Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 8
-Quinn, prometo que vamos demorar no mínimo três horas, talvez quatro -Chantal desceu do carro e se inclinou para pegar a bolsa com a roupa.

-Posso ser paciente.

-Uma sessão de fotos freqüentemente é muito chata para os participantes, mais ainda para alguém que só esteja esperando.

-Deixe que eu me preocupe com isso -tirou-lhe a bolsa da mão.

-Eu me preocupo. Saber que anda por aí, aborrecido, vai me deixar tensa -apertou a campainha na porta externa, e abaixou os óculos de sol para olhá-lo por cima -. E a tensão se refletirá nas fotos. Esta sessão para A Cena é muito importante.

-Você também é -subiu-lhe os óculos.

Ela já não sabia mais como fingir que esses gestos não a derretiam. Ficou nas pontas dos pés para lhe dar um beijo rápido nos lábios.

-Agradeço. Mas estarei a salvo. Margot estará presente para arrumar o cabelo, e já trabalhei antes com esta maquiadora independente; chama-se Alice Cooke. Vão ficar durante toda a sessão. Estarei rodeada de mulheres para me proteger.

-E o fotógrafo -lembrou-. Não vou deixá-la a sós com esse Bryan Mitchell ou nenhum outro homem.

Chantal foi corrigi-lo, mas pensou melhor. Uma mulher tinha o direito de aproveitar toda a vantagem que oferecessem. Passou um dedo pelo pescoço da camisa dele.

-Ciumento?

-Precavido.

-Bryan Mitchell -a voz que saiu pelo porteiro eletrônico soou baixa, suave e feminina.

-Sou Chantal O’Hurley para a sessão da uma.

-Pontual.

Ouviu-se um zumbido metálico e a porta se abriu.

-Bryan Mitchell é uma loira alta e bela -começou Chantal enquanto subiam as escadas-. Somos amigas há anos.

Quinn pegou sua mão.

-Mais motivos para não deixá-las a sós.

-Bom –parou diante da porta do estúdio e o rodeou com os braços-. Eu gosto disso -murmurou, beijando-o.

-Com certeza -Bryan estava na soleira aberta com um sorriso no rosto.

-Quinn Duram -apresentou Chantal-. Bryan Mitchell.

Certamente a fotógrafa era alta, loira e bela. Bryan lhe ofereceu uma mão, perguntando-se se poderia convencê-lo a posar para ela.

-Bem-vindos ao caos -disse-lhes enquanto mandava-os entrar-. Ainda não terminei os preparativos. Chantal, já sabe onde estão os refrescos. A cabeleireira e a maquiadora se encontram no quarto de trás discutindo sobre moda -enquanto falava, dirigiu-se para um jogo de guarda-chuvas brancos e os ajustou.

Chantal foi até um pequeno quarto lateral e olhou na geladeira.

-Quinn, será assim durante quatro horas. Deve haver alguma outra coisa que queira fazer.

-Me ocorre uma dúzia -pôde ouvir as outras duas mulheres falar no quarto de trás sobre maquiagem.

-Pois vá fazê-las -Chantal deixou a garrafa de refresco para pegar suas mãos -. Bryan instalou o sistema de segurança faz alguns meses devido a uma série de roubos na vizinhança. Ninguém atravessa a porta de baixo a menos que ela abra daqui. Estarei rodeada de mulheres que cuidarão de mim durante horas, e você não fará mais que distrair a todas. Vá fazer alguma coisa.

Ela tinha razão. No estúdio estaria a salvo, e ele atrapalharia... Além de aborrecer-se. Tampouco faria mal umas horas longe de Chantal, umas duas horas dedicadas a exercícios puramente físicos. Embora não soubesse se a tiraria da cabeça.

-O ginásio está a umas duas quadras daqui -murmurou-. Chame-me quando terminar e virei te pegar -retirou o bloco de papel e escreveu um nome e um telefone.

-Rizzo's -manteve a cara impassível ao levantá-la para olhá-lo-. Soa sério.

-Você liga -inclinou-se para lhe mordiscar o lábio inferior-. Por que não vai ficar bonita?

-Já não estou? -perguntou abraçando-o pelo pescoço.

