Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 9
-Mamãe, não há razão para que você faça isso.

Molly O’Hurley dobrou com cuidado uma blusa de seda.

-Por que tem que pedir a uma empregada que suba? -anos de experiência faziam com que Molly guardasse a roupa de Chantal quase de forma mecânica.

-É seu trabalho.

-Nunca fui capaz de falar diante de empregadas e mordomos -descartou o assunto com um gesto da mão.

Chantal olhou a mala e os vários montes formados por sua roupa. Tinha passado os primeiros vinte anos de sua vida fazendo e desfazendo suas malas. Por princípio, estava a anos sem realizá-lo pessoalmente. Mas jamais conseguira ganhar uma briga com sua mãe. Resignada, começou a selecionar a roupa intima.

-Lamento que não tenhamos tido muito tempo juntas nos últimos dias.

-Não seja tola -pragmática Molly seguiu com seu trabalho-. Esta no meio desse filme. Seu pai e eu não esperávamos que nos entretivesse.

-Papai parece entretido desde o dia em que apareceu no set.

Rindo entre dentes, Molly levantou o olhar. Era uma mulher bonita e esbelta que conseguia parecer uma década mais jovem com um mínimo de esforço. Olhando-a, Chantal reconheceu que a pressa e a loucura do estilo de vida de seus pais, fizeram tão bem a Molly quanto a Frank.

-Verdade, não? Entretanto, acredito que não tinha que discutir com a diretora sobre como preparar a cena.

-Mary tem... Senso de humor.

-Menos mal -continuaram em silêncio os minutos seguintes -. Chantal estamos preocupados.

-Mamãe, isso é exatamente o que não quero.

-Te amamos. Não pode esperar que não nos preocupemos.

-Sei -introduziu um frasco de perfume em uma bolsa de viagem acolchoada-. Por isso não queria contar o que acontecia. Já tiveram que se preocupar o bastante quando era pequena.

-Esperas que um pai deixe de preocupar-se porque um filho tem mais de vinte e um anos?

-Não, acho que não -sorriu e guardou os pincéis de maquiagem-. Mas dá a impressão de que a partir de certa idade terá que se preocupar menos.

-Só posso dizer que um dia você mesma descobrirá que não é assim.

-Isso não sei -voltou a experimentar esse aguilhão -. Só sei que não quero que este assunto afete à família.

-O que afeta a um, nos afeta a todos. Isso é assim -assegurou Molly, fazendo com que Chantal sorrise. -Nota-se seu sangue irlandês.

-E por que não? -quis saber-. Seu pai e eu consideramos que deveríamos voltar com você depois do casamento.

-Voltar aqui? -olhou-a fixamente-. Não podem. Têm uma atuação em New Hampshire. -Chantal, seu pai e eu estamos nisto há mais de trinta e cinco anos. Não acredito que cancelar uma atuação represente um grande contratempo.

-Não -deixou os frascos e tomou as mãos de sua mãe-. Não posso dizer o quanto significa para mim saber que o fariam. Mas, o que mudaria?

-Estaríamos com você.

-Nem sequer isso. Mamãe fico semanas gravando. Nos últimos dias viu o pouco que estou em casa. Estaria angustiada imaginando os sentados aqui, quando vocês gostariam de estar trabalhando.

-Refere-se a sentados aqui no sentido de estar junto à piscina?

Chantal sorriu, mas moveu a cabeça.

-Se pudesse acreditar que estariam satisfeitos passadas quarenta e oito horas, seria diferente. Seja racional, mamãe. Se ficasse, preocuparia-me porque você estaria preocupada. Papai deixaria o pessoal louco, e eu sequer estaria perto para aproveitar.

-Disse a Frank que pensaria assim - suspirou e acariciou o cabelo de Chantal-. Sabe. Sempre foi a que mais me preocupou.

-Suponho que fui a que mais motivo deu.

-Fez o que tinha que fazer. E também Rick seguiu seu próprio caminho, sem se importar com nada. Seu pai se negava a ver, mas estava aí no momento em que aprendeu a caminhar. De algum modo sempre soube que Abby e Maddy estariam bem, mesmo que Abby passasse pelo caos de seu primeiro casamento e Maddy lutasse para continuar dançando. Mas você... -acariciou-lhe a bochecha-. Sempre tive medo de que perdesse o que tinha na sua frente por estar olhando para o futuro. Quero que seja feliz, Chantal.

-Sou. Não, de verdade, eu sou. Nestas últimas semanas, inclusive com o outro assunto na cabeça, encontrei algo.

-Quinn.


Dirigiu-se à janela.

-O que sinto é evidente para todos menos para ele.

Molly tinha formado sua própria opinião a respeito de Quinn Duram. Não era um homem fácil, nem seria gentil freqüentemente, mas sua filha não precisava de um homem assim. Precisava de um que estivesse a sua altura.

-Os homens são tolos -comentou Molly. Era uma mulher que sabia muito bem quão tolos podiam ser-. Por que não fala para ele?

-Não –voltou-se, e apoiou as mãos no batente-. Ao menos ainda não. Vai parecer uma tolice, mas quero... Preciso que me respeite. A mim -reforçou-. O que sou. Preciso estar segura de que não é só o momento.

-Chantal, não pode estabelecer seu critério por Dustin Price.

-Não o faço -indicou zangada. Conseguiu controlar-se pela firmeza que viu nos olhos de sua mãe-. Não o faço. Mas não é fácil de esquecer.

-Não, é impossível. Mas não pode apoiar sua vida nisso. Falou com Quinn sobre ele?

-Não posso. Mamãe há tantas complicações agora, por que acrescentar outra? Já passaram quase sete anos.

-Confia em Quinn?

-Sim.

-Não acha que entenderia?



Esfregou os olhos por alguns instantes.

-Se estivesse segura de que me ama, segura de que o que há entre nos dois é real, poderia lhe contar. Inclusive isso.

-Quem dera pudesse contar que há garantias, mas não as há -aproximou-se para abraçar sua filha-. Só posso dizer que nem por um minuto me passaria pela cabeça deixá-la até que tudo se resolvesse, se não estivesse segura de que Quinn vai te proteger.

-Faz com que me sinta segura. Até que o conheci, não sabia que alguém pudesse me fazer sentir dessa maneira - fechou os olhos-. Não sabia que precisava de alguém dessa maneira.

-Todos precisamos nos sentir seguros, Chantal. E amados -acariciou-lhe o cabelo-. Há algo que não te disse. Algo que devia ter dito há muito tempo -abraçou-a outra vez-. Estou muito orgulhosa de você.

