Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Encontro11.07.2018
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Capítulo 5
Quando sobreviveram ao final de semana, Chantal chegou à conclusão de que provavelmente conseguiriam conviver. Não tinha gostado de ir jantar com ele e ter que fingir, diante de outras trezentas pessoas, que desfrutava de sua companhia. Dizia-se que devia considerá-lo um trabalho... Especialmente difícil e pouco atraente. Então Quinn a tinha desconcertado ao mostrar-se encantador.

Surpreendentemente, o smoking lhe caia muito bem. Embora não ocultasse sua aspereza, o fazia ainda mais atraente. Podia levar uma gravata de seda e o verniz da sofisticação, mas com ele sabia que por baixo havia um bárbaro. E, por algum motivo, descobriu que isso lhe agradava.

Antes de acabar a festa, Quinn tinha bebido champanhe com uma atriz de sucesso e com outra ganhadora de três Oscar. A veterana atriz tinha batido no joelho do Chantal para lhe dizer que seu gosto estava bem melhor. Embora fosse difícil de engolir, em nenhum momento durante a festa Quinn havia dado motivos para zombar.

No domingo a tinha deixado só. Quando os repórteres se apresentaram e lhes deu a entrevista e o retorno até a casa, foi como se não estivesse ali. Chantal sabia que estava em algum lugar, mas não invadiu sua intimidade. Dispôs de liberdade para voltar para sua leitura, para tomar um prolongado e reconfortante banho de espuma e para ficar em dia com a correspondência e outras questões. Quando na segunda-feira pela manhã saíram de casa, estava quase pronta para rever sua opinião sobre ele.


Sentia-se descansada e disposta para trabalhar. Na noite anterior havia terminado o roteiro que tinha começado na sábado pela manhã, e estava mais entusiasmada que nunca. Por volta das seis da manhã tinha acordado Matt de um sono profundo para lhe pedir que conseguisse o papel. Sentia-se no paraíso.

Olhou para Quinn a seu lado, com as pernas esticadas e os olhos fechados atrás de óculos escuros. Por seu aspecto, não se barbeava desde sábado. Parecia injusto que esse ar levemente dissoluto lhe caísse tão bem.

-Uma noite dura?

Ele abriu um olho; mas ao considerá-lo muito esforço, voltou a fechá-lo.

-Uma partida de pôquer.

-Jogou pôquer ontem à noite? Não sabia que tinha saído.

-Na cozinha -murmurou, perguntando-se quando poderia pôr as mãos em outra xícara de café.

-Em minha cozinha? -franziu o cenho, um pouco irritada porque não a tinham convidado-. Com quem?

-O jardineiro.

-Rafael? Mas não sabe falar inglês.

-Não precisa para saber que um full supera uma sequência simples.

-Compreendo -teve vontade de sorrir-. De modo que Rafael e você jogaram pôquer na cozinha, embebedaram-se e contaram mentiras.

-E Marsh.

-E Marsh o que? Marsh jogou cartas? Meu Marsh?

-Um cara alto, com pouco cabelo.

-Vamos, Quinn, tem quase oitenta anos. Surpreende-me que até você se aproveitasse dele.

-Ganhou oitenta e três dólares. Um tipo ardiloso...

-Belo emprego -afirmou com satisfação-. Senta-se em minha cozinha, a jogar e a beber cerveja, fumar charutos para falar sobre mulheres quando eu pago por seu tempo.

-Você dormia.

-Não acredito que isso tenha importância. Pago para que cuide de mim, não para jogar pôquer.

-Cuidava de você.

-De verdade? -bebeu um gole de suco-. Que estranho. Ontem não vi nem sombra de você.

-Estava por ali. Desfrutou de seu banho de espuma?

-Como?


-Passou quase uma hora na banheira -pegou o copo e bebeu tudo. Com sorte eliminaria o algodão da boca-. É gracioso, mas achei que uma mulher como você teria duas dúzias de trajes de banho. Suponho que não pôde encontrar nenhum.

-Estava me vigiando.

-Para isso me paga -devolveu-lhe o copo e voltou a reclinar-se.

A dominou a indignação ao deixar o copo na bandeja.

-Não te pago para ser um voyeur. Satisfaça sua libido em suas horas livres.

-Minhas horas são suas, anjo. Quase vi o mesmo de você quando paguei quatro dólares e meio para ver Gelo Fino. Além disso, se tivesse procurado saciar meu apetite, me teria unido a você.

-O afogaria -espetou, mas ele simplesmente sorriu e fechou os olhos.

