Os O’Hurley 3 Chantel Nora Roberts



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Capítulo 11
Por insistência dela, retornaram a Los Angeles no vôo de sábado à noite. Nova Iorque não tinha sido o refúgio que Chantal esperava. Terminado o casamento e com sua irmã de lua de mel pelo Caribe, só tinha vontade de voltar para casa.
A recepção tinha sido tensa. Surpreendeu-se vigiando a desconhecidos, estudando caras familiares e perguntando se poderia ser algum deles. Inclusive quando se obrigou a dormir no avião, prometeu que a próxima vez que fosse a Nova Iorque o faria sem medo.

E o que podia dizer a Quinn? Sentia-se traída por seu silêncio, mas, devido à extensão da dependência que tinha forjado dele, perguntou-se se não o tinha procurado. Era tão fraca, tão covarde, que ele sentia a necessidade de protegê-la de tudo? Queria seu amparo, mas também seu respeito. O teria perdido por negar-se a escutar seus informes, por permitir que interceptasse as notas e evitar conhecer seu conteúdo?

Era hora de parar. Sempre, com a exceção de um breve período, teve o controle de sua vida. E nesse momento, por medo, o havia entregue. A partir desse instante voltava a ter o leme nas mãos.

Quinn se perguntava quanto tempo Chantal ia precisar para descongelar-se. Toda à tarde e a noite se mostrou indiferente e distante. Não tinha mais remédio que aceitar. Entretanto, quando a viu caminhar pelo corredor na frente de sua irmã, com o vestido azul pálido, tinha querido levantar, tomá-la em seus braços e levá-la a algum lugar. A qualquer lugar.

Perguntou-se como seria ouvi-la dizer as mesmas promessas que tinha feito sua irmã. Moveu a cabeça para expulsar esse estado de ânimo.

Achavam-se preparados para aterrissar e Chantal cochilava inquieta a seu lado. Mas quando o avião deslizou pela pista, parecia vivaz e descansada, como se tivesse passado oito horas em uma cama confortável. Recolheram a bagagem sem incidentes e em vinte minutos partiam na limusine para Beverly Hills.

Chantal acendeu um cigarro, e olhou o relógio. Nesse momento se sentia nervosa, inquieta.

-Eu gostaria de ver seus relatórios, todos os relatórios, amanhã ao meio dia -disse.

As luzes cintilavam de forma intermitente contra os guichês. O rosto de Quinn estava nas sombras, mas ela duvidava de que pudesse ler sua expressão.

-Perfeito. Tenho a pasta em sua casa.

-Também eu gostaria que me pusesse em dia de tudo o que tem fez em Nova Iorque.

-Você é a chefe.

-Fico feliz que lembre.

Poderia estrangulá-la. Desceu da limusine ao chegar ao portão. Embora Chantal não estivesse, considerou apropriado deixar guardas vinte e quatro horas. Trocou algumas palavras com o homem e subiu na limusine, que continuou pelos portões abertos.

Ao parar diante da casa, Chantal passou na frente dele. Tinha chegado ao pé da escada principal antes que Quinn a alcançasse.

-Algo a incomoda, anjo?

-Não sei o que esta falando. Com licença, Quinn? -com delicadeza separou os dedos dele de seu braço-. Gostaria de tomar um longo banho quente.

Ninguém o fazia melhor. Teve que lhe conceder isso enquanto a observava avançar pelo corredor na direção do quarto. Com um olhar, com uma inflexão de voz, podia cortar a um homem pela metade sem deixar uma só gota de sangue.

Quinn achava que estava calmo, tinha acreditado que estava controlado... Até o momento em que ouviu o trinco da porta de Chantal. Então o fino controle que tinha mantido com o passar do dia se rompeu. Não titubeou. Nem sequer pensou. Dirigiu-se para a porta e a abriu de um chute.

