Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 6
Foi tudo menos uma semana tranqüila, apesar de que Chantal passou grande parte dela na cama. Uma cama grande e confortável na qual gravaram sua noite de bodas, à noite de bodas de Halley, não com o homem que amava, mas com o homem que queria amar.

O cenário incluía um balde com uma garrafa de champanhe, um casaco comprido de marta zibelina jogado sobre uma cadeira e uma mesa cheia de rosas às quais teriam que molhar constantemente para que se mantivessem frescas sob as luzes. Dom Sterling, um relativo desconhecido, tinha sido o escolhido para interpretar o homem com quem ia se casar. Tinham-no selecionado principalmente por seu aspecto e pela química. Embora a última leitura do roteiro que havia feito com Chantal tivesse sido excelente, seus nervos fizeram com que durante a manhã danificasse a cena meia dúzia de vezes.

Presa entre seus braços, Chantal sentiu que ficava tenso. E antes que ele o fizesse, foi ela quem interrompeu a cena, com a esperança de tirar um pouco da pressão de seus ombros.

-Sinto muito –encolheu os ombros com gesto delicado-. Podemos parar por cinco minutos, Mary? Começo a me sentir cansada.

-Que sejam dez -ordenou Rothschild, logo se voltou para conversar com seu ajudante.

-Que tal uma xícara de café? -Chantal aceitou o robe que entregaram e colocou enquanto sorria para Dom.

-Só se puder me afogar nela.

-Primeiro tentemos bebê-la -fez um sinal a Larry e logo encontrou duas cadeiras em um canto relativamente tranqüilo. Ao ver que Quinn começava a aproximar-se, fez um gesto negativo com a cabeça e se aproximou de Dom-. É uma cena difícil.

-Não deveria ser -passou uma mão pelo cabelo escuro.

-A ordem que seguem para filmar esta série faz com que tenhamos algumas cenas juntos logo no inicio. Primeiramente estamos casados e em nossa lua de mel -aceitou o café que ofereceu Larry-. Não sei você, mas acredito que seria mais fácil meter-se na cama com alguém que se conheça um pouco.

Ele sustentou a xícara com ambas as mãos e emitiu um risinho.

-Supõe-se que sou um ator.

-Eu também.

-Você poderia fazer esta cena com os olhos fechados -bebeu um gole, e com um suspiro de desânimo deixou-a de lado-. Serei sincero. Intimida-me muito -quando ela somente arqueou uma sobrancelha, suspirou e afastou o olhar-. Quando meu agente me chamou para dizer que tinha este papel e que contracenava com você, quase entro em parafuso.

-Isso dificulta pôr paixão -apoiou a mão na dele-. Quando leu o roteiro comigo, esteve genial. Ninguém se aproximou sequer da sua atuação.

-A cena se desenvolvia no estúdio de arte de Halley –fez uma expressão melancólica-. Não havia uma cama à vista.

-Na primeira cena de amor que interpretei tive por companheiro a Scott Baron. A lenda de Hollywood... O homem mais sexy do mundo. Tinha que beijá-lo, e meus dentes batiam de tão assustada estava. Levou-me a um lado, comprou-me um sanduíche de atum e me contou histórias, a metade das quais sem dúvida eram mentiras. Logo me contou uma real. Disse que todos os atores são crianças e que todas as crianças gostam de brincar. Se não brincassemos bem o jogo, teríamos que crescer e conseguir trabalho de verdade.

-Funcionou? -perguntou ele, já mais relaxado.

-Foi isso ou o sanduíche de atum, mas voltamos ao set e começamos a brincar.

-Roubou-lhe aquele filme.

-Isso ouvi dizer -sorriu e bebeu um pouco de café-. Não acredite que vou deixar que me roube este.

-Falhou na última linha do diálogo de propósito.

-Não sei do que esta falando.

-Tem fama de ser fria e obsessiva -murmurou ele-. Jamais esperei que fosse... Bom, agradável.

-Que não diga a ninguém -levantou-se e lhe ofereceu a mão-. Coloquemos em marcha esta lua de mel.