Tinha os olhos azuis e brilhantes, a pele luminosa e pálida. Irradiava uma beleza fresca, natural e arrebatadora. Acariciou-lhe a face.

Antes que ela pudesse falar, deu-lhe um beijo que pareceu durar horas. Chegou à conclusão de que precisava levantar alguns pesos. Tinha que eliminar a necessidade que despertava nele com alguns exercícios exaustivos.

-Vá dar um passeio, Duram.

Ele sorriu e retornou ao estúdio. Chantal suspirou e com um gesto trêmulo se apoiou sobre a mesa lotada que havia ao lado da geladeira. Não havia nada que pudesse fazer, e estava disposta a admitir que tampouco queria fazer algo sobre o fato de estar apaixonada por ele. Provavelmente era um tremendo engano, mas já o tinha cometido.

Se conseguisse recuperar uma parte de si mesma, não se sentiria devastada quando ele seguisse seu caminho. Porque o faria. Um homem como Quinn vivia sozinho, trabalhava sozinho e andava pela vida sozinho. Quando seu trabalho terminasse, lhe daria um beijo de despedida e partiria. Mordeu o lábio e se ergueu. «Não, não o fará». Não se ela pudesse fazer algo a respeito.

«Vai perder esta batalha, Duram», prometeu.

-Chantal, estamos esperando.

Deixou a bebida sobre a vitrine e saiu. Também estava preparada.

Trabalhou sem parar durante duas horas. Cada vez que trocava de roupa, alteravam sutilmente o cabelo e a maquiagem para potencializar a aparência. Como de costume, Bryan trabalhou com um entusiasmo lento e contínuo.

-Não perguntei como está Shade.

-Ponha a mão direita sobre o ombro esquerdo -instruiu Bryan-. Estenda os dedos. Bem. Shade está estupendo. Agora se encontra em casa trocando fraldas -captou na foto o sorriso rápido e perverso de Chantal.

-Eu gostaria de ver.

-Combina com ele. Sabe como é organizado.

-Asseguro que não dá a impressão de ter um bebê de dois meses.

-Quem tem tempo para comer? Levante o queixo e trate de adotar uma expressão distante. Isso -agachou-se e mudou de ângulo-. Andrew Colby é um escravagista de quatro quilos.

-E está louca por ele.

-Entre Shade e eu, já tiramos cerca de quinhentos filmes de fotos -abaixou a câmara-. Converteu-se em uma obsessão. Nunca tinha me visto como mãe -voltou a levantar a câmara-. E agora não posso imaginar a vida sem Andrew. Ou sem Shade.

-Suponho que o homem adequado pode mudar a perspectiva.

Bryan decidiu que a expressão melancólica que tinha aparecido no rosto de Chantal era a melhor foto até o momento.

-Você me facilita o trabalho.

-Mas como? -perguntou sem deixar de olhar para a câmara.

-Vire de lado e olhe por cima do ombro. Um pouco mais -disparou quatro vezes em rápida sucessão-. Sempre é um prazer fotografar um rosto como o seu, em especial quando contribui tanto. Embora não esperasse uma bonificação.

-Que bonificação? -perguntou ao mover-se para olhar por cima do ombro.

-Não há nada mais maravilhoso que fotografar uma mulher apaixonada. Fecha a boca -ordenou, logo abaixou a câmara para esticar os ombros.

-É tão óbvio? -voltou-se devagar para olhar para Bryan.

-Não quer que seja?

-Não... Sim. Não sei -passou uma mão pelo cabelo cuidadosamente penteado-. Não quero ficar como uma tonta.

-Isso vai junto com apaixonar-se, mas acredito que sobreviverá. Possui um rosto estupendo. Suponho que não poderá convencê-lo a posar para mim, não é?

-Somente se amarrá-lo pelos pés e pelas mãos. Bryan, como você faz com Shade?

Bryan tirou uma barra de chocolate do bolso traseiro.

-Esta me pedindo conselho sobre os homens?

Chantal aceitou um pedaço.

-Que não se espalhe.

-Já sentiu vontade de matá-lo?

-Várias vezes.

