Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Encontro11.07.2018
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Capítulo 4
Há algum tempo Chantal havia reconhecido que não podia ter intimidade e fama. A fim de alcançar e manter o segundo, quase sempre teria que sacrificar o primeiro. Se saísse para jantar com um amigo, no dia seguinte leria sobre isso nos jornais. Se dançasse com outra celebridade, antes que parasse a música já haveria fotos e especulação. Segundo a imprensa, sua vida estava cheia de homens e de aventuras tórridas. Aceitava. Também era bastante ardilosa para saber que se fosse grosseira ou beligerante com os paparazzi, tanto sua reputação quanto suas fotos sairiam sob uma luz pouco favorável. De modo que estava disposta, dentro do razoável, a tratá-los bem e a apresentar uma imagem cheia de encanto para o público.
Mas que grampeassem seu telefone e pusessem um guarda frente os portões era algo bem diferente. Não fazia parte da mística de seda e diamantes que decidira desenvolver. Se pudesse escolher... Cada vez que esse pensamento passava por sua cabeça, apertava os dentes e recordava de que não podia.

Custava reconhecer, mas sabia que deveria estar grata. Desde o telefonema no camarim, não tinha acontecido nada... Nem cartas, nem flores nem voz que sussurrasse. Dizia –se que tinha que estar aliviada. Mas sentia como se estivesse esperando que caísse outro raio.

Durante a semana, seu trabalho a mantinha muito ocupada para pensar. Por horas, podia entrar no personagem e nos problemas do Halley. Enquanto estivesse gravando o filme e sentisse a pressão da filmagem, não pensava em suas crises pessoais. O trabalho já a havia ajudado a sair de outros períodos duros. Contava com que nessa ocasião acontecesse o mesmo.

Mas era sábado e não houve problemas com as tomadas, de modo que não teve que trabalhar. Em geral apreciava as manhãs nas quais podia ficar na cama algumas horas a mais.

As sete estava acordada. Triste, tentou voltar a dormir. As sete e quinze mirava o teto e pensava muito para sua própria paz mental. Supunha-se que as mulheres formosas e com glamour dormiam até o meio-dia, depois se cuidavam com massagens e cuidados faciais.

Afastou o edredom e se dirigiu ao quarto adjacente ao closet. De todas os cômodos da casa, aquele só mostrava seu outro lado. Os móveis, embora sofisticados, eram simples e funcionais; o tecido para as cortinas podia ter sido importado de Paris, mas o espaço como um todo irradiava ar de organização e pragmatismo. O escritório tinha sido comprado tanto por sua utilidade como por sua aparência. E o utilizava. Igualmente o computador que ali estava.


Era certo que tinha um agente, uma equipe de publicitários e um secretário, mas acreditava em controlar sua própria vida, seu próprio negócio. Sabia que ações tinha e os ganhos brutos que recebia dos filmes nos quais tinha participado. Guardava com meticulosidade cópias de seus contratos. Não só os assinava, mas os lia.

Foi diretamente ao escritório, sem prestar atenção na sua agenda nem aos recados com mensagens telefônicas que sua secretária havia deixado, e recolheu um maço grosso de folhas. Eram três roteiros que tinha que ler. A gravação de Estranhos não ia durar para sempre e quanto antes começasse a pensar em seu próximo projeto, menos tempo ocioso ia ter.


Voltou para a cama, apoiou o primeiro roteiro sobre os joelhos e disse que esperaria até as oito para tomar café. Precisou da metade do tempo para descobrir que o primeiro roteiro não tinha nem pé nem cabeça. A história tinha alguns pontos bons, mas quase todas eram cenas nas quais deveria aparecer nua, entregue a um apaixonado abraço atrás de outro. Não era uma puritana, mas tampouco se achava disposta a utilizar seu corpo como comercial de venda de um roteiro medíocre. Em qualquer caso, estava cansada de interpretar à mulher fatal ou à vítima. Atirou para o lado esse roteiro e pegou outro. Prendeu-a desde a primeira página.