A cabeça latejava como um tambor. Tinha dormido pouco. A partida de pôquer havia sido uma maneira de se distrair do fato de que ela dormia escada acima, sua maneira de esquecer o aspecto que tinha entre a água com espuma durante à tarde.

Não a tinha visto, como a fazia acreditar. Tinha-a visto entrar na sala da jacuzzi. Logo, ao não vê-la sair, foi verificar como estava. Viu-a deitada na enorme banheira, com o Rachmaninoff saindo dos alto-falantes do teto. O cabelo flutuava na água espumante. E o corpo... O corpo era longo, esbelto e pálido. Ainda podia sentir o impacto no peito.

Saiu com o mesmo cuidado com que tinha entrado. Tinha-o dominado o medo de que se Chantal houvesse aberto os olhos para vê-lo, se prostraria diante dela.

As imagens desse corpo o atormentavam dia e noite. Sabia que deveria ser capaz de esquecer. Não permitia que nada nem ninguém tivesse poder sobre ele. Mas começava a compreender como uma mulher podia transformar-se em uma obsessão só pelo fato de existir. Começava a entender como um homem podia ver-se afligido por suas próprias fantasias.

Isso despertava uma profunda preocupação. Se outro homem se obcecou com ela, e esse mesmo homem cruzava algumas linhas, até onde chegaria para tê-la? As cartas e os telefonemas pouco a pouco se mostravam mais urgentes. Quanto demoraria para fazer algo mais desesperado?

Nesse dia foram filmar nos fundos do estúdio. Outra equipe de filmagem já se encontrava em Nova Iorque gravando as externas. Chantal esperava ansiosa o momento em que alguns membros da equipe e ela teriam que voar ao Leste para também filmar as externas. Essa era a oportunidade de ver sua irmã Maddy e, com sorte, de poder assisti-la na Broadway.

Pensar nisso a devolveu ao seu estado de ânimo anterior. Durou inclusive a hora de atraso enquanto os técnicos arrumavam algumas falhas.

-Parece-se com Nova Inglaterra -comentou Quinn ao dar uma olhada no cenário ao ar livre.

-A Massachusetts, para ser exato -informou ela-. Já esteve ali?

-Nasci em Vermont.

-Eu em um trem -mordiscou uma parte de um pão doce e riu-. Bem, quase. Meus pais estavam a caminho de uma atuação quando rompeu a bolsa de minha mãe, ficaram o tempo suficiente para que minha mãe desse a luz a minhas irmãs e a mim.

-A suas irmãs e a você?

-Sim. Sou a mais velha das trigêmeas.

-Há três como você. Santo Deus.

-Só há uma como eu, Duram -colocou na boca um pedaço de pão doce enquanto desfrutava do ar fresco e do sol-. Somos trigêmeas, mas cada uma consegue ser independente. Abby cria cavalos e meninos na Virginia e neste momento Maddy os deixa loucos na Broadway.

-Não parece ser mulher de família.

-Vamos -sentia-se muito bem para se ofender-. Também tenho um irmão. Não posso te dizer o que faz, porque ninguém sabe com certeza. Eu acho que é gigolô profissional ou ladrão de jóias internacional. Dariam-se muito bem.

-Há muita espera neste negócio -comentou Quinn, mudando de assunto.

-Não é para pessoas inquietas. Eu tive que voltar ao meu camarim para esperar horas até que me chamassem para uma cena de cinco minutos. Em outros dias, trabalho quatorze horas seguidas.

-Por que?

-Porque é o que sempre quis fazer -era uma resposta típica. Não soube por que sentiu o impulso de continuar-. Já pequena, quando me sentava em um cinema e assistia ao que podia acontecer, sabia que tinha que ser parte disto.

-Assim sempre quis ser atriz.

-Sempre fui uma atriz -jogou o cabelo para trás e sorriu-. Queria ser uma estrela.

-Parece que conseguiu o que queria.

-Isso parece -murmurou, afastando uma leve ameaça de depressão-. O que me diz de você? Sempre quis ser... O que quer que seja?

-Queria ser um delinqüente juvenil, e estava a caminho de conseguir.

-Soa fascinante -queria saber mais. Para ser sincera, queria saber tudo sobre ele-. Por que não cumpre pena em San Quentin?

-Recrutaram-me - sorriu.

-O exército te fará um homem.

-Algo assim. De qualquer modo, aprendi a fazer aquilo que gostava, viver disso e me manter fora da cadeia.