Poucas vezes Chantal ficava sem fala. Já tinha tirado o casaco e estava com um Top rosa pálido e uma saia de um rosa mais profundo. Permaneceu quieta, com uma mão paralisada sobre a cabeça, onde tinha começado a soltar o cabelo.

Jamais tinha visto uma fúria como a que fervia nos olhos de Quinn.

-Nunca me feche uma porta -ela tremeu ao ouvir a voz que soou baixa depois que a madeira estilhaçou-. Nunca me deixe de fora.

Devagar, Chantal abaixou a mão e o cabelo caiu sobre os ombros.

-Quero que vá embora.

-Talvez seja hora de aprender que nem sequer você pode ter tudo o que deseja. Vou ficar. Vai ter que fazer muito mais que girar uma chave para me manter longe.

Quando avançou para ela, Chantal ficou rígida, mas se negou a recuar. Já estava farta de fugir, inclusive dele. Quinn tirou a gravata e a passou ao redor da mão.

-Se quer me esbofetear tudo bem, tudo bem. Mas maldição se acha que vou ser punido por fazer meu trabalho.

-Não vou tolerar qte me trate como a uma idiota ou a uma fraca -os seios tremeram através do tecido do Top quando respirou fundo-. Sabia que ia me seguir à Nova Iorque. Sabia que não estaria mais a salvo que aqui.

-Sim. Sabia, e você não. E desfrutou de uma noite em que dormiu sem pesadelos.

-Não tinha o direito...

-Tinha todo o direito -a mão que prendia o cabelo se tensionou. Ela quis fazer uma careta, mas dava a impressão de que não era capaz de mover-se-. Tenho o direito de fazer tudo, tudo, para mantê-la a salvo, para te dar paz mental. E pretendo continuar, porque não há nada que seja mais importante que você.

Chantal soltou o ar que não sabia que tinha preso. Tinha-o visto em seus olhos, sob a ira, sob a frustração, mas não tinha estado segura de que pudesse acreditar.

-E você...? -fechou os lábios com força. Não queria que a voz tremesse. Queria ser forte-. É sua forma de dizer que me ama?

Olhou-a, muito mais confuso por sua própria declaração que ela. Não pretendia soltá-la como se fosse uma ameaça. Queria lhe dar tempo, até que ela compreendesse que precisava dele.

-Pegue ou largue.

-Pegue ou largue -repetiu ela com um murmúrio. Típico de Quinn-.Importaria-se em soltar meu cabelo? Preciso dele para algumas cenas segunda-feira. Além disso, desse modo terá os dois braços para me abraçar com eles - antes que pudesse obedecer, Chantal se prendeu a ele com todas as suas forças, rezando para que não fosse um sonho.

-Imagino que isto significa que pega -enterrou o rosto no cabelo dela e se perguntou como pode sobreviver sem seu aroma, sem seu contato.

-Sim. Estive pensando em uma forma de fazer com que se apaixone por mim para que não possa me deixar - jogou a cabeça para trás para olhá-lo-. Diga-me que não vai.

-Não vou a nenhuma parte -encontrou a boca dela e o converteu em uma promessa-. Quero ouvi-la –pegou outra vez o cabelo e empurrou com delicadeza até que seus olhos voltaram a encontrar-se-. Olhe-me e diga. Sem luzes, sem câmaras, sem roteiro.

-Eu te amo, Quinn, mais do que pensei que fosse possível amar. Assusta-me muito.

-Bem -voltou-a a beijar, com mais força-. Também me assusta.

-Temos tantas coisas para falar.

-Depois -já tinha começado a descer o zíper da saia.

-Depois -concordou, tirando a camisa das calças-. Quer tomar um banho? -tirou-lhe a camisa pelos ombros.

-Sim.

-Antes? -riu e mordiscou o queixo-. Ou depois?



-Depois –jogou-a com ele sobre a cama.

