Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 7
-Parece que não chegamos a lugar nenhum -Chantal se serviu de um brandy e logo encheu o copo de Matt.

-Sinto muito, Chantal. Teria jurado que se alguém podia conseguir uma resposta, seria Quinn.

-Não é sua culpa -com o copo nas mãos, dirigiu-se à janela. O sol se punha. Recordou de outro crepúsculo.

-Mudou o discurso desde a primeira vez que falamos dele.

«mais do que imagina», pensou, mas encolheu os ombros.

-Não posso afirmar que não esteja fazendo tudo o que pode, isso é tudo.

-Então talvez tenha que dizê-lo eu -respondeu Matt, que odiou perceber a resignação cansada na voz dela-. Não encontrou nada sólido. E em relação as cartas?

-O papel em que foram escritas poderia ter saído de dúzias de lojas comuns da área de Los Angeles. É impossível rastreá-lo.

-E as flores -inquieto, foi até a janela e daí à lareira, deixando uma trilha de fumaça a sua passagem-. Deve haver alguma maneira de rastrear onde as compraram.

-Parece que não. Quase todo o tempo aparecem em meu camarim ou em alguma parte do set. Até agora, ninguém viu quem as entrega.

-As floriculturas guardam registros dos pedidos.

-Se pagarem em dinheiro e as entregar você mesmo, não haveria motivo para pedir uma identificação -apertou os dedos sobre a nuca, tratando de eliminar um nó de tensão.

-Alguém poderia lembrar quem...

-Quinn me disse que seus homens percorreram todas as floriculturas da área. Não há nada.

-Chamadas telefônicas.

-Não foram capazes de rastrear.

-Maldição. Chantal, possivelmente deveria reconsiderar a idéia de recorrer à polícia.

Voltou-se. Com ele podia permitir o luxo de mostrar o cansaço.

-Matt, acredita que poderiam fazer mais do que Quinn tem feito?

-Não sei –era duro observar o desespero tranqüilo que dominava o rosto dela. Prendeu o olhar no brandy-. Não sei -deixou o copo e se aproximou de Chantal-. Estava convencido de que tudo estaria resolvido em questão de dias.

-Não é tão simples. Parece que é um homem inteligente, ou pelo menos precavido.

-Está segura de que contou a Quinn tudo o que sabe?

-E o que não conto, investiga -fez oscilar o conteúdo do copo-. Investiga todo mundo que conheço.

-Bom isso...

-Incluindo você.

Olhou-a fixamente. Com uma careta, colocou as mãos nos bolsos e com gesto nervoso tirou o isqueiro.

-Bem, é minucioso.

-Eu não gosto, Matt -pela primeira voz uma emoção real apareceu em sua voz-. Sinto-me... Não sei, mal ao pensar que entra na vida das pessoas, e por minha causa.

Não de todo confortável Matt passou um braço pelos seus ombros.

-Olhe, querida, se tirar alguns esqueletos em meu armário ajuda a chegar ao fundo disto, então vale a pena – ficou em silencio por um momento, depois pigarreou-. E bem, o que descobriu?

-Sobre você?

-É um bom lugar para começar.

-Não sei -suspirou e apoiou a cabeça no ombro dele. O sol tinha desaparecido por completo, deixando um vestígio de cor sobre as nuvens-. Disse-lhe que não queria saber. Começou a me dar informações sobre pessoas como Larry e James Brewster, e me desagradou. Concordamos que adotaria as precauções que ele estabelecesse e que guardaria a informação que tivesse para ele mesmo.

-Isso é enterrar a cabeça na areia, Chantal -com uma mão acendeu o isqueiro de prata gravado com suas iniciais.

-Não me importo.

-Escuta, não há ninguém, certamente ninguém que tenha mais de vinte anos, que não tenha feito algo do qual não se envergonhe, algo que prefira manter oculto. Quinn tem o direito de investigar, e por ser quem é, nada do que descubra sairá dele.

-Obrigado pelo voto de confiança -Quinn se deteve na soleira e os estudou. Matt continuava com o braço em volta dela. A cabeça de Chantal repousava no ombro dele. Com um toque de ressentimento, deu-se conta de que parecia confortável.

