinte fato que ele mesmo submeteu a um inquérito:

O muito interessante caso que vou expor é de minha experiência pessoal. Aconteceu no último verão e é, na minha opinião, muito sugestivo senão já concludente...

Quando me achava em Lilly Dale, o acampamento de espíritas americanos, fiz amizade com três pessoas que foram protagonistas do caso em questão e que se interessavam como eu pelas pesquisas metapsíquicas. Soube do fato por essas mesmas três pessoas no vestíbulo do hotel em que se hospedavam e alguns minutos depois que o acontecimento se deu. Eis de doe se trata:

Os três personagens em apreço - duas senhoras e um senhor - passeavam num caminho pouco afastado da vila e conversavam sobre assuntos diferentes quando uma das senhoras, que possui algumas faculdades clarividentes, percebeu um cãozinho que corria no caminho, diante dela. O sol se punha, mas a claridade do dia era ainda completa e, no entanto, os outros não viram nada porque, na realidade, o animal não existia. O terreno era amplo, nu e plano, portanto, não se tratava de obstáculos naturais à vista a senhora afirmava que o animalzinho corria diante dela a oura dezena de jardas de distância, mantendo-se no meio do caminho, inteiramente à vista e acrescentou que ele parecia ter as dimensões de um Fox-terrier, que tinha o pêlo amarelo, o focinho alongado, a cauda pequena e anelada. Enquanto as três pessoas discutiam entre si esse estranho caso, um gato saía tranqüilamente de uma casa situada a pouca distância delas e se dirigia para o caminho a fim de o atravessar, mas, logo que ali chegou, chamou a atenção ao bufar e arranhar o ar, justamente no lugar em que se achava o cão fantasma, como se lá estivesse um cão de carne e osso, aparecido defronte do gato. Insisto no fato de que este íntimo havia chegado até o caminho, conservando um aspecto absolutamente tranqüilo e indiferente para tomar, repentinamente, uma atitude de briga. Logo depois o gato voltou-se com um pulo e retornou, correndo, para a casa donde saíra. Durante essa cena, a senhora vidente tinha continuado a perceber o cão, depois voltara um instante o olhar para seguir a fuga do gato e virara de novo para o cão, mas o cão já havia sumido. Ela declarou que esse animal não dera nenhuma atenção ao gato, mesmo quando este parecia querer arranhá-lo e seguia tranqüilamente o seu caminho. É evidente que, se o gato havia se comportado dessa maneira, é porque ele tinha acreditado perceber diante dele um cão autêntico, surgido de surpresa. E entretanto esse cão não existia! Tais são os fatos sobre a autenticidade dos quais eu me torno fiador. Deixo aos leitores a liberdade de explicá-los ao seu bel-prazer.

Nesta narrativa, não está indicado se o lugar tinha a reputação de ser assombrado e se um cão igual tinha vivido nos arredores. Não é, pois, possível, chegar-se a uma solução teórica qualquer sobre a gênese dos fatos.

Mas isto não anula o incidente por si só, claro e indubitável, da aparição de um cão fantasma, visto coletivamente por uma senhora e por um gato.

Caso XCI - (Visual-coletivo) - Este caso foi publicado pela revista inglesa Light (1915, p. 215) e é semelhante ao antecedente. O rev. Charles L. Tweedale escreve o doe segue:

Pelas dez horas e meia da noite, minha esposa subiu para o meu quarto e, arrumando os travesseiros, lançou o olhar para os pés da cama. Então percebeu ali um grande cão preto, ereto nas suas patas, que pôde distinguir em todos os seus detalhes. Quase ao mesmo tempo, nosso gato, que havia seguido a sua dona na escada, penetrou no quarto e, vendo por sua vez o cão, deu um pulo, arqueando o dorso, eriçando a cauda, bufando e arranhando o ar. Saltou em seguida para cima do toalete colocado num canto do quarto e se refugiou detrás do espelho do móvel. Pouco depois, o cão fantasma desapareceu e a minha mulher, querendo certificar-se se o gato não era, por sua vez, de natureza fantasmagórica, se aproximou do toalete, olhando por trás do espelho, e ali viu muito bem o autêntico gato num estado de agitação frenética e sempre de pêlo eriçado. Quando ela achou que devia levá-lo para o seu canto, o felino bufou e a arranhou, permanecendo ainda presa do terror que lhe havia causado o cão fantasma.