Uma comédia. Ao menos alguém havia lhe enviado uma história inteligente que não dependia exclusivamente de sua sexualidade para vender-se. Não só era agudo o diálogo, mas a trama tinha voltas constantes que a faziam rir em voz alta. As brincadeiras eram tanto físicas como verbais e soube que a deixariam esgotada. Uma e outra vez seu personagem ficaria em um papel ridículo na tela. Terminaria com a cara no barro. E adoraria.

«Bendito seja, Matt». Na metade do roteiro, o levou contra o peito. Sabia que desejava fazer algo que não encaixasse com a imagem que os dois tinham criado cuidadosamente no transcurso dos últimos seis anos. Seria um risco. Chantal estava disposta a apostar que muitos pagariam para vê-la com a cara enlameada.

Mais feliz que em semanas, apertou o botão do interfone e pediu que trouxessem o café da manhã. Não pretendia parar até tê-lo terminado, e então chamaria Matt. Se tiver que comparecer a testes para conseguir esse papel, faria-o. Se precisasse, aceitaria uma oferta menor, mas ia conseguir o papel.

Acomodou-se, levantou os joelhos e virou a página.

Quando bateram na porta, achava-se completamente absorta. Respondeu distraída, rindo enquanto o personagem, seu personagem, saía com engenho de outra crise.

-Deve ser muito engraçado -comentou Quinn.

Chantal virou a cabeça com brutalidade. A diversão que até uns segundos antes dominava seus olhos se converteu em irritação. «É uma chatice que seja tão atraente», pensou.

-É uma pena que não carregue a pistola.

-Não deveria disparar em um homem que traz seu café da manhã na cama -cruzou o quarto, depositou a bandeja no colo dela e logo se acomodou. Usava uma regata e jeans e não parecia se importar em colocar os tênis sobre o edredom feito à mão.

-O que lê? -perguntou ao esticar as pernas e cruzar os braços sob a cabeça.

-Noticias dos mercados financeiros.

-Sim, eu também sempre racho de rir com eles –os travesseiros tinham seu aroma, exótico e tentador. Chantal mostrava um aspecto descuidado pelo sono, com o cabelo solto sobre as costas. Inclusive sob a forte luz da manhã, não pôde encontrar nem um defeito em seu rosto. Havia duas tiras finas sobre seus ombros e um pouco de renda em seus seios. Recordou o que não devia ter recordado... O que sentia ao trazê-la contra o corpo e beijá-la até quase perder o sentido. Pegou uma torrada da bandeja e empurrou a geléia.

-Vá em frente -murmurou ela, lutando contra o impulso de afastar-se.

-Obrigado -inclinou-se sobre a bandeja enquanto passava geléia com generosidade-. Como já disse, é uma cama estupenda.

-Quando receber a fatura da lavanderia pelo edredom, descontarei de seus gastos -decidida a não mostrar nenhuma reação por sua proximidade, serviu-se de uma xícara de café-. O que posso fazer por você, Duram? -ele mordiscou a torrada e a olhou. O sorriso surgiu muito devagar em seu rosto-. Não seja ridículo -disse, e bebeu o café enquanto estava muito quente. Quando queimou a língua, decidiu que não só lhe caía mal, mas que o detestava.

-Uma pergunta tola... -começou Quinn, e se serviu de uma xícara de café.

-Olhe, estou ocupada, assim se...

-Sim, já vi.

-Por acaso estou lendo alguns roteiros.

-Algum bom?

Chantal respirou fundo. Recordou-se que alguns homens eram mais teimosos que outros. Possivelmente se o agradasse um pouco...

-De fato, sim. Quero terminar um esta manhã, de modo que se houver algo que devamos falar...

-Neste também devora outro homem?

«Paciência», pensou ela. Era um ato compassivo mostrar paciência por um idiota.

-Não. Trata-se de uma comédia.

-Uma comédia? -riu antes de beber outro gole de café-. Você?

-Não abuse da sorte, Duram -ameaçou carrancuda.

-Vamos, anjo. Não tem um rosto para que joguem uma torta.

-Barro.


-O que?

-Neste caso, jogam-me no barro.

-É algo que eu gostaria de ver -escolheu uma fatia de melão da vasilha dela.

-Conto com que vários milhões de pessoas tenham sua atitude -com gesto natural tirou o guardanapo da argola e o passou a ele-. Depois de tudo, você representa às pessoas comuns, não?