-Fui eu quem o recomendou -indicou Matt-. Odiaria pensar que cometi um engano.

-Não cometeu -Quinn foi ao bar se servir de uma dose dupla de brandy-. Como está, Matt? Pensava que o veríamos mais.

-Estive ocupado.

Ao sentir a tensão entre eles, Chantal deu um passo à frente.

-Pare -disse a Quinn-. Não comece com ele.

-Volta a me dizer como devo fazer meu trabalho, anjo.

-Não vou permitir que submeta meus amigos a interrogatórios.

-Por que não nos sentamos? -Matt apoiou uma mão no ombro de Chantal-. Agradeço, querida, mas não é necessário –fixou o olhar em Quinn-. Suponho que quando aconselhei a Chantal que o contratasse devia ter suposto que descobriria.

-Sim, deveria -devolveu-lhe o olhar, mas em sua expressão não havia nada que revelasse seus sentimentos.

-Descobrir o que? -quis saber ela.

-Talvez queira contar-lhe você mesmo -Quinn levantou o copo.

-Sim, farei. Sente-se, Chantal -quando ela somente o olhou, Matt lhe apertou o ombro-. Por favor, sente-se.

-De acordo -aceitou com um nó no estômago-, sentarei.

-Faz uns dez anos, tive alguns problemas financeiros -bebeu um profundo gole de brandy.

-Matt, não tem por que me contar isso.

-Sim -olhou para Quinn-. Quero que saiba por mim -levantou uma mão antes que ela pudesse voltar a protestar-. Escute-me. Quando tiver terminado, possivelmente não sentirei que a espada está a ponto de cair sobre meu pescoço.

-De acordo -aceitou.

-Foi o jogo -anunciou com um laivo de medo na voz.

-Matt, isso é absurdo -Chantal esteve a ponto de rir-. Nem sequer quer jogar cartas apostando fósforos.

-Isso é agora. Falo de dez anos atrás. Era impossível me manter longe dos jóqueis -com um sorriso zombeteiro para si mesmo, observou-a-. É uma febre, e a minha foi muito alta até que perdi mais do que podia me permitir. Estava desesperado. Tinha pedido dinheiro a um certo grupo de pessoas... Dessas que lhe quebram ossos pequenos no corpo se não recebem seu pagamento semanal.

-Oh, Matt.

-Precisava de dez mil dólares que não tinha. Falsifiquei um cheque. Um cheque de um cliente -fechou os olhos antes de beber outro gole. Chantal permaneceu em silêncio-. Certamente, não demorou em descobrir. Meu cliente não queria esse tipo de publicidade, assim que não apresentou queixa. Hipotequei minha alma para devolver tudo, poderia dizer que foi um ponto de mudança em minha vida -riu sem humor-. Minha carreira estava em perigo, de modo que me analisei com dureza. Como o que vi me deixou bastante desapontado, fui a uma organização para jogadores obsessivos. Passara-se quase oito anos desde a última vez que fui a um jockey. Apesar de quase ter arruinado minha vida com o jogo, todos os dias tenho que lutar contra o impulso de realizar uma aposta -deixou o copo e a olhou-. Se quiser procurar outro agente, entenderei.

Ela se levantou devagar e caminhou para ele. Sem dizer uma palavra, rodeou-o com os braços e o abraçou. Por cima do ombro de Matt lançou um olhar prolongado e neutro a Quinn.

-Não quero outro agente. Sabe que insisto em ter o melhor.

Com uma risada apagada, lhe deu um beijo na testa.

-É uma mulher especial.

-Alguém sempre está me dizendo isso.

-Não a roubaria nunca, Chantal -apertou-lhe a mão com força.

-Eu sei.


-Tenho que ir -deu-lhe outro beijo antes de separar-se-. Chamará se houver algo que possa fazer?

-Certamente.

Voltou-se para Quinn. Por um momento os homens se estudaram. Se havia pesar em algum lugar, não demonstraram.

-Cuide dela.

-Isso pretendo.

Com um gesto de assentimento, Matt partiu.

