Os diários íntimos na Internet



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Os diários íntimos na Internet

e a crise da interioridade psicológica
Paula Sibilia
Mestre em Comunicação, Imagem e Informação (IACS/UFF) e doutoranda em

Comunicação e Cultura (ECO/UFRJ)


De: http://www.comunica.unisinos.br/tics/textos/2003/GT12TB6.PDF
RESUMO:

Este artigo aborda uma prática de expressão e comunicação surgida recentemente na

Internet: a dos diários pessoais publicados na Web por usuários do mundo inteiro, seja no

formato dos blogs ou das webcams. Estes fenômenos parecem recriar um hábito cuja

sentença de morte já tinha sido decretada, que teve seu auge nos séculos XVIII e XIX e

estava fortemente vinculado à sensibilidade da época: a paciente e minuciosa “escrita de si”

nos diários íntimos. A intenção é focalizar um aspecto especialmente significativo das

novas “narrativas do eu”: sendo expostas aos milhões de olhos que têm acesso à Internet, as

confissões e as imagens cotidianas dos autores revelam uma peculiar inscrição na fronteira

entre o extremamente privado e o absolutamente público. Intui-se uma subversão das

fronteiras que costumavam separar essas duas esferas no mundo moderno, junto a

importantes mutações nos tipos de subjetividades que germinavam nos cenários assim

delimitados, com fortes abalos nas noções de interioridade, intimidade e privacidade.
Rio de Janeiro, Janeiro de 2003
Cara Sophie... eu poderia encher páginas e páginas com tudo o que enche

meu coração, acerca de muitas coisas; mas estou convencida de que este

mundo não é o lugar adequado para verter a alma sem reservas.

Ms. Peabody (em carta à filha, Sophie Hawthorne)


Eu tenho o meu jornal na Rede e o torno público porque, precisamente, não tenho nada

a dizer.

Steven Rubio (blogueiro)


Cara Sophie... nada como a nossa história tem sido escrito... e nem será. Pois

jamais nos sentiríamos inclinados a fazer do público o nosso confidente.

Nathaniel Hawthorne (em carta à esposa Sophie)
Não sei se o que faço é bom. Sei que umas cem pessoas, todos os dias, me perguntam

o que aconteceu ontem, e elas estão realmente interessadas...



Aléxis Massie (blogueiro)
Introdução

O germe deste artigo é uma inquietação, uma tentativa de compreender um

fenômeno aparentemente paradoxal – ou melhor, a confluência problemática de duas

tendências contemporâneas: por um lado, a crescente ênfase biográfica que permeia o

mundo ocidental (com sua voracidade pelas confissões e por tudo que remeta a “vidas

reais”) e, paralelamente, um certo declínio da interioridade psicológica que sempre

caracterizou a subjetividade moderna. Para ancorar tal discussão, escolhemos como objeto

de estudo um tipo de prática que parece sintomática desses processos pois exprime tal

paradoxo e, portanto, cremos que pode ser fértil na sua indagação: o auge das webcams e

dos diários pessoais publicados na Internet, uma modalidade de “escrita íntima” ou de

narração auto-referente conhecida como weblogs ou, simplesmente, blogs.1

Antes de mergulhar nessa problemática de candente atualidade, porém, torna-se

necessário percorrer brevemente a genealogia dos dois fatores aqui considerados – tanto as

“narrativas do eu” como a crença numa “vida interior” –, localizando a sua germinação

conjunta na alvorada dos tempos modernos. Depois de reconstruir a historicidade desse

campo contextual, procuraremos vislumbrar a especificidade de suas reverberações atuais,

focalizando as fortes transformações que estão afetando a subjetividade contemporânea e

que não cessam de reconfigurar a paisagem do mundo.


O nascimento da intimidade
Em um livro destinado a examinar as diversas formas de narrativas vivenciais, a

socióloga argentina Leonor Arfuch recorre a um estudo de Mijail Bajtin sobre as biografias

e as autobiografias antigas, e cita um trecho referido ao elogio fúnebre de um cidadão da

polis grega:

Não havia ali, não podia haver, nada de íntimo, de privado, de pessoal e secreto, de

introvertido. Nenhuma solidão. Esse homem está aberto por todas partes.