-Oh, mamãe -sentiu que lhe umedeciam os olhos.

Molly moveu a cabeça.

-Vamos, nada disso -murmurou-. Se descermos com os olhos inchados, seu pai não descansará até que eu conte por que estávamos chorando -beijou a bochecha do Chantal e a segurou por mais um instante-. Terminemos de preparar a mala.

-Mamãe.

-Sim, querida.



-Eu também sempre tive orgulho de você.

-Bem -Molly pigarreou, mas ao falar o fez com voz ainda rouca-. Não está mal ouvir isso de uma filha adulta. Vai ficar bem?

-Sim. Vou estar muito bem.

-Essa é minha garota. E agora continuemos com a mala -deu meia volta e retornou à cama-. Olhe isto -estalou a língua e levantou uma camisola de seda e renda negra-. Parece um pecado.

Chantal passou os dedos pelos olhos para secá-los e riu entre dentes.

-Não posso dar uma opinião. Acabo de comprá-la.

-Acredito que fala por si só -sustentou-o à luz.

-Você gosta -sentindo prazer aproximou-se, dobrou-o com cuidado e o deu a sua mãe-. Uma lembrança de Beverly Hills.

-Não seja tola -mas Molly não foi capaz de resistirão passar um dedo pela seda-. Não poderia pôr algo assim.

-Por que não?

-Sou mãe de quatro filhos adultos.

-Não nos tirou de folhas de repolho.

-Bom, seu pai... Calou, especulando. Em seus olhos um brilho de maldade-. Obrigado, querida -separou a camisola do resto da roupa intima de sua filha-. E por antecipação obrigado em nome de seu pai.

Quando voltaram a descer, ouviram o banjo de Frank.

-Está praticando para a recepção -explicou Molly-. Terão que matá-lo para evitar que toque.

-Sabe que Maddy não gostaria de outra coisa.

-Já era hora, mulher -Frank levantou o olhar quando entrou sua família, mas seus dedos não deixaram de mover-se-. Um homem precisa de um pouco de apoio. O moço... -com a cabeça indicou Quinn-... Não quer cantar nem uma nota.

-Estou te fazendo um favor - respondeu Quinn do sofá.

-Jamais conheci alguém que não queira cantar -comentou Frank-. Sim a muitos que não podiam, mas nunca um que não quisesse. Sente-se aqui, Molly, meu amor. Ensinemos ao homem do que são feitos os O’Hurley.

Molly sentou-se a seu lado, seguiu o ritmo e se lançou à canção com voz poderosa e educada. Chantal sentou no braço do sofá junto a Quinn e escutou o som familiar de seus pais a cantarem juntos. Era bom, algo sólido. A tensão das últimas semanas se evaporou.

-Vamos, princesa, faça o coro.

Chantal levantou com facilidade. Raramente cantava sozinha. Para ela, cantar era algo familiar. Inclusive nesse momento, enquanto acrescentava sua voz a de seus pais, pensou em Rick e em suas irmãs e nas inumeráveis vezes em que todos tinham cantado essa mesma canção.

Tinha-o surpreendido. Quinn se reclinou para desfrutar, enquanto Frank passava de uma melodia a outra. Nesse momento Chantal não era a estrela cinematográfica distante, nem a mulher apaixonada que tinha descoberto debaixo dessa fachada. Estava relaxada com as canções alegres que tocava seu pai. Era uma filha carinhosa. A inocência que tinha percebido em uma ocasião nela se manifestava enquanto ria e acusava seu pai de pular uma nota.

Sua fragrância estava aí, escura e voluptuosa, em contraste com seu comportamento depravado e alegre. Nunca a tinha visto dessa forma. Jamais tinha imaginado que poderia ser assim. Perguntou-se se percebia do muito que significava para ela sua família, se sabia que sua imagem de Hollywood se desvanecia quando estava com seus pais.

Havia sido uma boa semana. Chantal desconhecia a existência das cartas que tinha recebido, porque Quinn as tinha interceptado. Tampouco sabia que tinham rastreado um dos telefonemas até uma cabine da zona comercial da cidade. Não viu motivo para contar-lhe nem sobressaltá-la com o fato de que duas das cartas tinham suplicado por um encontro em Nova Iorque.

O homem que a perseguia conhecia os planos dela.

Quinn levantou uma mão e a desceu pelo braço de Chantal. Seus dedos se uniram de modo natural. Não tinha sentido contar-lhe. Nem por um momento ia estar sozinha em Nova Iorque. Já tinha arrumado para que três de seus melhores homens voassem para Manhattan. Cada passo que Chantal desse estaria vigiado.

Molly interrompeu os pensamentos de Quinn ao bater no ombro de seu marido.

-É tarde, Frank. Deveríamos ir deitar. Amanhã vai ser um dia longo.

-Tarde? Tolices, se não são nem…

-Tarde -repetiu Molly-. E esta mais tarde a cada instante. Tenho uma surpresa para você lá encima.

-Mas começava a... Uma surpresa?

-Isso. Vamos, Frank. Boa noite, Quinn.

-Molly -despediu-se, com os olhos presos nos de Chantal.

-De acordo, de acordo, já vou. Boa noite aos dois. Chantal, pergunte ao seu cozinheiro se pela manhã pode me preparar uns ovos, sim?

-boa noite, papai -inclinou a face para receber seu beijo, mas sem deixar de olhar para Quinn.

Enquanto subia as escadas com sua mulher, ouviram Frank exigir saber qual era a surpresa.

-Tinha razão -murmurou Quinn quando na sala reinou outra vez o silêncio.

-Sobre o que?

-É magnífica –levantou-se e tomou ambas as mãos, para dar a volta e lhe beijar as palmas-. Quanto mais estou contigo -murmurou-, quanto mais te conheço, mais te quero.

Também ela levantou. A luz resplandecia em seus olhos.

-Nunca na vida senti por alguém o que sinto por você. Preciso que acredite.

-E eu preciso acreditar -estavam perto, muito perto, de dar o último passo. Compromissos, promessas, dependência. Sentiu que se desequilibrava na margem, preparado, mas temia que ela se retirasse se a pressionasse muito -. Diga-me o que é você quer, Chantal.

-Você -podia dar essa resposta com sinceridade sem exigir mais do que acreditava que ele estava disposto a oferecer-. Só quero estar com você.

« Por quanto tempo?», quis perguntar Quinn, mas o medo o deteve. Aceitaria esse dia, essa noite, e lutaria pela manhã.

-Vamos para a cama.