A cena foi como seda. Quinn não sabia o que Chantal havia dito durante a breve reunião que manteve com seu companheiro, mas tinha funcionado. Quanto a ele, começava a aprender a não ficar tenso ao vê-la nos braços de outro. Era difícil experimentar ressentimento quando se requeria tanta tecnologia para preparar a cena. Terá que ajustar as luzes para que simulassem uma iluminação de velas. Chantal e Dom estavam na cama, ele nu até a cintura, ela com uma camisola que lhe chegava até as coxas. A câmara se achava quase em cima deles. A diretora se encontrava ajoelhada sobre a cama e repassava os movimentos. Ao sinal, Chantal e Dom se voltaram um para o outro como se fossem as únicas pessoas na face da Terra.

Quinn encontrou uma cadeira e descobriu que se achava muito nervoso para sentar. Além de simpatia por havê-la visto em uma situação tão vulnerável, tinha-o dominado a fúria ao pensar que essa mulher estava sendo ameaçada. Sua mulher. Esse era o problema. Quanto mais tempo passava com ela, mais fácil começava a ser pensar que era dele.

«Vá com calma, Duram», ordenou-se. «devagar». Se não recuperasse o equilíbrio se meteria em problemas. Um homem não podia prender a respiração para sempre.

Esmagou o cigarro e desejou que o dia interminável chegasse ao fim.

Naquela semana haviam aparecido duas cartas, que não havia mostrado a Chantal. O tom tinha variado de súplica a quase choro. Isso o preocupava mais que a sutil ameaça das primeiras cartas. O autor estava a ponto de ruir. Quando o fizesse, sabia que seria como um gêiser, veloz e violento. Esperava que fosse logo, já que sua própria paciência se esgotava. Seria um escape para a fúria que começava a acumular-se em seu interior.

-Por hoje acabou. Não se divirtam muito no fim de semana. Na segunda-feira quero-os vivos e coerentes.

Ainda com a camisola, Chantal estava sentada na beira da cama e mantinha uma conversa animada com Dom. Ciúmes. Quinn não sabia de onde nem por que tinham vindo. Sempre tinha vivido e deixado viver. Se uma mulher, inclusive uma mulher com a que ele estivesse relacionado, decidia olhar para outro homem, estava em seu direito. Dessa maneira tinha sido durante anos. Jamais tinha experimentado essa intensa contração nas vísceras por uma mulher. Sentia-a nesse momento e não gostava. Incapaz de parar aproximou-se de Chantal e a pôs de pé.

-Acabou o recreio -disse.

-Me solte -murmurou quando ele a levou para o trailer.

Larry se adiantou com o robe, viu a expressão na face de Quinn e recuou.

-Quieta.


-Duram, este é meu lugar trabalho, mas mesmo assim, vou criar a maior e mais sensacional cena que seu cérebro retorcido já viu. Será manchete nos jornais durante semanas.

-Vá em frente.

-Qual é o seu problema? -inquiriu com os dentes apertados.

-Você. Para uma mulher que tem que andar com cuidado mostrava-se excessivamente amigável com esse menino.

-Menino? Dom? Pelo amor de Deus, é um companheiro, e não é um menino. É dois anos mais velho que eu.

-Embaçava suas lentes de contato.

-Não cansa de interpretar sempre o mesmo papel? -soltou-se de um puxão e abriu por si mesmo a porta do camarim-. Se tivesse estado fazendo seu trabalho, já teria um relatório de Dom Sterling e saberia que virtualmente está comprometido com uma mulher com que sai a dois anos.

-E a mulher em questão se encontra a cinco mil quilômetros em Nova Iorque.

-Sei -ao afastar o cabelo do rosto, a camisola se moveu em um sussurro sedoso sobre sua pele-. Contava-me que ia tomar um avião para ir a Costa Leste para passar o fim de semana com ela. Está apaixonado, Duram, embora saiba que possivelmente não consiga entender a palavra.

-Um homem poderia estar apaixonado por outra mulher e seguir te desejando.

Chantal fechou com força a porta do camarim e se apoiou nela.

-Você, o que sabe do amor? O que sabe sobre qualquer emoção autêntica?

-Quer emoções? -colocou as mãos na porta, de ambos os lados de sua cabeça. Embora ela abrisse muito os olhos pela surpresa, não se moveu-. Quer provar a classe de emoção que provoca em um homem? O real, anjo, não um pouco saído das páginas de um roteiro. Acredita que pode suportar?

O coração latejava com força. Era uma loucura desejar que a tomasse, que a saqueasse, esvaziasse e debilitasse. Não via mais que fúria nos olhos do Quinn, mas, de algum modo, adorou. Se for a única coisa que inspirava, quase seria suficiente. Estava disposta a aceitá-lo, e isso a aterrava.