Inteiramente para o exterior, não guarda nada só para si, nada há nele que não seja

da ordem de um controle ou de uma declaração pública e nacional. Tudo ali era

absolutamente público.2

O exemplo é pertinente pois evidencia claramente um fato: a separação entre os

âmbitos público e privado da existência é uma invenção histórica e datada, uma convenção

que em outras culturas inexiste ou é configurada de outras maneiras. É, inclusive, bastante

recente: a esfera da privacidade só ganhou consistência na Europa dos séculos XVIII e

1 No último encontro da COMPOS, organizado pela ECO/UFRJ no Rio de Janeiro, o artigo “A arte da vida.

Diários pessoais e webcams na Internet”, de André Lemos – que, por sua vez, fora relatado por Paulo Vaz –

iniciou a discussão sobre este tipo de práticas comunicativas, assinalando a sua importância na atual

reconfiguração dos espaços público e privado. O presente texto pretende retomar esse convite, esboçando

novas linhas de reflexão sobre o assunto. (Obs: as citações dos blogueiros Steven Rubio e Aléxis Massie,

apresentadas nas epígrafes, foram extraídas do texto de Lemos).

2 BAJTIN, Mijail. Théorie et esthétique du roman. Paris: Gallimard, 1978. p. 280 Apud: ARFUCH, Leonor.



El espacio biográfico: Dilemas de la subjetividad contemporánea. Buenos Aires: FCE, 2002. p. 70.

XIX, quando um certo espaço de “refúgio” para o indivíduo e a família começou a ser

criado no mundo burguês, almejando um território a salvo das exigências e dos perigos do

meio público que começava a adquirir um tom cada vez mais ameaçante. Em seu livro O



declínio do homem público, Richard Sennett analisa esse processo de esvaziamento e

estigmatização da vida pública, e o surgimento concomitante das “tiranias da intimidade”.

Uma dupla tendência que, de acordo com o sociólogo norte-americano, obedeceu a

interesses políticos e econômicos específicos do capitalismo industrial.

Assim, pois, como mostra Witold Rybczynski ao reconstruir a história da casa, a

idéia de intimidade não existia na Idade Média. A necessidade, a sensação e a valorização

de um certo espaço “íntimo” foram surgindo e se constituindo ao longo dos últimos três

séculos da história ocidental. Foi, precisamente, com a paulatina aparição de um “mundo

interno” do indivíduo, do eu e da família, que as pessoas começaram a considerar o lar

como um contexto adequado para acolher essa vida interior que começava a florescer.

Desse modo, as casas foram se tornando lugares privados e, como explica o historiador,

“junto com essa privatização do lar surgiu um sentido cada vez maior de intimidade, de

identificar a casa exclusivamente com a vida familiar”. Em muitos desses lares começaram

a se definir funções específicas e fixas para os diversos cômodos, aparecendo inclusive os



cabinet, “um quarto mais íntimo para atividades privadas como a escrita”. 3 Outro

historiador, o inglês Peter Gay, comenta a importância que começou a ganhar um “sonho de

consumo” do século XIX: a possibilidade de se ter “um quarto próprio”, 4 no qual o mundo

interior do morador podia se expressar – dentre outras formas através da escrita – e ficar à

vontade. Pois, em contraposição aos rituais hostis da vida pública, o lar foi se

transformando no território da autenticidade e da verdade, um refúgio onde era permitido

ser “si mesmo”. A solidão, que tinha sido um estado raro na Idade Média, permitia o

desdobramento de uma série de prazeres até então inéditos, a resguardo dos olhares intrusos

e sob o império austero do decoro burguês.

Foram se configurando, dessa maneira, no despontar da Modernidade, dois campos

claramente delimitados: o espaço público e o espaço privado, cada um com suas funções,

suas regras e seus rituais próprios. Os escritos íntimos de Ludwig Wittgenstein oferecem

um exemplo particularmente interessante dessa delimitação rígida e precisa, pois seus

Diários secretos (publicados de maneira póstuma, contrariando a vontade explícita do

autor) replicam claramente tal cisão: nas páginas pares, o filósofo vertia suas vivências

pessoais numa linguagem codificada, enquanto nas páginas pares anotava seus

pensamentos públicos em perfeito e claríssimo alemão.



