Os segredos de um homem poderoso secrets of a powerful man



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OS SEGREDOS DE UM HOMEM PODEROSO

SECRETS OF A POWERFUL MAN

Chantelle Shaw

Na cova do leão.

Salvatore Castellano é assombrado pelo acidente que apagou sua memória. Sua jovem filha é a única luz no breu de sua existência, e ele fará qualquer coisa para protegê-la... mesmo que isso signifique abrigar sob seu teto uma mulher tentadora. Darcey Rivers não consegue recusar a proposta de Salvatore. Desempregada e fugindo das lembranças de seu recente divórcio, passar um tempo no imponente castelo Torre d'Aquila talvez seja exatamente o que ela precisa. Entretanto, quanto mais Darcey se aproxima de Salvatore, tornam-se maiores as chances de seus segredos serem revelados!


Digitalização: Simone R.

Revisão: Alê Ramos


Querida leitora,

Salvatore Castellano é um homem atormentado e arrogante. A única alegria de sua vida é sua filha. Ele pode não demonstrar seu amor da maneira mais convencional, com beijos e abraços, por exemplo, mas faz o que for preciso para ajudar a pequena Rosa a vencer sua deficiência de comunicação. Inclusive convencer Darcey Rivers a mudar-se para sua casa e assumir o tratamento. No entanto, parece que ela também tentará curar o coração de Salvatore...


Boa leitura!

Equipe Editorial Harlequin Books

Tradução Leila Kommers


HARLEQUIN

2014
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Título original: SECRETS OF A POWERFUL MAN

Copyright © 2013 by Chantelle Shaw

Originalmente publicado em 2013 por Mills & Boon Modern Romance
Projeto gráfico de capa:

Nucleo i designers associados

Arte-final de capa:

Isabelle Paiva

Editoração eletrônica:

EDITORIARTE

Impressão:

RR DONNELLEY



www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:

FC Comercial Distribuidora S.A.

Editora HR Ltda.

Rua Argentina, 171,4° andar

São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380

Contato:


virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

CAPÍTULO 1

— Tem um homem aqui para vê-la.

Darcey ergueu o olhar, surpresa por sua secretária, normalmente imperturbável, parecer agitada.

— Diz que se chama Salvatore Castellano — continuou Sue. — Recebeu a indicação de James Forbes e quer agendar terapia para a filha.

— Mas James sabe que a unidade está fechando.

Darcey estava confusa. James Forbes era o chefe do programa de implante coclear pediátrico do hospital, e ficara revoltado com os cortes financeiros que afetaram a unidade de fonoaudiologia.

Sue deu de ombros.

— Expliquei isso, mas o Sr. Castellano insiste em falar com você. Acho que está acostumado a conseguir o que quer — acrescentou em tom de conspiração. — Ele é bem mediterrâneo. Moreno e intenso. Sei que não deveria dizer, estou casada com Brian há 24 anos, mas ele é bem gostoso.

Exigia vê-la. As sobrancelhas de Darcey se arquearam, mas tinha que admitir que ficara curiosa para ver o homem que havia mexido com os hormônios de Sue.

Felizmente, ela não teria problemas com isso. Não queria saber de homens gostosos. Estava perfeitamente feliz com os comuns e seguros, talvez até desinteressantes, mas, definitivamente, nem um pouco exibicionistas. Não como seu ex-marido.

Olhou pela janela e notou um sedã preto estacionado ao lado de seu carro. O contrato dela com o departamento de saúde terminara, e Darcey não precisava receber Salvatore Castellano. Só havia uma casa vazia esperando por ela e um jantar solitário, isso se resolvesse cozinhar.

— Melhor pedir que entre.

Sue voltou para o corredor, e Darcey, para a tarefa de esvaziar as gavetas. Os armários dos arquivos já estavam vazios, só faltava retirar das paredes os diplomas com suas qualificações: bacharel em ciências (com louvor), mestrado em fonoaudiologia e diploma de habilidades clínicas para fonoaudiólogos para trabalhar com surdos.