-A mais comum de todas -concordou com afabilidade.

-Vamos, por que não me conta por que está aqui esta manhã com os pés em minha cama e as mãos em meu café da manhã?

-É parte do serviço, nada mais. Maravilhoso café.

-Darei seus cumprimentos ao cozinheiro. Bem, por que não vai ao direto ao assunto?

-Não vai comer?

-Duram.


-De acordo -tirou uma pasta pequena do vazio lateral da bandeja e a abriu-. Tenho alguns relatórios preliminares. Pensei que lhe interessariam.

-Sobre o que?

-Larry Washington, Amos Leery, James Brewster. Também tenho algo sobre o maquiador e seu chofer.

-Meu chofer? Está investigando ao Robert? -perdido o apetite, levantou-se mais na cama-. É a coisa mais ridícula que já ouvi.

-Anjo –viu a seda de um rosa escuro debaixo da renda e se perguntou até onde iria-, alguma vez leu novelas de mistério? A pessoa menos suspeita sempre é a culpado.

-Não te pago para que finja ser Sam Spade, e menos ainda para que investigue pessoas como Robert e George.

Depois de uma breve consideração, Quinn escolheu um morango.

-Aalguma vez notou como Robert a olha?

-Querido -inclinou a cabeça-, todos os homens me olham dessa maneira.

Olhou-a por alguns momentos antes de beber o café. Era até difícil separar a atuação da realidade.

-Como tenho que começar por alguma parte, o farei pelos homens mais próximos a você.

-A próxima coisa que me dirá é que está investigando Matt -quando ele não disse nada, observou-o atentamente. Deve ser uma brincadeira. Matt é...

-Um homem -concluiu Quinn por ela-. Acaba de dizer que isso é a única coisa que importa.

Furiosa, recolheu a bandeja e a deixou sobre o colo dele. O café derramou das xícaras.

-Olha, vamos parar agora mesmo. Não penso tolerar que pessoas com as quais me importo sejam investigadas. Matt é o melhor amigo que tenho, e tinha a impressão de que também era seu amigo.

-Isto é trabalho.

-Digamos então que nosso trabalho acabou. Os telefonemas pararam e também as cartas.

-Durante quarenta e oito horas.

-Para mim isso basta. Pagarei seus honorários até hoje e nos... -calou quando o telefone que tinha na mesinha começou a tocar. Sem dar-se conta, colocou sua mão na do Quinn, os dedos apertando com força.

-Atenderão lá embaixo -murmurou ele-.Não deixe o pânico domin-la. Se for ele, mantenha a calma. Tente fazê-lo falar, permaneça na linha o máximo de tempo possível. Precisamos de tempo para rastreá-lo -ao soar o interfone, ela se sobressaltou-. Calma, Chantal. Pode agüentar.

-Sim? -apertou o botão enquanto se esforçava por respirar com tranqüilidade.

um homem, senhorita O’Hurley. Não quer dar seu nome, mas diz que é importante. Digo-lhe que não pode atender?

-Sim, eu... -Quinn fechou a mão em torno de seu punho-. Não, não, aceitarei a chamada. Obrigado.

-Vá com calma -disse-lhe Quinn-. Simplesmente deixe o falar.

Chantal levantou o telefone com dedos rígidos e frios.

-Alo.


Quinn só teve que olhar o rosto dela para saber que ouvia o sussurro familiar.

-Não o perca -murmurou, sem lhe soltar a mão-. Desafie-o na linha. Mantenha a calma e responda a suas perguntas.

-Obrigado -conseguiu dizer ela apesar do nó na garganta-. Sim, sim, recebi todas as suas cartas. Não, não estou zangada -fechou os olhos e tratou de fingir que as coisas que lhe dizia não lhe arrepiavam a pele-. Eu gostaria que me dissesse quem é. Se... -com um ar entre frustrado e aliviado, afastou o telefone-. Desligou.

-Maldito seja -depois de deixar a bandeja no chão, Quinn se inclinou sobre ela e apertou umas teclas no telefone-. É Quinn -amaldiçoou outra vez-. Sim, sigam com isso. De acordo. Não houve tempo suficiente -informou a Chantal ao desligar-. Disse algo que lhe soasse familiar, algo que te fizesse pensar em alguém que conheça?