Com as mãos unidas e os corações perdidos, subiram a escada.

Deixaram uma luz baixa junto à cama.

Ele foi gentil. Foi... Terno. Enquanto lhe tocava os lábios em um beijo doce, sentiu que os músculos de Chantal relaxavam. Tomou o rosto entre as mãos para percorrer com os dedos seu pescoço, como um sussurro e uma promessa. Ao sentir que flutuava, ela suspirou o nome de Quinn.

Que tipo de paixão era essa que dominava com tanto facilidade? O desejo estava presente, mas com cada carícia ele o aplacava... E o acendia. Percorreu-lhe o rosto com boca paciente, como que memorizando sua essência através do tato e do gosto. Deu-lhe beijos delicados nos maçãs do rosto e logo procurou sua boca. Com a língua seguiu o perfil de seus lábios e se demorou no inferior. O quarto começou a girar na cabeça do Chantal.

Não havia ninguém como ela. Nessa ocasião prometeu que o demonstraria. Possuía uma beleza que nesse momento Quinn sabia que ia além da pele. Entesouraria-a. Passou os dedos pelo cabelo, encantado com a textura sedosa. Murmurou algo, e ela suspirou e se prendeu a ele.

Enquanto seguia explorando-a com a boca, começou a desabotoar a fileira de botões de suas costas. Quando o tecido se separou, desceu as mãos por sua coluna, com suavidade, como quando se toca cristal frágil. Enquanto a seda deslizava ate o chão, ela tremeu. Seu corpo estava quente e nu. Era como se Chantal tivesse aguardado toda à noite para esse momento.

Quinn a separou dele para olhá-la à luz do abajur. Era tão pequena, tão delicada, com uma pele como porcelana e uma forma que poderia estar esculpida em alabastro. O cabelo caía pelos ombros para terminar justo em cima da curva dos seios. Tinha uma caixa torácica estreita. Percorreu-a com as mãos, assombrado de ver que a força que ela possuía procedia de semelhante delicadeza. A cintura se estreitava até o ponto em que ele quase podia abrangê-la com as mãos, antes de voltar a florescer em quadris esbeltos e coxas compridas e esbeltas.

-É tão linda -olhou-a nos olhos-. Me deixa sem fôlego –prendeu-a em seus braços.

O tecido da camisa do Quinn era áspero sobre sua pele. Com os olhos entreabertos, moveu-se de forma sinuosa e insistiu em saciar-se com a boca. Encontrou a língua dele e começou uma sedução silenciosa e exótica.

A brisa agitou as cortinas, ameaçando chuva. Chantal inalou a fragrância da noite à medida que se mesclava com o aroma da paixão. Devagar, e com mesmo cuidado que ele tinha mostrado, despiu-o.

Passou as mãos pelos músculos duros e contraídos de seus ombros. Apertou os lábios de seu peito. O corpo de Quinn irradiava um poder e uma disciplina que a impulsionavam a tocar, a tentá-lo. Com um murmúrio de aprovação, voltou a levar os lábios a sua boca.

Deitaram sobre a cama.

Não havia pressa. Como em um sonho, o momento se estendeu enquanto se davam prazer mutuamente. Chantal se moveu para olhá-lo e se perguntou como podia explicar o que ele significava para ela. Como dar a entender que precisava dele a seu lado... Nesse momento, no dia seguinte, para sempre? Um homem como Quinn acreditava na eternidade? Moveu a cabeça, expulsando todas essas perguntas. Não podia falar e nem perguntar. Mas podia demonstrar.

Quinn não havia imaginado que poderia ser dessa maneira. Nem sequer nas emoções que incitavam um no outro, pensou que poderia existir semelhante maravilha. Com antecedência se havia dito que lhe pertencia, mas nesse momento, tendo-a entregue nos braços, em fim podia acreditar. E mais ainda, ele era dela. Completa e absolutamente dela. O amor ardendo pela ternura consumia mais que qualquer loucura.

Entrou nela de um modo natural e fácil. Com um suspiro, Chantal o aceitou. Elevaram-se juntos em uma harmonia de movimento que tinha sua própria beleza.

Quando não ficou nada para dar, abraçaram-se e adormeceram.

-Não me apressem, não me apressem -com passo rápido, Frank se colocou diante do balcão da linha aérea-. Vou me certificar de que não enviem meu banjo a Duluth.

-Esta bem cuidado -com um sorriso, a recepcionista lhe mostrou os talões de envio-. Não se preocupe com nada.

-Para você é fácil falar. Esse banjo esteve comigo mais tempo do que a minha esposa -riu entre dentes e apertou o ombro de Molly-. Não é que para mim signifique menos, meu amor.

-Tomou o remédio contra os enjôos, Frank?

-Sim, sim, fique tranqüila.

-Frank é um viajante terrível -comentou Molly enquanto guardava os bilhetes e os cartões de embarque-. E isso herdou Chantal.

Surpreso, Quinn pendurou a bolsa no ombro. -Você não gosta de voar?

-Estou bem -já tinha tomado meia caixa de antiácidos e duas pastilhas para o enjôo.

-Será melhor que nos apressemos -anunciou Molly olhando seu relógio de pulso.

-Mulheres. Sempre com pressa -Frank bateu nas costas de Quinn-. Por que as agüentamos, rapaz?

-É o jogo.

-Tem razão -encantado com o mundo em geral, Frank riu enquanto atravessava as portas automáticas.

-Esta manhã esta mais alegre -comentou Chantal com ironia, negando-se a aceitar o peso de seu estômago.

-E por que não? -respondeu Frank com alegria enquanto subiam pela escada rolante para a porta de embarque-. O truque esta em dormir bem -observou Molly e se perguntou se logo voltaria a colocar aquela camisola negra.

Ao cruzar o posto de segurança, Chantal diminuiu o passo e estabeleceu a respiração lenta que a ajudava a embarcar.

-Anjo -Quinn a afastou para o lado-. Não tem um tranqüilizante ou algo do gênero?

-Não tomo -torceu a correia da bolsa-. Além disso, estou bem.

Abriu-lhe os dedos e os acariciou.

-Esta com as mãos geladas.

-Faz frio aqui.

Quinn notou que um homem secava a testa na medida que a sala se enchia de calor corporal.

-Não sabia que ficasse nervosa ao voar.

-Não seja tolo, vôo constantemente.

-Sei. Deve ser duro.

Desgostosa consigo mesma, Chantal olhou por cima do ombro de Quinn.

-Todo mundo tem direito a sofrer de alguma fobia.

