Os mensageiros secundários



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Clara Pinto Correia



Os mensageiros secundários




Os mensageiros secundários

Clara Pinto Correia

Colecção MIL FOLHAS

Público - 54

Relógio d’Água Editores, Junho 2000
Data de impressão

Maio 2003


ISBN 84-96075-63- X
Depósito Legal B. 17 107-2003

Para quem pensar que existem textos nesta obra que são bons demais para serem verdade, permitam-me esclarecer que todas as citações a negro provêm de originais portugueses do século XVIII. Existem também citações de fontes francesas e inglesas do mesmo período. Tudo o que era intraduzível foi deixado na língua de origem. Para as referências completas, ver BIBLIOGRAFIA.


Para o Helder Macedo, meu mestre e mensageiro



A luz que vos baptize



Gosto de pensar que as coincidências são o truque que Deus inventou para se manter anónimo. Tenho a certeza absoluta de que Deus não deixou de falar connosco há dois mil anos, e gosto deste jogo quotidiano e secreto de tentarmos ouvi Lo por entre todos os ruídos do mundo. Algures pelo meio de todas as nossas matas densas, de todos os nossos desertos áridos, de todos os nossos mares sem terra à vista, de todos os nossos castelos e de todas as nossas ruínas, nos olhos dos nossos filhos e nas explosões de cólera dos nossos amantes, andam de certeza espalhados fragmentos secretos de um código oculto. São as mensagens que os outros, há já muito tempo ou ainda só amanhã, deixaram para nós, sem conhecerem sequer o jogo enorme que está em curso desde o princípio dos princípios e vai continuar a desenrolar se até ao fim dos fins, o que é o mesmo que dizer que nem sequer teve princípio, e de certeza que nunca vai ter fim. Gosto de pensar em Deus assim, no fim do Céu, paciente e mudo, a jogar a um jogo em que vale tudo.

Desde 1991 que eu queria escrever um romance chamado «OS MENSAGEIROS SECUNDÁRIOS». A mensagem veio ter comigo quando eu estava na UMass a fazer o pós doutoramento, e um dos meus colegas de clonagem trabalhava especificamente em picos de Cálcio intracitoplasmáticos subsequentes à ligação do espermatozóide à membrana do ovo, em variações de Inositol Tri fosfato e em mediações asseguradas por Adenosina Mono Fosfato cíclica. Houve um dia em que eu estava afazer tabelas de dados no computador e ele entrou no gabinete todo abafado e agarrado a uma grande pilha de artigos, e perguntou me se eu sabia quem é que no departamento tinha assinatura do Molecular Development and Reproduction, e explicou me que precisava urgentemente de um artigo que tinha lá sido publicado nesse mesmo mês, e a seguir esclareceu que aquela pressa toda era porque ele ia apresentar às quatro da tarde uma comunicação no Secondary Mêssengers Journal Club. Até aí eu estava a ouvir só com um canto pouco importante do ouvido interno, mas nesta altura larguei o teclado. E disse, bem, quem não souber nada de Biologia até pensava que a gente estava para aqui a falar de alguma seita esquisita, o Clube dos Mensageiros Secundários, já reparaste bem? E a seguir aquilo agarrou se ao que está mesmo mais dentro de mim, cresceu me imenso a alma, fiquei com o meu interior todo aceso, até me levantei: Santo Deus, Rafael. Os Mensageiros Secundários. Que título do caraças para um romance.

Depois o título ficou muitos anos à espera de uma luz que o baptizasse.

Em 1995 eu andava ainda afazer investigação para o meu estudo das teorias da Reprodução, «O Ovário de Eva», e o capítulo IV tinha que lidar, entre muitas outras coisas, com o velho problema humano de explicar a génese dos chamados «monstros» que na altura se estendiam das crianças deformadas aos animais exóticos revelados pelos Descobrimentos, e se prolongavam sem compartimentos nem sobressaltos até aos dragões e aos basiliscos. Houve um dia, na biblioteca dos livros antigos, em que com o keyword dactilografei simplesmente «monstros». Apareceram me 547 títulos. Fui os peneirando a todos, e, já muito para o fim da lista, começaram a aparecer me umas coisas muito estranhas escritas em português.

Mas não era o nosso português de hoje.

Era, inconfundivelmente, português do século XVIII.