-Como pode? -Chantal se voltou imediatamente para Quinn-. Como pode humilhá-lo dessa maneira?

-Era necessário -necessário ou não, deixou-lhe um sabor amargo na boca. Serviu-se de outro brandy.

-Necessário? Por que? O que tem que ver uma dívida de jogo de dez anos atrás com o que acontece agora?

-Se um homem for capaz de desenvolver uma obsessão, pode desenvolver outra.

-Isso é ridículo.

-Não, é a verdade.

Percorreu-a um estremecimento, não de medo, mas sim de ira.

-Matt Burns jamais tentou ser outra coisa que não um agente e um amigo. E teve muitas oportunidades.

-Teria-o deixado?

Chantal pegou um cigarro, depois apertou três vezes o isqueiro de mesa antes de obter que acendesse.

-E o que isso tem a ver com este assunto?

-Teria-o deixado? -aproximou-se e fechou a mão em torno de seu braço.

-Não -soltou a fumaça-. Não.

-E ele sabe -quando Chantal soltou o braço, observou-a ir de um lado a outro do salão-. Gosta de imaginar cenários. Tente este. O homem trabalha com você durante anos, vê a alcançar o topo. Ajudou a construir, camada por camada, a ilusão de uma sexualidade poderosa e distante. Provavelmente queira provar o que ajudou a criar.

Ela sentiu um arrepio pelas costas, mas seus olhos estavam firmes ao voltar-se para ele.

-Não encaixa, Duram.

-Encaixa tanto como qualquer outra coisa.

-Não -voltou a sentir medo. Lutou com esforço para evitar demonstrá-lo-. Por que um homem que conheço, um homem do qual estou perto, não me aborda de forma aberta?

-Porque é um homem que a conhece, um homem próximo de você -replicou Quinn-. Sabe que nesse sentido não tem nenhuma oportunidade comv ocê.

Impaciente, ela apagou o cigarro.

-Como vai saber se jamais perguntou?

Quinn deteve seu andar nervoso com uma mão em sua face.

-Não acredita que um homem sabe quando uma mulher está interessada? -aproximou-a passando o dedo polegar pela mandíbula-. Não acredita que pode olhar uma mulher, ver como ela o olha, e saber que vão ser amantes?

Ela apoiou uma mão na mão dele e com cuidado a afastou. Sentiu como se o calor na pele fossem durar horas.

-Estou cansada -disse-. Vou dormir.

Ao ficar sozinho, o brandy tentou a Quinn. Como parecia uma saída fácil, deu-lhe as costas. Saiu para dar um passeio pela propriedade.

Custou a dormir. Cochilava e voltava a despertar, nervosa e confusa. Em várias ocasiões se sentou a ponto de render-se e pedir ao médico uma receita de soníferos. Mas então recordava a promessa que se fez de não recorrer a drogas estando sob pressão, pessoal ou profissional.

Pensou em Matt, no desgosto e na desculpa que tinha irradiado sua voz ao lhe contar algo que ela não tinha o direito de saber.

Pensou em Quinn, firme e inflexível, mas oferecendo a Matt a oportunidade de dar sua própria explicação.

Estranhamente, pensou em seu irmão e em uma discussão que tiveram quando adolescentes. Rick tinha ameaçado partir a cara de um menino que não a respeitava. Chantal recordou estar furiosa com ele por interferir em sua vida.

Por que não tinha o controle nesse momento?

Sempre o teve. Até Rick sabia que não precisava que a defendesse. Enfrentou à tragédia, à perda pessoal e à desilusão, mas sempre tinha conseguido retornar ao caminho. Nesse momento não lutava, e deveria estar fazendo-o. Nunca havia sido necessário recorrer ao amparo de um homem, entretanto...

Voltou a pensar em Quinn e na promessa que tinha feito de protegê-la. Queria acreditar nele. E quando estava a seu lado, acreditava.

Mas era plena noite e seu cérebro se encontrava confuso. Só queria dormir. Deu mais voltas até que ao final adormeceu.

Quando o telefone tocou, estendeu a mão para o aparelho. Como em um sonho, pensou que era sua mãe quem chamava para repreendê-la por chegar tarde ao ensaio.

