Os Fantoches de Madame Diabo



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XAVIER DE MONTÉPIN

OS FANTOCHES DE MADAME DIABO


VOLUME II



CXXXII - AGRAVA-SE A SITUAÇÃO


A grande mesa de ébano que ocupava o centro da sala que servia de biblioteca ao palácio de Gordes, estava carregada de atlas, de cartões, de fotografias, e de obras antigas e modernas de todas as espécies.

Destacavam-se dentre essas obras os magníficos volumes que Raul mandara vir de Paris para satisfazer a fantasia da cunhada, que mostrou desejos de estudar a flora dos trópicos no jardim de inverno, enriquecido com os mais belos e preciosos exemplares.

Um dos volumes estava aberto, e a perfeição das suas figuras coloridas à aquarela por especialistas chamava a atenção.

Genoveva foi direita à mesa, tomou o livro, folheou algumas páginas, e colocando o dedo sobre uma gravura, disse ao doutor:

— Olhe, senhor Máximo... Oh! não há nada mais parecido do que isto! Eu, apesar de ser uma pobre mulher ignorante, dei logo com o que era à primeira vista...

Máximo olhou, e reconheceu também o arbusto, cuja seiva corrosiva lhe abrasava ainda a extremidade do dedo e a língua.

O que Genoveva chama ingenuamente uma coisa parecida, era a reprodução exata como uma fotografia do tanglin de Madagascar.

A legenda explicativa enumerava as propriedades tóxicas do arbusto, descrevia os sintomas característicos do envenenamento, resultante da seiva ou da infusão das flores, e indicava os remédios empregados pelos indígenas de Madagascar para combater esse veneno.

— Ah! aqui encontra-se tudo que lá está no jardim... acrescentou Genoveva; não falta nenhum...

E folheando outra vez o livro, a fiel serva mostrou a Máximo a gravura que representava o eufórbio da Abissínia, o pendanus de Java, todos os arbustos enfim cujos troncos apresentavam ligeiros golpes ou leves incisões.

Possuíam todos propriedades terríveis;na hierarquia dos venenos vegetais tinham lugar proeminente.

Máximo sentiu-se gelado de horror.

O pensamento que lhe acudiu ao espírito causava-lhe indizível assombro, e baldadamente tentava, senão expulsá-lo, ao menos combatê-lo. Mas esse pensamento vencia o seu propósito, perseguia-o implacavelmente, impunha-se tiranicamente.

Não tardou muito que o terrível pensamento se manifestasse nas suas palavras...

— Genoveva, perguntou ele em voz baixa, após largo silêncio, sabe se havia estes livros na biblioteca antes do casamento de Gordes?

— Não, senhor, respondeu sem hesitar a digna camarista de Joana.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Em que firma as suas convicções?

— O senhor Conde mandou-os buscar ao caminho de ferro, a Orleans... Vieram de Paris, num caixote... por sinal que era muito pesado...Foi o Justino quem o abriu com toda a cautela... ainda ontem de tarde falamos disso, porque o pobre homem feriu um dedo nos pregos... Já, senhor Máximo, que posso ter a vaidade de não me enganar...

— Há quanto tempo vieram os livros?

— Há quinze dias ou três semanas, pouco antes da senhora Condessa adoecer.

Máximo teve um calafrio.
* * *
A luz fazia-se gradualmente.

O assassino premeditara as coisas e não perdera o tempo. Apenas se ocultara nas sombras do mistério! — O crime tornava-se inverossímil à força de imprudência, mas os grandes criminosos têm por vezes audácias felizes que os salvam, colocando-os habilmente ao abrigo dás suspeitas.

— Genoveva, replicou o doutor, quais foram as circunstâncias que obrigaram a sua atenção a fixar-se nas coisas suspeitas que se passavam aqui?

— Parece que o bom Deus me tomou pela mão e me guiou, respondeu ela. No dia em que vim procurar o senhor Conde da parte da senhora, vi de longe as estampas desses livros, e pareceram-me curiosas... No dia seguinte voltei para as ver à minha vontade, enquanto a menina Renée estava acompanhando a senhora Condessa e o senhor Conde tinha saído.

