Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 2
Tinha-a visto antes, é obvio. No cinema parecia maior que na vida real, indomável, intocável. A face, quase irreal de tão perfeita, poderia dominar as fantasias de um homem. Era uma fachada. Quinn entendia de fachadas, como se formavam, alteravam ou desfazer conforme as circunstâncias. Enquanto com olhar indiferente assimilava tudo ao redor, perguntou-se quanta substância haveria debaixo desse exterior de cetim e seda.

-Chantal, apresento Quinn Duram -interveio Matt.

Ela cruzou as pernas. Com uma espécie de gracilidade preguiçosa, ofereceu-lhe a mão.

-Encantada -murmurou, ficando rígida quando os dedos dele se fecharam com firmeza sobre os seus. Não lhe estreitou a mão nem a levou aos lábios no gesto europeu que de repente soube que ele seria capaz de expressar. Simplesmente a sustentou enquanto seus pálidos olhos verdes a estudavam.

A pele dela era como o cetim que vestia, suave, perfumada e friamente feminina. A dele era dura, inflexível e bronzeada pelo sol. Paralisaram-se por um momento, ela no sofá, ele de pé, com as mãos ainda unidas. Chantal já tinha enfrentado combates com homens, e só uma vez tinha perdido. Entendia que lhe tinham atirado a luva e aceitou o desafio.

-Segue sendo vodca com gelo? -perguntou Matt enquanto se dirigia ao bar.

-Sim -com uma ligeira inclinação de cabeça, Quinn indicou que sabia que o jogo já estava em curso. Relaxou os dedos devagar para deixar que a mão dela se soltasse-. Matt me contou que tem um problema.

-É o que parece – retirou um cigarro de uma cigarreira de porcelana da mesa, e arqueou uma sobrancelha. Quando Quinn tirou um isqueiro do bolso e o acendeu, sorriu e se aproximou um pouco mais-. Temo que não saber se você é o homem certo para enfrentá-lo... -elevou a vista e sustentou seu olhar antes de reclinar-se outra vez-.. Senhor Duram.

-Sinto-me inclinado a concordar com você... Senhorita O'Hurley -pela segunda vez seus olhares se enfrentaram, e algo não de todo prazeroso vibrou entre os dois-. Mas como estou aqui, por que não me fala a respeito? -aceitou o drink que Matt ofereceu, e logo lhe lançou um olhar antes que ele pudesse falar-. Por que não deixamos que a senhorita O’Hurley me ponha a par, já que se trata de seu problema?

Como agente Matt sabia quando negociar e quando recuar.

-Perfeito, eu encherei minha boca com alguns desses canapés -sentou-se.

-estive recebendo alguns telefonemas anônimos -expôs de forma casual, mas a tensão se manifestou fugazmente no modo com que fechava e abria os dedos.

Quinn estava acostumado a registrar os mínimos detalhes. Nesse momento notou que as mãos dela eram pequenas e finas, com dedos largos, as unhas arredondadas pintadas com esmalte transparente. Em nenhum momento os dedos chegaram a ficar quieto de todo.

-Telefonemas Anônimos?

-E cartas –encolheu os ombros e o cetim sussurrou-. Começou faz umas seis semanas.

-Telefonemas obscenos?

Chantal ergueu o queixo, incapaz de resistir ao impulso de olhá-lo com altivez.

-Suponho que isso dependeria de sua definição de obsceno. A sua pode diferir muito da minha.

O humor dançou nos olhos dele e os fez estranhamente atrativos. Ela se perguntou rapidamente quantas mulheres tinham entrado na guarida do leão para ser devorada por ele.

-Não me cabe nenhuma dúvida: Continue.

-A princípio... Poderia dizer que a princípio me divertiram. Pareciam inofensivas, embora incomodas. Logo... -umedeceu os lábios e fumou-. Logo ficaram mais atrevidas mais explícitas. Provocaram-me inquietação.

-Deveria trocar de número de telefone.

-Eu troquei.Os telefonemas pararam durante aproximadamente uma semana. Começaram outra vez hoje.

Quando Chantal se recostou no sofá, Quinn provou a vodca. Igualmente de primeira qualidade.

-Reconhece a voz?

-Não, sussurra.

-Poderia voltar a trocar de número -o gelo soou no copo enquanto encolhia os ombros-. Ou conseguir que a polícia grampeie sua linha.

-Estou cansada de trocar de número -com impaciência, apagou o cigarro-. E não quero à polícia. Prefiro ser discreta. Matt parece pensar que você é a resposta.

Quinn voltou a beber. A sala estava decorada com diferentes tonalidades de branco, mas não era virginal. A mesma ausência de cor, com ela no centro, resultava tentadora. Tinha certeza de que ela sabia. Em todos os seus filmes tinha interpretado o papel de uma mulher que brincava com as necessidades de um homem, com suas debilidades e seus sonhos mais íntimos. Provocava pouca simpatia uma mulher que de propósito projetava uma imagem desenhada para excitar os homens e que depois se queixava por umas poucas e inofensivas chamadas telefônicas.

-Senhorita O’Hurley, provavelmente já sabe que os homens que realizam este tipo de chamadas não fazem outra coisa mais que falar. Sugeriria-lhe que voltasse a trocar de número, e que durante um tempo somente os empregados atendessem o telefone, até que o sujeito se canse.

-Quinn Matt - balançou o conteúdo de sua taça. Tinha o costume de manter-se em movimento quando se achava sob pressão... As mãos, os pés. Nesse momento pigarreou e tratou de acalmar-se-. Isso não é de muita ajuda.

-Pode contratar um guarda-costas se isso fizer com que se sinta melhor. Certamente, poderiam reforçar a segurança da casa.

-Pode ser necessário colocar arame farpado e cães de guarda ferozes -respondeu Chantal, ficando de pé.

-É o preço que paga por ser o que é -manifestou Quinn com frieza.

-O que sou? -ela aguçou o olhar-. Oh entendi. Sou atriz, não visto trapos nem cubro o rosto com um véu, o que significa que procurei o que recebo. E ainda por cima fiz por merecer.

Sua beleza distante era atraente, mas sua exaltação apaixonada era como ver fogo no gelo. Quinn susteve o nó que sentiu nas vísceras e encolheu os ombros.

-Chegou perto.

-Obrigado por seu tempo –virou-se, mas antes que pudesse evitar, encarou-o outra vez-. Por que não dá um passeio pelo século vinte? O fato de uma mulher ser atraente e não o esconda, não significa que mereça ver-se submetida a abusos, sejam verbais, físicos ou emocionais.

-Não acredito haver dito que uma mulher atraente, ou qualquer mulher mereça receber abusos -comentou ele.

O tom indiferente que empregou somente ajudou a esquentá-la ainda mais.

-Pelo simples feito de ser atriz e de que a sexualidade faça parte de minha profissão não significa que seja uma presa fácil para qualquer homem que deseje levar um pedaço de mim. Se interpretar o papel de assassina, não significa que deva ir a julgamento.