-Deixe-me em paz -sussurrou.

-É inteligente ao me temer.

-Não me assusta.

-Está tremendo -aproximou-se mais.

-Estou furiosa -apertou as mãos úmidas contra a porta.

-É possível. Embora também é possível que se deva a que não sabe bem o que passará a seguir. Não tem as falas de um roteiro, verdade, Chantal? Não é tão fácil acender e apagar o interruptor.

-Saia de meu caminho.

-Ainda não. Quero saber o que sente -apertou o corpo levemente contra o dela-. Quero saber e sentir.

Ela começava a perder terreno, e o que ficava tremia. Se a tocava nesse momento, se a tocava de verdade, temia perder tudo. Como podia lhe dizer o que sentia, quando ia contra todas as regras? Queria que a abraçasse, que a protegesse, que a cuidasse, que a amasse. Se contasse isso, ele somente sorriria e tomaria o que desejava. Já a tinham deixado vazia antes, e nunca mais aconteceria de novo.

Ergueu o queixo e aguardou até que os lábios de Quinn ficaram a centímetros dos seus.

-Não é melhor que o homem, pelo qual o contratei para me proteger.

Ele recuou como se o tivesse esbofeteado. A expressão aturdida em seu rosto fez com que ela quisesse acariciá-lo. Mas se segurou à porta e esperou o próximo movimento de Quinn.

-Vista-se -disse-lhe, e deu a volta.

Enquanto ela se ia, abriu a geladeira em busca de uma cerveja. Chantal tinha razão. Girou a tampa da garrafa e deu dois goles. Quis assustar, enfraquecer, logo tomar ali mesmo, segundo seus próprios termos. Se demonstrasse que o que acontecia entre eles era algo frio e calculado, talvez pudesse acreditar que ela não significava nada para ele.

Tinha querido feri-la. Chantal ameaçava sua paz mental e tinha a necessidade de contra-atacar. Teria empregado o sexo para livrar-se e pagar pelas noites inquietas que lhe provocava. A onda de desgosto consigo mesmo foi tão pouco familiar como os ciúmes que havia sentido antes.

Fez e viu coisas na vida que fariam empalidecer e deixariam sem fala a outros. Entretanto, pela primeira vez se sentia verdadeiramente sujo.

Quando a ouviu retornar, atirou a garrafa no cesto de papéis. Tinha colocado calças rosa e uma jaqueta com um desenho floral. Parecia serena e composta, absolutamente como o personagem inquieto e aberto que tinha interpretado todo o dia.

Sem dizer uma palavra, passou ao lado dele e apoiou a mão na maçaneta da porta. Antes que pudesse abri-la, Quinn lhe cobriu a mão com a sua. Amaldiçoou-se quando a notou ficar rígida e o olhou com frieza e desinteresse.

-Tem direito a alguns tiros -disse ele com suavidade-. Nem sequer me esquivarei.
Durante um momento ela guardou silêncio. Logo, à medida que a fúria se dissipava, suspirou. Estava cansada, extenuada devido à constante exposição às emoções.

-Deixarei para outra ocasião -ao girar o trinco, sentiu a pressão da mão dele.

-Chantal...

-O que?


Queria desculpar-se. Não era seu estilo, mas desejava lhe dizer que lamentava. A necessidade estava aí, mas as palavras não saíam.

-Nada. Vamos.

No carro reinou o silêncio enquanto a culpa corroia Quinn. Assegurou-se de que essa sensação desapareceria. Atribuiu-o a outra das emoções estranhas que ela lhe provocava. Não podia perder tempo preocupando-se com coisas como essa. Tinha que fazer um trabalho, e se tinha ultrapassado os limites, era algo que não voltaria a repetir-se. Caso encerrado. Acompanharia-a casa, certificar-se-ia de que as portas estavam fechadas e o alarme ligado, e relaxaria. Deveria ler o relatório da investigação, embora tivesse a convicção de que seus homens não haviam descoberto nada pelo tipo de papel empregado. Necessitavam que o cara cometesse um erro. Até o momento, sem importar quão instável fora o admirador de Chantal, tinha sido inteligente.

Reclinou-se no assento enquanto a limusine atravessava o portão e pensou que gostaria de poder pensar o mesmo dele.