-Não -tremeu uma vez antes de recuperar o controle-. Ninguém que conheça tem uma mente assim.

-Beba um pouco de café -serviu-lhe um pouco mais e entregou a xícara. Ela obedeceu para relaxar a tensão na garganta.

-Quinn -teve que engolir saliva-. Disse... Disse que tinha uma surpresa reservada, uma surpresa grande -ao virar a cabeça para olhá-lo, seus olhos se viam enormes e aflitos-. Disse que faltava pouco.

-Deixe que eu me preocupe -sempre teve uma fraqueza pelos indefesos. Isso já o metera em problemas... Na América do Sul, no Afeganistão e em muitos outros lugares. Mesmo que soubesse que podia ser perigoso de uma forma mais pessoal, abraçou-lhe o ombro e a aproximou-. Para isso me paga, anjo.

-Vai chegar até mim -afirmou com pessimismo-. Senti.

-Será difícil estando eu aqui. Escute, tenho dois homens patrulhando sua propriedade e a outros dois controlando os telefones.

-Não parece ser de muita ajuda -fechou os olhos e durante um momento permitiu apoiar-se nele-. Possivelmente seja porque não posso vê-los.

-Mas pode ver a mim, não é?

-Sim -e podia senti-lo, podia sentir os músculos duros de seu braço e ombro, a pele não tão suave de sua face.

-Quer algo melhor?

Com cautela, Chantal levantou o rosto para olhá-lo. Viu humor, mas, e isso a fez pensar que se enganava, também acreditou perceber autêntica preocupação.

-Perdão?


-Eu adoro a forma como faz isso. Anjo, Poe um homem de joelhos sem levantar um dedo.

-É um talento que tenho. Explique, Duram.

Por que não fico aqui um tempo? Não deixe que seja dominada pelo orgulho -advertiu-lhe ao ver que ficava rígida-. Espaço não falta, e embora comece a desenvolver autêntico carinho por sua cama, posso me arrumar com outra. O que me diz, anjo? Quer um companheiro de casa?

Olhou-o carrancuda, odiando reconhecer que se sentiria mais segura com ele todo o tempo ali. Certamente, a casa era bastante grande para que não tropeçassem um com o outro, embora perdesse a intimidade. O verdadeiro problema estaria em recordar como havia feito com que se sentisse durante aquele beijo. Se ficasse por perto as vinte e quatro horas do dia, talvez não lhe bastasse recordar.

-Seria melhor comprar um cão feroz -murmurou.

-Você escolhe.

Era verdade; dependia dela. E Chantal sabia exatamente como dirigir a situação... E a Quinn.

-Em frente, Duram. Vá fazer suas malas. Encontraremos um canto para você dormir -ergueu-se e voltou a concentrar-se no roteiro. Não pôde negar que se sentia melhor. O nó gelado que tinha no estômago se afrouxou-. Vai custar muito mais?

-Comida, e quero algo mais que uma tigela com fruta para tomar o café da manhã, o uso das instalações e, como vai acabar com minha vida social, outros duzentos ao dia.

-Duzentos? -soltou um bufo pouco feminino-. Não consigo imaginar que sua vida social valha mais que cinqüenta. Não é a tarifa habitual nas salas de massagem?

-O que sabe das salas de massagem?

-O que vejo nos filmes, querido.

-O que acha de uma demonstração real? -levantou um dedo e abaixou uma alça. Em vez de subi-la, Chantal se dedicou a estudar o roteiro.

-Não, obrigado. Duvido que haja algo que possa me ensinar.

-Pensava justamente o contrario -quando abaixou a outra alça, Chantal o olhou. Estava-a provocando e não parecia disposta a morder a isca.

-Tente de novo quando tiver algumas semanas livres, Duram. Temo que contigo terei que começar do zero.

-Aprendo depressa -deslizou a mão pelo ombro dela até que com o dedo polegar lhe acariciou a mandíbula.

Antes de poder conter-se ela o agarrou pela mão, mas ao falar o fez com voz firme.