— Julguei reconhecer algumas folhas dás pintadas nas estampas pela semelhança que tinha com as que vi nas plantas da estufa, porque eu adoro as flores. Quis certificar-me, desci ao jardim. Naturalmente, enquanto examinava alguns arbustos, notei os pequenos golpes que ainda há pouco lhe mostrei... Primeiramente admirei-me, depois senti uma tal qual inquietação, sobretudo pela quantidade de incisões feitas nos arbustos que o livro apresentava como destilando perigosos venenos...

Este fato impressionou-me tanto, que a imaginação não deixava de me sugerir não sei que funestas coisas... Pensei na senhora Condessa, e na sua doença singular, complicadíssima, que nem o senhor doutor, nem os seus colegas de Paris podiam compreender... Numa palavra, a idéia de um crime passou-me pela cabeça, por mais que eu dissesse a mim mesma que isto era uma tolice, uma grande loucura.,. Desviava do meu espírito os juízos temerários, as más apreensões, e por momentos senti-me liberta do pesadelo, mas voltava pouco depois, mais forte, dominando todas as minhas faculdades... Um pensamento funesto que não me deixava dia e noite; crescendo sempre; roubando-me a tranqüilidade do sono e a paz no trabalho; até que, por fim, senhor, cheguei a ponto de me sentir asfixiada se não lhe dissesse este mau estar... Fiz bem, senhor doutor?

— Sim, fez bem, replicou Máximo; Deus a recompensará.

— Então perguntou Genoveva, consinta que lhe pergunte se se convence de haver verdade nas minhas suposições?

Máximo hesitou; não teve ânimo de responder.

Sem dúvida partilhava a opinião da boa criatura, mas não queria deixar-lhe ver claramente a convicção de que estava possuído, temendo que da sua parte houvesse alguma imprudência, e desejando dar ao sei espírito tempo preciso para refletir e tomar uma resolução definitiva.

Para iludir Genoveva no que respeitava às suas intenções, replicou de maneira ambígua:

— Quer saber o que penso de tudo isto, Genoveva? Dir-lhe-ei que estou e não estou convencido do envenenamento... Isto é realmente singular!

A dedicada serva volveu-lhe um olhar de profundo espanto.

— Torno a repetir o que há pouco disse, continuou ele, as coisas que estão sucedendo nesta casa inspiram as maiores suspeitas... A existência do crime parece, infelizmente, senão certa, pelo menos provável, mas o crime é por tal modo monstruoso, que para acreditar nele, para que possa formular, sobretudo, uma acusação positiva contra o suposto assassino, tenho necessidade de novas provas, mais evidentes, mais convincentes do que as que me fornecem as investigações que fizemos... As aparências são fulminantes, convenho, mas o erro e possível, e sabe Deus quantos inocentes têm sido condenados por falsas aparências!... Compreende o que quero dizer, Genoveva?

— Perfeitamente, senhor. Contudo, o livro, as incisões, os venenos, o estado desesperado da senhora Condessa, tudo isso é evidente...

— Evidentíssimo, por desgraça nossa! Mas admitido o crime, quem é o criminoso? Ignoramos, e é precisamente o que importa saber...

— Sim, senhor doutor...

— Para chegar a descobri-lo, a Genoveva pode ser-me útil...

— Senhor, estou pronta para tudo... Ordene... Que devo fazer?

— Tem confiança em mim, Genoveva?

—Como em Deus! exclamou a reconhecida criatura. A quem poderia eu confiar este segredo senão ao senhor?

— Seguirá os meus conselhos?

— Obedecerei a todas as suas ordens...

— Em primeiro lugar, Genoveva, não deve dizer a ninguém uma única palavra do que me contou...

— Oh! não, creia... Viu como hesitei... como estava assustada... Tinha medo de que me julgassem doida...

— Continue como se não tivesse desconfiança nem suspeitas... Seja o que for antes de descobrir este terrível crime...

— Mas, senhor doutor, balbuciou a pobre mulher, consentir que envenenem friamente aos meus olhos a senhora Condessa? A Senhora dos Aflitos me valha! Todas as vezes que tenha de dar-se-lhe uma colher, um copo de qualquer remédio, por minha mão ou pela da menina Renée, sentir-me-ei transida de horror e susto, e perguntarei a mim mesma se o que ela vai beber será o último veneno.