-Está no caminho certo. O melhor que posso dizer é que deixe que as coisas aconteçam. Já terminamos -deu uma dentada no chocolate-. Se fosse você, não desperdiçaria o que sobrou do fim de semana.

O ginásio cheirava a homens. Homens suados e atléticos. A atmosfera transbordava de aroma de suor e pragas. A maioria estava somente de bermudas, e uns poucos tinham acrescentado camisetas. A equipe era de primeira, mas fazia tempo que tinha perdido seu brilho.

Chantal entrou e o assimilou tudo. O primeiro homem que a viu foi um jovem que trabalhava os braços com umas polias. Realizava suas repetições com concentração e as veias do pescoço se sobressaíam. Ficou boquiaberto e as polias retornaram com estrépito contra a parede. Chantal sorriu.

Rodeou com cautela o banco de pesos e o homem que levantava a barra deixou de praguejar enquanto os olhos pareciam a ponto de sair das órbitas. Demorou só dez segundos para que o ginásio ruidoso e suarento caísse em um profundo silêncio. Então viu Quinn.

Ele não tinha notado a súbita tranqüilidade. De costas para a sala, não parava de golpear um saco de areia. Estava magnífico com as pernas abertas, os olhos intensos e as poderosas costas esticadas enquanto se concentrava na sincronização dos golpes. Chantal se aproximou, aguardou um momento e depois passou um dedo pelas costas suadas.

-Olá, querido.

Com uma maldição, ele girou com o punho levantado. Chantal arqueou uma sobrancelha e logo ergueu o queixo, como convidando-o a dar seu melhor golpe.

-Que diabos faz aqui?

-Observo-o.

-Disse para me chamar –limpou o suor dos olhos a fim de enxergar melhor.

-Tive vontade de passear. Além disso, queria ver onde... Treinava um homem como você -olhou por cima do ombro e esquadrinhou a sala-. Fascinante.

Todos os homens ali presentes engoliram em seco.

-Deve estar louca –segurou-a pelo braço-. Este lugar não é para você.

-Por que não? -ao passar junto ao homem que levantava pesos, lhe deu de presente um sorriso brilhante. Os pesos ressoaram com força contra a barra de segurança.

-Corta já -murmurou-. Rizzo vou usar seu escritório.

-Oh, onde está? -enquanto a arrastava, Chantal voltou à cabeça-. Quero conhecê-lo.

-Silencio. Tem que entrar aqui com essas pernas?

-São as únicas que tenho para caminhar.

-Sente-se -empurrou-a sobre uma cadeira de plástico-. Que diabos acha que tenho que fazer com você?

-Você gostaria de ter várias escolhas?

-Não é uma brincadeira, inferno -procurou entre o caos sobre a mesa do Rizzo até que encontrou um maço de cigarros-. Olhe, Chantal, fizemos um trato. Achei que iria me ligar. Há motivos para isso - pegou um cigarro e o acendeu.

-Quinn, é uma tarde bonita e o ginásio estava perto. Não há muitas oportunidades de passear em Los Angeles, e não pude resistir. Se for me dizer que não posso caminhar duas ruas em plena luz do dia, gritarei.

-Não vai a lugar nenhum sem mim -soltou uma baforada de fumaça e apagou o cigarro-. Tinha instruções, Chantal, e confiava em que as seguisse.

-Oh, alegre-se -levantou-se e apoiou as mãos em seu peito nu.

-Estou suando como um porco -murmurou, segurando suas mãos.

-Notei. Não sei o que é que atrai os homens a lugares como este, que cheiram a meias usadas, mas se é assim que se mantém em forma... -olhou-o com expressão aprovadora-... Talvez deva instalar um ginásio em casa.

-Não mude de assunto.

-Que assunto era?

-Não quero que lhe aconteça nada.

-Por que? -umedeceu os lábios e se aproximou mais-. Já recebeu o pagamento desta semana.

-Não me importa o maldito dinheiro -respondeu com violência.

-E o que é que importa, Quinn?

-Você -soltou com os dentes apertados antes de dar a volta-. Não volte a fazer algo assim.

-Certo. Sinto muito.

-Tenho que tomar banho. Fique aqui.