E, mais especificamente, o português plebeu em que se imprimiam os folhetos anónimos de dez páginas vendidos na esquina da rua por dois centavos, o português das massas que era o único que todas as massas que sabiam ler liam com avidez. Aquele era o português que era mesmo do povo português, e na minha base de dados esse português estava a ser usado para descrever visões de monstros. Notícia e relação de um estupendo monstro silvestre que apareceu em Jerusalém. Emblema vivo, ou relação de uma criatura vista e capturada na Anatólia. Os títulos eram todos assim. Fiquei maravilhada, sugestionada, inquieta, mas não tinha tempo. Era preciso acabar o outro livro. Marquei as referências portuguesas, e só voltei à biblioteca para averiguar o que seria que elas tinham lá dentro um ano e meio depois.

E, nessa altura, no silêncio religioso que banha aquele género de bibliotecas, li tudo.

Li tudo da primeira à última palavra, com a alegria de quem descobre um minúsculo jardim das delícias que ainda mais ninguém profanou, e com a vertigem de quem pressente que está à porta de um segredo que não nos visitaria nem em sonhos, porque nem em sonhos ousamos arrastar até tão longe a nossa capacidade de ficção. Nestes textos góticos e ingénuos, todos eles devidamente acompanhados de gravuras infantis representando com imenso detalhe o monstro em questão, comecei a encontrar sinais que me deixaram atordoada, e de que não posso falar mais agora para não liquidar o prazer da história. Mas posso pelo menos dizer que não era só um sinal. Nem dois. Eram três. E que sinais. Tão tremendos, tão poderosos, marcados num lugar tão ímpar do nosso caminho. Vá lá, acho que não estrago nada se explicar que esse lugar era o terramoto de Lisboa em 1755. Para quem gosta tanto de sinais como eu gosto, e encontra neles todas as ressonâncias que eu encontro, o apelo não podia ser mais irresistível. Fui ver ao computador central, e aqueles panfletos anónimos nunca tinham circulado. Quer dizer que nunca tinham saído da prateleira. Quer dizer que ninguém dos nossos dias os tinha lido. No silêncio solene da biblioteca de livros antigos, acreditei que um mensageiro secundário que eu não conheço os guardou ali para mim e me conduziu até eles.

Foi assim que nasceu este romance.

E que Deus é tudo menos auto explicativo.

E nós somos tão contra intuitivos como a relatividade.

E eu gosto disto.
«Quando as nossas penas são demasiadas, só a nossa alma pode senti-las. Como poderemos pintar com as nossas vozes os horrores que testemunhamos, a desolação, o assombro, o pavor, a ruína e a surpresa? Vimos Lisboa, a nova Atenas, onde a riqueza e a paz, e as artes e as ciências, as filhas da abundância antes floresciam, tornar se num só instante uma aldeia deserta e abandonada. Vimos os seus edifícios mais altos desfazerem se em pó, vimos as suas ruas sulcadas pelos mortos, pelos moribundos e pelos feridos. Vimos os Intérpretes da Lei, os Ministros dos Altares, as mulheres, as crianças, cobertos de sangue e de detritos, correndo sem saber para onde ir, caindo sob perigos sem nome enquanto tentavam escapar lhes. Vimos o Mar, o nosso antigo companheiro, virar se contra nós e ameaçar engolir os tristes restos que tinham escapado à raiva da Terra; e depois vimos o fogo destruir numa fúria selvagem os poucos sobreviventes ao furor dos outros dois Elementos.»
Anónimo

Lisboa,


Novembro de 1755

1

«Pela sexta hora, quando ao Deus Supremo



Brutalmente roubaram as modestas vestes;

Quando Ele aos mortais mostrou Sua ternura

Pregado em alta Cruz por tão impuras mãos;

Então tremeu a terra, e nesse pensamento

Treme, pecador, este meu coração.»
(Canto Fúnebre, IX)

Qual é o nosso problema? Por que é que nunca conseguimos desenvolver nos sem conseguirmos vislumbrar o pormenor insignificante que nos tornaria viáveis? Por que é que ficamos sempre aquém do último passo?

Os assírios não conheciam a compaixão.

Os incas não conheciam a roda.

Os egípcios não conheciam a alavanca.

Os viquingues não conheciam o parafuso.

Os romanos não conheciam a manivela, e não conheciam a ferradura   e, sobretudo, não conheciam o zero.