-E o que gosta? -ele a olhou divertido e com desafio nos olhos-. Esquece que perguntei. Tentemos com outra coisa. Quanto tempo esteve no exército?

-Não disse que estive no exército -ofereceu-lhe um cigarro, e o acendeu para ele quando Chantal recusou.

-Disse que lhe tinham recrutado.

-Assim é. Recrutado e treinado pelo governo. Quer mais café?

-Não. Quanto tempo?

-Muito.

-Foi aí que aprendeu a não dar uma resposta direta?



-Sim -voltou a sorrir e antes um dos dois descobrisse sua intenção, abriu a mão para tocar seu cabelo-. Parece uma menina.

-Essa é a idéia -conseguiu responder após um instante-. Nesta cena tenho vinte anos, sou inocente, ansiosa e ingênua... E estou a ponto de ser deflorada.

-Aqui?

-Não, por ali -assinalou uma pequena clareira no bosque que a equipe de decoração tinha criado-. Brad me seduz e me promete sua devoção eterna. Consegue tirar a paixão que até agora eu somente entreguei a minha pintura, e logo a explora.



-E com todas estas pessoas olhando -Quinn estalou a língua.

-Eu adoro ter público.

-E ficou zangada porque a observei na banheira.

-Você...


-Já está tudo preparado, Chantal.

Depois de assentir em direção a seu secretário, ficou de pé e com cuidado alisou as calças.

-Consiga um bom lugar, Duram -sugeriu-. Pode ser que aprenda algo.

Seguindo o conselho, Quinn a observou ensaiar a cena várias vezes. Do seu lugar, parecia uma cena morna e típica: uma mulher ingênua e um homem inteligente em um bonito lugar primaveril. «Plástico», pensou. «Puro plástico».

-Silêncio -os murmúrios morreram no set-. Agora com filme -a claquet se fechou anunciando a primeira tomada. Ação.

Começou da mesma maneira, com Chantal sentada em uma rocha, desenhando. Quando apareceu Seam, ficou olhando-a um instante. No momento em que Chantal levantou a vista e o viu, Quinn sentiu que a boca secava. Nesse olhar estava tudo o que podia querer um homem. Amor, confiança, desejo. Se um homem fazia com que uma mulher o olhasse dessa maneira, poderia ganhar guerras e escalar montanhas.

Ele nunca quis que o amassem. Considerava que o amor prendia, o fazia responsável por alguém mais que não você mesmo. Tomava tanto ou mais do que dava. Isso achava, disso havia estado seguro, até ver essa expressão nos olhos do Chantal.

«Não é mais que um filme» lembrou ao dar-se conta de que perdera cinco minutos de gravação. Já tinham começado uma segunda tomada. A expressão nos olhos dela era ilusão, como o bosque em que se encontravam. Era um filme, ela uma atriz e tudo fazia parte do roteiro.

Na primeira vez em que Seam Carter a tocou, Quinn sentiu que tencionava a mandíbula. Para suasorte, a diretora cortou a cena.

Quando continuaram, Quinn disse a si mesmo que estava sob controle. Que estava ali unicamente pelo dinheiro que lhe pagavam. Pessoalmente, ela não significava nada para ele. Era uma cliente. Pouco lhe importava com quantos homens fazia amor, diante das câmaras ou longe delas.

Então viu a beijar Seam com gesto hesitante, e teve vontade de matar alguém.

Só era uma cena em um filme, com rochas falsas, árvores falsas e emoções falsas. Mas parecia tão real, tão sincero. A seu redor havia dúzias de pessoas para dirigir as luzes e os microfones. Inclusive quando Seam se aproximou de Chantal, uma câmara se juntou a eles.

Mas ela tremia. Viu-a estremecer quando Seam soltou a fita do cabelo para deixá-lo livre. Falou com voz trêmula ao dizer que o amava, que o desejava, que não tinha medo. Quinn descobriu que tinha fechado os punhos no bolso.

Os olhos dela se fecharam enquanto Seam lhe enchia o rosto de beijos. Parecia tão jovem, tão vulnerável, tão disposta a ser amada. Quinn não notou que a câmara se aproximavam. Só viu Seam lhe desabotoar a blusa, e como tinha os olhos presos nos de seu amante. Com dedos vacilantes, soltou os botões da camisa masculina. Ruborizou-se enquanto afastava o tecido e apoiava a face contra o peito dele. Deixaram-se cair sobre a grama.

-Corta.

