Os paradoxismos de um prosista polemico



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NELSON RODRIGUES: OS ESCRITOS DO CRONISTA

E SEU DIÁLOGO COM OS GRANDES NOMES DA LITERATURA

Marcos Francisco Pedrosa Sá Freire de Souza

(doutorando em Ciência da Literatura, Literatura Comparada, UFRJ)

Resumo: Discorremos, em nosso ensaio, sobre Nelson Rodrigues e sua prática como cronista. Um aspecto muito saliente nesse segmento de sua produção como escritor é a maneira como o autor reafirma o espaço literário como o lugar privilegiado para a experiência de troca com o leitor. Destaca-se nesse ensaio a forma recorrente com que o autor dialoga com os textos da literatura mundial de sua preferência. Esse diálogo é percebido na maneira como Rodrigues cita obras e outros escritores e através da forma como podemos reconhecer traços em seus escritos que o aproximam de outros autores, como se verifica nos trabalhos de comparatismo tradicionais.

Algo de particularmente peculiar nos escritos do Nelson Rodrigues cronista é o modo recorrente com que o autor dialoga com os textos da literatura mundial de sua preferência. Esse diálogo é percebido na maneira como Rodrigues cita obras e outros escritores e através da forma como podemos identificar traços em seus escritos que o aproximam de outros autores, como se verifica nos trabalhos de comparatismo tradicionais.

Se é verdade que há a menção a obras cinematográficas, operísticas, teatrais e pictoriais em seus escritos, essas referências não se comparam em intensidade à insistência com que o escritor cita obras literárias. A primeira referência a obras literárias por parte do escritor (na verdade a cópia de uma linha de um poema de Raimundo Correia) aconteceu com a famosa composição juvenil que Rodrigues escreveu ainda nos bancos escolares e que é mencionada pelo próprio autor (cf. Rodrigues, 1997a: 142) e por seu biógrafo mais célebre (Castro, 1992).

É curioso que Rodrigues, na sua ingenuidade de criança, tenha escolhido um poeta como Raimundo Correia (em cujos versos Machado sentia “o cheiro romântico da decadência”) para “plagiar”. A passagem saiu de “As pombas”, e é aquela em que o poeta constrói uma imagem lúgubre: “raia sangüínea e fresca a madrugada”. A frase, que Rodrigues posteriormente descobriria ter sido “pilhada”, como diz, por Raimundo Correia de Théophile Gautier, foi transcrita integralmente e entrou assim mesmo em uma estória juvenil que teria um final trágico (depois de descobrir que a mulher o traía, o marido a mata de forma violenta, nos conta o autor). Segundo comentam já aparecia aí a marca trágica que Rodrigues imprimiria aos contos-crônicas que escreveria na famosa coluna diária “A vida como ela é ...”, assinada pelo jornalista no jornal Última Hora durante a década de 1950.

Devemos destacar ainda que essa primeira e inocente adesão de Rodrigues ao ideário romântico, acontecida aos oito anos de idade, se evidenciaria, de modo cabal, nos escritos que o autor escreveria no começo de sua carreira jornalística. Muitas das crônicas produzidas pelo escritor quando ainda não tinha chegado à casa dos 20 anos, e que podem ser conferidos no livro O Baú de Nelson Rodrigues – os Primeiros Anos de Crítica e Reportagem (1928-35) (2004), trazem essa marca.

As citações que apareceriam mais tarde e com o autor já amadurecido mudariam de característica porque não se configurariam em “plágio” como na investida do garoto que freqüentava a escola Prudente de Morais no subúrbio carioca, e, como é natural de se esperar, exibiriam uma elaboração intelectual por parte do escritor em relação ao universo literário citado. É pertinente, no entanto, destacar que essas referências literárias nunca se transformaram em plataforma para o escritor desfilar sua erudição e, pelo contrário, aparecem sempre como resultado do seu escrever espirituoso e de apelo humorístico.