Ainda neste incidente, como no anterior, não se colhe nenhuma indicação de natureza a orientar o pensamento para a busca das causas, o que não impede de ser, por sua vez, muito característico e sugestivo. Com efeito, nos dois casos observa-se à combinação de duas modalidades de manifestação supranormal de que nos ocupamos aqui, a saber: uma, na qual os animais percebem, coletivamente com os homens, as manifestações de assombração; a outra, na qual as manifestações de assombração são constituídas de animais fantasmas percebidos coletivamente por homens e animais.

Caso XCII - (Visual, com impressões coletivas) -A senhora J. Toye Warner Staples enviou a Light (1921, p. 553) a narração aqui reproduzida e referente a um caso que lhe é pessoal:

Temo verdadeiramente que a minha contribuição ao inquérito sobre a sobrevivência da psique animal não seja de natureza a satisfazer às provas exigidas pela Society for Psychical Research, todavia o fato que vou expor-lhes é escrupulosamente autêntico e digno de confiança, qualquer que seja a explicação dele.

Minha infância decorreu na parte ocidental da Irlanda e, desde a idade de quatro anos até os seis, morei numa casa muito grande e velha situada às margens do Shannon. Minha família, sendo inglesa, não dava atenção às narrativas da gente do lugar que afirmava que a nossa residência devia ser assombrada. Ora, foi lá que tive a primeira experiência do que se pode chamar de cão fantasma. Nas horas da tarde, durante o verão, em plena luz do dia, algumas vezes durante vários dias consecutivos e outras vezes com o intercalo de vários meses, eu era amedrontada pela aparição, muito nítida e natural, de um cãozinho branco, de raça pomerania, que se manifestava a mim na cabeceira de minha cama. Ele me olhava com a Loca aberta e a língua de fora quando estava ofegante e se comportava como se me visse, tomando a atitude que teria adotado se tivesse querido saltar para cima de minha cama. Então eu me espantava terrivelmente, embora tendo a intuição de que não se tratava absolutamente de um cão em carne e osso. Por vezes, quando o cachorro se mostrava perto da janela, eu percebia os móveis do quarto através do seu corpo branco e me punha a gritar, chamando a minha mãe e exclamando: Leve-o! Suma com ele! Logo que mamãe entrava no quarto, ele a seguia e, quando ela saía, ele saía com ela. Então eu era levada para baixo e, à força de carinhos, fazer-me esquecer o medo que havia experimentado.

O mais curioso é que, enquanto eu era a única a perceber esse fantasma canino, quatro outras pessoas o sentiam.

Na plena luz das manhãs de verão, dois membros da minha família - duas mulheres - e uma senhora e um senhor que tinham habitado a casa antes de nós, perceberam muitas vezes algo constituído de um corpo sólido, com as dimensões e peso de um cãozinho, que parecia pular para as camas, do lado dos pés, para passarem seguida lentamente sobre os seus corpos, chegando assim até os ombros e descer para o chão, do outro lado. Em tais ocasiões, os percipientes se sentiam como que paralisados e eram incapazes de se mover, mas, logo depois, eles pulavam do leito e examinava minuciosamente o quarto sem nada ali descobrir.

Por razões fáceis de serem compreendidas, abstenho-me de dar o endereço da supracitada casa, mas eu o confiaria ao professor Horace Leaf se esta narração interessar a alguém.

Nada de mais incômodo quando não se pode formular uma teoria capaz de explicar, de modo satisfatório, fatos do gênero de que acabamos de narrar e seria talvez melhor passar adiante sem discuti-lo. Caso se pretenda dar uma orientação de qualquer maneira, procedendo pela via de eliminação, dever-se-ia dizer que, no caso em questão, não poderia tratar-se de percepção psicometria de acontecimentos passados porque o detalhe do cãozinho que olhava em face da percipientes, que se dispunha a pular para cima de sua cama, que seguia os passos de pessoas presentes, saindo com elas, assim como 0 outro detalhe das impressões táteis experimentadas por uma das quatro pessoas, evocando um animal que passaria sobre seus corpos, indicam uma ação no presente e não uma reprodução automática de ações que se desenrolam no passado como deveria unicamente se produzir no caso das percepções psicometricas.

Pela mesma razão dever-se-ia excluir a hipótese de uma projeção telepática por parte de um morto, visto que uma projeção dessa natureza provocaria a percepção alucinatória de uma forma de animal plasticamente inerte ou que se deslocaria automaticamente, mas nunca a de uma forma animal consciente do meio em que se acha.

