Os segredos de um homem poderoso secrets of a powerful man



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CAPÍTULO 2

— Vou com meu carro — disse Darcey a Salvatore enquanto atravessavam o estacionamento. Apesar da perna machucada, ele caminhava rápido, e os saltos dela batiam no asfalto, tentando acompanhá-lo.

— Não precisa dirigir até o centro de Londres. Trago você aqui mais tarde para pegar o carro.

Ela balançou a cabeça.

— Não conheço você e não vou entrar no carro de um estranho.

Levava a sério a própria segurança. Os pais também possuíam uma companhia e teatro itinerante e realizavam oficinas em escolas e clubes para promover a segurança dos jovens. Antes de se envolver com sua própria carreira, Darcey se apresentava com a companhia, Speak Out, que também promovia espetáculos para a comunidade surda.

— Prometo que não tenho planos para estuprar você no banco de trás — disse ele secamente.

Ele olhou para a mulher mignon ao seu lado e ficou imaginando se a centelha de fogo naqueles olhos verdes cumpriria sua promessa. Por fora, Darcey parecia fria, mas sob o terno inteligente, ele sentia que ela era um explosivo de energia sexual.

Ele franziu a testa, incomodado pelo pensamento.

— Você pode sentar na frente com meu chofer.

Através dos vidros fumês do Bentley, Darcey viu a figura de um motorista sentado atrás do volante e sentiu-se uma idiota.

— E, por não saber quem sou — continuou Salvatore —, você bebe vinho?

Olhou-o confusa.

— Às vezes. Meu pai gosta de vinhos finos e tem uma grande coleção.

— Então, ele certamente sabe que os vinhos do Castellano Estate são os melhores da Sicília. Salvatore tirou um cartão de visitas do bolso do casaco e entregou a ela.

Darcey olhou o logo e reconheceu.

— Castellano Wine! Já vi esse rótulo nos supermercados e nas lojas especializadas. Meu pai diz que os vinhedos do Castellano produzem o melhor vinho da Sicília. — Olhou incerta para ele. — Então... você trabalha para a empresa?

— Sou o dono — disse com frieza. — Ao menos dos vinhedos e da vinícola, e também uma distribuidora de vinhos sob o comando do Castellano Group, que é uma organização global multifacetada. Meu pai se aposentou ano passado, deixando a mim e ao meu irmão gêmeo de CEOs conjuntos. Sergio é responsável pela divisão de desenvolvimento da propriedade e também tem interessa pessoal no Hotel Royale em Bayswater, que a empresa comprou e reformou há alguns anos.

Salvatore abriu a porta de trás do Bentley.

— Agora que já sabe bastante de mim, aceita minha carona até minha casa em Mayfair?

Darcey ainda estava atordoada com a percepção de que devia ser multimilionário, no mínimo. Óbvio que moraria na área mais cara de Londres, pensou.

Ela balançou a cabeça.

— Ainda prefiro ir com meu carro.

Isso significava que ela estava no controle e poderia ir embora quando quisesse.

Salvatore franziu a testa. Estava acostumado a dar ordens sem questionamento e achou a obstinação de Darcey irritante, mas ela já estava indo para o carro.

— Sigo vocês — disse ela, mas é melhor me falar o endereço para colocar no GPS.

Ele passou.

— Fica na Park Lane, perto do Marble Arch.

Salvatore desviou os olhos das pernas expostas quando Darcey entrou no carro e descartou seu interesse sexual.

— Vai ser mais simples para Rosa se deixarmos a formalidade de lado e nos chamarmos pelo nome. Darcey é um nome charmoso.

Sentindo-se ardente e incomodada pelo brilho predatório no olhar dele, Darcey ficou satisfeita com a distração.

— É de origem irlandesa e francesa.

Meu pai é metade irlandês e metade francês e escolheu o nome.

— O significado de Salvatore é salvador.

Para a surpresa de Darcey, deu uma risada, e por um segundo, ela vislumbrou uma expressão torturada em seus olhos que a chocou.

Sua expressão endureceu e se tornou ininteligível mais uma vez.

— A ironia não se perdeu — murmurou ele.

Ele ficou imaginando o que queria dizer, mas antes que pudesse perguntar entrou no Bentley e desapareceu por trás do vidro escurecido. Era um homem misterioso e a última coisa que precisava estando a dois dias de suas férias. Deu a partida no carro e seguiu-o. Sonhava há semana com relaxar em uma praia dourada, comer brie derretido em um pão francês com crosta, e beber vinho da região.