— Descanse, sossegue o seu espírito atribulado, minha boa Genoveva... Tomarei as precauções convenientes... descanse. Tem sido a Genoveva que até hoje preparou todas as bebidas que receitei?

— Sim, senhor...

— Só?


— A menina Renée algumas vezes me ajudou...

— E alguns dos criados?

— Nunca.

— A porta da botica é costume estar aberta?

— Não; mas a chave fica na fechadura... Quem quiser pode entrar... É preciso tirar a chave?

— É inútil... Deixe as coisas como até hoje têm estado... Onde colocava as poções e tisanas preparadas?

— Nos primeiros dos dois gabinetes de toilette que ficam entre os aposentos da senhora Condessa e os da menina Renée...

— Sempre aí?

— Sempre por uso e costume.

— A esse gabinete ia mais alguma criada ou criado?

— Desde que a senhora Condessa adoeceu, ninguém lá entrava, â exceção do senhor Conde, a menina Renée, o senhor doutor e eu...

— O senhor Gordes ia lá muitas vezes?

— Algumas.

— Viu que ele mexesse nos frascos ou nas garrafas?

— Não me recordo... Dava tão pouca importância a essas coisas! Contudo, parece-me que uma vez vi o senhor Conde agarrar numa garrafa e levantá-la à altura dos olhos, defronte da janela, como para -verificar a maior ou menos transparência do líquido.

— De hoje em diante a senhora Condessa não tomará beberagem alguma sem que eu primeiramente prove... disse Máximo; o essencial porém é que a minha vigilância passe desapercebida.

— Mesmo do senhor Conde e da menina Renée? perguntou Genoveva.

— Tanto da parte deles como de outras quaisquer pessoas.

— Tenciona então não lhe revelar coisa alguma do que se passa?

— O mais rigoroso silêncio... por enquanto... É preciso que o segredo fique unicamente entre nós, minha boa Genoveva, para que o criminoso não desconfie...

Tem razão, senhor doutor; agora, que sabe de onde o mal parte, será possível combatê-lo e salvar a pobre senhora Condessa?

E a boa e fiel criada, falando assim, juntava as mãos numa atitude suplicante.

— Ah! como seria feliz se o pudesse dizer! respondeu dolorosamente o dedicado médico; temo que a obra maldita da perversidade vá muito adiantada para que a salvação seja possível... O que neste momento sei, não passa de conjeturas... mas a certeza não tardará!... Então, tudo que humanamente depender das forças do homem, farei com a maior dedicação, e com o auxílio de Deus, talvez consiga...

— Deus o abençoará, senhor Máximo, porque a minha querida senhora é um anjo!

Máximo deixou Genoveva recomendando-lhe silêncio.

Foi experimentar e analisar as beberagens receitadas, nas quais não encontrou nada de suspeito; verificou que a situação da enferma não tivera modificações, depois voltou ao seu gabinete a fim de refletir, porque a mais absoluta desordem reinava-lhe no cérebro e perturbava-lhe a razão...

CXXXIII - QUEM SERIA O CRIMINOSO?
Máximo Giraud, repetimos, não podia agora conservar a sombra de uma dúvida sobre a terrível gravidade da situação. O envenenamento tornava-se indiscutível. A sua grande preocupação era descobrir o assassino.

A quem atribuir a sinistra malvadeza? Não sabia, mas alastrando as suas suspeitas, fazendo raciocínios, chegou a formular de uma maneira instintiva esta acusação pungentíssima:

— O Conde de Gordes é um assassino!

A lógica dos fatos, com efeito, expunha Raul a toda a luz das suspeitas. As circunstâncias que relatamos no capítulo antecedente formavam para o marido de Joana um núcleo de presunções quase equivalentes a provas.

A idéia que determinava o crime não se desenhava distintamente, é verdade, e o doutor achava-se a braços com as mais intrigantes conjeturas. mas a reflexão e mesmo o passado do Conde, davam a essas conjeturas o cunho especial de uma espantosa probabilidade.