-Desperta a fantasia mais primitiva de um homem, senhorita O’Hurley, e o faz no cinema. Tem que haver alguma conseqüência.

-Dessa forma deveria me conformar – murmurou -. Você é um idiota. É o tipo de homem que acredita que se uma mulher aceita sair para jantar com ele deveria pagar por isso entre os lençóis. Bom, pois eu posso pagar meu próprio jantar, senhor Duram, e resolver meus próprios problemas. Estou segura de que saberá encontrar a saída.

-Chantal -começou Matt, mas ela se voltou para ele como se fora uma gata-. Comerei mais canapés -murmurou.

-Senhorita O’Hurley.

-O que? -girou em volta para ver seu alto e envelhecido mordomo; então respirou fundo-. Sim, Marsh, do que se trata? -embora a tensão a dominasse, sorriu ao homem mais velho.

-Chegaram para você.

-Obrigado -aproximou-se dele para aceitar o vaso de açucenas amarelas-. Esta noite já não precisarei mais de você, Marsh.

-Muito bem, senhorita.

Passando por detrás do Quinn, dirigiu-se a mesa junto à janela.

-Por que não mostra a saída para seu amigo, Matt? Não acredito que...

Tinha o cartão nas mãos e o olhava fixamente. Os dedos tremeram por alguns momentos e logo apertou o papel. Antes que pudesse deixá-lo cair no chão, Quinn pegou a mão e devagar começou a puxar a nota amassada. O que leu provocou um nó no estômago, mas de desgosto.

-Não é o que mereço? -a voz do Chantal soou fria, quase distante.

Mas o que Quinn viu em seus olhos foi terror.

Guardou o papel no bolso enquanto a pegava pelo braço.

-Por que não se senta?

-Foi outra nota? -Matt foi avançar para eles, mas Quinn lhe indicou o bar.

-Sirva-lhe um brandy.

-Não quero um drink. Não quero me sentar. Quero que váembora -quando pretendeu soltar-se, Quinn simplesmente a segurou com mais força e a conduziu ao sofá.

-Qual o intervalo das notas?

-Praticamente diária - pegou um cigarro, e voltou a guardá-lo.

-Todas são tão... Diretas?

-Não -aceitou o brandy e bebeu um gole, odiando reconhecer que precisava-. Isso começou faz umas duas semanas.

-O que fez com as notas?

-As primeiras eu joguei fora. Logo, quando o tom começou a mudar, ia queimá-las -o brandy ajudou a aquecê-la, embora não a tranqüiliza-se-. Guardei-as. Não sei muito bem por que. Suponho que deveria tê-las se as coisas saíssem de controle.

-Chame seu mordomo. Quero lhe fazer algumas pergunta. E vá procurar as outras mensagens.

As ordens dele conseguiram o que não tinha obtido o brandy. Sentiu que ficava rígida.

-Não é assunto dele, senhor Duram. Isso já deixamos claro.

-Pois isto altera tudo -tirou o papel do bolso e a viu capitular imperceptivelmente.

-Não quero sua ajuda.

-Ainda não disse que ia dá-la - olharam-se-. As notas. A menos que tenha uma idéia melhor sobre o que fazer com isto.

Nesse momento ela o desprezou. Poderia tê-lo escondido. Tinha essa habilidade. Mas não se incomodou. Mas antes que pudesse falar, Matt apoiou uma mão em seu ombro. Estava tão inquieto quanto ela.

-Por favor, Chantal. Pense antes de dizer algo.

Não afastou os olhos de Quinn.

-Não quero falar o que estou pensando -quando o viu sorrir, apertou os dentes-. Ou possivelmente deveria fazê-lo.

-Chantal -Matt lhe apertou o ombro-. Eu não gosto dos ultimatos, mas se não pudermos tratar com Quinn, chamarei à polícia. Não -prosseguiu quando ela o olhou-. Falo sério. É uma mulher inteligente. Seja prática.

Quinn notou que odiava que a comandassem. Era uma mulher que insistia em ter a escolha e o controle em suas mãos. Era algo que podia admirar, inclusive respeitar. Talvez, só talvez, houvesse algo mais na Chantal O’Hurley do que podia ver.

-De acordo, façamos a sua maneira. No momento -levantou-se, real e forte-. Não incomode Marsh -olhou-o nos olhos-. É velho e cada vez mais frágil. Não quero que se preocupe.

-Não chutei nenhum cão o dia todo-informou Quinn.

-Só crianças e filhotes -murmurou ela ao sair da sala.

-Sua cliente é uma mulher e tanto.

-É - respondeu Matt-. E está assustada até a medula. E não se assusta com facilidade.

-Com certeza não -tirou um cigarro e o golpeou com displicência sobre o pacote. Viu-se obrigado a reconhecer que tinha pensado que poderia ser mais uma atuação dela. As poucas frases escritas no cartão o tinham feito mudar de idéia. Para Quinn, a linha que separava o bem do mal era flexível, mas o cartão caía totalmente no lado mau. Não obstante, antes de decidir quanto queria envolver-se, havia umas poucas coisas que precisava saber. Observou Matt ir de um lado a outro-. Que grau de intimidade vocês tem?

-Temos um acordo sólido e mutuamente proveitoso -sorriu a seu amigo-. Ela não se deita comigo. Sabe o que quer e o que não quer. Queria um agente. Mas eu me importo com Chantal -olhou para a porta com expressão preocupada-. Já passou por problemas suficientes.

-De que tipo?

-Essa é outra história e não tem nada que ver com isto -Matt moveu a cabeça e voltou a sentar-se-. Vai ajudá-la?

-Não sei -deu uma tragada no cigarro.

-Perdoem -disse Marsh da entrada do salão, vestido ainda com seu traje negro e sua camisa branca engomada-. A senhorita O’Hurley disse que queria falar comigo.

-Perguntava-me se poderia falar sobre a pessoa que entregou as flores –apontou-as e viu que o ancião entrecerrava os olhos. «Míope», pensou.

-Entregou-as um jovem, de uns dezoito anos, possivelmente vinte. Chamou da cancela e explicou que tinha uma entrega para a senhorita O’Hurley.

-Usava uniforme?

-Não acredito -franziu o cenho em gesto de concentração-. Não posso assegurá-lo.

-Pôde ver seu carro?

-Não, senhor. Recebi as flores na porta de trás.

-Reconheceria-o se voltasse a vê-lo?

-Talvez. Acredito que sim.

-Obrigado Marsh.

Este vacilou. Então, ao recordar seu posto, fez uma inclinação de cabeça.

-Muito bem, senhor.

Ao sair para o corredor, Quinn percebeu que Chantal o detinha para manter uma breve conversação sussurrada. Quando entrou, trazia um maço de envelopes.

-Estou convencida de que será uma leitura fascinante -comentou ao jogá-las sobre o colo de Quinn-. Imagino que é o mais próximo à técnica que emprega para cortejar as mulheres.