Era uma pena que ser uma especialista em seu campo não fora o bastante para salvar seu emprego, pensou com pesar. O orçamento do departamento de saúde de Londres fora cortado, e ela, demitida. Perder o emprego a forçou a pensar no futuro e reconhecer a necessidades de resolver o passado. A decisão de dar um tempo durante o verão era essencial para planejar sua carreira. Mas, principalmente, esperava esquecer o divórcio e superar as traições do ex-marido de uma vez por todas.

O olhar caiu sobre a placa na mesa. Tornara-se Darcey Rivers quando se casou com Marcus, e manteve o nome depois do divórcio, porque estava relutante em voltar ao nome de solteira e à fama que vinha com ele. Foi humilhante demais descobrir que Marcus casara-se com ela porque esperava fazer parte da família Hart, famosa no mundo teatral e capaz de impulsionar sua carreira. Infelizmente, estava tão apaixonada, tão impressionada com seu charme, que aceitou o pedido quatro meses depois de se conhecerem

Darcey foi até a janela e pegou uma planta no peitoril. Herdara a samambaia dois anos antes, ao assumir o posto de fonoaudióloga sênior. Estava quase morta, e Sue se oferecera para jogá-la fora. Mas Darcey gostava de um desafio e cuidou da planta, que vicejou e tinha agora suas folhas verdes e brilhantes.

— Não se preocupe, vou levar você comigo.

Ela havia lido que as plantas respondiam se alguém conversasse com elas, e suas palavras de incentivo pareciam ter funcionado.

A porta do escritório abriu-se de novo, ela se virou e viu Sue conduzindo um homem para a sala. A luz do sol penetrava pela janela e dançava sobre suas feições vigorosas. O primeiro pensamento de Darcey foi que ele não era nada parecido com Marcus. Tampouco era comum, e, definitivamente, não era inofensivo. Agora entendia por que Sue dissera que era gostoso.

Ele parecia pertencer a outro século, quando os cavaleiros lutavam em batalhas sangrentas e resgatavam donzelas em perigo. Chocada pelos excessos de sua imaginação, Darcey forçou-se a estudá-lo com objetividade, mas a imagem de um rei antigo ainda permanecia em sua mente. Talvez, fosse a combinação perigosamente sexy de camiseta e jeans pretos e jaqueta de couro que enfatizava a largura dos ombros. Sua altura era igualmente impressionante; o topo de sua cabeça roçava na estrutura da porta, e ela estimava que tivesse mais de 1,80m O coração de Darcey deu um pulo quando o olhou no rosto. Não tinha uma beleza convencional como Marcus. Não era um garoto bonito. Era um homem bem masculino: feições duras, maxilar quadrado, nariz forte e olhos escuros e penetrantes sob sobrancelhas grossas. Os olhos não revelavam seus pensamentos e sua boca era uma linha que parecia raramente sorrir. O cabelo era grosso e quase preto, caindo nos ombros. Darcey achava que pouco cuidava da aparência e não freqüentava o barbeiro.

Ela o olhava consciente da sensação na boca do estômago. O sentimento era completamente sexual e inesperado.

Sentia-se morta por dentro desde que descobrira que Marcus estava dormindo com uma modelo glamorosa com seios pneumáticos. O desejo que a percorria, agora, era tão intenso que a fez prender a respiração. Sentia o poder da psique formidável do estranho e, pela primeira vez, reconhecia a diferença básica entre um homem e uma mulher, a força masculina e a fraqueza feminina.

Percebeu, de repente, que estava prendendo a respiração e relaxou. Ela se recompôs e sorriu educadamente.

— Sr. Castellano? Como posso ajudá-lo?

Ele olhou para a placa na mesa dela e franziu a testa.

— Você é Darcey Rivers?

Falou com forte sotaque. Italiano, deduziu Darcey. Havia uma arrogância nele que a deixou na defensiva.

— Eu mesma — disse com frieza.

Ele parecia impressionado.

— Esperava alguém mais velho.

James Forbes disse que Darcey Rivers era uma fonoaudióloga experiente e dedicada. A descrição fez Salvatore imaginar uma mulher de cabelo grisalho e séria, provavelmente usando um terno de tweed e óculos. No entanto, estava diante de uma garota com rosto em formato coração e cabelo castanho liso, com corte chanel, que brilhava como seda com a luz do sol que entrava pela janela.