Antes tinha sido selvagem, feroz, violento, apaixonado, e também houve delicadeza. Mas nesse momento havia amor, sentido, falado, correspondido. Ela tinha deixado de acreditar que sua vida a conduziria a isso: amor, aceitação, compreensão. E no final só teve que estender a mão para pegá-lo. Em um estouro de emoção se viram juntos com as bocas abertas e famintas, com os corpos ardentes e conscientes. Ouviu a respiração contida de Quinn quando enterrou o rosto em seu cabelo, como se também ele acabasse de entender o dom que tinham recebido.

As mãos, apoiadas sobre as costas dele, sentiram a rápida contração dos músculos. Não quis aplacá-lo. Queria que Quinn estivesse como ela, confuso, um pouco temeroso e indescritivelmente feliz. Quando aproximou os lábios do pescoço dele, notou a palpitação de excitação, provou o calor. Com um movimento longo e possessivo, acariciou-lhe as costas. Era dele. A partir desse momento, Quinn era dela.

Ela estava ali para ele, suave, entregue, mas forte o bastante para sustentá-lo. Nunca a tinha procurado. Quinn se conhecia o suficiente para saber que nunca havia procurado alguém que compartilhasse sua vida. Não obstante, tinha-a encontrado, e nela tinha encontrado tudo. Alguém com quem rolar entre os lençóis nas noites quentes. Alguém com quem despertar nas preguiçosas manhãs. Alguém em quem confiar, a quem proteger, a quem recorrer.

Pensar nisso o fazia fechar os olhos, como se quisesse manter a fantasia presa para sempre. Com os dedos lhe percorreu o rosto.

-É tão linda -murmurou-. Aqui... -os dedos demoraram na face-. E aqui -devagar, deslizou a mão pelo seu corpo. Logo abriu os olhos para olhá-la-. E por dentro.

-Não, eu...

-Não contradiga homem que te ama -levou a palma da mão dela aos lábios, sem deixar de observá-la. Beijou-lhe cada dedo. O diamante refulgia em um, um símbolo do que Chantal era para o mundo. Sexo altivo, glamour com uma fachada dura. A mão dela tremeu como a de uma colegial.

Quinn lhe beijou a mandíbula e ela respirou com ofegos entrecortados. Com cada carícia, ele a fazia entrar em um mundo escuro e líquido onde as sensações eram seu único guia.

Só ele podia fazê-la esquecer os limites que colocara para si mesma. Só ele podia fazê-la esquecer que amar era um risco. Com Quinn podia dar sem medo, sem reservas nem restrições. Com Quinn haveria um amanhã. Haveria toda uma vida de amanhãs.

Ele não estava seguro de como mostrar o que sentia. Não estava acostumado a mimar. O romance era para as novelas, os filmes, para os jovens e tolos. Entretanto, tinha uma necessidade crescente de lhe demonstrar que seus sentimentos deixavam tão atrás o desejo que não era capaz de medi-los.

Apoiou-se sobre um cotovelo e lhe afastou com delicadeza o cabelo do rosto. Com suavidade, como se Chantal pudesse desfazer-se ao mínimo contato, tomou o rosto na mão. Enquanto os primeiros raios de luz entravam pela janela e pousavam sobre sua pele, pareceu-lhe que nunca tinha estado mais bela.

Passou o dedo polegar pelos lábios, fascinado pela forma e a suavidade, e como se fosse a primeira vez, pousou seus lábios nos dela.

O corpo do Chantal ficou lânguido. Enquanto Quinn prolongava o beijo, a mão que ela tinha apoiada nas costas dele caiu sem forças. Com antecedência tinha acreditado entender o que era a posse, mas se enganara. Tinha acreditado poder imaginar o que era ser amada plenamente. Mas não tinha nem idéia. Algo vibrou através dela, com tanta delicadeza que poderia ter sido um sonho. Mas expandiu por seu interior, realizando uma promessa.