-Sim -balbuciou-. Sim, já vou.

-Não posso dormir. Não posso dormir por pensar em você.

O sussurro tinha um toque desesperado que a despertou no ato.

-Tem que parar com isto.

-Não posso. Tentei, mas não posso. Não sabe o que me faz? Cada vez que a vejo, cada vez que estou perto de você...

-Não! -gritou. Então, para seu desgosto, começou a chorar-. Por favor, me deixe em paz. Por favor. Não quero ouvir mais.

Mas pôde ouvi-lo quando voltou à cabeça contra o travesseiro. Seguiu ouvindo-o quando gesticulou para desligar o telefone. Inclusive ao consegui-lo, pôde ouvir a voz que ecoava em seu cérebro. Encolheu-se em uma bola e deixou que as lágrimas caíssem.

Quinn olhava pela janela quando soou o telefone. Amaldiçoando, cruzou a habitação com a esperança de responder antes que despertasse Chantal. Mas os sussurros já tinham começado. Durante um momento, pareceu-lhe que reconhecia algo... Um padrão de fala, um acento, a montagem de uma frase. Tratou de concentrar-se nisso, de bloquear as palavras e o terror de Chantal. Mas apertou a boca com força ao ouvi-la suplicar e começar a chorar. Ouviu-a desligar e depois o soluço de um homem antes que a conexão caísse.

Desligou seu telefone e colocou as mãos nos bolsos. Tinha perdido algo, possivelmente algo vital, porque sua concentração e objetividade se quebraram quando ela começou a chorar.

Essa mulher começava a abrandá-lo. Não podia permitir. Não permitiria. Devia deixá-la em paz. «Quererá estar sozinha», disse-se. Não iria querer que ele percebesse que tinha perdido o controle. Uma mulher como Chantal preferia derramar suas lágrimas em particular. Embora precisasse de consolo, a última pessoa de quem quereria recebê-lo seria dele. Lutando contra uma deprimente sensação de fúria e impotência, retornou à janela.

Tinha parecido tão assustada.

Não podia deixá-la sozinha nesse momento. Pode ser que ela desejasse estar sozinha, mas precisava estar com ele. Desejou saber o que fazer assim que estivesse com ela.

Pelas janelas do Chantal se filtrava um pouco de luz da lua que dava um brilho prateado a tudo. Entrou em silêncio, com a esperança de que estivesse adormecida; então possivelmente permaneceria sentado a seu lado sem que ela soubesse. Se Chantal imaginasse quanto desejava estar com ela e protegê-la, não daria mais motivos para que o afastasse?

Nunca antes teve que empregar a cautela com uma mulher. Viu-se obrigado a reconhecer que isso se devia a que nenhuma mulher fora importante. Enquanto ela...

Não estava adormecida. Ao aproximar-se da cama pôde ouvir seu choro silencioso. Parou onde estava, apavorado por esse som leve e necessitado. Sabia como soava uma granada quando estalava e enviava estilhaços pelo ar. Tinha ouvido o som terrível dos disparos e o som inenarrável da bala ao atravessar a carne. Eram coisas às quais enfrentou com mais confiança que a que sentia nesse instante ao ter que confrontar o pranto de Chantal.

Se tivesse zangada, poderia haver agüentado. Se simplesmente tivesse estado assustada, poderia provocá-la para que esquecesse. Mas chorava.

Aproximou-se em silêncio e agachou. Desejando ter as palavras adequadas, mas sabendo que não era assim, colocou uma mão em seu cabelo. Ao sentir o contato, ela se levantou de um salto e gritou.

-Sou eu. Só eu -pegou ambas as mãos e as apertou-. Relaxe. Ninguém vai machucá-la.

-Quinn -a mão ficou mole na dele, logo voltou a ficar tensa ao lutar para recuperar o controle-. Me assustou.

-Sinto muito -a luz da lua permitia que lhe visse a face e as lágrimas que a tinham umedecido-. Esta bem?

-Sim -sentia o peito dolorosamente contraído, a garganta irritada pelas lágrimas que não tinha derramado-. Sim, estou bem. Suponho que ouviu o telefone.