Arrependia-se da decisão impulsiva de encontrar a filha de Salvatore, mas lembrou-se da foto de Rosa e não podia deixar de ser solidária com a garotinha.

O trânsito na capital estava muito congestionado e Darcey perdeu o Blentey de vista quando entrou no Park Lane. Do outro lado, ficava Marble Arch e o oásis verde do Hyde Park, mas estava ocupada demais procurando o endereço de Salvatore para pode admirar a paisagem. De repente, viu o veículo estacionado na frente de uma mansão estonteante estilo neoclássico. Parou seu carro em uma vaga pequena.

Salvatore estava parado nos degraus na frente da casa, conversando com uma loira de saia curta e blusa decotada que revelava a curva dos seios. Darcey percebeu que estavam discutindo. A mulher se afastou, mas ele a seguiu e a pegou pelo braço.

Sem querer interromper a briga de namorados, ficou no carro e viu a mulher se soltar de Salvatore e entrar em um táxi. Ficou tentada a ir embora também, mas caminhava em sua direção, sua masculinidade nem um pouco diminuída por seu andar mancando. Suspirando, saiu do carro e foi ao encontro dele.

— É melhor eu ir embora — disse ela, sentindo-se agitada quando parou na frente dela.

Sua reação a ele era perturbadora porque não conseguia controlar. Desde o divórcio, há 18 meses, ela não sentia o menor interesse por homens e ficou apavorada com a resposta de seu corpo à virilidade de Salvatore.

Ele franziu a testa e ela explicou.

— Vi você discutindo com sua namorada e achei que poderia querer ir atrás dela.

— Não era minha namorada — disse bruscamente, e Darcey percebeu que o humor dele estava prestes a estourar. — Sharon era a babá da minha filha. Eu a contratei através de uma agência quando trouxe Rosa para a Inglaterra para a cirurgia. O acordo era que Sharon iria comigo para Sicília e continuaria a cuidar de Rosa. Mas ela acabou de me informar que voltou com o namorado e vai morar com ele em Birmingham.

— Quem está cuidando de Rosa agora?

— Sharon disse que pediu a uma das empregadas para ficar de olho nela.

Darcey podia imaginar como Rosa devia estar confusa e aborrecida por se sentir abandonada pela babá que deveria estar cuidando dela.

— Pobrezinha — disse gentilmente.

Não havia emoção nos olhos de Salvatore.

— Infelizmente, Luisa, a babá que cuidou de Rosa desde que era bebê, casou-se antes de virmos para Inglaterra. Encontrar alguém que use a linguagem dos sinais em pouco tempo é difícil, e Sharon era única nos registros da agência. Admito que, quando a contratei, não sabia dos problemas com o namorado. — Olhou para ela. — Venha conhecer minha filha.

Ele começou a caminhar de volta para a casa e, depois de certa hesitação, Darcey apressou-se atrás dele.

— Rosa era próxima à babá anterior?

Ele deu de ombros.

— Suponho que sim. Minha filha não tem lembranças da mãe e só foi cuidada por Luisa. Imagino que sentia falta dela, mas é uma criança resistente.

Darcey se arrepiou com o tom frio e o ar desinteressado dele com relação à filha. Ficou imaginando se uma menina de 5 anos seria tão resistente quanto ele achava, mas ela não comentou e entrou na casa. Com paredes e piso de mármore cinza, e mobília antiga e elegante, o hall de entrada parecia mais o saguão de um hotel cinco estrelas, com a mesma impessoalidade. Era óbvio que o designer de interior teve um orçamento ilimitado, mas embora fosse uma bela casa, não era um lar, e parecia tão fria e nada convidativa quanto seu dono.

Darcey olhava para o perfil rígido de Salvatore enquanto subiam a escada.

— É um lugar belíssimo — comentou ela.

— Você acha? Tem mármore demais para o meu gosto — disse sarcástico. — Meu irmão comprou a casa para aumentar seu portfólio de propriedades. Quando se casou com sua esposa inglesa, considerou usar a casa como base em Londres, mas ele e Kristen têm um filho de 4 anos e outro a caminho. Eles raramente vêm à Inglaterra, então, comprei a casa de Sergio. Fica alugada para um xeique árabe a maior parte do tempo. Só fiquei aqui nos últimos meses, enquanto o implante coclear de Rosa era colocado e ajustado.