Enquanto abria o primeiro envelope, decidiu que Chantal tinha recuperado seu espírito. O endereço, igual ao texto, estava escrito com uma pequena letra de imprensa. O papel era comum. Poderia ficar semanas pesquisando e não conseguiria rastrear sua procedência.

As primeiras notas que leu eram aduladoras e sutilmente sugestivas. «E estão bem escritas», acrescentou para si mesmo. Obra de uma pessoa culta. Ao continuar, a prosa e a sintaxe não perderam qualidade, mas o conteúdo deteriorou. Até um homem que tinha visto e feito tanto como ele, sentiu um desagrado instantâneo. O escritor entrava em detalhes gráficos e implacáveis, enumerando suas fantasias, necessidades e intenções. As últimas cartas acrescentavam insinuações veladas de que quem escrevia se encontrava perto. Olhando. Esperando.

Ao terminar, Quinn ordenou as notas em um monte.

-Está segura de que não quer que comunique a polícia?

Chantal tinha sentado em frente a ele, e nesse momento juntou as mãos no colo. Pensou que não lhe caía bem. Não gostava de seu aspecto nem como se movia. Nem o fato de que tinha uma voz quase poética, tão distinta de sua cara cínica. Então, se tudo isso era verdade, por que sentia como se quisesse, inclusive necessitasse, de sua ajuda. Olhou-o nos olhos. E pensou que às vezes tinha que fazer pactos com o diabo.

-Não, não quero que intervenha a polícia. Não quero publicidade. O que quero é que encontre e detenha esse homem.

Quinn se levantou e serviu outro drink. Tanto os copos quanto o decantador eram Rosenthal. Apreciava as coisas elegantes, assim como sabia tratar com os aspectos mais grosseiros da vida. Cerveja de uma garrafa ou vinho de uma taça de cristal pouco importavam se conseguia saciar a sede. Apreciava a beleza, mas não se deixava enganar por ela. Uma carapaça exterior não significava nada.

Chantal O’Hurley possuía beleza e elegância. Se aceitava o trabalho, pela mesma natureza deste terminaria por averiguar quanto era carapaça e quanta substância. Isso o fazia relutar. Entendia quão perigoso podia ser dispor de conhecimento sobre outra pessoa... Para todas as partes envolvidas.

Sempre que quisesse, poderia controlar a atração que sua aparência despertava nele. O que não controlaria, o que jamais tinha sido capaz de controlar, era a curiosidade por descobrir o que havia sob a pele.

Bebeu um gole de vodca e girou. Ela havia sentado novamente, e só olhando-a teria sido fácil pensar que se encontrava relaxada, inclusive distante. Os dedos da mão esquerda se moveram um pouco, fechando-se, separando-se, como se tivesse conseguido focar seus nervos nesse ponto. Encolheu os ombros e se adaptou ao tratamento dispensado por ela.

-Quinhentos dólares ao dia, mais gastos.

Chantal arqueou uma sobrancelha. Foi seu único movimento, e com ele transmitiu um espectro de sensações... Diversão, reflexão e desagrado. O que não mostrou foi o súbito alívio que a invadiu.

-É uma soma considerável, senhor Duram.

-O serviço está à altura do pagamento.

-É algo no qual insisto -reclinou-se e apoiou os dedos entrelaçados sob o queixo. Tinha os punhos finos e as mãos tão delicadas como o rosto. Na mão direita cintilou um diamante, logo se voltou tão branco e frio como o resto dela-. E o que eu recebo por quinhentos dólares ao dia mais gastos?

Ele sorriu antes de levar o copo aos lábios.

-A mim, senhorita O’Hurley.

Ela também sorriu um pouco. Voltava a ter o controle, e o medo diminuía.

-Interessante -o olhar que lhe lançou era feito para prender um homem e fazê-lo suplicar. Quinn sentiu o impacto e reconheceu o poder-. O que faço com você?


-Entendeu o contrário -aproximou-se dela e parou junto à cadeira para inclinar-se.

Chantal percebeu um aroma, não colônia, tampouco sabão, a não ser uma masculinidade crua e completamente satisfeita. Embora não recuasse, reconheceu a atração que despertava nela.

-O que é que compreendi ao contrario, senhor Duram?

-Trata-se do que eu faço com você. Quinhentos ao dia, anjo, e sua confiança. Esse é meu preço. Pague-o e receba cuidados as vinte e quatro horas, começando por colocar um de meus homens no portão de sua casa.

-Se já tenho o portão porque necessito de um guarda?

-Chegou a pensar alguma vez que uma porta de ferro serve de pouco se for aberta para qualquer um?

-O que não me ocorreu é que teria que me enjaular.

-Acostume-se, porque quem quer que esteja enviando as flores não tem uma personalidade sadia.

O pânico apareceu em seus olhos para sumir imediatamente. Quinn lhe concedeu pontos por dominá-lo tão depressa.

-Sou consciente disso.

-Preciso conhecer sua agenda. A partir de amanhã, um de meus homens a acompanhará cada vez que coloque seu bonito nariz pela porta.

-Não –levantou-se dominada pela teimosia dos O’Hurley-. Por quinhentos dólares ao dia, quero você, Duram. É em você quem Matt confia, e é você a quem vou pagar.

Estavam muito perto. A perfeição da face dela podia tirar o fôlego de um homem. O cabelo para trás em uma cascata gloriosa, como o de um anjo. Se um homem o tocava, encontraria o céu ou cairia das nuvens? Quando chegasse esse momento, a Quinn não preocupariam as conseqüências.

-Pode chegar a lamentar -murmurou, para sorrir devagar.

Chantal sabia, mas o orgulho não lhe permitia dar para trás.

-Pago por você, senhor Duram. Esse é o trato.

-Você é o chefe – levantou o drink-. Dois dos meus homens virão pela manhã para grampear o telefone.

-Não quero...

-Não aceito o trabalho se me amarrar às mãos -o sorriso relaxado desapareceu com a mesma rapidez com que tinha aparecido-. Grampearemos o telefone, possivelmente revele algo que o delate, talvez tenhamos sorte e rastreemos de onde liga. Pense em nós como em médicos -voltou a sorrir-. Se quiser dizer algo íntimo a um de seus... Amigos, não se preocupe. Já ouvimos de tudo, e mais.

O mau gênio tinha sido o que mais lhe custava dominar. Surgiu e o afastou antes de voltar a falar.

-Estou segura disso. Que mais?

-Levarei as cartas. Duvido de que possamos rastrear o papel, mas tentaremos. Conhece alguém que acredite possa ser o responsável por isto?

-Não -a resposta foi imediata e com completa segurança.

Quinn decidiu investigar a todos próximos a ela.

-Deixou alguém nos últimos meses que pudesse estar apaixonado por você?

-A milhares.

Ele tirou um caderno de notas e um lápis curto do bolso.

-Necessito dos nomes daqueles com quem se deitou. Repassemos os últimos três meses.

-Vá para o inferno -respondeu com doçura, e começou a sentar. Ele a segurou pelo punho.