-É verdade -beijou-lhe a mão-. Deixe-me ajudá-la.

Foi afastar a mão, mas descobriu que não podia.

-Quinn, sinto-me uma idiota. Preferiria que me soltasse.

-Perfeito. Mas não se incomoda em segurar minha mão durante o vôo, não?

-São seis horas de viagem -murmurou-. Seis horas incrivelmente longas.

-Pensarei em algo para passar o tempo –levantou-lhe o rosto.

Ao inclinar a boca para beijá-la, nenhum dos dois notou a presença de um homem com óculos escuros que ocupava uma poltrona no canto da sala de embarque. Nenhum dos dois notou como fechava as mãos enquanto os observava.

-Se fizermos o que estamos pensando, vão nos prender -sussurrou Chantal, mas a tensão em seus ombros diminuiu.

-Estou surpreso -mordiscou-lhe o lábio-. Eu pensava em uma partida de cartas.

-É um depravado -quando anunciaram seu vôo pelo alto falante, Chantal respirou fundo e não lhe soltou a mão-. Um dólar por ponto?

-Trato feito.

Rindo, atravessou as portas com Quinn e seus pais.

O homem dos óculos escuros ficou de pé e ajustou na cabeça um chapéu de asa baixa, logo pegou o cartão de embarque. Misturou-se com a multidão que entrou no avião.

Capítulo 10
-Está seguro de que não se importa em ser recrutado por minha família? -Chantal pegou um vestido. Ela tinha encarregado um dos melhores desenhistas de Hollywood, mas não era nem para o cenário nem para o cinema. Não era todo o dia que se era dama de honra no casamento de uma irmã.

-É assim que se fala? -divertido Quinn se sentou na cama desfeita, usando só uma toalha. No armário havia um traje recém passado em que não queria pensar.

-Não sei outra forma -preocupada, Chantal estudou o estojo de maquiagem; não tinha esquecido nada-. Papai disse que devia estar na suíte de Reed uma hora antes da cerimônia -deteve-se e o olhou-. O que é fazem os homens antes de um casamento?

-Segredo de estado, e não, não vou contar.

Chantal voltou a deter-se, golpeando uma escova contra a mão.

-O que achou de Reed, Quinn? Sei que ontem à noite somente estivemos juntos algumas e horas, mas deve ter formado uma opinião.

-Preocupada com sua irmã?

-Como não?

Deitou em um travesseiro e a olhou. Calças retas, blusa de seda, cabelo loiro platinado preso com broches de ouro para revelar um rosto extraordinário. Chantal O’Hurley não parecia uma mãe protetora, mas já tinha aprendido a ir além da fachada. Quando se tratava de sua família, era muito possessiva.

-Confiável. Meticuloso, suponho. Conservador.

-E Maddy?

-Dispersa, teatral e um pouco impressionável.

-Essa é Maddy -murmurou-. Não parece que tenham suficientemente em comum para mais de uma conversação de dez minutos. Mas...

-Mas?


-Intuo que tudo dará certo -suspirou e guardou a escova na bolsa-. Intuo-o.

-Então, o que é o que a preocupa?

-É minha irmãzinha.

-Por quantos minutos? -perguntou com ironia.

-O tempo não tem nada a ver com isso -afirmou-. É minha irmãzinha, e sempre foi a mais crédula, a mais carinhosa. Abby é tão... sólida. E eu tenho suficiente egoísmo em mim para que minha cabeça permaneça acima dágua. Mas Maddy... Maddy é o tipo de mulher que acredita que o cheque está no correio, que o alarme não soou ou que o medidor de gás se avariou.

-Acredito que sua irmã sabe exatamente o que quer e como conseguir que funcione.

-Está bem, certo. Acontece que estou sendo sentimental.

Quinn arqueou uma sobrancelha.

-Por que não vem aqui e se torna sentimental?

-Pensei que estava esperando o serviço de quarto -sorriu devagar.

-Odeio esperar sozinho.

-Quinn, se voltar para essa cama...

-Sim?

-Vou fazer amor de forma incrível.



-Com ameaças, é? –deitou-se e cruzou os braços por debaixo da cabeça-. Por que não vem me dizer aqui?

Soltou a nécessaire e se dirigiu para ele.

-Não tem uma só chance.

-Puro falação.

-Posso fazer algo mais que falar -murmurou ela, subindo o dedo pela perna de Quinn até onde a toalha lhe cobria a metade da coxa-. Muito mais.

Antes que pudesse demonstrá-lo, ele a puxou pela mão e a atraiu para seu peito. Primeiro Chantal riu, logo suspirou sobre seus lábios.

Não parecia possível que pudesse desejá-lo tanto como a noite anterior, mas a excitação nesse momento era igualmente nova e vital.

Ele irradiava o aroma fresco da ducha. Tinha o cabelo ligeiramente molhado e caído sobre o rosto. Seu corpo estava ali para ela, forte, viril, nu, riu outra vez e colou os lábios aos seus.

-Algo engraçado?

-Sinto-me segura -levantou a cabeça para sorrir-. Tão maravilhosamente segura.

Quinn a olhou maravilhado e se perguntou como pode chegar a significar tanto para ele em tão pouco tempo.

-Não quero que só sinta segurança.

-Não? -beijou-lhe o ombro e deixou que a língua deslizasse por sua pele-. Que mais?

Amor, lealdade, devoção. Para proteger-se, e possivelmente para protegê-la, não lhe disse isso. O amor físico não faria mal a nenhum dos dois... Não como as emoções.

-Por que não demonstro isso? -com um movimento rápido a colocou debaixo dele. A toalha se mantinha em seu lugar unicamente graças à pressão dos corpos. Quando começaram a beijar-se, ela a afastou. Excitado, ele riu e se encarregou dos botões da blusa.

Uma chamada à porta da sala ao lado os devolveu à realidade. Chantal se levantou sobre um cotovelo e jogou o cabelo para trás

-O café da manhã, certo?

-Que o tragam mais tarde -deslizou uma mão sob a saia dela para explorar a coxa. A chamada soou outra vez, com mais insistência.

-Irei eu -separou-se de Quinn e arrumou a blusa. Logo, com um sorriso, recolheu a toalha e a atirou ao outro lado do quarto-. Fique aqui -deu-lhe um beijo rápido-. Aqui mesmo.

-Você manda.

-Não esqueça -sorria ao dirigir-se para a sala. Quinn ia ter seu café da manhã, mas ia comê-lo frio.