Chegaram ao quarto de Rosa e ele abriu a porta. Entraram e ela percebeu a tentativa de transformá-lo em um quarto de criança, com quadros de fadas nas paredes e uma casa de bonecas. Um movimento perto da janela chamou sua atenção e ela viu uma garotinha atravessar o quarto correndo.

Rosa era alta para a idade e ainda mais bonita que na foto. O cabelo crespo estava preso em um rabo de cavalo, e os olhos escuros, com longos cílios, eram muito bonitos. Um fone de ouvido preso a um fio que desaparecia sob a camiseta dela e estava ligado a uma bateria era o único sinal de sua deficiência auditiva. Darcey sabia que outro fio que saía do fone de ouvido até um pequeno círculo preso à cabeça de Rosa estava ligado magneticamente ao implante dentro do crânio, tornando possível a audição.

O rosto de Rosa se iluminou ao ver o pai, mas, ao se aproximar, os passos diminuíram, e ela deu um sorriso incerto que fez o coração de Darcey se partir. Esperava que Salvatore pegasse a filha no colo, mas embora desse um pequeno sorriso, parecia estranho, e passou a mão na cabeça de Rosa como se fosse um parente distante.



Por que não abraça sua filha? Darcey queria perguntar. Ele não parecia perceber a mágoa nos olhos de Rosa, mas Darcey viu e sentiu simpatia pela criança.

Lembrou-se da própria infância, quando se sentia rejeitada pelo pai.

Joshua nunca fora cruel, mas ficava absorto em si mesmo com bastante frequência, sem se importar com os sentimentos alheios. Quando adulta, Darcey compreendeu seu temperamento artístico, mas quando criança, ficava magoada e acreditava que tinha feito algo para aborrecer o pai.

Inclinou-se para que seu rosto ficasse no mesmo nível de Rosa.

— Oi, Rosa. Meu nome é Darcey — disse gentilmente, verbalizando e fazendo os sinais ao mesmo tempo.

Oi, gesticulou Rosa, mas sem nenhuma tentativa de falar. Ela olhou para o pai e perguntou na linguagem dos sinais, Onde está Sharon?

Salvatore hesitou antes de responder com sinais: Precisou visitar um amigo.



Quando volta?

Outra pausa, Não volta.

O lábio de Rosa tremeu. Darcey olhou para Salvatore, querendo que pegasse a menina no colo e reassegurasse que, embora a babá tivesse ido embora, nunca a deixaria.

Mas apenas sinalizou: Darcey veio brincar com você.

Está certo, passe o problema para outra pessoa, pensou ela. Não entendia o que tinha de errado com ele. A determinação de conseguir um tratamento fonoaudiólogo para Rosa sugeria que se importava, mas não conseguia expressar suas emoções.

Talvez fosse mais duro do que parecia e não sentisse emoções da mesma forma a maioria das pessoas. Darcey ficou pensando o efeito que isso teria na filha de 5 anos que precisava lidar com a surdez e crescer sem uma mãe. Se havia uma criança que precisava do amor do pai era Rosa, mas Salvatore parecia ter o coração de pedra.

— Preciso fazer uma avaliação para determinar o nível de tratamento que Rosa precisa — disse a ele. — Deve levar em torno de uma hora. — Ela franziu a testa quando foi para a porta. — Achei que fosse querer estar presente.

— Vou deixar você fazer seu trabalho enquanto vejo uma nova babá com a agência.

Salvatore não via motivo para explicar que estava com pressa porque recebera uma mensagem do irmão sobre um assunto urgente.

— Mas...


— Rosa vai responder melhor se eu não estiver aqui — cortou-a abruptamente.

Ele pode perceber que Darcey não o considerava um bom pai. A culpa tomou conta dele. Ela estava certa, pensou com raiva. Não era o tipo de pai que queria ser. A verdade é que não sabia ser um. Cresceu com o pai sendo uma figura distante. E, quanto à mãe, melhor nem comentar.

Tinha 5 anos quando Patti foi embora. Nunca entendeu por que proibia a ele e ao irmão de chamá-la de mãe. Ela desapareceu, certo dia, levando Sergio com ela. Salvatore achou que ela amava o irmão gêmeo e que por isso o levou para a América. Acontece que ela também não amava o irmão. O irmão confidenciou, recentemente, que Patti era uma alcoólatra que batia nele com freqüência quando bebia.