-Olhe, não vou jogar com você. Pessoalmente não sinto o menor interesse nos homens que tenham passado por sua cama. Isto é um trabalho.

-Ótimo -jogou a cabeça para trás-. É assunto só meu.

A pele dela era mais quente do que parecia. Foi uma informação que arquivou para analisar depois.

-Um deles pode ter perdido a cabeça. Possivelmente dormiu com ele um par de vezes e isso lhe deu ilusões de grandeza. Pense nisso. Isto começou faz seis semanas, com quem estava antes?

-Com ninguém.

O rosto dele refletiu irritação ao apertar seu punho com mais força

-Me dê um tempo, anjo. Não tenho a noite toda.

-Já falei que com ninguém -soltou o braço. Durante um instante desejou despejar uma ou duas dúzias de nomes, para vê-lo suar-. Acredite no que quiser.

-Digo no que não acredito, e é que passe as noites tricotando.

-Não me meto na cama com qualquer homem que se aproxime de mim -com um movimento calculado, abaixou os olhos como que a medir a distância que havia entre eles.

-Em torno de dez centímetros -murmurou ele.

-Lamento decepcioná-lo, mas primeiro tenho que estar interessada, e não estou. Além disso, estava mergulhada no trabalho, que tende a me ocupar muito tempo -com gesto inconsciente, esfregou-se o punho onde ele tinha apertado-. Satisfeito?

-Vamos, Quinn, deixa-a em paz -sentindo-se arrastado no meio da situação, Matt se aproximou para rodear os ombros do Chantal com um braço-. Já teve momentos bastante duros.

-Não é meu trabalho segurar sua mão -Quinn recolheu as cartas, irritado pela sensação de desgosto que experimentou consigo mesmo-. Voltarei amanhã. A que horas se levanta?

-As cinco e quinze -não pôde resistir a uma brincadeira quando só recebeu o olhar fixo dele-. Saio para o estúdio as quinze para as seis. Da manhã, senhor Duram. Poderá agüentar?

-Você preenche o cheque. Mil e quinhentos adiantados.

-Certo. Boa noite, senhor Duram.

-Faça um favor e não volte a atender ao telefone esta noite -fez um gesto a Matt e partiu.

Chantal esperou até ouvir o som da porta fechando. Foi a mesinha de centro e pegou outro cigarro.

-Seu amigo é um canalha, Matt.

-Sempre foi -respondeu o outro-. Mas é o melhor.



Capítulo 3
Chantal tinha pensado que não dormiria. A casa tinha parecido tão enorme a seu redor, e tão silenciosa. Mas se tinha metido na cama com a visão do Quinn Duram na mente. Solo pensar nele a punha furiosa, insultava sua inteligência, feria seu orgulho. E fazia que se sentisse a salvo.

Dormiu somente seis horas, mas de forma profunda.

Despertou a música que saía do alto-falante de parede que havia junto à cama. Levantou-se, rodeada de almofadas e coberta de lençóis de cetim de cor marfim, nada mais.

A cama tinha sido um de seus primeiros luxos, que se concedeu antes de ter condições para tanto. Era enorme e antiga, com uma cabeceira esculpida em madeira de cerejeira que fazia com que pensasse em princesas que despertavam de um sonho de cem anos. Enquanto crescia, invariavelmente tinha dormido em camas de hotel, e ao assinar seu primeiro contrato cinematográfico decidira que uma cama bonita era algo que merecia. Um pequeno papel em uma grande produção tinha sido o suficiente para alimentar suas esperanças. Anos mais tarde, despertar na antiga cama com dossel ainda lhe proporcionava a mesma satisfação.

Desejou poder estar com suas irmãs. A sensação de segurança seria mais concreta.

Quando umas semanas atrás foi à Nova Iorque, sentiu vontade de falar com Maddy sobre as cartas e os telefonemas. Uma parte dela queria e precisava fazê-lo, mas Maddy tinha estado muito preocupada. «E com razão», recordou-se ao espreguiçar. Estava a ponto de estrear a peça de teatro, e seu coração estava focado no homem que a produzia. «E tudo por uma boa causa», pensou com um sorriso. A obra era um sucesso e Maddy planejava seu casamento.

«Mais vale que seja bom para ela», pensou ao surgir o velho instinto de proteção. Já tinha assistido a uma irmã passar por um casamento triste. Não poderia suportar que Maddy também sofresse.

«Estará bem», assegurou-se. Do mesmo modo que Abby estava bem. Ambas tinham encontrado o homem certo no momento certo. Tinha uma irmã planejando um casamento e a outra se preparando para dar a luz a seu terceiro filho. Não podia estragar isso lhes contando seu problema. Além disso, ela era a mais velha, embora por alguns minutos. Para Chantal isso significava que tinha a responsabilidade de ser a mais forte. Sabia que podia contar com elas, mas era a mais velha.

Tinham avançado tanto. Sentou-se no centro da luxuosa cama e observou o dormitório, que era maior que seu primeiro apartamento na Califórnia. Por que achava que havia ainda muito a conseguir?

Não era o momento de filosofar. Depois de subir o volume da rádio, levantou-se da cama e se preparou para enfrentar outro dia de filmagem.

Quinn não estava acostumado a levantar-se antes do amanhecer. De fato, há essa hora era quando estava acostumado a deitar na cama. Cruzou a cidade sob um céu rosado. Pensou na Chantal O’Hurley e franziu o cenho. Não lembrava da última vez que uma mulher o tinha incomodado. O aspecto do Chantal fazia com que um homem se retorcesse. Não importava que ela soubesse e que sem dúvida desfrutasse com essa reação.

Não podia permitir que isso representasse um problema. Estava sendo pago para terminar um serviço. A partir desse momento a única coisa que devia preocupá-lo era a segurança dessa mulher. O cheque lhe dava direito a receber o melhor, e ele era o melhor. Além disso, não importava o conteúdo das cartas que lhe tinha mostrado.

Não é que Quinn fora partidário do movimento de liberação feminina. A seu modo de pensar, os homens e as mulheres eram diferentes. Fim da história. Se uma mulher que passava em frente uma obra se sentia insultada por receber uns quantos assobios de apreciação, deveria caminhar por outro lugar. Depois de tudo, era um ato de diversão sadia. Entretanto, nas cartas não havia nada divertido, nem saudável nem limpo. E Chantal tampouco tinha dado a impressão de sentir-se insultada. Quinn sabia reconhecer o medo autêntico.

Cedo ou tarde ia descobrir quem as tinha escrito. Isso requeria paciência. Enquanto isso daria a Chantal a proteção de vinte e quatro horas pela qual ia pagar. Ao lembrar seu rosto, teve que reconhecer que precisaria de muita força de vontade. Encolheu os ombros e pensou que ele a tinha. Deteve-se ante a cancela metálica. Passou a mão pela janela e tocou a campainha.

-Sim?

Franziu o cenho. Somente com essa única palavra reconhecia com facilidade a voz do Chantal. Não esperava que ela atendesse.