Preferiu atuar de maneira impulsiva. Ao sair do carro, não titubeou nem pensou duas vezes. Pegou Chantal pela mão e começou a levá-la ao redor da casa.

-O que esta fazendo?

-É sexta-feira de noite e estou farto de ficar preso na casa. Vamos jantar -deteve-se junto a seu carro e fez um gesto com a cabeça a um dos homens que patrulhavam a propriedade.

-Já pensou que talvez não goste de sair?

-Onde vou eu, vai você -abriu a porta e começou a empurrá-la para dentro.

-Duram, tive uma semana de sessenta horas e estou cansada. Não quero ir a um restaurante para ser alvo de olhares.

-Quem disse restaurante?

-Não tenho fome.

-Eu sim -empurrou-a e fechou a porta.

-Já te falaram alguma vez que é um mal educado em todas as facetas sociais?

-Constantemente.

Arrancou e saiu a toda velocidade pelo caminho particular. Chantal prendeu o cinto de segurança.

-Se bater esta sucata comigo dentro, os produtores vão pedir sua cabeça em uma bandeja -durante um momento perguntou se não valeria a pena.

-Nervosa?

-Você não me deixa nervosa, Duram, simplesmente me irrita.

-Todo mundo tem que ser bom em algo – ligou o rádio e o ambiente se encheu de rock.

Chantal fechou os olhos e fingiu não prestar atenção.

Quando o carro parou, não se moveu. Decidida a não mostrar outra coisa que indiferença, ficou quieta à medida que o silêncio crescia. Não tinha nem idéia de onde estavam e se disse que não importava. A porta de Quinn se abriu e fechou, e continuou sem se mover. Mas abriu os olhos.

Viu-o dirigir-se ao pequeno posto de comida rápida e conteve um riso. Não queria que a divertisse.

Ao chegar em casa beberia uma taça de vinho e uma salada com o tempero especial de ervas de seu cozinheiro. Só Deus sabia o que Quinn levava para o carro em uma bolsa branca. Não comeria. Fechou outra vez os olhos e tratou de não reagir quando os aromas realmente deliciosos encheram o veículo.

Ele a olhou, sorriu e voltou a arrancar.

Uma vez mais, Chantal não sabia aonde foram, mas o caminho começou a serpentear e os sons do trafego a diminuir. Esteve a ponto de cochilar enquanto seu organismo absorvia o pequeno passeio crepuscular. Não havia se dado conta do muito que precisava afastar-se... Do trabalho, de sua casa, talvez de si mesmo. Não ia ser fácil agradecer. Mas conseguiria.

Quando o carro voltou a parar, se negou a mover-se. A curiosidade a consumia, mas manteve os olhos firmemente fechados. Sem dizer nada, Quinn pegou a bolsa e a agitou para que o aroma impregnasse o interior. Logo abaixou e fechou a porta a suas costas.

O estômago de Chantal se contraiu, lembrando que o prato de queijo e frutas do almoço já estava longe. Abriu os olhos e empurrou a porta. Ao fechá-la, o som pareceu ecoar uma eternidade. Assombrada, olhou ao redor.

Achavam-se no alto das colinas, em um lugar a que ela jamais tinha ido. Abaixo, muitos quilômetros abaixo, Los Angeles se estendia interminável. Pôde ver os níveis diferentes de cor no céu à medida que o sol se punha. A primeira estrela surgiu e brilhou e esperou paciente que outras se unissem a ela. A brisa soprava através dos arbustos, mas a cidade que ela conhecia tão bem parecia presa em cristal de tão silenciosa que estava.
-Impressiona, não?
Girou e viu Quinn apoiado em um H gigantesco. Compreendeu que se tratava do letreiro de Hollywood e esteve prestes a rir. Tinha-o visto tantas vezes que seu cérebro já não registrava. Das colinas parecia branco, invulnerável e possivelmente imortal. De perto, como a cidade que anunciava, em sua maior parte era ilusão. Certamente, era grande e chamativo, mas um pouco sujo, um pouco torto. Perto da base estava pichado.

-Não iria mal uma mão de tinta -murmurou Chantal.

-Não, é mais honesto desta maneira -com o pé afastou uma lata de cerveja-. Os adolescentes vêem aqui pela emoção.

-E você? -inclinou a cabeça.


-Oh, eu gosto da vista -sem esforço subiu por umas rochas e se colocou na base de um L-. E a tranqüilidade. Se tiver sorte, pode subir até aqui e não ouvir nada salvo um coiote de vez em quando.