De onde é que vem esta nossa limitação fundamental? Qual é o elemento redentor que está quase ao nosso alcance e poderia salvar nos se nós pudéssemos vê lo?

A altura dos repuxos de todas as fontes de Stanford tem vindo a ficar cada vez menor todos os anos.

Por que é que não chove?

Por que é que chove sempre de mais, quando por fim começa a chover?

Por que é que as nossas civilizações têm sempre de chegar ao fim? O que é, onde é que está a lei que nos confina, o que é que nós não sabemos?

O que é, Chuck?

Recuso me a andar de bicicleta. É perfeitamente ridículo. Deixem nas ir e vir e cruzar e virar como ondas desordenadas de um oceano inútil, ou como os insectos atarefados de uma colónia frenética. Escolham a metáfora. É me indiferente. Ando a pé. Há doze anos que ando a pé pelo campus. 94305. Temos tanto terreno que até possuímos um código postal próprio. Deixem. Vou continuar a andar a pé. Estes milhões de bicicletas mais não são do que uma nova moda californiana inconsequente. Recuso me a seguir as modas.

Hoje de manhã, quando passei pela fonte que fica diante da biblioteca, aquela que tem no meio a escultura absurda que pretende lembrar nos as diferentes partes do corpo dos peixes, estavam lá de novo os rapazes do Mendecant, a cantar a capella dentro da água que lhes chegava acima dos joelhos. Talvez estejam a lançar um novo CD, ou isso. As coisas que as pessoas são capazes de fazer para chamarem a atenção dos outros. Depois passei pela fonte grande em frente ao Memorial Auditorium, e penso que foi isso que deu origem a todas aquelas reflexões acerca da altura da água que acabou por conduzir a mais uma destas minhas sequências de pensamentos profundos matinais.

A Lynette diz que eu estou sempre a fazer isto. Sempre a fazer perguntas. Sempre a reflectir sobre o porquê, o porquê, o porquê. Ela acha que eu ando sempre à procura de perguntas, mas está completamente enganada. Nunca lhe disse isto, apesar de ela já ser a minha mulher há quinze anos.

Do que eu ando sempre à procura é de respostas.

Gostaria de uma vez, pelo menos uma vez, encontrar uma resposta definitiva para uma pergunta.

Tirando isso, sou igual a toda a gente.

Penso que sou apenas mais um clone. As pessoas vulgares mal se diferenciam umas das outras. Somos todos iguais e temos todos os mesmos percursos. Acho que sou igual a milhares de outros homens que existem por aí, tal como a minha mulher é igual a milhares de outras mulheres que existem por aí, e que casámos um com o outro tal como poderíamos ter casado com milhares de outras pessoas que existem por aí e ninguém teria dado pela diferença.

Conhecemo nos na universidade. Eu não sabia nada. Já devia ter quinze anos quando percebi finalmente que as mamas das mulheres têm lá dentro o leite que alimenta os bebés. No Kansas namorei com uma rapariga. No liceu. Ou melhor, ela namorou comigo. Houve uma noite em que estávamos dentro do camião do meu pai a assistir a um filme com o John Wayne, e então eu toquei lhe nas mamas. Foi a coisa mais macia em que toquei em toda a minha vida. Não consegui ir mais longe, embora agora seja óbvio para mim, tal como penso que deve ter sido logo na altura, que ela queria que eu continuasse. Limitei me a mover lentamente a minha mão através daquele sonho de suavidade, acariciando cada ínfimo pormenor quase sem acreditar no que estava a sentir. Fechei os olhos e parti para um lugar fora do alcance de qualquer palavra que o descrevesse. E permaneci nesse lugar até os Flying Tigers terem acabado as suas acrobacias. Foi a única epifania verdadeira que experimentei até hoje. Percebi logo que nunca nada voltaria a ser como dantes. Eu acabava de ser contaminado pelo efeito que as mulheres têm sobre os homens.

Mas continuava incapaz de ir mais longe.