O calor se centrou, concentrou-se e cresceu. Recuperou a força e com ela uma paixão tão viva que gemeu de prazer. Rolaram até que ficou em cima dele. Juntos se deixaram ir.

As mãos de Quinn eram velozes, mas não mais urgentes que as dela. Os lábios dele estavam famintos, mas seu desespero tinha encontrado um igual em Chantal. A prudência se descartou com igual facilidade que a roupa intima. Juntos chegaram ao orgasmo como se fossem um trovão, em uma tormenta que continuou até a manhã. Ao amanhecer, guiaram-se mutuamente à escuridão.

-Me alegro tanto de que seja domingo -Chantal introduziu o ombro na água quente e espumante. Recolheu uma taça de vinho do lado da banheira e riu por cima da borda-. Não tem que estar carrancudo pelas bolhas. Tem que desfrutar.

Quinn estendeu o braço para tomar sua própria taça. A banheira de Chantal era o bastante grande para dois, e a clarabóia do teto mostrava um perfeito céu azul. A água que quase transbordava estava coroada de borbulhas cheirosas e brancas.

-Vou cheirar como uma mulher.

-Querido -com a língua tocou a borda da taça-, só eu vou cheirá-lo.

-Com todos os produtos que jogou aqui, terei sorte se me livrar do perfume em uma semana -acomodou-se e passou uma perna por cima da de Chantal-. Mas tem suas compensações.

-Mmm -recostou-se com os olhos entreabertos-. Para os dois. Precisava disto. O ritmo de gravação da semana que vem será criminoso. Há três cenas em particular que sei que me deixarão exausta. A pior é essa em que Brad e Halley quase morrem no incêndio.

-Que incêndio?

-Leia o roteiro -respondeu com um sorriso-. Confio no departamento de efeitos especiais, mas não faz com que seja mais fácil se arrastar por uma cabana na parte de trás do set enquanto manipulam chamas e soltam fumaça. Por isso eu gosto que seja domingo, que estejamos na banheira e que possa pensar em fazer amor com você -olhou-o com olhos que logo que eram frestas-. De novo.

-Pode estar na banheira e fazer amor comigo -girou o corpo, avançando até que seus rostos quase se tocaram-. Ao mesmo tempo.

Chantal riu e enlaçou as mãos atrás da cabeça dele, enquanto a água ricocheteava nas bordas e caía no chão.

-Há muita água.

-Você encheu a banheira.

-Foi um engano. Em geral tomo banho sozinha.

-Não mais -as bolhas estouraram entre os dois enquanto a beijava-. Por que não levanta a tampa do ralo?

-Não alcanço -inclinou a cabeça para mudar o ângulo do próximo beijo-. Está, ah, atrás de mim. Se bem que um homem grande e forte como você pode conseguir sozinho.

-Aqui? –sua mão desceu por um seio até a caixa torácica.

-Perto. Muito perto -sentiu que os dedos deslizavam por seu quadril-. Aproxima-se mais. Por que não...? -calou quando foi afundada, com a boca dele sobre seus lábios. Quando a tirou daágua, respirou, limpou o rosto e o olhou-. Quinn!

-Escorreguei -encontrou a alavanca do ralo e a abaixou.

-Com certeza. Agora tenho sabão nos olhos -ele ia sorrir, mas a boca secou quando ela se levantou, magnífica, e deixou que a água escorresse por sua pele enquanto pegava uma toalha-. Lembre-me de trazer um patinho à próxima vez que tomarmos banho.

-Chantal.

Ela tinha a toalha no rosto, mas a abaixou com um meio sorriso que se desvaneceu quando ele levantou a seu lado. Sem dizer uma palavra, abraçou-a. Permaneceram onde estavam enquanto as bolhas secavam sobre a pele.

-Jamais imaginei que poderia ser assim -murmurou ela-. Não assim.

-Somos dois -achava tão incrível tê-la encontrado, ter achado tudo sem haver procurado. Está esfriando -pegou uma toalha e a envolveu com o algodão-. Suponho que teria muito do que responder se amanhã fosses trabalhar com o nariz vermelho.