Quinn retornou de repente à realidade. Viu Chantal sentar, e dizer algo a Seam que o fez rir. Tinha colocado um sutiã sem alças que permaneceria fora do alcance da câmara e jeans. Larry lhe passou a blusa que jogou sobre um ombro e lhe ofereceu um sorriso distraído.



-De novo. Chantal, depois que tirar a camisa, quero que levante a cabeça -indicou Mary Rothschild enquanto Chantal abotoava a blusa-. Nesse momento quero um beijo, bom e prolongado, antes que caiam na grama.

Em algum momento durante a quinta tomada Quinn recuperou a objetividade. Inspecionou os rostos dos que olhavam. Se sentia algum desconforto, já podia subtraí-lo. Seu trabalho era descobrir quem vigiava Chantal, não de forma clínica ou aprovadora enquanto terminava a cena, e sim alguém que poderia estar consumido pelo ciúme. Ou fantasiando. E não ia ajudar a ninguém se fosse ele.

Pegou outro cigarro e observou os rostos ao seu redor. Tinha pedido informações de todos, do câmera até o carpinteiro. O instinto lhe dizia que, quem quer que mande as cartas, era alguém que ela conhecia, alguém com quem poderia falar de forma casual diariamente.

Queria encontrá-lo, e depressa. Antes que ele mesmo começasse a obcecar-se.

O ajudante da diretora passou o braço em torno dos ombros de Chantal e, com a cabeça próxima ao ouvido dela, a levou do set. antes que chegassem ao trailer que fazia de vestiário dela, Quinn se plantou diante dos dois.

-Vão a algum lugar?

Chantal o olhou carrancuda, mas se conteve.

-De fato, ia me afastar um pouco do sol. Amos me passava o resto do programa do dia. Terá que perdoar Quinn, Amos. É um pouco... Possessivo.

-Não o culpo -de bom humor, Amos apertou o ombro do Chantal-. Esteve magnífica, Chantal. Chamaremos quando for necessária para gravar os primeiros planos e as tira de reação. Dispõe de uma meia hora.

-Obrigado Amos -esperou até que ele se afastou antes de voltar-se para Quinn-. Não faça isso.

-O que?

-Só faltava à faca entre os dentes -murmurou ao abrir a porta do trailer-. Disse a você que Amos era inofensivo. Ele...



-Tem o costume de tocar às mulheres. Uma dessas mulheres é meu cliente.

Chantal escolheu um suco sem açúcar da pequena geladeira e caiu no sofá.

-Se não quisesse que me tocasse, asseguro-o que não o faria. Não é a primeira vez que trabalho com Amos, e a menos que insista em se comportar como um idiota, não será a última.

Quinn abriu a geladeira e, para sua satisfação, encontrou uma cerveja.

-Olhe, anjo, não posso reduzir a lista de suspeitos para adequá-la a suas vontades. É hora de que deixe de fingir que a pessoa a quem tanto teme é alguém que não conhece.

-Não finjo -assegurou.

-Finge sim -bebeu um gole antes de sentar-se junto a ela-. E não finge nem com a metade do estilo com que o fazia há um momento quando deitava sobre a grama.

-Isso era trabalho. Isto é minha vida.

-Exato –pegou a pelo queixo-. Supõe-se que devo cuidar dela. Se ajudar a se sentir melhor, acabo de eliminar Carter.

-Sean? -sentiu uma onda de alívio, logo depois de cautela-. Por que?

-Por um raciocínio bastante simples -bebeu outro gole de cerveja para mantê-la um momento mais em suspense-. Dá-me a impressão de que se um homem estivesse obcecado com uma mulher... Concordamos que enfrentamos a uma obsessão?

-Sim, maldição -tirou-lhe a garrafa da mão-. Aonde quer chegar?

-Se estivesse louco por uma mulher, não poderia ficar de pé, tirar o pó da roupa e dar meia volta depois de ter estado grande parte do dia meio nu com ela.

-De verdade? -devolveu-lhe a cerveja-. Não esquecerei -relaxada outra vez, reclino-se nas almofadas e esticou as pernas. O que achou da cena?

-Embaçará alguns óculos.

-Oh, vamos, Quinn. Não foi uma simples questão de sexo. Foi uma traição à inocência e a confiança. O que aconteceu com Halley nesse bosque de Nova Inglaterra afetará o resto de sua vida. Uma transa entre os pinheiros não consegue isso.

-Mas uma transa entre os pinheiros ajuda a vender ingressos.