-Coiote? -olhou por cima do ombro.

-Isso -sem incomodar-se em ocultar um sorriso, colocou a mão no bolso-. Quer um taco?

-Um taco? Arrastou-me até aqui para comer tacos?

-Tenho um pouco de cerveja.

-Maravilhoso.

-Vai esquentar. Seria melhor que a bebêssemos.

-Não quero nada.

-Como quiser -abriu um taco e deu uma mordida-. Também há algumas batatas fritas -indicou com a boca cheia-. Possivelmente um pouco gordurosas, mas ainda estão quentes.

-Não sei como posso resistir -deu as costas para voltar a contemplar a cidade. O destino quis que a brisa lhe levasse os aromas. A boca encheu de água. Franziu o cenho diante das luzes e desejou que Quinn Duram fosse para o inferno.

-Imagino que uma mulher como você desdenha algo que não seja champanha e caviar.

Chantal girou e ficou com a cidade e o crepúsculo a suas costas. O coração de Quinn deu um salto. Jamais a tinha visto tão formosa.

-Não sabe nada de mim, nada -sua voz tinha um que de fúria e os olhos se entrecerraram-. Passei meus primeiros vinte anos de vida indo de cidade em cidade, comendo em lanchonetes gordurentas ou no quarto de um motel. Às vezes, se tínhamos sorte e a apresentação tinha ido bem, podíamos jantar na cozinha do hotel. Se não fossemos tão afortunados, sempre havia ovos duros e café. Não se sente aí em seu pequeno e arrogante mundo a me atire pedras, Duram. Não sabe o que sou ou quem sou. As únicas coisas que sabe é o que eu mesma criei.

Devagar ele deixou a cerveja na pedra.

-Certo -murmurou-. Não lerei nada disso em sua biografia oficial, não é?

Ela somente pôde olhá-lo fixamente. Não sabia o que tinha que a fazia perder o controle. Por que havia sentido o impulso de lhe revelar suas raízes?

-Quero voltar.

-Não, não quer -disse, mas com voz suave. Foi essa suavidade que derrubou as defesas dela-. Aqui só estou eu, Chantal. Por que não nos sentamos e observamos o resto do mundo durante um instante?

Antes de refletir, tinha dado um passo na direção dele.

Quando Quinn ficou de pé e estendeu uma mão para ajudá-la a subir, aceitou-a sem vacilo. A hesitação surgiu assim que suas mãos se uniram. Recordou a força dessa mão e levantou o olhar. Ficaram um instante olhando-se enquanto o céu escurecia em torno deles. Logo ele a subiu.

-Sinto muito -a desculpa surpreendeu aos dois.

-Por que? -quis afastar os dedos, mas ele levantou a mão para lhe acariciar o cabelo.

-Pelo que aconteceu antes. Não sei por que, mas algo em você me deixa nervoso.

-Então estamos em paz -não desviou os olhos da face de Quinn.

Quinn sabia que em toda situação surgia um momento de sinceridade. Provavelmente esse era o seu.

-Chantal, desejo-a. E aceitar esse fato me está fazendo passar por um inferno.

Outros homens a tinham desejado, outros homens o disseram de formas mais belas. Mas as palavras jamais lhe tinham feito ofegar.

-Poderia despedi-lo.

-Não importa.

-Não, suponho que não -desviou o olhar, surpresa pela força de seu próprio desejo-. Quinn, não posso ir para a cama com você.

-Supunha que sentisse algo semelhante.

-Quinn –pegou o pela mão quando ele começou a recuar-. Não sei quais acredita serem meus motivos, mas garanto que se engana.

-Não é seu estilo -recolheu outra vez a cerveja-. Tampouco seu tipo.

Chantal a pegou e a atirou sobre as rochas, que se encheram de espuma antes que o vidro quebrasse.

-Não me diga o que penso. Não me diga o que sinto.

-Então me diga isso você -aproximou-a dele.

-Não tenho que dizer nada. Não tenho que dar nenhuma explicação. Maldito seja, só quero um pouco de paz. Quero desfrutar de umas horas sem pressão. Não sei se poderei resistir muito mais tempo enquanto tenta me pressionar por todos os lados.

-Esta bem -imediatamente suas mãos a prenderam com delicadeza e começaram a lhe acariciar as costas-. Tem razão. Não te trouxe até aqui para que brigássemos, mas me deixa nervoso.