-Nunca fico vermelha -recolheu outra toalha e a passou em torno dele-. Está em meu contrato.

-Acha que poderá ter um descanso quando terminar de filmar?

-Depende -voltou a sorrir-. Onde e com quem.

-Comigo. Poderemos decidir o onde.

-Devo terminar em três semanas. Escolhe o lugar -foi sair da banheira, mas se apoiou contra a parede-. Cuidado. Alagamos o quarto de banho.

-Pegue algumas toalhas -tirou outra da prateleira e a deixou cair no chão para que absorvesse a água.

-Minha criada vai te adorar -por costume, Chantal recolheu um pote de creme hidratante e começou a passar na pele.

-Uma vez que estejamos casados, vão mudar as regras da banheira -ele prendia a toalha ao quadril e não notou como os dedos de Chantal se paralisaram-. As bolhas tudo bem, mas que não sejam perfumadas. Não podemos permitir que os meninos se perguntem se seu pai usa perfume.

De algum modo, Chantal conseguiu tampar outra vez o pote e deixá-lo sem que caísse.

- Vamos nos casar?

Ele não tinha que olhá-la para saber que tinha recuado três passos. Captou-o em sua voz.

-Certamente.

Chantal tinha o coração nas mãos, mas se obrigou a falar com serenidade.

-Quer filhos?

-Sim -um a um, sentiu que os músculos de seu estômago retorciam-. Algum problema?

-Eu... As coisas avançam depressa -conseguiu dizer.

-Não somos adolescentes, Chantal. Acredito que os dois saibam o que queremos.

-Tenho que sentar -não confiava em suas pernas, assim saiu para o quarto e se sentou em uma cadeira. Apertava a toalha com mãos que estavam brancas.

Quinn esperou um momento. O vapor tinha embaçado o espelho que havia na parede em frente à banheira, mas pôde imaginá-la ali sentada, bela, magra, jovem, perfeita. Era um sonho e uma estrela, alguém que iluminava a tela e criava fantasias. Tinha a mandíbula apertada ao entrar no dormitório.

-Parece que apertei os botões errados -recolheu a camisa e encontrou os cigarros-. Pensei que era o que você queria também -acendeu um e deu uma tragada profunda-. Suponho que um marido e filhos não caiam bem com a imagem -ela levantou o olhar devagar. Tinha os olhos secos, mas Quinn reconheceu a dor, algo profundo, inchado e duradouro-. Chantal...

-Não -deteve-o com um gesto da mão-. Talvez mereça isso -levantou-se e se aproximou do armário, de onde escolheu um robe. Com movimentos deliberados soltou a toalha, pos o robe e ajustou o cinto-. Minha carreira é importante para mim, mas jamais deixei que interferisse com minha vida pessoal... Ou o contrário. Meu trabalho é exigente. Você mesmo pode comprovar que as horas podem ser brutais.

-Assim que não há lugar para mim e uma família?

Algo voltou a refletir-se no rosto de Chantal. Dor, mas nessa ocasião com um toque de ira.

-Meus pais criaram quatro filhos na estrada. Sempre havia lugar, sempre havia tempo para a família.

-Então, do que se trata?

Ela colocou as mãos nos bolsos, para as tirar de novo, não podia deixá-las quietas.

-Primeiro, quero te dizer que não há nada que deseje mais que me casar e ter uma família. Por favor, não -disse quando ele começou a levantar - Sente-se, Quinn. Será mais fácil para mim se sentar.

-De acordo.

-Há coisas que deve saber antes que possamos avançar mais -respirou fundo-. É difícil, ao menos para mim, reconhecer erros passados, mas tem o direito de saber. Se tivesse escutado minha mãe, teria contado isso antes. Pode que então tivesse sido mais fácil.

-Olhe, se quer me dizer que esteve com outros homens...