Ele passou os olhos por aquela figura mignon, observando como seu terno, estilo anos 1940, salientava sua cintura fina e a suave curva de seus quadris. As pernas eram esguias e achava que ela usava salto agulha para parecer mais alta. O rosto era belo, a boca muito grande, assim como os olhos, para suas feições pequenas, dando a ela uma aparência de fada. Debaixo do casaco, a blusa estava abotoada até o pescoço, e ele ficou imaginando se ela era tão careta quanto sugeria sua aparência.

Darcey corou sob a avaliação do estranho.

— Desculpe se desapontei você - disse irônica.

— Não estou desapontado, Srta. Rivers.

A voz profunda, sensualmente rouca, fazia arrepiar os pelos do pescoço de Darcey.

— Estou levemente surpreso. Você parece jovem para ser tão qualificada.

Darcey sabia que parecia ter cinco anos a menos. Talvez, quando chegasse aos 50 ficasse feliz por parecer mais nova, mas na faculdade e nas entrevistas de emprego, tinha que batalhar para ser levada a sério. É claro que seu nome não ajudava. Quando percebiam que era da família Hart, ficavam surpresos por não ter seguido a carreira dos pais nos palcos. Ao menos, Salvatore Castellano não sabia de sua família. Mas ela se sentia irritada com a menção da aparência jovem dela.

— Tenho 28 anos — disse com firmeza.

— E Rivers é meu nome de casada.

A expressão dele era impenetrável.

— Peço desculpas, Sra. Rivers.

Por que ela disse aquilo? perguntou-se Darcey. Anunciar que era casada fora uma reposta subconsciente ao comentário da aparência dela.

— Prefiro Srta. Rivers.

A expressão dele não se alterou, mas ela sentia como se aqueles olhos negros olhassem dentro dela. Sue saiu, e ele fechou a porta.

— Estou feliz por termos acertado isso — murmurou secamente. — Talvez agora possamos sentar para eu explicar o motivo da minha visita?

A arrogância dele era irritante. O rosto de Darcey ficou vermelho, e ela se controlou para não o mandar embora, mas hesitou quando percebeu que mancava.

— Um fêmur fraturado, resultado de um acidente de carro — disse, curto e grosso. — Minha perna está unida por vários pinos.

Ela ficou sem jeito por ter sido pega encarando-o. Ele a fez sentir-se como se tivesse 16 anos, imatura e insegura, sem a autoconfiança que os outros membros da família possuíam.

“Não haja como um ratinho tímido, querida.” Era como o pai falava. “Projete-se para o público e acredite em si. Se não o fizer, como espera que alguém o faça?”

Sempre estava tudo bem para seu pai. Joshua Hart ganhara reputação como um dos melhores atores shakespearianos em uma carreira de três décadas.

Carismático, excitante e imprevisível, também ficava distante dos filhos quando se concentrava em um papel. Além disso, era um brilhante dramaturgo e três de suas peças foram encenadas no West End. Uma coisa que não faltava em Joshua Hart, com certeza, era autoconfiança.

— Atuar está em seu sangue — dizia para Darcey. — Como não estar, com a combinação de genes que você herdou de sua mãe e de mim?

A mãe, Claudia, era uma atriz talentosa, e o irmão e as duas irmãs seguiram a carreira dos pais no teatro. Darcey era bem próxima à irmã mais nova, Mina, e orgulhava-se de como ela tinha superado sua deficiência para se tornar uma atriz respeitada.

Apenas Darcey tinha escolhido uma carreira diferente, e Joshua não escondia a frustração. Às vezes, sentia que o pai tomara como uma afronta pessoal a decisão dela de não seguir a tradição dos Hart e estudar na RADA. Nunca fora um homem fácil de lidar e, recentemente, Darcey sentiu um afastamento entre eles que ela ansiava reverter.

— Srta. Rivers?