-Duram -disse com secura.

Não houve resposta, mas os portões se abriram devagar. Quinn os atravessou, logo se deteve para certificar-se de que fechavam a suas costas.

À luz do dia, deu uma olhada mais atenta à propriedade. Qualquer um com determinação o suficiente poderia saltar o muro. Em uma ocasião, um companheiro e ele tinham escalado um penhasco vertical no Afeganistão sem mais ajuda que uma corda e coragem.
As árvores que floresciam no jardim proporcionavam um doce aroma. E mais que adequada cobertura para um intruso. Ia inspecionar atentamente o sistema de alarme da casa, embora soubesse que algo que pudesse ser instalado podia ser desativado.

Deteve-se justo nos degraus, logo abaixou para apoiar-se no capô do carro. Daí não se podia ouvir nenhum tráfego. Só o som dos pássaros. Pegou um cigarro. Uma olhada ao redor lhe mostrou alguns focos, possivelmente uma dúzia de luzes no chão, evidentemente distribuídas mais por motivos estéticos que para incrementar a segurança.

Depois de olhar o relógio, decidiu contornar a pé a casa e comprovar algumas falhas em pessoa.

Possivelmente por maldade, Chantal decidiu que Quinn esperaria do lado de fora enquanto ela se atrasava no closet. Em outras circunstâncias,o teria convidado para tomar uma xícara de café antes que chegasse a limusine. Mas não se sentia amável. Levou tempo para prender o cabelo, checar o conteúdo da bolsa e escrever algumas instruções à empregada. Quando voltou a soar a campainha da porta metálica, falou com seu chofer, voltou para o quarto e topou com Quinn. Ele viu como a surpresa inicial se convertia em fúria.

-Que diabos está fazendo aqui?

-Comprovando seu sistema de segurança -apoiou-se no batente da porta e notou com um gelo no estomago que apesar da hora, ela estava fantástica-. É triste. Um Boy Scout com duas menções ao mérito poderia pular

Chantal pendurou a bolsa no ombro e prometeu que faria com que Matt pagasse, embora fosse a última coisa que conseguisse.

-Quando instalaram, me garantiram que era o melhor do mercado.

-Do supermercado, talvez. Farei com que meus homens o atualizem.

-Quanto? -tinha nascido pragmática, e os anos transcorridos não tinham modificado esse traço.

-Não sei com segurança até que dêem mãos à obra. Diria que de três a cinco.

-Claro. Como já disse, o...

-Serviço está à altura do pagamento –murmurou ela, passando a seu lado-. De acordo, senhor Duram, vá em frente -ao falar, dirigiu-se a mesinha de noite-. Mas a próxima vez que verificar o sistema recomendo-lhe que não entre as escondidas em meu quarto - ao voltar-se, empunhava uma pistola de calibre vinte e dois com culatra esmaltada-. Costumo ficar nervosa.

Quinn observou a arma com uma sobrancelha arqueada. Muitas vezes tinha estado no lado errado do cano.

-Sabe como se usa, anjo?

-Só terei que apertar o gatilho, aqui -sorriu-. Claro que minha pontaria é horrível. Apontaria a sua perna e acabaria por acerta o cérebro.

-As armas têm uma única regra -começou, logo franziu o cenho olhando por cima do ombro dela. Quando Chantal olhou por cima do ombro, colocou-se a seu lado. Com um movimento muito veloz, tinha a pistola na mão e a ela debaixo dele sobre a cama-. A regra é, não aponte com uma arma de fogo a menos que pense em disparar.

Ela não se retorceu, mas sim ficou quieta e deu rédea solta ao calor da fúria e do desagrado que lhe inspirava. Com um movimento casual, Quinn soltou o carregador.

-Não está carregada.

-Claro que não. Jamais guardaria uma arma carregada na casa.

-Uma pistola não é um brinquedo -montou o carregador outra vez antes de olhá-la. Levava a face limpa de maquiagem, e estava tão linda quanto furiosa. Apesar de si mesmo, a combinação era muito agradável. O corpo dela era pequeno e forte, não tão suave e feminino como ele tinha esperado.

Mas lá estava seu perfume, igual à noite anterior, descaradamente feminino-. Bonita cama -murmurou, incapaz de resistir ao impulso de cravar os olhos sobre sua boca. Pensou sentir os batimentos do coração de Chantal se acelerarem.

-Sua aprovação não significa nada para mim, senhor Duram. E agora, se não lhe importar, tenho que ir trabalhar.

« Quantos outros homens a imobilizaram entre seu corpo e este colchão amplo e firme? Quantos outros homens terão sentido este brilho selvagem de desejo?» Os dois pensamentos passaram por sua cabeça antes de poder detê-los. Por isso se afastou para o lado e a pôs de pé. Mas seguia tendo-a perto.

-Possivelmente manteremos uma relação profissional -murmurou-. E possivelmente não.

Embora tivesse o pulso acelerado, Chantal não era tão falsa para atribuí-lo ao mau humor. Entendia o desejo, mesmo que estranhamente o tivesse sentido por esse homem. Era algo que podia controlar. O instinto lhe advertiu que era vital que assim o fizesse naquele momento, e que continuasse fazendo-o, no que se referia a Quinn.

-Me força a carregar a pistola, senhor Duram.

-Não seria mau -devolveu-a a gaveta da mesinha-. Chame-me de Quinn, anjo. Depois de tudo, estivemos juntos na cama –segurou-a pelo braço para escoltá-la escada abaixo para fora.

-Bom dia, Robert -Chantal lhe sorriu para o chofer enquanto este abria a porta de trás da limusine-. O senhor Duram me acompanhará ao estúdio durante uns dias.

-Muito bem, senhorita O’Hurley.

Quinn não passou desapercebido pelo olhar nostálgico que o motorista lhe lançou antes que ficassem isolados atrás dos vidros escurecidos.

-Como se sente esquentando os homens?

-Não é mais que um menino -respondeu ela, acomodando-se.

-E isso estabelece alguma diferença?

-Oh, esqueci -fechou os olhos e colocou os óculos escuros-, sou uma dessas mulheres desumanas que tentam e provocam, para logo jogar fora os homens uma vez que os esvaziei.

-É um bom resumo -divertido, esticou as pernas.

-Sente um notável desdém pelas mulheres, senhor Duram.

-Não, engana-se. Acontecesse que as mulheres são um de meus passatempos favoritos.

-Por... -conteve-se a ponto de engasgar. Tirou os óculos, desejando ver se era uma provocação ou a simples verdade. Como desejava acreditar no pior dele, decidiu-se pelo último-. É você o clássico machista, senhor Duram. Achava que sua espécie estava extinta.

-Somos resistentes, anjo -apertou um botão e observou como o bar girava para ele. Pensou em preparar um Bloody Mary, mas no final se decidiu por um suco de laranja.

Chantal voltou a colocar os óculos e esqueceu o desejo de bater a cabeça na parede.