Quando a porta se fechou com força atrás dele. Chantal voltou a sentar-se. Ele se importava. Fechou os olhos e guardou com carinho aquela descoberta. Ele se importava com ela. Se tinha conseguido que dissesse, o passo seguinte era que gostasse.

-Por quanto tempo vai ficar zangado?

Iam para casa com a capota arriada. Chantal tinha deixado que os primeiros quinze minutos passassem em silêncio.

-Não estou zangado.

-Só esta apertando os dentes.

-Fique feliz por ser a única coisa que aperte.

-Quinn, já disse o que sentia. Não vou me desculpar outra vez.

-Ninguém lhe pediu isso -trocou de marcha na curva-. O que peço é que leve a sério à situação em que está.

-Acredita que não o faço?

-Não depois do numero desta tarde.

Ela se moveu no assento. O vento lhe agitou o cabelo no momento em que perdia as rédeas.

-Deixe de me tratar como criança. Entendo perfeitamente a situação em que me encontro. Vivo com ela as vinte e quatro horas do dia, todos os dias, todas as noites. Cada vez que o telefone toca, cada vez que vejo a correspondência. Quando me deito de noite, estou pensando nisso. Quando acordo pela manhã, estou pensando nisso. Se de vez em quando não posso ter uma hora para esquecê-lo, ficarei louca. Pretendo sobreviver, Duram. Não me fale como se fosse uma irresponsável.

Voltou a reinar o silêncio. Enquanto diminuía a velocidade, Quinn compreendeu que os dois tinham razão. Havia ocasiões, graças a excelente fachada que ela exibia, em que acreditava que Chantal havia esquecido que estava em perigo. Deu-se conta de que não era assim. Simplesmente se negava a ceder... Salvo em seus momentos íntimos.

A verdade é que a amava ainda mais por isso. Essa era a crua realidade quanto mais cresciam os sentimentos que lhe inspirava, mais se preocupava com seu bem-estar. Sabia que trabalhava muito. Com o tipo de tensão a que se achava submetida, poderia manter esse ritmo por um breve período de tempo. Até uma mulher com a vontade férrea de Chantal acabaria por ceder.

Desejou ter algo, qualquer coisa, para continuar. Estavam na terceira semana e estava igual ao primeiro dia no referente à solução do caso. Precisava vê-la a salvo, segura, satisfeita. Mesmo que, então lhe entregasse um cheque e o despedisse de sua vida.

Fechou com força as mãos sobre o volante, logo as relaxou pouco a pouco. «Se acalme», disse-se. «Não vai a lugar nenhum». Girou um pouco os olhos para ver a rigidez com que ia sentada. Com gesto casual, passou o braço pelo descanso do assento.

-Esta fazendo caretas.

-Vá para o inferno.

-Se continuar assim, vai encher a cara de rugas. Então, pra onde ira?

-Vá se...

-Eu adoraria -desviou-se para o acostamento. Ela nem sequer teve a oportunidade de rosnar antes que ele se aproximasse-. Por que não começo por esse rosto lindinho e vou abaixando pouco a pouco?

-Não.

-De acordo, se preferir que comece de baixo.



-Pare -debateu-se quando Quinn a moveu-. Não quero que me beije em nenhuma parte.

-Está certa disso? -aproximou a mão de Chantal e começou a beijar a palma-. O que acha daqui?

-Não.

-Aqui, então –colou a boca no lado de sua garganta. Ela deixou de lutar.



-Não.

-Bem, outras opções são um pouco arriscadas no acostamento da estrada, mas se insistir...

-Pare -riu ao empurrá-lo. Apoiou-se contra a porta e cruzou os braços-. Idiota.

-Eu adoro quando me insulta.

-Então isto te vai encantar -começou, mas ele foi muito rápido.

Fosse o que fosse que ela tinha pensado, ficou preso contra sua boca. A resposta surgiu instantânea, do coração. Rodeou-o com os braços e entreabriu os lábios. Durante um momento não houve nada mais que o quente sol crepuscular e o prazer puro e desbocado.

Segundos depois de Quinn separar os lábios, Chantal ainda mantinha os olhos fechados. Ao abri-los lentamente, tinha as íris nubladas e escuras.

-Tenta me compensar? -murmurou.