Na cama, Quinn se inclinou e ligou o rádio. «um pouco de música», pensou. Com as cortinas ainda corridas, o aposento estava na penumbra. Por um momento, permitiu imaginar que se encontravam em seu dormitório... Não na casa dela, tampouco na dele, não em um hotel elegante, e sim em um lar de ambos. Deu-se conta de que quando se amava, não se pensava no presente, e sim na eternidade.

Possivelmente era o momento de lhe dizer, de reconhcer, que a amava e que queria compartilhar sua vida com ela. Sua vida... Isso significava passado, presente, futuro, não só o rápido impulso de satisfazer a paixão, de acalmar o desejo.

Queria-a por esposa. Isso deveria deixá-lo apavorado, mas quase o divertia. Queria-a de todas as maneiras tradicionais, essas que sempre tinha descartado como restritivas e pouco importantes. Um lar, uma família, os anéis nos dedos. Quinn Duram, homem de família. De repente pareceu encaixar.

O mais provável era que ela desse para trás. Teria que aplicar a pressão adequada. Pensar nisso o fez sorrir. Convencer a Chantal O’Hurley que se casasse com ele podia ser a missão mais dura que jamais teve.

-Quinn.


-Sim?

-Poderia vir aqui um momento?

Na voz captou um toque de tensão. Pos de lado suas fantasias e colocou o robe. Viu as flores ao entrar no salão. Sobre a mesa ao lado da porta havia uma dúzia de rosas vermelho sangue com as pétalas recém abertas. Chantal se achava junto a elas, com o rosto tão branco como o cartão que sustentava na mão.

-Sabe que estou aqui -conseguiu manter a voz quase serena-. Diz que me segue a todo lugar -entregou o cartão com dedos firmes, mas ao tocar os do Quinn, este notou que estavam frios-. Diz que está esperando o momento apropriado.

Quinn aceitou a nota e leu brevemente a mensagem. Em um canto do envelope aparecia o nome da floricultura.

-Cometeu seu primeiro erro -murmurou-. Quem as trouxe?

-Um garçom -olhava a parede mais afastada e se perguntava por que não sentia nada-. Nem sequer lhe dei uma gorjeta.

-Pare.


A voz do Quinn a devolveu ao presente. Depois de tremer, Chantal o olhou. Dele não ia receber simpatia, palavras tranqüilizadoras ou promessas vazias. Tampouco as queria. Queria a verdade.

-Está aqui, não? Inclusive pode estar no hotel.

-Sente-se -foi pegá-la pelo braço, mas ela recuou.

-Não preciso me sentar. Preciso de respostas.

-Chantal...

Ao ouvir o toque da porta, ela levou uma mão à boca para conter um grito. Amaldiçoando, Quinn a empurrou para uma poltrona e foi abrir. Pelo olho mágico viu que era um garçom do serviço de quarto.

-Está bem -falou por cima do ombro-. É o café da manhã.

Abriu para deixar passar o garçom com o carrinho, que acomodou diante da mesa junto à janela. Depois de assinar a fatura, seguiu o homem até a porta para dar uma olhada no corredor.

-Um café não te fará mal -comentou ao passar ao lado dela em direção do carrinho.

-Não, respostas -embora lhe tremessem os joelhos, ficou de pé-. Não sei bem por que, mas acredito que as tem. Sabia que estaria aqui.

Apesar da negativa dela, Quinn serviu duas xícaras.

-Sim.


-Sim -levou os dedos às têmporas e emitiu uma risada seca-. Não é um homem muito expressivo, verdade, Quinn? Como sabia que estaria aqui? Sexto sentido, uma intuição ou instinto?

-Qualquer dessas explicações servirá -sentiu um no nó estômago ao voltar-se para ela-. Espero que vá aonde você vá, mas, além disso, disse que estaria aqui nas últimas notas que enviou.

Ela cruzou os braços. Sentiu a pele gelada.

-Não acha que eu devia ter sido informada?

-Nesse caso eu teria contado. Por que não come algo?

Sim, nesse momento havia sentimentos que ameaçavam explodir assim que falasse. Aproximou-se da mesa e, sem afastar os olhos de Quinn, pegou um prato e com um gesto deliberado o soltou sobre o chão.

-Quem diabos acha que é? -sua voz soava mais venenosa quando falava em voz baixa e firme-. Como se atreve a me tratar como se fosse uma mulher sem cérebro nem valor, que necessita que a conduzam pelo nariz? Tenho o direito ou será que pensava em me seguir, que as coisas poderiam ser iguais aqui que em casa.

Quinn se sentou e bebeu um pouco de café. A ira tinha banido a expressão confusa dos olhos dela. Deixaria que continuasse até onde Chantal pudesse beneficiar-se.

-Conduzi a situação a minha maneira. Paga-me para isso.

Surpresa, ela deu um passo atrás. Pagava.

Como tinha pode esquecer que ele fazia um trabalho? Sentiu-se atravessada por uma flecha de dor. De algum modo, inclusive isso era melhor que o aturdimento.

-Espero que me mantenha informada dos progressos que realiza, Duram.

-Bom -pegou uma torrada e começou a passar geléia.

-Deixarei que aproveite seu café da manhã.

-Chantal -disse com voz suave, embora com suficiente força para pará-la antes que cruzasse a sala-. Será melhor que você também se sente. Não irá a nenhum lugar sozinha.

-Descerei ao quarto de Maddy.

-Pode tentar -deixou a faca com lentidão sobre o prato-. Não conseguirá. A levarei assim que me vestir -olhou-a com frieza e desafio-. E ficará ali, dentro do quarto, até que eu vá buscá-la.

-Não...


-Tenho um homem no quarto em frente, e outro no quarto que esta em frente ao de sua irmã. Estará perfeitamente a salvo dentro, mas quero levá-la até lá eu mesmo.

Estava o bastante zangada para correr o risco. Mediu a distância que havia até a porta e a expressão nos olhos do Quinn. Em silêncio, sentou-se e não lhe prestou atenção enquanto terminava de tomar o café da manhã.

Quinn encontrou a pequena floricultura na Sessenta Oeste. A pesar do ar condicionado, no interior o calor era sufocante. Três clientes lotavam o lugar, dois deles diante de um balcão velho com pedaços de papel e um telefone que tocava e que um arrasado homenzinho atrás do balcão atendia. Outro cliente estava diante de um expositor, estudando uns arranjos florais.

-Não as terei até as quatro. Não posso -o proprietário escreveu algo em um formulário enquanto não parava de mover a cabeça. Aceitou um cartão de crédito e a passou pela máquina-. Sim, será bonito –respondeu diante da pergunta que lhe fez o cliente-. E muito elegante. Assine aqui.