Relato e criação do eu

Os novos ambientes íntimos e privados que começaram a proliferar três séculos

atrás eram um verdadeiro convite à introspecção: nesses espaços impregnados de solidão, o

sujeito moderno podia mergulhar na sua obscura vida interior, embarcando em fascinantes

viagens auto-exploratórias que, muitas vezes, eram vertidas no papel. Como constatam

Alain Corbin e Michelle Perrot na passagem da História da vida privada relativa a esta

3 RYBCZYNSKI, Witold. Lo íntimo y lo privado; La domesticidad. In: La casa. Historia de una idea. Buenos

Aires: Emece, 1991. p. 50.

4 GAY, Peter. Fortificación para el yo. In: La experiencia burguesa, de Victoria a Freud, v. 1: “La educación

de los sentidos”. México: FCE, 1992. p. 374 a 426.

época de intenso “deciframento de si”, o “furor de escrever” tomou conta de homens,

mulheres e crianças, imbuídos tanto pelo espírito iluminista de conhecimento racional como

pelo ímpeto romântico de mergulho nos mistérios mais insondáveis da alma.5 A escrita de

si tornou-se uma prática habitual, dando à luz todo tipo de textos introspectivos nos quais a

auto-reflexão se voltava não tanto para a busca de um certo “universal” do Homem, mas

para a sondagem da natureza fragmentária e contingente da condição humana, plasmada na

particularidade de cada experiência individual. Inaugurada com grande estilo nos Ensaios

de Michel de Montaigne e confirmada, depois, nas paradigmáticas Confissões de Jean

Jacques Rousseau, a nova modalidade foi fazendo da literatura um imenso laboratório “no

qual as formas subjetivas modernas ganharam contorno e visibilidade”, como expressa a

psicanalista Maria Rita Khel em um artigo intitulado “Nós, sujeitos literários”.

As cartas, que também pertencem a esse conjunto difuso de gêneros conhecidos

como narrativas do eu, também foram se desenvolvendo e vivenciaram uma sorte de

apogeu no final do século XVIII, quando Goethe publicou seu romance Os sofrimentos do

jovem Werther, que recorria ao formato epistolar para narrar uma história de amor

romântico e trágico. O livro obteve um sucesso imediato e fulminante: a identificação dos

leitores (e das leitoras) com os personagens foi tão forte, que não motivou apenas a

imitação do estilo em milhares de missivas de enamorados anônimos; além disso, muitos

emularam o malfadado protagonista até as últimas conseqü.ncias: uma onda de suicídios

por amores não correspondidos sacudiu a Europa. Todos os corpos, sem exceção, eram

encontrados junto à imprescindível e arrebatadora carta derradeira. Não por acaso, diz-se

que Goethe ensinou seus contemporâneos a se apaixonar, seguindo a escola do movimento

romântico, bem como a sofrer, a viver e a ser. No mesmo período, outro romance epistolar

partilhava de sucesso semelhante: A Nova Heloisa, de Rousseau. Muitas obras marcantes

exploraram as virtudes do gênero que, como os diários íntimos, possuía um vínculo

evidente com a sensibilidade da época: de As relações perigosas, de Laclos, e O homem de



areia, de Hoffmann, até os populares Drácula e Frankenstein, para citar apenas alguns

exemplos ainda famosos.

Assim como as trocas epistolares, a escrita do diário íntimo foi uma atividade

burguesa por excelência, que floresceu no século XIX. Por isso, os romances psicológicos –

também fundamentais na construção do imaginário da época – não vampirizaram apenas a

forma epistolar mas também a da confissão íntima e cotidiana, a fim de construir uma rica

série de estratégias literárias de autenticidade e verossimilhança. Assim, uma infinidade de

personagens foi desbordando das páginas dos romances para influenciar fortemente as

subjetividades da época: de Emma Bovary ao jovem Törless, a escrita literária virou um

campo de identificações, uma fonte de roteiros de subjetivação para os indivíduos

modernos. Foi germinando, desse modo, uma forma subjetiva particular, dotada de uma

certa “interioridade psicológica”, na qual fermentavam atributos e sentimentos privados. O

repertório afetivo dessa esfera íntima podia e devia ser valorizado, sondado, cultivado,

protegido e enriquecido. Como afirma outro psicanalista brasileiro, Benilton Bezerra Jr., “o



homo psychologicus aprendeu a organizar sua experiência em torno de um eixo situado no

centro de sua vida interior”. 6

5 CORBIN, Alain; PERROT, Michelle. El secreto del individuo. In: ARIÈS, Philippe; DUBY, Georges.

Historia de la vida privada, v. 8: “Sociedad burguesa: aspectos concretos de la vida privada”. Madri: Taurus,

1991. p. 160.