-Pelo que?

-Esqueça -sorriu e lhe emoldurou a cara com as mãos-. Vamos para casa, Quinn.

Deu-lhe um beijo mais antes de ligar outra vez o motor.

-A propósito, Rizzo queria saber se podia dar uma foto autografada para seu escritório.

Chantal riu e se reclinou para desfrutar do resto do percurso. Ao passar em frente do muro rodeava sua propriedade, começou a brincar com a idéia de dar um mergulho de cabeça na piscina. Bryan tinha razão. Seria uma pena desperdiçar o que restava do fim de semana. Ao voltar-se para lhe perguntar se queria unir-se a ela, ele freou de repente.

-Quinn, deveríamos esperar até entrar.

-Há um carro diante do muro. Dá a impressão de que um homem está causando algum problema.

-Não acredito que se trata... -umedeceu os lábios-. Não se atreveria a vir aqui.

-Por que não averiguamos? -tirou a chave do contato e abriu o porta-luva.

Chantal o viu pegar um revólver. Não se parecia em nada com seu pequeno vinte e dois. E também tinha a convicção de que estava carregado.

-Quinn.

-Fique aqui.



-Não, eu...

-Não discuta.

-Mas não quero que você... -à medida que a discussão se acalorava, ouviram as vozes. Prestou total atenção e agarrou a Quinn com mais força-. Não acredito -murmurou. Entrecerrou os olhos e tratou de discernir à figura na distância-. Não acredito -repetiu ao saltar do carro antes que ele pudesse detê-la.

-Chantal!

-É papai -rindo, girou para Quinn-. É papai. Meu pai -as pernas compridas aceleraram a corrida-. Papai! -sem deixar de rir, abriu os braços.

Frank O’Hurley esqueceu a acalorada discussão com o guarda. Seu rosto magro exibiu um amplo sorriso.

-Aí está minha garota -com agilidade cortou a distância que os separava e abraçou Chantal. Levantou-a nos braços e a fez dar três voltas-. Como está minha pequena princesa?

-Surpresa -deu-lhe um beijo no rosto ainda de menino e o voltou a abraçar-. Não sabia que viria.

-Não preciso de convite, verdade?

-Não seja tolo.

-Bom, diga isso ao palhaço que há do outro lado do portão. O idiota não quis me deixar entrar nem sequer quando lhe disse que era de seu próprio sangue.

-Sinto muito, senhorita O’Hurley -o homem de cara rígida que havia do outro lado da porta atravessou Frank com o olhar. O velho louco tinha ameaçado lhe arrancar a língua e e enrolá-la em torno de seu pescoço-. Não havia ninguém para confirmar.

-Não foi nada.

-Como não foi nada? -repetiu Frank. Estava zangado-. Não é nada quando a seu pai é tratado como um intruso?

-Não seja caprichoso -alisou-lhe a gola-. Incrementei a segurança, isso é tudo.

Por que? -alerta imediatamente, levantou o queixo de sua filha-. O que acontece?

-Não é nada. Falaremos disso depois. Agora simplesmente me alegro de vê-lo -olhou o poeirento carro de aluguel-. Onde está mamãe?

-Disse que não se encontrava preparada para ver ninguém até depois de ter ido ao salão de beleza. Não pensava ficar sentado sem fazer nada enquanto a embelezavam. Virá logo em um táxi.

-Mas me diga o que faz aqui, quanto tempo vão ficar. O que...

-Pelo amor de Deus, moça, não pode esperar até que um homem tire o pó da garganta? Dirigimos desde Las Vegas.

-Las Vegas? Não sabia que atuariam ali.

-Não sabe tudo -belisco-lhe o nariz, logo olhou por cima do ombro quando Quinn freou perto com o carro-. E quem será este?

-É Quinn -olhou-o fixamente-. Quinn Duram. Tem razão, papai, será melhor que conversemos lá dentro... Depois que tenha tomado um copo de uísque irlandês.

-Assim é que se fala -Frank entrou em seu carro e cruzou as portas já abertas.

-Seu pai? -perguntou Quinn quando ela voltou a subir no carro.

-Sim, não o esperava, mas isso não é nada novo -torceu as mãos-. Guardou a pistola?