Quinn se aproximou de uns cravos enquanto o homem se ocupava dos outros clientes.

-Muito bem, muito bem, quer comprar flores ou só olhar?

Quinn levantou o olhar para ver o homem acomodar os papéis sobre o balcão.

-Está muito ocupado hoje.

-Não me conta nada novo -o homenzinho tirou um lenço para secar a nuca-. Tenho problemas com o ar condicionado, meu ajudante esta com apendicite e muita gente morreu -quando Quinn arqueou uma sobrancelha, o homem relaxou um pouco-. Funerais. Esta semana tenho os gladíolos a bom preço.

-É duro -rodeou um grupo de lírios na água-. É seu?

O outro observou o cartão na mão de Quinn.

-Isso sim -assinalou com um dedo-. Floresça Bernstein. Eu sou Bernstein. Algum problema com a entrega?

-Uma pergunta. Rosa vermelha, uma dúzia, entregue esta manhã no Plaza. Quem as comprou?

-Pergunta-me quem as comprou? -Bernstein emitiu uma risada nasal-. Jovem, vendo trinta dúzias de rosas por semana. Como se supõe que vou saber quem as compra?

-Não anota? -Quinn indicou o caixa-. Recibos. Deveria ter um recibo para uma dúzia de flores entregues no Plaza, por volta das dez e meia ou onze desta manhã.

-Quer que repasse meus recibos?

-Exato -colocou a mão no bolso e tirou uma nota de vinte dólares.

O homenzinho se ergueu. Tremeu-lhe a mandíbula pela indignação.

-Não aceito subornos. Tem vinte dólares, compre vinte dólares em flores.

-Perfeito. O que me diz dos recibos?

-É polícia?

-Investigador particular.

Bernstein titubeou. Logo, a contra gosto, abriu a gaveta que continha os recibos do dia. Balbuciava algo para si mesmo.

-Hoje ninguém comprou rosas vermelhas.

-Ontem.

Isso fez com que Quinn recebesse um olhar desgostoso, mas Bernstein abriu outra gaveta.



-Rosas vermelhas na Maine, duas dúzias na Pennsylvania, uma dúzia à rua Vinte e sete... -murmurou umas poucas direções mais-. Uma dúzia no Hotel Plaza, suíte 1203, para entregar esta manhã.

-Permite-me dar uma olhada? -antes de receber uma resposta, pegou de sua mão -. Pagou em dinheiro.

-Não vejo inconveniente em receber em espécie.

Isso significava que não havia nenhuma assinatura. Devolveu-lhe o recibo.

-Que aspecto tinha?

-Que aspecto tinha? -o homem soltou um som parecido à outra risada-. Como vou recordar amanhã que aspecto tem você? As pessoas entram aqui para comprar flores. Não me importa se tiverem um olho na frente sempre e quando seu cartão de crédito seja bom ou o dinheiro com que o pagam seja verde.

-Pense por um momento -tirou outra nota de vinte dólares-. Tem flores bonitas aqui.

O homem lhe lançou um olhar ardiloso.

-Os cravos da cristaleira começam a murchar.

-Por acaso eu adoro cravos.

Com um gesto de assentimento, o homem guardou as duas notas de vinte e logo tirou os cravos um pouco murchos de trás do cristal.

-Lembro que disse que entregássemos as rosas a Chantal O’Hurley. Ontem tive um dia bastante ocupado. Levaram meu ajudante com ambulância. Meu outro ajudante está de férias e temos dois casamentos - molhou as flores com um pouco de água-. Seja como for, pediu-me que as enviássemos a ela, e ue disse: «não é a atriz?» Minha mulher e eu vamos muito ao cinema. Oh, sim, perguntei-lhe se ele era da Califórnia. Usava um chapéu e óculos de sol.

-O que respondeu?

-Acredito que não respondeu. E não volte a me perguntar que aparência tinha, porque não sei. Estava a senhora Donahue pelo casamento de sua filha. Levou um montão de bolsas de pétalas de rosas. Rosadas -moveu a cabeça-. Não cheguei a ver direito seu rosto.

-Quantos anos tinha?

-Poderia ter sido mais jovem que você, ou mais velho. Mas não era tão grande. Mãos nervosas -recordou de repente.

-Por que diz isso?

-Entrou fumando um cigarro estrangeiro. Não permito que fumem em minha loja, não importa quão elegante seja o cigarro. Não é bom para as flores.

-Como sabe que era estrangeiro?

-O que? Como sei? Sei reconhecer um cigarro americano quando vejo um -afirmou o florista irritado-. E esse não era. Também o fiz apagar. Não me importa o dinheiro que se gaste aqui, não deixo que ninguém envenene minhas flores.

-De acordo, assim tinha mãos nervosas.

-Quando apagou o cigarro, não foi capaz de as manter quietas.

-Algo mais? -insistiu Quinn com paciência-. Pode dizer algo mais que você recorde?

-Tinha um porta cartões -disse de repente-. Sim, tirou o dinheiro de um porta cartões em vez de uma carteira. Era bonito. De prata, com uma gravura.

-Que iniciais?

-Iniciais? -o florista começou a guardar os recibos-. O que sei eu de iniciais? Eram umas linhas.

-Algum anel? Relógio?

-Não sei. Notei o porta cartões porque o cara tinha um bom maço de dinheiro. Talvez usasse alguma jóia, talvez não. Aceitei seu dinheiro, não o submeti a uma avaliação.

-Obrigado -Quinn tirou um cartão e escreveu o número do hotel no verso-. Agradeceria se me chamasse caso lembre de algo. Ou se ele voltasse.

-Está metido em problemas?

-Digamos que eu gostaria de dispor da oportunidade de falar com ele.

-Não se esqueça dos cravos.

Quinn acomodou o ramo sob o braço e se encaminhou para a porta.

-Suponho que existem tipos estranhos em Califórnia -comentou Bernstein.

-Nossa cota.

-Estrelas de cinema -soltou um bufo-. O sujeito comentou que trabalhava perto da senhorita O’Hurley. Perto de verdade.

Quinn apertou com força a maçaneta da porta.

-Obrigado.

Ao sair à calçada, colocou as flores nos braços de uma mulher que arrastava um carrinho da compra. Não se voltou para ver sua cara de assombro. Sentia um nó no estômago. Conhecia alguém que de vez em quando usava porta cartões. Que tinha sido um presente de Chantal. Matt Burns.