-Voltemos.

-Não, sente-se. Por favor -acrescentou enquanto lhe beijava o cabelo-. Vejamos se somos capazes de ficar uma hora aqui sem brigar. Pegue um taco –lhe sorriu enquanto empurrava a para que se sentasse.

Chantal olhou uma vez para a bolsa e se rendeu.

-Estou morta de fome.

-Sim, imaginava -entregou-lhe alguns guardanapos de papel. Durante os minutos seguintes comeram em agradável silêncio-. Foi dura sua infância?

-OH, não -respondeu enquanto abria um pacotinho de sal para temperar as batatas-, não quis dar a entender isso. Simplesmente foi diferente. Meus pais eram artistas. Atuavam juntos há mais de trinta anos. Nós seis percorríamos o país e alguns dos lugares em que atuávamos eram antros. Mas minha família... -sorriu e com gesto distraído aceitou uma cerveja-. É maravilhosa. Rick fazia alguns números, mas era o melhor ao piano. Estava acostumada a me frustrar que apesar do muito que me esforçasse, nunca podia tocar melhor que ele.

-Rivalidade fraternal.

-Claro. Sem ela a vida seria muito aborrecida. Rick e eu sempre fomos tão parecidos que não podíamos estar muito tempo sem provocar um ao outro. Jamais foi assim entre minhas irmãs e eu. Quase éramos um só ser -bebeu um gole e olhou para a cidade-. E seguimos sendo. Deus, às vezes é tão duro estar longe delas. Quando éramos pequenas fizemos um monte de planos para continuar com nosso show -recordava esses planos com um pouco de pesar-. Mas crescemos.

-Que tipo de show?

Rindo, Chantal lambeu o sal dos dedos.

-Alguma vez ouviu falar das Trigêmeas O’Hurley?

-Sinto muito.

-Provavelmente sentiria mais se tivesse ouvido falar de nós. Cantávamos canções populares.

-Canta?


-Duram, não só canto, mas sou magnífica.

-Nunca canta em seus filmes.

-Não aconteceu –encolheu os ombros-, Matt não pára de dizer que um dia destes poderíamos dar uma surpresa ao público e aparecer de convidada em algum programa de variedades, onde poderia cantar algumas canções e possivelmente também dançar um pouco. Sim -acrescentou quando ele a olhou incrédulo-, sei dançar... Do contrário, meu pai teria morrido de vergonha.

-Por que não o faz?

-A ocasião não pareceu. Além disso, concentrei-me no que faço melhor.

-E o que é? –amassou o pacote e o colocou no chão.

-Interpretar -olhou-o com gesto zombeteiro.

Em vez de lhe devolver o sorriso, colocou-lhe o cabelo atrás da orelha.

-Acredito que neste momento não está interpretando.

-Não esteja tão seguro -girou a cabeça. O céu estava quase escuro, mas tinha algumas estrelas-. A metade das vezes nem eu estou.

-Acredito que sim.

Quando voltou a olhar, a boca ficou perto da dele. Perto e tentadora.

-Não. Já disse que não posso...-mas os lábios do Quinn a tocaram, leves como um sussurro, e a pararam em seco.

-Sabe como me senti hoje ao vê-la naquela cama com Sterling?

-Não. Não quero saber. Já lhe disse, é meu trabalho.

estava quase seduzida; percebia em sua voz. Sentiu um formigamento na pele ao pensar em levá-la mais adiante.

-Não estava seguro se queria estrangulá-lo a ele ou a você, mas sabia que queria que me olhasse do mesmo modo que olhava para ele.

-É um papel. Supõe-se que...

-Aqui não há nenhuma câmara, Chantal. Só você e eu. E acredito que é disso que tem medo. Não há ninguém para dizer o que deve sentir. Ninguém vai gritar «Corta» antes que a situação vá mais longe.

-Não preciso de ninguém que me diga o que sentir. Não preciso de ninguém -repetiu, e aproximou outra vez a boca dele.

Desejava experimentar a selvagem corrente de sensações que Quinn era capaz de provocar. Ninguém mais além dele. Poderia lhe dizer que ninguém a havia tocado dessa maneira, mas nunca acreditaria. A imagem que tinha estava virtualmente esculpida em pedra, e ela mesma a tinha feito. O que era por dentro pertencia a ela. E estava decidida a não compartilhar essa parte de si mesma.