A voz áspera de Salvatore Castellano a trouxe de volta. Ele puxou a cadeira e sentou-se, alongando a perna machucada à sua frente. Darcey decidiu que precisava assumir o controle da situação.

Tenho apenas alguns minutos, Sr. Castellano — disse rapidamente. — Estou com a tarde cheia.

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Quer dizer que está atendendo hoje? James Forbes me disse que a unidade de fonoaudiologia havia fechado.

Corando, pois não tinha nada planejado, Darcey foi para trás da mesa e sentou-se, colocando a samambaia na frente dela como uma barreira.

— Fechou. Estou limpando o escritório. Quando terminar, tenho coisas pessoais para fazer.

Que tipo de coisas? Salvatore se perguntou. Ir para junto do marido? Passar a tarde fazendo amor, quem sabe? Olhando para a mão dela, ficou intrigado em ver que não usava aliança. Franziu a testa. A vida pessoal de Srta. Darcey Rivers não lhe interessava, somente sua especialidade profissional.

— Vim aqui, Srta. Rivers, porque quero contratar uma fonoaudióloga especializada em surdez infantil, especificamente em crianças com implante coclear — disse abruptamente. Minha filha de 5 anos fez implantes bilaterais dois meses atrás.

Rosa tem surdez profunda. Ela se comunica através da linguagem de sinais, mas não tem habilidades auditivas.

Darcey inalou o cheiro penetrante de sua colônia amadeirada e um arrepio de consciência tomou conta dela. Desejava não ter se sentado, porque, em vez de passar um senso de autoridade, tudo o que conseguia pensar era que Salvatore Castellano era sexy demais.

Pelo amor de Deus, ela precisava se concentrar.

— Os implantes foram realizados na Inglaterra?

— Sim! James Forbes foi seu audiólogo.

— James deve, então, ter explicado que, embora essa unidade esteja fechando, o programa de fonoaudiologia continuará no hospital, mas em menor escala e com menos terapeutas, o que, infelizmente, significará uma fila de espera maior antes que as crianças possam ser avaliadas.

— James tratou Rosa como paciente particular. Ela não se qualifica para o programa de fonoaudiologia pós-implante oferecido pela Previdência Social.

— Entendo — disse Darcey, lentamente.

— Nesse caso, James recomendou a mim? Mesmo que a unidade de fonoaudiologia não estivesse fechando, sua filha não estaria qualificada para uma avaliação por mim, porque sou, era, funcionária do departamento de saúde municipal — emendou ela.

— James disse que você pretende montar um consultório.

— Espero que sim, no futuro, mas meus planos agora são fazer uma pausa e passar o verão no sul da França. Sinto não poder ajudá-lo, Sr. Castellano, mas posso passar nomes de terapeutas que poderão atender sua filha.

Nada nas feições de Salvatore Castellano indicavam frustração, mas havia uma implacabilidade de aço em sua voz.

— James disse que você é a melhor. O olhar dele era penetrante. — Quero o melhor para minha filha e estou preparado para pagar o preço de seu conhecimento.

Ela franziu a testa.

— Não tem a ver com dinheiro.

— A experiência me ensinou que tudo tem a ver com dinheiro, Srta. Rivers.

Seu sarcasmo a irritou. Talvez achasse que a decisão de um consultório particular fosse para aumentar seus ganhos, como sugerira um de seus colegas. Mas não chegava nem perto da verdade. O que ela queria era mais liberdade para implantar suas próprias ideias e intensificar as experiências de fonoaudiologia das crianças com deficiência auditiva. Era algo com que Darcey se importava muito, mas ela tinha uma sensação de que, mesmo que tentasse explicar, Salvatore Castellano não entenderia.

Ela tentou outra abordagem.

— Imagino o quanto você e a mãe de Rosa devam estar ansiosos para começar a fonoaudiologia. As evidências mostram que as crianças com IC têm o potencial de atingir boas habilidades de comunicação se receberem a terapia logo após o implante.

Ela hesitou, imaginando onde estava a mãe da criança. Estranho que ela não estava ali. Um alarme soou em sua cabeça. Tinha experiência com pais que não concordavam com o tipo de ajuda que queriam para o filho.