-Vá com cuidado.

-Se for com cuidado, perderei muitas coisas.

Queria voltar a tocá-la, a sentir sua pele suave e quente sob as mãos. Queria ver como escureciam os olhos, em parte devido à fúria e em parte pela atração. Parecia disposta a lhe arrancar os olhos, mas suas unhas não o impediriam de provar o fogo que ela continha com tanta habilidade em seu interior. O fogo que soltava de forma tão explosiva na tela.

Quando ela levantou a mão livre, Quinn a segurou. Nesse momento se prendiam mutuamente. Pensou que era o orgulho o que a impedia de lutar, o orgulho e a segurança de que poderia pô-lo de joelhos quando quisesse. Já não estava tão seguro como gostaria, que não seria assim.

Estava a ponto de soltá-la quando Chantal ergueu o queixo e com os olhos o desafiou a continuar. Ele jamais tinha recusado um desafio.

Com os olhos abertos e sem deixar de olhá-la, abaixou a boca. Mas não a beijou. Chantal sentiu o impacto, entre assombrada e excitada, no instante em que ele aprisionou o lábio inferior com os dentes.

Poderia havê-lo detido. Seu irmão Rick tinha ensinado a suas irmãs e a ela a defender-se dos membros muito amorosos do sexo oposto. Era consciente de que podia surpreender Quinn e o ter dobrado com um rápido movimento do joelho. Ficou quieta, hipnotizada pelos olhos verdes que a fitavam.

Não se supunha que tivesse essa tipo de sentimentos, esse apetite. Tinha-os bloqueado há anos, quando suas emoções a tinham feito de tonta. Não devia estar sentindo o estômago encolher. Tinha gravado inumeráveis cenas de amor e não havia sentido nada que não tivesse programado para que seu personagem sentisse. Sabia o pouco que devia significar o abraço mais apaixonado para os dois atores envolvidos no processo.

Mas ficou quieta pega pelo desejo urgente de assimilar a corrente de sensações que produzia.

«Impossível», disse-se ele, mas percebia inocência em torno dela. Se for uma representação, era uma mulher mais hábil do que tinha o direito de ser. Se não o era... Mas não podia pensar. Chantal bloqueava seu raciocínio. Preenchia o até que estivesse disposto a esquecer tudo menos ela.

O desejo era algo que se apagava e esquecia com facilidade. Mais valeria recordá-lo. Qualquer homem a desejaria. Mas não sabia se qualquer homem seria capaz de esquecê-la. Havia muito poder nela, o poder de provocar fome em um homem, de fazê-lo tremer, de enfraquecê-lo. Quinn não podia permitir o luxo de perder sua vontade. Com os lábios quentes e suaves de Chantal sob os seus, recordou-se que tinha duas prioridades. Uma era mantê-la a salvo. A outra era cuidar de si mesmo.

Quando começou a sentir que se afundava, afastou-se. Achava-se em terreno pouco firme. Chegou à conclusão de que por uma vez era melhor caminhar com cuidado.

«Tranqüila», disse-se ela, lutando por não se perder. Para ele não significava nada mais que a eterna guerra de vontades que existia entre os homens e as mulheres. Quinn não se acalmou por dentro nem havia sentido a necessidade de ser amado, de acreditar que possivelmente, só possivelmente, isso que sentiam era bom. Não lhe daria a satisfação de saber que ela sim tinha pensado.

-A próxima vez te deixarei rendido.

-Pode ser que tenha razão -murmurou, afastando-se-. Está um pouco pálida -olhou seus ombros nus e se amaldiçoou pela ferroada de desejo que sentiu-. Vista-se que a esperarei junto à piscina. Vou mostrar o que temos até agora -levantou-se da cama com a pasta na mão e a deixou sozinha.

Necessitava de um pouco de ar... Com urgência.

Quinn cortava a água da piscina como uma enguia, com suavidade, velocidade e em silêncio. Quando Chantal saiu ao pátio, ficou alguns momentos sob o sol e o observou. Ele tinha escolhido uma sunga negra das várias que havia no vestiário para os convidados, e com cada braçada que dava, podia ver o movimento ondulante de seus músculos. Sentou-se em uma mesa com sombrinha e esperou que saísse da água.