6 BEZERRA Jr., Benilton. O ocaso da interioridade. In: PLASTINO, C. A. (org.). Transgressões. Rio de

Nos diversos gêneros da escrita íntima, os sujeitos modernos aprenderam a modelar

a própria subjetividade através desse mergulho introspectivo, dessa hermenêutica

incessante de si mesmo: no papel, a partir da matéria caótica e da experiência fragmentária

da vida, era preciso narrar uma história e criar um eu. Nessa atividade criativa, bem como

em qualquer outra modalidade de construção de si, sabe-se, a linguagem é o berço do

sujeito, que somente pode se constituir como tal a partir da interação com os outros e da sua

inserção em um universo simbólico compartilhado através do equipamento lingü.stico. “Eu

é um outro”, reza a famosa frase de Rimbaud, que cai como uma luva para definir os

protagonistas dos relatos autobiográficos e, também, a qualidade sempre fictícia do eu.

Embora seja difícil arriscar definições precisas, contudo, até hoje persiste a

diferenciação entre as narrativas de ficção e aquelas que se apóiam na garantia de uma

existência “real”, inscrevendo tais práticas em outro regime de verdade e suscitando um

horizonte de expectativas diferenciado, apesar da sofisticação das artimanhas retóricas

acumuladas, apesar dos séculos de treinamento dos leitores, e apesar dos abalos sofridos

pela crença numa identidade fixa e estável.7 Em tempos de incertezas, curiosamente, a

mítica singularidade do eu conserva a sua força – nutrida por uma cultura do

individualismo cada vez mais depurada, embora atravessada pelos sedutores ditados

identitários do mercado – e não cessa de convocar os mais sedentos olhares. Cabe lembrar

que os relatos autobiográficos, especialmente as diversas formas do diário íntimo, tiveram a

sua morte anunciada e confirmada efusivamente nas últimas décadas do século XX, sem

que ninguém previsse seu repentino ressurgimento nos novíssimos ambientes virtuais e

globais das redes eletrônicas.8 Resta saber, entretanto, se os sentidos dessas práticas

continuam a serem idênticos aos de seus ancestrais pré-digitais; a fim de indagar tais

questões, orientaremos o foco da análise para o contexto contemporâneo.
O imperativo da visibilidade
Uma vez relembrados os percursos que delinearam o fortaleceram o “mito do eu”

como protagonista dos relatos autobiográficos ao longo dos últimos séculos no mundo

ocidental, cabe perguntar: o que está acontecendo hoje em dia nessas arenas? Cada vez

mais, a mídia reconhece e explora o forte apelo implícito no fato de que aquilo que se diz e

se mostra é um testemunho vivencial: a ancoragem na “vida real” torna-se irresistível,

mesmo que tal vida seja absolutamente banal – ou melhor: especialmente se ela for banal.

Do mesmo modo, na Internet, pessoas desconhecidas costumam acompanhar com fruição o

relato minucioso de uma vida qualquer, com todas as suas peripécias registradas pelo

próprio protagonista enquanto elas vão ocorrendo, dia após dia, de hora em hora, minuto a

Janeiro: Contracapa, 2002.

7 Uma definição canônica é a do crítico francês Philippe LEJEUNE, que nos anos ‘70 propôs a noção de

“pacto autobiográfico” para diferenciar tais gêneros, desconsiderando as eventuais características próprias

desse tipo de textos (em virtude das coincidências formais com o romance autobiográfico e com outros

escritos de ficção, por exemplo) para localizar a sua especificidade num contrato de leitura peculiar, que

presume a crença – por parte do leitor – na identidade coincidente do autor e do protagonista desse tipo de

textos. Recentemente, LEJEUNE publicou Chér écran: Journal personnel, ordinateur, Internet, um estudo

sobre a escrita de relatos auto-referenciais em computadores, contemplando inclusive a prática do diário

íntimo publicado na Internet.