— A mãe de sua filha concorda com sua decisão da terapia?

— Minha esposa morreu quando Rosa era bebê.

Darcey olhou para ele, chocada com a revelação, mas ainda mais com a falta de emoção em sua voz.

— Sinto muito — murmurou ela.

Pensou na garotinha, trancada em seu mundo silencioso e, embora ela pudesse ouvir, agora que tinha os implantes cocleares, devia parecer estranho e assustador para ela. Rosa já tinha muito com o que lidar, e o fato de crescer sem a mãe era trágico demais, principalmente por ter um pai aparentemente tão emotivo quanto um pedaço de granito.

Pensou na própria mãe. Seis meses atrás, Claudia foi diagnosticada com melanoma maligno. Felizmente, ela respondeu bem ao tratamento, mas Darcey lembrou-se do quanto se sentia devastada com a ideia de perder a mãe e seu coração penalizou-se pela filha sem mãe de Salvatore Castellano.

De longe, os olhos dele pareciam negros, mas ela via que eram castanhos escuros, emoldurados por grossos cílios negros. Ela ficou imaginando se seus olhos suavizavam quando sorria. Ele sorria? O olhar dela pairou na linha de sua boca. Os lábios seriam macios se a beijasse? Sem dúvida, a sombra escura da barba arranharia sua pele.

— Gostaria de ajudar sua filha, mas como expliquei, estarei fora do país nos próximos meses — disse prendendo a respiração.

— Vai para a Riviera Francesa, pelo que falou?

— Sim! Minha família tem uma villa em Le Lavandou, que pretendo usar como base. Mas pretendo viajar pela costa, talvez vá de carro até a Itália.

Olhou-a contemplativo.

— Você fala como se fosse sozinha. Por que seu marido não vai junto?

Quase disse que não era da conta dele, mas algo em sua expressão a fez desviar daquele olhar.

— Na verdade, sou divorciada — disse rigidamente.

— E não há ninguém mais em sua vida? Nenhum namorado que vá junto para França?

— Não sei o que...

— Porque, se for o caso — interrompeu-a —, não há motivos para não passar o verão na Sicília e dar à minha filha a ajuda que ela desesperadamente precisa. Você mencionou que gostaria de visitar a Itália — lembrou-a. — A Sicília é a parte mais bela da Itália, embora tenha que admitir que seja meio tendencioso.

Os cantos da boca dele ergueram-se. Não era bem um sorriso, mas a alusão de que não era feito de gelo e tinha até senso de humor distraiu o pensamento de Darcey.

— É siciliano?

— Do fundo de minha alma.

Seu sotaque ficou mais forte. Pela primeira vez desde que entrara em seu consultório, Darcey ouviu emoção na voz dele, cheia de orgulho de sua ascendência.

— Moro em um castelo que foi construído no século XIII por um de meus ancestrais. Torre d’Aquila foi reformada e tem todas as instalações de uma casa do século XXI — disse ele. Você ficará bem confortável. Tem piscina privativa e a praia é perto.

Ergueu a mão.

— Sr. Castellano, tenho certeza de que seu castelo é adorável, mas não concordei em ir para a Sicília. Primeiro que não falo italiano, então não poderia ajudar Rosa a aprender sua língua materna.

— Decidi, por diversas razões, que será melhor ela aprender inglês. Minha esposa era metade inglesa. Adriana morreu antes de Rosa ser diagnosticada com surdez profunda. Gostaria que ela aprendesse a língua da mãe, e James Forbes acha que agora que Rosa pode ouvir, aprenderá a falar italiano.

Darcey concordou com a cabeça.

— Conheço crianças com IC que são bilíngues, mas, obviamente, é importante concentrar-se em ensinar Rosa uma língua para começar. Tenho certeza de que James explicou isso, embora sua filha ouça sons agora, desenvolver uma língua pode ser um processo lento. Ela ainda vai precisar de apoio e paciência de sua família e de muita fonoaudiologia.

— Ela consegue se comunicar usando a linguagem dos sinais inglesa, que James me disse que você conhece muito bem — Salvatore inclinou-se sobre a mesa e prendeu o olhar dela. — James falou muito de seu profissionalismo e habilidade, mas, principalmente, falou de sua empatia com crianças surdas.