O exercício físico ajudou. Quinn se deu conta de que com ela tinha chegado muito mais perto do limite do que tinha desejado. Seguia sem saber por que tinha dado esse passo, quando sabia que era o tipo de mulher do qual um homem inteligente se mantinha afastado. E ele sempre tinha sido inteligente. Assim sobrevivia. Mas também sempre teve o costume de ceder à tentação. Assim vivia. Embora sua vida jamais fosse aborrecida, até esse momento Chantal O’Hurley representava a maior tentação.

Depois de nadar trinta voltas, sentiu que quase toda a tensão se evaporava. Em outras circunstâncias, teria empregado um saco de areia para aliviá-la, mas estava disposto a empregar o que tivesse à mão.

Deteve-se na parte rasa, afastou o cabelo do rosto e a viu.

Jogada para trás na cadeira, com a face sombreada devido a uma sombrinha grande e branca, era a imagem viva da beleza distante e arrebatadora. Prendera o cabelo, deixando livre o rosto. O top apertado que usava era bastante decotado nos ombros e apertado na cintura, por cima de uma calça curta que mostrava pernas compridas, quase intermináveis. Ao sair da piscina seu olhar se prendeu nessas pernas.

-Tem uns alicerces excelentes, anjo.

- Já me disseram isso-recolheu uma toalha que havia a seu lado-. Vejo que começa a se sentir em casa –jogou-lhe uma toalha, que ele pendurou no pescoço. O sol brilhou sobre as gotas de água na pele bronzeada.

-Bonita piscina.

-Eu gosto.

-Então deveria usá-la mais. Nadar é ótimo para manter a forma.

-Deixe que eu me preocupo com minha forma, Duram -começava a ficar de mau humor, por isso decidiu ocultá-lo com sarcasmo-. Vai demorar muito? Quero fazer as unhas esta tarde.

-Encaixaremos em nossa agenda.

-Nossa agenda? -não pôde evitar sorrir quando se sentou diante dela-. Não sei por que, mas não o imagino em um lugar dedicado aos cuidados das mãos.

-Estive em lugares piores -moveu-se um pouco, até ficar plenamente sob o sol-. Tem algo mais em sua agenda do dia?

-Oh, talvez olhar umas vitrines no Shooping-disse de repente, para deixar as coisas mais difíceis-. Almoço no MA Maison, acho, ou possivelmente no Bistrô -apoiou o queixo na mão-. Faz dias que não vejo ninguém. Tem roupa apropriada, não?

-Eu me arranjo. E esta noite, tem esse jantar de caridade.

O sorriso dela sumiu.

-Como soube?

-É meu trabalho saber -embora não precisasse, olhou suas notas-. Minha secretária entrou em contato com Seam Carter e lhe explicou que outra pessoa ia acompanha-la.

-Então será melhor que volte atrás. Seam e eu concordamos em ir juntos para ajudar a promover o filme.

-Está disposta a entrar em uma limusine escura com um homem que poderia ser...?

-Não é Seam -depois de cortá-lo, estendeu a mão para o maço de cigarros que Quinn tinha posto sobre a mesa.

-Jogaremos de meu jeito -Quinn pegou o isqueiro e acendeu o cigarro que tinha puxado-. Eu a levo a sua pequena festa, e se quiser poderá se encontrar com Seam para aparecer diante das câmaras. E amanhã?

-Diga-me você -lançou-lhe um olhar cheio de veneno.

Com paciência, Quinn abriu a pasta.

-A uma recebe um jornalista e um fotógrafo da Lifestyles, que farão uma reportagem sobre você e a casa. É o único compromisso que tem.

Ela soltou o cigarro no cinzeiro e deixou que se consumisse.

-Porque é o único. Tenho algumas coisas pessoais para me ocupar aqui em casa, e vou cedo para a cama, porque na segunda-feira é um dia de trabalho.

-Matt disse que era pragmática -virou uma página-. Larry Washington.

-Em frente -disse-lhe-. Não ficara feliz até que termine.