Máximo sabia, como todos no país, que o senhor de Gordes saíra de França com uma senhora, cujo marido tinha gravemente ferido num duelo.

Essa senhora morrera numa cidade de Itália, longe do seu país, longe de sua família, e ninguém, que ele conhecesse, teve o menor interesse em informar-se da natureza da doença, e das circunstâncias que precederam a morte da esposa adúltera...

Quem sabe se o Conde, pouco mais ou menos convicto da importunidade, teria despedaçado por um crime, uma ligação que se lhe tornava importuna?...

Regressando à França, apaixonara-se loucamente por Joana, ou pelo menos julgou que o estava... E talvez que o amor, ou o que ele lhe pareceu ser amor bem fundo e íntimo, apenas sobrevivesse alguns meses à posse do objeto amado...

Então, sem dúvida, Raul refletira que dando o seu nome a uma pobre menina de origem burguesa e sem dote, tinha cometido a parvoíce de manchar os seus pergaminhos com uma aliança desvantajosa..

Admitindo, pois, que a natureza do senhor de Gordes era daquelas que podem ser instintivamente classificadas de perversas, audaciosamente celeradas, que se encontram no estado de exceção em todas as classes da sociedade, este terrível fantasma do amor devia ter a terrível idéia de despedaçar os laços, núpcias por meio dos processos sumários que já empregara com bom êxito, graças aos quais quebrara irremissivelmente a cadeia adúltera, e o assassino de Julieta tornava-se o de Joana...

Máximo dizia, pensava estas coisas entre convulsões de horror!...

Havia momentos em que admitia, sem discussão, a culpabilidade de Raul, mas uma reação brusca, repentina, operava-se nele e revoltava-se contra a fácil credulidade que se apresentava nas brumas do pensamento o espectro de um crime...

— Não! não é possível! murmurava ele tremendo de frio. Uma tal infâmia seria monstruosa! A fisionomia do senhor Conde tem o quer que seja de iniludível de homem honesto!... Nas suas afeições abatidas está gravado o sulco de uma agudíssima dor... Vi os seus olhos inundados de lágrimas... Para julgá-lo, para condená-lo, esperarei Uma prova decisiva, material, esmagadora, perante a qual a razão se curve vencida... Mas se ele é inocente, quem será então o criminoso?

Máximo passou largas horas debatendo-se nestas amargas lutas contra si mesmo.

Terminava sempre por ficar prostrado, mas fugia-lhe a luz que procurava; as trevas envolviam-no como quando se sentiu mordido pela víbora da suspeita.

À noite, ao chá, achou-se só com Raul.

Renée quis ser servida no quarto da enferma, que de modo algum queria abandonar.

O doutor aproveitando o ensejo, rivalizou em habilidade com o mais sagaz juiz ou comissário de policia, e o senhor de Gordes foi sitiado por um verdadeiro interrogatório, a que se prestou sem a menor desconfiança.

As suas respostas firmes, simples, espontâneas, destruíram quase totalmente as suspeitas de Máximo.

Havia no seu olhar tanta limpidez e melancólica ternura, e quando falava de Joana eram tão comoventes, tão manifestamente repassadas de mágoa que lhe golpeava o coração, o seu enternecimento tão dilacerante que chegou a uma crise dolorosa, cruel, despedaçadora; que Máximo comoveu-se profundamente e pensou.

— São os soluços e a dor do desespero, e não do remorso... O Conde não é o criminoso... É preciso descobri-lo...

O chá terminou sem incidentes.

Pelas dez horas da noite, Máximo voltou ao seu gabinete, e como O Édipo interrogando a esfinge, dispôs-se novamente a arrancar o segredo do indecifrável enigma.

Sabia que o estado de agitação moral em que se achava, a febre física que o abrasava não lhe permitiria conciliar o sono; não se despiu, ora de pé, ora sentado, passeava de uma a outra extremidade do quarto, cansava-se, caia inerte sobre uma cadeira, e procurava, procurava sempre, constantemente, mas sem resultado a solução do problema.