-Ouvi. Quer alguma coisa? Água -voltou a colocar as mãos nos bolsos-. Algo.

-Não. Não preciso de nada -secou as lágrimas com o dorso das mãos-. Não pude faze-lo falar. Não pude fazê-lo.

-Está bem.

-Não, não está -levantou os joelhos e apoiou a cabeça nelas-. É meu problema, e enquanto estiver fugindo dele não vai desaparecer. Tudo o que disse até agora foi verdade, tudo o que tem feito estava certo, e eu não estive à altura.

-Ninguém a culpa, Chantal -estendeu os dedos para tocar seus ombros brancos e suaves, tensos pelo desespero. Mas se conteve e fechou a mão-. Deveria tentar dormir um pouco.

-Sim.


Sentiu-se impotente. De onde tinha tirado a estúpida idéia de que ela precisava dele? Não sabia consolar. Não tinha as palavras bonitas que a relaxariam e a ajudariam a dormir. Não tinha nada salvo a fúria que fervia em seu interior e o feroz desejo de mantê-la a salvo. E nada disso podia ajudá-la nesse momento.

-Olhe, posso te trazer algo. Posso descer e fazer... Não sei, um pouco de chá.

-Não, obrigado. Estarei bem -comentou sem levantar a cabeça.

-Maldição, quero fazer algo -explodiu antes de poder conter-se-. Não suporto vê-la desta maneira. Deixe que traga uma aspirina ou que fique a seu lado até que volte a dormir. Algo. Não pode me pedir que simplesmente a deixe em paz.

-Me abrace -soluçou ao levantar a cabeça-. Poderia me abraçar um minuto?

Sentou-se a seu lado, pegou a nos braços e apoiou sua cabeça sobre o ombro.

-Claro. O tempo que quiser. Relaxe, anjo.

Chantal não tinha a força para pará-lo, e tampouco o desejava. Com os braços fortes de Quinn a seu redor, deu rédea solta à força completa das lágrimas. Ele a embalou contra seu peito e murmurou coisas que esperou que a ajudassem, coisas que nem sequer sabia se ela ouvia. Quando começou a tranqüilizar-se, acariciou-lhe o cabelo e ficou em silêncio.

-Quinn?

-Hmmm?


-Obrigado.

-De nada.

-Não tenho o costume de fazer isso -fungou-. Tem um lenço?

-Não.


Relutante em afastar-se inclusive um pouco, estendeu a mão para uns lenços de papel que estava na mesinha de noite.

-Sempre pensei que um homem como você fugiria quando uma mulher começasse... -voltou a fungar-... A balbuciar.

-Isto é diferente.

-por que? -jogou a cabeça atrás. Tinha os olhos inchados e as bochechas manchadas.

-É diferente -secou-lhe uma lágrima dos cílios-. Sente-se melhor?

-Sim -inexplicavelmente, era verdade, apesar de que nunca tinha acreditado que as lágrimas solucionassem nada. Depois de as haver vertido, sentia-se vazia e envergonhada-. Eu... mmm agradeceria que nos dois esquecêssemos isto pela manhã.

-Nunca cede nem um centimetro, verdade?

-Odeio chorar.

Disse com tanta certeza, que ele soube que no passado tinha derramado lágrimas ardentes por outra coisa. Ou por alguém.

-Eu também.

-É um cara agradável quando faz um pouco de esforço -sorriu.

-Tento não faze-lo freqüentemente -voltou a lhe acariciar o cabelo antes de aproximá-la mais. Descobriu que não incomodava tanto consolá-la. Não custava tanto ser necessário-. Acredita que poderá dormir agora?

-Acho que sim -fechou os olhos e descobriu que era muito gostoso deixar que sua face descansasse contra a de Quinn.

Ele acariciou as costas e ficou tenso ao notar que a seda dava lugar à pele.

-Amanhã é domingo. Pode ficar na cama todo o dia.

-A uma tenho uma sessão de fotos -com os olhos ainda fechados, explorou com as gemas dos dedos os músculos de seus ombros.