Pouco tempo depois da minha epifania ela arranjou um emprego, e deixou a quinta, e desapareceu numa cidade qualquer. Nessa altura as cidades, para mim, eram todas muito parecidas. Eram uns lugares assustadores que eu nunca tinha visto, onde as pessoas têm de fechar as portas à chave, e andar com cuidado na rua, e onde a toda a hora os outros violam o nosso espaço sagrado comprimindo se contra nós nas carruagens do metro e nos bancos do autocarro. Os homens mais velhos da família aperceberam se do meu desassossego e disseram umas frases crípticas sobre procurar mulheres baratas. Eu sabia o suficiente para perceber de que é que eles estavam a falar. Mas também sabia que, pela minha parte, não existiam mulheres baratas. Mesmo que eu lhes pagasse, e mesmo que pagasse pouco. Enquanto trouxessem em si a suavidade inexplicável das mamas, as mesmas mamas que têm lá dentro o leite que dá de comer aos bebés, estava fora de questão eu poder considerá las baratas.

Por isso não tinha para onde ir, e então fui para a universidade.

E como é mesmo verdade que a espécie humana tem um grande poder de adaptação, com o tempo acabei eu próprio por me orientar sozinho através de várias cidades.

Mesmo assim, continuava a sentir me demasiado tímido para sonhar sequer em abordar uma mulher. Estava firmemente convencido de que nenhuma iria querer falar comigo. Acreditava que era perfeitamente invisível, e suspeitava que o meu problema estivesse de alguma forma relacionado com toda a luzerna que tive de armazenar no celeiro durante os dias de canícula do Verão desde os primeiros anos da minha juventude. E parti do princípio de que estigmas deste tipo não têm redenção porque são doenças sem cura.

Mas, uma noite, no início do meu último semestre, meti me num carro com uns colegas e fomos a um bar que costumávamos frequentar e que também era frequentado por algumas raparigas.

Estava muito interessado na companheira de quarto da Lynette.

Por isso, bebi muita cerveja.

E acabei com a Lynette.

Alguém me sussurrou ao ouvido que a miúda sardenta era de Statten Island. Pareceu me uma proveniência extremamente estimulante. Mesmo em frente ao porto Manhattan. Manhattan. Oh fascinante Torre de Babel, saída directamente daqueles quadros do Bosch que retratavam o Inferno e que eu costumava perscrutar até ao último dos detalhes nas nossas aulas de arte. A miúda sardenta sabia certamente tudo aquilo que eu nem sequer sabia que havia para saber.

Mas, depois, tive aquela sensação estranha de que ela poderia ser apenas mais um clone como eu. Pensei nisso quando reparei que os nossos olhares já se tinham cruzado duas vezes e, depois da segunda, ela entrou numa corrida desesperada para se embebedar. Tal como eu. A contra relógio. Tudo ou nada. Nem sequer nos atreveríamos a falar um com o outro se estivéssemos sóbrios. Sim, ela era como eu. Também pensava que era invisível. Também tinha medo de que ninguém se apercebesse da sua existência. Vi a beber para ganhar coragem enquanto eu fazia precisamente o mesmo. Conhecia a sua maneira de pensar, porque era igual à minha. Ela não queria ficar sozinha durante o resto da vida, e não era por ter medo da solidão. Era apenas porque queria ter uma vida normal. E, na vida normal, as pessoas casam se, e têm filhos e, mais tarde compram uma casa, e pelo meio aturam delicadamente os sogros. Nem sequer consigo lembrar me do que dissemos. Atirámo nos um contra o outro no nosso pânico alcoólico. Agora ou nunca.

Nunca mais encontraríamos outro clone que pudesse reconhecer nos no canto de um bar.

Nessa noite dormi na cama dela. Limitei me a beijá la, e senti me perfeitamente satisfeito. Foi altamente gratificante. Ainda não tinha explorado outras possibilidades. Além disso, os beijos não implicam quaisquer riscos. Tinham me ensinado tão pouco que eu nem sequer conhecia a expressão coitus interruptus. E a última coisa que eu queria era engravidá la. Pelo menos antes de nos casarmos. Eu sabia, e ela também sabia, logo ali, nessa altura precisa, nessa primeira noite de inépcia, pelo meio dos nossos beijos ébrios, que nos casaríamos mal eu terminasse o curso e arranjasse um emprego. E então ela deixaria a universidade, e engravidaria, e criaria os nossos filhos, e faria trabalho de voluntariado na comunidade. Era tudo o que ela desejava. Era tudo o que eu desejava, tal como aqueles milhares de pessoas como nós.

Acabámos por aprender o suficiente para podermos ter relações sexuais antes de nos casarmos, e eu achei que o sexo era bastante bom. Não me despertava assim grandes sensações, como as que vêm nos livros, mas também não exigia muito de mim. E aprendi bastante depressa que os homens nunca devem dizer o que querem dizer, porque não é isso o que as mulheres querem que a gente diga.