A risada tensa dela o cortou.

-Não precisamente. Isto tampouco encaixa com a imagem, mas só me deitei com um homem antes de você. Surpresa -disse quando unicamente recebeu o olhar fixo dele. Aproximou-se da janela-. Eu tinha vinte anos quando o conheci. Fazia publicidade televisiva, ia a aulas. Inclusive tinha um trabalho parcial no qual vendia revistas por telefone. Não parava de me dizer que era questão de tempo, e assim acreditava, mas era difícil. Era muito duro estar sozinha. Então Matt me chamou e disse que tinha conseguido um teste para um papel em um filme. Lawless. Foi meu primeiro papel. O produtor era...

-Dustin Price.

Chantal se voltou com a mão fechada.

-Sim. Como sabe?

-Muitos aficionados pelo cinema poderiam sabê-lo, mas a questão é que já conheço Price. Apareceu quando investiguei seu passado.

-Investigou-me? -apoiou-se contra o batente-. A mim?

-É um procedimento padrão, Chantal. Investigo por que talvez apareça alguém a quem esqueceu ou que esqueceu mencionar. Como Dustin Price. A propósito, está limpo. Esta há um ano e meio na Inglaterra.

-Padrão -repetiu-. Suponho que devia esperar.

-Que diferença faz agora? Deitou-se com ele. Precisava de uma oportunidade e ele podia dar isso Foi há anos e não me importa nada.

-Isso é o que pensa? -todos os músculos do corpo ficaram rígidos-.Acredita que me deitei com ele para conseguir um papel?

-Falei que não tem importância.

-Não me toque –afastou-se quando ele esticou os braços-. Não tenho que me deitar com ninguém para conseguir um papel, e jamais o fiz. Pode ser transigisse em algo, que entregasse mais do que devia, mas nunca me prostituí.

-Sinto muito –pegou a nos braços sem prestar atenção em sua resistência-. Estou tentando dizer que seja o que for o que houve entre Price e você, não importa.

-OH, sim importa -soltou-se e se serviu de champanha em uma taça limpa-. Importa. Quando Matt me chamou para dizer que tinha um papel, senti-me muito feliz. Sabia que era o princípio. Ia ser alguém -levou os dedos aos lábios até que esteve segura de que poderia falar com calma-. Dustin me enviou uma dúzia de rosas, uma garrafa de champanha e uma preciosa carta de felicitação. Disse que sabia que eu ia ser uma estrela e sugeriu que jantássemos juntos para falar do filme e de minha carreira -bebeu porque tinha a garganta seca, logo deixou a taça, negando-se a depender do champanha para seguir em frente-. Certamente, aceitei. Era um dos produtores mais importantes. Era casado, é obvio, mas não pensei nisso -soltou com desdém para si mesma.

-Chantal. Foi há anos.

-Há coisas pelas quais nunca se deixa de pagar. Eu ia ser sofisticada. Só jantaríamos como colegas. Deus, ele era encantador -a lembrança ainda doía, mas a dor era surda, já cicatrizada-. Não deixava de me chegar flores, de repetidos jantares. Ele conhecia tanto o negócio, às pessoas. Com quem teria que falar, com quem devia ser vista. Tudo isso era tão importante para mim então... Pensei que poderia dirigir a situação. A verdade é que era uma jovem ingênua sozinha pela primeira vez.

»Apaixonei-me por ele. Acreditei em tudo o que disse sobre sua mulher e ele viverem juntos unicamente pelas aparências, sobre o divórcio secreto que já estava pedido. Que ambos seríamos a equipe mais brilhante que Hollywood tinha visto desde sua época dourada. A relação poderia ter seguido seu curso natural à medida que eu abrisse os olhos e ele começasse a aborrecer-se, mas antes que passasse por tudo isso, cometi um engano -passou as mãos úmidas pelo robe e as uniu-. Fiquei grávida -conseguiu engolir a saliva-. Não descobriu isso em sua investigação, não é?