8 Uma das especialistas mas reconhecidas da área, Elizabeth W. BRUSS, autora de Autobiographical Acts:

The changing of a literary genre, escreveu no início dos anos 80 acerca da iminente desaparição do gênero,

diante das profundas transformações com relação à época que experimentou seu apogeu.

minuto, com o imediatismo do tempo real, por meio de torrentes de palavras que de

maneira instantânea podem aparecer nas telas de todos os cantos do planeta – textos que,

muitas vezes, são complementados com fotografias e, inclusive, com imagens de vídeo

transmitidas ao vivo e sem interrupção. Desdobra-se, assim, nas telas interconectadas pelas

redes digitais, todo o fascínio e toda a irrelevância de “a vida como ela é”.

É grande a tentação de compreender essas novas modalidades de auto-reflexão, de

expressão e de comunicação escrita (ou hipermídia) em torno do eu como um

ressurgimento da antiga prática introspectiva de exploração e de conhecimento de si, porém

adaptada ao contexto contemporâneo e aproveitando as possibilidades que as novas

tecnologias oferecem, dentre elas a interessante “liberação do pólo de emissão”. Como

ressaltou André Lemos em seu artigo sobre o tema, tal característica permite que qualquer

pessoa possa publicar o que quiser, concedendo aos diários íntimos contemporâneos uma

projeção que seus ancestrais pré-digitais jamais poderiam conseguir – embora convenha

acrescentar que, provavelmente, na maioria dos casos estes nem almejariam atingi-la, pois

tais textos cresciam envolvidos na mística do secreto e eram tratados como cartas dirigidas

ao remetente e somente a ele, de acordo com a célebre e feliz expressão de Jürgen

Habermas. Numa operação semelhante à anterior, então, os seguidores dos blogs e os fãs

das webcams poderiam ser comparados aos leitores ávidos de antanho, que se identificavam

com os personagens literários e construíam suas subjetividades a partir desses jogos de

espelhos. Os computadores e as redes digitais surgiriam, assim, como mais um cenário para

a colocação em prática da antiga “técnica da confissão”, essa modalidade de construção da

verdade sobre os sujeitos que há séculos vigora em Ocidente e cuja genealogia fora traçada

por Michel Foucault em seu livro A vontade de saber. É, sem dúvida, uma explicação

possível.Consideramos que se trata, no entanto, de um fenômeno muito complexo e rico,

cujas variedade e diversidade já são deslumbrantes, que se apresenta também como uma

inovadora prática comunicativa e de criação intersubjetiva, e que sem dúvida merece um

estudo aprofundado que vise a compreendê-lo de maneira ampla e detalhada.9 Neste artigo,

porém, iremos focalizar apenas um de seus traços, por considerá-lo significativo para captar

seu sentido como uma prática cultural característica da nossa época: a sua peculiar

inscrição na fronteira entre o extremamente íntimo e o absolutamente público. Como

explicar o curioso fato de que as novas modalidades de diários “íntimos” sejam expostas

aos milhões de olhos que têm acesso à Internet? A lente incansável de uma webcam, por

exemplo, que registra permanentemente cada detalhe de uma vida particular, nada mais é

do que um upgrade tecnológico do velho costume de anotar toda a minúcia cotidiana em

um caderninho de folhas amareladas? Essa exposição pública é apenas um detalhe sem

importância das novas práticas, que deixa intactas as características fundamentais dos

antigos diários íntimos? Ou se trata, pelo contrário, de algo radicalmente novo?

Neste ponto do caminho, duas atitudes intelectuais se apresentam como possíveis:

escolher a tese da continuidade e demonstrar que as novas modalidades “nada mais são” do

que simples adaptações contemporâneas das velhas práticas; ou, então, sublinhar a

9 Tal é a intenção do meu projeto de doutorado, “Cartas e diários. Do manuscrito à Internet: reconfigurações

da intimidade e da privacidade”, em desenvolvimento na ECO/UFRJ. Apesar da novidade da prática, já houve

aproximações ao tema e várias tentativas de sistematizá-lo, inclusive no Brasil, como a seguinte dissertação

de mestrado: ARAÚJO SCHITTINE, Denise. “Blogs: Comunicação e escrita íntima na Internet”. ECO/UFRJ,