E, portanto, já não havia assim muito mais para aprender.

Fui admitido num programa de doutoramento na Universidade da Pennsylvania, e a posição era paga por uma bolsa. Óptimo. Estávamos prontos para o casamento e para a promoção social decorrente.

Não posso dizer que desde essa altura tenha acontecido assim grande coisa na minha vida.

Quer dizer, tive quatro filhos e acabei por ser professor associado aqui em Stanford.

E, a propósito, acabei de entrar no meu gabinete. E, agora, é dolorosamente óbvio que estou extremamente nervoso quanto ao que vai acontecer amanhã.

Não gosto de estar nervoso. É contrário à minha natureza.

E portanto vou mas é reler isto tudo e tentar pôr ordem nas minhas ideias antes de ter de enfrentar a Ana Maria depois de seis meses de expectativa   e de uma quantidade considerável de sentimentos contraditórios.


«No dia 1 de Novembro de 1755, Lisboa foi atingida por um fortíssimo terramoto. Calcula se que morreram cerca de 600.000 pessoas, quer em virtude dos próprios abalos quer das ondas sísmicas subsequentes e dos incêndios que deflagraram na cidade em ruínas. Os abalos sentiram se em algumas partes de França e em toda a Espanha, e da Itália aos Açores, bem como nas Ilhas Britânicas. Se o terramoto pudesse ter sido classificado de acordo com a escala de Richter, pensa se que poderia ter atingido o grau 8,9, e a generalidade dos sismólogos considera que, provavelmente, foi o mais violento que a humanidade conheceu até hoje.»

Este era o primeiro parágrafo da introdução de Arthur Wilson ao «Poème sur le desastre de Lisbonne, ou examen de cet axiome TOUT VA BIEN». «Põem upon the Lisbon Disaster, na tradução inglesa de Anthony Hecht. Ao atingir Lisboa quando o Iluminismo estava no seu apogeu por toda a Europa, o terramoto dera origem a um dos debates mais acalorados sobre a existência de Deus e a vontade de Deus registados na nossa civilização. Os ateus consideraram no uma prova da não existência de Deus, dado que, se Deus existisse, e se, como sempre nos haviam dito, Ele fosse bom, nunca teria permitido que uma tal desgraça se abatesse sobre os Seus eleitos. Os cristãos viram no como a prova derradeira da existência de Deus, argumentando que Ele estava verdadeiramente nauseado com o escárnio do ateísmo em expansão e nos enviara o terramoto tal como outrora enviara o Dilúvio: para nos recordar as nossas limitações humanas perante o Seu poder imenso, e para castigar os nossos desvios humanos em relação à verdade inegável desse mesmo poder.

Todas as partes envolvidas no debate em breve se encontraram de regresso ao nó cego de onde emana toda a religiosidade, o degrau iniciático do limiar onde perguntamos a nós próprios qual é o significado real de tudo o que nos rodeia   qual é o código, qual é a chave, como é que vamos captar alguma vez o que é que Deus, independentemente do Seu nome, verdadeiramente pensa e verdadeiramente quer. Como tantos queriam acreditar nessa época, seguindo as pisadas de Descartes   Deus limitara se a criar o universo como um mecanismo perfeito de relojoaria com leis naturais precisas, depois pusera o em movimento, e em seguida fora se embora, deixando nos entregues a nós próprios? Ou, como Newton e tantos dos seus seguidores teriam desejado acreditar  , Deus ainda recorria, de vez em quando, a poderes sobrenaturais, quando as Suas leis naturais não bastavam para governar o universo com a precisão necessária? Mas   e é aqui que sempre claudicamos   se havia intervenções ocasionais nas nossas vidas perpetradas por Deus, será que tinham um significado? Ensinavam nos alguma coisa? Ou - e é aqui que sempre trememos, porque há qualquer coisa verdadeiramente deprimente neste pensamento   ocorriam apenas para bem do universo e não por causa de nós? Os fins justificariam os meios? Seria que Deus nem sequer se dava ao trabalho de se preocupar connosco?