Enfim, mesmo a hipótese alucinatória, entendida segundo o significado patológico deste termo, não poderia ser sustentada, considerando-se que quatro outras pessoas tinham por várias vezes experimentado impressões táteis correspondentes às percepções visuais da criança, o que bem demonstra que, na origem dos fatos, devia haver um agente único que tinha que ser, forçosamente; inteligente e estranho as percipientes.

Assim sendo, não restaria a disposição do pesquisador sendo duas hipóteses: primeiramente, a tradicional ou popular, segundo a qual as formas animais, que aparecera nos lugares assombrados, representam o simulacro simbólico de espíritos humanos de uma categoria baixa e depravada; depois, a graça à qual se supõe que a psique animal sobrevive à morte do corpo e chega algumas vezes a se manifestar aos vivos.

Após ter exposto estas observações para satisfazer meu dever de relator, abstenho-me de toda conclusão, pois que a ausência dos necessários dados não o permite. Limito-me a observar que as duas hipóteses que acabo de mencionar podem ambas explicar os fatos pela intervenção de entidades espirituais desencarnadas: no caso da primeira, tratar-se-ia de entidades animal.


Caso XLIII - (Visual, com impressões coletivas) - Tiro-o do Journal oft the S.P.R. (vol. XIII, pp. 52/64). Faz parte de um longo relatório sobre uma casa assombrada na dual apareciam os fantasmas de uma mulher vestida de preto, um honrem enforcado num galho de árvore e um cãozinho, percebidos por numerosos percipientes. No relatório estão assinalados quatorze aparições do cãozinho, mas me restrinjo a narrar aqui a primeira delas:

Preciso chamar a atenção dos leitores para o fato de que, quando o animal roçava os percipientes em alguma parte do corpo, eles experimentavam logo uma sensação de queimadura no ponto em que se tinha exercido a pressão alucinatório-verídica do corpo do cão fantasma. A senhora Fletcher escreve a este respeito o seguinte:

Eis o que conta à senhora Fletcher residia na casa assombra

O cãozinho branco fez a sua primeira aparição no mês de janeiro de 1900. Nunca tardinha, meu marido saiu da biblioteca, onde estava sozinho, e me disse: Vi cãozinho brinco na biblioteca. E eu lhe respondi sorrindo: Nada de mais natural, pois nossos dois cães costumam passar de um aposento para outro, mas meu esposo, sério, acrescentou então: Não estou falando dos seus cães. Enquanto eu escrevia, vi um cãozinho branco andarem volta da secretária e caminhar para a parta, que se achava fechada. Pensando que fosse a Nipper, levantei-me a fim de abrir a porta, aras o cachorrinho havia desaparecido. Depois desse primeiro incidente, as aparições do cãozinho branco se tornaram freqüentes e todos nós as pudemos ver, inclusive os criados, os nossos hóspedes, a srta. Plumtre (da qual se acha junta a narração) e o seu irmão.

A respeito de minha perna, acima do joelho, que o cão havia roçado ao passar, experimentei, por várias horas, uma sensação de picada bastante aguda, tal corno a de leve queimadura. Minha filha Eglantine não se achava presente quando falei sobre isto, entretanto, pouco depois, observou espontaneamente: Mamãe, em lugar de minha perna, onde a nariz do cão me tocou, eu sinto naco sensação de queimadura.

Um pouco mais adiante, observa a senhora Fletcher:

Não cheguei a descobrir nenhum incidente do passado que tenha relação com a aparição do cachorrinho branco exceto que, há trinta anos, eu possuía um fox-terrier de pêlo branco duro, chie fora meu grande favorito e absolutamente parecido com o que se manifesta.

Esta última observação da senhora Fletcher deixaria supor que, neste caso, já se trataria de um primeiro exemplo de identificação de uma forma animal, mas esta observação é realmente muito vaga para poder ser tomada em consideração. Não é senão colocando-o em comparação com casos análogos, que citarei na oitava categoria, que ele chega a adquirir, indiretamente, certo valor probante. De toda maneira, não se saberia ligar o fato da aparição verídica de um cão morto há alguns anos apenas com as aparições de fantasmas de homem e de mulher, a menos que não se queira inferir desta coincidência que as condições de saturação fluídica inerente a um meio assombrado tenham tornado possível ao cão se manifestar.

Caso XCIV - (Visual-coletivo, com precedência dos animais sobre o homem) - Destaco-o de um artigo já citado pela senhora Elizabeth dEspérance e publicado em um número de outubro de 1904 da Light. Considerando que o fato examinado é contado por uma dama estimada, universalmente conhecida no domínio dos estudos psíquicos e que foi ela mesma a protagonista do acontecimento, o que faz com que seja uma garantia do que a própria afirma, parece me que esta narração merece séria consideração.