12/09/02.

descontinuidade e tentar desvelar a especificidade das novas formas, de modo a captar tudo

o que elas trazem de novo e a perceber as implicações de sua introdução na presente

formação histórica. Esta segunda estratégia parece a mais promissora e instigante. Não

carece de interesse, porém, a comparação com as modalidades que podem ser consideradas

seus “ancestrais”, de algum modo, pois elas proporcionam um pano de fundo contra o qual

é mais fácil enxergar as inovações. Embora alguns hábitos pareçam sobreviver ao longo de

períodos históricos diversos, ganhando certa auréola de eternidade, convém ao pesquisador

se manter alerta e desconfiar dessas permanências: muitas vezes, as práticas persistem mas

seus sentidos mudam, como alertou Foucault ao sentar as bases do método genealógico de

pesquisa histórico-filosófica. Do contrário, corre-se o perigo de naturalizar aquilo que é

uma mera invenção, perdendo a ocasião de compreender toda a riqueza da sua

especificidade histórica e do seu sentido na formação social particular que a acolhe.

Sustentaremos aqui, então, que o fato dos novos diários íntimos serem publicados

na Internet não é um detalhe menor, pois o principal objetivo de tais estilizações do eu

parece ser, precisamente, a visibilidade – em perfeita sintonia, aliás, com outros fenômenos

contemporâneos que se propõem a escancarar a minúcia mais “privada” de todas as vidas

ou de uma vida qualquer: dos reality-show decalcados no modelo Big Brother às revistas

no estilo Caras, dos programas de TV que se inscrevem na linhagem do Ratinho livre à

proliferação de documentários em primeira pessoa, do sucesso editorial das biografias à

crescente importância da imagem nos políticos e em outras figuras públicas, etc. Nada mais

privado, porém, vale lembrar, que um diário íntimo à moda antiga. Estes eram furtados à

curiosidade alheia, guardados em gavetas e esconderijos secretos, muitas vezes protegidos

por meio de chaves e senhas ocultas – chegando a se converter, inclusive, em práticas

seriamente proibidas e perseguidas por maridos e pais, por exemplo. Enquanto isso, o

universo dos computadores e da Internet, essa autêntica “rede de intrigas” cheia de “pontos

de fuga”, não parece propício à preservação do segredo.

Todas essas tendências de exposição da intimidade que proliferam hoje em dia,

portanto, vão ao encontro e prometem satisfazer uma vontade geral do público: a avidez de

bisbilhotar e “consumir” vidas alheias. Nesse contexto, os muros que costumavam proteger

a privacidade individual sofrem sérios abalos; cada vez mais, essas paredes outrora sólidas

são infiltradas por olhares tecnicamente mediados que flexibilizam e alargam os limites do

dizível e do mostrável. Como entender tais processos? Podemos dizer, simplesmente, que

hoje o privado se torna público? A resposta intui-se mais complexa, sugerindo uma

imbricação e interpenetração de ambos os espaços (capaz de reconfigurá-los até tornar

obsoleta a distinção) e um certo do declínio da interioridade que costumava definir o homo

psychologicus, em proveito de outras construções identitárias baseadas em novos regimes

de constituição das imagens do corpo e do eu. Por tal motivo, as tentativas de explicação

que aludem a um mero aprofundamento quantitativo do narcisismo e do voyeurismo, por

exemplo, também são insuficientes; tratar-se-ia, pelo contrário, de expressões de uma

mutação mais radical na subjetividade contemporânea.

Acompanhando as mudanças que estão acontecendo em todos os âmbitos –

marcados pela aceleração, a virtualização, a globalização, a digitalização – as narrativas do

eu também atravessam profundas transformações. Hoje é possível detectar, por exemplo,

uma certa queda da psicanálise tradicional, respondendo à expansão das explicações

biológicas do comportamento físico e da vida psíquica. Estaríamos vivenciando, então, um

paulatino desbalanceamento na organização subjetiva, uma passagem do mundo abissal dos

sentimentos e do conflito inerente ao sentido trágico da vida (com seu tecido de regras

interiorizadas, transgressões e desejos reprimidos), para uma preeminência da

sensorialidade e da visibilidade instantânea, da lógica do impacto nervoso e efêmero, do

imperativo do gozo constante e do sucesso, da fruição do consumo imediatista, do bemestar

tecnicamente controlado, da performance eficaz no curto prazo, das identidades

descartáveis e da gestão empresarial dos capitais vitais. Como explica, novamente, Benilton