No relógio do castelo soava meia-noite; Máximo estremeceu,, acordou da sua letargia, e as vibrações das badaladas distraíram-no um instante do seu formidável e inútil pensar.

Tinha o cérebro incandescido, o sangue corria-lhe nas veias aos golfões, a atmosfera pesava-lhe, asfixiava-o. Abriu uma janela, encostou-se ao parapeito de pedra esculturada, e apresentou a fronte incendiada às carícias doces e refrescantes da noite.

A noite estava serena, tranqüila, bela, mas sem lua. Milhões de estrelas tremeluziam na pura vastidão do céu.

A sombria ramagem dos renques de faias traçavam sinuosas linhas de um profundo escuro até o horizonte. Dos lagos levantava-se um nevoeiro transparente, e ao fundo pardacento dessa neblina os grandes carvalhos isolados, e os velhos e corpulentos castanheiros desenhavam o intrincado recorte e a meada embaraçada dos seus enormes troncos negros como tinta.

Máximo pensou que seria para o seu espírito atribulado um grande alívio físico e moral passear, errar durante uma ou duas horas no meio do silêncio dessas trevas, sob as abobadas das imensas áleas, e penetrar no fascinante mistério noturno das brumas opacas.

As três salas que compunham os seus aposentos eram situadas no segundo andar, no ângulo esquerdo do edifício.

Um corredor largo como uma galeria conduzia à grande escada do palácio.

Máximo conhecia perfeitamente a disposição interior do palácio para dispensar o auxílio da luz.

Meteu apenas uma caixa de fósforos na algibeira, percorreu o corredor de alcatifa indiana, desceu a escada revestida de espesso tapete de Smyrna, que abafava o ruído dos passos, e achou-se no "rez-de-chaussée".

A grande entrada do vestíbulo era sòlidamente fechada e trancada, por uso e costume, ao cair da noite; Máximo, porém, sabia que existia uma pequena porta também fechada, cuja chave ficava na fechadura.

Abriu-a, cerrou-a sobre si, desceu os degraus largos e polidos, e em lugar de seguir pela álea circular, dirigiu-se para o imenso tabuleiro de relva, em forma de estrela, úmido do relento da noite.


* * *
Quando percorreu certa distância voltou-se para abranger, num lance de vista, a vasta fronteira do silencioso palácio, onde a única mulher que amou, a única que ele amaria na vida, se definhava lentamente, sem que pudesse salvá-la mesmo a custa da própria existência.

A monumental fachada do palácio principesco estava completamente imergida nas trevas, exceto duas janelas do andar nobre em cujas vidraças ondulava um pálido clarão.

Eram as janelas da alcova de Joana.

Máximo transportou-se pelo pensamento ao interior dessa alcova, o seu espírito pairou em roda do grande leito à luís XVI, sustentado sobre um estrado apoiado em dois degraus, quase envolvido numa finíssima onda de brocatel azul celeste, trabalhada a ponto de Inglaterra.

A loura cabeça e o pálido e simpático rosto da jovem moribunda como que lhe apareceram distintamente, quase mergulhada nas rendas das almofadas.

Pareceu-lhe ver o Conde de Gordes e Renée, sentados a um e outro lado do fúnebre tálamo, escutando a respiração difícil, embora suave, de Joana, e perguntando-se com angústia se cada hálito da meiga e doce criatura, seria o último sopro de vida que lhe fugia para sempre.

Uma lâmpada Carcel, colocada sobre um móvel e velada por amplo abajur, iluminava esta cena profundamente triste, e tingia as vidraças de reflexos lácteos e oscilantes, que Máximo contemplava de longe...

O coração do pobre doutor estalava nas garras de uma dor agudíssima...

Baixou pouco a pouco os olhos úmidos, e de repente estremeceu e fez um gesto de surpresa, como se alguma coisa de estranho e singular lhe tivesse passado ao alcance da vista.

Da posição em que se achava neste momento, Máximo avistava perfeitamente o perfil das construções do jardim de inverno, continuando a asa esquerda do edifício, como um palácio de cristal soldado ao flanco de um palácio de granito.

O cintilar intermitente das estrelas refletia-se nas vítreas transparências das elegantes cúpulas das estufas, orlando-as de arabescos de vagas claridades.