Eis as passagens que reproduzimos estritamente:

A localidade, onde se produziram os fatos, não estai afastadas de minha casa e eu mesma fui testemunha ocular deles. Depois da publicação de meu caso, tive o ensejo de assistir a um fato semelhante. Eis brevemente a sua história:

Em 1896, estabeleci-me definitivamente na minha residência atual. Conhecia muito bem o lugar, que já havia visitado várias vezes, e estava mesmo informada de que ele tinha a fama de ser assombrado, todavia eu não tinha sabido grande coisa a este respeito, sobretudo porque não conhecia quase ninguém nos arredores, depois porque não se conhecia a minha língua e cu ignorava a do país. Após isto é fácil conceber que as comunicações entre nós deviam necessariamente ficar limitada, pelo menos durante certo tempo. O que vi ou acreditei ver não deve então ser atribuído a um efeito de rumores que eu não poderia conhecer.

Nos meus passeios cotidianos, eu tinha o hábito de ir a um bosquezinho de que gostava muito por causa da sombra fresca da qual ali se gozava no verão e porque também se ficava livre dos ventos do decurso do inverno. Uma estrada publica atravessava-o de um lado a outro. Ora havia freqüentemente observado que os cavalos eram ali tomados de medo e tal coisa sempre me intrigara, não sabendo a que atribuir o fato. Em outras ocasiões, quando eu chegava a esse lugar com o meu par de cães, esses se recusavam decididamente a entrar no bosque, se arrojavam por terra, metiam os focinhos entre as patas e ficavam surdos à persuasão bem como as ameaças. Se eu me dirigisse para qualquer outra direção, eles me seguiam alegremente, porém, se eu insistisse em querer voltar para o bosque, me abandonavam e se dirigiam para casa, presas de uma espécie de pânico. Renovando-se esse fato por várias vezes, decidi-me falar dele a uma amiga, que era proprietária desse lugar. Soube então que incidentes iguais se tinham muitas vezes reproduzido no local há anos bem recuados, não constantemente, mas a intervalos de tempos, com cavalos ou cães, indiferentemente. Contou-me também que essa parte da rota que atravessava o bosque era olhada pelos lavradores do lugar como um terreno assombrado devido a um terrível crime que foi cometido no começo do século passado.

Um cortejo matrimonial tinha sido atacado por um apaixonado que a esposa repelira e essa foi assassinada ao mesmo tempo em que o marido e o pai. O culpado fugiu, mas foi alcançado, a dois ou três campos de distância, pelo irmão da esposa, que o matou. Esta história, muito conhecida, é autêntica. Perto do pequeno bosque (mas não onde os cavalos se espantavam) há três cruzes de pedra que marcam o lugar onde os três assassinatos foram cometidos e uma outra cruz, colocada a três campos de distância, assinala o ponto em que o culpado tombou por sua vez. Tudo isto se passou há um século, mas a presença das cruzes tem servido para conservar na região, a lembrança do drama, o que explicaria, portanto, a atitude dos cavalos e dos cães.

Num dia do outono de 1896, eu havia saído com uma amiga para fazer um passeio... Chegamos ao bosquezinho no qual entramos pelo lado do oeste, seguindo tranqüilamente o nosso caminho... Fui a primeira a me voltar e percebi uma vitela de tom vermelho-escuro. Surpresa com a aparição inesperada desse animal ao meu lado, soltei uma exclamação de espanto e ela se abrigou logo no bosque, do outro lado do caminho. No momento em que penetrava no arvoredo um estranho clarão avermelhado se desprendeu dos seus grandes olhos e dir-se-ia que projetavam chamas. Era hora do pôr-do-sol, o que fez com que eu pensasse que os raios do sol, que dardejavam em linha horizontal, sobre os olhos do bicho, bastassem para explicar o fato, olhos esses que brilhavam quase como as esquadrias de uma janela quando eram batidas diretamente pelos raios do sol.

Quando estávamos perto de nossa casa, minha amiga verificou que havia perdido o cabo de prata de sua sombrinha e se dirigiu para um dos jardineiros a fim de lhe pedir para um homem procurar o objeto perdido e lhe deu todas as indicações necessárias ao lhe indicar exatamente qual o caminho que havíamos percorrido.