Salvatore não sabia se se sentia melhor ou pior, agora que as ilusões sobre a mãe se desfizeram. Por anos a colocara em um pedestal e acreditava não ser digno do amor dela. Essa crença estava enraizada em sua psique. Talvez fosse o motivo da dificuldade em demonstrar emoções.

Queria ser um pai amável com Rosa, como Sergio era com o filho, Nico. Mas sempre vinha a culpa de que Rosa estava crescendo sem a mãe por sua causa, de que ela descobrira a verdade e o odiaria.

Desviou o olhar da expressão acusatória de Darcey.

— Estarei no escritório. Digite nove se precisar de algo e alguém virá.

Mal olhou para Rosa quando saiu do quarto. Ela não entendia sua distância com a filha. Parecia que preferia deixar a filha com uma babá, que tinha ido embora.

Olhou para a criança e seu coração se partiu quando viu a expressão tristonha em seu rosto. Sorrindo, foi até ela e se agachou. Gosto de suas bonecas, gesticulou. Posso brincar também?

Os olhos escuros, herdados do pai, a estudaram por alguns momentos. Darcey tentou bloquear a imagem do belo rosto de Salvatore, incomodada com a atração inexplicável pelo homem frio e enigmático. Estava aqui como profissional e estava determinada a se concentrar unicamente na garotinha que sorria para ela.

Durante a hora seguinte, ficou claro que Rosa era muito inteligente, mas, apresar da proficiência na linguagem de sinais, era incapaz ou não queria falar. A garotinha precisava de incentivo para desenvolver autoconfiança e dominar suas habilidades linguísticas.

A porta do quarto se abriu e Darcey olhou sobre o ombro, esperando ver Salvatore. Mas um mordomo a informou que era hora do jantar de Rosa.

— O Sr. Castellano está impossibilitado e perguntou se a senhorita acompanha a filha dele à sala de jantar.

Darcey não pôde recusar quando Rosa deu a mão para ela, junto com um sorriso de confiança, e ficou feliz por ter ficado com a garotinha quando entraram na imensa sala de jantar. Um único lugar estava colocado no fim de uma comprida mesa.



Seu pai não janta com você?, gesticulou.

Ela balançou a cabeça. Papai come depois. Está sempre ocupado no escritório.

Darcey sentiu novamente simpatia pela filha de Salvatore, que crescia nesse esplendor solitário. Não lhe faltava coisas materiais, mas Rosa ansiava por companhia e amor.

Vai brincar comigo?, perguntou Rosa quando terminou a refeição.

Percebendo que não havia mais ninguém para cuidar dela, Darcey decidiu que ficaria e esperaria por Salvatore. De volta ao quarto, brincaram, e Darcey ajudou Rosa a se aprontar para dormir. Rosa retirou a bateria que gastou durante o dia e o dispositivo de trás da orelha, que era o processador do implante coclear.



Não gosto de escuro, gesticulou quando Darcey fechou as cortinas e ia desligar o abajur. Deixa ligado?

Lembrando que Mina odiava o escuro, porque se sentia isolada, por não pode ver nem ouvir, Darcey consentiu. Rosa lembrava muito a irmã. Talvez por isso sentisse uma ligação imediata com a garota. Mas Mina cresceu com pais e família amorosos, e Rosa só tinha um pai austero.

Darcey estava assustada com a atitude de Salvatore. Parecia ser o homem mais sexy que já vira, mas era tão egoísta quanto seu ex-marido. Estava na hora de alguém dizer a Salvatore Castellano algumas verdades.

Salvatore olhava pela janela e observava as árvores do Hyde Park. Depois de falar com o irmão e descobrir que houve um incêndio na vinícola na Sicília, ficou ocupado no telefone, lidando com a crise e não percebeu que era tarde. Sentiu-se culpado por ter deixado Rosa por tanto tempo, mas a empregada disse que Darcey Rivers ajudou a filha na hora de dormir.

Sem dúvida sua falta confirmou que era um pai ausente. A verdade era ainda mais complicada. Amava Rosa, mas amor não era algo de que tinha muita experiência e não sabia como se aproximar da filha.