Não queria acreditar. Matt era um amigo, e ninguém melhor que Quinn sabia quão difícil era fazer e manter amigos neste ramo. Perguntou-se quão bem conhecia Matt Burns.

Não sabia nada de sua obsessão pelo jogo até que foi investigá-lo. Naquele tempo Matt traiu um cliente por uma fraqueza. Isso não o situava o primeiro da fila para trair Chantal graças à outra fraqueza?

«Muitos homens usam porta cartões», recordou-se enquanto se afastava do hotel em vez de retornar. Precisava refletir antes de retornar para Chantal. «Muitos homens usam porta cartões», continuou, «assim como muitos homens fumam cigarros importados». Mas se perguntou quantos homens que conheciam Chantal e que trabalhavam em estreita relação com ela faziam ambas as coisas.

«Estou sendo estúpido», decidiu ao parar junto a uma cabine telefônica. Não era seu trabalho encontrar motivos de por que não podia ser Matt, a não ser o contrario.

Abriu o bloco de notas, procurou o número de Matt e ligou.

-Agência de Matt Burns.

-Preciso falar com ele.

-Sinto muito, o senhor Burns não está disponível até segunda-feira.

-Faça com que esteja disponível, querida. É importante.

A voz adquiriu um tom seco.

-Sinto muito, o senhor Burns se encontra fora da cidade.

-Onde? -sentiu como uma mão fria pelas costas.

-Não posso dar essa informação.

-Sou Quinn Duram. Chamo da parte de Chantal O’Hurley.

-Oh, sinto muito, senhor Duram. Deveria ter me dito quem era. Temo que o senhor Burns saiu da cidade. Peço que entre em contato com você se ligar?

-Entrarei em contato com ele na segunda-feira. Aonde foi?

-Voou para Nova Iorque, senhor Duram. Por um assunto pessoal.

-Sim -reprimiu uma praga e desligou. Era muito pessoal. Soube que a informação ia fazer mal a Chantal. E muito.

-Três horas mais -Maddy O’Hurley levantou de um salto da poltrona, atravessou o quarto e se deixou cair no sofá. Deveríamos ter casado pela manhã.

-Não demora em chegar à tarde -Chantal bebeu sua terceira xícara de café e se perguntou quando voltaria a ver Quinn. - Não teria que estar aproveitar de suas últimas horas de mulher solteira?

-Estou muito cansada para aproveitar de algo -voltou a ficar de pé, e seu cabelo vermelho se agitou em todas direções-. Estou tão feliz que esteja aqui -deteve-se tempo suficiente para abraçar rapidamente a irmã-. Se não estivesse comigo, já teria ficado louca. Eu gostaria que Abby descesse.

-Fará-o, assim que deixe Dylan e os meninos com papai. Pense em outra coisa.

-Em outra coisa -o corpo esbelto de bailarina do Maddy deu uma volta-. Como posso pensar em outra coisa? Andar pelo corredor da igreja será minha maior representação.

-Falando nisso, me diga como é a peça.

-Magnífica -seus olhos ambarinos se iluminaram de amor pelo teatro-. Talvez seja subjetiva porque foi a obra que uniu Reed e eu, mas é a melhor que tenho feito. Esperava que pudesse vê-la.

-Voltarei à Nova Iorque para rodar umas externas. Você voltará da lua de mel e subirá outra vez ao palco -pegou um cigarro-. E se as críticas servem como indicadores, estará em cartaz durante anos.

Maddy viu sua irmã brincar com o cigarro, e acendê-lo. Era algo que fazia em raras ocasiões, e só quando se sentia tensa.

-Como vai a filmagem?

-Não tenho queixa.

-E Quinn? É sério?

-É só um homem –encolheu os ombros.

-Vamos, Chantal, sou Maddy. Já te vi antes só com um homem. Discutiram? -conseguiu ficar quieta tempo suficiente para sentar no braço da poltrona de Chantal-. Ontem à noite parecia tão feliz. Virtualmente resplandecia cada vez que o olhava.

-Porque sou feliz –bateu no braço de Maddy-. Minha irmã pequena vai casar com um homem que decidi que a merece.

-Não desvie minha atenção, Chantal -séria, Maddy tomou a mão inquieta de sua irmã. Os nervos pareceram saltar de uma para outra-. Algo vai mal, verdade?

-Não seja tola... -calou quando bateram na porta.

Maddy sentiu que os dedos lhe punham tensos.

-Chantal, do que se trata?

-Não é nada -desgostosa consigo mesma, obrigou-se a relaxar-. Certifique-te de averiguar quem é, carinho. Não queremos que passe um noivo muito entusiasmado.

Longe de sentir-se satisfeita, Maddy se levantou e foi até a porta.

-É Abby -anunciou depois de olhar pelo olho mágico. «E com a ajuda de Abby poderei chegar ao fundo do que preocupa Chantal», pensou-. Como é que ainda não está gorda? -acusou ao abrir a porta.

Abby riu e apoiou uma mão em seu estômago e a outra na face de Maddy.

-Porque ainda faltam cinco meses. Como é que não esta pronta?

-Porque faltam três horas para o casamento.

-O tempo certo -Abby apoiou uma bolsa sobre o encosto da cadeira antes de aproximar-se de Chantal-. Acha que poderemos ajudá-la a se vestir?

-É possível. Ao menos dessa maneira deixará de ir de um lado a outro do quarto. Menos mal que Reed te convenceu a deixar o apartamento. Agora estaríamos sentadas uma em cima da outra.

-Ainda sinto falta dele -com um sorriso, Maddy se aproximou e rodeou os ombros de suas irmãs com os braços-. Não consigo me imaginar em um apartamento de cobertura na parte alta da cidade. Dylan e os meninos estão com papai?

-Deixei-os diante de sua porta. A mamãe estão penteando e papai estava a ponto de convencer a Dylan para um brinde pré-nupcial. Estou impaciente por ver outra vez o pequeno Ben com smoking. Fica tão bem. Chris se irrita que os aluguemos em vez de comprá-los. Acredita que é algo ideal para exibir aos seus amigos quando estiverem em casa. A propósito... -apertou com afeto o braço de Chantal antes de soltá-la-... Gostei de seu Quinn.

-O pronome possessivo é um pouco prematuro -conseguiu sorrir. Logo, seguindo um impulso, dirigiu-se ao telefone-. Já sei o que falta aqui -chamou o serviço de quarto-. Eu gostaria que nos trouxessem uma garrafa de champanha e três taças. Dom Pérignon de setenta e um. Sim. A suíte de Madeline O’Hurley. Obrigado.