-Pode cancelar.

-Estarei bem. O fotógrafo é um descanso das filmagens.

-Então será melhor que descanse ou terá um aspecto tenebroso.

-Obrigado.

-De nada.

Quando a afastou, ela levantou a cabeça e sorriu. Os dedos de ambos se tensionaram e o sorriso se desvaneceu. A necessidade palpitou entre eles com tanta urgência que fez vibrar o ar.

-Será melhor que vá.

-Não -sabia que já tinha tomado a decisão, provavelmente desde o primeiro momento em que se viram. Seu coração acabava de aceitá-lo. Amava. Não podia mudar isso. Até aquele momento, até que apareceu ele, não soube quanto precisava dispor da oportunidade de voltar a amar-. Quero que fique -acariciou-lhe o ombro-. Quero que faça amor comigo.

Quinn experimentou uma sensação doce e aguda. As mãos de Chantal eram tão frescas sobre sua pele. Os olhos tão quentes e escuros. A luz da lua a cobria como um sonho, mas ele não podia se permitir o luxo de esquecer a realidade.

-Chantal, neste instante a desejo tanto quanto o ar que respiro. Mas... -deslizou as mãos até as dela-. Não sei se poderia viver com o fato de não estar seguro de que aconteceu porque estava assustada e confusa.

Um sorriso curvou os lábios dela ao aproximá-los dos dele.

-Ainda não percebeu que sei o que quero? -girou um pouco a cabeça para que o beijo lhe roçasse o queixo-. Não disse que um homem sabia pelo modo com que uma mulher o olha? Não vê como estou olhando agora?

-Possivelmente só vejo o modo com que quero que me olhe -entretanto, tinha fechado os dedos entre os cabelos dela.

-Quero que fique -repetiu-, não porque esteja assustada, mas sim por como me faz sentir quando o beijo. Quando me abraça. Quando me toca -esfregou a bochecha contra a sua-. Quero que fique porque é capaz de me fazer esquecer o que há fora deste quarto.

Algo se rompeu no interior de Quinn. Alguns o chamariam controle. Ele amaldiçoou, agarrou-a pelo cabelo e lhe beijou a boca.

Essa mulher era um puro afrodisíaco. Ao ajoelhar-se junto à cama, deixou que seus sonhos cobrassem vida e a encheu de beijos... Pela face, pelo cabelo, pela garganta. A fragrância que era parte tão integral nublou seu cérebro. E Chantal tremeu. Não por um sinal recebido, mas sim pelo prazer que lhe proporcionava. Meio enlouquecido Quinn lhe esmagou outra vez a boca com os lábios e provou a paixão.

Nunca antes um homem lhe tinha dado vida dessa maneira, e estava segura de que jamais haveria outro que conseguisse. Seu corpo era como um forno que emanava calor e energia enquanto sua mente se via imersa em um brilhante caleidoscópio de sensações. Não, nunca haveria outro homem, porque só havia um. De algum modo, soubera desde o começo.

Tudo estava tão claro. Sentiu o queixo dele sobre o ombro, sentiu que o colchão afundava sob o peso combinado dos dois, ali de joelhos com os corpos unidos. Abaixou as mãos por seus ombros, e sentiu como seus músculos se contraíam pelo contato. O desespero dava sabor aos beijos de Quinn e aumentava a necessidade de Chantal. Um redemoinho, uma corrida. As fragrâncias do jardim entraram no quarto. Com um gemido de prazer, abaixou os lábios para o peito dele e mordiscou.

Um homem podia perder a mente e a alma com ela. Quinn sentiu um nó no peito ao percorrer livremente com as mãos esse corpo desejado. Dor e poder... Ambas as coisas se entrelaçavam em seu interior ao necessitá-la. Provocava-lhe dor e sensação plena de liberdade com somente o fato de tê-la em braços.

Não era somente a perfeição da forma, do rosto, a não ser a sexualidade selvagem e luxuriosa que ela tinha encapsulado em gelo resplandecente. Liberada, era uma caixa da Pandora de emoções, algumas escuras, algumas perigosas, outras desesperadamente excitantes.