-O menino parece bastante limpo na superfície. Graduou-se o ano passado no UCLA em administração de empresas. Parece que sempre gostou do meio cinematográfico, embora preferisse estar atrás das câmaras.

-Razão pela qual o contratei.

-Aparentemente manteve uma relação bastante séria com uma ex-companheira até uns seis meses. Uma loira muito atraente de olhos azuis que o deixou.

Não era necessário que soletrasse as implicações.

-Um montão de mulheres tem os olhos azuis e muitos romances universitários se rompem.

-Amos Leery -continuou, sem fazer caso-. Sabia que sua primeira mulher pediu o divórcio porque ele achava impossível manter as mãos longe de outras mulheres?

-Sim, sei. E foi ha quinze anos, assim...

-Os velhos costumes demoram para morrer. George McLintoch.

-É lamentável, Duram. Inclusive para você.

-Tem trinta e três anos dedicados à maquiagem. Tem cinco netos e outro que chegará no outono. Desde que sua mulher morreu há alguns uns anos, teve problemas com a bebida.

-Já é suficiente -levantou-se e foi para a borda da piscina-. Já basta. Não penso em ficar sentada escutando você dissecar os problemas pessoais de gente com a qual trabalho -olhou por cima do ombro-. Dedica-se a uma profissão suja.

-É verdade-nem uma piscada revelou o que sentia pelo tema-. James Brewster. Parece ter uma vida familiar bastante estável. Esta casado ha vinte e um anos, e tem um filho que estuda direito no Leste. É interessante que esteja a mais de dez anos fazendo analise.

-Todo mundo nesta cidade faz analise.

-Você não.

-Vou fazer se continuar por aqui.

Ele sorriu fugazmente, logo virou uma página.

-Seu chofer, Robert, é um personagem interessante. O jovem Robert DeFranco tem muitas namoradas.

-Seu tipo de homem.

-Tenho que reconhecer que admiro sua resistência. Matt Burns.

Nesse momento ela se voltou por completo. Quinn não viu raiva em sua expressão, a não ser repulsa. Rasgou algo em seu interior.

-Como pode? -disse devagar-. É seu amigo.

-É meu trabalho.

-É seu trabalho investigar a vida pessoal de gente do qual supostamente gosta?

-Não posso me permitir o luxo de que goste de alguém mais que não seja o cliente que me paga. Esse é o serviço.

-Então guarde esta parte para você. Seja o que for que descubras sobre Matt, não quero saber.

Não ia permitir que ela o fizesse lamentar o que tinha feito. Em sua vida tinha feito coisas piores, muito piores. Perguntou-se como ela o veria se soubesse.

-Chantal, vai ter que considerar todas as possibilidades.

-Não, você o fará. E neste momento te pago para isso. É seu trabalho encontrar à pessoa que me está perseguindo e me manter a salvo enquanto o faz.

-Esta é minha maneira.

-Perfeito. E como trabalha assim, a única coisa que desejo ver é a fatura -ia voltar para a casa, mas ele bloqueou seu passo.

-Cresça -imobilizou-a pelos ombros. Compreendeu que se sentia mal pelas pessoas das quais gostava. Devia convencê-la de que era um luxo que não podia permitir-se-. Qualquer um poderia estar realizando esses telefonemas. Pode ser alguém que nunca tenha visto, mas meu instinto me diz o contrário. Conhece-a -sacudiu-a um pouco para reforçar suas palavras-. E a deseja muito. Até que o encontremos, vai fazer o que eu disser.

Chantal ainda tinha muito claro o telefonema dessa manhã. Se devia aceitar um fato o faria. Mas não significava que gostasse.

-Farei o que diz, Duram, até um ponto. Deixarei que grampeiem meu telefone, deixarei que ponha guardas na entrada de minha casa, mas não escutarei este lixo.

-Em outras palavras, não quer os detalhes.

-Entendeu.

-Acreditava que tinha mais força -abaixou as mãos.

Ela abriu a boca para gritar, logo voltou a fechá-la porque ele tinha razão. Não tinha estômago para isso.

-Suma, Duram –voltou-se e partiu.

Enquanto a observava, Quinn decidiu que seu instinto era tão confiável como sempre. Quando tivesse que pressioná-la, sabia que ela não cairia.



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