-Preferia não apresentá-lo como meu guarda-costas. Não gosto de sofrer esse tipo de especulação.

-Bem. Como quer fazer?

-Darão por certo que é meu amante -com orgulho pegou seu copo com suco de laranja e bebeu-. Estou acostumada a esse tipo de especulação.

-Não duvido. É seu jogo. Jogue-o como mais goste.

-Isso é o que pretendo fazer -devolveu-lhe o copo-. E o que você fará?

-Meu trabalho -ao passar pelas portas do estúdio, bebeu o suco-. Simplesmente sorria para as câmaras, anjo, e não se preocupe com o resto.

Chantal tinha a mandíbula tão tensa que lhe doía. Seguindo um impulso, voltou-se para ele e fechou os dedos sobre sua camisa.

-Oh, Quinn, é que estou tão assustada. Tão, tão assustada ao não saber se de um minuto a outro estariam em perigo - quebrou a voz ao aproximar-se-. Não posso descrever o que significa para eu saber que estará aí, me protegendo. Estou tão indefesa e vulnerável. E você é tão... Forte...

Tinha-a tão perto que pôde ver como fechava os olhos atrás dos óculos escuros. O corpo dela tremeu um pouco ao apoiar-se nele. O desejo disparou, junto com a necessidade de consolar e proteger. Era uma mulher suave, entregue e necessitada. Ao aproximá-la, seu aroma invadiu seus sentidos até que a cabeça latejasse.

-Não se preocupe -murmurou-. Eu vou cuidar de você.

-Quinn -levantou a cabeça até que teve os lábios a um sussurro dos dele. Quando sentiu que ficava tenso, se afastou e depositou algo na mão dele-. Seu cheque -expôs com indiferença, para logo descer da limusine.

Quinn permaneceu sentado dez segundos inteiros perguntando-se por que nunca antes tinha tido pensamentos sobre estrangular uma mulher. Ao chegar junto dela, fechou os dedos em torno de seu braço.

-É boa. Muito, muito boa.

Enquanto Chantal passava pelo ritual diário da maquiagem e cabeleireira, Quinn se dedicou a observar. Só na primeira hora a viu entrar em contato com uma dúzia de pessoas. Outros atores, técnicos e um montão de ajudantes. Começava a dar-se conta de quão extensa ia ter que ser a lista que queria. Quem quer que a estivesse perseguindo, evidentemente conhecia sua agenda. Isso dava prioridade às pessoas com as quais ela trabalhava.

-Senhorita... Ah, Chantal -Larry se deteve a seu lado com uma xícara de café recém feito.

-Oh, obrigado. Lembrou disto.

Ele se sentiu recompensado.

-Sabia que esta manhã o cabelo ia demorar um pouco mais -viu a estilista arrumar com paciência pérolas no penteado já complicado-. Vai estar linda para a cena do baile.

-Nada que ver com ontem -bebeu um gole-. Se tivessem me molhado uma vez mais, teria derretido.

-A senhorita Rothschild disse que as tomadas saíram fantásticas. Verifiquei.

-Obrigado -viu o reflexo de Quinn no espelho e decidiu que era um momento tão bom como qualquer outro-. Larry apresento Quinn Duram, um amigo -só anos de treinamento impediram que engasgasse ao levar uma mão ao ombro para solicitar a dele-. Larry é minha mão direita. E freqüentemente à esquerda também. Quinn vai assistir as filmagens durante uns dias.

-Oh, bem... -Larry pigarreou-. É estupendo.

Quinn viu que o jovem pensava algo diferente disso. «Outra conquista», pensou. Mas não podia permitir nenhuma simpatia para o apaixonado, só suspeita.

-Ficarei à margem -prometeu, aproveitando a situação para acariciar os dedos dela com o dedo polegar-. Só quero ver como Chantal trabalha.

-Não é um doce? -ela esboçou um sorriso brilhante-. Quinn está à espera de um trabalho neste momento, e dispõe de tempo livre. Vamos, não seja sensível carinho - Todos entendemos quão difícil é o mercado trabalhista, em particular para botânicos -satisfeita, ficou de pé-. Tenho que me vestir.

-Programou fotos de publicidade para esta manhã -disse Larry depois de olhar com incerteza para Quinn-. Assim que esteja preparada, espera-se que vá ao cenário do salão de baile.

-Bom.


-Irei com você querida -Quinn passou um braço pelos ombros dela e apertou com um pouco de excesso de força-. Pode precisar de ajuda com algum botão ou zíper.

-Calma, Duram -murmurou enquanto se afastavam-. Nesta cena colocarei um vestido sem alça, e não posso aparecer com um hematoma.

-Tenta-me a colocá-los onde não se vejam. Um botânico?

-Sempre me se senti atraída por homens sensíveis e introspectivos.

-Como Larry?

-É meu secretário. Deixe-o em paz.

-Não me diga como fazer meu trabalho.

-É um menino agradável, veio com excelentes referências e...

-Quanto tempo?

-Uns três meses -irritada, Chantal abriu a porta do camarim.

Quando a porta se fechou a suas costas, Quinn tirou um bloco de notas.

-Seu nome completo?

-Larry Washington. Mas não vejo...

-Não é necessário que o veja. E o sujeito da maquiagem?

-George? Não seja absurdo, é velho o bastante para ser meu avô.

-O nome, anjo -levantou a vista-. Não há limite de idade para uma mente perturbada.

Ela deu antes de entrar no closet privado.

-Eu não gosto de como trabalha, Duram.

-Eu notificarei o departamento de queixa -sentou no braço da poltrona e passou os olhos pelo camarim. Igual a casa dela, era um cenário em branco-. De passagem pode me dar os nomes dos homens com que trabalha no set.

-Todos? -inquiriu ela depois de uma pausa carregada.

-Exato.

-É impossível -informou-. Seria impossível recordá-los. A quase todos conheço de vista e unicamente pelo primeiro nome.



-Pois descubra seus sobrenomes.

-Tenho que fazer um trabalho. Não posso...

-E eu também. Consiga-me os nomes.

Subiu o zíper do vestido e olhou carrancuda a parede que os separava.

-Verei se Larry pode me conseguir uma lista.

-Não. Não quero despertar as suspeitas de ninguém. –Certo, certo -por um momento ficou convencida de que a cura era pior que a doença. Logo lembrou a última mensagem recebida. Gostasse ou não, necessitava de Quinn-. O ajudante da diretora se chama Amos Leery. O câmara é Chuck Powers. E, maldito seja, não chegaram ontem à cidade. Estão a anos no negócio. Têm famílias.

-E isso que diferença faz? Uma obsessão é uma obsessão -quando ela voltou para o camarim, cometeu o engano de levantar os olhos das notas que tomava-. E o que me diz de...?

As palavras se detiveram porque seus processos mentais simplesmente se desintegraram. Chantal usava um traje de um vermelho vibrante que parecia lhe moldar o corpo. Tinha um decote muito baixo que seguia as linhas do corpo. A saia era reta, com uma abertura no lado que chegava quase até o quadril, onde se mantinha fechada graças a um broche de pedras resplandecentes. Sua boca ficou seca.