Bezerra Jr.: “Se na cultura do psicológico e da intimidade o sofrimento era experimentado

como conflito interior, ou como choque entre aspirações e desejos reprimidos e as regras

rígidas das convenções sociais, hoje o quadro é outro: na cultura das sensações e do

espetáculo, o mal-estar tende a se situar no campo da performance física ou mental que

falha, muito mais do que numa interioridade enigmática que causa estranheza”. 10 O

fenômeno dos diários publicados na Web, com toda a sua parafernália de confissões

multimídia e, especialmente, as webcams que transmitem “cenas da vida privada” ao vivo

durante as 24 horas do dia, fornecem um prisma privilegiado para examinar este

desvanecimento dessa interioridade clássica e as novas tendências exibicionistas e

performáticas que alimentam os atuais processos de identificação.

Os novos mecanismos de construção e consumo identitário encenam uma

espetacularização do eu por meio de recursos performáticos, que visa ao reconhecimento

nos olhos do outro e, sobre tudo, ao cobiçado fato de “ser visto”. Não parece se tratar,

portanto, de uma introspecção à moda antiga, ou seja: uma sondagem absolutamente

privada nas profundezas enigmáticas do eu com objetivos de conhecimento de si, dos

outros, da vida e do mundo. Mais do que uma carta remetida a si mesmo,

fundamentalmente secreta e introspectiva, então, os “diários íntimos” da Internet

constituem verdadeiras cartas-abertas com vocação exteriorizante.

Algumas conclusões

Longe de toda e qualquer nostalgia por um modelo subjetivo que marcou uma época

e caracterizou uma determinada formação histórica, com seus méritos e suas muitas

tiranias, a intenção deste trabalho é chamar a atenção para certas mutações em curso,

reivindicando a atualidade da pergunta pelo sentido e, também, a relevância do prisma

político para enxergar o que está acontecendo ao nosso redor. Ao esfacelar as dicotomias

que delineavam um mundo exterior hostil e perfeitamente diferenciado dos refúgios

privados para eu e a família, as novas práticas comunicativas que florescem nos cenários

digitais podem inaugurar interessantes trocas intersubjetivas. Do mesmo modo, nesses

cenários podem fermentar – e provavelmente já estejam fermentando – outras formas de

subjetivação. O fenômeno conhecido como “crise das identidades” foi largamente

denunciado nos últimos anos como um “mal de época”; entretanto, o esmaecimento de um

sentido de identidade que outrora parecia fixo e estável não é, necessariamente, uma má

notícia. Certas frestas promissoras podem se abrir nessa desestruturação do recalcado eu

ocidental, e a Internet se apresenta como uma arena especialmente propícia para a

emergência de novas configurações. O estímulo permanente do mercado na conformação

de subjetividades descartáveis, porém, não parece estimular a criação de territórios

existenciais realmente inovadores e formas menos sujeitadas de ser. Pois, como explica

Suely Rolnik em seu instigante artigo “Toxicômanos de identidade”, a dinâmica do

10 BEZERRA Jr., op. cit.

capitalismo contemporâneo detém uma ferocidade inusitada, e uma capacidade jamais vista

de capturar, copiar e vender “modos de ser” que ficam rapidamente obsoletos e, como tais,

após serem consumidos devem ser descartados e substituídos a toda velocidade por outros,

sempre desenhados sob o imperativo do gozo constante, da fruição e do sucesso

eminentemente visíveis.