— Minha irmã perdeu 80 por cento da audição devido à meningite quando criança — explicou. — Ver Mina lutando para lidar com surdez, no início, que me fez decidir trabalhar com crianças com deficiência auditiva.

Salvatore ouviu a emoção na voz de Darcey e percebeu que ela estava amolecendo. Determinado a tirar vantagem, pegou a foto da filha na carteira.

— Rosa é uma criança tímida que, devido à sua deficiência, não consegue se conectar com as pessoas. Espero que o dom da língua ajude sua autoestima. Acredito que você possa dar a ela esse dom, Darcey. James Forbes está confiante de que você é a melhor pessoa para ensinar minha filha a falar.

Oh, céus! O jeito como disse seu nome, com aquele sotaque sexy e forte, a fez estremecer. Os olhos escuros a hipnotizavam e suas palavras influenciavam em suas emoções. Ele estava certo, pensou. A língua era um dom, mas a maioria das pessoas subestimava a habilidade de ouvir e falar. Darcey lembrava-se de como Mina confidenciara, certa vez, de que quando perdeu a audição, sentiu-se sozinha e isolada.

Estudou a foto de uma garotinha com cabelo cacheado escuro moldurando o rosto delicado. É claro que nada na foto revelada a surdez de Rosa. Somente quando olhou mais de perto é que Darcey notou que não havia brilho nos olhos da criança, mas, sim, uma solidão avassaladora.

Não custava examinar a criança e fazer uma avaliação de suas necessidades, refletiu Darcey. Poderia passar o caso para um de seus colegas que também foram demitidos.

Sem perceber, sua indecisão estava refletida em seus olhos. Tinha belos olhos, observou Salvatore. Eram de um verde claro raro, do mesmo tom do pingente de peridoto que estava usando em uma corrente no pescoço. Ficou surpreso pelo interesse que sentia. Fazia muito tempo que não se sentia intrigado por uma mulher. A fragrância delicada do perfume, almiscarado sensual de jasmim e rosas antigas, provocava seus sentidos e seus olhos percorriam as sardas douradas em seu nariz e face.

A boca enrijeceu quando se lembrou do motivo da visita. A filha precisava da ajuda de uma fonoaudióloga, e a Srta. Rivers vinha com as mais altas recomendações. O fato de ser atraente era secundário. Não tinha como a achar uma distração. Durante sua infância solitária, aprendeu a controlar rigidamente seus sentimentos e a perda de partes de sua memória, quatro anos atrás, só aumentaram seu desapego emocional.

— O que estou pedindo, nesse momento, é que vá até minha casa em Londres e conheça Rosa — disse ele. — Podemos agir de lá.

Darcey morde o lábio superior.

— Não é que não queira ajudar sua filha, Sr. Castellano...

— Ótimo. — Cortou-a no meio da frase.

— Acho que a melhor coisa seria conhecê-la agora.

Ele ficou em pé e Darcey teve de inclinar a cabeça para olhar para ele.

— Pode adiar os planos desta tarde?

Ficou imaginando se ele conhecia a palavra “não”. Parecia um rolo compressor, esmagando tudo o que se opunha ao que queria, pensou ela. Mas Darcey não podia deixar de se impressionar por essa determinação sincera de ajudar a filha.

— Eu... Acho que sim — Corou ao lembrar da mentirinha que inventou antes. — Mas estou de malas prontas para embarcar para a França na sexta e não vejo razão.

Os olhos escuros prenderam os dela.

— Você não diria isso se fosse minha filha. Infelizmente, Rosa não pode dizer nada. Não consegue verbalizar seus pensamentos, esperanças, medos.

Ele estava brincando com as emoções dela. E funcionou.

Rendeu-se.

— Certo, vou visitar sua filha e avaliar o nível de tratamento que ela precisa e, então, se você quiser, passarei o caso para um de meus colegas. Mas já vou avisando, Sr. Castellano, não tem a menor chance de eu ir para a Sicília com você.




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