Ela viu e reconheceu a expressão. Geralmente lhe teria produzido um sorriso, de prazer ou resposta automática. Mas nesse momento não pôde, já que o coração palpitava com força. Ele se levantou devagar e ela recuou. Até muito mais tarde não lhe ocorreu pensar que era a primeira vez que recuava a um homem.

-O resto terá que ficar para mais tarde -apressou-se a comentar-. Estão-me esperando no set.

-O que se supõe que vai fazer vestida dessa maneira? -não avançou outro passo para ela. Foi contido pelo instinto de sobrevivência.

-Procurar vingança -umedeceu os lábios.

Quinn voltou a olhá-la, erguendo lentamente os olhos até que seus olhos se encontraram.

-Diria que vai conseguir.

Com um esforço consciente, ela se obrigou a respirar. «Interprete o papel», pensou. Sempre era possível interpretar o papel.

-Você gosta? -girou devagar, revelando o ousado decote das costas.

-É um pouco excessivo para as sete e meia da manhã.

-Acha isso? -sorriu, mais relaxada-. Espera para ver o que o acompanha. Carrier nos deixa o colar e os brincos. Duzentos e cinqüenta mil dólares de jóias. Daqui a pouco teremos dois guardas armados e um joalheiro muito nervoso. Vamos?

Deteve-a na porta com o simples contato de um dedo sobre o ombro nu. Os dois sentiram o tremor.

-Uma pergunta. Usa algo debaixo disso?

Chantal conseguiu esboçar outro sorriso graças à maçaneta que apertava com a mão.

-Estamos em Hollywood, Duram. Deixamos pequenos detalhes como esse à imaginação -saiu, esperando que o nó que sentia no peito desaparecesse com a primeira tomada.

Ao meio dia, Quinn se viu obrigado a revisar a opinião que tinha de Chantal, ao menos em um campo. Não era a estrela caprichosa e temperamental que tinha esperado. Trabalhava como uma condenada sem emitir uma só queixa.

Mostrou-se amável com os fotógrafos, mesmo com a sessão durando noventa minutos. Não tinha brigado com o maquiador quando teve que dar uns retoques, como tinha feito uma companheira. A temperatura no set era abrasadora graças às luzes, mas não se intimidou. Entre tomadas, constantemente bebia de um copo com água mineral, incapaz de sentar-se, já que o traje não podia enrugar.

Dois guardas armados não a deixaram fora de vista, nem ao quarto de milhão de dólares que usava em jóias. Teve que reconhecer que ficavam bem. Levava-as com a graça da mulher que sabia que as merecia.

Quinn se manteve em um canto e se perguntou como os atores podia suportar a monotonia da repetição.

-Incrível não é?

Girou a cabeça e contemplou o homem alto de cabelo cinza que tinha ao lado.

-O que?

-Como demoram horas e horas para gravar uma cena de dois minutos -pegou um cigarro fino e negro e o acendeu com a bituca de outro-. Não sei por que venho. Fico nervoso, mas não posso ficar longe enquanto dissecam minha criação.



-Não, suponho que não -arqueou uma sobrancelha.

O outro deu uma tragada antes de sorrir.

-Não estou louco... Ou provavelmente sim. Eu escrevi o roteiro -ofereceu uma mão magra e bem cuidada-. James Brewster.

-Quinn Duram.

-Sim, sei. É o amigo da senhorita O’Hurley -sorriu outra vez e encolheu os ombros com ar negligente-. As notícias viajam depressa nos lugares pequenos. Ela é brilhante, não?

-Não saberia dizer.

-Oh, asseguro-lhe que é. Não havia ninguém mais que pudesse ser Halley. Fria, vingativa, egoísta, e ao mesmo tempo vulnerável e desesperada pelo amor. Uma das poucas coisas que não me preocupa nesta pequena extravagância é a interpretação de Chantal.

-Parece saber o que faz.

-Mais, sente o que faz -deu outra tragada enquanto a equipe preparava a seguinte tomada-. Da-me um prazer enorme observá-la.

Quinn colocou as mãos nos bolsos e mentalmente acrescentou Brewster a sua crescente lista mental de homens a investigar.

-É uma mulher extraordinariamente bonita.

-Nem precisa dizer. Mas recorrendo a um clichê, isso não é mais que fachada. O que fascina é o que há dentro de Chantal O’Hurley.

-E o que é? -perguntou com os olhos entrecerrados.

-Eu diria, senhor Duram, que cada homem deve descobri-lo por si mesmo.

A diretora pediu silêncio, que Brewster acatou com nervosismo. Quinn se centrou em suas próprias considerações.

Era certo que dava a impressão de que Chantal sentia o papel. A cena chave requeria que enfrentasse seu amante, três anos depois de que este a abandonara. Mesmo depois de uma dúzia de tomadas, seus olhos seguiam gelando-se ao receber a deixa, sua voz adquiria a necessária insinuação de veneno. Em uma sala de baile cheia de gente, estava decidida a seduzir e a humilhar. Chantal fazia ambas as coisas com uma facilidade tão aparente que Quinn considerou que devia desfrutar com isso.

E assim durante horas, mas ele se mostrou paciente. Interessou-lhe ver que sempre que um descanso durava mais de cinco minutos, o secretário dela aparecia a seu lado com outro copo com água mineral. Em mais de uma ocasião o ajudante da diretora se aproximou para tomar a mão e murmurar algo. Uma e outra vez o maquiador lhe deu retoques no rosto, como se tratasse de um precioso quadro.

Eram sete horas quando terminaram. Além da hora dedicada ao almoço, Quinn calculou que ela estava há quatorze horas de pé. Chegou à conclusão de que preferia estar cavando trincheiras durante oito horas.

-Não pensou em se dedicar a outra coisa? -perguntou-lhe quando voltaram ao camarim.

-Oh, não -descalçou-se com grande alívio-. Eu adoro o glamour.

-Onde estava?

-Assimila depressa -o sorriso que mostrou foi automática-. Se a diretora quisesse gravar uma tomada mais, só uma, teria pedido que lhe desse um tiro no joelho. Desça o zíper, sim? Tenho os braços pesados.

-Isso é porque quase todo o dia os manteve ao redor do Carter.

-Uma das vantagens do trabalho -arqueou as costas quando Quinn desceu o zíper até abaixo dos quadris.

-Não está mau, se você gostar dos sujeitos de aspecto suave.

-Adoro-os -olhou por cima do ombro com um meio sorriso.

-Aalguma vez pensou que poderia ser Carter quem te envia as flores?

Ela ficou um pouco rígida e se dirigiu ao closet.

-Está muito ocupado tratando de desfazer-se de sua terceira mulher. Além disso, conheço-o há anos.

-As pessoas mudam, ou fazem coisas inesperadas. E passas várias horas ao dia próxima a ele.