Esta última questão foi debatida magistralmente, quinze meses após o terramoto, por um monge franciscano português chamado António do Sacramento. Num sermão que ficou célebre, este homem lançou a tese de que a razão pela qual Deus destruíra Lisboa não fora tanto, como muitos defendiam, chocar a cristandade e prostrá la num estado de obediência penitente ao derrubar uma cidade tão célebre e rica, mas antes mostrar que Portugal era um reino sob os cuidados especiais do Altíssimo. Segundo as regras da disciplina divina, os portugueses, para seu próprio bem e em consequência da prioridade celestial que lhes era devida, tinham sido escolhidos para honra de serem punidos primeiro, e punidos muito severamente.

É claro, penso eu, que quando tudo está tão perdido e todos os espíritos estão tão confusos qualquer tese explicativa é válida. Não houve um rabi ortodoxo que defendeu que o Holocausto era o castigo que Deus dera aos judeus por comerem carne de porco? O mesmo nível de catástrofe. O mesmo sofrimento generalizado. A mesma linha de raciocínio. Sempre os mesmos padrões.

E foi assim que a cena da calamidade lisboeta se transformou num desses caldos férteis em ebulição onde a raiva humana se enfurece e prospera no grande jogo de encontrar os culpados e atribuir as responsabilidades a todos menos a nós próprios. Os católicos portugueses atribuíram aos judeus as culpas pela ira de Deus, como tantas outras sociedades fizeram com tanta frequência ao longo da história do Ocidente. Mas, desta vez, foram ainda mais longe: culparam também a Reforma e presumiram que Deus não gostava do número excessivo de comerciantes e homens de negócios protestantes que se haviam fixado na cidade em virtude das leis económicas e das vias dúbias da política. Os protestantes, por sua vez, viram no acontecimento uma prova de que Deus não gostava mesmo nada da veneração idólatra de santos e relíquias, e ainda menos quando realizada da forma festiva e pagã que se transformara num tipo curioso de especialidade portuguesa, alimentada talvez   alguns diziam que sem a menor dúvida   pela assimilação promíscua deste país dos genes e espíritos de todas as raças diferentes que caíram sob o estandarte lusitano em consequência dos Descobrimentos.

No seu relato dos acontecimentos, intitulado «The Lisbon Earthquake», escrito no ano do bicentenário do desastre e que trata sobretudo dos «temas interligados da teologia setecentista dos terramotos e do fim do optimismo», T. D. Kendrick descreve esta paixão pelas imagens sagradas de uma forma que acho especialmente apelativa para a minha veia satírica luterana. Estes católicos são doidos. Benza os Deus, como diria a minha mãe.

«Pelo menos vinte figuras de Cristo podiam fazer milagres e duas ou três delas podiam falar; havia mais de doze imagens célebres da Virgem com poderes miraculosos notáveis; e algumas das centenas de imagens do Santo António, o santo padroeiro de Portugal, tinham dons muito notáveis, incluindo poderes de movimentação surpreendentes. Era sabido que uma delas saltara para dentro de um poço para recuperar umas dádivas roubadas, e não foi considerado nada de excepcional uma delas ter sido encontrada a chorar depois do terramoto. A célebre imagem do santo na igreja do seu local de nascimento, ao lado da catedral, bem como a sua capela e todo o seu recheio, escaparam ao fogo devastador que consumiu a maior parte do edifício, um fogo tão quente que derreteu os ornamentos de prata e de bronze que lá se encontravam. Na Igreja da Sé (a actual catedral) um fogo descontrolado parou subitamente ao aproximar-se da imagem sagrada de Nossa Senhora, deixando a a salvo com as cortinas do fundo, as suas vestes ricas e até as flores que tinha na mão. Outras imagens da Virgem choraram por Lisboa destruída, e dizia se que na Igreja dos Jerónimos, em Belém, a figura de Nossa Senhora que estava ajoelhada aos pés da cruz se inclinou ainda mais para o chão e, destrocada pela dor perante o castigo terrível que se abatia sobre o povo de Lisboa, gritou alto, «Basta, meu Filho, basta!»

Confesso já que tenho um fraquinho por estas histórias. Construí a minha carreira sobre estudos de arte religiosa, mas receio que a verdadeira essência da religião nunca tenha sido verdadeiramente o meu forte. No entanto, quando acontece depararem se me aquilo que penso serem vagas destilações dessa essência, acho muito divertidos os costumes dos católicos. Uma interpretação tão freudiana da fé. Tão pitoresca. E tão doce, de uma forma que nem sequer consigo explicar com muita clareza e, honestamente, nunca tentei. Prefiro deixar que os livros falem por si.




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