-Não se preocupe -saudou com a mão o guarda.

-Mas me preocupa. Não queria colocar minha família nisto –apertou o nariz com os dedos -. Terei que lhes contar algo. Meu pai viu os guardas na porta. Vai ver também os homens que patrulham a propriedade.

-Por que não tenta a verdade?

-Não quero preocupá-los. Maldição, só os vejo três ou quatro vezes ao ano, e agora isto -olhou para Quinn quando freou ao chegar no final do caminho particular-. E tenho que explicar você.

-A verdade -repetiu.

-De acordo. Não me ocorre nada mais -apoiou uma mão em seu braço antes que pudesse abaixar-. Mas o farei a minha maneira. Quero minimizá-lo o máximo possível.

-Bem -com expressão afável, Frank se aproximou deles-. Vejo que tem um amigo forte, Chantal.

-Quinn Duram, meu pai, Frank O’Hurley.

-Prazer em conhecê-lo -Frank ofereceu uma mão e apertou a de Quinn com vontade-. Não se incomoda em me ajudar com as malas, verdade, filho?

Chantal teve que sorrir quando seu pai abriu o porta-malas e tirou uma pequena mochila, deixando duas malas grandes para Quinn.

-Não muda nunca -murmurou, enlaçando um braço com o de Frank para conduzi-lo para dentro-. Deixe-as aí -indicou a Quinn da base das escadas-. Poderá subir mais tarde.

-Obrigado.

Ela recebeu o sarcasmo com um sorriso relaxado.

-Por que não vão os dois ao salão e bebem um drink? Quero dizer ao cozinheiro que seremos dois a mais para o jantar -depois de lançar um olhar de advertência a Quinn, partiu pelo corredor.

-Bem, filho, não sei você -começou Frank, batendo nas costas de Quinn-, mas me viria bem um drink -foi para o salão e ali se encaminhou diretamente ao bar-. O que você gosta?

-Um uísque.

Ao encontrar a garrafa de uísque, emitiu um grunhido satisfeito e serviu dois copos generosos.

-Bem Quinn, certo? Por que não brindamos a minha garota? –bateu o copo no de Quinn sem olhar para o caro cristal do Rosenthal, e bebeu um bom gole-. Com este líquido um homem pode aquecer seu coração. Bem, filho, sente-se, sente-se -sem deixar de interpretar o papel de magnífico anfitrião, assinalou uma poltrona antes de ocupar outra ele mesmo-. E agora... -reclinou-se e suspirou; de repente seus olhos adquiriram um brilho ardiloso e agudo-. O que está fazendo com minha filha?

-Papai -agradecida por ter chegado a tempo, Chantal entrou no salão e foi sentar se no braço da poltrona de seu pai-. Terá que perdoá-lo, Quinn. Nunca foi sutil.

Quinn observou alguns instantes seu uísque.

-Me parece uma pergunta razoável.

-Sim é -satisfeito com o que via, Frank assentiu-. Vamos nos dar bastante bem.

-Não me surpreenderia -murmurou ela revolvendo o cabelo de seu pai-. Diga-me como foi em Las Vegas.

-Eu adoraria -bebeu outro gole de uísque-. Assim que explicar por que tem um gorila amestrado na porta de sua casa.

-Já disse, aumentei um pouco a segurança -mas quando tentou levantar, Frank apoiou uma mão firme em seu joelho.

-Não pensa em enganar uma raposa velha como eu, não é, princesa?

Depois de reconhecer que seria inútil, relaxou.

-Estive recebendo alguns telefonemas, isso é tudo. Pareceu-me apropriado tomar algumas precauções.

-Que classe de telefonemas?

-Incômodos.

-Chantal -conhecia muito bem sua filha. Se fossem alguns telefonemas incômodos, já os teria esquecido-. Alguém esta te ameaçando?

-Não. Não, nada do gênero -ao compreender que se complicava, olhou para Quinn com expressão de súplica.

-Sigo pensando que o melhor é a verdade -expôs com simplicidade.

-Obrigado pela ajuda.