Um dos escritores brasileiros mais lembrados por Rodrigues em suas citações foi Machado de Assis. Em muitas crônicas do escritor, podemos, por exemplo, ver a referência a uma certa vizinha sua, “gorda e patusca como uma viúva machadiana” (cf. 2000: 66). Trata-se de uma das incursões que interessavam ao escritor: apropriar-se das sugestões advindas da leitura de alguns dos autores que prezava para utilizar como material criativo para suas próprias imagens ficcionais.

As referências, como observado anteriormente, são em muitos casos jocosas e superficiais e sob alguns aspectos contrariam até mesmo um pouco do mundo ficcional que é recriado. Assim, se é verdade que as viúvas proliferam nos livros do bruxo do Cosme Velho, temos de advertir que por vezes elas apresentavam um estereótipo distinto deste. Basta nos lembrarmos de Lívia de Ressurreição para nos depararmos com uma viúva machadiana charmosa e cheia de encantos e distinta da imagem sublinhada por Rodrigues.

Citações que investem por superficialidades similares marcam ainda muitas das visitas feitas por Nelson Rodrigues aos escritos de literatos como Dostoievski, Tolstoi e Flaubert. De Dostoievski, a referência é sempre Sônia e Raskolnikov (de Crime e castigo), de Tolstoi e Flaubert, Ana Karenina e Madame Bovary (dos romances homônimos). São os personagens mais famosos e conhecidos desses autores, e, como em Machado, ficamos, portanto, na superficialidade da contribuição literária desses escritores. Além de citar os personagens criados por esses autores, Rodrigues, deve-se lembrar, não se cansa de enaltecê-los e de destacar a genialidade de seus escritos. O fato ocorre em suas crônicas em repetidas referências nominais que festejam as qualidades da escrita desses literatos.

De forma semelhante, o personagem mais conhecido de Daniel Defoe, Robinson Crusoé, é objeto de várias blagues de Rodrigues. Rodrigues comenta em uma crônica, por exemplo, que um estado brasileiro, o Piauí, “é tão só, na comunidade brasileira, tão só como um Robinson Crusoé sem radinho de pilha” (Rodrigues, 1995: 68). Em outra oportunidade repeteria a imagem da solidão com o personagem de Defoe: “(...) eu escrevi que o brasileiro é ainda maior quando solitário. Ponham o brasileiro numa ilha deserta. Ele sozinho, como um Robinson Crusoé, ou apenas com uma arara no ombro. E o brasileiro bebendo água em cuia de queijo Palmira (...).” (Rodrigues, 1994: 89).

Um outro pesquisador da obra de Nelson Rodrigues, o paulista José Carlos Marques (2000), ainda que para destacar as características da prosa que marcariam traços do neo-barroco latino-americano e que estão presentes nos textos do escritor, nos ajuda com dois outros exemplos. O primeiro deles acontece com uma troca intertextual com o poema mais celebrado de que se tem notícia em língua portuguesa: Os Lusíadas, de Luiz de Camões. Rodrigues se apropria do episódio de Inês de Castro e o lança de maneira inusitada em uma de suas crônicas esportivas. Nela o cronista narra um dos engarrafamentos que enfrentou nos momentos que precederam sua entrada no Maracanã para assistir a mais um dos jogos que acompanhava.

Antes de chegar ao Maracanã, pasmei para a loucura dos automóveis e das buzinas. Nem no enterro de Inês de Castro teve tantos carros. Eles subiam nas calçadas, ou trepavam nas árvores como macacos e quase pulavam os muros. (Rodrigues, 1996: 93)