Se no século XIX, em plena efervescência dos diários, das cartas, dos romances e

dos folhetins, tinha-se a sensação de que tudo existia para ser contado em um livro – para

lembrar a célebre expressão de Stéphane Mallarmé –, hoje a impressão é de que só acontece

aquilo que é exibido em uma tela. Contudo, como vimos, as diferencias não são apenas

sutis, ou concernentes a meras atualizações de suportes tecnológicos: o médio é a

mensagem, sabe-se, e além disso o mundo mudou e continua a mudar. Nesse sentido, a

liberação do pólo da emissão possibilitada por meios eletrônicos como a Internet, que

permite a “qualquer um” ser visto, lido e ouvido por milhões de pessoas – mesmo que não

tenha nada específico a dizer – talvez esteja dando conta dessa falta de sentido que marca as

experiências subjetivas contemporâneas: uma carência que consegue dotar de valor ao mero

fato de se exibir, de ser visível mesmo que seja na fugacidade de um instante de luz virtual.

Como o jovem protagonista do filme de Todd Solondz, Storytelling, para quem a única

possibilidade de fugir da abulia em que se encontrava imerso era a excitante promessa de

“ser famoso” e “aparecer na TV”, sem importar e sem poder sequer imaginar uma razão ou

um sentido para essa visibilidade.

Claramente, os “quinze minutos de fama” previstos por Andy Warhol como um

direito de qualquer mortal na era midiática, exprimem uma intuição visionária porém ainda

atrelada a outro paradigma: aquele inteiramente dominado pela televisão e pelos meios de

comunicação de massa no esquema broadcasting. É possível arriscar, então, que as redes

informáticas estariam cumprindo – do seu jeito e, talvez, de um modo mais radical daquele

que Warhol jamais poderia ter previsto – essa promessa que a TV não pôde satisfazer. No

entanto, o resultado de tamanha conquista pode ser desapontador, como bem constata

André Lemos nas conclusões do seu ensaio sobre o tema:

A vida comum transforma-se em algo espetacular, compartilhada por milhões de

olhos potenciais. E não se trata de nenhum evento emocionante. Não há histórias,

aventuras, enredos complexos ou desfechos maravilhosos. Na realidade, nada

acontece, a não ser a vida banal, elevada ao estado de arte pura. A vida privada,

revelada pelas webcams e diários pessoais, é transformada em um espetáculo para

olhos curiosos, e este espetáculo é a vida vivida na sua banalidade radical. A

máxima é: “minha vida é como a sua, logo tranqüilize-se, estamos todos na



banalidade do quotidiano”.11

Vale lembrar que essa tranqüilidade conformista, porém, que reconhece na

banalidade da vida alheia a própria mediocridade e, com isso, apazigua toda incômoda

inquietação e permite “suportar melhor a existência”, nem sempre foi um valor

incontestável. O forte interesse que essas histórias pequenas conseguem despertar, o raro

fascínio desses micro-relatos vivenciais, talvez seja a outra face de um fenômeno bem

debatido em anos recentes: a decadência dos grandes relatos que organizavam a vida

moderna, tanto em nível coletivo como individual, e a queda do peso inerte das figuras

ilustres e exemplares plasmadas nos relatos biográficos canônicos. Por isso, convém não

11 LEMOS, op. cit. p. 50.

esquecer que se trata de uma questão fortemente política, que contradiz de modo fragrante

outras propostas históricas às quais parece homenagear: basta lembrar que a bandeira da

“vida como obra de arte”, por exemplo, fora levantada de maneira inflamada e entusiasta

pelas vanguardas estéticas e por certas correntes filosóficas que marcaram a Modernidade,

em luta ativa contra a banalidade da vida cotidiana e contra o conformismo da

“sensibilidade burguesa”, e em prol da criação de novas formas de ser e de novos mundos

para sermos. Parece evidente, entretanto, que tais modos de subjetivação e tais vontades

políticas pertencem a outras épocas, tempos idos que instavam à escrita minuciosa de

diários íntimos na solidão do “quarto próprio” e ao estabelecimento de densos diálogos

epistolares, alimentados pela distância e pelos ritmos cadenciados de outrora. Textos

íntimos, enfim, nos quais as interioridades dos autores eram pacientemente vertidas,

zelosamente cultivadas e, também, pudicamente protegidas. Apesar de seu evidente

parentesco com tais práticas, porém, os blogs e as webcams que hoje inundam a Internet

(bem como os e-mails e os chats que os atravessam e sustentam) assinalam outros

processos e inauguram outras tendências, revelando a emergência de novos modos de ser:

subjetividades afinadas com uma formação histórica cada vez mais distante do tempo em

que fomos e devíamos ser absolutamente modernos.

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