-Fique quieta -disse a sua filha com um tom tão incomum de autoridade que, imediatamente, ela fechou a boca-. Conte-me o que está acontecendo -ordenou a Quinn-. E o que você tem a ver com o assunto.

-Quinn...

-Chantal Margaret Louise O’Hurley, fique quieta e mantenha a boca fechada.

Quando ela obedeceu, Quinn sorriu.

-Belo truque -comentou com Frank.

-Utilizo-o de maneira seletiva para que não perca o efeito -bebeu o resto do uísque-. Bem, fale.

De forma breve e concisa, Quinn expôs a situação em que se encontrava Chantal. Enquanto falava, Frank franziu o cenho, o rosto ficou vermelho e a mão que ainda repousava sobre o joelho de Chantal se fechou.

-Asqueroso canalha -levantou da poltrona como um cachorro disposto a atacar-. Se é uma detetive, Quinn Duram, por que diabos não o encontrou?

-Porque não cometeu nenhum erro -deixou o copo e enfrentou ao olhar indignado de Frank com calma-. Mas o fará, e o encontrarei.

-Se fizer mal a minha pequena...

-Não poderá aproximar-se dela -interrompeu Quinn-. Porque primeiro terá que passar por mim.

Frank engoliu sua fúria, algo que poucas vezes fazia, e avaliou o homem que tinha diante de si. Sempre se orgulhou de ser um bom juiz de caráter. Esse homem era duro como uma rocha e perigoso como nada mais. Se tinha que confiar sua filha a alguém, era o melhor candidato.

-De modo que fica aqui na casa, com Chantal.

-Assim é. Vou cuidar dela, senhor O’Hurley. Tem minha palavra.

Frank vacilou um momento antes de sorrir.

-Se não o fizer, o esfolarei vivo. E me chame de Frank.

-Talvez já possa falar algo -interveio Chantal com ar distante.

-Não faça essa cara moça -Frank foi até ela e com delicadeza pegou o rosto entre as mãos-. Deveria ter recorrido a sua família.

-Não tinha sentido preocupá-los.

-Sentido? -moveu a cabeça-. Somos uma família. Somos O’Hurley. Permanecemos unidos.

-Papai, Maddy se casa no fim de semana. Rick está...

-Deixe-o a, margem disto -cortou Frank com tom rígido-. Os assuntos familiares não têm nada a ver com seu irmão. Ele escolheu assim.

-Vamos, papai, depois de todo este tempo...

-E não mude de assunto. Sua mãe e eu, suas irmãs, temos o direito de nos preocupar com você.

Não era o momento de sair em defesa de seu irmão. Além disso, não estava segura de que lhe interessasse ou agradecesse. Nesse momento queria expulsar as rugas de preocupação do rosto de seu pai.

-Certo –deu lhe um beijo-. Se preocupem o quanto quiserem, mas tudo que se pode fazer, já está sendo feito.

Manteve a mão sobre o ombro de sua filha, mas se voltou para Quinn.

-Vamos a Nova Iorque na sexta-feira, para assistir o casamento de minha filha. Virá conosco?

-Não pensei que fosse necessário arrastar Quinn ...

-Irei -interrompeu. Olhou Chantal com expressão de desafio-. Já fiz todos os preparativos.

-Não me disse nada.

-E por que teria que fazê-lo? -replicou pelo simples prazer de ver a fúria aparecer em seus olhos.

-Não dá a impressão de que eu seja necessária, verdade? -sentindo-se pressionada por todos lados -. Se os dois me desculparem, vou lavar os cabelos.

-É dura, não? -perguntou Frank com evidente orgulho quando sua filha partiu.

-E muito mais.

-É sua veia irlandesa, sabe? Somos poetas ou lutadores. Os O’Hurley são um pouco de ambas as coisas.

-Tenho vontade de conhecer o resto de sua família.

«E eles irão querer conhece-lo», pensou Frank.

-Me diga, Quinn -começou com tom amigável-. Pretende, hummm, seguir dando uma olhada em Chantal, por assim dizê-lo, uma vez que este assunto se resolva?

Quinn estudou ao homem que estava na sua frente. Pelo que parecia ainda era o momento de seguir contando a verdade.

-Sim. Goste ela ou não.

-Tomemos outro drink -disse Frank.




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