Não resistiria a ela. Não podia. Sentiu-a tremer, ouviu-a gemer enquanto a tocava e a provava. Chantal tinha a pele quente, já úmida. Respirava de forma ofegante. Essa noite, embora só por essa noite, deixaria-a tão louca como ela o deixava.

Enroscou seu cabelo na mão e lhe jogou a cabeça atrás para revelar a longa linha branca de seu pescoço. O coração pulsou descontrolado quando percorreu com a língua todo seu comprimento. As mãos de Chantal lhe percorreram o peito, logo desceram, e os músculos do estômago do Quinn tremeram pelo contato. Enquanto lhe abria os jeans, ele encontrou um seio através da fina seda que usava. Ao introduzir tanto o tecido como a pele na boca, Chantal se arqueou, tremendo. A garganta se encheu de confusos murmúrios de prazer enquanto descia os jeans pelos quadris.

A sensação das mãos dela expulsou todo pensamento racional de sua mente. Com um movimento febril rasgou a seda. O ofego baixo de Chantal foi abafado contra a boca de Quinn quando este a estendeu sobre a cama.

Não podia pensar. Só podia sentir. Ao lançar-se no interior dela a encontrou quente, úmida. Perguntou-se se um homem poderia morrer ao receber seu maior desejo. Logo Chantal o envolveu e o instigou a seguir adiante. Via seu rosto, com o cabelo estendido sobre lençóis brancos, os olhos semicerrados, os lábios entreabertos enquanto respirava de forma ofegante.

-Quinn.

Sussurrou seu nome enquanto era agitada por titânicas ondas de sensações. Calor, luz, vento. Nada a tinha preparado para isso. Tentou dizer-lhe, mas ele voltava a beijá-la. Era parte de Quinn. A liberação surgiu em uma corrente que a deixou muito aturdida para falar.



Não sabia o que dizer. Esperaria ele alguma frase inteligente, algumas palavras fáceis? Não era possível lhe explicar que se entregara unicamente a outro homem e nunca, jamais, dessa maneira. Se não importasse tanto, estava segura de que teria ocorrido algo para romper o longo silencio e a tensão que sentia começava a acumular-se outra vez.

Quinn não sabia o que dizer. Havia-a possuído como um louco. Ela merecia algo melhor, mais cuidadoso, certamente mais delicadeza. Se não tivesse perdido o controle. «Mas o perdi», recordou-se com implacabilidade. Não podia mudar isso, não mais que o fato de que tinha estragado o que começava a nascer entre eles. Esperava que não fosse muito tarde para consertar.

Os dois ficaram tensos, viraram e pronunciaram o nome do outro ao mesmo tempo. O desconforto durou unicamente um momento antes que sorrissem.

-Acredito que tinha razão quando disse que precisava de um roteiro -começou ela-. Não me ocorre o que quero dizer.

-Acontece o mesmo comigo -pegou a mão e a levou aos lábios-. Parece-me que fui um pouco brusco.

-Sim? -divertida e aliviada Chantal aproximou o que sobrava de sua camisola de seda. Com uma sobrancelha arqueada, deixou-a cair sobre o peito de Quinn.

-Pode descontar de meu cheque.

-Pretendo fazê-lo. Trezentos e cinqüenta dólares.

Apoiou-se em um cotovelo e examinou com mais vagar o que sobrava da seda.

-Tem que estar louca para pagar trezentos e cinqüenta dólares por algo com o qual dorme.

-Gosto de me conceder caprichos -para demonstrar-lhe inclinou-se e mordiscou seus lábios-. E nestas circunstâncias, parece-me justo que eu desconte somente a metade.

-A metade?

-Foi um esforço conjunto -sorriu e passou um dedo pelo peito-. Além disso, valeu a pena.

-Sim? -subiu a mão pela perna dela e a deteve sobre seu quadril-. Está certa?

-Bom, sou uma mulher precavida, e já sabe o que dizem neste ramo.

-Não -ela se inclinou e lhe fez cócegas no ombro-. O que dizem neste ramo?

-Segunda tomada -suspirou antes de guiá-lo para seu interior.



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