Com Edgar Allan Poe temos um segundo exemplo curioso: as menções que Rodrigues faz ao escritor norte-americano recaem sempre no poema mais conhecido e popularizado do autor. E o detalhe é que vamos dar única e exclusivamente na passagem de “O Corvo” que marca como um refrão o poema. É verdade que tudo é feito, mais uma vez, acentuando o lado cômico como já assinalamos antes. Na crônica que comenta a derrota da seleção brasileira no mundial da Inglaterra de 1966, Rodrigues “confunde” o corvo de Poe com um urubu que não se cansa de repetir para o capitão da seleção inglesa (vitoriosa na competição): “nunca mais, nunca mais!” (1996: 125). Em uma outra crônica, o mote de Poe é recriado por Otto Lara Resende que sai como o corvo a propalar mecanicamente: “O Poder Econômico! O Poder Econômico!” (1996: 32) para se referir a um amigo que era poderoso funcionário de um banco. As aparições do pássaro de Poe poderiam se dar ainda nas situações mais inusitadas como em uma crônica em que Rodrigues discutia a inépcia dos médicos burocratas que diante dos males mais evidentes são capazes de repetir como o Corvo: “Não é de urgência”, “Não é de urgência”, “Não é de urgência”. (Rodrigues, 1995: 315).

Além dessas referências diretas, temos outras que se incorporam à tessitura textual de maneira mais elaborada. É famosa uma passagem de Ibsen de Um inimigo do povo em que o personagem Dr. Stockmann afirma:

Não! A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse! Todo o cidadão livre deve protestar contra ela. Quem se constitui na maioria dos habitantes de um país? As pessoas inteligentes ou os imbecis? Estamos todos de acordo, penso eu, em afirmar que, em se considerando o globo terrestre como um todo, os imbecis formam uma maioria esmagadora. E este é um motivo suficiente para que os imbecis mandem nos demais. Sim, vocês podem gritar mais alto do que eu, mas não podem me responder. A maioria tem o poder, infelizmente! Mas não tem razão! (Ibsen, 2002: 127)

Rodrigues, que ficou famoso como frasista e autor de máximas antológicas, em nosso entender, recria com extrema criatividade a frase do teatrólogo norueguês no seu muito falado aforismo: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa como a unanimidade não precisa pensar”. Apesar de não ser uma apropriação literal dos dizeres de Ibsen, não há como não reconhecer um parentesco entre as idéias trabalhadas pelos dois dramaturgos. É bom que se diga também que a idéia de que “os imbecis formam uma maioria esmagadora” aparece em várias crônicas de Rodrigues. O escritor brasileiro, entretanto, associa à figura do imbecil a do idiota. Em uma crônica de 1968, por exemplo, Rodrigues comenta:

Há quinze ou vinte dias atrás, escrevi sobre o grande tema de nossa época. Não sei se vocês lembram. Falei da ascensão do idiota. No passado, eram os “melhores” que faziam os usos, os costumes, os valores, as idéias, os sentimentos etc. etc. Perguntará alguém: - “E que fazia o idiota?”. Resposta:- Fazia filhos.

Mas vejam: - o idiota como tal se comportava. Na rua passava rente as paredes, gaguejante de humildade. Sabia-se idiota e estava ciente da própria inépcia. Só os “melhores” sentiam, pensavam, e só eles tinham grandes esposas, as grandes amantes, as grandes residências. E, quando um deles morria, logo os idiotas tratavam de erguer um monumento ao gênio.

E, de repente, tudo mudou. Após milênios de passividade abjeta, o idiota descobriu a própria superioridade numérica. Começaram a aparecer as multidões jamais concebidas. Eram eles, os idiotas. Os “melhores” se juntavam em pequenas minorias acuadas, batidas, apavoradas. O imbecil, que falava baixinho, ergueu a voz; ele, que apenas fazia filhos, começou a pensar. Pela primeira vez, o idiota é artista plástico, é sociólogo, é cientista, é romancista, é prêmio Nobel, é dramaturgo, é professor, é sacerdote. Aprende, sabe, ensina.

No presente mundo ninguém faz nada, ninguém é nada, sem o apoio dos cretinos de ambos os sexos. (Rodrigues, 1997: 92)

De início Rodrigues identifica o idiota com o “imbecil” de Ibsen. E assim, as idéias que movem a argumentação dos dois autores nos parecem próximas. Teríamos apenas de lembrar que para o personagem de Ibsen, a imbecilidade é um estado permanente. Nas confabulações de Rodrigues, a idiotia é um fato recente. Mas isso se explica com a lembrança de que, para o cronista brasileiro, a grande época foi uma época passada, romântica, em que tínhamos os gênios criadores.