Fechou os olhos, tentando controlar a dor de cabeça. As enxaquecas que o assolavam desde o acidente, há quatro anos, estavam mais frequentes. Não era coincidência a dor ter começado logo após falar com Sergio e ouvir que o velho amigo Pietro estava morto. O vinicultor ancião sofreu um infarto fatal tentando apagar o fogo.

Era comovente como Pietro tinha dado a vida pelo vinho de que se orgulhava tanto. A fabricação de vinho estava no sangue de Pietro Marelli. Terceira geração de viticultores, sem nenhum filho para passar o conhecimento, teve que compartilhar sua especialidade com Salvatore. Mas, mais do que isso, Pietro foi um pai substituto. Nas férias, Salvatore voltava para a propriedade Castellano e corria para ver Pietro, sabendo que o pai, conhecido como Tito, estaria trabalhando.

Era estranho como podia se lembrar da infância, mas não do acidente. Tinha uma visão bem clara de si, com 10 anos, caminhando pelos vinhedos com Pietro, mas não se recordava dos eventos depois que sentara atrás do volante do carro e tirara Adriana daquela festa. Só lhe vinha à mente a lembrança de acordar no hospital e receber a notícia de que a mulher morrera quando ele perdeu o controle do carro em uma estrada montanhosa e despencou pela encosta.

O médico falou que Salvatore teve sorte de sair vivo, apesar do ferimento na perna direita e na cabeça. Não teve danos cerebrais permanentes. A amnésia era psicogênica, ou seja, não se lembrar do acidente e de muito do casamento, era um mecanismo de defesa do cérebro.

Isso deixava Salvatore frustrado.

Parecia inconcebível ter casado com uma mulher que lhe dera uma filha e não se lembrar da relação deles. A sogra colocou fotos de Adriana por todo o castelo, mas não sentia nenhuma conexão.

O especialista disse que provavelmente a memória voltaria, mas até lá, Salvatore se sentia preso em um lugar escuro sem passado nem futuro.

Massageou as têmporas com os dedos e pensou no resto da conversa com o irmão. Sergio disse que os ferimentos dos trabalhadores queimados eram graves, mas sem perigo de morte.

Ouviu a porta do escritório e se virou para ver Darcey entrar. O cabelo castanho sedoso moldurava seu rosto e ela tirara o casaco. Podia ver o formato dos seios pequenos e firmes sob a blusa. Seu cérebro registrou que era atraente, mas ficou surpreso com o efeito sobre ele. No consultório dela, ignorou a química sexual entre eles, mas agora, seus olhos se dirigiram para o canto de sua boca e imaginou-se cobrindo aqueles lábios com os seus.

Mas nada transparecia em sua fisionomia.

— Rosa dormiu?

— E você se importa? — Os olhos verdes faiscavam. — Sua filha foi para cama 40 minutos atrás e fiquei esperando que você viesse dar boa-noite a ela.

— Peço desculpas. — Os olhos de Salvatore se estreitaram diante da raiva de Darcey. — Precisei cuidar de um assunto importante.

— Não é a mim que precisa pedir desculpas. Rosa ficou triste quando você não apareceu.

A boca de Darcey endureceu. Lembrou-se de quando ficava esperando o pai chegar do teatro. Quando Joshua se lembrava de subir e dar um beijo de boa noite, ela dormia feliz, mas às vezes esquecia e ela chorava até adormecer.

Salvatore parecia não perceber o quanto a filha precisava dele. Darcey olhou para ele, desejando ignorar seu poder masculino. Ele tirara o casaco e arregaçou as mangas da camisa, revelando os braços bronzeados. Sua sensualidade era atraente demais, mas ela não estava em busca de aventura, não estava em busca de homem algum. Muito menos de um que a fazia sentir-se tão consciente de sua feminilidade.

— O que poderia ser mais importante do que sua filha? — perguntou. — Como pode deixá-la horas com uma estranha?

— Você trabalha com crianças. Sabia que cuidaria dela. O mordomo me disse que Rosa estava feliz com você.

Sua atitude casual irritou-a.

— Então seu mordomo é um especialista em crianças? — disse com sarcasmo. — Você é inacreditável.

Virou-se para a porta. Não era da sua conta que Salvatore era tão distante da filha. Rosa era uma garota doce, mas Darcey não ia se permitir amolecer. Precisava sair daquela casa de mármore, para longe de Salvatore Castellano e de sua filha de olhar triste.