-Assim é a televisão. Procuramos níveis de audiência. Maldito seja, Quinn, pus muito nessa cena. É o ponto de inflexão na vida do Halley. Se não significar mais que...

-Esteve bem -cortou, e ela o olhou fixamente.

-Bem -deixou o suco-. Importasse em repeti-lo?

-Simplesmente esteve bem. Não sou eu quem concede os prêmios, anjo.

Ela levantou os joelhos e apoiou o queixo. Com o pequeno raio de luz que entrava através das cortinas, ainda parecia jovem e inocente.

-Como, bem?

-Como consegue alimentar esse ego quando está sozinha?

-Nunca neguei o tamanho de meu ego. Como, bem?

-O bastante para querer quebrar a cara de Carter.

-Sério? -encantada, mordeu o lábio inferior. O melhor seria não revelar o muito que significava para ela que elogiassem seu trabalho-. Antes ou depois que as câmaras filmassem?

-Antes, durante e depois -inesperadamente, abriu a mão para agarrá-la pela gola da blusa-. E não tente sua sorte, anjo. Tenho o costume de tomar o que me parece bem.

-Transborda classe, Duram -soltou os dedos fechados sobre a blusa-. Tanta classe baixa.

-Não o esqueça. Sabe, anjo? Senti algo estranho ao ver como colocava a mão em Carter.

-Não estávamos...

-Chame como quiser. Mas apesar de sua boa atuação, não dediquei todo o tempo a você. Olhei ao redor e vi algumas coisas interessantes.

-Quais?

-Brewster fumou meio pacote de cigarros enquanto Carter e você... Trabalhavam.



-É um homem nervoso. Vi coisas piores em alguns escritores quando filmam seu roteiro.

-Leery esteve a ponto de cair sobre seu colo para ver melhor.

-É seu trabalho.

-E seu secretário quase engole a língua quando Carter tirou sua blusa.

-Pare -ficou de pé e foi a uma janela. Iriam chamá-la logo. Não estaria bem se permitia que o que dizia Quinn a deixasse pusesse nervosa-. Pelo que a mim corresponde, projeta sua própria subjetividade nos que estão no set.

-Isso me recorda uma coisa -esperou até que ela o olhou-. Matt ainda não apareceu. Não é seu melhor cliente?

-Está decidido a me deixar sem ninguém -comentou depois de observá-lo.

-Exato – engoliu o sabor amargo que sentiu na garganta-. No momento, só deve confiar em mim.

-Não demorarão a me chamar. Irei deitar um momento -sem voltar a olhá-lo, dirigiu-se para a parte de atrás do trailer e atravessou uma porta.

Quinn teve o súbito impulso de jogar a garrafa contra a parede. Não era justo que o fizesse sentir-se culpado. Pagavam-lhe para isso. E seria muito mais fácil se ela se mostrasse grata. Se para isso devia derramar umas lágrimas, não podia evitá-lo. Não era importante.

Com uma maldição, pos a garrafa na mesa que tinha ao lado. Foi ao dormitório do trailer.

-Olhe, Chantal...

Ela estava sentada ao pé da cama, com o olhar preso em um envelope que sustentava nas mãos. Quinn cheirou o aroma doce e escuro de umas rosas silvestres antes de as ver na cômoda.

-Não posso abri-lo -murmurou Chantal. Ao olhá-lo, algo se retorceu no estômago dele. Não era só a palidez que a dominava, tampouco o medo que o fazia tremer os dedos. Era o desespero absoluto que havia em seus olhos-. Já não posso mais.

-Não tem que agüentar mais -com uma compaixão que acreditava afastada há anos sentou-se a seu lado e a aproximou dele-. Para isso estou aqui –tirou o envelope dos dedos tencionados-. Não quero que abra mais cartas. Se chegarem, me dê.

-Não quero saber o que escreve -fechou os olhos e se odiou por isso-. Simplesmente, rasgue-a.

-Não se preocupe por isso -guardou a carta no bolso de trás ao mesmo tempo em que lhe dava um beijo na cabeça. Tinha muitas perguntas a fazer, começando por saber quem poderia ter ido a seu camarim aquele dia-. Parte do trato é que confie em mim. Deixe que me ocupe das coisas.

-Não pode mudar o que isto me faz sentir -moveu a cabeça apoiada no ombro dele-. Sempre quis ser alguém. Sempre quis me sentir importante. Por isso me acontece? -com um soluço se separou de Quinn-. Possivelmente tenha razão. Talvez tenha procurado isso.