Rodrigues ficou conhecido pelas afirmações polêmicas, semelhantes a que acabamos de mencionar. Uma das marcas da retórica que busca polemizar é a ênfase hiperbólica. Quando Alfredo Bosi comenta a escrita de outro ilustre polemista brasileiro, Rui Barbosa, o professor da USP nos diz:

Não só a matéria subordinava-se às exigências do polemista, também a forma estruturava-se consoante as necessidades da oratio: Rui propunha, desenvolvia e perorava, ainda quando o gênero não fosse o oratório. Carecendo, porém, de gênio autenticamente dialético, o seu processo de composição caminhava à força de amplificar. Partindo sempre de uma convicção apriorística, Rui passava a provar, justapondo palavras, frases, períodos; de onde a prolixidade e a ênfase como vícios inerentes a muitas de suas páginas.

A cadeia de sinônimos constituíam, por isso, seu titulo de honra; e sabe-se o que de econômico lhe valeu a cópia de vocábulos com que nomeou as meretrizes na Pornéia e os azorragues na Rebenqueida.

Um dos recursos mais consentâneos com o estilo polêmico-enfático é a enumeração triádica. Rui dele usou e abusou. (Bosi, 1975: 288)

É de se observar como Rodrigues incorpora à tessitura de seu texto justamente essa enumeração triádica tão característica de Rui Barbosa. É muito recorrente o recurso da enumeração triádica na prosa rodrigueana e vamos lançar mão de alguns exemplos para caracterizar a opção estilística do autor. No primeiro exemplo, ele comenta um desentendimento com o crítico Paulo Francis: “Súbito, começo a pensar no meu ex-inimigo Paulo Francis. Já nos chamamos de “palhaços”, de “analfabetos”, de “burros”.” (Rodrigues, 1997: 79). Em outra crônica, ao comentar a decadência do jornalismo à época em que escrevia, Rodrigues disse: “São duzentas, trezentas, quatrocentas figuras, entre redatores, repórteres, estagiárias. Todavia falta alguém na selva humana. É o “grande jornalista”.” (Rodrigues, 1995: 95). Existe mesmo uma adjetivação tríplice que se repetiria por demais em seus textos e sempre na mesma ordem. Rodrigues gostava de repetir incansavelmente que algo lhe parecia “difuso, volatizado, atmosférico”. Temos um exemplo em crônica em que fala da época de sua primeira peça, Vestido de Noiva: Escreveu ele sobre o período: “Era ainda a época de Pirandello. Qualquer autor, que não fosse um débil mental de babar na gravata, tinha que ser “pirandelliano”. Pirandello estava por aí, difuso, volatizado, atmosférico.” (1995: 285).

Esses são alguns dos escritores e estilistas com os quais a prosa de Rodrigues trava contato e dialoga insistentemente. Procuramos, nesse ensaio, fazer uma breve introdução ao tópico que merece ser escrutinado com maior empenho em investida de maior fôlego.

BIBLIOGRAFIA:
8

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1975.


IBSEN, Henrik. Um inimigo do povo. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002. Tradução de Pedro Mantiqueira.
MARQUES, José Carlos. O futebol em Nelson Rodrigues. São Paulo: EDUC-Editora da PUC/SP, 2000.
RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
RODRIGUES, Nelson. O reacionário. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
RODRIGUES, Nelson. A pátria em chuteiras. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
RODRIGUES, Nelson. O remador de Ben-Hur. 1a. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras,

1996.
RODRIGUES, Nelson. A menina sem estrela - memórias. 2a. reimpressão. São Paulo: Companhia das

Letras, 1997a.
RODRIGUES, Nelson. A cabra vadia. 1a. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 1997b.
RODRIGUES, Nelson. O profeta tricolor – cem anos de Fluminense (organizado por Nelson Rodrigues,

Filho). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


RODRIGUES, Nelson. O Baú de Nelson Rodrigues – os Primeiros Anos de Crítica e Reportagem (1928-

35). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.



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