— Não acredito em sua atitude indiferente com Rosa — disse com desgosto. — A pobrezinha não tem mãe e, para ser franca, nem um pai.

As palavras dela atingiram Salvatore, como se tivesse recebido um tapa, mas não revelou nenhuma emoção. Não estava acostumado a ser criticado e ficou irritado por achar que devia explicações.

Geralmente, vou até lá desejar boa-noite, mas hoje, infelizmente, não pude.

— Estava tão ocupado trabalhando que não pode parar alguns minutos por uma garotinha solitária?

O maxilar de Salvatore endureceu.

— Essa tarde houve um incêndio em um dos depósitos da minha vinícola na Sicília. Centenas de barris de vinho premiado foram destruídos, mas, pior do que isso, três funcionários se feriram. Estive organizando para que os homens sejam levados a uma unidade de queimados na Itália e para que suas famílias os acompanhem. Não me esqueci de Rosa, mas admito ter ficado tão envolvido com a crise em casa que não percebi que era tarde.

Escondia as emoções muito bem, mas ela percebia que estava preocupado com os funcionários feridos.

— A agência que enviou Sharon não tem outra babá que conheça a linguagem dos sinais e não tive tempo para procurar outra agência. — Os olhos escuros procuraram os de Darcey. — Mas obrigado por cuidar de Rosa essa noite. O mínimo que posso fazer é convidá-la para jantar aqui comigo.

— Não, obrigada. Preciso ir.

A ideia de passar mais cinco minutos com ele a deixou em pânico. A explicação do motivo de não ir ver relacionamento era compreensível, mas ainda achava que havia problemas de relacionamento com a filha que ela não entendia. Não queria se envolver com esse homem enigmático, de voz sedutora.

Sem mais uma palavra, saiu do escritório. O casaco e o laptop estavam na cadeira no hall, onde os deixara, mas enquanto caminhava até lá, foi parada pela voz de Salvatore.

— Sua consciência lhe permite que abandone Rosa?

— Eu abandoná-la? — Virou-se para ele.

— Que belo, vindo do pai que não se incomoda de passar um tempo com a filha e espera que os empregados cuidem dela. Minha consciência está tranquila.

Enquanto pronunciava essas palavras, percebeu que sua consciência não estava nada feliz. A imagem da expressão confiante de Rosa quando a colocou na cama atingiu seu coração. Lembrou-se da garotinha sinalizando que tinha medo do escuro. Muitas crianças pequenas tinham esse medo, mas para uma criança surda, devia ser pior.

— Deixei as anotações sobre a avaliação de Rosa para passar para o fonoaudiólogo, quando você encontrar um que esteja preparado para ir para Sicília.

— Minha filha já se ligou a você.

Tentou ignorar o apelo.

— Seu mordomo disse isso? -perguntou com sarcasmo.

— Não, vi mesmo que ela gosta de você.

Salvatore hesitou e, para a surpresa de Darcey, um sinal de emoção cruzou seu rosto.

— Fui vê-la enquanto jantava. Vocês duas rindo.

Olhou-o confusa.

— Por que não se juntou a nós?

— Rosa parecia estar se divertindo e não quis interromper.

A verdade é que sentiu ciúmes por ver a filha interagindo com Darcey. Rosa não ria com frequência, ao menos não com ele. A única vez que parecia realmente feliz era quando brincava com o primo, Nico.

Ele queria encurtar essa distância que tendia a aumentar. Embora Rosa pudesse ouvir com os implantes cocleares, não sabia como se aproximar. Admitia, lá no fundo, que não conseguia aceitar a surdez. Ficava se perguntando se era culpado pela perda da audição.

Por que estava permitindo essa escuridão dentro de si? Tinha certeza de que a especialização de Darcey ajudaria Rosa a falar e sentia que ela se conectaria com sua filha de uma maneira que não conseguia. Viu Rosa ser atingida pela gentileza dela na sala de jantar. Precisava convencê-la a ir para Sicília.

— Rosa precisa de você.

Darcey hesitou, sua indecisão estava visível. Salvatore sentiu que ela estava cedendo. Olhou para o mordomo que entrou no hall.

— O chef preparou o jantar para o senhor e sua convidada.

O momento foi perfeito.

— Obrigado, Melton. A Srta. Rivers e eu vamos para a sala de jantar.



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