-Pare –segurou-a pelos ombros e rezou para que ela contivesse as lágrimas que podia ver que queriam aparecer-. Isso é uma estupidez. É linda, tem talento e o utiliza. Isso não significa que tenha a culpa da mente doentia de alguém.

-Mas me persegue -murmurou-. E tenho medo.

-Não vou deixar que te aconteça nada.

Pegou-o pela mão e suspirou.

-Assina com sangue?

-De quem? -sorriu e passou um dedo pela bochecha de Chantal.

-Obrigado -necessitada de conforto, apoiou a face na dele, comovendo-o.

-De nada.

-Sei que não facilitei as coisas -voltou a afastar-se com lágrimas nos olhos-. Fiz de propósito.

-Meu negócio são os problemas. Além disso, eu gosto de seu estilo.

-Enquanto estamos sendo amáveis um com o outro, direi que também gosto do seu.

-Um dia de trégua -murmurou, levando mão dela aos lábios.

Foi um engano. Os dois o compreenderam assim que se estabeleceu o contato. Seus olhares se encontraram por cima dos dedos unidos. Não era uma questão de tentação, de ira ou de paixão acesa, mas sim de necessidade. Chantal precisava sentir os braços do Quinn outra vez a seu redor, abraçando-a com força. Precisava sentir outra vez o contato de seus lábios, quentes, duros, exigentes. Sabia que todo o resto se desvaneceria se nesse momento se unissem.

De repente lhe pareceu imperativo compreender e ver o que Quinn tinha em sua mente, em seu coração. Desejava-a, poderia desejá-la tanto como ela o desejava nesse momento...?

Nenhuma outra mulher lhe tinha provocado jamais esse desejo. Nenhuma outra mulher lhe tinha feito ferver o sangue dessa maneira. Pensou que seria possível permanecer sentado aí toda a eternidade e simplesmente contemplar esse rosto. Era somente sua beleza? Poderia ser que uma fachada impecável o tivesse dominado de tal maneira?

Ou havia outra coisa, algo que parecia brilhar de dentro? Havia algo elusivo, quase secreto, que só se via em seus olhos se olhasse com rapidez e atenção. Nesse momento acreditou vê-lo. Logo somente pôde pensar no quanto a desejava.

A batida na porta do trailer fez com que ela se afastasse tensa. Levou ambas as mãos ao rosto, mas moveu a cabeça quando Quinn quis tocá-la.

-Não, tudo bem. É minha chamada para voltar ao set.

-Sente-se. Direi que não esta bem.

-Não -abaixou as mãos -. Não, isto não vai interferir em meu trabalho -fechou mão esquerda, mas ele pôde ver que lutava por recuperar o controle-. Não posso permitir que isso aconteça -rodou a cabeça e contemplou as rosas na mesa-. Não o permitirei.

Quis segurá-la, mas sabia que isso era o que tinha admirado nela desde o começo. Era uma mulher forte o bastante para opor resistência.

-De acordo. Quer mais alguns minutos?

-Sim, talvez -foi à janela e afastou as cortinas para deixar entrar mais sol. Era aterrador pensar na escuridão. De noite estava a sós com seus pensamentos e sua imaginação. Suspirou. Tinha trabalho a fazer-. Incomodaria-se em lhes dizer que saio em um minuto?

-Eu me encarrego disso - vacilou, desejando estar a seu lado, e sabendo que seria um engano para os dois-. Estarei lá fora, Chantal. Não saia até que se sinta preparada.

-Estarei bem.

Esperou até que o ouviu apoiar-se na janela. Chorar seria um grande alívio. Chorar, gritar, deixar-se levar diminuiria a tensão de seus nervos. Mas não podia. Esperavam-na mais horas de trabalho nesse dia. Necessitava de toda sua capacidade e resistência.

«Conseguirei», prometeu-se. Respirou fundo e deu as costas à janela. As flores não estavam mais lá. Observou a mesa com uma tola sensação de alívio. Ele as tinha levado. Nem sequer teve que pedir. Que classe de homem era? Rude e áspero por um momento, terno no seguinte. Perguntou-se por que não poderia ser fácil de entender e de descartar. Moveu a cabeça e se dirigiu a parte dianteira do trailer. Quinn era impossível de entender. E ainda acendia algo nela. Era qualquer coisa menos o tipo de homem com o qual uma mulher poderia sentir-se confortável. E se sentia tão segura ao saber que estava perto.

Se não se conhecesse tão bem, quase teria acreditado que começava a apaixonar-se por ele.



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