-Esqueceu que são onze horas? -Abby arqueou uma sobrancelha.

-E quem se importa? -quis saber Chantal-. As Trigêmeas O’Hurley vão celebrar -sem aviso prévio, seus olhos encheram de lágrimas-. Oh, Deus, às vezes sinto tanto a falta de vocês que quase não posso suportar.

Imediatamente estavam juntas, próximas pelo vínculo que as unia inclusive desde antes de nascerem. Nesse instante Chantal desmoronou.

-Oh, querida -Abby a ajudou a sentar no sofá e olhou preocupada para Maddy-. O que esta acontecendo, Chantal?

-Nada, nada -secou as lágrimas-. Só estou sendo sentimental. Suponho que me sinto um pouco nervosa, tenho muito trabalho.E ver as duas, você com sua família, Abby, e você a ponto de começar a tua, Maddy... Pergunto-me se as coisas teriam sido diferentes... -calou e balançou a cabeça-. Não, fiz minhas escolhas, agora tenho que aceitá-las.

Abby afastou o cabelo do rosto de sua irmã. Sua voz sempre era serena, suas mãos sempre gentis.

-Chantal, é por Quinn?

-Sim... Não –levantou as mãos, e as deixou cair-. Não sei. Tenho alguns problemas com um fã entusiasta explicou, minimizando o problema-. Contratei Quinn mais ou menos para mantê-lo afastado, e me apaixonei por ele e... -voltou a calar e suspirou-. Acabei de falar.

-Ajudou? -Maddy se inclinou para dar um beijo em sua cabeça.

-Talvez -parte da tensão se liberou-. Sou uma idiota -procurou um lenço de papel-. E sob nenhuma hipótese penso entrar na igreja como dama de honra com os olhos inchados.

-Essa parece a Chantal de sempre -murmurou Maddy-. Além disso, se estiver apaixonada pelo Quinn, tudo vai sair bem.

-Sempre a otimista.

-É obvio. Abby encontrou ao Dylan, eu ao Reed, assim agora resta você. Se pudéssemos achar Rick...

-Deseja muito -riu Chantal-. Se existir uma mulher capaz de caçar a nosso irmão mais velho, eu gostaria de conhecê-la -sobressaltou-se para ouvir o toque na porta, mas se recuperou imediatamente-. Deve ser o champanha -guardou o lenço no bolso e foi abrir, embora primeiro olhasse pelo olho mágico-. Oh, Oh -sorriu ao olhar por cima do ombro-. É o champanha, mas há mais. Abby, leve Maddy ao dormitório. Há um maníaco doente de amor do outro lado.

-Reed? É Reed? -Maddy quis lançar-se para a porta, mas suas irmãs a detiveram.

-Nem sonhe -Abby podia estar grávida de quatro meses, mas ainda era ágil. Passou um braço em torno da cintura de Maddy-. Má sorte, querida. Vá para o quarto. Chantal e eu podemos transmitir qualquer mensagem.

-Isto é uma tolice.

-Não penso abrir a porta até que saia daqui -afirmou Chantal-. Você que sabe.

Depois de franzir o nariz, Maddy bateu a porta a suas costas. Como medida de precaução, Abby se colocou em frente. Com um gesto de satisfação, Chantal abriu a porta que dava para o corredor.

-Por aqui -informou ao garçom-. E você... -pôs um dedo esbelto e cuidado no peito de Reed-... Nem um passo mais.

-Só quero vê-la um momento.

Chantal conseguiu conter um sorriso e moveu a cabeça. Quase podia sentir o amor que emanava dele, os nervos, o desejo. Ainda não usava o smoking, e usava calças e camisa que refletiam seu estilo conservador. Parecia um executivo. «É um executivo», pensou com outro movimento mental de cabeça. O mais distante que alguém teria imaginado para sua irmã boêmia e de espírito livre. Entretanto, encaixavam. Chantal supôs que primeiro Maddy teria se apaixonado por esses olhos cinzas e serenos. O resto teria sido uma conclusão lógica e suave.

-Olhe, tenho uma coisa para ela -acostumado a ser obedecido, Reed deu um passo, para ver-se bloqueado por Chantal-. Terei saído antes que pisque.

-Não entrará -corrigiu ela-. Somos irlandesas, Reed, e pertencemos ao teatro. Não vai encontrar um grupo mais supersticioso. Verá Maddy na igreja.

-Isso -ao ouvir um movimento atrás da porta que protegia, fechou a mão sobre a maçaneta-. Estou segura de que é muito cavalheiro para tentar passar por cima das duas -empregando a arma definitiva, sorriu e levou uma mão ao ventre-. Ou deveria dizer dos três?

Reed não estava tão seguro. Queria ver Maddy, tocá-la, embora só por um minuto, para assegurar-se de que era real. Abby lhe sorriu com expressão calorosa, mas não cedeu. Chantal assinou a fatura do champanha sem mover-se da porta.

-Desça ao oitavo andar e tome uma taça com papai -aconselhou.

-Só queria...

-Esqueça -suavizou-se e lhe deu um beijo na face-. Apenas algumas horas, Reed. Acredite, a espera terá valido a pena.

-Pode lhe dar isto? -tirou um estojo do bolso-. Era de minha avó. Ia dar mais adiante, mas, bom, eu gostaria que usasse hoje.

-Usará- ia fechar a porta, mas se deteve-. Reed. -Bem-vindo à família - e fechou a porta na sua cara-. Senhor, um minuto mais...Disso e me poria a chorar. Deixa-a sair.

-O que te deu? -Maddy passou na frente de sua irmã. Pegou o estojo de Chantal e o abriu. Dentro, havia um diminuto coração de diamantes em uma fina corrente de prata-. Oh, não é lindo?

-Vai ficar até mais formoso com seu vestido -Abby passou um dedo pelas pedras-. Deixe que eu coloco.

-Agora eu vou chorar -Maddy fechou a mão sobre o coração. Em questão de horas ia começar sua nova vida.

-Basta de lágrimas -Chantal abriu a garrafa de champanha. Enquanto enchia as três taças, a rolha aterrissou no tapete-. Vamos nos embebedar um pouco... Bom, duas de nós vão se embebedar um pouco, e Abby tomara unicamente meio gole. Logo, entre as três, vamos preparar noiva mais bela para que caminhe pelo corredor da Catedral de São Patrício. Por você irmãzinha.

-Não -Maddy bateu a taça com a de Chantal, logo com a de Abby-. Por nós. Enquanto estejamos juntas, jamais estaremos sozinhas.



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