Mas podia ter isso... O calor, a necessidade, o desespero. Podia tomar isso e poderia devolvê-lo sempre... desde que se prometesse não se entregarem muito. Sempre e quando contanto que não se entregasse.

O céu escureceu sobre eles e o vento sussurrou entre os arbustos.

Chantal tirava algo dele. Não parecia ser capaz de detê-la. Subiu as mãos inseguras para brincar com seu cabelo. A mente estava nublada pelas necessidades, mas não eram tão simples como deveriam ser. O desejo podia provocar desejos, mas não deveria permitir que o cortasse ao meio.

Queria tomá-la ali mesmo, nas rochas e no chão. Queria tratá-la como porcelana, com delicadeza e muito cuidado.

Tinha o corpo tenso, preparado para explodir. Deus tinha que tocá-la, embora somente uma vez. Com um movimento fluido correu a mão por sua perna, por seu quadril, até encontrar e envolver um seio. Era pequena, incrivelmente frágil, e suave como a água. Abriu dois botões da blusa que usava para ter um banquete com a cálida pele que cobria.

Fazia tanto, tanto tempo que Chantal não permitia que a tocassem, que não sentia a necessidade de intimidade. Queria as mãos de Quinn nela, que esses lábios tomassem sua boca, que apertasse o corpo duro e exigente contra o seu. Ao inferno onde estavam e quem eram. Ao inferno com o preço que sem dúvida pagaria por amá-lo.

Em um ato de entrega que o deixou tonto, Chantal rodeou o pescoço com os braços e enterrou o rosto em seu pescoço.

-Chantal... -foi levantar seu rosto, desejando ver o que havia em seus olhos. Então ouviu um barulho nos arbustos, que se repetiu e o pôs em estado de alerta.

-O que? O que acontece? -ela também ouvira-. Um animal?

-Sim, provavelmente –mas não acreditava. Afastou-a para um lado com os nervos tensos.

-Aonde vai?

-Dar uma olhada. Fique aqui.

-Quinn... -começou a ficar de pé.

-Não se mova. O mais provável é que seja um coelho.

Não era um coelho. Chantal percebeu em sua voz. Não era tão bom ator. O medo a fez desejar se encolher. O orgulho a impulsionou a segui-lo.

-Irei com você.

-Chantal, sente-se.

-Não -agarrou-se a seu braço.

Resignado, Quinn a ajudou a equilibrar-se.

-Certo, mas tome cuidado. Se tiver um arranhão nessa pele delicada, jogarão a culpa em mim.

-Não se engane.

Como o sol se pôs por completo, foi para o carro pegar uma lanterna.

-Por que não fica sentada e...?

-Não.

Amaldiçoando em voz baixa, voltou a pegá-la pelo braço. Caminhou devagar para os arbustos, colocando o corpo de tal maneira que ela ficasse protegida.



-Há muitos animais por ai - começou, mas seus músculos estavam preparados. Avançou em silêncio, com Chantal arrancando-lhe a mão.

-Lembro-me, coiotes.

-Sim -ficou de joelhos para ver alguma pegada. Iluminou-as com a lanterna.

-Suponho que os coiotes não usam sapatos -comentou ela, apertando os lábios.

-Não que eu saiba -odiava perceber um vestígio de medo na voz dela-. O mais certo é que tenha sido um menino.

-Não. Você não acredita nisso, e eu tampouco -contemplou os rastros. O arbusto se achava a menos de cinco metros de onde tinham estado sentados-. Alguém nos vigiava e acredito que ambos sabemos por que. Deus -apertou os dedos contra os olhos-. Esteve aqui. Esteve aqui mesmo, nos olhando. Por que não para? Por que não...?

-Se controle -agarrou-a pelos ombros e a sacudiu.

Ela respirou fundo e esteve a ponto de gritar quando chegou o eco de um motor ao ser ligado.

-Seguiu-me -deixou de tremer. O corpo estava embotado até para isso-. Quantas outras vezes terá estado assim, me espiando?

-Não sei -frustrado, olhou na direção do caminho escuro já. Embora pudesse deixar Chantal ali sozinha, nunca alcançaria o outro carro-. Lembre-se que agora está nos vigiando. Não deixarei que chegue até você.

-Durante quanto tempo? -murmurou antes de dar meia volta-. Quero voltar.



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