Ora, o doutor interviu nas estufas, quase ao nível do solo, uma pequenina luz, comparável de longe ao clarão fosforescente de um fugaz meteoro.

Esta luz ia, vinha, girava sobre si mesma, desaparecia, reaparecia, permanecia imóvel durante alguns segundos, depois entrava novamente em movimento.

Quem seria que a essa hora noturna, quando todos deviam dormir no palácio, passeava no recinto das estufas? qual seria o fim desse passeio a horas mortas? que significava essa luzinha irrequieta, denotando a atividade da pessoa que a levava?

Máximo formulou a série de perguntas que acabamos de indicar, e resolveu a questão de um modo inteiramente favorável às preocupações em que andava embrenhado.

— É Deus que me envia a prova material que lhe solicitava! disse ele com exaltação. O assassino vai cair em meu poder

Que outra pessoa poderia ser, com efeito, senão o envenenador, que a essas horas da noite percorria as solidões do jardim de inverno, fazendo a infernal colheita de venenos?...

Ninguém!...

O doutor mudou de rumo a sua divagação, dirigiu-se para o palácio, ou antes para o ângulo esquerdo onde estavam situadas as salas de recepção que se comunicavam com o jardim de inverno.

À medida que se aproximava, o pequeno clarão vagabundo tornava-se mais distinto, mas, ao mesmo tempo, mais insólito. Apresentava a irradiação pálida e extravagante de uma lanterna entre um nevoeiro pouco denso.

Enfim Máximo atingiu os largos socos de cantaria sobre que assentava a armadura metálica das imensas estufas.

Estendendo a mão podia tocar as vidraças.

Nada seria mais fácil do que ver o que se passava no âmbito do círculo luminoso, descrito pela lanterna do lado oposto àquele de que se aproximou.

A decepção, porém, não tardou e foi esmagadora.

O doutor compreendeu logo o efeito da irradiação alvacenta de que falamos. A tépida exalação vaporosa do interior, condensando-se no cristal, roubava-lhe a transparência. Descobria-se apenas um ponto luminoso, mas nem contornos, nem formas, ou linhas precisas se acentuavam.

— É preciso entrar! pensou o médico, e começou a procurar as janelas das estufas, que era costume abrirem-se quando a temperatura era tépida e suave.

Estavam corridas.

Os jardineiros quando acabavam o trabalho, ao anoitecer, fechavam-nas por dentro.

Máximo fez um gesto de raiva...

Sentia-se perto do miserável que desejava surpreender e desmascarar; estava separado dele por uma fraca barreira, uns frágeis vidros, mas essa barreira era tão sólida como se fossem de bronze!

Teve a idéia de despedaçar a vidraça, embora dilacerasse as mãos e rasgasse o rosto, e penetrar no silencioso âmbito da estufa.

Mas a reflexão obstou ao seu propósito. Se o levasse a efeito seria avisar o assassino. Ao ruído dos vidros quebrados, o infame apagaria a lanterna denunciante, e desapareceria nas trevas internando-se depois nas espessuras do parque onde todo o vestígio ficaria perdido.

Máximo tomou apressadamente a direção da porta por onde tinha saído, e foi pensando:

— Para qualquer parte do palácio para onde o malvado queira ir, terá de atravessar os salões e de passar pelo vestíbulo... Irei adiante para o espreitar... A obscuridade protege-me, o som dos passos adverti-me-á da sua aproximação, e quando passar por diante de mim ver-lhe-ei o rosto...

CXXXIV - A SURPRESA
Poucos momentos depois, Máximo chegava à porta e subia rapidamente os degraus.

Fechou-a sobre si e parou para escutar; só ouviu o ruído da sua respiração ofegante, e as precipitadas pulsações do seu coração.

O vestíbulo do palácio de Gordes era tão vasto como o hall das habitações aristocráticas de Inglaterra.

A sua altura tornava-o sonoro como a nave de uma catedral gótica.

Troféus de caça e panóplias enfloravam o centro de grandes painéis forrados de velho couro de Córdova com arabescos de flores em relevo, sobressaindo o fundo dourado um pouco esbatido.



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