-Não –respondeu depois de controlar a fúria.

-Dustin tinha dinheiro suficiente e influências como para que não soubessem. E não foi um problema durante muito tempo.

Quinn se esforçava com desespero por entender.

-Abortou?

-É o que ele queria. Ficou furioso. Suponho que aconteceria a um monte de homens quando sua amante, e eu não era mais que isso ,aparece grávida e ameaça seu confortável casamento. Certamente, ele jamais havia planejado divorciar-se ou casar-se comigo. Descobri-o quando lhe disse que ia ter seu filho.

-Usou-a -sibilou Quinn-. Tinha vinte anos e ele a usou.

-Não -era estranho que pudesse dizê-lo com tanta calma-. Tinha vinte anos e fingi conhecer todas as regras. Fingi muito bem. Cometi um erro, e depois cometi outro. Disse a ele que podia ir para o inferno, mas que ia ter a criança. Nesse momento a situação se tornou feia. Ameaçou destruir minha carreira se não jogasse como ele queria. Bom, não tem sentido relembrar tudo o que se disse, salvo que a relação terminou e eu abri bem os olhos.

-Ainda dói -murmurou Quinn.

-Sim, mas não pelos motivos que poderia acreditar.

Pensei que o amava, mas assim que se apagou o brilho, soube que jamais o tinha amado. Chamei meus pais. Estava pronta para me refugiar em casa e deixar tudo para trás. Comprei uma passagem de avião. Quinn, não sei o que teria feito no momento em estivesse pensando com clareza. Isso é o pior, não saber. Houve um acidente a caminho do aeroporto -respirou fundo e lutou para continuar-. Nada importante, o motorista do táxi quebrou alguns ossos e eu... Eu perdi o bebê -com um soluço entrecortado levou as mãos aos olhos-. Perdi o bebê e tratei de me dizer que era melhor. Mas só podia pensar que ele jamais teve uma oportunidade. Estava grávida de seis semanas. Seis semanas. Matt me tirou da depressão, assim que saí do hospital me pôs para trabalhar. Então tudo deu certo para mim, os papéis, as pessoas, a fama que sempre quis. O única coisa que tive que fazer foi perder um bebê.

-Chantal -aproximou-se dela e lhe acariciou o rosto, o cabelo, os ombros-. Não há nada que eu possa dizer.

-Há mais.

-Já chega -quis abraçá-la, mas ela recuou.

-Quando perdi o bebê houve complicações. Os médicos me disseram, bem, disseram que era possível que pudesse ter outros filhos, mas que não podiam garantir. Era possível, só possível, nem sequer provável. Talvez jamais chegue outro bebê, outra oportunidade. Entende?

-Vai casar comigo? –pegou suas mãos.

-Quinn, não escutou? Acabo de dizer...

-Eu ouvi -sustentou-lhe os dedos com firmeza-. Pode ser que não tenha filhos. Eu os quero, Chantal... Teus e meus. Se pudermos ter, estupendo. Mas primeiro sempre... -inclinou-se para lhe beijar os lábios-. Quero você. Preciso de você, anjo. O resto depende da sorte.

-Quinn, eu te amo.

-Então casemos amanhã.

-Não -apoiou as mãos no peito dele para contê-lo-. Quero que pense nisso, que reflita de verdade. Precisa de tempo.

-Preciso de você -corrigiu-. Não de tempo.

-Sinto que lhe devo isso. Deixemos as coisas como estão. Alguns dias.

Ele poderia ter insistido. Poderia ter ganho. Mas nesse momento a dor parecia muito próximo à superfície.

-Só uns poucos dias. Venha aqui -nesse momento ela aceitou gostosa entrar em seus braços-. Não vou deixar que ninguém volte a te ferir -murmurou.

Chantal fechou os olhos, desejando poder lhe prometer o mesmo.




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