-Isso é trabalho.

-Trabalho agradável. Em qualquer caso, não deveria confiar em todo mundo.

-Salvo em você.

-Exato. Também Brewster pareceu encantado com você.

-Brewster? O escritor? -divertida Chantal retornou ao camarim enquanto abotoava a blusa-. James está muito mais interessado em seus personagens que nas pessoas que os interpretam. E leva mais de vinte anos felizmente casado. Alguma vez já leu as colunas de fofocas?

-A De vez em quando perco meu tempo-abandonou a idéia de pegar um cigarro quando a viu se sentar com brutalidade e agarrar o pé-. Algum problema?

-Sempre que tiro os malditos sapatos é uma agonia -fez uma careta, amaldiçoou e se massageou-. Não tenho dúvida de que foi um homem o inventor do salto alto... O mesmo que inventou o prendedor.

-São as mulheres que usam essas coisas -expôs, mas se ajoelhou e tomou seu pé.

-Sim, mas... -o protesto morreu em seus lábios quando ele começou a pressionar. Com um suspiro sincero e prolongado, inclinou-se-. Sim, isso é maravilhoso. Confundiu sua vocação. Poderia ganhar uma fortuna sendo massagista.

-Deveria ver o que posso fazer com o resto de seu corpo.

-Ficaremos nos pés, obrigado -disse abrindo um olho-. Se fosse uns centímetros mais alta ou Seam uns centímetros mais baixo, poderia ter feito quase todas as tomadas com sapatos baixos.

-Posso dizer que as cenas de amor que fizeram pareciam muito reais.

-Supõe-se que devem ser -esgotada, abriu os dois olhos-. Olhe, somos profissionais. Teve essa impressão porque assim a interpretamos, não porque um dos dois tivesse um interesse físico no outro.

-Do meu ângulo parecia interesse. Em particular quando apoiou a mão em você...

-Tente outra coisa, Duram.

-Acredito que outra vez vai querer me dizer como fazer meu trabalho.

-Eu gostaria que fizesse seu trabalho -soltou ela-, em vez de te acusar um homem porque cumpre bem o seu.

-Só estou verificando, anjo.

-Não quero que espionem meus amigos e companheiros.

-Se quiser a alguém que teme pisar em alguns pés, contratou o homem errado.

-Já cheguei à mesma conclusão em diversas ocasiões -não sabia por que começava a esquentar tanto, mas as mãos dele subindo e descendo devagar por seu pé lhe faziam coisas que não deveriam. Queria que partisse-. Por que não vai dar um passeio, Duram? -afastou o pé-. Não é meu estilo -levantou-se e o rodeou. – Pode levar a mudança.

-Perfeito -estava tão zangado como ela e tão desconcertado quanto em relação à causa. Só sabia que durante um momento fugaz havia sentido algo por Chantal, algo suave e sexy. Já tinha desaparecido, como se nunca tivesse existido. Em seu lugar estava a ira, e uma necessidade igual, que requeria liberação-. De passagem, poderia pedir uma bonificação.

Segurou-a. Ela sabia que não seria delicado. Agarrou-a pelo cabelo e se apoderou de sua boca. O que ela não sabia, ou não queria reconhecer, era que responderia de maneira tão completa.

Nenhum homem a abraçava quando ela não queria ser abraçada. Nenhum homem tomava o que não oferecia por vontade própria. Entretanto, Quinn a estava abraçando e nada no interior do Chantal desejava detê-lo. Defender-se teria sido simples, inclusive um movimento automático, mas não se debateu nos braços dele. Tremeram-lhe os joelhos, mas nem sequer o sentiu. Tudo estava concentrado na sensação que produzia a boca dele e a explosão de prová-lo. Abriu os lábios e o convidou a entrar.

Ele raramente pensava nas conseqüências, e com menos freqüência questionava seu instinto. Quando havia sentido a necessidade de tocá-la, de tomá-la dessa maneira, tinha-o feito. E já tinha começado a pagar por isso. Chantal era mais do que tinha imaginado. Mais suave mais delicada, mais quente. Nos braços não tinha uma imagem, a não ser uma mulher apaixonada. Inclusive ao descobrir e explorar o sabor e a textura de seus lábios entendeu que necessitava de mais. Essa era a armadilha que tinha causado.

Afastou-a porque queria ver seu rosto depois que ela o tivesse provado. Os olhos de Chantal se abriram devagar, tão azuis que por um instante foi mais vulnerável a ela do que nenhum dos dois teria podido imaginar. Sentiu-se dominado por uma dolorosa incerteza antes de dar um passo atrás.

-Foi um dia interessante, anjo. Por que não pede para Matt encontrar outro?

Tinha passado muito tempo desde a última vez que ela tinha sido rejeitada. Doía mais do que recordava. O treinamento e o orgulho fizeram com que se erguesse e que mantivesse a voz gélida.

-Se tiver terminado seu espetáculo de domínio masculino, já pode ir. Se souber de alguém que necessite de um guarda-costas para seu cachorrinho, darei seu cartão.

Quando o telefone tocou, Chantal girou. Levantou o telefone, depois olhou por cima do ombro até que viu Quinn abrir a porta. Voltou a concentrar-se no telefonema.

-Sim, olá.

A voz já era muito familiar, e um grau mais aterrador.

-Esperei o dia todo para falar contigo. É tão linda e excitante. Todo o dia estive imaginando como...

-Por que não para? -o controle ruiu ao gritar ao telefone-. Por que não me deixa em paz? -antes que pudesse desligar, Quinn o arrebatou.

-Não se zangue -o desespero nervoso na voz fez com que ficasse tenso-. Amo-a. Posso faze-la feliz, mais feliz do que nunca foi.

-A senhorita O’Hurley é mais feliz sem você -respondeu Quinn com calma-. Seria melhor que deixasse de incomodá-la.

Reinou um silêncio prolongado, e ouviu que a respiração do outro lado do telefone se tornava mais pesada.

-Não precisa de você. Precisa de mim. De mim -repetiu a voz antes de desligar.

Quinn baixou o aparelho devagar. Chantal estava de costas pra ele, mas passado um momento deu a volta. Tinha a pele tão branca como o camarim.

-Pensei que tinha ido.

-E eu também -por regra geral jamais se desculpava por seus atos. Não é que não acreditasse que não podia enganar-se, mas sim que as desculpas tendiam a enfraquecer sua posição. Nesse caso decidiu aproximar –se o máximo possível sem cruzar a linha-. Olhe, não é por que não nos damos bem que não vou completar este trabalho, eu não gosto de deixar as coisas antes de ter terminado. Por que não esquecemos o que houve momentos atrás?
Gostava menos ceder que a Quinn as desculpas. Mas gostava ainda menos de continuar sozinha. Para satisfazer tanto suas necessidades como seu orgulho, obsequiou-lhe um suave sorriso.

-Aconteceu algo antes?

-Nada -reconheceu o gesto com um movimento de cabeça-. Vamos embora.



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