O jardineiro lhe disse que, antes do anoitecer, ele mesmo iria lá e lhe explicou que os camponeses da região experimentavam grande mal estar ao penetrarem no bosque, sobretudo à tarde. - E por quê - perguntou a minha amiga. O jardineiro contou então que a superstição desses camponeses ignorantes, já tão intoleravelmente estúpidos e irritantes, tinha ainda piorado ultimamente em conseqüência do rumor de que a vitela de olhos reluzentes fora vista no bosque, o que fez com que ninguém se aventurasse a ir lá... Minha amiga e trocamos um olhar, sem contradizer o douto jardineiro que foi procurar o objeto perdido enquanto voltávamos para casa.

Desde então, por algumas outras vezes, a longos intervalos, espalhava-se o rumor de que a vitela de olhos reluzentes fora vista por alguém e o bosque era cada vez mais evitado pelos camponeses, se bem que, depois dessa época, bem poucos dias se passavam sem que eu atravessasse o bosque a pé ou a cavalo (salvo certos períodos durante os quais eu devia ausentar-me da casa) e quase sempre com o meu par de cães, e nunca mais, até a algumas semanas, me aconteceu encontrar novamente com o animal misterioso.

Era uma jornada sufocante e eu me dirigira para o bosque em busca de abrigo contra o sol e a reverberação enceguecedora do caminho. Estava acompanhada de dois copies (cães pastores) e por um pequeno terrier. Chegando ao limite do bosque, os dois cães se agacharam subitamente debaixo do sol e se recusaram a prosseguir caminho, ao mesmo tempo em que exerciam toda a sua arte de persuasão canina para que eu me dirigisse para outro lado. Vendo que eu persistia em querer prosseguir, acabaram por me acompanhar, porém com visível repugnância. Todavia, alguns instantes após, pareceram se esquecer e recomeçaram a correr para cá e para lá, enquanto eu continuava tranqüilamente o meu caminho, colhendo amoras. Num certo momento, eu os vi chegar às carreiras para irem deitar-se, tremendo e gemendo, aos meus pés. Simultaneamente, o pequeno terrier saltava sobre os meus joelhos. Eu não conseguia explicação para o evento, quando, de repente, ouvi detraís de mim umas patadas furiosas que se aproximavam rapidamente. Antes que eu tivesse tempo de afastar-me, vi correr, na minha direção, um bando de gamos cheios de pavor e que, na sua desenfreada galopada, fazia tão pouco caso de mim e dos cães que quase me jogaram por terra. Olhei em torno de mim, espantada, para descobrir a causa de tal pânico e percebi urna vitela de cor vermelha carregada. que, voltando sobre os seus passos, se embarafustou pelas partes podadas, enquanto os garros se tinham virado para uma outra direção do bosque. Meus cães que, em outras circunstancias ordinárias, lhes teriam dado caça, se mantinham agachados e trêmulos nos meus pés, ao passo que o cão terrier não queria descer de cima dos meus joelhos por vários dias esse cãozinho não quis mais atravessar o bosque e os collies não se recusavam a isso porém ali entravam contra a vontade deles, mostrando visivelmente a sua desconfiança e o seu temor.

O resultado das nossas indagações não tez senão confirmar ainda mais as nossas impressões, isto é, que a vitela de cor vermelha escura ou, como se diz na região, a vitela de olhos reluzentes, não era um animal comum, vivo e terrestre... Qual relação, porém, podia existir entre o fato em questão e a tragédia que se desenrolara no bosque é um problema para o qual não encontrei nenhuma resposta. Não duvido, portanto, de que as faculdades de intuição e de clarividência próprias aos animais deviam ter-lhes feito conhecer a existência de alguma coisa de anormal ou de supranormal no bosque e que a repugnância pelos Fenômenos desta natureza - repugnância que, no homem, é chamada superstição - era a causa verdadeira de sua estranha atitude.

Se eu tivesse sido a única pessoa a ver o misterioso animal é mais do que provável que não teria falado dele, mas foi de outra maneira, isto é, ele foi visto várias vezes, em circunstâncias diferentes, por numerosas pessoas da região.

Tal é o muito notável caso narrado pela senhora dEspérance que faz justamente observar que, nessa circunstância, não podia tratar-se de um animal vivo. Observo, por minha vez, que esta íntima hipótese não resiste a mais superficial análise dos fatos. É o que parecerá evidente se considera antes que uma vitela em carne e osso não podia ter existido e aparecer numa localidade, durante um século inteiro. Depois os cavalos, os cães e os gamos não estão habituados a se espantar diante de uma vitela inofensiva em último lugar, que, com esta suposição, não se explicaria o terror e o pânico a qual estavam sujeitos tantas vezes os cavalos e os cães, quando, na aparência, não existia nada de anormal para o homem.



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